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segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A alegria das cores: um prato de peixes possivelmente Bandeira



Já há muito tempo que o meu amigo Manel comprou este prato de faiança portuguesa do século XIX e eu andava com vontade de o apresentar aqui, pois é tão bonito. Mas, como é hábito na faiança portuguesa, não está marcado e é sempre um risco escrever sobre peças de faiança portuguesa sem qualquer identificação do fabricante, de modo que fui protelando a publicação deste post.

O prato não tem marca

Mas as cores com que está pintado são tão alegres e combinam tão bem com o Verão, que não resisti a escrever sobre ele.



Em primeiro lugar, acho uma graça louca ao motivo central, o peixe com o garfo e a faca, talvez porque ainda me lembre de ver este tipo de talheres como cabo em osso, a uso na velha casa de família de Vinhais. Recordo-me que nessa altura, na minha meninice, já tinham saído da sala de jantar e eram usados pelos criados. Mais recentemente, há cerca de uns vinte anos o meu pai salvou-os do lixo e resolveu, arranjar uma tábua de castanho e pendurar lá estes velhos talheres, semelhantes aos do prato. 

Os antigos talheres da casa de Vinhais

Também há aqui um pormenor curioso. A parte metálica do talher está representada num tom qualquer de amarelo. Até cheguei a pensar que quem pintou este prato pretenderia reproduzir um talher numa liga qualquer de cobre com um tom dourado. Mas fiz alguma pesquisa sobre estes pratos com peixes na base de dados do matriznet e encontrei uns quantos pratos atribuídos à Fábrica da Bandeira, com o motivo do peixe e talheres, com as partes metálicas dos garfos e facas pintadas a azul!

Prato do Museu Nacional de Soares dos Reis

Portanto, quem pintava estes pratos estava mais preocupado com o efeito das decorativo das cores, do que propriamente com uma pintura realista dos objectos. Embora seja um ignorante em matérias de ictiologia, duvido também que nas costas portuguesas existam peixes vermelhos e azuis.

Aliás, este gosto pela cor, é também muito visível na orla do prato, com uma mistura de folhas e flores feitos à estampilha. Aliás, creio que esta decoração da orla do prato é característica da fábrica de Bandeira ( ca.1828- ca.1913), embora não tenha encontrado em livros ou na net nenhum prato com uma cercadura exactamente igual a esta. Mas também tenho ideia que as faianças portuguesas desta época, meados do século XIX, nunca são iguais. Embora usassem estampilha, cada peça era única, ou porque o motivo central variava, ora porque nas bordas os azuis, os amarelos ou os vermelhos mudavam de tom, consoante a preparação das tintas, que embora fossem feita segundo receitas, as cores nunca saiam rigorosamente iguais. Também a criatividade destes pintores de cerâmica era enorme, como é bem visível neste prato.


Meninos gordos / Isabel Maria Fernandes. Porto: Civilização, 2005


Enfim, este prato decorado com um peixe, talheres e flores em cores vivas terá sido fabricado em meados do século XIX, algures entre Gaia e o Porto, possivelmente na Fábrica de Bandeira.


sexta-feira, 12 de março de 2021

Um bule de faiança portuguesa


Ultimamente tenho escrito pouco aqui sobre faiança portuguesa, que começou por ser um tema muito forte nos primeiros anos deste blog. Contudo, além de comprar menos peças de faiança, pois a minha casa de uma assoalhada e meia está cheia que nem um ovo, também sinto que tenho pouco a acrescentar ao assunto. A maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX não se encontram marcadas e parece-me que ando sempre aqui a especular, afirmando se a pasta é amarelada é porque são peças fabricadas na região centro, se pelo contrário, a pasta é branquinha, serão produções do Porto ou de Gaia. Claro, por vezes sai uma nova publicação de faiança e nessa altura, consigo escrever sobre uma terrina ou um prato e atribui-la com alguma segurança a um centro de fabrico.

Mas a faiança portuguesa do século XIX é sempre tão bonita, que por vezes não resisto a apresentar aqui uma peça, com este pequeno bule, comprado há cerca mais de dois anos e depois a faiança desta época é tão fotogénica à luz do dia, que apetece partilhar aqui as fotografias que delas vou fazendo.

