Mostrar mensagens com a etiqueta azulejos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta azulejos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Bom Deus: azulejos do Museu Regional de Beja

Pormenor da vida de S. João Baptista. Azulejos atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes

Recentemente voltei Beja com o Manel para mostrarmos a um amigo nosso brasileiro, o Fábio, aquilo que é uma espécie de capela Sistina do azulejo português, o Museu Regional de Beja, Rainha D. Leonor. É um daqueles monumentos únicos e nem sei como é que nenhuma autoridade local se lembrou ainda de candidatar aquele antigo convento a património mundial da UNESCO. Talvez as autoridades andem demasiado distraídas a procurar classificar chocalhos e bonecos de barro para se lembrarem do Museu Regional de Beja. Mas, enfim, não vou prosseguir com este assunto, pois não pretendo ensinar a ninguém as opções a tomar numa política de defesa do património.
O claustro
Na verdade, no meio de toda aquela azulejaria fantástica, de todas as épocas e estilos, que invade o interior do antigo Convento da Conceição, houve uma imagem de Deus Pai surgindo do alto das nuvens, que me chamou a atenção. A figura correspondia exactamente a ideia que eu tinha de Deus na minha infância, um senhor mais idoso, que via tudo e que saia lá do alto, para corrigir os erros dos homens, ou castigar meninos que mentissem. Cheguei a perguntar a minha tia Lalai se Deus conseguia realmente ver tudo lá do alto, mesmo as formiguinhas, e ela claro, respondeu-me sem quaisquer dúvidas que sim. Foi este Deus que acompanhou a minha infância, a quem pedia para fazer que eu não tivesse muitos erros no ditado, pois tinha medo das reguadas (os professores primários costumavam dar uma reguada por cada erro de ortografia). Foi também a este Deus que na minha adolescência eu pedia inutilmente que me fizesse igual a todos os outros. Claro, na altura não tinha estudado filosofia ou religião para saber que os negócios com o bom Deus não se fazem na base do toma lá, dá cá, isto é, uma troca de orações por favores, mas a ideia que existia alguém lá acima a quem se podiam fazer as mais íntimas confissões era reconfortante.

Azulejos do interior claustro
Depois no final da juventude, apercebi-me que só eu próprio poderia fazer alguma coisa por mim e que o Deus Católico não estava muito pelos ajustes com rapazes com os meus gostos sexuais. Deixei de contar com Deus na minha vida, não voltei a falar com ele e esqueci-o. O Senhor com barbas brancas lá no alto das nuvens passou a ser uma figura da história da arte, uma parte da composição de uma tela do século XVII, de um painel de azulejos ou uma figura de uma escultura da Santíssima Trindade.
Pormenor da vida de S. João Baptista.Azulejos atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Azulejaria portuguesa numa casa de banho


Nos últimos quarenta e cinco anos, nós os portugueses passámos como que uma esponja na nossa tradição azulejar de séculos e enchemos as nossas casas de banhos com azulejos hediondos, transformando aqueles espaços em divisões banais e tristes.


Comentador habitual deste blog, o meu amigo Manuel resolveu contrariar essa tendência e encomendar azulejos de fabrico artesanal, em verde e branco para o wc da sua casa alentejana. Os primeiros azulejos foram executados pela Cristina Pina e e destinaram-se à zona do duche e passados uns cinco anos, o Manel mandou fazer mais azulejos iguais, desta vez à Isabel Colher, que muita gente conhece através do seu blog, o Tardoz
Os problemas de salitre visíveis na casa de banho do Manel

Mas a colocação dos azulejos não foi apenas uma questão estética. Como a casa do Manel é antiga o reboco estava-se a esfarelar aos poucos, provavelmente porque areia usada para fazer a argamassa tinha sal a mais. Assim, os azulejos resolveram o problema do salitre, isolaram melhor a divisão e emprestaram uma graça especial a este espaço cheio de coisas curiosas, um bidé recuperado de um contentor do lixo perto da minha casa, toalheiros de faiança da Fábrica de Louça de Sacavém, um espelho em mármore dos anos vinte ou trinta, um lavatório antigo e muitas máscaras africanas que vieram nos caixotes de madeira dos retornados e acabaram desprezadas no chão das feiras de velharias.

