quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX: continuação

A rua da Ponte, na Madalena, Chaves

Já escrevi no blog sobre a minha quarta avó, Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), que após a morte do marido Vicente de Morais em 1851, tomou conta sozinha do negócio do marido e ainda educou e casou as 4 filhas. Tinha um estabelecimento na Rua da Ponte no bairro da Madalena, em Chaves e provavelmente moraria no andar ou andares superiores à loja. É difícil precisar exactamente o local, pois no período em que esta minha antepassada esteve activa Chaves não tinha ainda números de polícia para identificar as casas, mas a Rua da Ponte é pequena e todos os que visitaram aquela cidade transmontana e atravessaram a ponte romana para a margem esquerda do Tâmega já lá estiveram certamente.

Ana Maria da Conceição era proprietária de um comércio generalista, daqueles que até há pouco tempo existiam em todas as terras de província e vendia de tudo, chapéus janotas, ferragens, pregos, garfos, bacalhau, que encomendava em Braga, mas também arroz, canela e outras mercearias e ainda sabão, que mandava vir sobretudo do Porto, Régua ou Vila Real. O transporte dessas cidades até Chaves era moroso e as fazendas vinham no dorso de uma mula ou burro conduzidas por almocreves e os pagamentos em moeda sonante eram feitos estes ou a intermediários em trânsito entre o Porto e Chaves. Nestes negócios, Ana Maria da Conceição contava com a ajuda preciosa do seu cunhado, Francisco José de Morais, que travava de encomendar as fazendas no Porto e despacha-las para aquela cidade transmontana.

Entretanto encontrei mais cartas no espólio que me permitiram esclarecer mais alguns apectos de como decorria este comercio entre Chaves, que na altura era ainda era vila e o Porto, Régua e Vila Real.

Rascunho da Carta de Ana Maria da Conceição a seu cunhado Francisco José de Morais

Num rascunho de uma carta escrita ao seu cunhado Francisco José de Morais, que estava na cidade do Porto, certamente datado da década de 70 do século XIX, Ana Maria escreveu o seguinte Segundo me diz Pedro Chasse até hoje não chegou à Régua as 15 caixas de Sabão que o meu cunhado faz menção na sua carta de 29 mês próximo findo uma tão grande demora faz-me suspeitar, que houvesse algum sinistro e por isso rogo-lhe tenha a bondade de indagar o que tinha a tal respeito e dado o caso da perda do barco, requerer na companhia que fez o seguro o pagamento da importância da fazenda seguradas, para com ela comprar a quantidade de sabão igual.


Isto quer dizer que as mercadorias iam do Porto para a Régua por transporte fluvial, através do rio Douro e já existiam seguros para cobrir os riscos. Com efeito, encontrei mais documentos confirmando que as fazendas viajavam do Porto para a Régua de barco, nomeadamente uma carta de 27 de Novembro de 1875 de António José da Silva Braga, comerciante do Porto, com loja na rua de são João, 96 e 98, informando que remeteram pelo barco de José Maria da Mesquita a fazenda mencionada na factura, 3 sacas de arroz, para a Régua, a entregar a António Clemente de Sousa. Em anexo encontra-se uma guia de transporte da mercadoria que saiu pela Barreira dos Guindaes, assinada no verso José Maria Barqueiro. Um outro comerciante do Porto, Manuel Alves Vieira, remeteu em 5 de Maio de 1875, em nome da minha antepassada 8 sacas com arroz e 2 de açúcar, anexando à carta a guia de transporte de barco, a sair pela barreira do Bonfim. A barreira era uma Alfândega.






O caminho de ferro do Porto à Régua só foi concluído em 15 de Julho de 1879 e até esta data o Douro seria o caminho mais fácil para o transporte de mercadorias evitando assim as alturas quase intransponíveis da Serra do Marão. Na Régua, a minha quarta avó, contava com uma série de intermediários especializados nestes assuntos, isto é, procedimentos para tratar do desembarque e despachar a mercadoria por terra para Chaves, como um tal Pedro Chasse ou um António Clemente de Sousa. Estes intermediários despachavam as fazendas pelos carreteiros. Como nome o próprio nome indica, eram homens, que dispunham de uma carroça, enfim, um veículo de tracção animal e cujo serviço era pago pelos destinatários das mercadorias, isto é, a Ana Maria da Conceição. Da leitura destas cartas dirigidas a ela, pareceu-me que o transporte entre Braga e Chaves seria assegurado pelos almocreves e entre a Régua, Vila Real e Chaves preferencialmente pelos carreteiros.

