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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Um retrato miniatura do início do primeiro quartel do século XIX



Comprei esta pintura em miniatura por um preço estupendo na Feira de Estremoz há cerca de uns quatro anos. Quem me vendeu isto não fazia a menor ideia de que se tratava de uma pintura original. Provavelmente achava que era alguma reprodução colorida de um quadro antigo sem valor nenhum. Também é verdade, que estava num estado de conservação lamentável. A placa de marfim sobre a qual foi pintada estava partida em dois e a moldura e o passe-partout completamente empenados.

Mas além de ser uma pintura original é um retrato verdadeiro de uma senhora que estava na flor da idade no início do século XIX.



Nesse tempo, estes pequenos retratos já tinham uma longa tradição na pintura europeia. Nos séculos XVI e XVII serviam para combinar casamentos reais ou de grandes aristocratas, pois dadas as suas pequenas dimensões eram facilmente transportáveis e os noivos poderiam ver os respectivos rostos antes de se conhecerem. A partir da segunda metade do século XVIII estes retratos passaram a ser pintados a aguarela sobre pequenas placas de marfim e generalizam-se entre a nobreza e a grande burguesia.

Na época em que esta minha miniatura terá sido pintada, logo no início do XIX, existiam em Portugal muito bons pintores de miniaturas, como por exemplo, José Joaquim Rodrigues Primavera, que até tem uma obra exposta no Museu do Prado ou ainda José Joaquim de Almeida Furtado. Também por cá trabalharam alguns pintores estrangeiros e a arte foi igualmente praticada por amadores, pois na época existiam à venda publicações, que explicavam as técnicas desta arte. Mas a minha pintura não está assinada nem datada e os meus conhecimentos de pintura são escassos para a atribuir a este ou aquele pintor. Mais ainda, a jovem que está retratada na pintura não está identificada e nem tenho maneira de conhecer a sua identidade. Para esta época ainda há poucas imagens e seria uma um golpe de sorte encontrar uma gravura, que representasse a mesma pessoa.

Em suma, relativamente a este pequeno retrato, posso apenas fazer algumas ilações mais ou menos óbvias.



Em primeiro ligar a rapariga representada na pintura tem um tipo mediterrânico, cabelo e olhos castanhos muito escuros ou mesmo pretos. Decididamente não é uma flamenga, uma inglesa, alemã ou mesmo uma francesa. Será antes uma espanhola, italiana ou mais seguramente uma portuguesa, já que comprei esta miniatura, aqui em Portugal. Creio que posso admitir sem uma margem de erro demasiado grande, que a elegante representada neste quadrinho foi uma portuguesa. Também evidente, que pelo traje e pelas jóias representadas na pintura, esta rapariga pertencia a uma família nobre ou então burguesa, mas muito abastada.

Hortense de Beauharnais foi uma  elegantes da moda Império. Pintura do Baron de Gérad(1770-1837) da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, in. 1775 Pint 

Em termos de indumentária, a jovem enverga um vestido com um decote, mangas de balão, corselete de musselina, cintura muito subida e o cabelo apanhado, penteado em cachos. As cinturas subidas e os decotes generosos começam a usar-se logo por volta de 1795, mas as mangas de balão parecem surgir no início da primeira década do século XIX e mantem-se em voga até mais ou menos 1825, altura em que vão ganhando volume e descem quase até à altura do cotovelo. Também depois dessa data os penteados tornam-se mais complicados e perdem a simplicidade do estilo Império. Claro, o que acabei de descrever aplica-se sobretudo a França, esse país que apesar de ter posto a Europa a ferro e fogo com as guerras napoleónicas, continuou a ditar as modas. Talvez aqui em Portugal não soubessem de imediato o que as elegantes de Paris vestiam, como uma Josefina Bonaparte, uma Hortense Beauharnais ou uma madame de Récamier, mas nessa época circulavam já pela Europa fora estampas e jornais de moda, a que a família desta janota portuguesa poderá ter tido acesso. Em suma, pela indumentária, arriscaria afirmar que a retratada da minha miniatura veste-se segundo o que estava na moda entre 1800 e 1825.