Toda esta decoração foi rematada com um azulejo solto, que a Isabel Colher ofereceu ao Manel, decorado com a esfera armilar, réplica de um dos azulejos do Palácio Nacional de Sintra, colocado de forma insólita junto ao bidé, para dar uma nota histórica de humor. 
Azulejos do Palácio Nacional de Sintra. Foto Wikipédia
Se nós os portugueses temos uma tradição tão rica em azulejos, porque não reutiliza-la nos espaços onde nos movemos quotidianamente?
 
 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Alpendre com cobertura revestida de azulejos em Elvas


Elvas é daquelas cidades que se visita sempre a correr, de preferência em passagem para a Espanha ou para outro lado qualquer do Alentejo. Acabamos por conhecer mal a cidade e é uma pena, pois em termos patrimoniais é fabulosa. As muralhas seiscentistas do tempo em que Portugal esteve em guerra com Espanha, 28 anos ao todo, justificam plenamente a visita, mas também o casco histórico é bonito e bem preservado, cheio de pormenores interessantes, que nos fazem abrir a boca de espanto, como este alpendre, com uma cobertura de revestida de azulejos enxaquetados, formando como que uma complexa cúpula . 

Este alpendre faz parte do colégio jesuítico de Elvas, construído sobre a antiga igreja de Santiago e que é hoje a biblioteca pública da cidade. Segundo os dados que encontrei no site monumentos.pt, este alpendre e a sua cobertura azulejar terão sido executados em 1716, embora os azulejos tenham um efeito tão surpreendente, que mais parecem uma obra feita por um modernista qualquer para a Exposição de Artes Decorativas de Paris, de 1925.

São pormenores arquitectónicos deste tipo, que as terras alentejanas conservam sempre muito bem e que espalhados aqui e acolá transformam uma cidade em qualquer coisa de muitíssimo atraente. Claro foi uma chatice fotografar este alpendre sem apanhar automóveis. Aliás, os carros surgem sempre com tanto destaque nas fotografias dos monumentos, que muitas vezes penso ser possível fazer uma história do automóvel no nosso País através das histórias da arquitectura em Portugal.

Em todo o caso, este alpendre é um exemplo muito engraçado de uma prática, que ainda era rara em Portugal no século XVIII, que era a colocação dos azulejos no exterior. Nessa época o uso da azulejaria no exterior circunscrevia-se aos jardins e às coberturas das torres de algumas igrejas.
 
 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Azulejos pombalinos em casa do Manel


Esta Páscoa, o meu amigo Manel e eu metemo-nos novamente ao trabalho de encastrar mais azulejos antigos na sua casa alentejana. Desta vez o sítio escolhido, foi um vão por debaixo da janela do seu quarto, que estava cheio de humidade. O objectivo de colocar ali azulejos foi obviamente estético, criar um ponto de interesse no quarto, um cenário de museu, mas também destruir um reboco apodrecido pela humidade.
O quarto antes dos azulejos. São visíveis as manchas de humidade no reboco.

O painel escolhido foi uma mistura de azulejos coleccionados em diferentes alturas, ao longo de mais de 15 anos, alguns deles comprados em feiras de velharias, outros pura e simplesmente achados nos contentores das obras. Ao nível do chão, escolhemos uma barra de azulejos marmóreados, como era tradição na segunda metade do século XVIII, depois usamos um friso, uma espécie de concheado barroco, mas que o Manel crê que sejam uma representação já muito abstracta das franjas de um tapete, o que faz sentido pois a propósito do Museu Regional de Beja, já aqui se falou da influência dos têxteis na azulejaria portuguesa. Por dentro, fez-se o enchimento deste tapete cerâmico com azulejos de estrelinha e no centro tive a ideia de colocar um anjinho solto, comprado pelo Manel há muitos anos.