Uma inspiração num emaranhado de ramos

A decoração é qualquer coisa que hesito em escrever se tenta reproduzir o efeito de um marmoreado se o efeito de um emaranhado de ramos. Inclino-me mais para que seja um motivo vegetal, até por comparação com uma grande travessa que o meu amigo Manel tem em casa, onde é mais nítida essa inspiração num emaranhado de ramos. Olhando para a travessa e este bule, poder-se ia dizer que saíram da mesma oficina, mas a primeira apresenta uma pasta muito branquinha, mais característica das produções do Norte e este bule é um pouco mais grosseirão. Mas também a graça destas faiança portuguesa é este ar ingénuo, em que cada peça é única, pois o pintor nunca faz exactamente os mesmo traços, de bule para bule ou de terrina para terrina. Por esta razão as faianças portuguesa do século XIX ficam muito bem fotografadas tendo azulejos portugueses antigos como pano de fundo, pois estes também nunca são bem iguais.


Em suma, não sei muito acerca deste bule, talvez por uma mera intuição me pareça da região centro. A decoração parece-me inspirada num emaranhado de ramos, mas já é uma coisa tão abstracta, que também é difícil concluir qualquer coisa. Creio que os pintores destas peças eram tão criativos, que esqueciam-se do motivo original de inspiração e pintavam qualquer coisa que saia da cabeça deles, quase como o processo de escrita automática, que mais tarde os surrealistas procuram desesperadamente alcançar, mas que vítimas da sua cultura sofisticada, tinham mais dificuldade em concretizar que estes humildes ceramistas.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Travessa de Estremoz e terrina de fabrico desconhecido

Não há muito tempo, o meu amigo Manel comprou este belo conjunto de terrina e travessa na feira de Estremoz. São faianças decoradas à moda da faiança de Ruão, muito típicas de toda a produção portuguesa dos últimos trinta e cinco anos do século XVIII. Creio eu que quase todas as fábricas portuguesas de Estremoz a Viana do Castelo executaram louças com esta decoração e por essa razão, se as peças não estão marcadas, o que acontece quase sempre, é um sarilho identificar-lhes o fabricante.


Contudo a travessa deste conjunto apresenta uma marca no tardoz. No início, o Manel pensou tratar-se de uma marca da fábrica do Cavaquinho de Vila Nova de Gaia, pois é de facto parecida, com a que aparece reproduzida como o nº 121 no Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro.
CX. Marca da travessa de faiança do meu amigo Manel
Contudo, algum tempo mais tarde, tive o prazer de conhecer pessoalmente Isabel Maria Fernandes, autora do livro sobre os Meninos Gordos e que tem colaborado com textos seus em catálogos, como A fábrica de Vilar de Mouros, ou A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo e claro, acabámos os dois a ter uma longa cavaqueira sobre faiança e esta especialista em cerâmica alertou-me para o facto de ser saído um artigo muito inovador de Hugo Alexandre Guerreiro, sobre a faiança de Estremoz. Neste texto, publicado no nº 4 da revista de Olaria o autor relaciona uma marca da Fábrica, CX, com um mestre daquela fábrica, Sebastião Lopes Gavixo.

Travessa de Faiança de Estremoz, 1774-1775. Marcada com as iniciais CX. Col. Joaquim Torrinha. Foto reproduzida de Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro 

Lembrei-me da marca da travessa do Manel e logo que pude, corri a consultar o artigo da revista de Olaria e com efeito a marca da travessa do Manel é igualzinha, aquela reproduzida na revista, bem como a própria travessa, onde está a dita marca, é em tudo idêntica à do Manel.

O texto de Hugo Alexandre Guerreiro é muito interessante e dá-nos conta de três mestres que trabalharam na fábrica de Estremoz, cruzando as informações obtidas nos livros de passaportes, com outras investigações já feitas por Alexandre Nobre Pais e João Pedro Monteiro, publicadas no nº 5 e 6 (1997-98) da revista Callipole, com o título A Faiança de Estremoz: um contributo para a história do seu fabrico.

O primeiro é Sebastião Lopes Gavixo, mencionado no processo de licenciamento da Fábrica de Miragaia como um mestre que aprendeu a sua arte na Fábrica do Rato, com Tomás Burneto, trabalhou na Fábrica de Massarelos e depois e na Fábrica de Estremoz.



