sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma viúva rica e seus maridos : histórias antigas de Vinhais


A casa de Souto Covo em Vinhais

Francisco Germano Pires (c. 1813- 6 10- 1899) foi um dos meus trisavôs do lado materno, cuja existência foi quase esquecida e o pouco que sabia dele nem sequer era muito abonatório. Seu genro, Clemente da Ressurreição Morais no seu caderninho de memórias conta que o Francisco Germano Pires confinou a filha bastarda num recolhimento religioso aos 7 anos, do qual só saiu aos 29 anos. Depois quando filha Maria da Graça casou 1889 com o Clemente da Ressurreição, o pai não apoiou o casamento, esteve cinco anos sem lhes falar e que pouco ou nada lhes dava para viver. O genro descreve-o como um homem austero. Dizia-se também na família, que emprestava dinheiro, uma espécie de agiota e que casou com uma viúva rica, que na vila de Vinhais, era conhecida pela Hilária, em alusão ao nome do primeiro marido.


O caderno de memórias do meu bisavô Clemente da Ressurreição Morais, Descreve o sogro, Francisco Germanos Pires como um homem austero e de uma forma em que é evidente, que pouco simpatizava com ele. 


Recentemente, a minha irmã fez o favor de me entregar um conjunto de documentos antigos da família e ao folheá-los percebi que quase todos, dizem respeito a este trisavô de o qual sabíamos tão pouco e são títulos de compras de terras ou casas, pagamentos de contribuições e ainda testamentos. Tratei de os inventariar ao mesmo tempo que tempo que fazia o levantamento no Arquivo distrital de Bragança, dos nascimentos, óbitos e casamento de Vinhais deste meu antepassado e dos seus próximos.

Comecei pelo seu assento de óbito. Francisco Germano Pires morreu a 16 de Outubro de 1899, na casa da Rua de Cima, em Vinhais, com 86 anos. Era filho de José Joaquim Pires e Luísa Angélica e viúvo de Maria do Carmo Rodrigues. Fez testamento e deixou uma filha, isto é, a minha bisavó Maria da Graça Pires, sua bastarda. O documento permitiu-me saber ainda o nome da tal viúva rica com quem casou, Maria do Camo Rodrigues!

Segundo os dados deste registo, de 1899, o Francisco Germano Pires, tinha 86 anos quando faleceu, portanto terá nascido por volta de 1813. Contudo os arquivos paroquiais de Vinhais estão muito incompletos entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do Século XIX. O livro de baptismos para época em que o meu antepassado nasceu não existe pura e simplesmente. Só a partir de 1815 é que há dados e nestes encontrei os assentos de nascimentos dos seus irmãos mais novos, o António Augusto (3.8.1815), o Manuel Maria Pires (28.7-1822), o Jacinto António Pires (9.12.1824) e ainda a Umbelina de Jesus (11.7.1828).

Da sua leitura, consegui apurar o nome dos avôs de Francisco Germano, era neto paterno de Matias Pires e Joana Teresa, o primeiro natural de Paçó e a segunda de Revelhe e materno de Francisco José de Morais, natural de Vinhais e de Catarina Afonso, de Paçó. Não consigo deduzir nada sobre a sua condição social, pois não foram indicadas as profissões. Obviamente que não eram fidalgos, pois não tinham apelidos sonantes, nem os nomes são antecedidos de Dom ou Dona. Seriam talvez modestos lavradores, como quase todos os habitantes da zona. Os padrinhos desta irmandade foram também gente com apelidos banais, com exceção dos do irmão António Augusto, cujo padrinho foi Simão da Costa Pessoa e a madrinha Ana Genebra Costa Pessoa. Mais tarde, este Simão esteve ligado à causa Liberal e veio a ser o primeiro conde de Vinhais em 1847. Talvez existisse qualquer relação de dependência entre estes modestos Pires e os Costa Pessoa. O meu quarto avô, José Joaquim Pires poderia ter sido feitor ou caseiro dessa família, mas é certo é que o António Augusto fez-se padre em Bragança em 1842 e talvez os seus Padrinhos tivessem custeado as despesas.


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Testamento de Maria do Carmo Rodrigues, datado de 15-10-1849. A primeira folha


Mas voltando a Francisco Germano Pires, encontrei o testamento da sua mulher, Maria do Carmo Rodrigues, datado de 15-10-1849, mas aberto em 10 de abril de 1851. Este documento confirma inequivocamente que os dois foram casados e que a Senhora era muito abastada. Para o cumprimento dos seus legados pios deixou a soma de 480.000 réis, que na época daria para comprar uma casa e ainda uma boa e grande propriedade, pelo menos ali na região e comtemplou generosamente, sobrinhos e a afilhadas. Deixou a estes uma quantia total de 460.000 mil réis, mas o seu único e universal herdeiro foi seu marido Francisco Germano Pires. Contudo, a maior surpresa deste documento foi na parte dos legados pios, em que a Senhora Dona Maria do Carmo, deixou vinte missas pelas almas dos seus dois maridos! Portanto, além do Hilário, de quem eu já conhecia a existência, Maria do Carmo teve mais outro marido. No total casou três vezes.

Maria do Carmo deixou vinte missas pelas almas dos seus dois maridos! 

A Maria do Carmo Rodrigues morreu em Vinhais a 10 de Abril de 1851, com a idade de 60 anos pouco mais ou menos. Os livros de baptismo para esta época desapareceram, mas terá nascido por volta de 1791. A senhora era cerca de 17 anos mais velha que o meu trisavô, o Francisco Germano Pires e deste matrimónio não houve descendentes.

