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domingo, 12 de julho de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX: continuação 2

 

Exma. Sra. Anna Maria da Comceição Negocianta opé da Rua Ponte de Chaves


Como já contei aqui no blog a minha quarta avô Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), foi uma negociante em Chaves, com estabelecimento comercial da Rua da Ponte no Bairro da Madalena.

A memória da existência desta Senhora estava esquecida da família, mas felizmente o espólio documental foi conservado e através de cartas, facturas e documentos legais consegui reconstituir um pouco da sua actividade e existência. A minha irmã ficou tão impressionada, com esta antepassada que rapidamente a designou como a Ferreirinha da família, uma alusão à célebre D. Antónia Adelaide Ferreira (1811–1896), essa lendária empresária do comércio e produção do Vinho do Porto. As duas senhoras eram até mais ou menos da mesma geração.

Umas das personagens importantes da vida de Ana Maria da Conceição foi o seu cunhado Francisco José de Morais, com o qual, entre 1864 e 1876, manteve uma correspondência muito significativa. Este tio estava no Porto e tratava de encomendar fazendas nessa cidade para o estabelecimento da minha antepassada em Chaves e ainda tratava dos pagamentos. Nessa época, ao nível do comércio local, os pagamentos eram feitos em metal sonante e este meu tio quarto avô encarregava pessoas da sua confiança, normalmente militares da 1ª companhia da Administração militar, que estariam em trânsito entre o Porto e Chaves, para receber o dinheiro da cunhada, de modo a que ele pudesse liquidar as contas com os comerciantes da cidade Invicta.



No último post que escrevi, através de uma anotação de uma factura escrita por Ana Maria da Conceição descobri que este tio era tenente e através de consultas ao Diário do Governo, que teria morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878. Nesse boletim oficial, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, foi publicado o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe pagassem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Nesse momento tinha já uma data muito aproximada da sua morte, mas onde ela teria ocorrido no Porto, onde residiria habitualmente? Mas em que freguesia? O Porto já era demasiado grande nessa época para bater todos os registos paroquiais. Também poderia ter morrido em Chaves, onde tinha família ou poderia regressado à aldeia que o viu nascer para morrer na terra, possivelmente em Samaiões.

Enfim, tinha um universo demasiado grande e resolvi procurar no site dos Mormons, o https://www.familysearch.org. Não é que tenha muita confiança naquilo. Os gestores desta base genealógica gigante fizeram correr um programa sofisticado para ler automaticamente os antigos registos paroquiais dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, o que é notável, mas as variantes da caligrafia desses documentos foram tantas, que os resultados são por vezes autênticos disparates, mas desta vez como tinha data de falecimento aproximada, entre finais de 1877 e 21 de Janeiro de 1878, tive sorte e encontrei um registo que parecia ser dele, na cidade do Porto de 1877. Fui confirmar os dados ao Arquivo Distrital do Porto, era mesmo ele e partir daí encontrei o assento de nascimento e pude então traçar um pouco os seus dados biográficos essenciais.

Mairos uma aldeia na raia

O Francisco José nasceu em Mairos, uma aldeia raiana a nordeste de Chaves no dia 5 de Janeiro de 1835. Era filho legítimo de José de Morais e de sua mulher Isabel Maria e neto paterno de Domingos de Morais e de Rafaela e materno de Manuel Luís e de Mariana de Melo.

O assento de baptismo de Francisco José de Morais, que era meio irmão do meu quarto avô, Vicente de Morais

Isto quer dizer, que o meu quinto avô, José de Morais casou primeiro com Antónia da Costa em 25 de Agosto de 1790, união da qual nasceu o meu quarto avô, Vicente de Morais em 1-1-1799, posteriormente a Dona Antónia terá morrido e o referido José de Morais voltou a casar em data desconhecida com Isabel Maria de Melo e deste casamento nasceu o Francisco José. O Francisco José era meio irmão do meu tetravô Vicente de Morais e cerca de 35 anos mais novo que ele.

