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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Cantão popular da fábrica de Louça de Massarelos


Há muito tempo que não escrevo sobre faiança portuguesa neste blog. Não que o assunto me tenha deixado de interessar, mas a falta quase total de marcas na faiança fabricada em Portugal durante o século XIX faz com que escrever sobre uma peça qualquer bonita comprada há pouco tempo seja apenas um mero texto de suposições. Temos a impressão que aquela terrina com uma pasta muito brilhante é do Norte, que um prato mais grosseiro e de cor amarelada é de Coimbra e que uma travessa com cores garridas será eventualmente das fábricas de Bandeira ou de Fervença. Também deixei de escrever sobre faiança, depois de ter o consultado o catálogo A fábrica de Vilar de Mouros, de 2015, que me deixou a ideia, que no século XIX, as fábricas portuguesas, pelos menos as do Norte, tem uma produção semelhante, quer em termos de formas, quer em termos de decoração, sem dúvida para responder ao gosto dominante dos consumidores.
 
Massarelos produziu o motivo cantão popular. Foto extraída de Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017
 
No entanto, de vez aparecem novos trabalhos, que dão alguma luz sobre esta terrível confusão que é a faiança portuguesa do século XIX. Foi o caso de uma obra, que se encontra on-line, Dois séculos de faiança portuguesa, escrita por Edgar Vigário, 2017, que descreve alguns achados postos a descoberto nas escavações arqueológicas feitas no lugar da antiga fábrica de Massarelos no Porto. O autor publica fotografias do que os arqueólogos trouxeram à luz do dia e entre esses cacos, há muitas peças com a decoração do tipo cantão popular, com produção atribuível à primeira metade do séc. XIX. Portanto, estas escavações arqueológicas provaram preto no branco, que a Fábrica de Massarelos também fabricou cantão popular durante a primeira metade do século XIX. Edgar Vigário remete ainda para outro documento on-line, de Liliana Barbosa, intitulado Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal, que descreve mais sucintamente as escavações feitas naquela fábrica e que é um estudo precioso para saber o que Massarelos produziu no século XIX, já que o catálogo Fabrica de Massarellos 1763-1936. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 1998 é relativamente pobre em informações sobre aquela época, pois centra-se nas peças feitas nos séculos XVIII e XX. Na obra Fábrica de louça de Massarelos de Liliana Barbosa mostram-se ainda muitos fragmentos de louça colorida de meados do século XIX, que teríamos tendência a atribuir às fábricas de Bandeira ou Fervença e agora passamos a saber, que poderão ser também de Massarelos.
Massarelos produziu muita louça de cores vivas tal como Bandeira, Fervença, Viana ou Vilar de Mouros. Foto extraída de Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017
Realmente, estes trabalhos arqueológicos feitos nas instalações das antigas fábricas de faiança portuguesa são realmente determinantes para o estudo da faiança portuguesa do século XIX, pois permitem uma classificação e atribuição das peças relativamente seguras. Só é pena que os arqueólogos não publiquem mais fotografias dos seus achados, que são preciosas para os amantes da faiança portuguesa.
 
O grande número de variações na decoração e nas formas do cantão popular leva-nos a pensar que muitas fábricas produziram este motivo decorativo ao longo do século XIX. Talvez uma destas peças poderá ter sido produzida por Massarelos
Relativamente ao motivo do Cantão popular, já se sabia que duas fábricas tinham produzido louça com este motivo no século XIX, isto é, Santo António de Vale da Piedade e Vilar de Mouros. Mas o Manel e eu que temos muitas peças com este motivo decorativo, já tínhamos tido a percepção, perante o grande número de variações na decoração e nas formas, que forçosamente teria que haver outras fábricas a produzir Cantão popular ao longo do século XIX, e  com efeito, agora temos a certeza que houve mais uma, Massarelos.

