quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Um retrato miniatura do início do primeiro quartel do século XIX



Comprei esta pintura em miniatura por um preço estupendo na Feira de Estremoz há cerca de uns quatro anos. Quem me vendeu isto não fazia a menor ideia de que se tratava de uma pintura original. Provavelmente achava que era alguma reprodução colorida de um quadro antigo sem valor nenhum. Também é verdade, que estava num estado de conservação lamentável. A placa de marfim sobre a qual foi pintada estava partida em dois e a moldura e o passe-partout completamente empenados.

Mas além de ser uma pintura original é um retrato verdadeiro de uma senhora que estava na flor da idade no início do século XIX.



Nesse tempo, estes pequenos retratos já tinham uma longa tradição na pintura europeia. Nos séculos XVI e XVII serviam para combinar casamentos reais ou de grandes aristocratas, pois dadas as suas pequenas dimensões eram facilmente transportáveis e os noivos poderiam ver os respectivos rostos antes de se conhecerem. A partir da segunda metade do século XVIII estes retratos passaram a ser pintados a aguarela sobre pequenas placas de marfim e generalizam-se entre a nobreza e a grande burguesia.

Na época em que esta minha miniatura terá sido pintada, logo no início do XIX, existiam em Portugal muito bons pintores de miniaturas, como por exemplo, José Joaquim Rodrigues Primavera, que até tem uma obra exposta no Museu do Prado ou ainda José Joaquim de Almeida Furtado. Também por cá trabalharam alguns pintores estrangeiros e a arte foi igualmente praticada por amadores, pois na época existiam à venda publicações, que explicavam as técnicas desta arte. Mas a minha pintura não está assinada nem datada e os meus conhecimentos de pintura são escassos para a atribuir a este ou aquele pintor. Mais ainda, a jovem que está retratada na pintura não está identificada e nem tenho maneira de conhecer a sua identidade. Para esta época ainda há poucas imagens e seria uma um golpe de sorte encontrar uma gravura, que representasse a mesma pessoa.

Em suma, relativamente a este pequeno retrato, posso apenas fazer algumas ilações mais ou menos óbvias.



Em primeiro ligar a rapariga representada na pintura tem um tipo mediterrânico, cabelo e olhos castanhos muito escuros ou mesmo pretos. Decididamente não é uma flamenga, uma inglesa, alemã ou mesmo uma francesa. Será antes uma espanhola, italiana ou mais seguramente uma portuguesa, já que comprei esta miniatura, aqui em Portugal. Creio que posso admitir sem uma margem de erro demasiado grande, que a elegante representada neste quadrinho foi uma portuguesa. Também evidente, que pelo traje e pelas jóias representadas na pintura, esta rapariga pertencia a uma família nobre ou então burguesa, mas muito abastada.

Hortense de Beauharnais foi uma  elegantes da moda Império. Pintura do Baron de Gérad(1770-1837) da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, in. 1775 Pint 

Em termos de indumentária, a jovem enverga um vestido com um decote, mangas de balão, corselete de musselina, cintura muito subida e o cabelo apanhado, penteado em cachos. As cinturas subidas e os decotes generosos começam a usar-se logo por volta de 1795, mas as mangas de balão parecem surgir no início da primeira década do século XIX e mantem-se em voga até mais ou menos 1825, altura em que vão ganhando volume e descem quase até à altura do cotovelo. Também depois dessa data os penteados tornam-se mais complicados e perdem a simplicidade do estilo Império. Claro, o que acabei de descrever aplica-se sobretudo a França, esse país que apesar de ter posto a Europa a ferro e fogo com as guerras napoleónicas, continuou a ditar as modas. Talvez aqui em Portugal não soubessem de imediato o que as elegantes de Paris vestiam, como uma Josefina Bonaparte, uma Hortense Beauharnais ou uma madame de Récamier, mas nessa época circulavam já pela Europa fora estampas e jornais de moda, a que a família desta janota portuguesa poderá ter tido acesso. Em suma, pela indumentária, arriscaria afirmar que a retratada da minha miniatura veste-se segundo o que estava na moda entre 1800 e 1825.