Retrato de Senhora, José Joaquim Rodrigues Primavera, datado de 1828. As mangas de balão a partir de 1825 desceram até aos cotovelos. Col. do Museu do Prado


Outro aspecto desta pintura que se destaca é o vestido preto envergado pela jovem.

Tentei perceber sem muito sucesso a partir de que o momento o preto se tornou uma cor de luto obrigatória na Europa. Por exemplo no século XVII, o preto era uma cor de luxo, que não estava necessariamente associada ao luto, usada pela realeza ou porque quem tinha muito dinheiro. Com efeito a cor negra era extramente difícil de fixar num tecido e o corante usado era caro. Ainda hoje, já nos aconteceu a todos nós comprarmos uma t-shirt ou umas calças pretas a preço de ocasião e ao fim de quantas umas lavagens, tudo aquilo fica com uma cor deslavada. Em todo o caso, a revolução industrial inglesa, permitiu a produção de tecidos em preto em maior quantidade e qualidade e a menor e preço e no Reino Unido, em 1817, a morte da Princesa Charlotte, filha de Jorge IV, lançou todo o país de luto e as elegantes mandaram fazer vestidos de noite em preto, como este da colecção do Victoria And Albert Museum, executado entre 1823 e 1825.

Vestido de luto da col. do Vitoria and Alberto Museum, executado entre 1823-1825
,

Pelos vistos, neste primeiro quartel do século XIX, uma jovem enlutada poderia envergar um vestido preto decotado, com os braços à vista e ornamentar-se de jóias para frequentar um acontecimento social. Neste meu retrato, o vestido decotado, os braços nus e a expressão da jovem não sugerem tristeza. 

As jóias

Na mão usa um anel de brilhantes e parece segurar uns trémulos, uns alfinetes de cabelo, que se usaram no século XVIII. Ao seu lado, pousada numa consola, está uma estatueta de uma figura feminina, que parece estar dançando, talvez uma alegoria à personalidade da moça. Enfim, é um retrato de uma jovem na flor da vida que não aparenta estar consumida pela dor.

Uma estatueta pousada numa consola. Talvez uma alegoria à personalidade da retratada 


Enfim, tudo isto são códigos de vestuário, que escapam ao nosso entendimento, pois os mais velhos de nós ainda vivemos num tempo em que luto feito a negro era carregado e despojado de ornamentos e atitude a adoptar socialmente era de tristeza e sobriedade.

Provavelmente, nunca conseguirei descobrir quem pintou este retrato, nem quem é a jovem nele representado. Posso apenas supor que a pintura foi executada no primeiro quartel do século XIX, retratando uma rapariga portuguesa rica e bem-nascida, trajando um elegante vestido preto. Mas também um pouco de mistério empresta sempre mais interesse a uma velharia.





Alguma bibliografia e links consultados:

Miniaturas portuguesas / concepção e texto Anísio Franco. - Lisboa : MNAA, 2003. - 24 p. : il., col. ; 20 cm

De la miniature au Portugal : peintres et objets voyageurs, entre l’Europe et l’Amérique / Patricia Telles
In 
Études Epistémé: revue de littérature et de civilisation (XVIe - XVIIIe siècles), nº 36, 2019
https://doi.org/10.4000/episteme.5277

Miniaturistas portugueses / Júlio Brandão. - Porto : Litografia Nacional, [1933]. - 117 p. : il. ; 22 cm

https://wiki.alquds.edu/?query=1820s_in_Western_fashion


https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/retrato-femenino/0e87474a-04c7-487a-9f68-4d1275817397


Um agradecimento à especial à Teresa Serra Moura e um obrigado a Anísio Franco e Ana Kol