Umas das folhas do registo de Francisco José de Morais no Arquivo Histórico do Militar

Voltei a encontrar algumas notícias sobre este tio quarto avô no Arquivo Histórico Militar. Entrou para o exército aos 18 anos em 11 de Abril de 1853 como voluntário e no seu registo está dado como estudante. Tinha olhos castanhos, nariz regular e no rosto restos de bexigas e de altura media 61 polegadas [1,549 m]. Para os nossos dias era baixinho, mas na época tinha uma altura normal. Não sei que estudos fez, nem que área, mas terão sido pelo menos de nível médio, pois foi subindo os degraus todos da hierarquia até chegar a capitão. A partir das cartas trocadas com a sua cunhada, Ana Maria da Conceição, presumo que desde 1870 estaria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar do Porto e aí se manteve até ao final da sua vida, a 25 de Novembro de 1877. Através de uma carta enviada a Ana Maria da Conceição 2 de Julho de 1872, em que lhe apresenta um mapa das contas com o deve e o haver, executado de uma forma muito profissional, fiquei com a ideia que estaria a trabalhar na área da contabilidade da 1ª Companhia da Administração Militar, ou talvez no aprovisionamento, dado que tinha tantos contactos com lojistas e comerciantes do Porto. Mas isto são apenas intuições que terei de confirmar.
Anexo de uma carta enviada por Francisco José de Morais a Ana Maria da Conceição, 2 de Julho de 1872,


Nunca casou, em todos documentos que encontrei dele, foi sempre dado como solteiro. Era muito estimado pela cunhada, a minha quarta avô, Ana Maria da Conceição apesar de esta ter mais 27 anos que ele, e as sobrinhas escreviam-lhe com muito carinho e respeito.
O assento de óbito de Francisco José de Morais

Morreu no Porto, aos 42 anos, a 25 de Novembro de 1877 e morava na Rua de São Roque dessa cidade e foi sepultado no cemitério de Agromonte. Deixou testamento, de que existe cópia no Arquivo Municipal do Porto, mas não está digitalizado, o que é pena pois poderia conhecer um pouco mais este personagem tão caro à minha quarta avó, a negociante de Chaves. Talvez o documento ainda apareça no espólio.

A assinatura de Francisco José de Morais. Escreveu sempre numa tinta que foi desaparecendo com o tempo e as suas cartas são difíceis de ler.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX: continuação

A rua da Ponte, na Madalena, Chaves

Já escrevi no blog sobre a minha quarta avó, Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), que após a morte do marido Vicente de Morais em 1851, tomou conta sozinha do negócio do marido e ainda educou e casou as 4 filhas. Tinha um estabelecimento na Rua da Ponte no bairro da Madalena, em Chaves e provavelmente moraria no andar ou andares superiores à loja. É difícil precisar exactamente o local, pois no período em que esta minha antepassada esteve activa Chaves não tinha ainda números de polícia para identificar as casas, mas a Rua da Ponte é pequena e todos os que visitaram aquela cidade transmontana e atravessaram a ponte romana para a margem esquerda do Tâmega já lá estiveram certamente.

Ana Maria da Conceição era proprietária de um comércio generalista, daqueles que até há pouco tempo existiam em todas as terras de província e vendia de tudo, chapéus janotas, ferragens, pregos, garfos, bacalhau, que encomendava em Braga, mas também arroz, canela e outras mercearias e ainda sabão, que mandava vir sobretudo do Porto, Régua ou Vila Real. O transporte dessas cidades até Chaves era moroso e as fazendas vinham no dorso de uma mula ou burro conduzidas por almocreves e os pagamentos em moeda sonante eram feitos estes ou a intermediários em trânsito entre o Porto e Chaves. Nestes negócios, Ana Maria da Conceição contava com a ajuda preciosa do seu cunhado, Francisco José de Morais, que travava de encomendar as fazendas no Porto e despacha-las para aquela cidade transmontana.

Entretanto encontrei mais cartas no espólio que me permitiram esclarecer mais alguns apectos de como decorria este comercio entre Chaves, que na altura era ainda era vila e o Porto, Régua e Vila Real.

Rascunho da Carta de Ana Maria da Conceição a seu cunhado Francisco José de Morais

Num rascunho de uma carta escrita ao seu cunhado Francisco José de Morais, que estava na cidade do Porto, certamente datado da década de 70 do século XIX, Ana Maria escreveu o seguinte Segundo me diz Pedro Chasse até hoje não chegou à Régua as 15 caixas de Sabão que o meu cunhado faz menção na sua carta de 29 mês próximo findo uma tão grande demora faz-me suspeitar, que houvesse algum sinistro e por isso rogo-lhe tenha a bondade de indagar o que tinha a tal respeito e dado o caso da perda do barco, requerer na companhia que fez o seguro o pagamento da importância da fazenda seguradas, para com ela comprar a quantidade de sabão igual.