Alguma bibliografia:

Dois séculos de faiança portuguesa /  Edgar Vigário. 2017 

Fabrica de Massarellos 1763-1936. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 1998. - 182 p. : il. ; 30 cm

A fábrica de Vilar de Mouros/ Paulo Torres Bento [et al]. – Vilar de Mouros: CIRV; Câmara Municipal de Caminha, 2015

Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017 https://www.academia.edu/33242404/F%C3%A1brica_de_Louca_de_Massarelos_Porto_breve_olhar_sobre_as_produ%C3%A7%C3%B5es_de_uma_unidade_industrial_pioneira_em_Portugal; 2017.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Caneca Massarelos com a bandeira da monarquia proveniente do Solar de Outeiro Seco

Produzida pela Fábrica de Massarelos, esta Caneca em faiança está na casa do meu pai e veio do solar de Outeiro Seco, no Concelho de Chaves. Não é de modo nenhum uma grande antiguidade, mas tem um valor simbólico e sentimental, já que no tempo em que foi comprada, a família Montalvão era convictamente monárquica. A bandeira da monarquia esteve hasteada no Solar até ao final dos anos 30 e só dali foi apeada por ocasião da visita do Presidente Carmona, que era muito amigo da família. Eu ainda me lembro dessa bandeira, que por volta dos anos 70, 80 estava exposta naquilo que pomposamente de designava o museu da casa.

A marca da Caneca consta com o nº504 do Dicionário de marcas de faiança e porcelana portuguesas / Filomena Simas, Sónia Isidro. - Lisboa: Estar Editora, 1996 e segundo essa obra terá sido usada entre 1912 e 1920. No catálogo Fábrica de Louça de Massarelos: 1763-1936, editado em 1998 aparece reproduzida uma caneca igual a esta, com mesma marca C&W e também atribuída ao período entre 1912-1936.

Ora, tudo isto é bastante estranho, já que a República foi proclamada a 5 de Outubro de 1910 e a nova bandeira verde e vermelha foi aprovada por decreto de 19 de Junho de 1911. Parece-me pois muito inusitado, que em em 1915 ou 1920 Massarelos andasse ainda a produzir canecas com a bandeira real.

É certo quem em 1919 houve uma insurreição no Norte, que restaurou a monarquia no Porto, por duas breves semanas, mas não me parece que durante esse período os patrões de Massarelos arriscassem a sua relação com o governo de Lisboa vendendo canecas com a bandeira azul e branca. Até porque durante a década de dez, muitos monárquicos foram perseguidos e exilados. O meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, outro monárquico convicto teve que fugir para Espanha depois da segunda incursão de Paiva Couceiro. Portanto, a época não era de tolerância.

Em suma, parece-me mais lógico que esta marca de Massarelos já seria usada antes de 1910, embora também é verdade, que a vida decorre sem obedecer às normas da razão e lógica e o período da Iª República Portuguesa é um exemplo eloquente de como história evolui às vezes de forma insensata.


sábado, 8 de junho de 2013

Terrina de Massarelos do séc. XVIII


Muito embora, os vendedores de velharias teimem em convencer-nos que todas as faianças que apresentam no estendal são muito antigas, todas do tempo do Marquês de Pombal, na verdade não nada fácil encontrar à venda faianças do século XVIII e se eventualmente aparecem, vendem-se ao preço do ouro. 
 
 
O Manel teve a rara sorte de apanhar recentemente uma genuína peça de faiança do século XVIII, por um preço aceitável, mas apenas porque é uma tampa desgarrada de uma terrina. Se fosse o conjunto completo custaria o couro e o cabelo. Mas as tampas de terrina fazem um bom efeito penduradas na parede e esta é particularmente bela. É tão bonita que nos faz pensar, que a faiança portuguesa do século XVIII é de melhor qualidade que a do Século XIX. Embora aprecie de sobremaneira a ingenuidade das peças oitocentistas, há que reconhecer que as produções do século XVIII são pintadas e fabricadas com outra mestria. Julgo que na centúria de oitocentos, os fabricantes tiveram que baixar a qualidade das suas peças e dirigir-se a um público menos endinheirado, já que a fidalguia e a boa burguesia compravam a porcelana ou a excelente faiança inglesa.  

