sexta-feira, 30 de setembro de 2022

13 Anos do blog velharias do Luís ou um relógio francês do século XIX



Esta imagem de um velho relógio, que estava na sala da casa de Chaves dos meus avôs paternos representa bem o espírito deste blog e é muito adequada para assinalar o seu 13º aniversário.

Um relógio simboliza a passagem do tempo, aquele fenómeno, que transforma os vulgares objectos do quotidiano em velharias ou antiguidades e que, por outro lado apaga progressivamente as memórias das gerações que nos antecederam. Mas um relógio representa igualmente o futuro e tudo aquilo, que poderemos ainda fazer e realizar na nossa vida.

O meu avô paterno gostava muito de relógios. Era um homem pontual e profundamente rotineiro, que todos os dias fazias as mesmas coisas, tomava café, lia o jornal na Sociedade de Chaves, jantava e almoçava sempre às mesmas horas. Creio que era um pouco como o filósofo Emannuel Kant, do qual se dizia, que os habitantes de Konisberga podiam acertar um relógio quando o viam passar pela rua. Individualidades com este temperamento precisam de viver com relógios.

Eu herdei o lado mais distraído da família da minha mãe, uma gente cujas distrações podiam chegar atingir proporções catastróficas, perdiam tudo e esqueciam-se de tudo. Para combater e regular essa hereditariedade, vivo tal como o meu pai e o meu avô paterno, segundo rotinas e rituais. De outra forma saio de casa, e deixo a chave na fechadura ou quando vou pagar uma compra, esqueço-me do cartão de multibanco na loja.

Talvez por esta razão, quando o meu pai morreu escolhi para mim este relógio, que simboliza temperamento do meu pai e do meu avô. Embora não apresente nenhuma marca de fabrico, julgo que será seguramente uma peça francesa da segunda metade do século XIX, o chamado horloge comtoise, com o mostruário esmaltado integrado numa estrutura de latão doirado, formando uma única peça. Estes relógios eram fabricados industrialmente na região do Franche-Comté, isto é, no Franco Condado, daí a designação horloges comtoises e foram muito populares em França nessa época e exportados para o mundo inteiro.


A caixa contendo o movimento


O movimento ou mecanismo do relógio

Normalmente consistiam numa simples caixa de metal contendo o movimento do relógio, à qual era aplicada uma chapa de latão com o mostruário e a moldura decorativa e esta ultima característica, é que os distingue dos relógios do período anterior, 1815-1840, em que o mostruário e a moldura decorativa eram peças distintas. Em França, o assunto está bem estudado e até possível datar este exemplar, como tendo sido fabricado entre 1840 e 1913, segundo informações da página Quai-des-horloges.

A datação dos relógios, segundo o site https://quai-des-horloges.com/blogs/infos/comment-dater-une-horloge-comtoise

Se fizermos uma pesquisa no no Google pela expressão Horloge comtoise xixe siècle estampée en laiton e aparecem-nos à venda dezenas de relógios deste tipo. Encontrei um igual à venda e-bay, mas só com a frente, uma chapa com o mostruário integrado num decorativo latão doirado, destinada a ser aplicada sobre a caixa contendo o movimento ou mecanismo do relógio. A peça do E-bay está marcada Paintin-le-conte, à Chateau Giron, na Bretanha, mas essa inscrição reporta-se à casa, que revendia peças produzidas pelas fábricas do Franco-Condado. Aliás, aparecem relógios comtoises com inscrições de casas comerciais de todas as regiões de França.

Relógio encontrado à venda no e-bay

Estes relógios eram destinados a ser postos numa parede e nas mais das vezes numa estrutura comprida de madeira, os chamados relógios de caixa alta, como são conhecidos em português. Este relógio que pertenceu aos meus avós estava também numa caixa, mas que não era de época. Era uma peça inspirada no século XVII, estilo que os meus avós adoravam, em madeira de castanho escurecida a sugerir pau-santo e decorada a ferragens douradas. A caixa foi provavelmente encomendada a um marceneiro em Braga nos anos 30 ou 40 do século XX para colocar este relógio, que os meus avôs compraram em segunda mão ou herdaram.

Transporte da caixa do relógio no dorso do meu fiel Rocinante

Quando o meu pai desfez a casa dos meus avôs em Chaves, trouxe o mecanismo para Lisboa e mandou transportar a caixa do relógio para Vinhais onde esteve décadas, esquecida num quarto. Esta Primavera fui a Vinhais com o meu amigo Manuel e transportamos a caixa do relógio até ao Alentejo, onde o Manel a restaurou.

Agora, estou só à espera de comprar um apartamento maior para voltar a juntar o mecanismo do relógio e a sua caixa e de alguma forma reconstituir o ambiente da casa de Chaves, tendo perto de mim alguma coisa do espírito pontual do meu avô Silvino.

