terça-feira, 28 de junho de 2011

Vinhais por Alfredo de Andrade


 Não tenho bem uma terra. Nasci em Timor e fui criado em Lisboa num bairro incaracterístico. A sensação de ter uma terra, de pertença a qualquer lugar recebi-a dos meus pais. Chaves e Outeiro Seco são dois sítios cheios de carga histórica para minha família, mas afectivamente estou mais ligado às paisagens de Vinhais, a terra das férias maravilhosas na infância, aquelas montanhas desertas, onde já se anuncia o Norte da Europa.

Foi em virtude dessa afeição aquela vila transmontana, que, noutro dia, ao desfolhar o belíssimo álbum de desenhos de um arquitecto, que eu desconhecia inteiramente, Alfredo de Andrade, descobri encantado dois desenhos sobre Vinhais, executados em 1880.



As duas imagens são um testemunho histórico comovente, pois todo o casco histórico da vila, a partir das últimas décadas do século XX foi alterado, estragado e demolido e em seu lugar ergueram casas novas, que poderiam estar perfeitamente na Brandoa, um bairro construído clandestinamente às portas de Lisboa nos 60 e 70.

Nestes desenhos encontramos o velho burgo medieval, construído em xisto, as casas com grandes varandas em madeira de castanho e a Igreja e a Torre do Castelo a dominarem o conjunto, que apresenta um ar aconchegado, para proteger a população dos frios e do inimigo espanhol, que está a uns poucos quilómetros dali. Vinhais defendia a estrada entre Chaves e Bragança e durante a Guerra da Restauração (1640-1668) a vila foi cercada pelos espanhóis, comandados por um tal general Pantoja, um homem ferocíssimo, a julgar pelos documentos da época, que pilhou e queimou tudo o que estava fora das muralhas.

O autor dos desenhos, Alfredo de Andrade (1839-1915), fez quase toda a sua vida em Itália. Estudou arquitectura e artes e fez carreira naquele país, chegando a Superintendente dos Monumentos do Piemonte, Liguria e Pavia. Nesta função projectou e organizou o restauro de vilas, palácios e castelos e entre 1882-1884 foi responsável pela concepção e execução do borgo medioevale del Valentino, uma espécie de pastiche de uma aldeia histórica do Piemonte, destinada a uma daquelas grandes exposições internacionais que o século XIX tanto apreciou.

Alfredo de Andrade era pois um homem que gostava de história, edifícios antigos e andava por todo o lado acompanhado de um estojo de desenho, para captar qualquer pormenor arquitectónico ou paisagem que o encantasse. Foi por isso sensível à beleza que o burgo medieval de Vinhais apresentava em 1880, numa viajem que fez ao norte de Portugal. Ele que estava habituado às obras primas da arquitectura italiana, encantou-se com a pequena e esquecida vila de Vinhais.




Estes desenhos servem-me como imagens afectivas, que me transportam para um passado que já não existe. Mas, também publico-as aqui, porque tenho talvez a ingénua esperança, de que um dia reapareçam arquitectos no espírito de Raul Lino e num futuro próximo voltem a construir casas tradicionais em Vinhais e na Terra Fria do Nordeste.

Os desenhos deste artista radicado em Itália, foram reunidos e publicados pelo filho, Rui Andrade, num álbum, intitulado Arquitectura de Alfredo de Andrade, em 1961 e do qual só infelizmente só tive acesso ao primeiro volume.

domingo, 26 de junho de 2011

Meia cómoda na tradição dos móveis de estrado


Há uns 4 ou 5 anos, comprei esta meia cómoda de castanho, em estilo D. João V. Chamar-lhe meia cómoda é um exagero, pois apesar das duas gavetas e de reproduzir esse tipo de móvel é uma peça de pequenas dimensões, que nem chega aos 50 cm de altura. Na realidade é uma mesa de costura, em que só a gaveta inferior é verdadeira. A de cima é falsa e o tampo é que se abre.




Não é uma peça antiga. Terá 30 ou 40 anos, mas reproduz com mestria as linhas dos móveis joaninos, com as superfícies curvas, os concheados no saial e os pés com garras segurando esferas.

Os concheados típicos
Os pés em forma de garra segurando uma esfera
Gosto dela não só porque evoca com fidelidade o estilo D. João V, um dos períodos de ouro do mobiliário português, mas também porque é uma peça que vem na antiquíssima tradição portuguesa do estrado.


