quarta-feira, 24 de março de 2010

S. João Nepomuceno por Debrie, 1746


Sei que os santos não são do agrado de todos, mas, a carne é fraca e não consigo resistir à forma teatral como as composições dos registos de santos são montadas. É o meu ancestral gosto barroco português, que está no subconsciente e que vem ao cima cada vez que vejo um registo do século XVIII

Esta gravura de S. João Nepomuceno, tem a assinatura Guillaume François Laurent de Brié, ou se preferirem, de Guilherme Francisco Lourenço Debrie, como ficou conhecido em Portugal este gravador francês. Está datada do ano de 1746 e apresenta a seguinte legenda S. Joam Nepomuceno Martir / fidelíssimo Protector da honra dos/ seus devotos.
Creio que esta gravura foi também retalhada de um livro, mas no site da Biblioteca Nacional, pesquisando por Debrie, não consegui identificar de que obra faria parte. Provavelmente de alguma vida do santo ou de um sermão de um pregador célebre, inspirado no exemplo de S. João Nepomuceno. Muitas vezes os bibliotecários, que tratam o livro antigo (espécies anteriores a 1800) dão apenas entrada pelos autores principais e omitem os impressores e os gravadores. Quando tratei livro antigo cometi o erro de não fazer entradas de catálogo para os gravadores e hoje arrependo-me disso. Enfim, como diria o meu velho professor de civilizações pré-clássicas, a experiência quando se a têm, já não serve para nada.
Relativamente ao S. João Nepomuceno, esta ilustre personagem nasceu cerca de 1340, na antiga Boémia, hoje República Checa e em 1393 foi atirado da ponte Carlos ao rio Vtava, morrendo afogado na corrente fortíssima do rio que divide em dois a cidade de Praga. Segundo a lenda, João Nepomuceno recusou-se a quebrar o segredo da confissão da Rainha da Boémia e foi por isso mandado atirar ao rio pelo Rei Wenceslau.

João Nepomuceno é assim representado nesta gravura com a palma, que todos os que sofreram o martírio arvoram, com um halo de 5 estrelas, que comemora as estrelas sobre o rio Vtava na noite do seu assassinato. Na parte inferior da estampa, vê-se a cena que o João Nepomuceno é atirado ao rio, assistido por uma multidão.

S. João Nepomuceno é considerado popularmente, protector da honra dos devotos, advogado contra as calúnias e também protector de pontes e viadutos. Por exemplo, na antiga ponte sobre a ribeira de Alcântara, que existia onde é hoje o largo de Alcântara, em Lisboa, estava colocada uma estátua deste santo.

Esta é a parte da lenda. Na realidade o checo Jan Z Pomuk era um alto membro do clero da boémia, que parece que vivia de forma opulenta, chegando a emprestar dinheiro. Foi nomeado vigário geral pelo novo arcebispo de Praga, Jan Jenstejn e os dois, que representavam uma facção muito próxima do Papa de Roma, envolveram-se num conflito institucional com o Rei Wenceslau, partidário do Papa de Avinhão, a propósito da nomeação de um abade para a riquíssima abadia de Kladruby, cujos extensos territórios eram cruciais para o Rei. O epílogo da história foi o seguinte, Wenceslau aborreceu-se com a nomeação de um abade da confiança dos outros dois e lançou o santo pela ponte fora, mas pelos vistos, fez mal pois o Jan Z Pomuk, que não era boa rés, foi aos poucos e poucos tornado um mártir e um santo pelo clero checo, que consegui canoniza-lo em 1729, em Roma, num processo, que custou mais de 180.000 coroas. O seu culto tornou-se numa arma poderosa da contra reforma e do catolicismo contra o protestantismo, que ameaçava de perto o país. Há até quem diga que a Igreja assimilou a esta personagem o culto popular, que ainda existia em Praga por Jan Huss, o herege que morreu queimado em 1415, de forma a lançarem água benta aos restos dessa heresia, que persistia na Boémia.

A Ponte de Carlos, em Praga, a velha capital

3 comentários:

  1. viva Luís
    Sabes que santos é comigo... Nem de propósito, domingo vou de férias até Praga.
    beijinho
    zoe

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  2. É verdade, a representação de santos não faz o gosto generalizado, mas reconheço o seu interesse e importância que teve na educação religiosa das massas, tornando-as submissas ao poder do clero e, por associação, ao político. A religião e a política sempre se acompanharam de muito próximo durante a nossa histórica, qualquer que fosse a opção religiosa que cada civilização seguisse.
    E, não obstante os ventos contrários que sopram na actualidade (sopram, quiçá, por graça de um maior esclarecimento das massas), alguns, mais teimosos, ou saudosos do acesso directo ao poder (e não me refiro a ti pois tal nunca se te aplicaria) ainda continuam a tentar manter este casamento, que, aliás, me parece algo contra-natura.
    O que resta então de toda esta teimosia contra-natura da nossa história?
    Uma cultura fantástica de cariz religioso/artístico que atravessa de forma transversal todos os períodos da nossa história, que nos permite acesso a toda uma riqueza que se desenvolveu e se se repercutiu nas novas correntes do pensamento e condutas socias mas, e sobretudo, em todas as vertentes da arte, da qual estes registos são porventura a mais humilde, mas não o menos importante no sucesso da divulgação da cultura cristã.
    Manel

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  3. Já regressei de terras checas. By de way, já foste a Praga?
    beijinho
    isabel

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