Todos os seguidores deste blog, estão pois convidados para o próximo aniversário do blog e talvez para o ano já possam ver a imagem do relógio na sua  caixa.


Alguns ligações consultadas: 

https://www.meubliz.com/reconnaitre_une_horloge_de_parquet/

https://quai-des-horloges.com/blogs/infos/comment-dater-une-horloge-comtoise


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Dois paliteiros da Vista Alegre


Uma das primeiras peças que mostrei neste blog, a 7 de Outubro de 2009, foi um paliteiro da Vista Alegre, representando um bebé, afastando do braço uma mosca, ou talvez outro insecto, confesso que sempre me pareceu mais um grilo.

O exemplar que herdei estava partido numa dúzia de pedaços, que o Manel colou pacientemente

Era uma peça que estava na família, que recebi quebrada numa dúzia de pedaços. O meu amigo Manel colou os fragmentos pacientemente, mas faltavam as costas, pelo que para dar alguma solidez à peça, montou-lhe uma estrutura em arame. Na época, nem sabia, que era um paliteiro, até que encontrei por mero acaso num leilão da Vista Alegre, uma peça semelhante, mas inteira, com as costas perfuradas e percebi então a sua função original bem como o seu fabricante, a célebre VA. Contudo, havia uma pequena diferença, entre o meu paliteiro e o do catálogo da Vista Alegre, o meu era em biscuit e o exemplar reproduzido no catálogo era em porcelana.

Através de mas alguma pesquisa, consultei a obra Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006 onde além da reprodução de bebé paliteiro, consta uma ficha original da fábrica, datada de 1922 e assinada, por um tal. J. Cazaux.

Ficha da fábrica Vista Alegre. Imagem reproduzida de "Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006"


Recentemente, o meu amigo Manel conseguiu comprar um outro paliteiro com o menino e a mosca no braço e ofereceu-me no aniversário, de modo, que agora tenho a versão em biscuit e em porcelana. Nem um nem outro estão marcados, mas é quase certo que serão da Vista Alegre.

O paliteiro Menino com a mosca que o Manel me ofereceu este ano 

Esta prenda levou-me a retomar o assunto e tentei saber alguma coisa do autor do desenho que deu origem ao paliteiro, o J. Cazaux, umas vezes também referido por Cazeaux. Percebi que foi um mestre de desenho da Vista Alegre, concebeu o pano de boca do teatro daquela fábrica, mas a única informação de caracter mais biográfico, que encontrei foi na página da internet da Junta de Freguesia de Salvador, de Ílhavo, onde consta uma lista das personalidades da terra, sepultadas no cemitério municipal. Este Cazaux tinha por nome completo, João Paulo Gonçalves Cazaux e era filho de João Filipe Augusto Cazaux e de Maria Apolinária Gonçalves. Natural da freguesia de S. João, concelho de Abrantes, casado com D. Virgínia de Jesus Almeida, foi um conceituado professor de desenho na Fábrica da Vista Alegre, onde trabalhou durante mais de 50 anos. Também escritor e jornalista, fundou o Jornal “O Trabalho”, de características instrutivas e moralizadoras. Ministrou durante longos anos o ensino do desenho na Fábrica e também, particularmente, na sua casa (*1). Morreu em 1953-07-23 com 82 anos e terá nascido por volta de 1871. Ainda tentei encontrar o assento de baptismo do senhor no Arquivo distrital de Santarém, mas em vão. Enfim, tudo isto para tentar perceber um pouco sobre quem criou esta forma do menino afastando do seu braço uma mosca ou um grilo.

Posso presumir que este Casaux se inspirou por um lado nas figurinhas de biscuit alemãs, que estavam em voga, no princípio do século XX, os pianos babies e por outro lado, nos biscuits de Sèvres, concebidos pelo escultor francês Jean-Baptiste Pigalle(1714-1785), director desta manufactura e que foram sendo fabricados ao logo dos séculos XIX e XX. Era natural que na Vista Alegre recebessem os catálogos da Sèvres, cujos produtos eram modelos para todas as fábricas de porcelana na Europa.

Os biscuits de Sèvres concebidos por Jean-Baptiste Pigalle são talvez uma fonte de inspiração destes paliteiros

Por outro lado, nunca encontrei referência a que este paliteiro tenha sido fabricado em biscuit. No site Avaluart, constam dois paliteiros em porcelana, um primeiro com uma pintura com de uma cor mais esbranquiçada, com a marca 31 de 1924-1947, semelhante ao que o Manel me ofereceu e o segundo em cor de carne, com a marca 32 (1947-1968).
Paliteiro com a marca 31 de 1924-1947. Foto http://www.avaluart.com/


Paliteiro com marca 32 (1947-1968). Foto http://www.avaluart.com/

O meu exemplar em biscuit, aquele que se partiu numa dúzia de pedaços é o que apresenta uma pintura mais perfeita, o que não quer dizer nada em termos de datação, mas que me leva a pensar que houve uma terceira série destes paliteiros em datas, que não consigo determinar.