A minha tetravó era uma mulher organizada e só poderia ser para gerir esta rede de fornecedores no Porto, Braga, Régua e Vila Real, bem como o transporte das mercadorias por barco, ao dorso de uma mula ou em cima de uma carroça e todas as cartas recebidas destes comerciantes, que no fundo eram facturas ou guias de remessa, foram todas anotadas por ela com a letra miudinha, referindo que recebeu as fazendas e quando foi feito o pagamento. 

Recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto


Numa dessas anotações, na factura de António José da Silva Braga, proprietário de um armazém de bacalhau e azeite, no Porto, Ana Maria da Conceição escreveu recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto”. Até encontrar este documento não sabia nada deste cunhado, que estava no Porto. Suspeitava que fosse militar, pois muitos dos intermediários que usou para receber os pagamentos da cunhada em Chaves, eram militares, a maioria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar e agora tenho a certeza, que sim. Encontrei registo no Diário de Governo, n.º 280, de 11/12/1874, n.º 264, de 19/11/1875, n.º 200, de 07/09/1876, das licenças concedidas ao tenente Francisco José de Morais da 1ª Companhia da Administração militar, sendo que na de 1875, se refere mesmo que era para fazer uso das águas alcalinas gasosas de Vidago. 

Diário de Governo, n.º 264, de 19/11/1875

Se de facto tratar-se da mesma pessoa, este Francisco José de Morais terá morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878, já que encontrei do Dário do Governo, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe paguem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Mas tudo ainda precisa de ser confirmado.


Sei ainda pouco deste Francisco José de Morais, que à primeira vista seria irmão de Vicente de Morais, mas bati os registos de baptismo de Samaiões, localidade vizinha de Chave, de onde estes Moraes eram naturais e não encontrei o seu assento. Talvez os meus quintos avós, Antónia da Costa e José de Morais tenham mudado de residência e o mais novo dos filhos ter nascido noutra paróquia ou Francisco José fosse filho de um segundo casamento de José de Morais. O que é certo é que foi uma figura muito considerada por sua cunhada e sobrinhas, que se lhe dirigem sempre com estima. Num rascunho de uma carta, talvez datada do final doa anos 60 ou início dos 70 do século XIX a minha trisavó, Antónia dos Anjos Morais (25.4.1846-1-10-1913) escreveu as seguintes palavras

Rascunho da carta de Antónia dos Anjos Morais a seu tio Francisco José de Morais


Meu bom Tio

Depois de desejar a sua boa saúde e todas felicidades de que meu Tio é merecedor, tomo a liberdade de lhe oferecer o retrato incluso.

É na verdade insignificante oferta, mas não obstante, espero que o Tio se dignará aceita-la como prova de sincera amizade e estima que lhe dedica a quem muito preza por bem

Sobrinha muito obrigada

Antónia

Esta carta tocou-me pois só tenho um retrato da Antónia dos Anjos Morais já no Inverno da sua vida e nem tenho a certeza se é ela!

Adoraria ver esta sua fotografia na juventude. Mas sabe Deus onde as cartas do Francisco José de Morais e o retrato da jovem Antónia dos Anjos andarão. Se não serviram para acender o fogo, estarão a apodrecer numa gaveta ou dispersos no chão de alguma feira de velharias.

sábado, 20 de junho de 2026

Uma chávena café de vidro com dourados

Nenhuma das peças está marcada

Comprei esta chávena de café com pires, numa das últimas vezes que fui a Estremoz. Está aqui e acolá com pequenas esbeiçadelas, mas nada de grave e o preço foi muito bom. Fazia parte de um lote de chávenas de café, que a vendedora tinha comprado. Talvez tudo aquilo fosse uma antiga colecção de chávenas, que no passado as famílias gostavam muito de ir juntando e expunham numa vitrina.

Não sei muito de vidros e é um material que raramente apresenta marcas de fabricante, mas desde logo não me pareceu portuguesa. Os vidros que aparecem nas feiras são quase todos portugueses e nunca vi nada do mesmo género.

Fiz o meu método habitual de carregar a imagem no google e pôr o sistema a pesquisar imagens iguais, mas agora há inteligência artificial que opina, sem nós pedirmos nada e como somos bem educados, temos que responder à Senhora e de repente estamos num animado diálogo.



