domingo, 20 de março de 2022

Ainda os álbuns carte-de-visite: os brasileiros


Do álbum de retratos de fotografias formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), resolvi destacar o grupo dos “brasileiros”. Escrevo brasileiros ente aspas, pois certamente eram portugueses, que emigraram para o Brasil e que em algum momento das suas vidas, cruzaram-se com o meu antepassado e ofereceram o seu retrato como prova de estima e amizade. Terão sido pessoas importantes da vida de José Rodrigues Liberal Sampaio, de outra forma não teria inserido os seus retratos no álbum fotográfico. Em todo o caso, todos os retratos foram feitos em estúdios fotográficos brasileiros.

Como é conhecimento de todos, a emigração portuguesa para o Brasil durante o século XIX foi enorme. Durante os anos de 1881-1900, mais ou menos na época em que estas fotografias foram realizadas, 316.204 portugueses entraram no Brasil, o que é imenso se pensarmos, que Portugal tinha então mais ou menos cinco milhões de habitantes. Isto significa, que no último quartel do século XIX, toda a gente em Portugal tinha vários familiares ou amigos no Brasil.

Não consegui apurar quase nada sobre estes senhores, que se fizeram retratar no Brasil mais ou menos há 120 ou 150 anos e por isso resolvi publicar estas fotos, na esperança, que alguém do outro do Atlântico, me escreva, minha nossa, olha, o retrato de vôvô português.

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

Vou começar pela fotografia de um jovem de bigodes, apoiado num plinto de forma clássica, com um cenário palaciano atrás, imitando um apainelado francês, onde não falta sequer um candelabro em estilo Luís XV. É o típico retrato carte-de-visite, imitando as convenções da pintura do passado. 

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

A fotografia foi realizada no estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo, no Brasil. Esta associação dos fotógrafos Joaquim Feliciano Alves Carneiro (s.d.-1887) e Gaspar António da Silva Guimarães (s.d.- 874) esteve activa entre 1865 e 1875, com estúdios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por consequência, o retrato deste jovem português, que emigrou para o Brasil, terá sido feito antes de 1875.

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

A segunda fotografia brasileira deste álbum está identificada com a letra do meu trisavô como Dr. Francisco Teixeira de Magalhães e representa um cavalheiro muito distinto. O retrato foi executado na Fotografia Alemã, Henschel & Benque, no Rio de Janeiro. Esta firma fundada pelo alemão Alberto Henschel (1827-1882) iniciou a sua actividade em Pernambuco, no Recife e abriu a sua filial carioca na Rua dos Ourives em 1870, mas em 1877, mudou as instalações no Recife, do no 2, do Largo da Matriz de Santo António para a Rua Barão da Vitória, nº 52. Portanto esta fotografia foi executada entre 1870 e 1877.

Fotografia Alemã, Henschel & Benque, Rio de Janeiro

Quanto ao cavalheiro distinto que se fez retratar no mais prestigiado estabelecimento fotográfico do Rio de Janeiro é difícil saber exactamente quem foi. Teixeira ou Magalhães são nomes comuns em Portugal e em qualquer época da história ou em qualquer terra um Manuel Magalhães poderá ter casado com uma Maria Teixeira e o primeiro filho do matrimónio, baptizado como Francisco Teixeira de Magalhães. No entanto, há algumas hipóteses mais ou menos plausíveis. Quando escrevi sobre um dos amigos do meu trisavô, o Paulino Antunes Guerreiro, acabei por passar a pente fino algumas décadas dos registos paroquiais de Montalegre e de facto naquela terra, há uma família Teixeira de Magalhães e alguns dos homens com esse apelido, são franciscos. Faria sentido que este Francisco Teixeira de Magalhães fosse originário de Montalegre e conterrâneo do meu trisavô José Rodrigues Liberal Sampaio. Mas não tenho conhecimento que nenhum deles tenha emigrado para o Brasil e muito menos que se tenha licenciado. Aliás, é curioso, que este senhor foi a única personalidade deste álbum de retratos identificado com um título académico, dr., apesar de existirem várias fotografias de condiscípulos do meu trisavô, licenciados em direito ou teologia, o que talvez me leva a pensar que talvez tenha sido médico. E com efeito no Diário do Governo, n.º 52, de 08/03/1870, na página 1, há um referência a um Francisco Teixeira de Magalhães, médico, residente na cidade do Rio de Janeiro, agraciado com a comenda da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em atenção aos serviços que tem prestado em proveito do ensino publico, concorrendo com um valioso donativo para a construção, na vila de Paredes, de um edifício destinado ao estabeleci­mento de três escolas de instrução. Num boletim cultural da Câmara Municipal de Paredes, confirmei que o Comendador Francisco Teixeira de Magalhães, residente no Rio de Janeiro, Brasil, deu 12000$000 mil réis para ajudar à construção do edifício escolar Conde de Ferreira

