quarta-feira, 10 de abril de 2024

Uma elegante junto a pratos ratinho em 1913



Há uns tempos, tentando encontrar notícias sobre os tribunais de guerra criados para o julgamento de conspiradores monárquicos, após as duas primeiras incursões de Paiva Couceiro, resolvi bater todo o ano de 1913 da Ilustração Portuguesa, revista de actualidades, disponível on-line na Hemeroteca Digital. Mesmo quando se têm um objectivo preciso, folhear revistas antigas é uma perdição e rapidamente nos distraímos a ver os anúncios antigos, os figurinos das últimas modas, as crónicas mundanas ou ler notícias de conflitos, que na altura eram muito actuais, como a segunda guerra balcânica e que hoje foram remetidos para notas de rodapé dos manuais de oficiais de história.

Entre todas essas actualidades do passado, encontrei a notícia de um serão literário no Mosteiro de Alcobaça, com fotografias dos vários participantes e chamou-me logo a atenção, o retrato do poeta Afonso Lopes Vieira (1878—1946) e da sua mulher à saída do Mosteiro. Durante o período em que fui bibliotecário na Universidade Católica coordenei o tratamento do espólio de António Sardinha (1887-1925) e existiam muitas cartas de Afonso Lopes Vieira, que se distinguiam de imediato das outras, porque aquele poeta tinha uma caligrafia linda, muito pessoal, mas legível e usava ainda um papel timbrado com o motivo de uma vieira. Desde logo, percebia-se que era um esteta. Também me recordo muito bem de ver a sua casa de S. Pedro de Muel, que era e é um encanto. Apesar de ligado ao Integralismo Lusitano, a seguir ao 28 de Maio de 1926, demarcou-se do Salazarismo. Sempre simpatizei com esta figura, embora tenha aprofundado pouco ou nada sobre a sua obra.

O poeta Afonso Lopes Vieira


Este serão literário ou festa de arte foi organizado por Manuel Vieira Natividade (1860-1918) , ouviu-se muita poesia e naturalmente os convidados eram mulheres e homens de cultura. À saída ou à entrada do evento, os convidados percorreram o mercado semanal de Alcobaça e um casal elegante parece ter-se encantado com as cerâmicas. A jovem muito elegante com uma saia muito cingida e um lenço artisticamente enrolado parece estar a passar dinheiro ao senhor. Não sei o que compraram, se a cerâmica vidrada, se a panela de barro ou os pratos ratinhos no canto esquerdo. Nesta época, em 1913, neste meio de pessoas como o poeta Afonso Lopes Vieira ou o Manuel Vieira Natividade, que valorizavam a tradição, a história e a etnologia era provável que se apreciassem os ratinhos, estes pratos de faiança com uma decoração inconfundível.

Os ratinhos estão no canto inferior esquerdo

Achei muita graça a esta imagem, pois quanto vejas fotografias antigas de mercados e feiras, tento sempre identificar, que tipo de cerâmicas, se encontravam à venda, mas a definição é sempre má e nunca consigo descortinar nada. Mas desta vez, tive sorte e encontrei pelo menos três ratinhos, acabadinhos de sair da oficina em 1913.


Fonte consultada: Ilustração portuguesa, nº 394 (8 Setembro de 1913)

sábado, 6 de abril de 2024

Um bule em Britannia de meados do século XIX





Este velho bule apresenta todas as marcas do tempo. Ao longo da sua vida de cerca de um século e meio foi muito usado, quebrado várias vezes, reparado e soldado. O último acidente que sofreu foi quando o tentei limpar e fiquei com pega na mão, partida em três partes. Depois desse acidente escondi-o num canto qualquer da minha casa e ali ficou esquecido durante mais de uma década. Mas há uns tempos, mandei arranjar uns talheres de prata antigos numa oficina muito boa, ali no Bairro das Colónias, Rua de Timor, nº1 e lembrei-me de o levar lá e o Senhor fez um óptimo trabalho, pois além de soldar a pega colocou uma tira de metal por dentro, para lhe dar solidez.

Este bule é muito engraçado, pois tem uma forma muito típica da ourivesaria e da cerâmica do século XVIII, bojudo, com a pega da tampa em forma de uma pequena abóbora em cima de uma folha, mas a decoração gravada é uma coisa indefinida, entre Renascença e o gótico, enfim uma mistura de estilos muito ao gosto do século XIX. O problema é que não apresenta qualquer marca de fabrico, ou talvez a tenha tido, mas com tanta pancada que apanhou, marcas de soldaduras e reparações, ela desapareceu completamente.



Por uma questão de intuição, achei seria uma peça estrangeira, talvez inglesa ou francesa e provavelmente feita em peltre e comecei a fazer umas tantas pesquisas na net em inglês e francês tentando encontrar peças idênticas. E com efeito encontrei umas quantas coisas muito semelhantes e até um estudo muito bem feito, intitulado Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott, publicado na revista Spinning Wheel, vol. 29, nº2 , (Maio, 1973) e que a Nederlandse TinVereniging teve a feliz idéia de digitalizar e colocar on-line.

Este bule será certamente inglês, fabricado em Sheffield ou eventualmente em Birmingham, numa liga de metal desenvolvida na primeira cidade, que ficou conhecida pelo nome Britannia. Para os menos familiarizados com estes assuntos, Sheffield foi um grande centro industrial inglês, que desde meados do século XVIII se tornou famoso pela sua cutelaria e metais para uso doméstico. Nesta cidade desenvolveram-se toda uma série de técnicas e inventos para fabricar utensílios que pareciam prata, mas eram ligas com baixa percentagem daquele metal, casquinhas, galvanoplastias ou simplesmente metal prateado.

Um destes destas técnicas para fabricar utensílios que sugerissem a prata, foi desenvolvida cerca por um certo James Vickers de Sheffield, que começou a produzir um metal branco, cuja fórmula era semelhante ao estanho tradicional, excepto, que em vez de chumbo, se adicionava antimónio e um pouco cobre, permitindo a esta liga boas características para a fundição e uma cor mais próxima da prata. A ausência do chumbo, além de permitir a tal cor mais prateada, era também mais saudável para a saúde humana, já que o esse metal é tóxico. Rapidamente e ao longo dó século XIX, a produção destes utensílios em Britannia cresceu exponencialmente, estendendo-se também a cidade de Birmingham, atingindo o seu apogeu em meados dessa década. As formas usadas eram as das cafeteiras, açucareiros e bules em prata do século anterior e eram vendidas a preços muito mais baratos que a prata, as casquinhas, ou as de metal com baixa percentagem de prata.

Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelas pegas


As formas usadas nos vários produtores desta liga Britannia foram estudas e estão sistematizadas. Se no início do século as pegas das cafeteiras ou bules eram em madeira, tal como as de prata, a partir de 1840 generalizaram-se as pegas em metal, exactamente como as do meu bule, que são típicas do período entre 1841-1845. Do mesmo modo, a pegazinha da tampa do bule, em forma de abóbora foi sobretudo usada por volta dos anos 40 dessa década. No entanto, o bico do bule é datado de cerca de 1860.

Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelas pegas da tampa


Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelo bico do bule.


Em suma este bule foi fabricado em Inglaterra, em Sheffield ou eventualmente em Birmingham, numa liga conhecida pelo nome de Britannia, em meados do século XIX. Foi uma peça muito usada ao logo de mais de 100 anos por uma família, com inúmeras reparações e que agora encontrou uma reforma tranquila na minha casa.