Pormenor da terrina do Manel, que evidencia a qualidade da faiança portuguesa do séc. XVIII

Quando, o Manel, comprou esta tampa, não sabia de que marca se tratava, mas uma vendedora nossa amiga, que é uma mulher civilizada e familiarizada com boas peças, sugeriu Massarelos. Pedi autorização ao Manel para fotografar a peça e quando cheguei a casa, fui desfolhar os calhamaços de faiança para tentar descortinar o fabricante desta tampa. Sabia que não ia ser fácil, pois esta decoração inspirada na faiança francesa de Ruão e que ao mesmo tempo imitava os lavores das baixelas de prata foi muito comum nas produções portuguesas dos últimos 30/25 anos no século XVIII. De facto encontrei na obra Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX / Jorge Pereira de Sampaio. [S.l], ACD editores, 2009, uma travessa muito semelhante, feita na Real Fábrica do Cavaquinho, datada do último quartel do século XVIII, mas não era bem a mesma coisa. 
Terrina de Massarelos, marcada. Antiga colecção António Capucho
Só ao folhear o catálogo António Capucho: retrato de um homem através da Colecção. Porto: Civilização, 2004 é que encontrei uma peça exactamente igual, uma terrina completa, fabricada por Massarelos, marcada e atribuída ao 3º quartel do Século XVIII. 
Outro aspecto da Terrina de Massarelos. Marcada com um P. Antiga colecção António Capucho
Estava resolvido o mistério a tampa da terrina do Manel, que foi produzida nos primórdios de Massarelos, uma das fábricas portuguesas com uma maior longevidade.

A terrina do Manel. Uma peça que lembra os trabalhos de ourivesaria

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Azulejos oitocentistas numa casa particular do Porto

 
Recebi uma série de imagens de azulejos de uma casa particular do Porto, enviados por uma seguidora deste blog. Esta senhora e o namorado, apaixonaram-se por uma casa antiga, compraram-na e ao contrário do que fazem a maioria das pessoas, mantiveram os velhos azulejos e salvaguardaram a alma da casa. E ainda para mais é a alma de uma casa do Porto, com azulejos típicos daquela cidade, que não se encontram em Lisboa, nem no Sul. São azulejos com o charme da pronúncia do Norte.



Estes azulejos são tão bonitos como intrigantes e receio não conseguir classificar ou atribuir-lhes um fabricante com segurança.


A cercadura.

A cercadura é já nossa conhecida, é muito comum nos prédios do Porto e costuma acompanhar azulejos atribuídos à Fábrica de Miragaia datados da primeira metade do século XIX (1822-1850). No entanto mais fábricas do Porto e Gaia fabricaram este motivo decorativo ao longo do século XIX.

Painel atribuído a Miragaia

Começando a laborar a partir de 1860, a Fábrica das Devesas, que  nas últimas décadas do séc. XIX foi o mais importante centro industrial português de revestimentos cerâmicos e elementos de ornamentação de fachadas, produziu também este padrão, conforme assinalou o nosso amigo Fábio Carvalho.  As Devesas exportavam para o Brasil, Espanha e colónias portuguesas.

Azulejos das Devesas de finais do XIX.
Portanto, os azulejos da cercadura poderão ter sido também executados nos últimos trinta ou quarenta anos do século XIX.

A Fábrica de Massarelos que laborou todo o século XIX e ainda pelo início do século XX também fabricou este padrão das roseiras, conforme me indicou o Flávio Teixeira.

A marca de Massarelos
O mesmo Flávio enviou-me ainda um outro azulejo do mesmo padrão marcado Fabrica de Gaia, que não sei a que unidade fabril se reporta, pois houve tantas em Gaia, mas suspeito que seja às Devesas.

 
A Maria Andrade encontrou também azulejos deste tipo, mas da Fábrica do Carvalhinho (1840-1980), marcados com as inicias FC.

Em suma, os azulejos da cercadura foram presumivelmente fabricados no Século XIX, no Porto ou em Gaia e poderão ter saídos dos fornos das seguintes fábrica: Miragaia, Devesas, Massarelos ou Carvalhinho. No entanto, fica aqui uma dúvida. As informações que disponho dizem respeito, quer a cercadura, quer ao padrão de enchimento. Não sei se por exemplo, Massarelos, as Devesas, Miragaia ou o Carvalhinho fabricaram os dois ou se uma fabricou só as cercaduras e outras o enchimento. É provável que tenham feito sempre os dois, mas a história está cheia de hipóteses, que pareciam prováveis e passados uns anos e tornaram-se perfeitos disparates.

Azulejo holandês com o motivo da roseira trepadeira, descoberto pelo Fábio Carvalho. Sgundo o catálogo do Museu Nacional do Azulejo da Holanda, foi fabricado entre 1875/1900

Ainda a título de curiosidade, a cercadura com a Roseira trepadora foi igualmente fabricada nos Países Baixos, conforme descobriu o Fábio Carvalho e pode ser que os nossos sejam então inspirados nos holandeses .