A Sra. Dona inteligência artificial disse-me de caras que este pequeno conjunto era do fabricante belga, Val St. Lambert e que o motivo era o Pampre D'Or, uma decoração feita com parras e uvas. Lá expliquei à Senhora, com uma foto mais ampliada, que a decoração não foi feita com parras e uvas, mas talvez com frutos, como cerejas ou quem sabe pequenas maçãs e que já tinha encontrado alguns vidros da célebre marca checa Moser, com algumas semelhanças com a minha chávena.



Peça Moser, marcada, datada de cerca de 1900 e à venda na Etsy


Acabei por ignorar referida Sra. D. IA e prossegui a minha pesquisa por imagens, baseando a minha intuição de que esta chávena foi fabricada na Checoslováquia, talvez no período entre as duas guerras. O formato da chávena e da pega parece-me uma coisa já muito século XX. Mas houve muitas fábricas checas nesse período e muito criativas. A Checoslováquia era uma das nações mais industrializadas da Europa. 

Taça à venda na 1stDibs.com e atribuída a Josephinenhutte

Mas pelo caminho, fui encontrando imagens de peças com algumas semelhanças, com a minha chávena de um fabricante alemão, a Josephinenhutte, da Silésia, de uma região contígua aos sudetas checos. Antiga província da Alemanha e hoje parte da Polónia, a Silésia foi também um grande centro vidraceiro da Europa. Nesses sites de vendas on-line os comerciantes são até honestos e atribuem estas peças sem marcas à Moser ou à Josephinenhutte. Em suma, parece haver fortes probabilidades de esta chávena ter sido sido produzida na Checoslováquia pela Moser ou na vizinha Silésia pela Josephinenhutte ou por outro qualquer fabricante da área copiando o estilo daquelas casas. 

Chávena e pires à venda no ebay, atribuídas a Moser ou Josephinenhutte 

Mas é difícil ter certezas já que na época em que esta chávena e pires foram fabricados foram produzidos, no início do XX ou entre as duas Guerras, todos os fabricantes europeus vendiam à sua clientela burguesa abastada copos, taças e garrafas com muito dourados. Em todo o caso, este conjunto é de um gosto refinado e de uma grande qualidade.



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os Alves: negociantes de peso em Chaves, na primeira metade do século XIX




Depois de ter herdado o espólio documental familiar, acreditava que iria encontrar sobretudo documentos relativos ao lado Montalvão, uma família fidalga com origens na Galiza. Contudo ao começar o tratamento, começaram a aparecer cartas, testamentos, documentos de vendas de propriedade de gente desconhecida. Fui estudando esses papéis, fazendo genealogias e descobri que muitos destes documentos pertenciam a um lado burguês da família, os Morais Alves, que se cruzaram com os Montalvão em 28 de Julho de 1903, através do casamento dos meus bisavôs Ana da Conceição Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão. Estes Morais Alves eram burgueses, que se instalaram em Chaves, no bairro da Madalena por volta dos anos 30 do século XIX e foram enriquecendo progressivamente. Da família Morais encontrei muita correspondência da minha quarta avô, a Ana Maria da Conceição, que depois da morte do marido, com muita desenvoltura, tomou conta do estabelecimento na rua da Ponte, até à sua morte em 1887.

Nesta caixa que comecei agora a tratar encontrei documentação dos Alves, negociantes, moradores no Bairro da Madalena em Chaves e cujo estabelecimento era contiguo aos dos Morais. Aliás acabaram por unir-se em 1876, através do casamento dos meus trisavós, o Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais. Mas os referidos papéis dizem respeito a geração anterior, do meu quarto avô, o Luís Alves, falecido a 2.10.1861. Este antepassado seria o mais novo de uma grande irmandade, nascida ao longo das duas últimas décadas do século XVIII, em France, na freguesia de Moreiras a Sul de Chaves, de que através destes documentos consegui reconstituir alguns aspectos da sua existência.