Bibliografia consultada:

Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott
In
Spinning Wheel, vol. 29, nº2 , (Maio, 1973)

sábado, 23 de março de 2024

As incursões de Paiva Couceiro, um quarto secreto e Liberal Sampaio



Na família Montalvão conservou-se a memória de que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, durante as incursões de Paiva Couceiro, tinha sido perseguido pelos republicanos. Segundo a tradição, teria instigado um motim popular na aldeia de Outeiro Seco, depois para fugir à prisão, ter-se-ia escondido das tropas republicanas num quarto secreto no Solar da família Montalvão, até que fugiu para Espanha, onde viveu um ano, em Feces de Abajo, a Sul de Verin. Nessa localidade raiana, um Guarda Republicano tentou prende-lo e só não o conseguiu porque as autoridades espanholas intervieram. Segundo o meu pai, que registou por escrito toda a memória familiar, estes acontecimentos teriam ocorrido entre 1911 e 1912, isto é, os anos das duas incursões monárquicas de Paiva Couceiro, em que houve uma verdadeira caça aos padres, acusados de colaborarem com as milícias de Paiva Couceiro ou instigarem as populações à revolta.

Planta do primeiro piso do solar de Outeiro Seco. O quarto secreto é o número 34


Além de o meu pai ter deixado por escrito estas memórias, contou-nos esta história muitas vezes e nós miúdos adorávamos o episódio do quarto secreto, que parecia uma aventura qualquer da romancista Enid Blyton ou tirada da série os Pequenos vagabundos. Contudo, o meu pai nunca nos revelou onde era exactamente o quarto secreto no Solar de Outeiro Seco, o que nos aumentava ainda mais a curiosidade e a fantasia. Já eu era teria trintas e muitos anos e o solar já tinha sido vendido à Câmara Municipal de Chaves, quando o meu pai me revelou finalmente a sua localização exacta na planta da casa. Não sei se o objectivo deste secretismo do meu pai era aumentar o interesse na narrativa ou se estaria convencido que um dia, por qualquer percalço da história voltaríamos a precisar de escondermo-nos lá e, portanto, era necessário manter o segredo. De facto, o pai sempre foi um homem previdente.

Mas, em todo o caso, a cronologia desta história era um bocadinho vaga e os episódios imprecisos, até que há cerca de um mês encontrei um escrito muito interessante no espólio. Trata-se de um documento antigo de 1815, um recibo pago pelo meu quinto avô, Miguel José de Montalvão (1764-1826), pela remessa de uma encomenda segura, para Lisboa, para Pedro de Sousa Canavarro. Neste papelinho, o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, fez um rascunho de uma carta, que me permitiu entender melhor estes acontecimentos e que no final deste texto, transcrevo integralmente . A carta foi dirigida a uma Senhora, Maria Isabel Figueiredo de Melo Garrido (1855-1925), viúva de um lente de filosofia da Universidade de Coimbra, António de Meireles Guedes Pereira Coutinho Garrido (1856-1895), portanto uma gente que o meu trisavô conheceu dos tempos em que estudou em Coimbra. Aliás, fala no filho desse casal, o Antoninho, que ao tempo desta carta tinha sido nomeado para superintendência da Penitenciária, mas que Liberal Sampaio acariciou na infância.

A filha de Isabel de Melo Garrido, Maria Rosa Meireles Coutinho Garrido estava casada com o então Ministro da Justiça, Álvaro Xavier de Castro (1878-1928) e basicamente Liberal Sampaio está a pedir à Senhora para meter uma cunha ao seu genro, para interceder por ele, pois foi pronunciado como conspirador em Espanha e que irá ser julgado em Braga.

Álvaro Xavier de Castro (1878-1928). Foto Wikipédia


Nesta carta, o meu trisavô explicava que estava inocente, argumentando que Fui para a povoação fronteiriça, Feces de Abajo, no partido de Verín, em 3 de Fevereiro de 1911, para livrar-me dos vexames de um processo instaurado pelo então Administrador de Chaves e hoje deputado evolucionista António Granjo, processo que por falta de provas está arquivado. Isto quer dizer que motim que o meu antepassado terá instigado na povoação de Outeiro Seco, ocorreu ainda antes da primeira incursão de Paiva Couceiro (4 de Outubro de 1911). De seguida, continua Estive fora da minha casa perto de ano e meio sem praticar um único facto que tornasse suspeito de auxiliar corporal ou moralmente qualquer tentativa de rebelião como atestam as autoridades de Verin e Chaves. Não fiz parte da incursão de Chaves, porque nessa ocasião estava cuidando da administração da minha casa. Portanto terá saído de Portugal em Fevereiro de 1911 e terá regressado antes de Julho de 1912, que é quando se dá a segunda incursão de Paiva Couceiro, que com as suas milícias atacou e sitiou Chaves.

Também nesta carta, transparece um certo desespero e aflição do meu trisavô, pois já tinha 67 anos e sabia que seria julgado num Tribunal em Braga e talvez tenha feito um rascunho da carta, pois sabia que era necessário escrever um texto muito cauteloso e bem feito, pois dele poderia depender a sua sobrevivência.
Liberal Sampaio contava já com 67 anos no tempo destes episódios


Este rascunho, não está datado, mas pelos acontecimentos descritos, é possível saber que foi escrito no ano de 1913, quando Álvaro Xavier de Castro foi ministro da Justiça e responsável pela criação de três tribunais militares especialmente formados para julgamento de crimes de rebelião, constituídos em Lisboa, Coimbra e Braga. Esses tribunais tiveram uma actividade intensa e nesse ano de 1913, as prisões e julgamentos de monárquicos acusados de conspirar contra o regime sucediam-se uns atrás dos outros. Folhei todos os números da Ilustração Portuguesa desse ano e há sempre notícias de militares de alta parente julgados, condessas, marquesas a entrarem no tribunal e ainda individualidades com nomes sonantes, mas também de soldados rasos, operários, tipógrafos, vendedoras ambulantes, camponeses e tasqueiros a serem detidos. Uns apanhavam dois ou seis anos, mas outros eram condenados ao degredo em Angra do Heroísmo, nos Açores. Percebe-se, pois, a aflição do meu trisavô, a imaginar-se com 67 anos, num navio a caminho do degredo, na ilha Terceira no Forte de São João Baptista.

Creio que é mesmo possível saber o mês em que este rascunho foi escrito pois o meu avô, citou o diário de 17 de Novembro, isto é o Diário do Governo, de 17 de Novembro de 1913, cuja cópia consultei e contem os Éditos de dez dias citações de ausentes emitido pelo Tribunal de Guerra de Braga e onde o seu nome consta. Como deseja à Sra. D. Isabel as mais felizes e alegres festas, o rascunho terá sido escrito logo no início de Dezembro.

Quis então perceber exactamente de que o meu antepassado foi acusado, mas a leitura destes textos legais é sempre complicada para mim. Tenho dificuldade em entender o chamado oficialês a linguagem do Diário da República, além de que o número de réus foi quase na casa dos trezentos, de modo que a mesma acusação serviu para 80 ou 100 indivíduos. No entanto, creio que Liberal Sampaio foi acusado de auxiliar em Espanha, a organização do corpo expedicionário de Paiva Couceiro e cooperar naquela iniciativa em 1912. Em suma, a acusação refere-se ao tempo em que esteve refugiado em Espanha onde teria colaborado na organização da segunda incursão de Paiva Couceiro, que ocorreria em Julho de 1912.