Bibliografia consultada e ligações consultadas:

Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Um retrato camafeu de uma fidalga do Norte

O retrato da Sra. D. Ricardina Leite de Barros tem um formato atípico relativamente às outras fotografias do álbum


Já aqui tinha mostrado este retrato da Sra. D. Ricardina Leite de Barros (1845-1884), que faz parte do álbum de carte-de-viste formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935). Esta senhora casou com Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura, descendia de uma família ilustre, os condes de Basto e o casal viveu em Vilela Seca, uma povoação vizinha de Outeiro Seco, no Concelho de Chaves. Este casal seria das relações da família Montalvão e de Liberal Sampaio. 

Na época em que escrevi esse texto estava tão concentrado em identificar as personagens do álbum, as relações, que existiam entre si e com o meu antepassado, que deixei escapar um pormenor importante, o formato atípico da fotografia. Com efeito, embora o retrato esteja impresso num cartão com as dimensões típicas do carte-de-visite, a fotografia é bastante menor.

Encontrei a explicação para este formato estranho, há cerca de um mês, quando pesquisava sobre a pintura em miniatura em Portugal, num texto muito bem escrito por Nuno Borges de Araújo, intitulado, Imagens de ausência: o retrato fotográfico como simulacro durante o período romântico (1*)

Os ingleses executavam estes retratos destinados a camafeus com vários ângulos da personagem. Foto retirada de Imagens de ausência: o retrato fotográfico como simulacro durante o período romântico


Com efeito este autor encontrou nos jornais oitocentistas portugueses toda uma série de anúncios de fotógrafos, que afirmavam executar retratos próprios para broches, caixas de rapé, anéis, medalhões ou até mesmo botões de punho. Em suma fotografias de reduzidas dimensões, como esta da Sra. D. Ricardina, que encastradas numa jóia, reproduziam o efeito dos antigos camafeus e que continuavam a tradição das pinturas miniatura, pequenos retratos íntimos, que entre outras funções, se poderiam trazer pendurados, junto ao coração.

Um retrato fotográfico de cerca de 1860 encaixilhado num medalhão banhado a ouro. Dimensões, 3 x 4 cm. Peça à venda no leiloeiro António Ferreira do Brasil 


Tal com as outras provas fotográficas do tipo carte-de-visite, estes retratos camafeus eram impressos em vários exemplares e este foi oferecido ao meu trisavô, o Padre Liberal Sampaio, como prova de estima e amizade. Provavelmente nos descendentes do matrimónio Ricardina Leite de Barros e Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura existirá um medalhão em ouro, um alfinete de peito ou uma aplicação numa caixa de jóias com a imagem desta senhora e talvez até já ninguém conheça a sua identidade

A Sra. D. Ricardina Leite de Barros


A fotografia da Sra. D. Ricardina foi executada por Ferreira de Melo, no Porto



(1*) Actas do 1º Colóquio Saudade Perpetua, Porto: CEPESE,2017. P. 801-829


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Máquinas de costura Singer: apontamentos de algumas memórias familiares






A minha tia Maria Adelaide era modista e no andar térreo da casa de Vinhais tinha o seu atelier, onde havia sempre uma grande azáfama, com as suas empregadas, a Bárbara, a Iracema e a Chica de volta das máquinas de costura, ou a alinhavar. Havia também muitos figurinos, linhas pelo chão e uma mesa grande de encostar onde a minha tia cortava as peças de tecido. Embora só passasse em Vinhais uma temporada por ano aquele ambiente sempre me inspirou. Em jovem ambicionei ser estilista e ainda hoje guardo o gosto por me vestir de uma forma criativa.

Curso Singer gratuito para o ensino de bordados e aplicação de acessórios


Talvez por isso me tenha decidido hoje a seleccionar esta foto dos arquivos da família materna, que mostra um curso das máquinas de costura Singer, que provavelmente decorreu em Vinhais. Era um curso gratuito para o ensino de bordados e aplicação de acessórios e a julgar pela indumentária e pelos penteados, deve ter ocorrido nos finais do anos 20 ou no início dos anos 30 do século XX, e a fotografia capturou um momento qualquer especial, talvez o fim do curso e foi impressa em forma de postal, de modo a que todas pudessem ficar com uma recordação e envia-la aos pais ou aos amigos. As pupilas estão todas sentadas em frente das suas máquinas de costura, de onde saem panos bordados maravilhosos. 

A minha avó materna

De pé, estão três senhoras, entre as quais a minha avó materna, facilmente reconhecível pelo carrapito e o seu queixo rabeca e ainda um homem. Presumo que as três senhoras em pé seriam as mestras e o senhor, um técnico da Singer, que estaria ali sempre pronto para desencravar uma máquina ou para resolver qualquer eventual problema mecânico Na fotografia constam também 5 meninas, que me parecem demasiado pequenas para estar ali a aprender. Imagino que algumas das senhoras tivessem dificuldade em arranjar alguém para tomar conta das crianças de modo, que as trouxeram naquele dia e constam na fotografia, servindo assim para demonstrar, que este era um curso sério destinado a mães de família, a fadas do lar.