 Compra de uma propriedade por Ana Maria e Francisco Bernardo a 1 de Janeiro de 1817. Os dois residiam já em Chaves


Uma das suas irmãs, minha tia tetravó, a Ana Maria casou com o Francisco Bernardo, naquela localidade a 30 de Julho de 1807, um homem de uma aldeia vizinha, lugar de Adães, Freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Santa Leocádia, que com o tempo veio a tornar um homem de posses. O casal passou a residir em Chaves pelo menos a partir de um de Janeiro 1817, quando encontro o meu primeiro documento relativo aos dois, a compra de uma propriedade a Alexandre Rodrigues e sua mulher Teresa Maria, moradores em Pereira da Veiga, por 29 mil réis, que rendia dois alqueires de centeio. Francisco Bernardo e sua mulher Ana Maria são indicados como assistentes na Vila de Chaves, na Madalena. Assistentes na época era sinónimo de residentes ou fregueses. Voltam a comprar outra terra, chamada Ranho em 16 de Março de 1825, por cem mil réis e em 22 de Maio de 1830 compraram casas na Madalena por 105 mil réis. 

Testamento cerrado de Francisco Bernardo


Também nesse ano 1830, a 12 de Dezembro, o Francisco Bernardo, encontrando-se doente, mandou chamar o tabelião e fez um testamento cerrado, que se encontra no espólio e nesse documento indica-se que foi negociante com loja de peso, na Madalena. Sendo, comerciante, era alfabetizado e assinou pelo seu punho. Pela leitura do testamento parecer ser homem de posses e como o único filho do casal, o Leonardo tinha morrido, deixou muitos bens aos cunhados. A mulher, a Ana Maria também terá estado doente e fez também o seu testamento, no dia 11 desse mesmo mês. Mas ao contrário, do marido é analfabeta, conforme o tabelião escreveu a rogo da testadora por não saber escrever me deu licença, que por ela assinasse, José Bernado Paredes e Silva. Uma das missas é pelo irmão João já falecido

Testamento cerrado de Manuel Caetano Alves


Nesse meio tempo, encontrei notícia de mais um irmão, um tio quarto avô, o Manuel Caetano, que fez testamento cerrado a 13 de Julho de 1843 e através desse documento conhecer fiquei a conhecer mais a irmandade dos Alves, ele que seria o mais velho, depois o Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda uma irmã, a Teresa, que já teria falecido nessa data e finalmente, o Luís, que seria o benjamim. O Manuel Caetano residia igualmente na Madalena e era negociante de peso, tal como o cunhado Francisco Bernardo e o irmão mais novo, o Luís, meu quarto avô, o que me faz pensar num negócio familiar. O Manuel Caetano Alves era alfabetizado e também assinou com o seu próprio punho. Este Manuel Caetano só viria a morrer a 8 de Fevereiro de 1844 e tinha por alcunha o Manuel da Ponte, sem dúvida, uma referência ao local de residência e ao estabelecimento comercial, pois quer os Alves, quer os Morais, viviam e residiam na rua da Ponte à Madalena.

A leitura do seu testamento deixou-me uma ideia simpática dele. A vontade deste testador era que seu corpo fosse depositado na capela de Santa Maria Madalena neste bairro da Madalena, até por ser aleijado e aí fizesse seu funeral, isto é ofício de corpo presente, sendo aí conduzido directamente à sepultura e por isso pede e roga ao muito Reverendo Arcipreste do julgado e paróquia que se digne anuir a esta vontade do testador , que lhe não parece ofender a moral nem os bons costumes, nem faltar a preceitos paroquiais a que todos os fregueses são obrigados. Parece ter sido daquele género de pessoas, que mesmo depois da morte detestam incomodar os outros. Achei interessante o pormenor de por ser aleijado, pedir a cerimónia fúnebre na igreja contígua ao local, em que residia. Como se depois de morto isso fizesse alguma diferença. Mas certamente, esta última vontade traduzia um hábito, por ser aleijado das pernas, o Manuel Caetano Alves, assistiria às missas na igreja da Madalena, logo ali ao lado de sua casa, em vez de ir à Igreja Matriz, na outra ponta da vila.

Nunca casou, foi vivendo com os seus irmãos até estes mudarem de estado e acabou vivendo com o mais novo, o Luís o qual institui como herdeiro universal dos seus bens, que me pareceram significativos, terrenos agrícolas, casas e bens móveis.

Mas antes de morrer, ainda assistiu ao casamento deste irmão mais novo, o Luís com a Maria Joaquina Jorge a 2 de Setembro de 1843 na Igreja Matriz de Chaves. Terá sido um casamento muito tardio. A Maria Joaquina nasceu em Boticas em 17 de Março de 1800, filha de Manuel Jorge e Antónia Rodrigues e casou com 43 anos. Do meu quarto avô, Luís; não encontrei o assento de baptismo, mas deveria ter idade igual ao superior a ela, pois em 1804 já um dos seus irmãos o António José, tinha baptizado uma filha em Moreiras, a 6 de Agosto de 1804, a Maria da Conceição.