O mesmo quarto durante os trabalhos 
Todos eles fazem parte daquilo que se chamam os azulejos seriados pombalinos, isto é, datados da segunda metade do século XVIII e que apresentam esta característica espantosa, a possibilidade de com eles se poderem fazerem inúmeras combinações diferentes.
O anjinho tornou-se o centro do painel.
Reconheço, que este processo de rebentar com uma parede para encastrar azulejos não é para todos. Desta vez, o Manel usou um martelo pneumático eléctrico, o que faz menos lixo do que a técnica do martelo e o escopro, que usámos anteriormente. Porém, o resultado final compensa a poeiraçada toda e os 40 azulejos postos transformaram toda uma divisão, criando naquele vão de janela um ambiente palaciano, para o qual os nossos olhos convergem de imediato.

terça-feira, 8 de março de 2016

Azulejos da Sé de Beja: um jogo de cartas divino


Há quem ache a arte sacra aborrecida e macabra, uma coisa vinda de um tempo obscuro, quando o ser humano encontrava as explicações para os fenómenos da natureza em Deus e procurava ardentemente a protecção dos santos e da Virgem contra a morte, que espreitava em cada esquina, muito mais que no mundo de hoje, onde a esperança de vida é altíssima.

Naturalmente que entendo este ponto de vista. Também recebi uma educação religiosa, com catequese, aulas de moral e religião no Liceu, com missas obrigatórias ao Domingo e confesso que também me senti oprimido por aquele esquema de recompensas, castigos, remorsos e absolvições e no qual cedo pressenti uma pontinha de hipocrisia.

No entanto, há que reconhecer que uma boa parte das obras da arte ocidental são de temática cristã e que por vezes apesar da seriedade do tema, acabam por ser muitíssimo divertidas, como por exemplo este painel de azulejos da Sé de Beja, que mostra uma santa entretida num animado jogo de cartas com o Menino Jesus. Confesso que fiquei logo encantado com esta representação tão insólita e procurei aqui e ali algumas informações, para saber quem era esta Santa apreciadora dos jogos de azar, ainda que tidos com uma pessoa tão insuspeita, como o Menino Jesus.

Conforme li no site monumentos.pt o interior da Sé de Beja foi interiormente todo refeito nos anos 30 e 40 do século XX, aquando da adaptação da antiga igreja paroquial de Santiago a Catedral. A maioria da azulejaria desta igreja proveio de conventos, igrejas e palácios lisboetas. Segundo o mesmo site vieram do Convento das Mónicas 11 mil azulejos com cenas da vida de Cristo e Nossa Senhora e ainda 12 mil azulejos vindos de Lisboa sem especificar a sua proveniência. Em suma, este painel de azulejos com esta santa em animada jogatana com menino Jesus não se encontrava originalmente na Sé de Beja e o site monumentos.pt nem sequer o menciona.
Santa Rosa de Lima. A imagem clássica com a coroa de rosas, por Carlo Dolci
Resolvi continuar as minhas buscas através da iconografia e procurei santas que usassem coroas de rosas e o mesmo hábito, que enverga a figura do painel. Embora haja umas quantas santas que sejam representadas com coroas de rosas, por causa do hábito de dominicana, acabei por me convencer que é mais provável tratar-se de Santa Rosa de Lima (1586-1617), uma mística peruana, constantemente visitada pela Virgem Maria e pelo Menino Jesus. Até porque realmente encontrei uma tela do século XVIII, no Museu de Osma, em Lima, mostrando Rosa de Lima jogando dados com Jesus.

Mas porque razão se mostra uma santa da Igreja Católica, uma virgem mística em práticas tão profanas, como um jogos de cartas ou dados?

Encontrei a resposta num texto muito bom, intitulado Rosa limensis, de Ramón Mujica Puntilla e que está acessível na net em http://books.openedition.org/cemca/2317 e cuja explicação passarei a descrever de forma resumida.
 Santa Teresa de Ávila. Gravura de I. Palomino. Em Obras de Santa Teresa, t. 11, Madrid, 1752.