Hugo Alexandre Guerreiro cruza estes dados com os registos de passaporte da Câmara de Estremoz, pois nas sociedades do antigo regime não havia livre circulação de pessoas e bens dentro do País e consegue surpreender os movimentos deste Sebastião Lopes Gavixo, bem como de outros dois mestres, Luís Freme de Rosa e Joaquim Freme de Rosa. A partir dos dados dos passaportes, o autor consegue perceber que os dois últimos senhores, que já se dedicavam à olaria, se deslocaram ao Porto, para aprender a técnica da faiança em Massarelos, onde terão conhecido Sebastião Lopes Gavixo. Certamente o terão convidado para nova fábrica de louça fina que estava a arrancar em Estremoz e doravante os três exercerão a sua actividade como mestres, na fábrica daquela cidade.


Ainda através dos registos de passaporte da Câmara de Estremoz, o autor identifica a área geográfica onde a Fábrica de Estremoz consegue vender os seus produtos, isto é, as feiras do Alentejo, de Setúbal, de Lisboa e ainda das povoações ribatejanas. Por último, estabelece novas datas de laboração da Fábrica de Estremoz, 1774-1806.

Em suma, a travessa do Manel foi fabricada em Estremoz, marcada com as iniciais do mestre Sebastião Lopes Gavixo, cuja actividade decorreu nesta cidade entre 1774-1775.



O problema é a identificação da terrina, que não está marcada. Embora a decoração seja muito semelhante a travessa, não é exactamente igual. A pasta também é mais branca, que a travessa, mas essa diferença, pode-se dever ao facto que nos fornos onde eram cozidas as peças a temperatura não era uniforme em baixo ou em cima e nem de fornada para fornada, conforme já explicou o ceramista Jorge Saraiva no blog da Maria Isabel. No catálogo A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo está reproduzida uma terrina com um formato semelhante, mas a decoração embora seja parecida não é igual. Enfim, é muito complicado saber se a terrina também é de Estremoz ou de uma outra fábrica qualquer, que tivesse laborado na mesma época, até porque como vimos ao longo deste texto, os mestres circulavam de fábrica para fábrica, de Lisboa para Gaia, de Gaia para Estremoz e novamente para Gaia e por consequência, todas as peças com esta decoração ruanesca apresentam o mesmo ar de família.


Bibliografia consultada:

Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro
in
Olaria. - Barcelos: Câmara Municipal de Barcelos, nº 4 (2008-2010), p. 68-117

Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopeira de faiança portuguesa: cores como num um arco-íris

 
Escrever sobre faianças portuguesas do século XIX é sempre ingrato, pois as peças não eram marcadas, as fábricas copiavam os padrões e os modelos umas das outras e quanto muito, conseguimos afirmar sem grande fundamentação, que uma peça é da zona centro, porque a pasta é mais amarelada ou é do Norte, porque a pasta é mais branquinha e o vidrado de melhor qualidade. Por vezes temos a sorte de encontrar num museu ou no num livro de arte uma peça idêntica à nossa e lá conseguimos dizer “isto deve ser Vilar de Mouros, Miragaia, ou Santo António de Vale da Piedade”. Mas, a maior parte das vezes as perguntas que fazemos sobre o centro de fabrico ou datação das nossas peças ficam sem resposta. Atribuímos esta ou qual peça a um centro de fabrico mais ou por intuição ou por experiência do que baseados em provas concretas.
 
Como a maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX, esta sopeira não está marcada.
 
É o caso desta pequena terrina que comprei recentemente. A boa qualidade do vidrado e as cores vivas levam-me a intuir que será uma peça do Porto ou Gaia, fabricada algures na segunda metade do XIX. Mas, não consegui encontrar nada que sustente esta teoria. Percorri os catálogos da exposição do António Capucho e do respectivo leilão, da fábrica de Vilar de Mouros, de Miragaia, dos Meninos Gordos, a tese sobre Santo António de vale da Piedade de Laura Cristina Peixoto de Sousa e ainda Itinerário da faiança do Porto e Gaia e não encontrei nada igual.
 
Fragmento de louça de Santo António de Vale da Piedade. Este tipo de flores encontra-se em quase toda a faiança portuguesa. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista"
A decoração é feita com umas flores muito simples, que poderiam ter sido pintadas em qualquer época ou em qualquer ponto do País. A Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, Massarelos, Bandeira e se calhar também em Coimbra usaram estas flores muitos simples na pintura das suas peças. Aliás, se a um de nós nos pedissem para desenhar umas flores rapidamente, faríamos umas iguaizinhas a estas. A decoração foi feita à estampilha, técnica usada por todas as fábricas ali no Porto e em Gaia, naquela época. Quanto à forma circular, também é muito comum. Até já apresentei uma dessas terrinas aqui no blog, que nunca sei se é Bandeira ou Fervença. Segundo a obra Itinerário da faiança do Porto e Gaia as terrinas circulares designavam-se pelo termo sopeiras.
 