Isto quer dizer que as mercadorias iam do Porto para a Régua por transporte fluvial, através do rio Douro e já existiam seguros para cobrir os riscos. Com efeito, encontrei mais documentos confirmando que as fazendas viajavam do Porto para a Régua de barco, nomeadamente uma carta de 27 de Novembro de 1875 de António José da Silva Braga, comerciante do Porto, com loja na rua de são João, 96 e 98, informando que remeteram pelo barco de José Maria da Mesquita a fazenda mencionada na factura, 3 sacas de arroz, para a Régua, a entregar a António Clemente de Sousa. Em anexo encontra-se uma guia de transporte da mercadoria que saiu pela Barreira dos Guindaes, assinada no verso José Maria Barqueiro. Um outro comerciante do Porto, Manuel Alves Vieira, remeteu em 5 de Maio de 1875, em nome da minha antepassada 8 sacas com arroz e 2 de açúcar, anexando à carta a guia de transporte de barco, a sair pela barreira do Bonfim. A barreira era uma Alfândega.






O caminho de ferro do Porto à Régua só foi concluído em 15 de Julho de 1879 e até esta data o Douro seria o caminho mais fácil para o transporte de mercadorias evitando assim as alturas quase intransponíveis da Serra do Marão. Na Régua, a minha quarta avó, contava com uma série de intermediários especializados nestes assuntos, isto é, procedimentos para tratar do desembarque e despachar a mercadoria por terra para Chaves, como um tal Pedro Chasse ou um António Clemente de Sousa. Estes intermediários despachavam as fazendas pelos carreteiros. Como nome o próprio nome indica, eram homens, que dispunham de uma carroça, enfim, um veículo de tracção animal e cujo serviço era pago pelos destinatários das mercadorias, isto é, a Ana Maria da Conceição. Da leitura destas cartas dirigidas a ela, pareceu-me que o transporte entre Braga e Chaves seria assegurado pelos almocreves e entre a Régua, Vila Real e Chaves preferencialmente pelos carreteiros.

A minha tetravó era uma mulher organizada e só poderia ser para gerir esta rede de fornecedores no Porto, Braga, Régua e Vila Real, bem como o transporte das mercadorias por barco, ao dorso de uma mula ou em cima de uma carroça e todas as cartas recebidas destes comerciantes, que no fundo eram facturas ou guias de remessa, foram todas anotadas por ela com a letra miudinha, referindo que recebeu as fazendas e quando foi feito o pagamento. 

Recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto


Numa dessas anotações, na factura de António José da Silva Braga, proprietário de um armazém de bacalhau e azeite, no Porto, Ana Maria da Conceição escreveu recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto”. Até encontrar este documento não sabia nada deste cunhado, que estava no Porto. Suspeitava que fosse militar, pois muitos dos intermediários que usou para receber os pagamentos da cunhada em Chaves, eram militares, a maioria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar e agora tenho a certeza, que sim. Encontrei registo no Diário de Governo, n.º 280, de 11/12/1874, n.º 264, de 19/11/1875, n.º 200, de 07/09/1876, das licenças concedidas ao tenente Francisco José de Morais da 1ª Companhia da Administração militar, sendo que na de 1875, se refere mesmo que era para fazer uso das águas alcalinas gasosas de Vidago. 

Diário de Governo, n.º 264, de 19/11/1875

Se de facto tratar-se da mesma pessoa, este Francisco José de Morais terá morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878, já que encontrei do Dário do Governo, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe paguem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Mas tudo ainda precisa de ser confirmado.