O Manuel Caetano faleceu a 8 de Fevereiro de 1844, mas o a Ana Maria e o Francisco Bernardo continuavam vivos e foram padrinhos do sobrinho, filho Luís Alves e da Ana Joaquina, o Francisco Luís, meu trisavô, a 28 de Outubro de 1844. A mãe contava já com 44 anos. Em todo o caso, a escolha destes padrinhos demonstra as boas relações de Ana Maria com os irmãos e de Francisco Bernardo com os cunhados.

O Francisco Bernardo veio a morreu a 4 de Setembro de 1846 em Chaves e a viúva, a minha quarta avô Ana Maria viu-se com sérias dificuldades em pagar os legados pios e esmolas do testamento do marido e em 4 de Janeiro de 1847 e vendeu metade das casas que pertenciam ao falecido marido Francisco Bernardo para pagamento dos seus bens de alma, ao seu irmão Luís Alves e sua mulher Maria Joaquina, pelo preço de 76 mil réis em metal sonante.

Venda que fez Ana Maria em 1847 para pagar os bens de alma do falecido marido


E neste momento da história convém voltar aos testamentos de 1830 e explicar o que eram estes bens de alma, que foram uma dor de cabeça para minha tia quarta avó

Os bens de alma eram os legados pios, isto é, um conjunto de práticas exaradas no testamento e que tinham por fim último a salvação da alma do testador. A sua enunciação dividia-se em duas partes fundamentais. Na 1.ª parte: mortalha, exposição, acompanhamento, cerimónias religiosas, refeição e enterro. Na 2.ª parte: missas por intenções e devoções, esmolas a instituições ou pessoas (padres, pobres, irmandades, hospitais, etc.

Missas mandadas rezar por Francisco Bernardo


O testamento de Francisco Bernardo é muito extenso nesta matéria. Quis que o seu corpo fosse envolto num hábito de São Francisco metido num caixão da ordem terceira da vila de Chaves de onde era irmão e sepultado na igreja Matriz de Chaves, mas o que mais impressiona é o número de missas deixadas, que tive a paciência de levantar num mapa, contabilizando 911, pagas a 140 réis cada uma, o que perfaz, 127 540 réis. O seu testamento contemplou também esmolas deixadas aos pobres, à criada, aos afilhados, sobrinhos e por aí fora, num total de 36 200 réis.

Após a morte, a execução do testamento era controlada e tenho um documento discriminando todas estas missas, que foram rezadas em várias igrejas do Concelho de Chaves e ainda de Guimarães e Braga por diversos padres, que foram todos pagos a 140 réis cada missa.




Relação das missas e esmolas de Francisco Bernardo


Embora o Francisco Bernardo, quando redigiu o testamento em 12 de Dezembro 1830, afirmasse que deixava dinheiro para o cumprimento destes bens de alma, o que é certo, é que a viúva se viu com sérios problemas de caixa para pagar isto tudo, após o falecimento do marido em 1846. 127 540 réis era uma quantia avultada e em 1830 dava para comprar uma casa na Madalena, em Chaves. Talvez o Francisco Bernardo em 1830 não terá previsto, que desde essa data até 1846, houvesse uma guerra civil entre liberais e miguelistas e depois disso uma sucessão de levantamentos e insurreições, que certamente terão prejudicado a economia, o comércio e as poupanças individuais, de modo que o fundo previsto não foi suficiente e a pobre viúva vendeu uma casa ao seu irmão Luís Alves por 76 mil réis para pagar parte destas contas.
Missas no Testamento de Ana Maria de 1830


Certamente por essa razão, a Ana Maria que também tinha feito um testamento em 1830, deixando 775 missas, pagas a 140 réis casa, num total de 108 500 réis, refez o seu testamento em 4 de Novembro de 1846 e o número de missas foi reduzido para duzentas por sua alma e duzentas pelos santos e santas da sua devoção.

No segundo testamento de Ana Maria as missas foram reduzidas de 775 para 400 


Quando Ana Maria morreu em 8 de Outubro de 1851, o herdeiro universal dos seus bens, foi o seu irmão mais novo, Luís Alves, que havia já herdado em 8 de Fevereiro de 1844 a quase totalidade dos bens do Manuel Caetano Alves. Neste tempo meu quarto avô parece estar a acumular um bom pé de meia e entre 8 de Agosto de 1851 e 24 de Abril de 1858, acrescentou ao que herdou mais terras e casas, gastando um total de 143 055 réis, documentos que tenho cópia no espólio.