Estampilha de tampa de recipiente da fábrica de Massarelos (MNSR).  Um artefacto semelhante a este foi usado para decorar a minha terrina. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista.
Em suma, posso apenas adiantar um palpite, de que esta sopeira foi fabricada algures pela segunda metade do Séc. XIX no Porto ou em Gaia. Contudo, apesar do anonimato em que se esconde o fabricante ou o artista, que concebeu desta sopeira de pequenas dimensões, não lhe faltava criatividade e houve aqui uma espontaneidade no uso das cores vivas, que ainda hoje nos desperta a admiração. Parece que de repente ouvimos ao longe aquela música Cindy Lauper, true colors, que encoraja as pessoas a não terem medo de mostrar as suas verdadeiras cores ao mundo.
 
 

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow


sábado, 8 de outubro de 2016

Chávena de faiança com um casario usado pela fábrica de Vilar de Mouros.

Cada vez que sai um livro novo sobre faiança, nós, os amadores de faiança, corremos a compra-lo e a comparar tudo o que ali é reproduzido com as loiças antigas lá de casa, que há muito aguardam identificação. Para os menos familiarizados com a faiança portuguesa, há que explicar que raras são as peças marcadas, os fabricantes usavam decorações e moldes semelhantes, de modo que tentar atribuir uma terrina ou um prato do século XIX ou início do XX a um centro de fabrico, Porto, Lisboa, Coimbra ou Viana é um risco, que pode significar um erro grosseiro. Por essa razão, a publicação de novos catálogos ou monografias sobre faiança é tão importante para ajudar o coleccionador amador a identificar as suas peças.

Recentemente foi publicada a obra A fábrica de Vilar de Mouros/ Paulo Torres Bento [et al]. – Vilar de Mouros: CIRV; Câmara Municipal de Caminha, 2015, que teve o grande mérito de apresentar a história e a produção de uma fábrica de que ninguém sabia quase nada. Segundo palavras de Isabel Maria Fernandes no prefácio da obra, este estudo foi feito a partir de (…)algumas centenas de fragmentos recolhidos onde a fábrica funcionou, a que se juntou um conjunto de peças que se encontram na mão de alguns familiares dos antigos proprietários da fábrica ou de pessoas com eles relacionados. Portanto, este é um livro sério, que se baseia em fontes seguras e não numa mera análise de semelhanças de decorações.
No centro está um templete, um pagode ou um chalet, que a Fábrica de Vilar de Mouros usou nas suas produções
Porém, após a leitura do catálogo A fábrica de Vilar de Mouros ficamos ainda mais confusos. A produção de Vilar de Mouros entre 1855 e 1920 é muito semelhante a de outras fábricas do Porto e de Gaia. Algumas das peças ali mostradas nós juraríamos a pé juntos que eram Fervença, outras poderiam eventualmente ser inspiradas em Miragaia, manufacturadas por uma fábrica qualquer de uma das margens do Douro. Há também louça de Vilar de Mouros facilmente confundível com Viana e uma ou outra coisa semelhante às faianças de Coimbra. A Fábrica de Vilar de Mouros fabricou ainda o motivo cantão popular, que os consumidores portugueses do século XIX e da segunda metade do XX adoravam. No fundo, este livro reforçou a ideia que todas estas fábricas portuguesas se copiavam muito umas às outras, até porque precisavam de satisfazer o mesmo gosto dominante do Portugal de então.
Imagem retirada de  A fábrica de Vilar de Mouros/ Paulo Torres Bento [et al]. – Vilar de Mouros: CIRV; Câmara Municipal de Caminha, 2015


Tudo isto vem a propósito de uma chávena com pires que o meu amigo Manel comprou na Feira de Estremoz e que apresenta uma espécie de templo, chalet ou pagode, idêntico a uma terrina de Vilar de Mouros, cuja fotografia está reproduzida na página 107 do livro em causa. Essa terrina está atribuída ao segundo período da fábrica, que decorre entre 1900 e 1920.
 