Uma reconstituição da sala do estrado do Museu dos Biscainhos
Com efeito, na Península Ibérica, durante muitas centenas de anos, as mulheres sentaram-se no chão. Em palácio ou casa nobre existia uma sala apenas destinada às mulheres, que era composta por um estrado, revestido por um bom tapete oriental. No centro sentava-se a senhora da casa e ao seu lado as mulheres mais nobres e nas pontas as criadas ou senhoras de menor importância. Usavam muitas almofadas de ricos tecidos para se sentarem sobre um rico tapete persa ou indiano e costuravam, jogavam, escreviam e comiam em móveis de pequenas dimensões e de baixa altura, tal e qual como este. Este costume que era obviamente de tradição islâmica perdurou até muito tarde nas casas nobres portuguesas.

Móvel de costura para uso no estrado do Museu de Lamego, que mostra como este hábito do estrado sobreviveu até muito tarde. Data dos finais do Século XVIII ou príncipios do Século XIX

Nos anos 70 do século XIX, Raul Brandão nas suas Memórias recorda a avó e as tias sentadas no estrado da sala da frente onde se dedicavam à leitura.

Casamento Místico de Santa Catarina no Museu Nacional de Arte Antiga. Reparem nas mulheres sentadas no chão

Conhecemos este hábito das mulheres portuguesas e espanholas de se sentarem no chão no chão através da pintura, que representa cenas religiosas com personagens femininas, que na realidade são réplicas da vida doméstica da época, como este Casamento Místico de santa Catarina, de Josefa de Óbidos, que representa várias mulheres em volta de um bebé, sentadas no estrado e onde não falta um cesto de costura. Os viajantes estrangeiros deixaram também textos escritos detalhados sobre este costume que muito os espantava, como o padre Franciscano, François de Tours, em 1699, ou Laura Junot, no início do século XIX, que descreve Carlota Joaquina e as damas da corte sentadas no chão.

Como testemunhas deste hábito, sobreviveram até aos nossos dias, uma série de pequenos móveis, sempre a uma escala reduzida, como pequenos contadores vindos da Índia, bufetes e claro, mesas de costura.

Mesa de estrado ou bufete petencente ao Museu dos Biscainhos


Para quem quiser saber mais sobre este velho costume feminino, recomendo os seguintes livros nos quais baseei este texto:

-Museu de Lamego: mobiliário. - Lisboa: IPM, 1999

-Museu dos Biscainhos. Roteiro. Lisboa. IPM, 2005

-O tapete oriental em Portugal: tapete e pintura. Séculos XV-XVIII. Lisboa. IMC, 2007

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vieiras no telhado de uma casa de Estremoz


Tal como muitos dos leitores deste blog que nasceram nos anos 50 e 60, fomos habituados a ouvir dizer mal de Portugal. Era comum comparar Portugal com os países desenvolvidos e concluir que os portugueses eram os mais estúpidos, os nossos monumentos não se comparavam com as grandes catedrais de França ou de Itália e estávamos amaldiçoados por um destino, que nos condenava para sempre ao subdesenvolvimento e au mau gosto. Achava-se sinceramente que isto era um fado e ensinava-se às criancinhas no Liceu, que os males descritos nos romances de Eça de Queiroz eram os mesmos de hoje e que não havia nada a fazer, senão esperar por um qualquer ditador, que devolvesse a Portugal a grandeza do tempo dos Descobrimentos.

Confesso-vos que esse discurso nunca me convenceu muito, mesmo quando ainda era adolescente e não dispunha de argumentos definidos para os combater. Hoje então borrifo-me para o discurso decadentista e gosto das coisas portuguesas e creio convictamente, que devemos conservar o nosso património cultural e natural, ainda que não seja igual ao da França ou lhe falte o génio de Itália, mas também poucas mais culturas no mundo atingiram o nível de realizações artísticas italianas e não é lícito compararmo-nos com aquele país.

As telhas em forma de concha numa rua de Estremoz
Todo arrazoado vem a propósito de um telhado de uma casa dos finais do XIX ou princípios do século XIX, em Estremoz. As telhas são em forma de conchas, mais exactamente vieiras e emprestam um toque encantador a este prédio. São estes pormenores com que a arquitectura dos finais do XIX, princípios do XX é muito rica, que tornam a sua preservação nas nossas cidades importante, ainda que lhe falte o brilho da Arte Nova de Paris ou do estilo Sucessão de Praga. Enfim, cada qual deve conservar o que tem e não cair no profundo mau gosto de achar que se deve destruir só porque não é igual ao que existe na Alemanha ou Reino Unido.