Na carta à Sra. Dona Isabel de Melo Garrido, Liberal Sampaio defende-se dessa acusação, explicando que não fiz parte da incursão de Chaves, porque nessa ocasião estava cuidando da administração da minha casa e que teria sido incriminado por Arnaldo da Fonseca, cônsul em Verin, de 29 de Maio a 30 de Junho de 1912, que o terá confundido com o cura de Mairos, povoação nos arredores de Chaves. Insiste ainda na enormidade de que um guarda republicado o ter tentado deter em território espanhol, o que quase provocou um conflito luso-espanhol, episódio que narrou também e com mais de detalhes no periódico O Concelho de Chaves, nº10, de 18 de Maio de 1911. Segundo o meu antepassado, crescendo a altercação, chamando ele [o GNR] pelo camarada que seguia para Vila Verde e receando eu que descessem os carabineiros que armados estavam a uns 60 metros, o que daria lugar a um conflito pouco airoso para a minha querida pátria, resolvi recuar à virilidade, galgar o talude, e saltar ao rio, no qual tive o contratempo de cair e tomar um banho extemporâneo.

O Concelho de Chaves, nº10, de 18 de Maio de 1911


Quanto ao Julgamento do Tribunal militar de Braga, ao qual Liberal Sampaio deveria comparecer, não encontrei mais notícias sobre o assunto. Ou a cunha que ele meteu à Sra. Dona Isabel de Melo Garrido, sogra do ministro da Justiça, Álvaro Xavier de Castro, funcionou e ele foi dispensado de comparecer e imagino, que não foi só a esta Senhora, que o meu trisavô escreveu, pois era um homem que tinha uma rede de contactos de gente influente pelo país inteiro, ou o mais provável, limitou-se a esperar em sua casa a queda do governo. Com efeito, logo a 9 de Fevereiro de 1914, formou-se o 61º governo, de Bernardino Machado, mais moderado e nesse mesmo mês houve uma Proposta de lei da amnistia de 19 de Fevereiro, aprovada a 24, e os presos libertados logo no dia 22. A Amnistia abrangeu o desterro dos bispos[7]. Abrangeu 572 indivíduos presos e 1 700 emigrados. No ano a seguir, durante o governo de Pimenta de Castro, foi decretada ampla amnistia em 20 de Abril, alargando aquela que havia sido decretada no tempo do governo de Bernardino Machado. E com efeito, as acusações contra Liberal Sampaio parecem ter sido esquecidas, pois em 15 de Junho, Liberal Sampaio estava novamente a advogar, conforme notícia o nº 77 da Folha de Chaves.

Tudo isto, parece complicado, mas o período da Primeira República (1910-1926) foi muito complexo, com golpes de estado, intentonas, atentados à bomba, insurreições, três invasões militares e governos a sucederem-se uns aos outros a velocidade vertiginosa.

Os motins de Outeiro Seco. Texto publicado por Liberal Sampaio em A Folha, nº10, de 26 de fevereiro de 1911


Mas sintetizando toda esta história, ainda em finais de 1910, talvez durante o mês de Dezembro, ocorreu um motim popular em Outeiro Seco contra o regime republicano, pelo qual Liberal Sampaio foi responsabilizado e em consequência do qual foi perseguido pelas autoridades, refugiando-se no tal quarto secreto do solar e a 3 de Fevereiro de 1911, refugiu-se em Espanha, na povoação raiana de Feces de Abajo. Ao contrário do que eu acreditava, estes acontecimentos ocorreram antes da primeira incursão de Paiva Couceiro. Liberal Sampaio permaneceu em Espanha de Fevereiro de 1911 até mais ou menos Junho de 1912 e é essa estada em Espanha, que o tornará suspeito de ter colaborado na organização da Segunda Incursão de Paiva Couceiro (Julho de 1912). Será citado pelo Tribunal de Guerra de Braga a 17 de Novembro de 1913 e nessa altura terá talvez apanhado um susto valente. Contudo, logo em Fevereiro do ano seguinte o governo mudou e houve uma amnistia a 24 de Fevereiro e no ano seguinte, uma amnistia ainda mais ampla, de que o meu antepasso terá certamente beneficiado. A vida deste meu trisavô foi realmente romanesca.

Alguma bibliografia consultada:

Paiva Couceiro e a contra-revolução monárquica (1910-1919) / Artur Ferreira Coimbra. - Braga, 2000
Maria Isabel de Melo Garrido

Exma. Senhora muito da minha gratidão. Faço votos para que continue disfrutando mil venturas na companhia da sua ilustre família e que dignará apresentar os meus respeitos e saudades.

Estava para felicita-la pela nomeação do Antoninho para superintendência da Penitenciária, quando o Diário de 17 de Novembro trouxe a tristíssima notícia de que eu pronunciado como conspirador em Espanha, teria em breve de implorar sua carinhosa protecção ao velho que tantas vezes o acariciava na infância

Meu primeiro movimento, depois do espanto de me ver tão injustamente perseguido foi aproveitar-me da benevolência com que S. Exa., seu querido genro, Álvaro de Castro e extremosa filha D. Maria Rosa se dignaram honrar-me com a promessa da sua honrosíssima visita. A lembrança, porém, de que um pretendido inimigo da República seria repelido por um tão distinto ministro da mesma república me conteve.




Fiel sectário da máxima evangélica Dai a Deus o que é de Deus; e a César o que é de César – nada tenho feito contra o novo regime, que não ajudei a estabelecer, que não quis destruir e que sempre respeitei como padre que tem por missão acatar os poderes constituintes.

Fui para a povoação fronteiriça, Feces de Abajo, no partido de Verín, em 3 de Fevereiro de 1911, para livrar-me dos vexames de um processo instaurado pelo então Administrador de Chaves e hoje deputado evolucionista António Granjo, processo que por falta de provas está arquivado. Estive fora da minha casa perto de ano e meio sem praticar um único facto que tornasse suspeito de auxiliar corporal ou moralmente qualquer tentativa de rebelião como atestam as autoridades de Verin e Chaves. Não fiz parte da incursão de Chaves, porque nessa ocasião estava cuidando da administração da minha casa.

Porque é então serei pronunciado por haver preparado e acompanhando tal incursão?

Porque informando-me das novidades públicas em 16 de Setembro de 1911…comigo o falecido Luís de Ataíde publicou em as Novidades de 16 de setembro de 1911 uma conversa em que francamente manifestei a minha neutralidade entre monárquicos e republicanos e isto quase dez meses antes da tal invasão de 6 de Julho de 1912? Porque Arnaldo da Fonseca, cônsul em Verin desde 29 de Maio a 30 de Junho de 1912, depôs, que naquele tempo estava na Galiza trabalhando para a destruição do regime republicano o Liberal cura de Mairos, sendo certo que não apresenta facto nenhum comprovativo, que eu nunca fui cura de Mairos e que tal cura era nessa ocasião muito notável em Espanha e Portugal, porque havendo sido preso na raia pela Guarda Fiscal, o governo espanhol reclamou e obteve dos portugueses que ele fosse posto em liberdade, isto mais de um ano antes da falada incursão,

Estou inocente, aflige-me a dificuldade em me defender; e toda a minha esperança está na bondade de V. Exa. para comigo, juntando ao seu bom desejo o D. Maria Rosa empenhar ao Sr. Ministro da Justiça ou recomendar ao Promotor ad hoc Albano Justino Lopes Gonçalves, major do 8, directamente ou indirectamente pelo Governador Civil de Braga, que seja bem examinada a prova contra ou a favor, afim de ser feita a devida justiça.

Desejo-lhe as mais felizes e alegres festas em graças do senhor Jesus Cristo com mais um ano bem

Agradeço sumamente as finezas da última prova da bondade de V. Exa. para comigo, que não pude conter as lágrimas ao ver-me protegido por dois anjos; oxalá tenha a ocasião de a todos três significar de viva voz toda a minha gratidão.