Imagem retirada de  A fábrica de Vilar de Mouros/ Paulo Torres Bento [et al]. – Vilar de Mouros: CIRV; Câmara Municipal de Caminha, 2015



Claro, esta semelhança não significa que forçosamente a chávena do meu amigo Manel seja de Vilar de Mouros. Pode tratar-se de um motivo decorativo usado por mais que uma fábrica de faiança, como por exemplo, a decoração chinesa do cantão popular. Por outro lado, a faiança da chávena do meu amigo Manel parece de melhor qualidade, que a terrina mostrada no livro. Até tem no tardoz do prato um motivo em relevo feito com muita qualidade e a pasta é mais branca. Mas, pode dar-se o caso de as cores no catálogo não terem ficado bem resolvidas. Quem já trabalhou na edição de publicações de arte sabe que por vezes os gráficos não acertam com as cores e as imagens são publicadas com tons empastelados. A chávena e pires que pertencem ao meu amigo Manel parecem mais antigas, talvez do século XIX, e a terrina publicada no catálogo de Vilar de Mouros está datada do período entre 1900-1920. Enfim, pode dar-se o caso de este ser um motivo repetido ao longo de várias décadas de laboração da fábrica ou então a chávena parecer mais antiga, por causa da ingenuidade da composição. As obras ingénuas parecem sempre ancestrais, porque repetem fórmulas e decorações antigas.
No tardoz do pires há um filete picotado muito bonito

Enfim, não posso fazer muito mais do que afirmar que o motivo decorativo da chávena do Manel é idêntico ao de uma terrina fabricada por Vilar de Mouros. Juntei duas peças de um puzzle. O resto virá com o tempo.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Faiança Portuguesa: comparar sem concluír


Neste blog já se tem escrito muitas vezes sobre a dificuldade em identificar os centros de fabrico ou fábricas de muitas da faianças portuguesas do século XIX, pois raramente estão marcadas e muitas vezes e apresentam decorações muito semelhantes, já que procuravam corresponder a um gosto dominante do publico. Ainda recentemente comprei o livro A Fábrica de Louça e Vilar de Mouros / Paulo Torres Bento [et al]. Vilar de Mouros: Centro de Instrução e Recreio Vilarmourense: Câmara Municipal de Caminha, 2015 e fiquei baralhadíssimo. Aquela fábrica produziu peças que até há pouco tempo acreditava serem da região centro, outras que se costumam atribuir à Fervença e ainda muitíssimo cantão popular, que como toda a gente sabe, os chicos-espertos do mercado de velharias afirmam a pé juntos que é Miragaia. É um livro muito interessante, que recomendo a todos os amantes da faiança, mas que nos faz pensar ainda mais no perigo de fazer atribuições de fabrico com ligeireza. Por vezes penso, que talvez fosse mais interessante na faiança estudar os gostos dominantes no público ao longo do século XIX, do que concentrarmo-nos tanto na questão da atribuição do local de fabrico através dos motivos decorativos.

Estas linhas, que acabei de escrever, servem para justificar que a associação de peças que hoje apresento, não tem por objectivo classificar ou catalogar faianças. Pretendo apenas fazer uma associação de padrões que parecem mostrar um certo ar de família e que corresponderam a um gosto do público, que talvez diferentes fabricantes procuraram satisfazer.

O primeiro prato apresenta uma decoração algo familiar com o padrão das perdizes, que já foi mostrado pela Ivette Ferreira no seu blog, tempo e histórias . Em vez da perdiz, o prato representa um passarinho. A Maria Isabel mostrou também um prato encantador como este no seu blog e associou-o muito bem ao padrão das perdizes, mas atribuiu-o a fábricas do Norte, Vilar de ou Mouros ou Bandeira, a meu ver sem fundamento, mas cada um é livre de pensar o quer e o mundo seria uma coisa cansativa se estivéssemos sempre de acordo.

Julgo que a faiança decorada com o passarinho tem com uma cor de fundo demasiado creme para ser do Norte, pelo menos comparando com o que vi atribuído a Bandeira, cuja pasta tem sempre uma cor de fundo mais branquinha. Do que observei do livro A Fábrica de Louça e Vilar de Mouros, também não encontrei nada nem de perto nem de longe parecido com este pratinho.
 

A segunda peça é uma chávena de faiança linda comprada a um preço irrecusável, também de uma faiança tosca, decorada com uns motivos vegetais muito sóbrios, que o Manel interpretou como estilização da Salsa prestes a florir.