No renascimento e no início do período barroco, generaliza-se o conceito que Deus é um caçador divino, que fere a alma, para mante-la cativa. Por influência da literatura e da também da imaginária pagã, esse caçador divino é identificado com Eros ou o Cupido, com as suas setas que produzem feridas de amor. Temos assim Meninos Jesus rechonchudos e brincalhões, que realizam deliciosos jogos de diversão ou de azar com vários significados morais. Estes Meninos Jesus disparam setas, fazem bolas de sabão, correm atrás de um arco ou jogam as cartas. São metáforas com um conteúdo nítidamente pagão e que apesar da sua natureza lúdica, serão incorporados nos repertórios visionários de Santa Teresa de Ávila ou de Santa Rosa de Lima.
Santo António de Lisboa jogando cartas com o Menino Jesus. Santuário de Quinta Angustia de Cacabelos, província de Leão
Neste caso e a interpretação é minha, este jogo de cartas, tem um significado moral. Santa Rosa de Lima, perde a partida em favor do Menino Jesus, entregando-lhe a sua vida no mundo, mas ganha o amor divino em troca. Aliás, em Espanha, no santuário de Quinta Angustia de Cacabelos, província de Leão há um painel em madeira com uma representação de significado moral próximo, em que Santo António de Lisboa ou de Pádua joga às cartas com o Menino Jesus. Enquanto o Menino Jesus recebe do santo um quarto de copas, símbolo do mundano, entrega ao santo um cinco de Ouros, símbolo de renúncia aos bens terrenos.

Este painel de azulejos só prova que a arte sacra, sobretudo a do período barroco é por vezes muitíssimo divertida.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Passamanaria de azulejos: Museu Regional de Beja


Recentemente fui visitar um sítio um pouco esquecido de todos e com um certo ar de abandono, o Museu Regional de Beja, o que é uma pena, pois o edifício onde está instalado, o antigo Convento da Conceição, tem uma azulejaria de cortar a respiração. Aliás, só por causa dos azulejos, o Museu Regional é um local de visita obrigatório em Portugal, apesar de a ourivesaria e algumas pinturas serem também dignas nota, como por exemplo as telas atribuídas ao pintor espanhol José Ribera.

Quem se interessa pelo tema, sabe certamente que no século XVII a azulejaria portuguesa foi influenciada pelos têxteis. Por exemplo, nas igrejas portuguesas muitos frontais de altar são revestidos com painéis azuleares inspirados nas colchas indianas. Da mesma maneira, são comuns nesta época os lambris de azulejos inspirados nas rendas de bilros, generalizadas na Europa no século anterior, a partir da Flandres e da Itália. Este motivo das rendas surgirá também na faiança. A Maria Andrade e a Ivete Ferreira já escreveram nos seus blogs sobre esta influência dos têxteis na azulejaria e acerca do motivo decorativo das rendas.
Azulejos com o padrão das rendas e o motivo Passamanaria

Contudo, até visitar o Museu Regional de Beja, nunca tinha visto azulejos, que imitassem tão claramente uma faixa de passamanaria, idêntica aquelas franjas e borlas que rematam as cortinas, os tapetes orientais e até enfeitam alguns sofás. Certamente que esta pequena descoberta no Museu Regional de Beja, não é novidade nenhuma para um especialista em azulejaria, mas para mim que sou um mero amador das artes e da história, deixou-me completamente surpreendido. Fiquei realmente a matutar na ideia, que no fundo muita da azulejaria portuguesa do século XVII pretende reproduzir na parede um tapete ou um tecido oriental. 
 
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Uma paisagem com casario ou a vontade partir


Já há uns tempos que tinha este azulejo guardado, à espera de melhores dias. É antigo claro, provavelmente do século XVIII e fez em tempos parte de um painel qualquer, representando uma cena complicada. Talvez fosse o fragmento de uma paisagem, que serviu de pano de fundo a um episódio da vida de Cristo ou ao martírio de um santo. Quem sabe?

Mesmo perdido irremediavelmente do conjunto de que fez parte, este azulejo não perdeu a sua beleza. Recorda-me as paisagens com casarios que muitas vezes decoram os pratos e as travessas de faiança, mas tem também qualquer coisa de apontamento impressionista. Quem o pintou pretendeu sugerir a quem o via, a impressão que provoca uma paisagem vista ao longe, como se estivéssemos num navio e víssemos a terra a afastar-se progressivamente.
 