Agora, tinha que voltar atrás e descobrir sobre os dois anteriores maridos da Senhora Dona Maria do Carmo, mas como já referi anteriormente para esta época não existem livros paroquiais e tive que inferir datas a partir das escrituras e documentos notariais

Testamento de Hilário Gomes de 30 de Janeiro de 1817. Hilário Gomes pede para que após a sua morte sejam rezadas cinco missas pela alma da sua mulher Ana Maria


Encontrei o testamento de Hilário Gomes de 30 de Janeiro de 1817 em que legou os seus bens à sua mulher, Maria do Carmo Rodrigues, fazendo-a também sua testamenteira, bem como o seu sogro João António Rodrigues da Vila de Vinhais. Contudo nos legados pios de Hilário Gomes pede para que após a sua morte sejam rezadas cinco missas pela alma da sua mulher Ana Maria. Portanto, Hilário Gomes casou duas vezes, primeiro com a Ana Maria e depois com a Maria do Carmo.

Tenho um documento de uma venda de uma terra no sítio da Tulina, que José Gonçalves da Silva, viúvo, do bairro do Carvalhal fez a Hilário Gomes e sua mulher a 24 de Dezembro de 1806, ambos da vila de Vinhais, mas que não identifica inequivocamente o nome da mulher.

O nome de Maria do Carmo só é expresso inequivocamente em 6 de Abril de 1812, numa venda que fizeram João Rodrigues e sua mulher Catarina Fernandes, do bairro do Carvalhal, de um souto de Castanheiros no limite desse bairro a Hilário Gomes e sua mulher, Maria do Carmo desta vila. Poderei talvez presumir que em 1806 Hilário Gomes estava ainda casado com a Ana Maria, mas em 1812 já tinha enviuvado e casado com a Maria do Carmo Rodrigues.

De 22 de Novembro de 1836 encontrei um treslado do codicilo do testamento, que fez Hilário Gomes a 6 de Outubro de 1836 na sua casa de Vinhais, achando-se doente na cama. Nesse documento, a herdeira universal foi novamente a sua mulher Maria do Carmo Rodrigues e nomeada sua testamenteira e na falta dela António Alves Nunes de Prada, ao qual também deixa também alguns bens.,

Hilário Gomes terá morrido um pouco antes da data em alguém solicitou a treslado do codicilo, enfim, para simplificar a coisa, finou-se em Novembro de 1836.

Maria do Carmo Rodrigues voltou a casar, não sei a data exacta, mas a 20 de Abril de 1844 comprou em conjunto com o seu segundo marido, António Alves Nunes, uma casa na rua de Cima, em Vinhais a José de Sousa e sua mulher Teresa Leonarda do Julgado de Torre de Dona Chama e assistentes na vila de Vinhais. Creio que este marido será o mesmo individuo, citado no testamento de Hilário Gomes de 1836, António Alves Nunes de Prada. Prada poderá ser a referência à sua terra de origem, a aldeia de Prada a Nordeste de Vinhais.

Maria do Carmo Rodrigues a 20 de Abril de 1844 comprou em conjunto com o seu segundo marido, António Alves Nunes, uma casa na rua de Cima


Encontrei o assento de óbito de António Alvares Nunes em 22 de Fevereiro de 1845 nos livros de óbitos de Vinhais, mas não estou seguro que seja a mesma pessoa. Alves é muitas vezes a abreviatura de Alvares, o senhor em causa era também viúvo, mas não refere o nome da mulher.

E com efeito a partir da data acima referida, Maria do Carmo Rodrigues passou a comprar terrenos apenas em seu nome: a 16 de Novembro de 1845, um lameiro, terra e árvores a João Borges e sua mulher de Paço; em 14 de Janeiro de 1847 uma vinha no limite da Ermida a João e sua mulher Teresa e finalmente e na mesma data um lameiro e terra contígua no sítio de Souto Covo limite desta vila a Manuel Bento Gomes e sua mulher Maria Joaquina. Pelos valores que gastou na compra destas terras, 192.000 pela primeira, 16.000 réis pela segunda e 350.000 réis pela propriedade de Souto Covo, num total 558 mil réis em metal sonante percebemos que esta era uma mulher rica, pelo menos em termos das terras frias de Vinhais, em que a pequena propriedade é dominante.

Escritura de compra da propriedade de Souto Covo em 1847



O terreno de Souto Covo havia sido dado aos vendedores em vida de António Alves Nunes, o segundo Marido de Maria do Carmo e confinava com terras que já eram desta Senhora

O Francisco Germano Pires surge pela primeira vez nesta documentação a 14 de Janeiro de 1847 na transação da vinha no limite da Ermida, em que serviu de testemunha e partir de 1848 começou a comprar terras em seu nome, estando já casado certamente com Maria do Camo Rodrigues (o seu testamento é de 1849) e desde essa data até 1851, ano da morte da Senhora, adquiriu 5 propriedades no valor de 375 200 réis e nestas transações o seu nome surge sozinho, o que é estranho. Normalmente, nesta época, as terras eram compradas em nome do casal. Não percebo exactamente a razão. A fortuna parece ser dela, mas as terras são compradas em nome do Francisco Germano. O casal teria talvez qualquer acordo sobre os seus bens, que não consegui reconstituir. Em todo o caso, posso presumir que os dois terão casado talvez em 1848, tendo ele 35 e ela 57.