Talvez respondendo uma intuição qualquer resolvi juntar a chávena com o prato do passarinho e as duas peças parecem que foram feitas uma para a outra.


Este ar de família da decoração e da cor da pasta podem não indicar que foram produzidos pela mesma manufactura. Significará antes que a chávena e o prato foram manufacturados de acordo com um mesmo gosto. O mesmo se passa com o chamado padrão das perdizes. É talvez a única conclusão segura que posso tirar desta associação. Mas, também, o tempo quente que se faz agora sentir convida mais à contemplação destas faianças de ar campestre, do que a especulações sobre fabricantes.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Faiança portuguesa ou o Mestre das Folhagens


Hoje apresento aqui dois grandes pratos de faiança portuguesa, certamente do século XIX e dos quais não sei nada, além de que são bonitos. Não apresentam qualquer marca e também encontrei nada que se lhe assemelhasse nos catálogos de faiança, que tenho lá em casa, de modo a ter uma pista para identificar o seu fabricante ou local de produção. Aliás, estes dois pratos, que pertencem ao meu amigo Manel, são quase paradigmáticos do conhecimento que se tem de uma boa parte da faiança portuguesa do século XIX, quer dizer, há peças fantásticas e muito criativas, mas como não estão marcadas, pouco ou nada se sabe delas e limitamo-nos quase sempre a escrever meia dúzia de impressões, que podem perfeitamente estar completamente erradas, e, é precisamente isso que irei fazer neste post.

Pela boa qualidade da faiança ou talvez por mera intuição, eu diria que estes enormes pratos foram fabricados algures em Gaia ou no Porto.

A decoração com motivos vegetais distribui-se assimetricamente pelas orlas dos pratos. É uma pintura de uma grande simplicidade, com os elementos estilizados de uma elegância despojada, quase japonesa, o que me faz pensar se não serão peças já posteriores a cerca de 1870-1880, quando a moda do japonismo aparece na cerâmica europeia. Contudo, mais a Sul, em Coimbra as oficinas de faiança produziam os modestos pratos ratinhos, que apresentam igualmente decorações assimétricas e por vezes despojadas, mas duvido que esses mestres coimbrões soubessem sequer o que era o Japão. Na prática, fico na dúvida se estes dois pratos são uma visão da natureza profundamente popular, que se encontra na também louça ratinha, ou se são uma interpretação popular de uma moda mais cosmopolita e erudita, como foi o japonismo na arte europeia nos últimos 20 ou 30 anos do século XIX.


Igualmente baseado numa intuição, julgo que estes dois pratos saíram da mesma fábrica e talvez até das mãos do mesmo artífice. Apetece-me fazer como os historiadores da pintura primitiva europeia, que criaram designações poéticas para oficinas de pintores, cujos nomes não conseguiam identificar, como por exemplo os Maîtres à l'œillet ou o Mestre do Retábulo do Paraíso. O artesão que decorou estes dois pratos merecia bem ficar na história da cerâmica como o mestre das folhagens.

Em todo o caso, seja lá qual foi a inspiração que moveu as mãos deste mestre das folhagens, o trabalho que deixou nestes pratos evidencia bem a enorme criatividade da faiança portuguesa do século XIX.
 
 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Chávenas de faiança possivelmente do Porto ou Gaia

Quem se dedica a comprar ou a admirar a faiança portuguesa dos século XIX e boa parte do século XX, já se apercebeu que a maioria das peças não estão marcadas e que as atribuições a esta ou aquela fábrica, ou até mesmo a um centro regional de fabrico são sempre um tiro no escuro.

A Ivete Ferreira, especialista em faiança ratinha e com a experiência acumulada de muitos anos no contacto com a cerâmica, escreveu há pouco tempo no seu blog, que só se pode fazer uma atribuição indiscutida se as peças tiverem a marca bem estampada e evidente. Por maior que sejam as nossas inclinações e (in)certezas (pasta, vidrado, paleta cromática, ornamentação, formato ...) as filiações são difíceis.

No mercado das velharias e antiguidades tornou-se hábito atribuir grande parte da faiança fabrica no Porto e em Gaia à fábrica de Miragaia. Imagem enviada por Ivete Ferreira do leilão da CM, realizado em Abril de 2013
Julgo que este é um bom princípio a tomar quando começamos a tentar saber mais sobre as faianças que comprámos. Claro, isto não quer dizer que devemos desistir de identificar as peças que coleccionamos e que devemos pendura-las na parede, esquecer completamente a sua existência, até ao infeliz momento em que teremos de lhes limpar o pó. Pelo contrário um dos interesses de coleccionar ou adquirir velharias é precisamente acrescentar o nosso conhecimento, procurando informações em livros da especialidade, ou visitando museus.