Este conjunto de documentos, testamentos ou relativos a vendas de propriedades permitiram-me conhecer um pouco a geração dos meus quartos avós o Manuel Caetano, o João, Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda a Teresa e finalmente, o Luís, o meu quarto avô, filhos de António Alves e de Isabel Maria do lugar de France, freguesia de Moreiras, Concelho de Chaves e nascidos nas duas últimas décadas do século XVIII. Destes. O Manuel Caetano, o Luís e seu cunhado Francisco Bernardo foram negociantes com loja de peso, na Rua da Ponte Madalena, provavelmente um negócio familiar e ter-se-ão instalado em Chaves, logo a partir de 1817, mais cedo, do que acreditava. Foram pessoas com posses, que deixaram um traço por escrito na administração e ainda documentos como vendas de bens ou testamentos. Os testamentos encontrados neste espólio traduzem esse bem-estar económico, mas também a forte religiosidade da época, com os legados pios, que permitiam a salvação das almas, mas também a ligação entre o mundo dos mortos e dos vivos, que é afinal de contas é uma preocupação velha como o mundo. Contudo, a salvação das almas era cara, as missas pagavam-se bem e por vezes os que ficavam, os vivos, tinham dificuldade em pagar os bens de alma.

Genealogia dos Alves


domingo, 10 de maio de 2026

Sargentos portugueses na Grande Guerra, França 1917-1918

França, 8 de Julho de 1917


No espólio da família Morais Ferreira, das terras frias de Vinhais encontrei estes dois retratos de grupo de jovens militares, que fizeram parte do Corpo Expedicionário Português em França, em 1917 e 1918. Se fizermos uma pesquisa no google por imagens, encontramos inumeráveis fotografias semelhantes a esta. Existiriam muitíssimos fotógrafos perto da frente de batalha, que faziam estes retratos às centenas, se não aos milhares, de grupos de jovens, em forma de postal, que depois estes enviavam à família, amigos ou namoradas.

Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação


O primeiro foi escrito de França, datado de 8 de Julho de 1917 e apresenta uma dedicatória, provavelmente ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira (20.10.1886 -12.2.1949), que passo a transcrever Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação. Assinaram o António Aníbal Ribeiro, o Francisco José Alves e ainda o [O. Gomez?].

Ficha de António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Militar,. PT/AHM/DIV/1/35A/2/51/47713


Não consegui identificar no retrato os jovens, que assinaram. Descobri alguma coisa sobre o António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Exército. Serviu na 5ª Brigada, 1º Batalhão e foi segundo Sargento. Era natural de Vinhais, filho de António Manuel Ribeiro e de Maria da Assunção Rodrigues e terá sido evacuado em 26 de Maio de 1918, afim de ser repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Pelo menos parece ter sobrevivido à guerra. Quanto ao Francisco José Alves e ao que me parece ser um tal O. Gomez não encontrei nada sobre eles. Presumo que fossem de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela.

23 de Maio de 1918 e dado em Campanha


Mas há um segundo retrato, um pouco mais tardio e com mais informações. Está datado de 23 de Maio de 1918 e dado em Campanha. Confesso, quando li este último nome pensei que os rapazes estivessem no Porto, na estação de Campanhã, prestes a partir para França ou a regressar à pátria, mas não. Segundo o meu irmão, por questões de segredo militar, estes combatentes não poderiam revelar as famílias o local exacto onde estavam. Assim, nas cartas, usavam esta expressão, que queria dizer que estavam em campanha algures. A fotografia está dedicada inequivocamente ao meu avô António da Purificação Ferreira, como prova de amizade, ofereço ao meu saudoso amigo Ferreira, segue-se uma identificação de todos os jovens sargentos e assina, o Francisco José Alves.