Genealogia de Francisco Germano Pires



Depois da morte de Maria do Carmo a 10 de Abril de 1851 o meu trisavô que foi o seu herdeiro universal continuou a comprar terrenos até 1895, quase à data da sua morte em 1899. Adquiriu um total de 50 propriedades no valor de 1 529 250 réis, isto é, cerca de um conto e quinhentos. Foram lameiros, soutos, terras de semeadura de centeio, alguma vinha e ainda cortinhas, regionalismo usado para designar uma horta de maior extensão, junto a uma casa, ou cercada por muros e sobre o comprido. Naturalmente não foi tudo comprado com o dinheiro da viúva. Seria um homem económico, que com os rendimentos da castanha, do centeio e ainda da venda das vacas, que engordavam a olhos vistos naqueles lameiros sempre verdes foi adquirindo mais e mais, porque a terra era o bem mais precioso naquela época. Quando se plantava um castanheiro, não se pensava no lucro imediato, mas no bem-estar económico de gerações e gerações durante séculos. Francisco Germano Pires adquiriu todas estas terras nas cercanias da vila de Vinhais, em terrenos hoje urbanizados como o Carvalhal, a Ucha, a Corujeira, o Bairro do Campo da Vila ou em aldeias próximas como Lagarelhos, Ermida, Rio de Fornos, Ousilhão, Santalha ou Paçó. Vinhais era e é um território muitíssimo isolado no meio de grandes montanhas e o único meio de transporte de mercadorias agrícolas naquele tempo era o burro, que permitia aceder a terras em encostas quase a pique por trilhos à beira de penhascos. A única vez que montei um burro foi para ir a uma terra certamente comprada por este meu antepassado, a seguir à Ermida a caminho de Armoriz e apesar de o animal ser conduzido por um criado da casa tive um medo louco e viajei agarrado ao meu irmão e muitas vezes de olhos fechados para não olhar para os precipícios. Mas nesse terreno, que se estendia num plano inclinadíssimo comi o melhor pêssego da minha vida, de cujo sabor ainda me recordo Essas terras que estavam no fundo do vale eram mais quentes e permitiam o cultivo de espécies mais friorentas, como a oliveira, a vinha ou árvores de fruto como os pessegueiros.

Quanto a todas estas terras que o meu antepassado comprou é impossível saber as dimensões. Nestas escrituras não se indicavam os hectares. Embora o sistema métrico decimal já tivesse sido adoptado por decreto em 1859 no nosso País, estes transmontanos estavam-se nas tintas para tais modernices do governo de Lisboa. Só nas terras de semeadura indicam uma unidade de medida, o alqueire. Os terrenos que Francisco Germano Pires comprava levavam em média dois alqueires de semeadura de centeio, por vezes só um e ainda há um caso de uma terra que apenas levava duas tigelas de pão. Nesta época o alqueire variava de região para região. Em Trás-os-Montes andaria pelos 19 litros e a conversão é quase impossível fazer para o sistema métrico. Um alqueire eram 19 litros de sementes necessárias para semear um terreno. Para os soutos, lameiros ou cortinhas estes documentos de compra não apresentavam unidade nenhuma de medida. Através dos valores de venda ou descrições percebo que eram terras pequenas, pois Francisco Germano Pires comprava dois ou três castanheiros com o seu terrado, um bocado de vinha ou várias sortes de terra ou uma sorte de Lameiro. Por vezes adquiria um souto ou um lameiro inteiro. Creio até que os lameiros seriam os terrenos mais valorizados. Em 2 de Fevereiro de 1851 Francisco Germano Pires pagou de contribuição 21.000 réis por uma permuta de terra que fez com João Borges e sua mulher de Paçó, de um Lameiro por outro, em que houve de excedente em dinheiro a quantia de 200.000 réis. Em 17 de Dezembro de 1863 o meu antepassado pagou a 156.500 réis a José Fernandes por um lameiro no sítio da Veiga, limite de Lagarelhos.

Mas estas compras de pequenas parcelas de terra obedeciam a um padrão. Lendo com alguma atenção os textos das escrituras, em que se descrevem os limites da propriedade, a nascente confinava com a terra de beltrano e a poente com o lameiro de sicrano, normalmente a terra em questão pegava com uma propriedade, que já era do comprador. Francisco Germano Pires tentava acrescentar as terras que já tinha, comprando as que estavam ao lado de modo a formar conjuntos maiores e fugir às inconveniências do minifúndio.

Na tradição familiar, este meu trisavô ficou com fama de agiota. Contudo nestes cerca de 80 documentos, que tratei, só quatro dizem respeito a essa actividade de emprestar dinheiro a juros, dois de 1888, um de 1899 e ainda outro de 1891, casos que não chegam para fazer dele usurário.

Mas Francisco Germano Pires herdou e também comprou casas, todas no mesmo sítio, a Rua de Cima em Vinhais.