Termino com o poema de Miguel Torga, a Pátria, que traduz igualmente a minha forma de me identificar com Portugal.

Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga da terra
Debruada de mar.

sábado, 18 de junho de 2011

Uma faiança sumptuosa de Cifka



A segunda seguidora anónima já me enviou há uns tempos imagens de uma peça verdadeiramente sumptuosa, uma taça assinada por Wenceslau Cifka, mas como conhecia muito pouco sobre a obra deste senhor fui deixando o e-mail pendurado na minha caixa do correio, esperando uma qualquer inspiração divina para escrever sobre o tema.

Essa inspiração chegou-me quando me passou pelas mãos o catálogo de uma exposição realizada no Museu do Azulejo Cifka: uma obra cerâmica. Lisboa: IPM, 1993 e a partir do que li nesta publicação fiquei decidido a escrever sobre esta figura tão ímpar da vida portuguesa, que assinou a taça da nossa amiga.


O Cifka nasceu em 1811, na Boémia, na actual República Checa e veio para Portugal por ocasião do casamento do rei D. Fernando com D. Maria II, ao que parece na qualidade de caçador, mas talvez devidos às suas qualidades pessoais, rapidamente se tornou em conselheiro artístico do Rei D. Fernando, que como toda a gente sabe foi um amante das artes, um coleccionador e um protector do património cultural português.

A primeira actividade que Cifka desenvolveu foi como fotografo, tendo aberto um dos primeiros estúdios fotográficos em Lisboa: Em 1865 começou a interessar-se por cerâmica e a partir de 1870 passou a produzir regularmente peças neste suporte, actividade que continuou até 1884, ano em que morreu

Prato inv 8398 do Museu Nacional de Arte Antiga de Inspiração Renascença, decorado com grotescos

Cifka não tinha propriamente uma fábrica. Executava os seus modelos artesanalmente em casa e depois mandava-os cozer à Fábrica de Cerâmica Constância, às Janelas Verdes. A sua produção é escassa, não tinha objectivos lucrativos e o grosso das peças foi comprada pelo próprio Rei D. Fernando. Este artista moldava peças por mero gosto e interesse artístico. As suas obras são meramente decorativas, nunca utilitárias e o melhor exemplo desse carácter não funcional da sua produção são os violinos em faiança que não tocam, como o exemplar do Museu Nacional de Arte antiga, que aqui mostro.

Violino em faiança assinado por Cifka. Museu Nacional deArte Antiga

São peças sumptuosas, destinadas a decorar interiores luxuosos e de ornamentação sobrecarregada ao gosto de Napoleão III, como os Palácios da Pena, Ajuda ou das Necessidades-


Cifka tinha como muitos homens do século XIX; um gosto eclético, embora tendesse mais para um certo revivalismo do renascimento. Inspirava-se na majólica italiana dos séculos XV e XVI, nos motivos grotescos desse mesmo período e na cerâmica de Palissy, mas como além de ceramista foi um dos maiores coleccionadores de gravura em Portugal, inspirava-se também em estampas barrocas ou neoclássicas.


Terrina do Museu de Cerâmica à moda de Palissy
Este artista checo terá sido talvez a primeira pessoa a introduzir em Portugal a moda da cerâmica decorada com cobras, lagartos e couves, que tinha aparecido em França há poucos anos, inspirada na obra do ceramista Bernard Palissy (1510 - c. 1589). 


Travessa de Cifka feita segundo a moda de Palissy

Segundo esta teoria, que não é certa, só mais tarde, Manuel Mafra introduziu esta decoração com animais e vegetais em relevo, que se tornou com Rafael Bordalo Pinheiro uma imagem de marca da cerâmica das Caldas. No entanto, é mais provável, que os dois ceramistas tivessem tomado conhecimento com este revivalismo em simultâneo. Em todo o caso Wenceslau Cifka será certamente um dos pais da célebre louça das caldas, que os estrangeiros tanto apreciam quando cá vem e que os portugueses de classe média tendem a torcer o nariz em sinal de desaprovação.