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Por isso eu sou vingativa

Salomé com a cabeça de S. João Baptista, de Lucas Cranach, inv. 738 Pint http://www.museudearteantiga.pt/
Perguntarem-me qual é a minha obra preferida do Museu Nacional de Arte Antiga é uma questão tão sem sentido, como me pedirem para escolher o livro ou o filme da minha vida. Já li tantos livros ou vi tantos filmes que marcaram profundamente a minha forma de estar ou pensar. O mesmo se passa com as peças da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga. Cada vez que passeio por aquelas salas descubro um bule de porcelana chinesa maravilhoso, que nunca tinha reparado ou uma laca oriental, que apetece colar o nariz à vitrina, até a deixar embaciada ou ainda mais uma pintura extraordinária.

Porém, há umas das pinturas do Museu Nacional de Arte Antiga, que me fascina sempre, a Salomé com a cabeça de S. João Baptista, de Lucas Cranach. É um tema religioso, do Novo Testamento, em que Herodias, pede à sua filha, Salomé, para usar de toda sua beleza e sedução de forma convencer a Heródes, tetrarca da Galileia, a decapitar S. João Baptista. Portanto, à partida, o quadro podia ser uma coisa chatinha, um assunto beato, capaz de aborrecer as novas gerações, para quais o catolicismo não lhes diz rigorosamente nada.


Salomé com a cabeça de S. João Baptista, de Lucas Cranach, inv. 738 Pint. http://www.museudearteantiga.pt/
Mas neste quadro do Lucas do Cranach, a Salomé apresenta um ar perverso, de quem não está nem um bocadinho arrependida do mal que fez e que nos espanta e surpreende, pois inconscientemente,  em virtude da nossa educação católica, da catequese e das aulas de moral e religião no liceu, povoada de imagens adocicadas de Cristos loiros e olhos azuis, anjos da guarda com caracóis dourados e Nossas Senhoras com mantos azul-bebé, acharíamos que a Salomé deveria ter um ar de rapariga estouvada e caprichosa, mas que, no seu olhar, houvesse arrependimento ou mesmo um sinal, pequeno que fosse, de um qualquer sentimento de culpa. Mas não, aqui a Salomé é uma ressabiada, com a mesma expressão de uma mulher, que foi trocada pelo marido por uma rapariga mais jovem, ou pior do que isso, por um homem e está disposta ir a tribunal, despojar o marido da custódia dos filhos e de todos os bens do casal.

Confesso que sempre revejo esta obra-prima da Colecção do Museu Nacional de Arte, dou comigo a trautear aquele velho êxito das Frenéticas, Vingativa, de que a Rita Lee fez uma versão divertidíssima, cujo vídeo reproduzo aqui, para encerrar este post sobre uma malvada

Por isso eu sou vingativa, vingativa, vingativa
Por isso eu sou vingativa, tenho até asco de você
Você fez de mim uma hipócrita
Você fez de mim uma cínica
Você fez de mim uma mulher sem lar, uma malvada!


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Santa Catarina de Alexandria: pintura em cobre do século XVII

 
Sempre simpatizei com a figura de Santa Catarina de Alexandria, essa mártir do século III, tão sábia e culta, que um certo romancista, Jean Marcel, na sua obra Hypatie ou la fin des dieux, colocou a hipótese de que a lenda, que envolve a vida desta santa seria um eco da existência da célebre filósofa, astrónoma e matemática, Hipácia de Alexandria, que foi massacrada no século V pelos cristãos, já que as suas convicções científicas punham em causa os dogmas do cristianismo.

Mas talvez a minha simpatia por esta santa remonte a uma das minhas primeiras recordações de infância, teria eu talvez uns quatro ou cinco anos e na Casa de São Vicente, onde a minha mãe era educadora, assisti a uma espécie de auto, que era uma encenação daquela música popular “A santa Catarina, prelim perlim pépé, Era filha do rei, Seu pai era pagão, prelim perlim pépé, Mas a sua mãe não. Na época fiquei muito impressionado com a cena em que a pobre Catarina é morta pelo pai e creio que ainda hoje, sempre que vejo um quadro ou uma escultura representando Santa Catarina, quase inconscientemente trauteio aquela lengalenga.