Em 20 de Abril de 1844, Maria do Carmo Rodrigues e o seu marido de então, o António Alves Nunes compraram uma casa na Rua de Cima 38.400 réis a José de Sousa e sua mulher Teresa Leonarda do Julgado de Torre de Dona Chama, que tinham da sua tia Isabel Rodrigues e que confinava com uma parte do comprador. Em 13 de Maio de 1857, Francisco Germano Pires comprou a Francisco António de Sousa e sua mulher Cândida Ludovina a casa, que tinham na rua de Cima por 30.000 réis. Em 14 de agosto de 1864, o meu antepassado comprou a João Baptista Gomes por 40.000 réis uma casa na rua de cima, a qual posta com o mesmo comprador na rua pública. No ano a seguir a 11 de Abril Francisco Germano Pires comprou a Francisco António de Sousa e sua mulher Cândida Ludovina a metade da casa de habitação, sita na rua de Cima, a qual parte com uns prédios de Francisco Germano Pires por 30.000 réis. Finalmente 21 de Novembro de 1876, o meu trisavô comprou por 40.000 reis uma casa na Rua de Cima a Delfina Rita Pires recolhida no Convento de Santa Clara de Vinhais. É certo que nesta época numa terra pequena como Vinhais não se usavam números de polícia para identificar as casas, mas a ideia que fiquei é que se trata da grande casa da rua de Cima onde os meus bisavôs viveram, onde nasceu a minha avó, a minha mãe e os seus irmãos e onde morreu o próprio Francisco Germano de Morais em 1899. Visitei essa casa em adolescente, que servia de armazém ao estabelecimento comercial de um tio e tenho uma ideia vaga do seu interior vetusto, mas olhando com atenção para ela no street view, percebe-se que é uma construção orgânica, que foi crescendo, dividida e novamente junta.





A Casa da Rua de Cima. Olhando com atenção para ela no street view, percebe-se que é uma construção orgânica, que foi crescendo, dividida e novamente junta


Depois da leitura desta documentação apercebi-me que este antepassado, o Francisco Germano Pires foi muito mais importante do que pensávamos e que grande parte das propriedades da família foi adquirida por ele ou herdadas da sua mulher e dos maridos desta. Depois da sua morte, a sua filha bastarda, minha bisavó Maria da Graça Pires de Morais terá recebido em testamento a maioria dos seus bens e esta senhora, que nós considerávamos a pobre enjeitadinha, criada num recolhimento para raparigas pobres é que afinal era rica, em vez do marido, o Clemente da Ressurreição Morais.

Maria da Graça Pires foi criada no Recolhimento das Oblatas da Mofreita, casa destinada a raparigas pobres. A minha bisavó é umas das recolhidas mas não a conseguimos identificar


Com efeito, do Francisco Germano Pires herdámos a casa de família mais antiga da Rua de Cima e sobretudo a grande propriedade de Souto Covo, onde nos anos 30 do século XX os meus avôs mandaram construir uma casa, que durante quase 4 gerações foi a moradia dos Morais e casa de férias inesquecível, a qual estou ligado por um sentimento tão forte, que só perderei quando morrer.

Agora se o Francisco Germano Pires casou por interesse com a viúva rica, a Maria do Carmo Rodrigues, não tenho cartas ou diários, que tivessem sobrevivido para responder a essa questão. Talvez tenha casado por dinheiro, mas também há homens que se sentem atraídos por mulheres mais velhas e mulheres, que gostam de rapazes e sobretudo todos procuramos fugir à solidão.

No propriedade comprada por Maria do Carmo Rodrigues em 14 de Janeiro de 1847 levantou-se a casa de família em 1934





domingo, 12 de julho de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX: continuação 2

 

Exma. Sra. Anna Maria da Comceição Negocianta opé da Rua Ponte de Chaves


Como já contei aqui no blog a minha quarta avô Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), foi uma negociante em Chaves, com estabelecimento comercial da Rua da Ponte no Bairro da Madalena.

A memória da existência desta Senhora estava esquecida da família, mas felizmente o espólio documental foi conservado e através de cartas, facturas e documentos legais consegui reconstituir um pouco da sua actividade e existência. A minha irmã ficou tão impressionada, com esta antepassada que rapidamente a designou como a Ferreirinha da família, uma alusão à célebre D. Antónia Adelaide Ferreira (1811–1896), essa lendária empresária do comércio e produção do Vinho do Porto. As duas senhoras eram até mais ou menos da mesma geração.

Umas das personagens importantes da vida de Ana Maria da Conceição foi o seu cunhado Francisco José de Morais, com o qual, entre 1864 e 1876, manteve uma correspondência muito significativa. Este tio estava no Porto e tratava de encomendar fazendas nessa cidade para o estabelecimento da minha antepassada em Chaves e ainda tratava dos pagamentos. Nessa época, ao nível do comércio local, os pagamentos eram feitos em metal sonante e este meu tio quarto avô encarregava pessoas da sua confiança, normalmente militares da 1ª companhia da Administração militar, que estariam em trânsito entre o Porto e Chaves, para receber o dinheiro da cunhada, de modo a que ele pudesse liquidar as contas com os comerciantes da cidade Invicta.



No último post que escrevi, através de uma anotação de uma factura escrita por Ana Maria da Conceição descobri que este tio era tenente e através de consultas ao Diário do Governo, que teria morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878. Nesse boletim oficial, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, foi publicado o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe pagassem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Nesse momento tinha já uma data muito aproximada da sua morte, mas onde ela teria ocorrido no Porto, onde residiria habitualmente? Mas em que freguesia? O Porto já era demasiado grande nessa época para bater todos os registos paroquiais. Também poderia ter morrido em Chaves, onde tinha família ou poderia regressado à aldeia que o viu nascer para morrer na terra, possivelmente em Samaiões.

Enfim, tinha um universo demasiado grande e resolvi procurar no site dos Mormons, o https://www.familysearch.org. Não é que tenha muita confiança naquilo. Os gestores desta base genealógica gigante fizeram correr um programa sofisticado para ler automaticamente os antigos registos paroquiais dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, o que é notável, mas as variantes da caligrafia desses documentos foram tantas, que os resultados são por vezes autênticos disparates, mas desta vez como tinha data de falecimento aproximada, entre finais de 1877 e 21 de Janeiro de 1878, tive sorte e encontrei um registo que parecia ser dele, na cidade do Porto de 1877. Fui confirmar os dados ao Arquivo Distrital do Porto, era mesmo ele e partir daí encontrei o assento de nascimento e pude então traçar um pouco os seus dados biográficos essenciais.