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

O Dr. Francisco Teixeira de Magalhães terá sido um daqueles brasileiros de torna viagem, expressão, que designa homens, que enriqueceram no Brasil e regressaram ao país de origem, onde se tornaram membros proeminentes da comunidade. Alguns deles, à semelhança do célebre Conde de Ferreira, tornaram-se beneméritos na sua terra natal, patrocinando a construção de escolas primárias. Mas como terá conhecido o meu trisavô e em que ocasião lhe ofereceu o seu retrato?

O Padre José Rodrigues Liberal Sampaio foi um homem preocupado com a educação e mais ou menos entre 1875-1880 estabeleceu uma escola em Outeiro Seco, que funcionava informalmente, mas da qual há testemunhos de antigos alunos. Será que estabeleceu contactos com o Dr. Francisco Teixeira de Magalhães no sentido deste financiar uma escola pública em outeiro Seco?

O meu trisavô foi um pregador reputado na época e era chamado a fazer as suas predicas um pouco por toda à parte, inclusive na corte e poderá ter travado conhecimento com este Dr. Teixeira Magalhães em Vila Real, no Porto ou em Lisboa. Enfim, talvez, com a leitura das cartas do espólio familiar eu consiga resolver este enigma.

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

Numa foto já mais tardia, existe o retrato de um jovenzinho, que aparenta ter 17 ou 18 anos no máximo e que é a imagem clássica, que temos de todos os portugueses, que rumaram em direcção ao Brasil, ingénuos e cheios de esperança de fazer fortuna nesse país do futuro, segundo a feliz expressão usada por Stefan Zweig uns 50 anos mais tarde. Enfim, não sei nada deste jovem, que posa com as suas melhores roupas, sem esquecer um vistoso alfinete de gravata. Dá ate a ideia que o fato é de um tamanho acima do seu e alguém lho emprestou para o retrato. Em todo o caso tirar uma fotografia nesta época ainda era caro e posso presumir, que estaria ao cuidado de um tio ao de um padrinho, emigrado para o Brasil, há mais tempo e viveria com algum desafogo. 

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

A fotografia é do Teixeira Bastos, Rio de Janeiro. Segundo a Brasilianafotografica este Teixeira Bastos comprou a Manuel Garcia o atelier fotográfico Casa Garcia, que passou a dirigir com o nome de a Photographia do Commercio, na rua Sete de Setembro, em 1891 no Rio de Janeiro, mas em 1893, já estaria em Curitiba. Enfim, o retrato deste rapaz, que ainda nos olha com toda aquela ingenuidade da adolescência terá sido tirado à volta de 1891 ou 1892.

O Guimarães

A quarta e última foto e a mais tardia, foi tirada em Belém do Pará e está dedicada Oferece ao meu amigo Montalvão, seu amigo Guimarães. Certamente refere-se ao meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão. 

Foto de Fidanza, Pará. Dedicatória ao meu bisavô.