Ainda não sei quando irei a Braga ser julgado como conspirador …visto assim, quem dos dezasseis aos vinte e dois anos lá passou a sua vida de estudante exemplar. Deus Misericordioso, que nos ensinou a retribuir o mal com o bem, pudesse a quem consciente ou inconscientemente me causou tantos desgostos e incómodos.

Dignar-se-á apresentar ao Antoninho meus sinceros parabéns pela hombridade e seu procedimento político

Sou com a máxima consideração e estima de V. Exa. amigo obrigado



sábado, 9 de março de 2024

Cabra amamentando um cabritinho: paliteiro da Vista Alegre



Apesar das juras que faço a mim próprio de não comprar mais trastes e velharias, numa das últimas feiras de Estremoz adquiri mais um paliteiro de porcelana. Os paliteiros são objectos muito apetecidos pelos coleccionadores e por essa razão, muitas vezes os vendedores pedem muito dinheiro por eles e como este estava a um preço muitíssimo convidativo e aproveitei a ocasião e lá voltei para a casa com o dito paliteiro. Também o comprei porque já tenho quatro paliteiros da Vista Alegre. Um deles, representa uma cabrinha sentada e o que consegui agora é no fundo, o par, representado a cabra a amamentar o cabritinho. Portanto, esta compra foi absolutamente necessária, ou pelo menos foi este o argumento, que forjei para mim próprio.

Este novo paliteiro é o par de outro que já tinha na minha colecção.


A figurinha não está marcada, mas é com toda a certeza da Vista Alegre. Esta fábrica produziu entre 1870 e 1921 esta figura em várias versões, umas brancas como esta e outras com diferentes pinturas. Basta consultar o site Avaluart para constatar como o mesmo molde foi sendo usado ao longo de 5 décadas pela Vista Alegre em diferentes acabamentos. Contudo, os modelos em branco, que encontrei no avaluart, bem como na obra Vista Alegre : porcelanas / Ilda Arez...[et al.]. - Lisboa : Inapa, 1989 apresentam a marca nº 20, usada entre 1870-1880. O meu paliteiro será eventualmente deste período, mas admito que poderá ser mais tardio. A Vista Alegre sempre foi uma casa conservadora e os mesmos modelos e decorações foram sendo usados ao longo de décadas a fio. Para quê mudar o que é bom e bonito.

Paliteiros da VA: cabra amamentando cria. Foto http://www.avaluart.com


Hoje em dia, um objecto como este é absolutamente inútil. Já ninguém palita os dentes e todos usamos o fio dental, mas eu ainda me recordo de ver nas mesas de todos os restaurantes paliteiros em porcelana, faiança, plástico ou vidro. Claro, eram coisas com um desenho funcional, não eram peças tão elaboradas como esta cabra, que amamenta a sua cria. Na época, em que esta cabrinha foi produzida, os palitos eram considerados objectos de civilidade e para perceber os encantos destas figurinhas, temos que as imaginar numa grande mesa posta com uma toalha de linho, enfeitada com uma qualquer renda, um serviço de jantar da Vista Alegre decorado com florinhas, num dia de festa, com toda a família reunida, numa qualquer casa antiga do Norte. Talvez por ter conhecido bem uma dessas casas, goste tanto destes paliteiros em porcelana.



sábado, 2 de março de 2024

Desvendado segredos de fotografias do século XIX ou a família de Liberal Sampaio



Mais uma vez o tema deste post é o meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (29-7-1846/29-10-1935), que manteve uma relação amorosa com uma fidalga da região de Chaves, minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902). Mas desta vez, irei escrever sobre a sua família, de que encontrei muitas referências em cartas. É certo, que no processo inquirição de génere de 1864-1866, consegui colher dados sobre os pais e os seus avós paternos e maternos, os primeiros de Soutelo, Chaves e os segundos de Antigo de Arcos, Sarraquinhos, Montalegre, mas tudo o resto estava muito confuso.





Em 20 de Novembro de 2018, tinha apresentado aqui no blog, uma fotografia de uma Senhora, tirada antes de 1874, que eu tomei como a mãe de Liberal Sampaio, mas estava enganado


Em 20 de Novembro de 2018, tinha apresentado aqui no blog, uma fotografia de uma Senhora, tirada antes de 1874, que eu tomei como a mãe de Liberal Sampaio e em cujo registo de óbito era referida como viúva. Porém, quando comecei a tratar o espólio familiar fui encontrando cartas depois de 1874 com referências ao pai de Liberal Sampaio e até mesmo uma missiva deste ao seu pai, datada de 18 de Julho de 1891 anunciando-lhe a conclusão da licenciatura nos cursos de Teologia e Direito. Mais ainda, no espólio familiar, apareceu uma certidão de óbito datada de 3 de Março de 1906 de Maria José Ferreira, falecida a 13 de Janeiro de 1896, em Outeiro Seco, com 76 anos, viúva, que ficou de António Rodrigues Sampaio, lavradora. Portanto, o pai de Liberal Sampaio, o António Rodrigues Sampaio, sobreviveu à primeira mulher, casou uma segunda vez e vivia em Outeiro Seco, aldeia onde o filho era pároco. Também no mesmo espólio, consta um documento, a Distribuição da derrama em dinheiro para côngrua do pároco. Concelho de Chaves, freguesia de Outeiro Seco, 1876-1877. Neste documento estatístico, certamente coligido por Liberal Sampaio, onde constam todos os chefes de família, que contribuíam para o sustento do pároco, surge o nome do meu quarto avô, António Rodrigues Sampaio. Liberal Sampaio chegou a Outeiro Seco em 1873 e pelo menos em 1876, o seu pai já tinha deixado, o Antigo de Arcos, em Sarraquinhos e residia na mesma povoação do filho.

Distribuição da derrama em dinheiro para côngrua do pároco. Concelho de Chaves, freguesia de Outeiro Seco, 1876-1877. António Rodrigues Sampaio está assinalado com uma seta.


No post de 20 de Novembro de 2018, em que tinha publicado um retrato, que acreditava ser a mãe, de Liberal Sampaio, uma Senhora, Rute Reimão, comentou este post, em Novembro do ano passado, informando-me que em vez da Maria Gonçalves Liberal, se tratava de Isabel Gonçalves Liberal, falecida a 11 de Setembro de 1875, em Chaves e que casou duas vezes, a primeira com José Teixeira de Magalhães e em segundas núpcias com Alexandre José Fernandes. Muito provavelmente, aquela fotografia era uma irmã da mãe de Liberal Sampaio, uma tia.

Achei que tudo isto estava uma grande confusão e que a única solução era traçar uma genealogia dos Gonçalves Liberal, de Antigo de Arcos e dos Sampaio, de Soutelo e lancei-me aos registos paroquiais, mas foi um trabalho diabólico. Estes homens e mulheres eram simples lavradores que deixaram poucos e escassos traços nos arquivos. Viviam da terra nas suas aldeias isoladas, se morriam sem deixar testamento, não se faziam processos de inventário obrigatório, também não ocuparam cargos na administração, nem tinham pleitos jurídicos com arrendatários, que fossem a tribunal. Os próprios párocos, nos registos de baptismo, casamento e óbito, lavraram os registos referentes a esta gente simples de forma apressada e por vezes até mesmo trapalhona com os nomes corrompidos ou incompletos. Ao contrário do que sucedia com as gentes da nobreza, ou titulares de cargos públicos importantes, onde os padres registavam tudo cuidadosamente, com todos os nomes e títulos, dando-se mesmo ao luxo de desenhar com algum capricho as letras maiúsculas. Ao ler os registos desta gente de algo até imaginamos o padre aos salamaleques na igreja, quando entrava o Senhor Brigadeiro ou os Pizarro, os Morais e Castro, os Campilhos ou os Montalvões para se casarem ou baptizar os seus rebentos.