Os azulejos medem 13,5 x 13,5 cm
Quanto aos azulejos com a cesta e flores, nunca os vi nas fachadas dos prédios de Lisboa e presumo que sejam um fabrico oitocentista do Norte, do Porto ou Gaia. Não encontrei nada escrito sobre eles, mas consegui perceber que tomaram como inspiração a faiança do século XVIII da cidade francesa de Ruão, como se pode ver nesta imagem que encontrei no site de um antiquário francês. Por sua vez, Ruão inspirou-se num motivo comum da porcelana chinesa, o cesto de flores, o emblema de Lan Ts'aibo, dos "Oito Imortais", símbolo de longevidade (obrigado pela achega, Manel!).
Prato de faiança de Ruão, séc. XVIII. http://www.cperles.com
 
Por último, a nossa amiga do Porto, tentou informar-se junto da Câmara Municipal sobre estes azulejos e disseram-lhe que não era comum estes estarem colocados dentro de casa. Normalmente revestiam as fachadas dos prédios e portanto, algum anterior proprietário retirou-os do local de origem e colocou-os no corredor.


Pessoalmente, não me parece que os azulejos tenham sido deslocados. Se assim fosse estariam colocados às três pancadas e eles estão muito bem dispostos, adequadamente rodeados pelo lambril da roseira. É verdade que no século XIX, ao contrário do que se passou nas centúrias anteriores, os azulejos revestiram sobretudo as fachadas. Mas não só. Também os átrios das escadas, os halls e os próprios corredores, espaços de transição entre o público e o privado merecem decoração azulejar. A minha irmã viveu numa casa do início do século XX, cujo corredor estava revestido com azulejos em relevo e precisamente de uma Fábrica do Norte.


Não consegui descobrir mais nada sobre os azulejos desta casa do Porto. Talvez se um dia um dos azulejos cair a nossa amiga consiga descobrir a marca do fabricante. Até lá desejo-lhe a ela e ao seu namorado, que gozem do ambiente oitocentista da sua casa e encham-na com móveis vitorianos, quadros e muitas faianças do Norte.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O serviço Júpiter da Fábrica de Louça de Sacavém



Serviço Júpiter da Fábrica de Louça de Sacavém

O meu amigo Manel consentiu em mostrar aqui neste blog algumas peças de um serviço completo da Fábrica de Louça de Sacavém, que ele usa em jantares especiais. O motivo decorativo deste conjunto de jantar designa-se por Júpiter. Está marcado a azul com o monograma de Sacavém e segundo o Dicionário de marcas e Faiança e porcelana portuguesa / Filomena Simas, Sónia Isidro. Lisboa estar Editora, 1996 foi fabricado no ano de 1896.



Para além de ser um serviço antigo e bonito da última década do séc. XIX, o prato que seleccionei para aqui apresentar é um bom exemplo de como Sacavém copiou e introduziu no mercado português não só os motivos decorativos da faiança inglesa, como toda a gente sabe, mas também de outras fábricas de cerâmica europeia.

Danish Blue da Royal Copenhagen Porcelain, pertencente ao Manel

O Serviço Júpiter é na verdade uma cópia de uma das produções mais famosas da Fábrica Real de Copenhaga, o Blue Fluted, também conhecido por Danish Blue. O Blue Fluted foi o primeiro serviço produzido pela Royal Copenhagen Porcelain, pouco tempos depois da sua fundação em 1775 e ao longo de duzentos anos de produção ganhou uma enorme popularidade não só na Dinamarca como em toda a Europa. De tal forma, que o Danish Blue tornou-se a imagem de marca da Den Kongelige Porcelainsfabrik e confundiu-se com a sua própria existência. Mais, o Blue Fluted, designado na fábrica pela decoração imortal, faz parte do património cultural dinamarquês. Por essas razões é o serviço com a marca número 1 da manufactura real dinamarquesa, conforme se pode ver pela fotografia que aqui apresento.