Identificação dos jovens. Em cima Costa, Tadeu, Tavares, Paula Morais. Sentados, Alves, Delfim, Pires, Esteves e o Lemos


Tinha encontrado um elo comum entre os dois retratos colectivos, o Francisco José Alves, com o seu bigodinho de artista de cinema. Nesta fotografia que enviou ao meu avô fez questão de identificar todos os seus camaradas, provavelmente porque eram companheiros e amigos, aos quais sentia uma ligação muito forte, mas também é provável que o meu antepassado conhecesse alguns deles, conterrâneos das terras frias de Vinhais ou Bragança. Mais uma vez tentei encontrar alguma coisa sobre qual foi o destino destes homens na flor da idade, mas foram apenas identificados como sargentos e pelos apelidos, todos eles muito comuns. Delfim, Pires, Lemos, Esteves, Costa, Tadeu, Tavares e Morais são nomes usados no País inteiro e o no arquivo do exército os soldados e sargentos encontram-se sempre descritos de uma forma mais sumária, que os oficiais e na época nestas fichas oficias ainda não se usavam fotografias.



O Francisco José Alves é o elemento comum nos dois retratos de grupo.

Acabei por deixar este assunto de banho-maria vários anos, até que há pouco tempo, inscrevi-me no Facebook num grupo dedicado ao Corpo Expedicionário Português 1916-19 e retomei as minhas pesquisas e descobri que o segundo retrato, tinha sido publicado na Ilustração portuguesa de 24 de Junho de 1918, num artigo intitulado As nossas tropas em França. Neste texto os rapazes são indicados como Sargentos da Infantaria 10 e o Francisco José Alves teve direito a um retrato próprio, na companhia do brincalhão, que aparece deitado por cima dos outros, o Alfredo de Lemos, Segundo Sargento de Equipagem. 

O segundo retrato foi reproduzido na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918

O Francisco José Alves e Alfredo de Lemos tiveram direito a um retrato próprio na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918
 
A imprensa parece ter gostado destes dois sargentos e encontrei novamente os seu retratos na Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918, num artigo também intitulado As nossas tropas em França. Neste número, o nome do brincalhão é dado de uma forma mais completa, Alfredo Augusto Lemos.

Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918


Esta foi uma investigação sem grandes resultados. Natural de Vinhais, o António Aníbal Ribeiro foi repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e sabe Deus em que estado terá voltado. Quanto ao Francisco José Alves, que aparece retratado nos dois postais sei apenas, que foi sargento da Infantaria 10 e seria amigo do meu avô materno, pois assinou os dois postais e é mais natural que fosse natural de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela, mas não encontrei nada. É um nome demasiado comum.

Escrevi este texto com a esperança que alguém do outro lado do monitor, tenha fotografias iguais a esta, me escreva e me diga, o que aconteceu a todos estes jovens na flor da vida ou como cantava Marlene Dietrich, Wo die Blumen sind, ou em português para onde foram todas as flores?



terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma cabeça de carneiro em bronze



Já aqui escrevi sobre o meu gosto por comprar nas feiras de velharias ferragachos antigos com funções indeterminadas e então se apresentarem vestígios de dourado melhor ainda. Quando os compro, sinto que estou a levar para casa um fragmento de um tesouro, guardado durante centenas ou até milhares de anos no túmulo de um rei cita, merovíngio ou visigodo. Claro, se chego a descobrir a sua função original, a maior parte das vezes são afinal objectos do século XIX ou início do XX e desirmanados de um conjunto original, sem qualquer valor comercial.

Na última vez que estive na Feira de Estremoz, encantei-me com esta cabeça de carneiro em bronze dourado, que foi produzida até com qualidade. Obviamente um fragmento de qualquer coisa. Na base apresenta duas pequenas concavidades, que permitiriam à peça assentar em qualquer lado e no fundo há um buraco, onde se encaixaria outra coisa qualquer. Como a encontrei numa banca misturadas com torneiras antigas, pensei que talvez fosse o manípulo de uma e também coloquei a hipótese de ter feito parte do batente numa porta.




A base apresenta duas concavidades e o extremo, um orifício, que um dia conteve qualquer coisa. 


Mas a internet é uma coisa maravilhosa, carreguei a imagem no Google e num minuto encontre num sítio de venda de velharias um carneiro igual a este, mas assente num pedestal de mármore e identificado como pisa-papéis e atribuído ao início do século XIX. Já era alguma coisa, no entanto para pisa-papéis continuava a apresentar um inestético buraco na extremidade e a explicação não me convenceu.