Assinalada com uma seta, está uma das primas Fernandes, creio que a Chica


Das senhoras representadas, como já referi, só identifico a minha avó Adelaide, em pé, no canto inferior esquerdo e creio reconhecer umas das primas Fernandes, sentada, logo atrás da mesa onde está o cartaz. Creio eu que será a Chica Fernandes, madrinha da minha mãe, que ainda conheci bem.



Ao fundo da sala, há uma grande cartaz da Singer, onde se anuncia um esquema de prestações semanais para aquisição de máquinas de costura. Com efeito, nesta época uma máquina de costura era um bem extremamente valioso para uma mulher. Poderia poupar imenso dinheiro confeccionando os vestidos para si, roupas para toda a família e ainda lençóis e toalhas, como também, se por qualquer eventualidade da vida, se visse viúva ou órfã, poderia garantir o seu sustento de forma honesta, fazendo costura para fora. Foi o que aconteceu à minha tia Maria Adelaide, que após a morte do pai em 1949, teve que se tornar modista, usando a máquina de costura, como ganha-pão para si e creio eu, que para a sua mãe.

Estas máquinas de costura eram tão valiosas para uma mulher, que a minha trisavô paterna, uma fidalga rica, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, que vivia nas cercanias de Chaves, quando viu aproximar-se a morte, em 1902, fez um testamento muito completo, com os legados pios, discriminando o dinheiro paras as missas a rezar aqui e acolá, os alqueires de trigo a distribuir pelos pobres e ainda a distribuição de alguns bens, um anel de ouro para uma prima e outra jóia para não sei quem e finalmente para a Maria Rodrigues, irmã do seu companheiro de sempre, a máquina de costura!!!

Hoje em dia nunca contemplaríamos os nossos electrodomésticos num testamento, pois sabemos que o prazo de vida deles é bem curto. Mas nesses tempos uma máquina de costura era efectivamente um bem precioso para um mulher.

Esta fotografia parece também documentar a participação da minha avô Adelaide nestas actividades femininas da vida de Vinhais, com um carácter sem dúvida cívico. Aliás, recordo-me de ouvir a minha mãe contar, de uma forma mais ou menos comprometida, pois era de esquerda, que minha avó Adelaide tinha recebido um prémio qualquer de Salazar. Não me me lembro em que termos ou em que contexto recebeu esse prémio, talvez no âmbito da Obra das Mães ou por ser progenitora de uma prole numerosa, mas o que é certo é que no arquivo da família apareceu uma carta da Presidência do Conselho de Ministros, com carimbo datado de 1959, endereçada à minha avô, contendo um cartão do Presidente, Doutor António de Oliveira Salazar, agradecendo os amáveis cumprimentos. Pena não se conhecer exactamente os antecedentes, que estiveram na origem deste cartão de Salazar.





Esta fotografia tirada provavelmente em Vinhais, no fim dos anos 20 ou início dos 30 ultrapassa o mero valor sentimental e documenta uma época onde a costura era uma actividade importante da vida de qualquer mulher, uma forma de economia doméstica e a ainda garantia de uma forma honesta de sustento, em caso de crise económica ou familiar.




quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Um retrato miniatura do início do primeiro quartel do século XIX



Comprei esta pintura em miniatura por um preço estupendo na Feira de Estremoz há cerca de uns quatro anos. Quem me vendeu isto não fazia a menor ideia de que se tratava de uma pintura original. Provavelmente achava que era alguma reprodução colorida de um quadro antigo sem valor nenhum. Também é verdade, que estava num estado de conservação lamentável. A placa de marfim sobre a qual foi pintada estava partida em dois e a moldura e o passe-partout completamente empenados.

Mas além de ser uma pintura original é um retrato verdadeiro de uma senhora que estava na flor da idade no início do século XIX.



Nesse tempo, estes pequenos retratos já tinham uma longa tradição na pintura europeia. Nos séculos XVI e XVII serviam para combinar casamentos reais ou de grandes aristocratas, pois dadas as suas pequenas dimensões eram facilmente transportáveis e os noivos poderiam ver os respectivos rostos antes de se conhecerem. A partir da segunda metade do século XVIII estes retratos passaram a ser pintados a aguarela sobre pequenas placas de marfim e generalizam-se entre a nobreza e a grande burguesia.