Talvez por essa razão, Quando olho para ele recordo-me do desejo que temos muitas vezes de partir de viagem, um impulso que tem a mais a ver com o sentimento de querer partir e menos com o de chegar a um destino, onde nos reencontraremos novamente com os nossos problemas, as nossas limitações e o mesmo medo de sempre.

Nestas últimas obras que fiz em casa, aproveitei para colocar este azulejo na parede, junto a uma estante em acrílico, onde tenho uma série de faianças expostas e assim quando os olhos o descobrirem, no meio da tralha toda que tenho, poderei experimentar uma vez por outra o estranho sentimento de querer partir, sem querer chegar ao destino.
 
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Velharias do Luís em obras ou remodelação da minha casa de banho.

Tal como o fado Madrugada de Alfama, em que a personagem mora numa água-furtada, que é a mais alta de Alfama, e que o sol primeiro inflama quando acorda à madrugada, também eu vivo num sótão, quase no alto de uma das colinas da velha Lisboa, onde de um lado vejo o Castelo, a Graça, a Senhora do Monte e de frente avisto um torreão do Terreiro do Paço e o Tejo. Enfim, é tudo muito Amália Rodrigues. Aliás, diz-se que a grande diva do fado, nasceu na minha rua. Não é verdade, pois Amália era natural da Beira Baixa, mas se tivesse nascido ali, o carácter popular da rua combinaria muito bem com a personagem. 

A minha casa apresenta uma característica bem típica de todas as águas furtadas, isto é, a possibilidade de crescimento em direcção ao céu de Lisboa. Normalmente, nos últimos andares há uma caixa-de-ar entre os telhados e os apartamentos propriamente ditos e as obras de remodelação destas casas, passam sempre por subir os tectos até aos telhados, conseguindo-se um pé direito muito mais alto, tornando-as casas espaçosas e mais frescas, sobretudo quando se faz um bom isolamento. Já tinha feito obras semelhantes de eliminação dessa caixa-de-ar para duas divisões e para a cozinha e resolvi na passada semana fazer o mesmo para a casa de banho, uma divisão pequenina, onde tinha que pedir autorização ao tecto para tomar duche.

As obras largaram uma poeiraçada incrível, andei acantonado em casa durante quase uma semana, vivendo na maior das confusões. Depois seguiu-se a arrumação e a limpeza das centenas de velharias, que revestem as paredes e os tectos do meu apartamento.

Aproveitei as obras para mandar colocar um friso de azulejos dos finais do século XVIII, que há muito tinha encontrado num contentor das obras, ali atrás da estação do Rossio e depois nas tarefas de arrumação, passei para a casa de banho a faiança inglesa, que andava mais ou menos dispersa. 

Até há lugar para um carro eléctrico na minha nova casa de banho.
Como podem ver pelas fotografias que publico, o resultado valeu bem a pena. A casa de banho ficou maior e mais fresca e com uma decoração ao gosto muito carregado do século XIX, que emprestou graça a um espaço, que tradicionalmente é sempre tão asséptico e aborrecido em todas as casas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Verão nos azulejos de Lisboa


Os azulejos de Lisboa são sempre surpreendentes. Se andarmos com os olhos abertos, descobrimos pequenas surpresas como estes dois prédios duma rua qualquer, ali perto da Imprensa Nacional. Os azulejos em si não são nada especial. Se os visse no chão da Feira-da-Ladra nem olhava para eles. São simples azulejos amarelos e azuis a formar um xadrez. O único luxo são as cercaduras a rodear as cantarias, que dão o enquadramento arquitectónico. 