Imagem encontrada no site Chairish, onde a peça é identificada como pisa-papéis


Copiei a imagem do suposto pisa-papéis no Google e descobri então como ela foi originalmente. Estava realmente assente numa base de pedra e no orifício tinha uma espécie de jarra de vidro e era uma peça para funcionar com um par. Uma garniture para decorar um móvel. E estes carneiros em bronze foram aplicados em mármores distintos, brancos ou com veios coloridos, por vezes apresentando um friso em bronze dourado e os vasos em vidros poderiam ser de várias cores, alguns feitos até em cristal de Baccarat. Encontrei todas essas variantes à venda em sites de antiguidades, normalmente identificados como sendo franceses. Alguns deles, atribuem ao início do século XIX, mas duvido. Parece-me mais coisa estilo Império, mas fabricado no período de Napoleão III, portanto da segunda metade desse século.

Par à venda no e-bay


Ormolu and Marble-Mounted Cornucopia Vases, à venda em 1stDibs


Mas quando vi como era originalmente este carneiro, assente numa base de mármore e com um vaso em vidro lembrei-me que já tinha visto esta forma no passado e veio-me a memória uma exposição maravilhosa, no Museu Gulbenkian, os tesouros do Museu Nacional de Teerão, onde se mostravam várias peças em ouro, copos reproduzindo a forma de cornos, com um animal na base. O Metropolitain Museum de Nova Iorque tem na sua colecção um destes copos, também originário da antiga Pérsia e muitas civilizações antigas usaram esta configuração, como por exemplo os trácios na Bulgária.

Cabeça de Carneiro, do Reza Abbasi Museum, Teerão


Obra Aqueménida, do século V, do Met museum de Nova Iorque


No fundo, este fragmento revela a moda que as grandes campanhas arqueológicas do século XIX introduziram nas artes decorativas desse tempo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Um tinteiro arte deco transformado em candeeiro


Adoro candeeiros de todos os tipos, lustres, apliques, candeeiros de mesa e são objectos que se encontram à venda nos mercados de velharias por quase nada. Já ninguém os quer. Os apartamentos modernos têm todos focos nos tectos ou mesmo que sejam velhos, rebaixam os tectos com uma placa de pladur e lá instalam essas luzes desengraçadas. Os que não têm ainda esses focos dirigem-se nas suas viaturas a uma dessas grandes superfícies nos subúrbios, do género IKEA e compram uns globos de pano para o tecto ou coisa qualquer em plástico para a mesinha de cabeceira.


Como já tenho a casa cheia de candeeiros, quando encontro peças engraçadas compro-as para oferecer, como este candeeiro de mesa, em estilo entre arte deco, com uma bonita tulipa em vidro fosco, que foi a minha prenda de anos para a minha sobrinha Maria.

Na base, há dois orifícios que se fecham ou abrem com uma tampinha

Contudo, ainda antes de a oferecer, houve dois pormenores que me chamaram a atenção. Na base, havia dois orifícios que se fechavam ou abriam com uma tampinha, o que não fazia sentido nenhum num candeeiro. Suspeitei então, que originalmente este objecto tenha sido, um tinteiro, ou mais exactamente aquilo que se designava antigamente como escrivaninha, isto é, um suporte, para conter dois recipientes em vidro ou porcelana, um para a tinta e outro ainda para o areeiro e ainda um pequeno orifício para pousar a pluma.


O candeeiro foi originalmente um tinteiro


Fiz então umas quantas pesquisas no Google e encontrei à venda num site checo de velharias uma escrivaninha igual a esta, mas ainda com a função original e marcada MADE IN FRANCE. No centro, há pequena imagem de um barco com uma inscrição onde se lê Ile de Ré. Ré é uma pequena ilha ao largo de La Rochelle, em França. Provavelmente foi um souvenir comprado nalguma lojeca por alguém, que visitou aquela ilha francesa e quem sabe se o candeeiro, que ofereci à Maria, no sítio onde actualmente está o interruptor, teria uma pequena gravura de algum monumento de França, o Sacré Coeur, a Basílica de Lourdes ou o Arco do Triunfo.

Made in France


Mas isso são especulações e o certo é que este candeeiro foi originalmente um tinteiro, fabricado em França talvez nos anos 20 ou 30 do século XX. Depois com o tempo, as canetas de aparo foram caindo em desuso, generalizaram-se as canetas de tinta permanente e finalmente as esferográficas, que dispensavam o reabastecimento manual de tinta e este objecto tornou-se obsoleto e nesse entremeio alguém teve a ideia de o transformar em candeeiro de secretária, electrificando-o e o resultado até foi muito feliz.

Este candeeiro é exemplo de como as objetos ao longo do tempo vão sendo adaptados, transformados, perdem a função original e ganham uma nova.



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