Napoleão passando revista às suas tropas
A taça que a segunda seguidora misteriosa nos enviou é característica do estilo sumptuoso de Cifka, sempre com alusões ao passado e inspirado em gravuras e quadros célebres. Representa ao centro o nascimento de Napoleão, nas bordas retratos de Napoleão, das suas duas mulheres, Josefina e Maria Luísa, do filho e ainda da irmã, Paulina Bonaparte, que ao que parece era um verdadeiro esteporzinho.


Pelo exterior estão retratados vários momentos da vida de Napoleão Bonaparte nomeadamente a sua coroação, Napoleão passando revista às tropas em Waterloo, batalhas e o final em Santa Helena.

a Coroação de Napoleão
Algumas representações são imediatamente reconhecíveis, como a coroação de Napoleão, que tomou como modelo o quadro de David, que está no Louvre.


A coroação de Napoleão por David. Museu do Louvre

Outras são são mais difíceis identificar, como o motivo central, o nascimento de Napoleão.

O nascimento de Napoleão

Vasculhei na Joconde, a base dos museus de França, toda a iconografia referente a Napoleão Bonaparte e não encontrei nada referente ao seu nascimento. Há sim muitas imagens das suas glórias militares ou dos seus momentos de desânimo em Sta. Helena, mas nada sobre o parto do grande conquistador. Por mero acaso, ao fazer uma pesquisa por accouchement naquela base de dados, percebi que Cifka teria usado como modelo para esta cena um quadro do italiano Francesco Furini, muito copiado, que representa a personagem bíblica Raquel, mulher do patriarca Jacob, a dar a luz o seu filho Benjamim, ao mesmo tempo que morre das dores causadas pelo parto. Cifka introduziu na composição um cachorrinho de regaço, para dar o ar galante à cena.

Os trabalhos de parto e a morte de Raquel por Francesco Furini, na Pinacoteca de Munique

No verso, há toda uma explicação das cenas, bem como a assinatura do próprio artista.




Julgo que a taça da nossa amiga é um bom exemplar do estilo de Cifka, feito para o gosto oitocentista, sobrecarregado e sumptuoso.
 

terça-feira, 14 de junho de 2011

O modernismo dos ratinhos

A nossa amiga a seguidora anónima resolveu presentear-nos com mais uma série de imagens de pratos ratinhos da sua colecção.

Se da última vez que abri o email da nossa seguidora com as imagens dos ratinhos, senti que estava na presença de objectos pintados com um vocabulário decorativo ancestral, onde a herança islâmica manteve traços aqui e acolá, vá lá a gente saber como, pois os mouros saíram definitivamente da região coimbrã no século XI, desta vez, ao abrir as fotografias, achei que esta faiança era absolutamente modernista, com a sua simplificação das linhas, o arrojo das composições e o abstraccionismo das formas.



O primeiro, prato, com uma figura masculina engalanada de cores garridas, rodeada por uma aba florida recordou-me de imediato, a família de Saltimbancos, de Pablo Picasso, que se encontra na National Gallery of Wahington. Este quadro data do chamado período rosa de Picasso (1905-1906), que coincide com a sua chegada a Paris e se caracteriza pela abundância de tons rosa e vermelho e pela presença de acrobatas, dançarinos e artistas de circo. É um período feliz, que se opõe à tristeza da anterior fase de Picasso, o chamado período azul.
A família de Saltimbancos de Picasso. National Gallery, Washington

Depois, as imagens três pratos seguintes trouxeram-me à memória as cores garridas dos ballets russes (1909-1929) de Serge de Diaghilev, que influenciaram com o seu arrojo toda a arte contemporânea, desde a dança, passando pela música, até à pintura, ao mesmo tempo que a montagem dos seus espectáculos contou com participação de músicos, bailarinos e artistas plásticos de vanguarda.





Entre estes artistas estava, León Baskt, um judeu nascido na actual Bielo-Rússia, que foi um dos criadores de figurinos mais imaginativos desta companhia de dança, além de ter tido também o mérito de ser o mestre de Marc Chagall. Julgo que os ratinhos atrairiam a simpatia de León Baskt.


Por último, abri a fotografia de mais um prato e descubro um conjunto de linhas em ziguezague, onde já não se procura representar nada e se chegou à abstracção total, ao modernismo levado às últimas consequências e no entanto, ao mesmo tempo, as linhas sugerem-nos um padrão artesanal, tecido pelas mãos imemoriais de uma qualquer Fátima do mundo islâmico.