Marca da Den Kongelige Porcelainsfabrik datada entre 1894-1900. Apresenta a coroa dinamarquesa. O 1 quer dizer o serviço primeiro da Fábrica. Os números na linha de baixo reportam-se ao pintor. As três faixas onduladas simbolizam os três estreitos da Dinamarca: Oresund, o pequeno Belta e o Grande Belta

Muito a propósito, o Manel conseguiu comprar um prato deste Danish Blue, datado entre 1894-1900, que nos permite comparar o motivo original com a cópia feita na Fábrica de Sacavém. O prato dinamarquês é de porcelana e apresenta uma superfície com ondulados, enquanto que o de Sacavém é de faiança e a superfície lisa, mas basicamente são iguais e percebemos de imediato que a fábrica portuguesa foi beber inspiração no popular serviço dinamarquês.

Danish Blue e Sacavém

O serviço dinamarquês não encantou só os responsáveis da Fábrica de Savavém. No Porto, Massarelos produziu também uma versão deste azul dinamarquês uns dez ou quinze anos depois, conforme nos informou a nossa amiga If.



A versão de Massarelos do Danish blue



A marca de Massarelos. Na base, o nome que a Fábrica do Norte escolheu para o serviço: "Dania", de Dinamarca. Agradeço à Maria Andrade ter conseguido decifrar o nome, que se escondia atrás da da marca esborratada.
Está cópia poderá levar-nos a pensar que à Fábrica de Sacavém ou de Massarelos faltou originalidade e que se limitaram a copiar o que se fazia na época na Europa e sobretudo na Inglaterra, mas julgo que essa seria uma análise limitada. Pessoalmente, penso que o conceito de obra original é uma ideia contemporânea, formada talvez no seio do movimento impressionista, cubista ou modernista. No passado, um ceramista, um desenhador ou gravador devia copiar o que era considerado de grande qualidade, como uma obra da antiguidade, da renascença ou então oriental, de preferência da China. Neste último caso está a Royal Copenhagen Porcelain, que para criar o blue fluted, se inspirou nos azuis e brancos da porcelana Chinesa. Sacavém mais não fez do que fazer eco desta atracção pelo Oriente, que norteou a produção da cerâmica europeia desde os Descobrimentos até quase aos nossos dias.


domingo, 11 de março de 2012

Jarro de Massarelos: 1912/1920

Há peças que não são muito antigas nem muito valorizadas no mercado de antiguidades e velharias, como este jarro da fábrica de Massarelos, do início do século XX, mas que tem um valor forte para nós. A minha avó materna só bebia água por ele. Tê-lo em minha casa e vê-lo todos os dias é como poder rever por um momento as férias da minha infância numa casa grande de Trás-os-Montes e recordar-me da minha mãe e das minhas tias, que me contaram a história dele. Hoje, já só eu sei a sua história.
Segundo o Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996, este jarro terá sido executado entre 1912/1920, anos que a minha avó estaria a ter os primeiros filhos. Começou a dar a luz aos 16 anos, teve sete crianças, tendo a última nascido em 1931.


Não sei o que é que os filhos têm a ver com o jarro, mas as memórias são muitas vezes causadas por simples objectos, que nos mostram que o tempo passou demasiado depressa, que os adultos que protegeram a nossa infância já morreram e que nós já estamos na meia-idade. Os tons sépias idênticos aos das antigas fotografias que Massarelos usou nesta época, emprestam também a este simples objecto uma carga sentimental, que me toca.


E depois há um certo ar de arte nova nesta peça que recorda a Cidade do Porto, que ao contrário de Lisboa manteve e preservou a arquitectura ecléctica dos finais do século XIX, princípios do século XX. Enfim, hoje estou sentimental.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prato de faiança da fábrica Massarelos: algumas explicações sobre as iniciais C&W


Herdei da minha avó Mimi este prato da Fábrica de Massarelos do Porto. O operário responsável pela aplicação da técnica do transfer way nesta peça foi um trapalhão e não conseguiu acertar as pontas na bordadura. Coitado, deveria ser mal pago e estaria a pensar no sol que estava lá fora e ele ali fechado naquela fábrica escura. No entanto, encontro muito encanto na decoração cor sépia deste prato, que me faz recordar antigas fotografias familiares. Enfim, sou um sentimentalão com os objectos.