Estes simples azulejos transformaram um edifício banal, num conjunto vibrante de cor, que nos faz duvidar daquele velho chavão, que afirma que somos um povo triste. Este prédio talvez simbolize a alegria e o despertar dos sentidos que a aproximação do Verão nos faz sentir, pelos menos a nós, os que vivemos nas zonas velhas e podemos ver o Tejo todos os dias.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Um menino travesso em azulejo


Já é quase uma tradição. Na Páscoa, o Manel e eu decidimos esburacar as paredes e colocar azulejos antigos na sua casa do Alentejo. Há uns que pintam ovos de Páscoa, outros, como nós, entretêm-se a brincar aos trolhas.
O antes

Desta vez o desafio era grande. Tratava-se de colocar em duas paredes 81 azulejos, restos de três diferentes painéis historiados, isto é, conjuntos de azulejos que formam uma composição onde se conta uma história, por exemplo,  episódios da vida de um santo, de Cristo, batalhas ou cenas mitológicas. Claro, das cenas narrativas propriamente ditas, o Manuel não tem os azulejos. Dos dois primeiros painéis, o meu amigo tem os restos das cercaduras, que rodeariam as cenas principais e do terceiro possui apenas o fragmento de um putti.

Tomámos a decisão de fingir, que se tratava de um único painel e formámos um conjunto, pretendendo sugerir a quem entra em casa, que um dia, quando se se removeu o estuque das paredes foram descobertos por acaso pequenos apontamentos de azulejos aqui e acolá, restos de um painel grandioso. O traço escolhido para os unir foi, além do mesmo azul e de uma certa familiaridade estilística, uma barra de azulejos marmoreados na base.
Durante os trabalhos
Depois, de tomadas as decisões vieram os grandes trabalhos. Houve que remover a mobília, os quadros, as dúzias de pratos pendurados na paredes e as carpetes. Foi necessário tapar tudo com plásticos, desenhar a na parede a mancha da qual se ia retirar o estuque, usar uma rebarbadora para fazer os limites na parede e depois com martelos e maços picar a parede para retirar todo o reboco. Tudo isto fez uma sujidade alucinante, sobretudo a rebarbadora, que produziu umas nuvens de poeiras, que julgo serem  em tudo semelhantes aquelas produzidas pela bomba de Hiroxima.
De seguida fez-se a massa, e começou a colocação dos azulejos. O trabalho arrastou-se ao longo de uma tarde e de uma manhã e a limpeza, que coube ao pobre Manuel, por mais um dia. 


Na realidade, o que aqui se vê é a colagem de restos de três painéis diferentes
Foi uma trabalheira inaudita, mas os resultados não nos desapontaram. A azulejaria portuguesa tem esta capacidade de transformar um cubo banal e sem graça, num espaço alucinante, onde se abrem perspectivas para outros mundos.

O resultado final
Numa parede, em todos os jantares que o Manuel vier a dar, existirá um menino travesso, que do seu mundo do século XVIII, nos espreitará e talvez, no final da refeição, quando todos se tiverem levantado, ele saia furtivamente do seu refúgio para comer os restos do pudim.


sábado, 6 de abril de 2013

Colocação de mais azulejos pombalinos


Esta Páscoa o Manel e eu andámos outra vez a colocar mais azulejos na sua casa do Alentejo. O método foi o mesmo. Retirámos os móveis, quadros e pratos e estendemos um plástico no chão.

Depois foi necessário calcular o espaço certo que os azulejos ocupariam, para abrir o roço, o que não significou simplesmente multiplicar a dimensão típica de um azulejo, 14 cm, pelo nº de unidades a colocar. Na verdade, os azulejos não eram exactamente iguais. Os marmoreados eram quase todos do século XIX e apresentavam dimensões mais pequenas que os restantes. Por outro lado, os azulejos com um motivo rocaille estavam muitas vezes partidos nos cantos e outras vezes empenados. No fundo estamos a falar em azulejos ainda muito artesanais, todos ligeiramente diferentes e precisamente para não haver desfasamentos no final, o Manel montou o painel previamente no chão, numerou-o a marcador e foi tomando às medidas na parede três a três.


Depois, calçámos as luvas e armados com um martelo e um escopro, começámos a partir furiosamente a parede, até chegarmos ao tijolo. Seguiu-se a feitura da massa e a colocação dos painéis. À medida que a massa ia secando, um de nós ia limpando com uma esponjinha os azulejos.