Sei ainda pouco deste Francisco José de Morais, que à primeira vista seria irmão de Vicente de Morais, mas bati os registos de baptismo de Samaiões, localidade vizinha de Chave, de onde estes Moraes eram naturais e não encontrei o seu assento. Talvez os meus quintos avós, Antónia da Costa e José de Morais tenham mudado de residência e o mais novo dos filhos ter nascido noutra paróquia ou Francisco José fosse filho de um segundo casamento de José de Morais. O que é certo é que foi uma figura muito considerada por sua cunhada e sobrinhas, que se lhe dirigem sempre com estima. Num rascunho de uma carta, talvez datada do final doa anos 60 ou início dos 70 do século XIX a minha trisavó, Antónia dos Anjos Morais (25.4.1846-1-10-1913) escreveu as seguintes palavras

Rascunho da carta de Antónia dos Anjos Morais a seu tio Francisco José de Morais


Meu bom Tio

Depois de desejar a sua boa saúde e todas felicidades de que meu Tio é merecedor, tomo a liberdade de lhe oferecer o retrato incluso.

É na verdade insignificante oferta, mas não obstante, espero que o Tio se dignará aceita-la como prova de sincera amizade e estima que lhe dedica a quem muito preza por bem

Sobrinha muito obrigada

Antónia

Esta carta tocou-me pois só tenho um retrato da Antónia dos Anjos Morais já no Inverno da sua vida e nem tenho a certeza se é ela!

Adoraria ver esta sua fotografia na juventude. Mas sabe Deus onde as cartas do Francisco José de Morais e o retrato da jovem Antónia dos Anjos andarão. Se não serviram para acender o fogo, estarão a apodrecer numa gaveta ou dispersos no chão de alguma feira de velharias.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX


O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua

Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.


Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.

Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante 


Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.

Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.

Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes,


O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.

Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.

Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte


Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.

Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.

O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.

Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira,



Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.

Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.

Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.

No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis.



Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.

Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau


Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.

Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.

Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).

Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)

Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.

O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz



Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.

Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar

Mas o que interessa é que este Francisco José de Morais comprava no Porto em seu nome os produtos que minha quarta avó, comercializava na sua loja, como sabão da Saboaria Hespanhola de José Júlio Bouças, Rua do Bom Jardim, 236 (carta de 1872-06-01) ou aço no Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68 e fazia chegar as facturas à sua cunhada em Chaves e assegurava os pagamentos aos fornecedores da cidade do Porto, que como era hábito na época, só aceitavam pagamentos em metal sonante. Assim entre 1864-07-28 e 1876-10-30, contei um total de 20 cartas no espólio, que são basicamente umas guias que Francisco José emitia a pessoas da sua confiança, em trânsito entre o Porto e Chaves, para cunhada lhes entregar dinheiro, que posteriormente lhe seria devolvido, certamente destinado ao pagamento dos fornecedores do Porto ou para o reembolsar de adiantamentos que ele próprio teria feito. Talvez estes indivíduos fossem mais de confiança que os almocreves. A maioria deles eram militares, muitos da 1º companhia da administração militar. Aliás, estes conhecimentos no meio castrense fazem-me suspeitar que o Francisco José seria também um militar a cumprir serviço no Porto, mas no Arquivo Histórico do Exército nunca encontrei uma referência inequívoca a este meu tio tetravô. Nesse arquivo constam muitos homens com o nome Francisco José de Morais, alguns do Distrito de Vila Real, mas os dados de filiação, nascimento e datas não batem certo. Mas este meu antepassado sabia de contabilidade e numa das cartas que escreve à sua prezada cunhada (2 de Julho de 1872), apresentou-lhe um mapa de contas, com aspecto muito profissional, revelador de quem sabia muito bem o ofício. Estaria ele na administração militar nalguma secção de contabilidade?


Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas


Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.

Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.

Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo


Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.

Genealogia dos Alves e dos Morais


sábado, 20 de janeiro de 2024

De regresso aos arquivos do Norte: procurando uma avó desconhecida




Depois da morte do meu pai, quando recebi o espólio documental da família, comecei a encontrar documentos e fotografias não só referentes à família Montalvão, mas também de ramos laterais, dos Alves e dos Morais, alguns deles datando de meados do século XIX. Numa velha caixa de papelão, daquelas em que antigamente vendiam as camisas de homem, surgiram uns quantos retratos dos Alves, que ainda consegui identificar, mas outros, mais antigos eram um mistério, como um senhor distinto de longas barbas, datado mais ou menos dos anos 70 do século XIX e uma senhora de meia-idade, também mais ou menos da época ou mais tarde, onde uma criança escreveu a lápis, minha querida avozinha. Fiquei intrigado sobre quem era esta querida avozinha e a netinha ou netinho, autores da legenda e decidi que era tempo de fazer um trabalho de sapa sobre os Alves, cruzando fotografias, cartas, ao mesmo tempo que montava uma genealogia através da consulta aos registos paroquiais.