Mairos uma aldeia na raia

O Francisco José nasceu em Mairos, uma aldeia raiana a nordeste de Chaves no dia 5 de Janeiro de 1835. Era filho legítimo de José de Morais e de sua mulher Isabel Maria e neto paterno de Domingos de Morais e de Rafaela e materno de Manuel Luís e de Mariana de Melo.

O assento de baptismo de Francisco José de Morais, que era meio irmão do meu quarto avô, Vicente de Morais

Isto quer dizer, que o meu quinto avô, José de Morais casou primeiro com Antónia da Costa em 25 de Agosto de 1790, união da qual nasceu o meu quarto avô, Vicente de Morais em 1-1-1799, posteriormente a Dona Antónia terá morrido e o referido José de Morais voltou a casar em data desconhecida com Isabel Maria de Melo e deste casamento nasceu o Francisco José. O Francisco José era meio irmão do meu tetravô Vicente de Morais e cerca de 35 anos mais novo que ele.

Umas das folhas do registo de Francisco José de Morais no Arquivo Histórico do Militar

Voltei a encontrar algumas notícias sobre este tio quarto avô no Arquivo Histórico Militar. Entrou para o exército aos 18 anos em 11 de Abril de 1853 como voluntário e no seu registo está dado como estudante. Tinha olhos castanhos, nariz regular e no rosto restos de bexigas e de altura media 61 polegadas [1,549 m]. Para os nossos dias era baixinho, mas na época tinha uma altura normal. Não sei que estudos fez, nem que área, mas terão sido pelo menos de nível médio, pois foi subindo os degraus todos da hierarquia até chegar a capitão. A partir das cartas trocadas com a sua cunhada, Ana Maria da Conceição, presumo que desde 1870 estaria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar do Porto e aí se manteve até ao final da sua vida, a 25 de Novembro de 1877. Através de uma carta enviada a Ana Maria da Conceição 2 de Julho de 1872, em que lhe apresenta um mapa das contas com o deve e o haver, executado de uma forma muito profissional, fiquei com a ideia que estaria a trabalhar na área da contabilidade da 1ª Companhia da Administração Militar, ou talvez no aprovisionamento, dado que tinha tantos contactos com lojistas e comerciantes do Porto. Mas isto são apenas intuições que terei de confirmar.
Anexo de uma carta enviada por Francisco José de Morais a Ana Maria da Conceição, 2 de Julho de 1872,


Nunca casou, em todos documentos que encontrei dele, foi sempre dado como solteiro. Era muito estimado pela cunhada, a minha quarta avô, Ana Maria da Conceição apesar de esta ter mais 27 anos que ele, e as sobrinhas escreviam-lhe com muito carinho e respeito.
O assento de óbito de Francisco José de Morais

Morreu no Porto, aos 42 anos, a 25 de Novembro de 1877 e morava na Rua de São Roque dessa cidade e foi sepultado no cemitério de Agromonte. Deixou testamento, de que existe cópia no Arquivo Municipal do Porto, mas não está digitalizado, o que é pena pois poderia conhecer um pouco mais este personagem tão caro à minha quarta avó, a negociante de Chaves. Talvez o documento ainda apareça no espólio.

A assinatura de Francisco José de Morais. Escreveu sempre numa tinta que foi desaparecendo com o tempo e as suas cartas são difíceis de ler.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX: continuação

A rua da Ponte, na Madalena, Chaves

Já escrevi no blog sobre a minha quarta avó, Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), que após a morte do marido Vicente de Morais em 1851, tomou conta sozinha do negócio do marido e ainda educou e casou as 4 filhas. Tinha um estabelecimento na Rua da Ponte no bairro da Madalena, em Chaves e provavelmente moraria no andar ou andares superiores à loja. É difícil precisar exactamente o local, pois no período em que esta minha antepassada esteve activa Chaves não tinha ainda números de polícia para identificar as casas, mas a Rua da Ponte é pequena e todos os que visitaram aquela cidade transmontana e atravessaram a ponte romana para a margem esquerda do Tâmega já lá estiveram certamente.

Ana Maria da Conceição era proprietária de um comércio generalista, daqueles que até há pouco tempo existiam em todas as terras de província e vendia de tudo, chapéus janotas, ferragens, pregos, garfos, bacalhau, que encomendava em Braga, mas também arroz, canela e outras mercearias e ainda sabão, que mandava vir sobretudo do Porto, Régua ou Vila Real. O transporte dessas cidades até Chaves era moroso e as fazendas vinham no dorso de uma mula ou burro conduzidas por almocreves e os pagamentos em moeda sonante eram feitos estes ou a intermediários em trânsito entre o Porto e Chaves. Nestes negócios, Ana Maria da Conceição contava com a ajuda preciosa do seu cunhado, Francisco José de Morais, que travava de encomendar as fazendas no Porto e despacha-las para aquela cidade transmontana.

Entretanto encontrei mais cartas no espólio que me permitiram esclarecer mais alguns apectos de como decorria este comercio entre Chaves, que na altura era ainda era vila e o Porto, Régua e Vila Real.