Não é muito antigo. A marca, segundo o Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996, denota que terá sido produzido entre 1912/1920.
Confesso que esta marca me intrigou um pouco, pois entre o medalhão coroado aparecem as iniciais C e W. No início, pensei tratar-se das iniciais do artista checo Wenceslau Cifka (1811 - -1884), que chegou a Portugal por ocasião do casamento de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha com a Rainha D. Maria II, como uma espécie de conselheiro de arte. Cifka colaborou com as fábricas de faiança Constância e de Sacavém e pensei por momentos que também tivesse realizado desenhos para Massarelos. Mas, resolvi ir outra vez à estante buscar o Itinerário da Faiança do Porto e Gaia. – Lisboa;: IPM, 2001, uma pequena bíblia para a louça nortenha e descobri que a partir de 1912 a Fábrica de Massarelos passou para as mãos de sócios ingleses - Archibald Jamel Wal e mulher e Charles F. Chambers e seu filho – que formaram a firma Chambers & Wall. Em suma C & W são as iniciais de Chambers & Wall

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Travessa Cavalinho da Fábrica de Sacavém

Esta travessa cavalinho foi-me dada pela minha Tia Chica cerca de um ano antes de morrer. Como me via sempre entusiasmado por faianças antigas, no tempo que passávamos juntos em Vinhais, resolveu convidar-me para almoçar a mim e aos meus filhos, na sua casa de Lisboa, para comermos os seus célebres pasteis de massa tenra e para dar-me esta travessa, que era da família do marido. Na altura, deu-me a receita dos pasteis de massa tenra e presenteou-me com a travessa, dizendo que me a dava porque os seus descendentes não atribuíam o menos valor a qualquer coisa que não tivesse sido comprada ontem. E de facto, após a sua morte, as suas previsões foram perfeitamente concretizadas.

A travessa é de forma hexagonal, muito pesada, e segundo o Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996, será mais ou menos datada entre 1870 e 1880. O motivo é o célebre Cavalinho, também conhecido por estátua e deve ter sido a louça mais fabricada de sempre no nosso País e poucas serão as famílias portuguesas que não terão um cavalinho em casa da Fábrica de Louça de Sacavém. Creio que Sacavém continuou a produzir este motivo até ao seu fecho em 1983, portanto por um período de mais de 100 anos. Em 1981, quando trabalhei numa loja de vidros e cristais na Baixa ainda se vendia o Cavalinho muito bem.




O Cavalinho ou Estátua segundo Massarelos (imagens cedidas pelo blog Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém )


O Cavalinho ou estátua foi produzido não só por Sacavém, mas também por Massarelos (na casa de família da minha mãe em Vinhais existem uns quantos exemplares marcados), pela fábrica das Devessas de José Pereira Valente (Cerâmica em Vila Nova de Gaia. - Vila Nova de Gaia: fundação Manuel Leão, 1999. – p 263) e em Alcobaça, José Reis fabricou também uma versão popular cheia de cores vibrantes deste motivo (Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX /Jorge Pereira Sampaio. – Lisboa: s.n., 2009. – p. 1090-191).




O cavalinho ou Estátua produzido pelas Devessas de José Pereira Valente (imagens cedidas de Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém)

O cavalinho da Fábrica de Alcobaça de José Reis





Também no Porto, em datas que ignoro, o Cavalinho, foi produzido pela Corticeira Porto.


Conforme indicação do meu amigo Manel, que fez aqui um comentário muito oportuno, o motivo Cavalinho ou Estátua teve origem em Inglaterra, onde é conhecido pelo nome Grecian Statue, onde começou a ser produzido a partir de 1840. Segundo a http://www.marks4antiques.com/ houve pelo menos 4 fábricas naquele país que fizeram este motivo: BROWNFIELDS (GUILD) POTTERY SOCIETY LTD; JOHN THOMAS HUDDEN; THOMAS & JOHN CAREY - JOHN CAREY& SONS; WOOD&BROWNFIELD. Como os patrões de Sacavém e nesta altura também Massarelos eram ingleses tinham uma natural tendência a importar motivos do seu país de origem, que na época produzia a faiança mais popular em toda a Europa e penso eu que também nas Américas.

Tenho a travessa na minha cozinha e sempre que estou em volta nos tachos, lembro-me dos bonitos olhos azuis da minha Tia Chica, da sua voz característica e dos seus fantásticos pastéis de massa tenra, que eu tentei fazer e que saíram uma porcaria.