Hoje apresento aqui um conjunto de duas chávenas e um pires em faiança, com os quais tentarei fazer algumas associações em termos de formas e decoração com outras peças já aqui apresentadas, mas sem a pretensão de tirar conclusões.
As duas chávenas lado a lado numa evocação do blog, arte, livros e velharias
As três peças foram compradas na Feira de Estremoz pelo Manel, que teve a gentileza de me oferecer a chávena sem o pires. A primeira associação possível destas três peças é com uma chávena de faiança atribuída a SantoAntónio de Vale da Piedade, que já aqui mostrei.
Embora a decoração seja diferente, o molde a partir do qual estas chávenas foram executadas deve ter sido muito semelhante. Há apenas pequenas diferenças entre elas. No tardoz, no espaço delimitado pelo frete, a chávena em tons de azul é lisa, enquanto a chávena de chávena de Santo António de Vale da Piedade, tem uma saliência em formato de conezinho. Na chávena pintada com o casario o recipiente é menor que a xícara de Santo António de Vale da Piedade. Mas em todo caso, ambas saíram de um molde semelhante.
A segunda associação possível é com uma caneca proveniente da antiga colecção António Capucho. Quando fotografei as xícaras com a caneca e depois as vi no computador, não pude deixar de me surpreender com o ar de família tão evidente nas cores alegres, no vidrado e na decoração com que surgiam na fotografia, e pensei que todas elas teriam saído da mesma fábrica. Porém, é mais possível que correspondam a um gosto do público por louça de cores vivas, que todos os fabricantes do Porto e Gaia procuravam ir ao encontro, em meados do século XIX.


Depois olhando bem para esta simpática xícara, reconhecemos de imediato alguns elementos decorativos, as folhas das árvores e a mancha do chão, que são obviamente copiados do motivo país, da Fábrica de Miragaia.

Quanto ao casario, não vale a pena especular sobre ele. São as casinhas que todos nós desenhávamos na infância e que ainda hoje somos capazes de desenhar numa folhinha qualquer, enquanto atendemos no serviço a chamada de algum maçador, e que estão presentes em quase toda a faiança portuguesa mais ingénua.

Obviamente não posso concluir nada sobre o possível fabricante destas chávenas. Serão talvez de uma daquelas muitas fábricas do Porto e Gaia, quase vizinhas umas das outras, em que havia entre elas uma intensa troca de moldes, decorações, operários e mestres até patrões. Terão sido produzidas numa época, talvez à volta de meados do século XIX, um pouco antes, um pouco depois, em que estava na moda esta louça muito colorida.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Prato de faiança do Norte ou o fascínio pela abstracção

Este enorme prato de faiança que pertence ao meu amigo Manel é uma daquelas peças típicas da faiança portuguesa do século XIX. São muito bonitas, ingénuas, foram decoradas por gente muito imaginativa, que pintava com traços rápidos, não estão marcadas e ninguém parece saber nada acerca da origem delas.

É um prato com cerca de 36 cm de diâmetro, o que os especialistas de cerâmica designam por palangana, embora pense que este termo terá origem em algum regionalismo da zona Centro ou Sul. Por exemplo, em Trás-os-Montes, há cerca de 60 anos, o meu pai ainda se recordava de ver os trabalhadores agrícolas de uma casa senhorial a comerem todos com o auxílio de um faca ou de um pedaço de pão de um enorme prato, a que se chamava fonte, termo aliás que os espanhóis ainda usam para nomear uma travessa. Enfim, julgo que este prato ainda será de um tempo em que o uso dos pratos individuais ainda não estava generalizado por todas as classes sociais, talvez entre 1840 ou 1860.