Com um traço negro estão assinaladas as terras onde estas famílias residiram 


Mas, voltando assunto, depois destes trabalhos, consegui reconstituir as datas fundamentais da vida do pai de Liberal Sampaio. Nasceu a 7 de Março de 1824 na freguesia de Santa Maria de Soutelo. Casou a 6 de Novembro de 1845 em Antigo de Sarraquinhos com Maria Gonçalves Liberal. Antigo de Arcos e Soutelo, embora em concelhos distintos, são aldeias próximas e imagino que o António e a Maria se terão conhecido na festa do orago de uma das terras, ou na Feira dos Santos em Chaves. Deste casamento nasceu o meu trisavô, o José Rodrigues Liberal Sampaio, em 29-7-1846 e ainda uma irmã, Ana, em 23-03-1848. A mãe de Liberal Sampaio morreu a 13-1-1871, com 68 anos, na sua casa nº 176, Antigo de Sarraquinhos e foi identificada como lavradora. O António Rodrigues Sampaio não ficou viúvo muito tempo e casou uma segunda vez, em Outeiro Seco, a 23 de Setembro de 1874 com Maria José Ferreira, natural de Eiras, freguesia de Sta. Maria Maior, Chaves, viúva de João José Pereira. Deste casamento não houve certamente filhos pois este meu quarto avô tinha nessa data 52 anos e ela 56. É certo, que as idades apontadas nos registos paroquiais são muitas vezes aproximadas, pois esta gente nem sabia bem a idade, mas os números devem ser próximos. Este meu tetravô era alfabetizado e no registo de casamento assinou o seu nome, embora de forma pouco segura e atabalhoada. Faleceu em 27-10-1893 em Outeiro seco e a segunda mulher viveu até 1896.

A assinatura de António Rodrigues Sampaio


Quanto à mãe de Liberal Sampaio, a Maria Gonçalves Liberal, terá nascido na primeira década do século XIX, filha de António Gonçalves Liberal e Ana Gonçalves de Lage, mas os registos de baptismo dessa época da paróquia de Sarraquinhos não estão digitalizados e não consegui determinar o ano do seu nascimento, mas por registos posteriores, consegui perceber que teve pelo menos mais três irmãos, o Manuel João Gonçalves Liberal, que se terá feito padre em 1826-02-08, conforme a inquirição de génere do Arquivo Distrital de Braga, uma Antónia Gonçalves Liberal, que casou com um tal Joaquim Marques e cuja existência descobri através do assento de baptismo de uma neta, a 18 de Janeiro de 1838, em Chaves e finalmente a Isabel, falecida a 11 de Setembro de 1875, de quem eu tenho um retrato. Não faço a menor ideia porque ordem nasceram, pois como referi, os assentos de baptismo 1768-1818 não estão digitalizados.

Isabel Gonçalves Liberal, tia do meu trisavô


Mas é da última, a Isabel Gonçalves Liberal, tia do meu trisavô, de que me irei ocupar. Esta Senhora terá casado na década de 20 do século XIX, com um tal Francisco Teixeira, natural de Sarraquinhos e que era ferrador de cavalaria nº 6, um posto militar e estaria ao serviço num dos quarteis de Chaves. Este casal viveu em Chaves e teve uma prole numerosa entre 1828 e 1839, conforme se pode ver pela genealogia que ilustra este post. Umas das filhas, a Ana Maria, nascida a 28-11-1834 casou muito bem a 7 de Agosto de 1854, com tal um António Vieira Basto, negociante e curiosamente a Ana já constava com o apelido Teixeira de Magalhães, enquanto nos registos anteriores, esta gente aparece simplesmente referida como Teixeira. As testemunhas foram gente de condição, Manuel José Pereira Coelho, negociante e sua mulher Dona Rita Ferreira Montalvão, minha tia quarta avô, de outro lado da família, o da fidalguia, o que parece reforçar a ideia da ascensão social desta família. Este casamento fez-me entender porque é que na correspondência recebida por Liberal Sampaio encontro umas quantas cartas de pessoas com o apelido Vieira Basto e Magalhães Basto, que o tratam por primo. 

O padrinho do pequeno António foi Francisco de Teixeira de Magalhães, doutor em medicina, irmão da mãe do baptizado e residente no Rio de Janeiro


No assento de baptismo de um dos filhos do casal António Vieira Basto e Ana Teixeira de Magalhães, o do pequeno António, a 15-2-1866, há um dado muito interessante. O padrinho foi Francisco de Teixeira de Magalhães, doutor em medicina, irmão da mãe do baptizado e residente no Rio de Janeiro. Ora, eu tenho um retrato deste senhor da Fotografia Alemã, Henschel & Benque, do Rio de Janeiro, tirada entre 1870 e 1877, num dos álbuns carte-de-visite da família e que sempre me fez imensa confusão pois não conseguia perceber qual teria sido a sua ligação com a família Montalvão ou com Liberal Sampaio. Sabia que era provavelmente médico, porque é a única personagem identificada com o título de Dr., apesar de esse álbum estar cheio de retratos de condiscípulos do meu trisavô, licenciados em Coimbra. Creio que na altura o Dr. ainda estava só reservado aos médicos. Portanto, este Dr. Francisco Teixeira de Magalhães, nascido a 19-10-1828 em Chaves era primo direito do Liberal Sampaio e filho da Isabel Gonçalves Liberal.


Médico no Rio de Janeiro, o Dr. Francisco Magalhães era primo direito do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio


Bem sei que este levantamento genealógico é um sempre um bocadinho fastidioso para quem o está ler do outro lado do monitor, mas quem como eu está a tratar um espólio familiar, que incluí cartas, recortes de jornais, documentos notariais e fotografias, este estudo permite-me entender melhor quem foram os autores daquelas cartas, que relações mantiveram entre si e a ainda consegui através dele resgatar dois velhos retratos do esquecimento, mas sobretudo ajuda-me a compreender melhor Liberal Sampaio, esse antepassado, que a minha avó Mimi e o meu pai, me ensinaram a admirar desde muito cedo e é também a minha forma de continuar ligado a eles, que iniciaram o tratamento deste espólio.

A genealogia de Liberal Sampaio


domingo, 18 de fevereiro de 2024

As cartas de uma prima afastada do Brasil ou o gosto de Liberal Sampaio em partilhar a sua cultura

Edith Manso


Já aqui tinha referido as cartas que o meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio recebeu de António Cachapuz e da amizade que se desenvolveu entre os dois, através da troca de livros e longas tardes de conversa, muito embora politicamente estivessem em campos opostos e terem também idades muito diferentes.

Outro exemplo dessa abertura de espírito do meu trisavô, são as cartas que recebeu entre 1922 e 1931 de uma prima afastada do Brasil, a jovem Edith Manso de Barros Liberal. Não consegui perceber exactamente o parentesco entre os dois, mas seriam certamente primos por parte da mãe do meu trisavô, Maria Gonçalves Liberal, gente de Antigo de Arcos, freguesia de Sarraquinhos, no Concelho de Montalegre

Esta jovem vivia numa cidadezinha do Brasil, Ribeirão Preto, uma terra onde não existiriam na altura bibliotecas ou livrarias, mas apesar desse isolamento, demonstrava um grande interesse pelos livros e pela cultura.