Todas estas considerações servem para justificar, a razão porque comprei mais uma representação de Santa Catarina, desta vez uma pintura em cobre, que suspeitei de imediato, tratar-se de obra do século XVII. A iconografia da Santa está aqui reduzida aos seus elementos essenciais, a espada, pela qual foi degolada, a palma, que significa o martírio e um traje luxuoso de princesa ou rainha. Falta aqui a roda pela qual foi martirizada, mas a pintura está um bocadinho suja e eventualmente poderá estar escondida pelo verdete no canto inferior esquerdo.
 
 
Mostrei esta pintura aos meus amigos o Joaquim Caetano, a Maria João Vilhena e o Anísio Franco, que foram de opinião, que esta pinturinha teria sido executada no século XVII, provavelmente em Espanha, por um pintor indeterminado da escola de Sevilha e que representará efectivamente Catarina de Alexandria.
 
 
 
Chamaram-me também a atenção para o entrelaçado de pérolas que adorna o cabelo da Santa, que é muito semelhante aos que foram usados por Josefa de Óbidos, na gravura datada de 1646, representando Santa Catarina, bem como no casamento místico de Santa Catarina, da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, inv. 197.
 
O casamento místico de Santa Catarina da col. do MNAA. Repare-se que o entrelaçado de pérolas no cabelo da santa é semelhante ao da minha pintura 
 
No verso deste cobre há uma legenda manuscrita, que eu ainda tive esperança que fosse o nome do pintor. Enfim, seria muito mais interessante se a minha Santa Catarina tivesse um autor. Contudo, a Maria João Vilhena, que é uma paleógrafa desenvolta, leu imediatamente a dita anotação e o que está lá escrito é o seguinte último figurado. Portanto, a legenda manuscrita não se reporta a um autor, mas provavelmente a uma etapa da criação artística. Talvez este pequeno cobre fosse um estudo, para uma composição maior, enfim, só Deus sabe.
Último figurado
Em todo o caso esta Catarina de Alexandria, fica muito bem nas paredes da minha casa, recordando-me sempre aquela cantinela, que ouvi pela primeira vez por volta de 1968, A santa Catarina, prelim perlim pépé, Era filha do rei…
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:
 
Josefa de Óbidos e a invenção do barroco português / coord. científica Anísio Franco, António Filipe Pimentel, Joaquim Oliveira Caetano e José Alberto Seabra de Carvalho. - Lisboa : Museu Nacional de Arte Antiga : INCM, 2015.
 
 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma pintura feminina: Santa Rita de Cássia


Nunca comprei pintura. Segui até esta altura da minha vida, em que estou prestes a fazer cinquenta e três anos, o conselho do meu pai de que quando não se tem meios para comprar boa pintura o melhor é decorar a casa com gravuras antigas. Com efeito, é raro ou impossível encontrar boas pinturas a um preço económico. Na sua qualidade de arte nobre, a pintura carece de mecenas ricos para se desenvolver e os preços praticados foram sempre altos. Digamos, que a boa pintura não está ao alcance de amadores de arte pobretanas.