A fotografia deste senhor Guimarães foi tirada no estúdio de Filipe Augusto Fidanza (Lisboa, ca. 1847 - Belém (Pará), 20 de janeiro de 1903). No verso da foto refere-se que o artista foi premiado na Exposição Universal de Chicago, realizada em 1893 e portanto este retrato terá sido tirado depois dessa data. Talvez entre 1894 e 1900, mais ou menos. Ao Senhor Guimarães falta-lhe a distinção sóbria do Dr. Francisco Teixeira Magalhães, mas sobra-lhe em garridice. Repare-se no seu penteado, com uns caracolinhos artisticamente frisados na franja.


Enfim, pouco ou nada sei destas personagens, cujos retratos existem no álbum carte-de-visite do meu trisavô e disponibilizo-os aqui na esperança de que alguém no Brasil ou mesmo aqui em Portugal identifique uma destas fotografias. Este blog tem um público de seguidores muito fiel no Brasil e os fóruns de genealogia portugueses estão cheios de brasileiros à procura dos seus antepassados, pedindo ajuda para encontrar os registo da bisavó ou trisavô, uma Maria Morais ou um Francisco Silva, dos quais pouco ou nada sabem, excepto que nasceram algures em Trás-os-Montes. É certo que uma boa parte deles pretende fundamentar com documentos pedidos de nacionalidade portuguesa, mas muitos procuram sinceramente encontrar as suas origens, tentando responder a algumas das grandes questões existenciais que se colocam a todos: de onde viemos; o que somos;  e para onde vamos.

Alguns links consultados: 








domingo, 13 de março de 2022

Uma menina em biscuit ou para onde foram todas flores


O meu encanto por estas figurinhas em biscuit alemãs do início o século XX mantém-se e comprei esta menina por um bom preço, pois foi quebrada aqui e acolá. A cabeça da boneca que a criança segurava partiu-se e os pés da base também já viram melhores dias.

Marcas de série: 5673, 26 e 21

Não apresenta nenhuma marca de fabrico, mas apenas números de série, 5673, 26 e 21, que se reportam certamente ao molde e ao pintor. Contudo encontrei uma figurinha igual à venda na net, com a marca da E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn, empresa que esteve activa entre 1890 e 1927 na Turíngia, essa região alemã onde se concentraram dezenas de fabricantes de porcelana e figurinhas em biscuit.

A figurinha que esteve à venda no e-bay, tem uma orla na base em latão doirado e a minha está em biscuit, decorada com uma baia.


Não há muitas informações sobre estas fábricas, cujos arquivos se perderam com a guerra em 1944 e 1945 ou talvez por eu não perceber nada de alemão, não consiga encontrar informações pertinentes. Ultimamente penso muitas vezes que nos fazem falta a todos umas luzes de alemão, para podermos aceder a uma cultura tão rica na Europa, mas a última grande guerra tornou essa língua pouco apetecível, diria quase malquista, o que é uma pena.


Seja como for, esta figura representa uma menina a estudar na sua carteira, mas ela não é exactamente um modelo de bom comportamento. Já descalçou um sapato e enquanto faz os deveres numa tábua de lousa, segura a boneca e uma maça. A pasta está no chão atirada a trouxe-mouxe e e a menina está toda mal sentada. Enfim, tudo se encontra num desalinho, muito pouco germânico. 


Confesso, que talvez a tenha comprado porque me recordou a minha própria filha a estudar, sempre mal sentada, tudo espalhado por todo o lado e ao mesmo tempo com o telemóvel a fazer toda a espécie de ruídos e toques. Creio que eu próprio terei sido assim na minha meninice. 


Aliás, o encanto destas figurinhas de biscuit é que gravaram num material perene aqueles momentos de travessura ou garotice da nossa infância, da dos nossos filhos ou de crianças que viveram há mais de 100 anos. Hoje, que sou um adulto que tenta ser sério a todo o custo, a minha filha já é uma mulher e as meninas que foram as minhas avós e bisavós, morreram há muito tempo pergunto-me para onde foram esses momentos de inocência, para onde foram todas essas flores e essas meninas, como cantava Marlene Dietrich, em Sag Mir Wo Die Blumen Sind, que foi uma menina alemã, mais ou menos na altura em que esta peça em biscuit foi fabricada.