Na época em que esta minha miniatura terá sido pintada, logo no início do XIX, existiam em Portugal muito bons pintores de miniaturas, como por exemplo, José Joaquim Rodrigues Primavera, que até tem uma obra exposta no Museu do Prado ou ainda José Joaquim de Almeida Furtado. Também por cá trabalharam alguns pintores estrangeiros e a arte foi igualmente praticada por amadores, pois na época existiam à venda publicações, que explicavam as técnicas desta arte. Mas a minha pintura não está assinada nem datada e os meus conhecimentos de pintura são escassos para a atribuir a este ou aquele pintor. Mais ainda, a jovem que está retratada na pintura não está identificada e nem tenho maneira de conhecer a sua identidade. Para esta época ainda há poucas imagens e seria uma um golpe de sorte encontrar uma gravura, que representasse a mesma pessoa.

Em suma, relativamente a este pequeno retrato, posso apenas fazer algumas ilações mais ou menos óbvias.



Em primeiro ligar a rapariga representada na pintura tem um tipo mediterrânico, cabelo e olhos castanhos muito escuros ou mesmo pretos. Decididamente não é uma flamenga, uma inglesa, alemã ou mesmo uma francesa. Será antes uma espanhola, italiana ou mais seguramente uma portuguesa, já que comprei esta miniatura, aqui em Portugal. Creio que posso admitir sem uma margem de erro demasiado grande, que a elegante representada neste quadrinho foi uma portuguesa. Também evidente, que pelo traje e pelas jóias representadas na pintura, esta rapariga pertencia a uma família nobre ou então burguesa, mas muito abastada.

Hortense de Beauharnais foi uma  elegantes da moda Império. Pintura do Baron de Gérad(1770-1837) da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, in. 1775 Pint 

Em termos de indumentária, a jovem enverga um vestido com um decote, mangas de balão, corselete de musselina, cintura muito subida e o cabelo apanhado, penteado em cachos. As cinturas subidas e os decotes generosos começam a usar-se logo por volta de 1795, mas as mangas de balão parecem surgir no início da primeira década do século XIX e mantem-se em voga até mais ou menos 1825, altura em que vão ganhando volume e descem quase até à altura do cotovelo. Também depois dessa data os penteados tornam-se mais complicados e perdem a simplicidade do estilo Império. Claro, o que acabei de descrever aplica-se sobretudo a França, esse país que apesar de ter posto a Europa a ferro e fogo com as guerras napoleónicas, continuou a ditar as modas. Talvez aqui em Portugal não soubessem de imediato o que as elegantes de Paris vestiam, como uma Josefina Bonaparte, uma Hortense Beauharnais ou uma madame de Récamier, mas nessa época circulavam já pela Europa fora estampas e jornais de moda, a que a família desta janota portuguesa poderá ter tido acesso. Em suma, pela indumentária, arriscaria afirmar que a retratada da minha miniatura veste-se segundo o que estava na moda entre 1800 e 1825.


Retrato de Senhora, José Joaquim Rodrigues Primavera, datado de 1828. As mangas de balão a partir de 1825 desceram até aos cotovelos. Col. do Museu do Prado


Outro aspecto desta pintura que se destaca é o vestido preto envergado pela jovem.

Tentei perceber sem muito sucesso a partir de que o momento o preto se tornou uma cor de luto obrigatória na Europa. Por exemplo no século XVII, o preto era uma cor de luxo, que não estava necessariamente associada ao luto, usada pela realeza ou porque quem tinha muito dinheiro. Com efeito a cor negra era extramente difícil de fixar num tecido e o corante usado era caro. Ainda hoje, já nos aconteceu a todos nós comprarmos uma t-shirt ou umas calças pretas a preço de ocasião e ao fim de quantas umas lavagens, tudo aquilo fica com uma cor deslavada. Em todo o caso, a revolução industrial inglesa, permitiu a produção de tecidos em preto em maior quantidade e qualidade e a menor e preço e no Reino Unido, em 1817, a morte da Princesa Charlotte, filha de Jorge IV, lançou todo o país de luto e as elegantes mandaram fazer vestidos de noite em preto, como este da colecção do Victoria And Albert Museum, executado entre 1823 e 1825.

Vestido de luto da col. do Vitoria and Alberto Museum, executado entre 1823-1825
,

Pelos vistos, neste primeiro quartel do século XIX, uma jovem enlutada poderia envergar um vestido preto decotado, com os braços à vista e ornamentar-se de jóias para frequentar um acontecimento social. Neste meu retrato, o vestido decotado, os braços nus e a expressão da jovem não sugerem tristeza. 

As jóias

Na mão usa um anel de brilhantes e parece segurar uns trémulos, uns alfinetes de cabelo, que se usaram no século XVIII. Ao seu lado, pousada numa consola, está uma estatueta de uma figura feminina, que parece estar dançando, talvez uma alegoria à personalidade da moça. Enfim, é um retrato de uma jovem na flor da vida que não aparenta estar consumida pela dor.

Uma estatueta pousada numa consola. Talvez uma alegoria à personalidade da retratada 


Enfim, tudo isto são códigos de vestuário, que escapam ao nosso entendimento, pois os mais velhos de nós ainda vivemos num tempo em que luto feito a negro era carregado e despojado de ornamentos e atitude a adoptar socialmente era de tristeza e sobriedade.