Retrato de Senhora, José Joaquim Rodrigues Primavera, datado de 1828. As mangas de balão a partir de 1825 desceram até aos cotovelos. Col. do Museu do Prado


Outro aspecto desta pintura que se destaca é o vestido preto envergado pela jovem.

Tentei perceber sem muito sucesso a partir de que o momento o preto se tornou uma cor de luto obrigatória na Europa. Por exemplo no século XVII, o preto era uma cor de luxo, que não estava necessariamente associada ao luto, usada pela realeza ou porque quem tinha muito dinheiro. Com efeito a cor negra era extramente difícil de fixar num tecido e o corante usado era caro. Ainda hoje, já nos aconteceu a todos nós comprarmos uma t-shirt ou umas calças pretas a preço de ocasião e ao fim de quantas umas lavagens, tudo aquilo fica com uma cor deslavada. Em todo o caso, a revolução industrial inglesa, permitiu a produção de tecidos em preto em maior quantidade e qualidade e a menor e preço e no Reino Unido, em 1817, a morte da Princesa Charlotte, filha de Jorge IV, lançou todo o país de luto e as elegantes mandaram fazer vestidos de noite em preto, como este da colecção do Victoria And Albert Museum, executado entre 1823 e 1825.

Vestido de luto da col. do Vitoria and Alberto Museum, executado entre 1823-1825
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Pelos vistos, neste primeiro quartel do século XIX, uma jovem enlutada poderia envergar um vestido preto decotado, com os braços à vista e ornamentar-se de jóias para frequentar um acontecimento social. Neste meu retrato, o vestido decotado, os braços nus e a expressão da jovem não sugerem tristeza. 

As jóias

Na mão usa um anel de brilhantes e parece segurar uns trémulos, uns alfinetes de cabelo, que se usaram no século XVIII. Ao seu lado, pousada numa consola, está uma estatueta de uma figura feminina, que parece estar dançando, talvez uma alegoria à personalidade da moça. Enfim, é um retrato de uma jovem na flor da vida que não aparenta estar consumida pela dor.

Uma estatueta pousada numa consola. Talvez uma alegoria à personalidade da retratada 


Enfim, tudo isto são códigos de vestuário, que escapam ao nosso entendimento, pois os mais velhos de nós ainda vivemos num tempo em que luto feito a negro era carregado e despojado de ornamentos e atitude a adoptar socialmente era de tristeza e sobriedade.

Provavelmente, nunca conseguirei descobrir quem pintou este retrato, nem quem é a jovem nele representado. Posso apenas supor que a pintura foi executada no primeiro quartel do século XIX, retratando uma rapariga portuguesa rica e bem-nascida, trajando um elegante vestido preto. Mas também um pouco de mistério empresta sempre mais interesse a uma velharia.





Alguma bibliografia e links consultados:

Miniaturas portuguesas / concepção e texto Anísio Franco. - Lisboa : MNAA, 2003. - 24 p. : il., col. ; 20 cm

De la miniature au Portugal : peintres et objets voyageurs, entre l’Europe et l’Amérique / Patricia Telles
In 
Études Epistémé: revue de littérature et de civilisation (XVIe - XVIIIe siècles), nº 36, 2019
https://doi.org/10.4000/episteme.5277

Miniaturistas portugueses / Júlio Brandão. - Porto : Litografia Nacional, [1933]. - 117 p. : il. ; 22 cm

https://wiki.alquds.edu/?query=1820s_in_Western_fashion


https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/retrato-femenino/0e87474a-04c7-487a-9f68-4d1275817397


Um agradecimento à especial à Teresa Serra Moura e um obrigado a Anísio Franco e Ana Kol