Rascunho da Carta de Ana Maria da Conceição a seu cunhado Francisco José de Morais

Num rascunho de uma carta escrita ao seu cunhado Francisco José de Morais, que estava na cidade do Porto, certamente datado da década de 70 do século XIX, Ana Maria escreveu o seguinte Segundo me diz Pedro Chasse até hoje não chegou à Régua as 15 caixas de Sabão que o meu cunhado faz menção na sua carta de 29 mês próximo findo uma tão grande demora faz-me suspeitar, que houvesse algum sinistro e por isso rogo-lhe tenha a bondade de indagar o que tinha a tal respeito e dado o caso da perda do barco, requerer na companhia que fez o seguro o pagamento da importância da fazenda seguradas, para com ela comprar a quantidade de sabão igual.


Isto quer dizer que as mercadorias iam do Porto para a Régua por transporte fluvial, através do rio Douro e já existiam seguros para cobrir os riscos. Com efeito, encontrei mais documentos confirmando que as fazendas viajavam do Porto para a Régua de barco, nomeadamente uma carta de 27 de Novembro de 1875 de António José da Silva Braga, comerciante do Porto, com loja na rua de são João, 96 e 98, informando que remeteram pelo barco de José Maria da Mesquita a fazenda mencionada na factura, 3 sacas de arroz, para a Régua, a entregar a António Clemente de Sousa. Em anexo encontra-se uma guia de transporte da mercadoria que saiu pela Barreira dos Guindaes, assinada no verso José Maria Barqueiro. Um outro comerciante do Porto, Manuel Alves Vieira, remeteu em 5 de Maio de 1875, em nome da minha antepassada 8 sacas com arroz e 2 de açúcar, anexando à carta a guia de transporte de barco, a sair pela barreira do Bonfim. A barreira era uma Alfândega.






O caminho de ferro do Porto à Régua só foi concluído em 15 de Julho de 1879 e até esta data o Douro seria o caminho mais fácil para o transporte de mercadorias evitando assim as alturas quase intransponíveis da Serra do Marão. Na Régua, a minha quarta avó, contava com uma série de intermediários especializados nestes assuntos, isto é, procedimentos para tratar do desembarque e despachar a mercadoria por terra para Chaves, como um tal Pedro Chasse ou um António Clemente de Sousa. Estes intermediários despachavam as fazendas pelos carreteiros. Como nome o próprio nome indica, eram homens, que dispunham de uma carroça, enfim, um veículo de tracção animal e cujo serviço era pago pelos destinatários das mercadorias, isto é, a Ana Maria da Conceição. Da leitura destas cartas dirigidas a ela, pareceu-me que o transporte entre Braga e Chaves seria assegurado pelos almocreves e entre a Régua, Vila Real e Chaves preferencialmente pelos carreteiros.

A minha tetravó era uma mulher organizada e só poderia ser para gerir esta rede de fornecedores no Porto, Braga, Régua e Vila Real, bem como o transporte das mercadorias por barco, ao dorso de uma mula ou em cima de uma carroça e todas as cartas recebidas destes comerciantes, que no fundo eram facturas ou guias de remessa, foram todas anotadas por ela com a letra miudinha, referindo que recebeu as fazendas e quando foi feito o pagamento. 

Recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto


Numa dessas anotações, na factura de António José da Silva Braga, proprietário de um armazém de bacalhau e azeite, no Porto, Ana Maria da Conceição escreveu recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto”. Até encontrar este documento não sabia nada deste cunhado, que estava no Porto. Suspeitava que fosse militar, pois muitos dos intermediários que usou para receber os pagamentos da cunhada em Chaves, eram militares, a maioria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar e agora tenho a certeza, que sim. Encontrei registo no Diário de Governo, n.º 280, de 11/12/1874, n.º 264, de 19/11/1875, n.º 200, de 07/09/1876, das licenças concedidas ao tenente Francisco José de Morais da 1ª Companhia da Administração militar, sendo que na de 1875, se refere mesmo que era para fazer uso das águas alcalinas gasosas de Vidago. 

Diário de Governo, n.º 264, de 19/11/1875

Se de facto tratar-se da mesma pessoa, este Francisco José de Morais terá morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878, já que encontrei do Dário do Governo, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe paguem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Mas tudo ainda precisa de ser confirmado.


Sei ainda pouco deste Francisco José de Morais, que à primeira vista seria irmão de Vicente de Morais, mas bati os registos de baptismo de Samaiões, localidade vizinha de Chave, de onde estes Moraes eram naturais e não encontrei o seu assento. Talvez os meus quintos avós, Antónia da Costa e José de Morais tenham mudado de residência e o mais novo dos filhos ter nascido noutra paróquia ou Francisco José fosse filho de um segundo casamento de José de Morais. O que é certo é que foi uma figura muito considerada por sua cunhada e sobrinhas, que se lhe dirigem sempre com estima. Num rascunho de uma carta, talvez datada do final doa anos 60 ou início dos 70 do século XIX a minha trisavó, Antónia dos Anjos Morais (25.4.1846-1-10-1913) escreveu as seguintes palavras

Rascunho da carta de Antónia dos Anjos Morais a seu tio Francisco José de Morais


Meu bom Tio

Depois de desejar a sua boa saúde e todas felicidades de que meu Tio é merecedor, tomo a liberdade de lhe oferecer o retrato incluso.

É na verdade insignificante oferta, mas não obstante, espero que o Tio se dignará aceita-la como prova de sincera amizade e estima que lhe dedica a quem muito preza por bem

Sobrinha muito obrigada

Antónia

Esta carta tocou-me pois só tenho um retrato da Antónia dos Anjos Morais já no Inverno da sua vida e nem tenho a certeza se é ela!