Gente burguesa e abastada, que vivia no bairro da Madalena em Chaves, os Alves ligaram-se à família Montalvão através do casamento de José Maria Ferreira Montalvão com Ana da Conceição Alves em 1903. O meu pai já tinha deixado algumas informações sobre os pais da minha bisavó Aninhas, Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais e como encontrei no espólio o testamento desta última, comecei o levantamento, que passo a descrever.

A Antónia dos anjos Morais nasceu 25 de Abril de 1846, em Chaves, mas os seus pais, avôs e bisavôs eram naturais de aldeias a leste dessa vila, nomeadamente Argemil da Raia, Samaiões, Paradela e Agordela, já no actual Concelho de Valpaços, à excepção de uns bisavôs, os Costa, fregueses de Noval, Soutelo, a oeste de Chaves. Mas para além da sua naturalidade, destes avós e bisavôs da Antónia dos Anos sei apenas os seus nomes e que nasceram, casaram, tiveram filhos e morreram. Os registos paroquiais nesta época fornecem poucos dados sobre as profissões ou estatuto social. Certamente que não foram fidalgos, pois nesses assentos não constam com dois apelidos, nem os nomes das mulheres são antecedidos do título dona. Casavam inevitavelmente com pessoas das aldeias próximas, que certamente conheceriam nas festas e romarias dos padroeiros locais, ou na feira dos Santos em Chaves, para encontrar a noiva ou noivo certos de aldeias um pouco mais distantes

A itálico assinalei as aldeias de onde estas famílias eram provenientes


Só tenho mais informações para os pais da minha trisavó, a Antónia dos Anjos Morais. Era filha de Vicente de Morais, nascido a 1 de Janeiro de 1799, em Samaiões e de Ana Maria da Conceição, de Argemil, nata entre 1806 e 1808. Os dois casaram na aldeia da noiva, com o poético nome de Argemil da Raia, no dia 18 de Agosto 1825. Este casal ter-se-á mudado para a Chaves, em data que eu desconheço, pois a Antónia dos Anjos nasce já nessa vila em 1846 e teriam um estabelecimento comercial no Bairro da Madalena, em Chaves. No espólio, tenho duas cartas, de 2 e 26 de Maio 1850 dirigidas a Vicente de Morais, por um tal António Xavier Lourenço da Costa, da cidade de Braga, acerca de uma encomenda de vários tipos de corda, ferro de escória e aço. 




 Carta de António Xavier Lourenço da Costa, da cidade de Braga a Vicente de Morais


Este meu tetravô, Vicente de Morais, morreu pouco tempo depois, a 4 de Março de 1851, em Chaves e no registo de óbito, consta como negociante de mercearia, morador no bairro da Madalena. A sua mulher, a Ana Maria da Conceição, continuou o negócio do marido. Três cartas de 1875, respectivamente de 19 de Março, 5 e 20 de Abril, escritas por Pedro Chasse, da Régua a esta minha antepassada tratam da remessa e transporte de umas dezenas de caixas de sabão da fábrica Roriz. Estas cartas de natureza comercial, encomendando produtos fora da região, fazem-me supor que o estabelecimento comercial destes meus tetravôs teria uma certa importância e que seriam alfabetizados. Inclusive a primeira missiva de António Xavier Lourenço da Costa, a Vicente de Morais, refere recebi a sua carta de 21 do passado.



Carta de Pedro Chasse a Ana Maria da Conceição, minha quarta avó


Este casal teve uma prole numerosa, mas por razões práticas, só me vou fixar numa das últimas filhas, a Antónia dos Anjos Morais, nascida em 1846 e que 1876 casou muito bem com o Francisco Luís Alves, em Chaves. O noivo de 31 anos é identificado no assento de casamento como proprietário, o que na linguagem destes livros quer dizer homem abastado e os padrinhos foram gente de condição, Silvino Alves Nóbrega, proprietário e sua mulher Dona Ana Maria Joaquina Rodrigues Nóbrega. Ambos os nubentes são alfabetizados e assinam o seu nome com uma caligrafia bonita.