Na primeira carta de 22 de Setembro de 1922, refere um livro, que terá pedido numa carta anterior, pedindo-lhe o favor de o enviar em português e sonha voar até à pátria dos seus sonhos e conhecer Liberal Sampaio e passar uma revista na sua biblioteca. Manifesta o desejo de ler os imortais Castilho, Garrett, Herculano, Shakespeare, Chateaubriand e Madame de Stael, mas no interior, onde vive, contenta-se apenas com o desejo. Ainda assim conhece o grande Camões, Bocage, mas quereria ler Homero, Heródoto e os mais ilustres imortais gregos. Imensa será sua dita, no dia que receber a minha Eneida.

Menciona ainda as suas alunas, pobrezitas, são órfãs, o que me faz supor que a Edith fosse professora, talvez nalgum colégio religioso para raparigas pobres. Aliás, a sua caligrafia parece ser a de uma mestra, como que cuidadosamente desenhada no quadro de ardósia para que os meninos a entendam, copiem e pratiquem a boa letra. Por por fim, envia também a sua fotografia, no chamado formato bilhete de identidade.


Na segunda carta de 4 de Agosto de 1924, escreve que acabou de receber por uma viúva e filhos vindos de Portugal, os livros que Liberal lhe prometera e iniciou a leitura da Meditação, pedindo-lhe desculpa pelo atraso da carta, pois entretanto tinha eclodido a revolução no estado de São Paulo, a chamada Revolta Paulista de 1924, conflito brasileiro com características de guerra civil. Iniciado na cidade de São Paulo em 5 de Julho, o movimento expandiu-se ao interior e inspirou levantamentos em outros estados.



A Edith Manso voltou a escrever ao meu trisavô a 28 de Abril de 1924, desta vez dando-lhe informações sobre o seu vencimento 343$800 réis, que lhe dava muito bem para si e ajudar os pais. Em 17 de Setembro desse ano, numa nova carta a jovem de Ribeirão Preto, queixou-se das condições económicas e para o primo pedir ao bondosíssimo Redentor, que nos ajude, que nos de saúde, inteligência (esta última para mim ) e força para lutar. Mais adiante, escreve não me canso de ler a Eneida, estou já no 2º livro, leio-o muito devagar, porque todo o instante preciso de ir ver o dicionário dos nomes próprios (deuses, deusas, ninfas, etc.) para melhor compreender e no paragrafo seguinte mais uma vez lhe agradeço os livros, que são a minha felicidade, pois enquanto os leio, não penso em …outras coisas como, cinemas, festas e bailes…etc.. Por último, promete mandar-lhe o retrato da sua formatura.

A última carta foi escrita no dia um de Janeiro de 1931 e a prima Edith diz “eu tenho lido e relido os livros que me enviou, em cada página parece-me ver um pedaço de sua alma, essa alma tão boa, tão caridosa e tão fina.
José Rodrigues Liberal Sampaio
No tempo que recebeu estas cartas Liberal Sampaio era já um homem idoso

Esta relação epistolar entre uma jovenzinha de uma cidade do interior do Brasil e o um homem que nessa altura andava já nos seus setenta e muitos anos, com dois cursos superiores, numismata, advogado e bibliófilo e colaborador regular da imprensa regional é muito curiosa. Não sei o que o meu trisavô pensava acerca da educação feminina, nunca li nada nas suas cartas, referente a esse assunto, mas segundo a mentalidade dominante na época, o mais natural era que não perdesse muito tempo com a jovem, aconselhando-a não tentar ler obras de grandes escritores, que a poderiam perturbar e a dedicar-se antes à confecção do seu enxoval. Mas, talvez a jovem Edith, tenha recordado a Liberal Sampaio o seu difícil acesso à educação numa aldeia perdida das terras altas do Barroso, conforme ele próprio recorda num caderninho que sobreviveu até ao momento presente Aos sete anos passei a frequentar a aula nocturna de um curioso, que ao completar nove anos, me deu preparado para ir a Vilar de Perdizes habilitar-me na instrução primária com o Professor régio Bento Pires Esteves, o melhor e quase único do Concelho. E assim sendo, o meu trisavô, Liberal Sampaio foi comprando livros e enviou-os para o Brasil, uma vez por portadores, outras talvez por correio e ontem como hoje, enviar encomendas para aquele País, ainda que apenas livros, era e é caro. Creio que entendeu o desejo de conhecer os clássicos da literatura desta jovem e a cultura é algo, que sempre ultrapassa oceanos, fronteiras, idades e transcende a identidade sexual.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Talheres de prata franceses estilo arte nova ou a atracção pelo inútil



Há umas semanas comprei um conjunto de talheres de prata na Feira de Estremoz por um preço muitíssimo convidativo. Quatro deles são de uma tipologia, que eu nunca tinha visto na vida. São semelhantes aqueles talheres para segurar o osso do da perna do perú, enquanto, que com uma faca trinchante se vai cortando as várias fatias de carne, só que muito mais pequenos, pois têm apenas 14 cm de comprimento. O vendedor informou-me que serviam para comer perdizes e que eram franceses.

Quando voltei para a casa, cai em mim, pensando Disparate! Mas para que é eu quero talheres para comer perdizes e sei lá eu cozinhar perdizes! Mas, eram tão bonitos, lavrados com motivos florais característicos da arte nova, que me convenci que afinal foram uma boa compra e que ficariam bem lá por casa, nem que fosse só como decoração.

A parte superior dos talheres tinham um banho de dourado muito enferrujado, que infelizmente não se pode manter.


Em todo o caso, resolvi tirar a limpo essa história de serem talheres para comer perdizes e lancei-me numa busca sistemática nos sites dos antiquários franceses e no www.protantic.com encontrei um conjunto destes talheres em prata, que em França se designam por Manches à Côtelettes. São instrumentos para segurar o osso de costeletas ou eventualmente de pequenas aves, sem ter que sujar as mãos. O mecanismo no topo permite um ajuste à medida da grossura do osso e prende-o assim com segurança. Em França estes talheres eram muito comuns e encontrei muitos conjuntos à venda, de 12 ou 6 pessoas, alguns ainda com os estojos originais dos ourives.

O senhor que me vendeu estes talheres compra muito em França, nas grandes feiras que existem naquele país e depois revende por cá, mas à cautela decidi confirmar se eram realmente franceses e mais uma vez esbarrei com a tremenda dificuldade em ler as minúsculas sinalefas dos punções de garantia e marcas de ourives. As lupas que tenho em casa são fracas e a única forma que tenho de as ler, é usar o telemóvel, ampliando a imagem até ao extremo, e depois tirar a fotografia e ainda assim só a terceira tentativa é que obtive uma imagem nítida da marca. 

A Minerva


Trata-se do punção de garantia oficial da França, a cabeça de Minerva usada entre 1838 e 1973. É um período cronológico, muito grande, mas pelo menos tenho a certeza que estes talheres são franceses, de prata e de boa qualidade, pois tem o nº 1 à direita da cabeça. Contudo, não são prata maciça ao contrário dos restos do faqueiro, que herdei da minha avó. O cabo é apenas uma folha de prata, que reveste outro material.

Punção de garantia oficial da França, a cabeça de Minerva usada entre 1838 e 1973. Imagem retirada de https://argenterieetorfevrerie.wordpress.com/les-poincons-francais-1789-a-nos-jours-de-1789-a-1798-periode-dite-revolutionnaire/



Dois dos talheres, apresentam uma segunda marca incisa, talvez a do ourives, mas essa é tão pequena que não consegui descodifica-la, por mais que tentasse.