Adoraria ver esta sua fotografia na juventude. Mas sabe Deus onde as cartas do Francisco José de Morais e o retrato da jovem Antónia dos Anjos andarão. Se não serviram para acender o fogo, estarão a apodrecer numa gaveta ou dispersos no chão de alguma feira de velharias.

sábado, 20 de junho de 2026

Uma chávena café de vidro com dourados

Nenhuma das peças está marcada

Comprei esta chávena de café com pires, numa das últimas vezes que fui a Estremoz. Está aqui e acolá com pequenas esbeiçadelas, mas nada de grave e o preço foi muito bom. Fazia parte de um lote de chávenas de café, que a vendedora tinha comprado. Talvez tudo aquilo fosse uma antiga colecção de chávenas, que no passado as famílias gostavam muito de ir juntando e expunham numa vitrina.

Não sei muito de vidros e é um material que raramente apresenta marcas de fabricante, mas desde logo não me pareceu portuguesa. Os vidros que aparecem nas feiras são quase todos portugueses e nunca vi nada do mesmo género.

Fiz o meu método habitual de carregar a imagem no google e pôr o sistema a pesquisar imagens iguais, mas agora há inteligência artificial que opina, sem nós pedirmos nada e como somos bem educados, temos que responder à Senhora e de repente estamos num animado diálogo.



A Sra. Dona inteligência artificial disse-me de caras que este pequeno conjunto era do fabricante belga, Val St. Lambert e que o motivo era o Pampre D'Or, uma decoração feita com parras e uvas. Lá expliquei à Senhora, com uma foto mais ampliada, que a decoração não foi feita com parras e uvas, mas talvez com frutos, como cerejas ou quem sabe pequenas maçãs e que já tinha encontrado alguns vidros da célebre marca checa Moser, com algumas semelhanças com a minha chávena.



Peça Moser, marcada, datada de cerca de 1900 e à venda na Etsy


Acabei por ignorar referida Sra. D. IA e prossegui a minha pesquisa por imagens, baseando a minha intuição de que esta chávena foi fabricada na Checoslováquia, talvez no período entre as duas guerras. O formato da chávena e da pega parece-me uma coisa já muito século XX. Mas houve muitas fábricas checas nesse período e muito criativas. A Checoslováquia era uma das nações mais industrializadas da Europa. 

Taça à venda na 1stDibs.com e atribuída a Josephinenhutte

Mas pelo caminho, fui encontrando imagens de peças com algumas semelhanças, com a minha chávena de um fabricante alemão, a Josephinenhutte, da Silésia, de uma região contígua aos sudetas checos. Antiga província da Alemanha e hoje parte da Polónia, a Silésia foi também um grande centro vidraceiro da Europa. Nesses sites de vendas on-line os comerciantes são até honestos e atribuem estas peças sem marcas à Moser ou à Josephinenhutte. Em suma, parece haver fortes probabilidades de esta chávena ter sido sido produzida na Checoslováquia pela Moser ou na vizinha Silésia pela Josephinenhutte ou por outro qualquer fabricante da área copiando o estilo daquelas casas. 

Chávena e pires à venda no ebay, atribuídas a Moser ou Josephinenhutte 

Mas é difícil ter certezas já que na época em que esta chávena e pires foram fabricados foram produzidos, no início do XX ou entre as duas Guerras, todos os fabricantes europeus vendiam à sua clientela burguesa abastada copos, taças e garrafas com muito dourados. Em todo o caso, este conjunto é de um gosto refinado e de uma grande qualidade.



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os Alves: negociantes de peso em Chaves, na primeira metade do século XIX




Depois de ter herdado o espólio documental familiar, acreditava que iria encontrar sobretudo documentos relativos ao lado Montalvão, uma família fidalga com origens na Galiza. Contudo ao começar o tratamento, começaram a aparecer cartas, testamentos, documentos de vendas de propriedade de gente desconhecida. Fui estudando esses papéis, fazendo genealogias e descobri que muitos destes documentos pertenciam a um lado burguês da família, os Morais Alves, que se cruzaram com os Montalvão em 28 de Julho de 1903, através do casamento dos meus bisavôs Ana da Conceição Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão. Estes Morais Alves eram burgueses, que se instalaram em Chaves, no bairro da Madalena por volta dos anos 30 do século XIX e foram enriquecendo progressivamente. Da família Morais encontrei muita correspondência da minha quarta avô, a Ana Maria da Conceição, que depois da morte do marido, com muita desenvoltura, tomou conta do estabelecimento na rua da Ponte, até à sua morte em 1887.

Nesta caixa que comecei agora a tratar encontrei documentação dos Alves, negociantes, moradores no Bairro da Madalena em Chaves e cujo estabelecimento era contiguo aos dos Morais. Aliás acabaram por unir-se em 1876, através do casamento dos meus trisavós, o Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais. Mas os referidos papéis dizem respeito a geração anterior, do meu quarto avô, o Luís Alves, falecido a 2.10.1861. Este antepassado seria o mais novo de uma grande irmandade, nascida ao longo das duas últimas décadas do século XVIII, em France, na freguesia de Moreiras a Sul de Chaves, de que através destes documentos consegui reconstituir alguns aspectos da sua existência.