Mas talvez por estar a trabalhar como bibliotecário num museu há cerca de seis anos ganhei algum olho clínico para identificar uma pintura antiga, mesmo quando ela se encontra no meio da habitual traquitana de uma banca de uma feira de velharias. Recentemente, na exposição sobre a Josefa de Óbidos realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, vi uma colecção de pinturas sobre cobre daquela artista, todas de dimensões muito pequenas, que me encantaram pelo seu virtuosismo técnico. Voltei à exposição várias vezes só para admirar aquelas pinturinhas em cobre e registei-as bem na memória.
Santa Madalena de Pazzi. Josefa de Óbidos, óleo sobre cobre. Museu Nacional de Arte Antiga. inv. 208 min. foto matrizpix

Há poucas semanas, na feira de Estremoz um vendedor colocou-me nas mãos esta imagem de Santa Rita de Cássia de pequenas dimensões e mesmo sem a retirar da moldura suspeitei logo que fosse uma pintura original, um óleo sobre cobre, provavelmente antigo, do século XVIII ou talvez mesmo do XVII. O preço estava muito convidativo e quando dei por mim já estava a caminho de casa com ela debaixo do braço. Quando cheguei a casa, o Manel retirou a pintura da moldura e confirmamos os dois tratar-se de um óleo sobre cobre. Mais tarde, mostrei esta Santa Rita de Cássia aos meus colegas do Museu, que me confirmaram que será uma pintura do século XVIII ou eventualmente do séc. XVII.

Cristo no mar da Galileia. Jan Brueghel, o velho. óleo sobre cobre. Museo Thyssen-Bornemisza
O cobre como suporte da pintura proporcionava ao artista uma superfície especialmente lisa, que permitia pintar pequenas cenas, plenas de detalhes e minúcias e em que as cores ganhavam tonalidades brilhantes. A partir de meados do século XVI e ao longo dos séculos XVII e XVIII, o cobre foi um suporte de eleição para executar paisagens, retratos e cenas religiosas de dimensões reduzidas. Essas pequenas pinturas eram concebidas para serem vistas muito de perto e eram ideais para espaços privados ou lugares de meditação e oração se o tema fosse sacro.
 
A pintura tem o seu je ne sais quoi de feminino e poderá ter sido um trabalho freirático, ou seja de uma mulher
Esta minha Santa Rita de Cássia será pois um trabalho destinado a uma cela de uma monja ou a um oratório particular de uma casa abastada. A pintura tem o seu je ne sais quoi de feminino, como diriam os franceses e poderá ter sido um trabalho freirático, ou seja de uma mulher. Nos conventos, as mulheres estavam libertas dos encargos próprios da condição feminina, como tratar dos filhos, do marido e do governo da casa e poderiam algumas delas dedicar-se a trabalhos artísticos e muitas delas fariam pequenas pinturas, que venderiam para o exterior como forma de arranjar proventos para o convento. No catálogo Rouge et or : trésors du Portugal baroque. - Lisboa : Gabinete das Relações Internacionais, 2001 o Professor Vítor Serrão refere várias monjas portugueses pintoras como a Irmã Joana Batista, do convento das Maltesa de S. João de Estremoz, Cecília do Espírito Santo, freira do convento das Chagas de Vila Viçosa, da nobre Maria Madalena de Castro, de Maria dos Anjos, professa no convento de Santa Maria de Sena, em Évora, de Teodora Maria Andino, activa em Faro e da nobre Dona Ana de Lorena, consideradas pelos documentos da época como artistas de uma certa capacidade e de uma grande sensibilidade.

 
Em todo o caso, certamente esta pequena pintura foi objecto de grande devoção. Santa Rita de Cássia era vencedora das causas impossíveis e a vida é e foi sempre de tal maneira atravessada por obstáculos impossíveis, que muitos recorreram certamente a ela. Em Portugal, Santa Rita foi também advogada dos terramotos e em muitos registos gravados é representada com um fundo em que se veem casas a desmoronar-se o mar revolto invadindo a terra firme.

Foto de http://www.csarmento.uminho.pt/
 
Em termos de iconografia Santa Rita é mostrada como monja agostiniana, segurando um Cristo e um espinho de Cristo cravado na testa. Segura uma palma, o que nos poderia levar a crer tratar-se de uma mulher que morreu martirizada, mas é de facto uma palma da glória, com três coroas, aludindo possivelmente à sua vida triplamente exemplar: donzela, esposa e monja.
 