A decoração é ingénua e quem o decorou tinha o gosto pela abstracção, pintando linhas sinuosas que conduzem a todo lado e a lado nenhum, entremeadas com pequenas flores. Aliás, acho sempre graça às obras abstractas, criadas muito antes de os artistas plásticos terem reinventado esta arte no início do século XX, em Paris. Enquanto os modernistas de Paris criaram o abstraccionismo, fruto de uma atitude intelectual, conceptual mesmo se quisermos usar um palavrão, o artista que pintou este prato criou espontaneamente esta decoração, provavelmente sem ter lido nenhum livro na vida ou sem ter frequentado uma tertúlia artística num café.

http://www.amleiloes.pt/cp2
Quanto ao seu fabrico é naturalmente um mistério, pois não ostenta nenhuma marca no verso. Talvez a boa qualidade da faiança, nos leve a pensar que seja do Porto ou Gaia, mas é uma mera intuição. Há uns anos encontrei uma fotografia de um prato decorado certamente pelo mesmo artesão, que pintou o prato do Manel, num catálogo de uma leiloeira, do qual perdi a referência e estava atribuído à fábrica do Monte Cavaco, mas como toda a gente sabe nestes catálogos dos leilões as atribuições são um bocadinho apressadas. Também em outros catálogos de leilões encontrei pratos com decorações semelhantes cujo fabrico é identificado como sendo do Norte, o que é muito vago para nos satisfazer.

Em suma, não se sabe muito deste grande prato, mas não há dúvida que as suas linhas, recordando-nos que estamos numa estrada a caminho de lado nenhum, fascinam-nos.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Uma caneca de faiança do Norte

Esta caneca de faiança foi comprada pelo meu amigo Manel a um dos descendentes de António Capucho, que para quem não saiba, foi um dos mais importantes coleccionadores de cerâmica em Portugal. Por essa razão, esta peça tem desde logo uma marca de qualidade e de certa forma um peso histórico. Manusear ou admirar esta caneca colorida é experimentar estar dentro da casa de António Capucho, rodeado das melhores faianças portuguesas.

O Manel e eu temos dificuldade em atribuir esta caneca um fabrico em particular, pois não está marcada. Conhecemos a fonte de inspiração da sua decoração, que é motivo decorativo país produzido pela fábrica de Miragaia, entre 1822-1850, que por sua vez uma é adaptação livre do padrão View in the Fort Madura, da Herculaneum Pottery, de Liverpool.
Covilhete de Miragaia. Foi o motivo decorativo desta peça que serviu de inspiração à Caneca do Manel

 Através do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 2008, sabemos que as Fábrica de Santo António de Vale da Piedade em Gaia e Viana, no Minho copiaram este motivo, mas aqui, neste círculo de blogues já se apresentaram mais peças, que são uma variante deste motivo país e para os quais ninguém conseguiu fazer uma atribuição fundamentada. 

Presumimos que será do Norte, até porque o motivo País começou em Miragaia, no Porto. Mas, em meados do século XIX e até já antes de 1848, conforme mostrou Laura Cristina Peixoto de Sousa na sua tese A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista, as fábricas do Porto e Gaia tinham tornado moda a louça com coloridos fortes. Fervença, Bandeira e Santo António de Vale da Piedade produziram esta loiça muito colorida. As escavações arqueológicas feitas diante da Cadeia da Relação, (1899-90) na cidade do Porto, trouxeram à luz do dia muita desta louça de cores vivas, datadas entre 1850-1870. 
As escavações feitas diante da Cadeia da Relação, (1899-90) na cidade do Porto, trouxeram à luz do dia muita desta louça colorida, datadas entre 1850-1870. Repare-se nas canecas no canto superior direito. Itinerário da faiança do Porto e Gaia. Lisboa: IMC, 2001
Aliás na referida tese Laura Cristina Peixoto de Sousa, encontrei uns quantos fragmentos de canecas coloridas fabricadas por Santo António de Vale da Piedade antes de 1848.
Foto de Laura Cristina Peixoto de Sousa  A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista

Contudo, entre 1840-70, existiam tantas fábricas no Porto em Gaia, das quais conhecemos tão pouco,  como as Fábrica do Alto da Fontinha, das Palhacinhas, do Carvalhinho, da Afurada ou do Senhor do Além, entre outras, que talvez também tenham produzido louça com um colorido vivo, que afirmar que esta caneca é Santo António Vale da Piedade, Miragaia ou Afurada, significa correr um grande risco e escrever um disparate.

Em suma, este não é um post conclusivo, é antes uma exposição de várias hipóteses plausíveis sobre o fabrico desta caneca de grandes dimensões.

Em todo o caso, seja ela, o que for apresenta todas as qualidades que tornam a faiança portuguesa do século XIX tão atractiva, a ingenuidade e um traço rápido de pintura.