segunda-feira, 1 de março de 2010

Galos e galinhas num prato de faiança inglesa Brown-Westhead, Moore & Co

Um dias destes, na Feira-da-ladra, o Manel e eu vimos uns pratos de faiança inglesa muito bonitos e aplicámos um pequeno golpe já velho, para o vendedor nos fazer um preço mais em conta. O Manel, pediu o preço, ouviu a resposta e depois perguntou quanto seria se levasse dois e claro, o valor pedido pelos dois foi mais baixo. Ele comprou-os, dividimos e cada um levou o seu prato todo contente para casa.

O prato tem uma bordadura encantadora com galos, galinhas e patos. Imagino que tenha servido muitos meninos durante mais de 100 anos. As crianças deveriam adorar comer nele e ficavam-se a olhar para os patinhos em vez de dar garfadas no peixe. Os pais pacientes fariam histórias com os galos e as galinhas enquanto lhes enfiavam colheradas pela boca a baixo. Enfim, desculpem-me ter deixado levar pelo sentimentalismo, mas o prato só me recorda a infância passada em casas de província
Em termos mais práticos, esta peça foi fabricada pela Brown-Westhead, Moore & Co, uma fábrica inglesa que laborou entre 1862-1904 e este encantador serviço designou-se por Poultry, que em português, quer dizer a criação. Foi uma encomenda especial para a O Gran Dépôt de Porcelaines e Faiences, que existia na Rue Drouot em Paris e também em Marselha. este armazém fui fundado por um um tal, Emile Bourgeois, que teve um percurso curioso. Nasceu em 1832, mas em 1856 mudou-se para Inglaterra, onde se tornou professor de francês e aprendeu naturalmente inglês. Contudo, deve-se ter fartado de ensinar a língua de Racine às meninas de sociedade britânicas e tornou-se vendedor de faianças. Em 1862 está de regresso à la douce France e abre um armazém em Paris, especializado em vender as melhores loiças inglesas de Minton, Copeland, Wedgewood & Brown e Westhead & Moore. O seu estabelecimento não parou de ter sucesso, foi sendo alargado e o Sr. Emile morreu rico em 1926 e o seu armazém vendido em 1927.

Voltando às marcas e embora se veja mal na fotografia do reverso, o prato apresenta o chamado Registration Diamond, da segunda fase, usado entre 1868-1883. Esta marca inclusa em forma de losango, usada pelos fabricantes britânicos, permite saber exactamente a data de fabrico da peça. O meu prato foi produzido em 1875

Quem quiser conhecer melhor sobre este método da datação abra o link
http://www.drexelantiques.com/englishregistry.html


6 comentários:

  1. Não se desculpe por se ter deixado levar pelo sentimentalismo!!! Pois esta é a melhor parte da história!! Afinal, não é por isso que colecionamos?
    abs!
    Fábio

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  2. Olá LuisY
    Um dos motivos da minha predilecção decorativa nas faianças são Galos, depois dos motivos florais de Coimbra e dos motivos com casario.Tenho pratos, travessas e 2 palanganas decoradas com Galos.

    No domingo encontrei na feira de Algés um enorme prato de Coimbra por 120€ e um pequeno de Alcobaça por 10 ( o vendedor deste último, rapaz na casa dos 40 anos, educado e simpático que encontro também em Oeiras e na Parede, tem sempre peças de grande qualidade no chão,usa a estratégia de não encher o pano e põe os preços, o que é óptimo, atendia uma assídua compradora que lhe perguntava,"não tem mais coisas nos caixotes"?
    Ao que ele se desculpava com a premente chuva...
    Ela insistia, não tem mesmo nada do que costumo levar, que alegre a minha cara..."

    Nem sequer pensei em comprar nenhum deles, um mais caro do que o outro, não tinham brilho suficiente para os contemplar.Os galos estavam muito mal pintados.

    Sou uma peculiar apreciadora de porcelanas. Gosto de coleccionar chávenas de café, e algumas peças de família.
    Quanto ao seu prato é bonito, a cor inspira-me o manganês de Coimbra,valioso, mas eu não o teria comprado para mim.Porque li o comentário da sua amiga minha homónima e reflecti no que ela disse sobre a aquisição e um dos fins previsíveis destes objectos que adoramos após a nossa partida para o Além.
    Logo eu que amante fervorosa de faianças, linhos e vidros e outras velharias há coisa de 30 anos e agora mais intensamente desde 2004 pela ajuda a superar uma grande depressão vencida sem medicação apenas com o fascínio das feiras, no calcorrear à procura,também comprar,muito pela distracção, convívio, passatempo e esperança em encontrar aquela peça especial, diferente.

    A título de remate confesso que no domingo ao perguntar o preço de um prato de Coimbra, a vendedora perguntou-me se eu era colega(para me fazer um desconto), respondi ainda não, mas com o que tenho comprado nos últimos anos, tenho de começar a vender, ela virou-se para mim e disse, isso é giro e pelo que falámos é conhecedora.
    Força...Estou a pensar no assunto.