 
Claro, esta Santa Rita não é uma obra-prima, nem tão pouco tem grande qualidade, mas é uma pintura original do século XVIII a qual não falta algum encanto. Além de tudo, Santa Rita era objecto de grande devoção na casa de Outeiro Seco da minha família paterna. Ter colocado esta imagem nas paredes de minha casa, foi de certa forma dar continuidade a uma tradição.
 
Santa Rita em minha casa
 
Algumas fontes:

-para informações sobre monjas pintoras consultei Rouge et or : trésors du Portugal baroque. - Lisboa : Gabinete das Relações Internacionais, 2001

- acerca de pinturas a óleo sobre cobre consultei um texto sobre Jan Brueghel, o velho, escrito por Beatriz Fernández, no site do Museo Thyssen-Bornemisza

 
- o site dos Bens Culturais do Patriarcado tem um texto muito bom sobre a vida e iconografia de Santa Rita

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Uma miniatura, uma obra falsa, uma cortesã e uma dama da sociedade


Sempre tive uma paixão por retratos miniatura, aquelas pinturas dos séculos XVII, XVIII e XIX, que antes da invenção da fotografia eram o único meio de fazer conhecer um rosto à distância. Os retratos miniatura eram objectos de natureza íntima, que se trocavam por ocasião de casamentos arranjados entre noivos, que nunca se tinham visto, ou entre pais e filhos separados por longas distâncias, ou serviam ainda para recordar uma criança morta demasiado cedo. Esses retratos pintados sobre velino, papel ou marfim são normalmente um pequeno primor e fazem parte das colecções dos grandes museus.
Retrato do Visconde de Vila –Nova de Ourém.
Museu Nacional de Arte Antiga,
228 Min. Foto http://www.matrizpix.dgpc.pt/

Como recebi um dinheiro extra, resolvi fazer uma pequena extravagância e comprei uma dessas pinturas miniatura, emoldurada em marfim, na Feira de Estremoz. Representa uma jovem dama, vestida em trajes datados mais ou menos do segundo quartel do século XIX, isto é, cerca de 1825-1850. Está assinado, mas na altura em que o comprei não consegui ler o nome. O verso da moldura foi revestido com a página de um livro antigo, de uma edição qualquer da Bíblia, inglesa, dos finais do XVIII.


No entanto, como este retrato não me pareceu muito antigo, abri a Santa e Sapientíssima Internet e pesquisei pelos termos Miniature portrait, ivory framework, e Miniature cadre en ivoire, quer em imagens, quer em texto e rapidamente comecei a perceber que as miniaturas emolduradas em marfim semelhantes à minha são relativamente recentes. As que encontrei em sites de leilões e de antiquários na internet eram datadas dos finais do Século XIX ou dos primeiros anos do Século XX.

Continuei as minhas pesquisas e descobri um artigo estupendo na internet de Don Shelton, intitulado Copy, Fake, and Decorative Miniatures, que descreve sumariamente a história da miniatura, bem com as reproduções e falsificações que delas se foram fazendo ao longo dos tempos. Neste texto, refere que finais do Séc. XIX, inícios do XX, na Alemanha e na França foram executadas centenas, senão milhares de cópias de retratos em miniatura ou de obras famosas a partir de estampas, só que em dimensões reduzidas. 
As molduras em marfim eram feitas a partir de teclas de piano
 As molduras de marfim eram feitas reaproveitando antigas teclas de piano e no verso eram revestidas com páginas de livros antigos, para lhes dar um ar histórico. Ao contrário dos retratos miniatura originais, que muitas vezes não eram assinados, estas cópias ostentavam assinaturas de nomes de artistas famosos como Stieler, Nattier, Cosway, Smart e Isabey. Aliás, foi a referência a estes artistas que me permitiu ler a assinatura que constava no meu retrato “Stieler”.
Stieler é a assinatura de Joseph Karl Stieler
Stieler é a assinatura de Joseph Karl Stieler (1781-1858) um pintor alemão da corte bávara que se notabilizou entre outras coisas pela execução da célebre galeria das beldades do Palácio de Nymphenburg, em Munique. Esta Galeria das beldades, ou Schönheitengalerie em alemão, é um conjunto de 36 pinturas, encomendadas pelo Rei Luís I da Baviera a Joseph Karl Stieler, que as executou entre 1827-50, representando as mulheres mais bonitas de Munique. Desta galeria de beldades consta o quadro original, que o autor da minha miniatura copiou descaradamente.
A obra que serviu de modelo à minha pintura. O retrato de Rosalie Julie von Bonar, por Joseph Karl Stieler.