Da família do noivo encontrei alguns dados sobre a sua condição social. Os pais já viviam em Chaves, na Madalena, pelo menos desde o seu nascimento em 22.11.1844. O pai, o Luís Alves era natural de France, freguesia de Moreiras e no seu registo de óbito de 2-10-1861, em Chaves é referido como tendo uma loja de pezo. Loja de peso, creio eu, quer dizer hoje em dia, que Luís Alves era grossista. Vendia em grandes quantidades a retalhistas. Aliás, o filho, o Francisco Luís prosseguiu o negócio do pai e no espólio existem 10 cartas datadas entre 1908 e 1919 de clientes de Castro Daire encomendando-lhe grandes quantidades de sementes. A mãe, a Maria Joaquina Alves, falecida em Chaves, em 27-4-1876 era natural de Sangunhedo, freguesia do Eiró, Concelho de Boticas, a leste de Chaves. No seu assento de óbito, foi referida como sendo proprietária e tendo morrido na sua casa na rua da ponte da Madalena. Esta casa ainda a conheceu o meu pai, pois os seus avôs, viviam os meses de Inverno nela e era grande e bonita, mesmo junto ao rio Tâmega, sendo que divisões baixas aproveitam os arcos da ponte romana. A casa já não é da família e infelizmente nunca entrei nela.

O casal Antónia dos Anjos Morais e Francisco Luís Alves viveram com muita abastança. No testamento desta minha antepassada, feito em 1903, refere que no casamento da filha, Ana da Conceição Alves como meu bisavô, o José Maria Ferreira Montalvão, doaram ao dois a quantia de cinco contos de reis em moeda corrente e cem acções do banco de Chaves, pelo que após a sua morte, desejava que os outros dois filhos, a Maria da Conceição e o Luís da Conceição recebessem igual quantia. Mas não fica por aqui. Deixava a uma irmã, a Dona Augusta de Morais, viúva e que pelos vistos estaria em dificuldades financeiras, a quantia de cem reis diários, durante dois anos, que lhe seria entregue em prestações mensais e no caso de que esta legatária tivesse falecido, seria este legado para a sua sobrinha Dona Maria da Glória Morais. Por último, deixa à criada, que se encontrasse ao seu serviço na ocasião do seu decesso, a quantia de dez mil reis.

Excerto do testamento de Antónia dos Anjos Morais


Os cinco contos de réis que receberem cada um dos seus filhos nesta altura era muito dinheiro. Recordo-me que a minha Tia Chica me contar, que no início do século XX o seu sogro ganhou na lotaria um conto de reis e que aquilo era uma fortuna. É também interessante o pormenor do dinheiro dado à criada que a assistisse no momento da morte, pois era um costume antigo na Europa. Na corte de França do século XVIII era também hábito, que um dos validos do Rei, que o assistisse na morte, pudesse levar uma peça de mobília à escolha do quarto do rei.

Quanto ao marido, o meu trisavô, Francisco Luís Alves, manteve o negócio do pai de grossista, mas foi bem mais longe, foi accionista do Banco de Chaves e segundo os escritos do meu pai, exerceu um cargo importante na sua gestão. Nas notícias do casamento da filha Ana da Conceição, em 1903, a imprensa flaviense mencionou-o como capitalista. Desempenhou um papel importante na vida pública de Chaves, sendo vereador na Câmara Municipal entre 1884 e1887 e ainda em 1889 e 1897. Em 1900 faz parte dos cidadãos ligados ao meio industrial para estabelecer as contribuições respeitantes às contas gerais do estado.

A Antónia dos Anjos e o Francisco Luís Alves tiveram quatro filhos, o Luís (1883-1887), que morreu com 6 anos e memória da sua existência apagou-se com o passar das gerações, a Maria da Conceição (1887-1956), a tia Marica que viveu um amor contrariado com um jovem que veio a ser Monsenhor Alves da Cunha, a Ana Conceição (1881-1974) e ainda o Luís da Conceição (1884-1931), estes dois últimos casaram muito bem, a primeira com um fidalgo, o José Maria Ferreira Montalvão, meu bisavô e o segundo com Alice Júlia de Macedo de Andrade Couto, de uma família rica de brasileiros de torna-viagem.