    O que mais gostei no seu post foi a forma surreal da sua escrita, emblemática, quente,sentimentalista que despertou em mim a vontade de ir para a rua olhar o sol.
    Um abraço
    Obrigado.

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  3. Tinha, e creio que sobrevive lá pela casa da aldeia, um prato de moldura poligonal, da SP Coimbra, decorado com patos distribuídos segundo cenas bucólicas pela aba, tudo colorido de amarelos, verdes, azuis e laranjas, já muito desbotado pelo uso, que me acompanhou durante toda a minha infância.
    Tenho pouquíssimas memórias de infância, mas é insistente, algures no meu subconsciente, o martírio que foram para mim as refeições, do que me recordo como cenas de lágrimas, gritos, recriminações, alguns sopapos à mistura e horas infinitas à mesa donde não podia sair sem que tudo fosse despejado do prato (de tal maneira foi grave que, assim que adquiri alguma independência, me recusei a comer sopa durante quase uma dezena de anos ...) cenas recorrentes em muitos lares espalhados por esse mundo fora com certeza.
    Creio que deveria ter sido um castigo conseguir alimentar-me (das fotografias deste tempo vê-se um corpo com algo de humano, só olhos, preto e enormes) e alguém, não sei quem, e também não sei se com pena de mim ou dos meus pais, lembrou-se de oferecer aquele prato com motivos infantis para facilitar a tarefa.
    E, se alguma coisa boa me ficou deste período, é do comer alguma coisa só com a esperança de poder, finalmente, ver as cenas da pataria, o que me deveria divertir em todo aquele pesadelo que eram as refeições.
    Quando comprei este prato vieram-me à memória estas cenas, e também me lembrei que talvez este pudesse estar associado a outras felicidades infantis ... tratou-se de um passeio à minha infância perdida há mais de cinquenta anos
    Manel

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  5. Manel.
    O teu comentário foi muito bonito e bem escrito. Recordaste-me o texto daquele escritor turco, o Pamuk, que escreve as memórias de infância dele em Istambul. Pegando neste teu comentário, aproveito para retomar uma discussão iniciada pela Isabel (zoe) num último post e responder a Isabel Maria(Isa).

    Falar de velharias neste blog não é uma atitude materialista de gente, que fica obcecada pela posse de bens materiais. Poucas vezes falámos de preços. Pela minha parte, os objectos interessam-me pela história que transportam, seja a da minha família, a de antigos proprietários ou a dos próprios fabricantes. Através dos tarecos que aqui vou mostrando, tento esboçar com algumas pinceladas amadoras períodos da história passada.

    A preservação do património, mesmo em pequena escala como nós a fazemos é uma atitude espiritual. Se fossemos materialistas, compraríamos tudo no IKEA. Claro, há quem encontre a espiritualidade na religião e entendo isso perfeitamente. Quando eu e a Zoe nos cruzámos na Universidade Católica discutimos algumas vezes sobre isso. Por mim, que não tenho crença encontro a dimensão espiritual da vida na arte, na cultura e na história ou a também trocar impressões com os simpáticos seguidores deste blog.

    Agradeço os comentários do Fábio, do Manel e as deambulações da Isabel que são uma graça, pois a partir do tema do post, vem, volta, parte em várias direcções, torna a partir e regressa.

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  6. Caro LuisY

    Fui ver o sol, debalde chuviscava.
    Mesmo assim não perdi o vigor do desejo e fui até ao cabeleireiro.
    Decidi que era dia para usar reflexos vermelhos a fazer lembrar o mangânes.
    Ele há coisas....
    Voltei e li o seu comentário.
    Confesso que adorei,é a primeira pessoa que ao ler o que habitualmente escrevo me descreve tão eloquentemente em breves palavras.
    Bem haja, gostei da franqueza.
    Sou mesmo assim, a falar ou a escrever, perco-me em considerações, mas regresso sempre ao ponto de partida. Sou uma sonhadora.
    Se tivesse esperado pelo comentário do Manel, no imediato teria percebido o fetiche da compra.Mas apressada, perdi-me noutras divagações.Muito porque na minha infância só comi em porcelana de Coimbra SP e em palanganas na casa da minha avó materna. Na avó paterna, casa de lavoira e padaria, partia-se muita loiça, casa mal governada por falta de amor onde o vinho era rei. Lembro um episódio,ao chegar ao final do dia de uma viagem a Coimbra com a minha mãe fomos lá para comer uma sopa e não havia pratos. A solução que a minha mãe no imediato arranjou foi tirar do saco um prato decorativo que tinha nesse dia comprado com um verso ao centro e a aba aos buraquinhos em azul.
    Do que nunca esqueci, é arrepiante... ver a canja a fugir pelos buraquinhos...
    estórias....no meu tempo de miúda comia-se os legumes da época, no tempo das favas era favas ao almoço e ao jantar.
    Um dia eu não as comia, e o meu pai gritou-me, de caminho, comes favas, comes prato, comes tudo.
    Tinha um medo dele desmedido, era muito violento. Resignei-me e comi-as.
    Hoje adoro favas!
    Maria Isa

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