Provavelmente, nunca conseguirei descobrir quem pintou este retrato, nem quem é a jovem nele representado. Posso apenas supor que a pintura foi executada no primeiro quartel do século XIX, retratando uma rapariga portuguesa rica e bem-nascida, trajando um elegante vestido preto. Mas também um pouco de mistério empresta sempre mais interesse a uma velharia.





Alguma bibliografia e links consultados:

Miniaturas portuguesas / concepção e texto Anísio Franco. - Lisboa : MNAA, 2003. - 24 p. : il., col. ; 20 cm

De la miniature au Portugal : peintres et objets voyageurs, entre l’Europe et l’Amérique / Patricia Telles
In 
Études Epistémé: revue de littérature et de civilisation (XVIe - XVIIIe siècles), nº 36, 2019
https://doi.org/10.4000/episteme.5277

Miniaturistas portugueses / Júlio Brandão. - Porto : Litografia Nacional, [1933]. - 117 p. : il. ; 22 cm

https://wiki.alquds.edu/?query=1820s_in_Western_fashion


https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/retrato-femenino/0e87474a-04c7-487a-9f68-4d1275817397


Um agradecimento à especial à Teresa Serra Moura e um obrigado a Anísio Franco e Ana Kol


domingo, 3 de julho de 2022

Um menino Jesus de Malines esculpido pelo tempo


Como já referi muitas vezes no blog, adoro arte sacra e sobretudo escultura. Mas os preços de uma imagem de madeira portuguesa do século XVIII ou XVII são na maior parte dos vezes proibitivos para a minha bolsa.

Este menino Jesus que apresento hoje estava a um preço simpático e desde logo me pareceu que era uma imagem de Malines, embora muito alterada, com uma cabeça do século XVIII.

Para os menos familiarizados com estas questões da arte, a expressão imagens de Malines, designa um um tipo de esculturas executadas na cidade de Malines (actual Bélgica), entre 1500 e 1540, com pequenas dimensões, normalmente entre 28 e 36 cm e que apresentam um certo ar abonecado. Em francês são mesmo designadas por poupées de Malines. Essas pequenas figuras foram exportadas para o resto da Europa através do porto de Antuérpia e eram muito apreciadas em Portugal e Espanha, Já escrevi por sobre esse assunto aqui no blog em 2 de Julho de 2012.

Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540

Dentro das várias imagens de santos e da Virgem produzidas em Malines, os meninos jesus eram muito característicos. Eram de pequenas dimensões, apresentavam coxas exageradamente roliças, o ventre proeminente e as nádegas diminutas e apertadas. O meu menino Jesus apresenta exactamente essas especificidades, que me levaram desde imediato a suspeitar que tivesse sido executado em Malines. 

As nádegas diminutas e apertadas

Porém os Meninos Jesus daquela cidade eram sempre do tipo Salvador do Mundo, isto é, com a mão direita abençoavam e na esquerda seguravam a esfera do mundo ou uma maça. Na minha imagem, a mão esquerda foi completamente refeita de uma forma um bocadinho trapalhona e a direita foi também muito mexida. Igualmente, num tempo que não posso precisar alguém substituiu a cabeça original do Menino por uma do século XVIIII, com olhos de vidro. Provavelmente a cabeça original, que seria maior, de uma forma rotunda, com os olhos amendoados e sorridente estaria já muito comida pelo caruncho e uma senhora devota encomendou o trabalho, julgando que o menino ficaria mais bonito ou então um antiquário sem gosto, resolveu pôr-lhe uma cabeça de outra imagem, para a vender com o melhor preço.

A cabeça com olhos de vidro é do século XVIII não é original e os braços foram muito alterados

Este Menino Jesus que comprei na Feira de Estremoz, apresenta também uma outra características de Malines. Os pés eram furados para assentarem numa peanha com dois espigões. Com efeito, era hábito vestir este meninos Jesus e portanto eram facilmente amovíveis para que os devotos os pudessem trajar com roupinhas em seda.


Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540. As imagens eram facilmente amovíveis.

O meu menino Jesus apresenta cerca de 17 cm de altura. Talvez com a cabeça original, que era certamente maior tivesse mais um ou outro centímetro. Estas dimensões fogem um bocado às medidas padrão apresentadas na obra Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 / Fanny Cayron, Delphine Steyaert . - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019, mas o inventário feito por Bernardo Ferrão de Tavares e Távora em 1975, identifica pelos menos dois meninos Jesus de Malines com 20 cm em colecções particulares portuguesas e num antiquário francês, a Galerie Puiseux, encontrei um à venda com 18 cm de altura.

