segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Luso-tropicalismo em faiança e azulejos


O hábito de começar a revestir as fachadas das casas de habitação com azulejos só começou em Portugal nas primeiras décadas do século XIX. Até então o uso do azulejo, com uma ou outra excepção (o caso das alminhas) estava reservado aos interiores das casas e das igrejas. Por vezes a azulejaria saia das casas, invadia os jardins e colocavam-se painéis nos bancos, nas fontes e por aí fora. Mas em todo o caso o uso de azulejos estava resevado a espaços privados.

Quem começou o hábito de revestir as fachadas dos prédios com azulejaria foram os nossos irmãos brasileiros, nas cidades do nordeste. Os ricos proprietários de casas em cidades como S. Luís do Maranhão encomendavam azulejos brancos ou escassamente decorados em Portugal, para as cozinhas, mas acabaram por decidir coloca-los nas fachadas, que lhes protegia as casas dos calores e humidades. A moda acabou por pegar e rapidamente os brasileiros ricos estavam a encomendar em Portugal azulejos de padrão, mas desta vez com decorações mais complicadas e com mais cor para decorar o exterior das casas.

Depois aconteceu um fenómeno que é habitual na longa relação que há entre Portugal e o Brasil. Os Portugueses que tinham feito fortuna nas terras de Vera Cruz regressaram à pátria e mandaram construir casas à brasileira, isto é, com azulejos nas fachadas e lançaram a moda em Portugal. Rapidamente, ao longo do século XIX, as fachadas dos prédios portugueses encheram-se de azulejos e grandes empresas de cerâmica prosperaram para satisfazer as encomendas, que esta moda gerou. Sacavém, Viúva Lamego, Lusitânia, Fábrica da Roseira, Massarelos, Devesas, Miragaia, Carvalhinho e Caldas foram algumas das fábricas que prosperam na época com a produção de azulejos de revestimento de fachadas. A moda só acabou nos anos 20 do Século XX, quando uma postura municipal em Lisboa, publicada por pressão dos bombeiros, proibiu o uso de azulejos nas fachadas, por questões segurança.

Todo este relambório acerca da história da azulejaria de fachada foi desencadeada por este prédio em ruínas, que vi em Alcácer do Sal. O Ananás de faiança que cresce no alto da urna e os azulejos com um padrão de ananases conferem a este prédio um delicioso sabor tropical, que me levam a imaginar que tenha sido encomendado por algum emigrante que regressou rico das terras do Brasil. A urna com um ananás só me recorda um daqueles turbantes delirantes, que a Maria do Carmo Miranda ou melhor a Carmen Miranda usava nos tempos em que fazia furor nos States, a cantar o South American Way.



Creio que as fotografias que vos apresento são um exemplo paradigmático da história do azulejo de fachadas em Portugal no século XIX

Para quem quiser saber mais, recomendo a obra de Maria Isabel Alves Planas Almasqué e A.J. Barros Veloso, Azulejos de fachada em Lisboa - Edição da Câmara Municipal de Lisboa, com o patrocínio do Banco Totta. Lisboa, 1988

17 comentários:

  1. Olá Luis
    Moro no Brasil e estou fazendo uma pesquisa sobre um antigo casarão que foi construido em 1846 pelo português Manoel Baltasar da Cunha Fortes.
    No alto do casarão existem alguns vasos de cerâmica com o nome "Miragaia Porto"
    Caso tenha interesse em fazer contato, meu e-mail é luispavao@sapereeditora.com.br
    Poderei lhe enviar algumas fotos.

    Abraços

    Luis Pavão

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  2. É interessante o facto destas urnas por vezes serem fabricadas em metal, imitando as cerâmicas, como aliás, já as vimos à venda na Feira da Ladra e em locais de venda de materiais de demolição.
    Creio mesmo que a folhagem destes ananases devem também ter sido fabricados em chapa metálica, não te parece?
    Servem de pontuação e ordenam a balaustrada do topo da fachada, como se parte do jardim tivesse invadido o próprio corpo do edifício, deixando adivinhar quiçá vegetações luxuriantes e exóticas por detrás da construção.
    Manel

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  3. É já a minha imaginação a trabalhar! Com certeza são elementos de decoração puros e simples!
    Manel

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  4. Manel, talvez as folhas dos ananases sejam metálicas. Mas, agora só lá voltando e mesmo assim...

    Esta foto ficou boa por causa do zoom. Quando a tirei nem me apercebi dos pormenores.

    Os vasos despertam-nos a imaginação. Paisagens exóticas, Carmens Mirandas e baianas são ideias que esta imagem nos desperta

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  5. Curioso. Neste Verão comprei umas telas com azulejos pintados. Pareciam azulejos de Lisboa, mas os quadros são de um pintor brasileiro que nunca veio a Portugal.