Profunda conhecedora da faiança ratinho, a nossa seguidora que me perdoe pelo texto de hoje, onde escrevi ao sabor do acaso, associando livremente imagens, sem qualquer fundamento científico.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Chávena de chá provavelmente da Vista Alegre ou a segunda-feira da chávena sem José Sócrates

Desculpem-me a alusão política, mas não resisti a expressar a minha alegria e para comemorar decidi fazer uma segunda-feira da chávena, um dia especial, dedicado a coisas bonitas, antigas e sensatas, em oposição ao pensamento estratégico, à gestão por objectivos e a as outras larachas, que caracterizaram a derrocada do País durante o consulado socratista.

Se repararem bem o pires não é idêntico à Chávena

Mas deixemos o consulado de má memória do outro e passemos ao assunto da Vista Alegre.

Tudo isto começou com um conjunto da Vista Alegre, que a Maria Andrade apresentou e que apesar de não estarem marcadas, a nossa amiga acreditava serem da fábrica de Ílhavo. Na altura dei-lhe razão e referi-lhe um conjunto muito próximo que tinha visto no Museu Nacional de Arte Antiga.


Depois, a semana, passada andei por Estremoz e apesar da crise fiz estragos e parecia atacado de uma febre qualquer de compras. Além do Cristo e mais uma coisa aqui e acolá, comprei esta chávena que acredito ser da também da Vista Alegre, embora não apresente a marca característica VA. O pires não é do conjunto da chávena, mas por cinco euros não podia pedir mais. A peça apresenta três marcas incisas no verso, cujo significado me escapa.
a marca do pires

A cercadura floral que decora a chávena é interrompida, por um monograma composto por três letras góticas, formando as iniciais LAH. Julgo que se referem ao nome do encomendador, que eu imagino ter sido um hotel, ou um rico burguês e que quis o serviço de chá com um monograma pessoal.

O monograma com as letras góticas LAH

O formato da asa é aquilo que a Maria Andrade designa por London Shape e provavelmente foi uma moda bastante difundida por todos os fabricantes europeus de porcelana

A Chávena apresentada em Fevereiro de 2010

Esta chávena assemelha-se muito a um exemplar que apresentei no blog em 22 de Fevereiro de 2010, também sem qualquer marca e a um ao um conjunto de chá que o Museu Nacional de Arte Antiga expõe na vitrina dedicada à Vista Alegre.
O serviço do Museu Nacional de Arte antiga

O Museu datou as peças entre 1852-69 e atribui-as inequivocamente à Vista Alegre, o que me permite a mim, acreditar que a chávena agora apresentada e a que mostrei anteriormente são também seguramente da Vista Alegre e serão talvez datadas do terceiro quartel do século XIX. A cronologia é que me oferece mais reservas, pois a Vista Alegre usou, como já sabemos todos, as mesmas decorações e os mesmos formatos durante décadas consecutivas.

O exemplar do Museu Nacional de Arte Antiga

sábado, 4 de junho de 2011

A inspiração no Cristo de S. Juan de La Cruz, de Salvador Dali


Que me perdoem os meus seguidores, mas ando em fase de beatice, da mais piedosa que há na escolha das imagens para o blog. Apaixonei-me por este Cristo na Feira das velharias de Estremoz e trouxe-o para casa por um preço irrecusável.



A expressão do rosto é muito bonita. Diria mesmo terna. O corpo está muito bem modelado. O artista que o executou tinha talento. A peça foi pintada em tempos, mas houve alguém, que em vez de fazer um restauro atamancado descascou-o e deixou a madeira à vista, tornando talvez desta forma a própria essência humana do Cristo mais evidente.


Também é verdade que a arte religiosa portuguesa tende a sempre mais ao intimismo e evita aquelas representações tenebrosas de cristos crucificados que os alemães ou polacos têm.

Mas, o problema maior era agora encontrar um sítio para pendurar o Cristo no meu apartamento T1, povoado em todos os centímetros quadrados de velharias e outros fantasmas. Foi então que o Manel teve a ideia de pendurar a imagem na parede inclinada do sótão, reproduzindo de alguma maneira o quadro de Dali, o Cristo de S. Juan de La Cruz.