Em suma, este meu Menino Jesus foi executado em Malines, algures entre 1500 e 1540, exportado para a Península Ibérica via Antuérpia, para servir a devoção privada de uma religiosa, uma fidalga devota ou um burguês rico, com pequenas dimensões para ser facilmente transportado, de modo a que o seu proprietário nunca perdesse a protecção do Cristo Menino, ainda que estivesse numa nau a caminho da Índia.

O meu menino Jesus está muito estragado, perdeu a cabeça, a peanha e os braços foram alterados, mas é uma peça do século XVI e tem toda a poesia e beleza das marcas do tempo, que alteram e transformam uma escultura.


Bibliografia e links consultados


Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 : étude matérielle et typologique / Fanny Cayron, Delphine Steyaert ; sous la dir. d'Emannuelle Mercier ; avec la collaboration de Famke Peters. - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019. - 231 p. : il. ; 30 cm. - (Scientia Artis ; 16)

Imagens de Malines em Portugal / Bernardo Ferrão de Tavares e Távora. - Porto : Museu, 1975. - 262 p. : il. ; 24 cm. - Sep. "Museu", 2as., (16/17), Jul.1975

E um agradecimento especial aos meus colegas do Museu Nacional de Arte Antiga

sábado, 18 de junho de 2022

Os sermões do Padre Liberal Sampaio

José Rodrigues Liberal Sampaio

Na família era conhecida a actividade de pregador do Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, meu trisavô. Sabíamos que foi particularmente brilhante, pois em 1873 foi nomeado por alvará de D. Luís pregador da sua Capela Real e a rainha D. Maria Pia ofereceu-lhe um anel com uma pedra grande de cor azulada como testemunho da sua consideração. Também tínhamos conhecimento que era chamado a pregar em muitas terras diferentes e que publicou mesmo um dos seus sermões, o Sermão da Imaculada Conceição. Coimbra: Tip. Reis Leitão, 1887.

Mais recentemente li a transcrição do artigo de um jornal da época, O Norte, 1 de Novembro de 1895 (*1), dando notícia de um comício do partido regenerador em Chaves, em que o meu trisavô foi um dos oradores e cuja intervenção é descrita da seguinte forma:

Estoirou então na escuridão do teatro a voz dominadora do sr. Padre Liberal Sampaio.

Numa época em que os registos sonoros eram raríssimos, este pequeno apontamento dá-me pelo menos uma ideia do que seria a voz do meu antepassado e o impacto, que causaria numa audiência.

Mas, agora que herdei o espólio familiar e que comecei a tratar as cartas, começo a ter uma ideia um pouco mais precisa desta sua actividade de pregador. Todos os documentos são cartas do tempo em que o meu trisavô, esteve a estudar em direito e teologia em Coimbra (1886-1891) e mesmo assim fornecem uma visão incompleta, pois só tenho acesso ao que o meu antepassado escreveu, mas desconheço a resposta, ou vice-versa, cartas que lhe escreveram a ele e que não tenho a réplica.

Em primeiro lugar, estes sermões ou missas, que meu antepassado proferia ou celebravam eram pagos e uma fonte de rendimento importante. Durante o tempo que esteve em Coimbra, escreveu muitas vezes à minha trisavô, com a qual continuava a manter uma relação, até porque o filho de ambos estava a viver com ele, pedindo-lhe dinheiro, pois os estudos em dois cursos superiores, ocupavam-lhe muito tempo e não podia aceitar todos os convites para prédicas.

O Palácio dos Lemos, em Condeixa-a-Nova. Foto monumentos.pt

Ainda assim, Liberal Sampaio arranjava tempo para dizer missas, no Palácio dos Lemos, em Condeixa-a-Nova, do qual era presença habitual, não só como sacerdote, mas como amigo da família. Há três cartas, uma de Manuel Ramalho, de 29-01-1888, que julgo ser de um dos filhos dos condes de Condeixa (Manuel Pereira Ramos Ramalho, 03.02.1864 - 04.08.1910) outra duas sem data, a primeira de Manuel de Sousa Brandão e a última da própria condessa de Condeixa, Amélia da Madre de Deus Santiago, convidando-o para dizer missas na capela da casa, ou pedindo-lhe para indicar um padre no caso de não poder aceitar, ou ainda tratando do assunto do pagamento, isto é, a esmola, como na altura se parece denominar.

Liberal Sampaio, apesar de ser um transmontano, parece ter feito rapidamente fama como pregador na região Centro. Logo em 29 de Janeiro de 1888, António Lopes Coelho de Abreu, pároco da Igreja de Nª Srª do Ó de Barcouço, Mealhada, convida-o para pregar o sermão, numa das festividades da terra, oferecendo a sua humilde choupana para o alojar. A esmola a pagar mereceu umas quantas linhas nesta carta.

Carta de José Henriques Firmino

Em 23-04-1891, José Henriques Firmino, um comerciante de Ança, convida-o para dizer missa na ermida Nossa Senhora do Despacho, numa carta deliciosa, que não resisto aqui a transcrever.