Esta segunda marca não consegui descodifica-la


Se através da punção Minerva, só posso afirmar com segurança que estes talheres foram produzidos em França entre 1838-1973, a decoração de elementos vegetais que se distribuem de forma assimétrica pelo cabo é típica da arte nova, o que me permite data-los entre os últimos anos do século XIX e os primeiros do século XX. Ao contrário de outros estilos artísticos, não houve ao longo do século XX revivalismos de arte nova, com excepção dos candeeiros e dos vidros, que foram replicados ou serviram de inspiração a novas peças nos últimos vinte ou trinta anos. Para os faqueiros de prata, ao longo do século XX e mesmo no momento presente, as pessoas com posses para os adquirir preferiam ou preferem os estilos mais clássicos como o Luís XV ou Luís XVI em França e em Portugal, o D. João V ou D. Maria. Por exemplo, nas ourivesarias portuguesas ainda hoje encontramos à venda os talheres das caninhas, uma decoração neoclássica, posta na moda há mais de 200 anos, mas feitos agora.




Em suma, tenho em casa uns talheres de prata franceses com cerca de 120 anos para comer costeletas de borrego, porco ou para perdizes, que nunca irei usar na vida, mas que são um testemunho de um tempo onde as famílias mandavam gravar o seu monograma nos faqueiros, as mesas eram postas com arte, com refeições de vários pratos e com variedade enorme de talheres para comer e servir, desde ostras, a morangos, passando por caracóis. Para quem, como eu põe o prato num tabuleiro de plástico e janta em frente à TV estes pensamentos são reconfortantes.

Os talheres encontraram um lugar no meio dos meus tarecos


Alguma bibliografia e ligações consultadas:

A guide to old French plate / Louis Carré. - London : Eyre and Spottiswoode, 1971.

Les poinçons de garantie internationaux pour l'argent / [ed. lit] Tardy. - 5ème éd. - Paris : Tardy, 1957.


sábado, 20 de janeiro de 2024

De regresso aos arquivos do Norte: procurando uma avó desconhecida




Depois da morte do meu pai, quando recebi o espólio documental da família, comecei a encontrar documentos e fotografias não só referentes à família Montalvão, mas também de ramos laterais, dos Alves e dos Morais, alguns deles datando de meados do século XIX. Numa velha caixa de papelão, daquelas em que antigamente vendiam as camisas de homem, surgiram uns quantos retratos dos Alves, que ainda consegui identificar, mas outros, mais antigos eram um mistério, como um senhor distinto de longas barbas, datado mais ou menos dos anos 70 do século XIX e uma senhora de meia-idade, também mais ou menos da época ou mais tarde, onde uma criança escreveu a lápis, minha querida avozinha. Fiquei intrigado sobre quem era esta querida avozinha e a netinha ou netinho, autores da legenda e decidi que era tempo de fazer um trabalho de sapa sobre os Alves, cruzando fotografias, cartas, ao mesmo tempo que montava uma genealogia através da consulta aos registos paroquiais.



Gente burguesa e abastada, que vivia no bairro da Madalena em Chaves, os Alves ligaram-se à família Montalvão através do casamento de José Maria Ferreira Montalvão com Ana da Conceição Alves em 1903. O meu pai já tinha deixado algumas informações sobre os pais da minha bisavó Aninhas, Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais e como encontrei no espólio o testamento desta última, comecei o levantamento, que passo a descrever.

A Antónia dos anjos Morais nasceu 25 de Abril de 1846, em Chaves, mas os seus pais, avôs e bisavôs eram naturais de aldeias a leste dessa vila, nomeadamente Argemil da Raia, Samaiões, Paradela e Agordela, já no actual Concelho de Valpaços, à excepção de uns bisavôs, os Costa, fregueses de Noval, Soutelo, a oeste de Chaves. Mas para além da sua naturalidade, destes avós e bisavôs da Antónia dos Anos sei apenas os seus nomes e que nasceram, casaram, tiveram filhos e morreram. Os registos paroquiais nesta época fornecem poucos dados sobre as profissões ou estatuto social. Certamente que não foram fidalgos, pois nesses assentos não constam com dois apelidos, nem os nomes das mulheres são antecedidos do título dona. Casavam inevitavelmente com pessoas das aldeias próximas, que certamente conheceriam nas festas e romarias dos padroeiros locais, ou na feira dos Santos em Chaves, para encontrar a noiva ou noivo certos de aldeias um pouco mais distantes

A itálico assinalei as aldeias de onde estas famílias eram provenientes


Só tenho mais informações para os pais da minha trisavó, a Antónia dos Anjos Morais. Era filha de Vicente de Morais, nascido a 1 de Janeiro de 1799, em Samaiões e de Ana Maria da Conceição, de Argemil, nata entre 1806 e 1808. Os dois casaram na aldeia da noiva, com o poético nome de Argemil da Raia, no dia 18 de Agosto 1825. Este casal ter-se-á mudado para a Chaves, em data que eu desconheço, pois a Antónia dos Anjos nasce já nessa vila em 1846 e teriam um estabelecimento comercial no Bairro da Madalena, em Chaves. No espólio, tenho duas cartas, de 2 e 26 de Maio 1850 dirigidas a Vicente de Morais, por um tal António Xavier Lourenço da Costa, da cidade de Braga, acerca de uma encomenda de vários tipos de corda, ferro de escória e aço. 




 Carta de António Xavier Lourenço da Costa, da cidade de Braga a Vicente de Morais


Este meu tetravô, Vicente de Morais, morreu pouco tempo depois, a 4 de Março de 1851, em Chaves e no registo de óbito, consta como negociante de mercearia, morador no bairro da Madalena. A sua mulher, a Ana Maria da Conceição, continuou o negócio do marido. Três cartas de 1875, respectivamente de 19 de Março, 5 e 20 de Abril, escritas por Pedro Chasse, da Régua a esta minha antepassada tratam da remessa e transporte de umas dezenas de caixas de sabão da fábrica Roriz. Estas cartas de natureza comercial, encomendando produtos fora da região, fazem-me supor que o estabelecimento comercial destes meus tetravôs teria uma certa importância e que seriam alfabetizados. Inclusive a primeira missiva de António Xavier Lourenço da Costa, a Vicente de Morais, refere recebi a sua carta de 21 do passado.



Carta de Pedro Chasse a Ana Maria da Conceição, minha quarta avó


Este casal teve uma prole numerosa, mas por razões práticas, só me vou fixar numa das últimas filhas, a Antónia dos Anjos Morais, nascida em 1846 e que 1876 casou muito bem com o Francisco Luís Alves, em Chaves. O noivo de 31 anos é identificado no assento de casamento como proprietário, o que na linguagem destes livros quer dizer homem abastado e os padrinhos foram gente de condição, Silvino Alves Nóbrega, proprietário e sua mulher Dona Ana Maria Joaquina Rodrigues Nóbrega. Ambos os nubentes são alfabetizados e assinam o seu nome com uma caligrafia bonita.

Da família do noivo encontrei alguns dados sobre a sua condição social. Os pais já viviam em Chaves, na Madalena, pelo menos desde o seu nascimento em 22.11.1844. O pai, o Luís Alves era natural de France, freguesia de Moreiras e no seu registo de óbito de 2-10-1861, em Chaves é referido como tendo uma loja de pezo. Loja de peso, creio eu, quer dizer hoje em dia, que Luís Alves era grossista. Vendia em grandes quantidades a retalhistas. Aliás, o filho, o Francisco Luís prosseguiu o negócio do pai e no espólio existem 10 cartas datadas entre 1908 e 1919 de clientes de Castro Daire encomendando-lhe grandes quantidades de sementes. A mãe, a Maria Joaquina Alves, falecida em Chaves, em 27-4-1876 era natural de Sangunhedo, freguesia do Eiró, Concelho de Boticas, a leste de Chaves. No seu assento de óbito, foi referida como sendo proprietária e tendo morrido na sua casa na rua da ponte da Madalena. Esta casa ainda a conheceu o meu pai, pois os seus avôs, viviam os meses de Inverno nela e era grande e bonita, mesmo junto ao rio Tâmega, sendo que divisões baixas aproveitam os arcos da ponte romana. A casa já não é da família e infelizmente nunca entrei nela.