Quando acabámos já eram nove e tal da noite. Jantámos tarde e a más horas, mas no dia seguinte, quando se conseguiu arrumar tudo, o resultado obtido era verdadeiramente espectacular. A boa azulejaria portuguesa passou a ser um cenário de época perfeitamente adequado para a mesa bufete e as cadeiras D. José. A comparação das duas fotografias do antes demonstra aliás como os azulejos modificam e alteram a percepção que temos do espaço arquitectónico, mesmo que a superfície em causa não ultrapasse a meia dúzia de metros.

terça-feira, 5 de março de 2013

Azulejos atribuídos à fábrica do Rato


Há uns anos, quando tínhamos todos mais dinheiro e não havia a Troika, o Sr. Passos Coelho, o buraco do BPN e outras coisas da mesma nefasta natureza, perdi a cabeça na Feira-da-Ladra com este painel de azulejos. Regressei a casa a pé com 16 azulejos na mochila, exausto por ter subido a meia encosta da colina da Pena e mais três andares sem elevador, mas simultaneamente feliz.

Depois de os ter colocado, arrependi-me um bocado. Achei o motivo central demasiado colorido, teria preferido uns azulejos marmoreados em azul ou umas estrelinhas, uma coisa mais “ton sur ton”, mas quando se colocam azulejos na parede não se volta atrás.

Depois, com os anos fui-me habituando a este painel e até já o usei muitas vezes como cenário para fotografar as minhas faianças e porcelanas, como uma bela cafeteira Vieux Paris.

Uma cafeteira de porcelana de Paris fica bem com azulejos portugueses ao fundo

Aprendi também a gostar dele, pois representa toda a versatilidade característica dos azulejos pombalinos. Como toda a gente sabe, houve o terramoto em 1755, Lisboa foi arrasada e a reconstrução processou-se segundo um restrito plano urbanístico. Para que essa reedificação se fizesse rapidamente não só os edifícios eram idênticos, como muitos materiais tinham medidas padronizadas. Embora nestes meados do século XVIII não de possa falar ainda em pré-fabricação, cantarias, degraus de pedra, aros de janelas, ombreiras, azulejos e muitos outros foram manufacturados em grande quantidade com dimensões padronizadas. De toda essa produção padronizada, os azulejos são sem dúvida os exemplos mais conhecidos de todos.

Jorge Mascarenhas, Sistemas de construção, descrição ilustrada e detalhada de processos construtivos utilizados correntemente em Portugal: vol 5. Lisboa, Livros Horizonte, 2009.

 Os azulejos pombalinos apresentam padrões simples, que podem ser avulsos ou formando conjuntos de dois ou quatro no máximo. São muito versáteis. Os diferentes padrões combinam facilmente uns com os outros. As cercaduras são também adaptáveis a azulejos diferentes e os painéis podem ser aplicados facilmente a situações distintas, como escadas, vãos de janelas, espaços mais longos ou mais largos
Jorge Mascarenhas, Sistemas de construção, descrição ilustrada e detalhada de processos construtivos utilizados correntemente em Portugal: vol 5. Lisboa, Livros Horizonte, 2009.

Este meu painel representa pois essa versatilidade do azulejo pombalino. Poderia ser sido alongado. Os azulejos do centro dispostos de maneira diferente, podem compor um novo motivo. Também poderia ter no meio outros azulejos com estrelinha ou não ter nada, que ficaria igualmente bem. 

Os azulejos centrais dispostos de uma maneira diferente fazem um novo desenho
 
O painel também poderia ter só a cercadura
 
Seria possível colocar azulejos com uma decoração diferente no centro.
Depois há pouco tempo, quando desfolhava a obra de Luisa Arruda, A caminho do Oriente: guia do azulejo. Lisboa: Livros Horizonte, 1996” encontrei reproduzidos uns quantos painéis do convento de S. Francisco em Xabregas, atribuídos à Fábrica do Rato, sendo um dos quais muito semelhante ao meu.


Um painel atribuído ao Rato

Por todas estas razões passei, reconciliei-me com uma certa garridice, que denota este painel de azulejos.