Temos no dia próximo 7 de Maio uma missa em uma ermida próxima à estrada que conduz à Figueira da Foz e perto de São Martinho das Árvores. Lembrei ao Director da dita ermida o nome de V. Exa. para lá ir dizer a missa e não lhe sendo penoso dizer meia dúzia de palavras relativas à padroeira Senhora do Bom Despacho. A esmola tem sido 5.000 r. . Vai na na diligência da Figueira, pela manhã, até S. Martinho, onde deve estar cavalgadura para o conduzir ao local e na volta torna a ser conduzido pelo mesmo local até ao mesmo sítio da diligência. A esmola é pequena, mas a pândega é superior a tudo. Jantar ao ar livre, sentando em um...relveiro aspirando sempre o aroma das inocentes florinhas.

Há arraial, onde se goza um bocado da tarde.

Espero pois na volta do correio a sua resposta afirmativa ou negativa para governo do Director.

Mas a maior parte dos convites são feitos da província de Trás-os-Montes, de onde era oriundo o meu trisavô. De Chaves, em 17.01.1890, Manuel Faria, da casa Viúva Faria e filho, na qualidade de encarregado faz festividades da Semana Santa, convidou liberal Sampaio, para proferir três sermões insistindo para que pelo menos aceite dois dos cinco, soledade e enterro.



Também de Chaves, o seu amigo, o comerciante António Gonçalves Roma, o pai do que viria a ser o célebre Coronel Bento Roma, um herói de guerra português, escreveu duas cartas ao meu trisavô, uma em 30 de junho de 1889 a propósito do sermão de São Tiago e novamente em 19 de Junho de 1891, outra vez, para convida-lo a proferir o sermão de São Tiago no dia 26 de Julho e o de São Caetano, depois do dia 7 de Agosto.

António Gonçalves Roma. Fotografia do álbum da família

Mas os pedidos para fazer prédicas chegam ainda de mais longe, como das terras frias e montanhosas de Vinhais. Em 7 de Abril de 1889, Manuel de Jesus Pires e Silva, escreveu-lhe daquela vila dando conta das preocupações, que lhe causavam a construção do edifício dos Paços do Concelho e que o esperava ver novamente pregar em Vinhais. Também Francisco António Teixeira, de Lebucão, a 11 de maio de 1891, convidou-o para dizer um sermão em Rebordelo, na festa do Santíssimo Coração de Jesus, no dia 5 de Junho, daquele ano.

Ao fazer esta enumeração de convites, pergunto-me a mim próprio como Liberal Sampaio arranjava tempo para estas deslocações e ainda para mais frequentando dois cursos superiores em Coimbra. As comunicações neste Portugal das décadas de 80 e 90 do século XIX eram ainda incipientes. Para ir a Chaves, o meu antepassado só tinha comboio até à Régua, o resto do caminho, seria feito por diligência e para as terras frias de Vinhais, a linha férrea ia até Mirandela e o resto do caminho seria no dorso de uma cavalgadura por montes e vales. Recordo-me eu que em meados dos anos 70 a estrada de Vinhais para Mirandela, através da Boiça, não estava ainda pavimentada.

Talvez por essa razão, em 11 de Novembro de 1888, o meu trisavô recebeu uma carta muito seca da Comissão Administrativa da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Vinhais, queixando-se de que o meu antepassado, ainda não tinha respondido ao convite para pregar um sermão na festa da Imaculada Conceição, a 8 de Dezembro. A missiva está assinada por Adílio Augusto da Silva Buiça, Abade de Vinhais e o pai de Manuel Buiça (1875-1908), um dos homens que matou o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luís em 1908!

O regicídio em 1908


Sabe-se que este Manuel Buiça era filho de Adílio Augusto da Silva Buiça através do Abade de Baçal, bem como através do testamento escrito, pelo próprio, poucas horas antes do atentado, além que na época, toda a gente em Vinhais saberia de quem era filho.

Este conjunto de cartas do espólio familiar permitiu-me conhecer melhor a vida de Liberal Sampaio, a ampla rede de conhecimentos, que tinha pelo País, mas também uma época mais devota, em que uma das atracções de uma festa religiosa, era o sermão de um pregador célebre, um período em que se viajava de diligência ou no dorso de uma cavalgadura e em que as famílias fidalgas ouviam missa na capela das suas casas. 

António Gonçalves Roma e a família. O bebé será o futuro Coronel Bento Roma. Fotografia do álbum da família

Também é interessante encontrar aqui cartas dos pais de personagens históricas em Portugal, como o do Coronel Bento Roma ou do regicida Manuel Buiça. Liberal Sampaio certamente, conheceu o pequeno Bento Roma e terá talvez afagado os cabelos do ainda menino Manuel Buiça, depois de lhe dar a sua bênção.

Manuel Buiça. Foto wikipédia


(*1) História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p.151-52