O casal Antónia dos Anjos Morais e Francisco Luís Alves viveram com muita abastança. No testamento desta minha antepassada, feito em 1903, refere que no casamento da filha, Ana da Conceição Alves como meu bisavô, o José Maria Ferreira Montalvão, doaram ao dois a quantia de cinco contos de reis em moeda corrente e cem acções do banco de Chaves, pelo que após a sua morte, desejava que os outros dois filhos, a Maria da Conceição e o Luís da Conceição recebessem igual quantia. Mas não fica por aqui. Deixava a uma irmã, a Dona Augusta de Morais, viúva e que pelos vistos estaria em dificuldades financeiras, a quantia de cem reis diários, durante dois anos, que lhe seria entregue em prestações mensais e no caso de que esta legatária tivesse falecido, seria este legado para a sua sobrinha Dona Maria da Glória Morais. Por último, deixa à criada, que se encontrasse ao seu serviço na ocasião do seu decesso, a quantia de dez mil reis.

Excerto do testamento de Antónia dos Anjos Morais


Os cinco contos de réis que receberem cada um dos seus filhos nesta altura era muito dinheiro. Recordo-me que a minha Tia Chica me contar, que no início do século XX o seu sogro ganhou na lotaria um conto de reis e que aquilo era uma fortuna. É também interessante o pormenor do dinheiro dado à criada que a assistisse no momento da morte, pois era um costume antigo na Europa. Na corte de França do século XVIII era também hábito, que um dos validos do Rei, que o assistisse na morte, pudesse levar uma peça de mobília à escolha do quarto do rei.

Quanto ao marido, o meu trisavô, Francisco Luís Alves, manteve o negócio do pai de grossista, mas foi bem mais longe, foi accionista do Banco de Chaves e segundo os escritos do meu pai, exerceu um cargo importante na sua gestão. Nas notícias do casamento da filha Ana da Conceição, em 1903, a imprensa flaviense mencionou-o como capitalista. Desempenhou um papel importante na vida pública de Chaves, sendo vereador na Câmara Municipal entre 1884 e1887 e ainda em 1889 e 1897. Em 1900 faz parte dos cidadãos ligados ao meio industrial para estabelecer as contribuições respeitantes às contas gerais do estado.

A Antónia dos Anjos e o Francisco Luís Alves tiveram quatro filhos, o Luís (1883-1887), que morreu com 6 anos e memória da sua existência apagou-se com o passar das gerações, a Maria da Conceição (1887-1956), a tia Marica que viveu um amor contrariado com um jovem que veio a ser Monsenhor Alves da Cunha, a Ana Conceição (1881-1974) e ainda o Luís da Conceição (1884-1931), estes dois últimos casaram muito bem, a primeira com um fidalgo, o José Maria Ferreira Montalvão, meu bisavô e o segundo com Alice Júlia de Macedo de Andrade Couto, de uma família rica de brasileiros de torna-viagem.

É interessante observar que três destes filhos do casal, foram baptizados com um dos nomes da avó materna, Conceição, que ainda estava viva quando os pequenos nasceram, o que me faz supor que seria uma pessoa estimada. Esta avó, a Ana Maria da Conceição só veio a falecer em 9 de Setembro de 1887 e cheguei a pensar que a querida avozinha do retrato pudesse ser ela e tivesse sido um dos seus netos, talvez instruído pela mãe, a escrever aquela frase a lápis. A fotografia foi feita por um M. Olivenza, de Vila Real, do qual se sabe, que por volta de 1879, já estava no nº18 da rua das Flores, naquela cidade. O retrato será dessa altura ou já da década de 80 do referido século. Nesse período, já a Ana Maria da Conceição andaria nos seus 70 e tal anos e a senhora do retrato parece mais nova. É mais provável que seja a minha trisavô, a Antónia dos Anjos Morais, que nesse período, teria talvez os seus 40 e tais anos e nesse caso a letra do netinho ou netinha seria da minha avó Mimi, nascida em 1907 ou de um dos seus irmãos, nascidos em 1904, 1905 e 1906 e que a conheceram viva, pois só faleceu em 1913. Estas identificações são sempre um bocadinho arriscadas, em todo o caso a Senhora da fotografia apresenta os mesmos traços da tia Marica, a Maria da Conceição (1887-1956), o que realmente me leva crer que seja realmente a Antónia dos anjos Morais.

Antónia dos Anjos Morais?

Maria da Conceição Alves (1887-1956)


Acredito também que o retrato do senhor distinto de barbas, talvez da mesma época ou um bocadinho anterior, seja do Francisco Luís Alves, meu trisavô, do qual só conheço uma fotografia de 1916, já idoso e as pessoas mudam muito ao longo do tempo, mas comparando as duas imagens, encontro a mesma testa, as mesmas entradas no cabelo e um certo ar de boneco de porcelana comum aos seus dois filhos, o Luís da Conceição e Ana da Conceição, minha bisavô. Contudo, como antes referi, posso estar enganado e este cavalheiro poderá ter sido um tio.

Francisco Luís Alves?

Francisco Luís Alves em 1916

Ana Conceição (1881-1974)


Luís da Conceição (1884-1931)


Em suma estes dois retratos serviram como pretexto para tentar reconstituir a história de um dos lados da minha família, gente que até ao início do século XIX, vivia e morria em aldeias nas cercanias de Chaves e a partir de 1840 se instalaram nessa vila e tornaram-se proprietários de estabelecimentos comerciais com alguma importância no bairro da Madalena, como comprova a correspondência de carácter comercial que sobreviveu. Na geração dos meus trisavôs, indubitavelmente enriqueceram e além do comércio, dedicaram-se à finança e desempenham cargos no governo municipal de Chaves. Este texto, demasiado longo, para um blog, permitiu-me arrumar os conhecimentos sobre estes antepassados, mas ficaram ainda algumas perguntas por responder. Nas longas viagens de carro para o Norte, o meu pai contava-nos muitas vezes, que a sua avó, a Ana da Conceição se lembrava de ouvir contar à sua avó, que escondeu ou enterrou as pratas durante as invasões francesas, certamente em 1809, na segunda invasão, quando os franceses entraram por Chaves. Será que essa avó seria a Ana Maria da Conceição, cuja data de nascimento não consegui determinar com segurança? Esse assunto fica para outro post.


A genealogia dos Alves e  Morais


Bibliografia:

História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012

Narciso Alves Correia: a fotografia em Vila Real na década de 1870 / Elísio Amaral Neves. Vila Real: Museu do Som e da Imagem, 2011. – (Cadernos do som e da imagem; 8)

Fontes arquivísticas

Arquivo Distrital de Vila Real, 
Livros de baptismos de Santa Maria Maior, Chaves, 18844, 1846, 1876 (assento 30), 1878
Livros de casamentos e Santa Maria Maior, Chaves, 1876 (assento 30)
Livros de óbito e Santa Maria Maior, Chaves, 1851, 1861 (assento 133), 1876 (assento 37), 1883 (assento 283), 1887 (assento 101)
Livros de baptismos de Samoiões, 1799
Livros de casamentos de Travancas, 1825