É interessante observar que três destes filhos do casal, foram baptizados com um dos nomes da avó materna, Conceição, que ainda estava viva quando os pequenos nasceram, o que me faz supor que seria uma pessoa estimada. Esta avó, a Ana Maria da Conceição só veio a falecer em 9 de Setembro de 1887 e cheguei a pensar que a querida avozinha do retrato pudesse ser ela e tivesse sido um dos seus netos, talvez instruído pela mãe, a escrever aquela frase a lápis. A fotografia foi feita por um M. Olivenza, de Vila Real, do qual se sabe, que por volta de 1879, já estava no nº18 da rua das Flores, naquela cidade. O retrato será dessa altura ou já da década de 80 do referido século. Nesse período, já a Ana Maria da Conceição andaria nos seus 70 e tal anos e a senhora do retrato parece mais nova. É mais provável que seja a minha trisavô, a Antónia dos Anjos Morais, que nesse período, teria talvez os seus 40 e tais anos e nesse caso a letra do netinho ou netinha seria da minha avó Mimi, nascida em 1907 ou de um dos seus irmãos, nascidos em 1904, 1905 e 1906 e que a conheceram viva, pois só faleceu em 1913. Estas identificações são sempre um bocadinho arriscadas, em todo o caso a Senhora da fotografia apresenta os mesmos traços da tia Marica, a Maria da Conceição (1887-1956), o que realmente me leva crer que seja realmente a Antónia dos anjos Morais.

Antónia dos Anjos Morais?

Maria da Conceição Alves (1887-1956)


Acredito também que o retrato do senhor distinto de barbas, talvez da mesma época ou um bocadinho anterior, seja do Francisco Luís Alves, meu trisavô, do qual só conheço uma fotografia de 1916, já idoso e as pessoas mudam muito ao longo do tempo, mas comparando as duas imagens, encontro a mesma testa, as mesmas entradas no cabelo e um certo ar de boneco de porcelana comum aos seus dois filhos, o Luís da Conceição e Ana da Conceição, minha bisavô. Contudo, como antes referi, posso estar enganado e este cavalheiro poderá ter sido um tio.

Francisco Luís Alves?

Francisco Luís Alves em 1916

Ana Conceição (1881-1974)


Luís da Conceição (1884-1931)


Em suma estes dois retratos serviram como pretexto para tentar reconstituir a história de um dos lados da minha família, gente que até ao início do século XIX, vivia e morria em aldeias nas cercanias de Chaves e a partir de 1840 se instalaram nessa vila e tornaram-se proprietários de estabelecimentos comerciais com alguma importância no bairro da Madalena, como comprova a correspondência de carácter comercial que sobreviveu. Na geração dos meus trisavôs, indubitavelmente enriqueceram e além do comércio, dedicaram-se à finança e desempenham cargos no governo municipal de Chaves. Este texto, demasiado longo, para um blog, permitiu-me arrumar os conhecimentos sobre estes antepassados, mas ficaram ainda algumas perguntas por responder. Nas longas viagens de carro para o Norte, o meu pai contava-nos muitas vezes, que a sua avó, a Ana da Conceição se lembrava de ouvir contar à sua avó, que escondeu ou enterrou as pratas durante as invasões francesas, certamente em 1809, na segunda invasão, quando os franceses entraram por Chaves. Será que essa avó seria a Ana Maria da Conceição, cuja data de nascimento não consegui determinar com segurança? Esse assunto fica para outro post.

A genealogia dos Alves e  Morais




Bibliografia:

História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012

Narciso Alves Correia: a fotografia em Vila Real na década de 1870 / Elísio Amaral Neves. Vila Real: Museu do Som e da Imagem, 2011. – (Cadernos do som e da imagem; 8)

Fontes arquivísticas

Arquivo Distrital de Vila Real, 
Livros de baptismos de Santa Maria Maior, Chaves, 18844, 1846, 1876 (assento 30), 1878
Livros de casamentos e Santa Maria Maior, Chaves, 1876 (assento 30)
Livros de óbito e Santa Maria Maior, Chaves, 1851, 1861 (assento 133), 1876 (assento 37), 1883 (assento 283), 1887 (assento 101)
Livros de baptismos de Samoiões, 1799
Livros de casamentos de Travancas, 1825