Trata-se do retrato de Rosalie Julie von Bonar, uma jovem aristocrata, filha de um cavaleiro imperial da Morávia e de uma condessa polaca e que casou com o embaixador inglês em Viena, o Barão Ernst von Bonar. Teria 26 anos, quando Joseph Karl Stieler executou este retrato em 1840 e pouco mais se sabe desta Senhora. Mas desta galeria, que ainda hoje se pode admirar no Palácio de Nymphenburg não constam só damas de alta condição, mas também uma cortesã e uma das mais famosas, a danseuse exótica Lola Montez, uma aventureira irlandesa que se fazia passar por espanhola e que se tornou amante do Rei Luís I da Baviera. Mas, o Rei não se limitou só a mandar retrata-la na galeria das beldades de Munique, concedeu-lhe uma anuidade milionária e ainda fez dela Condessa de Landsfeld. O escândalo foi de tal ordem, que o Rei foi forçado a abdicar e a pobre Lola Montez teve que partir da Baviera às pressas, procurando um outro qualquer patrono ou marido rico em paragens mais distantes.
A danseuse exótica Lola Montez, amante do Rei da Baviera é o retrato mais famoso que Joseph Karl Stieler executou para a galeria das Beldades 
Mas voltando à minha pintura da bem comportada Rosalie Julie von Bonar, não é com efeito um verdadeiro retrato em miniatura, um objecto íntimo que um dia alguém encomendou para oferecer a um parente ou a um noivo. É uma reprodução de pequenas dimensões do quadro de Joseph Karl Stieler, ao jeito das miniaturas do início do XIX, feita provavelmente a partir de uma estampa, algures na Alemanha ou na França, por algum estudante de pintura, numa oficina que fazia destes quadrinhos às centenas, reaproveitando teclas de piano para fazer as molduras. Mas o que é mais curioso é que estas falsificações eram na verdade uma espécie de souvenirs das obras dos grandes museus e galerias, vendidas aos turistas que faziam o grand tour nos finais do século XIX. Com efeito, era uma época em que os museus e galerias de arte não dispunham ainda de todo o merchandising das suas colecções, com reproduções das obras dos grandes mestres da pintura e nem as pessoas viajavam com câmaras digitais, fotografando tudo e mais alguma coisa, de modo que estas pinturas miniaturas eram compradas como recordações das grandes obras do Louvre ou outras grandes colecções europeias, da mesma forma como hoje em dia adquirimos nas nossas viagens a Paris ou a Florença uma t-shirt com a Mona Lisa, ou uma coisinha para pendurar no frigorífico, com o Nascimento de Vénus de Boticelli. Terá sido o caso deste quadrinho, talvez comprado por alguém, que há cerca de 100 ou 120 anos visitou a célebre galeria das beldades do Palácio de Nymphenburg e quis ficar com uma recordação, que hoje é minha e cuja história serve de presente de Natal a todos os que ainda tem pachorra para me ler.
Alguns links úteis:

http://www.rubylane.com/item/135488-213pmHat/Antique-French-Portrait-Miniature-large-Miss

http://en.wikipedia.org/wiki/Gallery_of_Beauties

http://www.artwis.com/articles/copy-fake-and-decorative-miniatures/