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  6. Cara Vanessa

    A influência da azulejaria portuguesa é enorme. As antigas cidades do Nordeste brasileiro tem muitas casas com azulejos portugueses e e toda a internet está cheia de imagens dos nossos azulejos, que são uma referência em termos de história da arte mundial, tal como a Porcelana do Saxe, de Sévres ou os tapetes persas.

    Abraços

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  7. Ando em pesquisas sobre azulejos. Muito obrigada pela existência deste blog.
    Este padrão a que chama de ananases- ou um padrão muito idêntico - existe na Rua das Escolas Gerais em Lisboa. Quer comentar?

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    1. O Pior é que eu também tinha esta informação sobre este adrão existir na rua das Escolas Gerais, e ontem fui lá, sob o sol de 40 graus, andei a rua inteira, e NADA! Só se estavam num casarão que está em obras, com a fachada completamente nua, dando para ver até os tijolos.
      Queria tanto ver estes azulejos!
      abraços

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  8. Caro Anónimo ou Anónima

    Na altura em que fiz o post, não consegui apurar o fabricante deste azulejos com um padrão representando ananases ou abacaxis. Não há muita coisa publicada sobre azulejaria do século XIX. Por enquanto, em Portugal só damos importância aos azulejos antigos, dos séculos XVI, XVII e XVIII. É natural que este padrão com um sabor tropical se repita por vários pontos do País, inclusive na Rua das Escolas Gerais, mas infelizmente não lhe consigo adiantar muito mais informações.

    Recomendo-lhe que visite o blog http://azulejosantigosrj.blogspot.pt do Fábio Carvalho. É certo que a maioria dos azulejos cariocas são franceses ou holandeses, mas também há muito coisa portuguesa do século XIX, que lhe poderá interessar.

    Um abraço

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  9. Caro LuisY,
    Obrigada pela sua resposta. Deixe-me dizer-lhe que felizmente já começamos a dar importância ao azulejo do séc. XIX. Existe na CML o PISAL Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa, que tomaram parte na organização do II Encontro do Património Azulejar, em Dez, onde tive oportunidade de assistir à palestra interessantissima de Fábio Carvalho. Foi através do seu blog que cheguei a este blog. O Pisal organiza inclusivamente visitas guiada e foi numa dessas visitas que vi os azulejos "ananases". Acrescento que nesta mesma rua temos ainda o "bicha na praça". Tem que lá ir averiguar! E para o Pisal: no facebook - azulejoslisboa.pisal .
    Sandra (Foi a 1ª vez que comentei num blog, e escolhi anónima por ser mais fácil!)

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    1. Que engraçado que é a internet. Eu pesquisando os benditos azulehos de abacaxis, que já procurei antes, e não os achei na rua das Escolas Gerais, até achei que tinha anotado errado a rua onde estariam, e venho parar justamente numa postagem do Luis, onde comentam meu blog e minha palestra! Estamos em loop. Acho que é consequencia do número (infelizmente) tão pequeno de interessados no assunto, viramos um círculo vicioso.
      abraços

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    2. Fábio

      Apesar de as cidades portuguesas estarem cheias de azulejos, não há na internet muita informação pertinente sobre o tema e vamos sempre parar aos mesmos sites quando fazemos as nossas pesquisas.

      Voltei a Alcácer do Sal entretanto e o prédio em causa estava em obras e já tinham retirado quase todos os azulejos. Será que os irão recolocar? Tenho as minhas dúvidas.

      Um abraço

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  10. Caro Luis,
    Ainda não teve oportunidade de ir à Rua das Escolas Gerais? As minhas pesquisas sobre o azulejo de fachada continuam e estão a tornar-se uma paixão! Já foi à nova Loja Portuguesa na antiga Fábrica Viúva Lamego - Lg Intendente? Lá estão os azulejos como um catálogo nas paredes da loja! Já agredeci á loja, via facebook! Cumps Sandra

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  11. Cara Sandra.

    Morei durante 3 anos na esquina da Calçada de S. Vicente com as Escolas Gerais, mas hei de lá voltar para ver estes ananases. Conheço tb a loja do Intendente. Irei espreitar a página do facebook que me indicou

    Um abraço

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    1. na esquina da rua E.G. com a escadinha E.G. há um prédio BELÍSSIMO revestindo com bicha da praça, pintada com as estrelas grandes e as bichas bem largas, que para mim é como o padrão realmente fica bonito.
      abs

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    2. Fábio

      Atenção que há a Rua das Escolas Gerais, há as Escolas Gerais e julgo que que uma travessa ou umas escadinhas das Escolas Gerais. Ao todo são 3 artérias diferentes.

      Um abraço

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    3. Certamente na RUA das Escolas Gerais não é. V0u tentar achar esta outra "Escolas Gerais". Isso é mais confuso do que a Copa do Mundo no BR!! ;-)
      abs

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