O Cristo de S. Juan de La Cruz de Salvador Dali. Kelvingrove Art Gallery and Museum, Glasgow

Ao longo da história da pintura, já houve centenas de milhares de óleos representando a crucificação, todos mais ou menos parecidos, mas Dali teve a ideia mirabolante de pinta-lo visto de cima, como se estivéssemos de helicóptero a sobrevoar a cena. Ao mesmo tempo Jesus parece pairar no ar. Ao que parece, Dali  inspirou-se num desenho antigo do século XVI, feito pela mão do poeta místico espanhol, o frade carmelita, S. Juan de La Cruz, que pertencia ao grupo de Santa Teresa de Ávila, outras das grandes místicas da Igreja.

O desenho original de S. Juan de La Cruz

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Santíssima Trindade de Joaquim Carneiro da Silva

Esta gravura foi comprada em conjunto com a Ressurreição de Cristo, de Teodoro António de Lima, sobre a qual já escrevi anteriormente. Foramadquiridas em conjunto por mim e pelo Manel para conseguirmos um preço mais barato. Ele ficou com a Santíssima Trindade e eu com a Ressurreição. Enfim foi uma compra muito devota (julgo às vezes, que o Manel, que antigamente não apreciava muito estampas religiosas deve amaldiçoar-me por lhe ter contagiado este gosto piedoso).


A Resurreição de Cristo

No momento, da compra, encontrei-as tão semelhantes que achei que eram obviamente do mesmo autor.

Depois quando a Maria Andrade apresentou o post sobre o Bartolozzi, suspeitei de imediato que a minha Ressurreição de Cristo e esta Trindade tivessem sido executadas por algum discípulo daquele gravador italiano e de facto, depois de algumas pesquisas, confirmei que o autor da primeira estampa mencionada, Teodoro António de Lima, fora seu aluno.


De seguida, fui analisar A Santíssima Trindade pertencente ao Manel e apesar de o estilo me parecer semelhante descobri, que estava assinado por dois nomes diferentes da minha gravura. Um tal J. C Silva desenhou e um D. J. Silva esculpiu, ou melhor, gravou.


Na obra Subsídios para a história da gravura em Portugal, de Luís Chaves, aprendi que o nome completo deste J. C Silva, era Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818) e foi um gravador famoso no seu tempo. Aluno de João Gomes, gravador da casa da Moeda, Joaquim Carneiro da Silva estudou em Roma e Florença e foi director da Academia do Nu. Executou gravuras de desenhos das filhas de D. José (uma vez vi um desenho original de uma delas, da Maria Benedita, à venda na Feira-Ladra, por 40 euros e deixei-o escapar estupidamente), as ilustrações da obra de Manuel Cardoso Carvalho, a Arte da Picaria e ainda Maria Madalena lavando os pés de Cristo, cujo exemplar da Biblioteca Nacional reproduzo aqui.

Madalena lavando os pés de cristo

Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 18 este senhor gravou várias estampas para o Breviarium romano, publicado pela Impressão Régia, em 1818, entre as quais uma Santíssima Trindade. Seguramente esta gravura do Manel terá sido retirada desta obra e presumo que a minha Ressurreição de Cristo veio do mesmo livro. Como é sabido, os alfarrabistas retalham estes livros religiosos, que hoje pouco interessam a uma sociedade descristianizada e vendem as estampas isoladamente, fazendo muito mais dinheiro com isso.

O Joaquim Carneiro da Silva deveria ser também um tipo com interesses artísticos alargados. Foi coleccionador de estampas, que doou à Academia Real das Ciências, após a sua morte.


Quanto ao gravador propriamente dito, o D. J. Silva, é referido também na obra Subsídios para a história da gravura em Portugal, de Luís Chaves. Chamava-se Domingos José da Silva (1784-1863). Aprendeu com Eleutério de Barros e Carneiro da Silva (o seu parceiro nesta Trindade) e mais tarde foi um discípulo brilhante de Bartolozzi. Gravou retratos como o de Bocage ou do Padre José Agostinho de Macedo, o mais célebre autor de literatura panfletária portuguesa, que os bibliotecários conhecem pelo pseudónimo do “anão dos assobios”. Executou obras de Pedro Alexandrino e chapas para breviários.

O Padre José Agostinho de Macedo

Em suma, as gravuras a Trindade e a Ressurreição de Cristo apresentam um certo ar de família, pois os seus gravadores foram discípulos de Bartolozzi e também porque muito certamente foram executadas para a mesma obra, o Breviarium romano de 1818, onde os artistas tinham que se sujeitar a modelos e chapas já existentes.
Detalhe da Trindade