 Compra de uma propriedade por Ana Maria e Francisco Bernardo a 1 de Janeiro de 1817. Os dois residiam já em Chaves


Uma das suas irmãs, minha tia tetravó, a Ana Maria casou com o Francisco Bernardo, naquela localidade a 30 de Julho de 1807, um homem de uma aldeia vizinha, lugar de Adães, Freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Santa Leocádia, que com o tempo veio a tornar um homem de posses. O casal passou a residir em Chaves pelo menos a partir de um de Janeiro 1817, quando encontro o meu primeiro documento relativo aos dois, a compra de uma propriedade a Alexandre Rodrigues e sua mulher Teresa Maria, moradores em Pereira da Veiga, por 29 mil réis, que rendia dois alqueires de centeio. Francisco Bernardo e sua mulher Ana Maria são indicados como assistentes na Vila de Chaves, na Madalena. Assistentes na época era sinónimo de residentes ou fregueses. Voltam a comprar outra terra, chamada Ranho em 16 de Março de 1825, por cem mil réis e em 22 de Maio de 1830 compraram casas na Madalena por 105 mil réis. 

Testamento cerrado de Francisco Bernardo


Também nesse ano 1830, a 12 de Dezembro, o Francisco Bernardo, encontrando-se doente, mandou chamar o tabelião e fez um testamento cerrado, que se encontra no espólio e nesse documento indica-se que foi negociante com loja de peso, na Madalena. Sendo, comerciante, era alfabetizado e assinou pelo seu punho. Pela leitura do testamento parecer ser homem de posses e como o único filho do casal, o Leonardo tinha morrido, deixou muitos bens aos cunhados. A mulher, a Ana Maria também terá estado doente e fez também o seu testamento, no dia 11 desse mesmo mês. Mas ao contrário, do marido é analfabeta, conforme o tabelião escreveu a rogo da testadora por não saber escrever me deu licença, que por ela assinasse, José Bernado Paredes e Silva. Uma das missas é pelo irmão João já falecido

Testamento cerrado de Manuel Caetano Alves


Nesse meio tempo, encontrei notícia de mais um irmão, um tio quarto avô, o Manuel Caetano, que fez testamento cerrado a 13 de Julho de 1843 e através desse documento conhecer fiquei a conhecer mais a irmandade dos Alves, ele que seria o mais velho, depois o Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda uma irmã, a Teresa, que já teria falecido nessa data e finalmente, o Luís, que seria o benjamim. O Manuel Caetano residia igualmente na Madalena e era negociante de peso, tal como o cunhado Francisco Bernardo e o irmão mais novo, o Luís, meu quarto avô, o que me faz pensar num negócio familiar. O Manuel Caetano Alves era alfabetizado e também assinou com o seu próprio punho. Este Manuel Caetano só viria a morrer a 8 de Fevereiro de 1844 e tinha por alcunha o Manuel da Ponte, sem dúvida, uma referência ao local de residência e ao estabelecimento comercial, pois quer os Alves, quer os Morais, viviam e residiam na rua da Ponte à Madalena.

A leitura do seu testamento deixou-me uma ideia simpática dele. A vontade deste testador era que seu corpo fosse depositado na capela de Santa Maria Madalena neste bairro da Madalena, até por ser aleijado e aí fizesse seu funeral, isto é ofício de corpo presente, sendo aí conduzido directamente à sepultura e por isso pede e roga ao muito Reverendo Arcipreste do julgado e paróquia que se digne anuir a esta vontade do testador , que lhe não parece ofender a moral nem os bons costumes, nem faltar a preceitos paroquiais a que todos os fregueses são obrigados. Parece ter sido daquele género de pessoas, que mesmo depois da morte detestam incomodar os outros. Achei interessante o pormenor de por ser aleijado, pedir a cerimónia fúnebre na igreja contígua ao local, em que residia. Como se depois de morto isso fizesse alguma diferença. Mas certamente, esta última vontade traduzia um hábito, por ser aleijado das pernas, o Manuel Caetano Alves, assistiria às missas na igreja da Madalena, logo ali ao lado de sua casa, em vez de ir à Igreja Matriz, na outra ponta da vila.

Nunca casou, foi vivendo com os seus irmãos até estes mudarem de estado e acabou vivendo com o mais novo, o Luís o qual institui como herdeiro universal dos seus bens, que me pareceram significativos, terrenos agrícolas, casas e bens móveis.

Mas antes de morrer, ainda assistiu ao casamento deste irmão mais novo, o Luís com a Maria Joaquina Jorge a 2 de Setembro de 1843 na Igreja Matriz de Chaves. Terá sido um casamento muito tardio. A Maria Joaquina nasceu em Boticas em 17 de Março de 1800, filha de Manuel Jorge e Antónia Rodrigues e casou com 43 anos. Do meu quarto avô, Luís; não encontrei o assento de baptismo, mas deveria ter idade igual ao superior a ela, pois em 1804 já um dos seus irmãos o António José, tinha baptizado uma filha em Moreiras, a 6 de Agosto de 1804, a Maria da Conceição.

O Manuel Caetano faleceu a 8 de Fevereiro de 1844, mas o a Ana Maria e o Francisco Bernardo continuavam vivos e foram padrinhos do sobrinho, filho Luís Alves e da Ana Joaquina, o Francisco Luís, meu trisavô, a 28 de Outubro de 1844. A mãe contava já com 44 anos. Em todo o caso, a escolha destes padrinhos demonstra as boas relações de Ana Maria com os irmãos e de Francisco Bernardo com os cunhados.

O Francisco Bernardo veio a morreu a 4 de Setembro de 1846 em Chaves e a viúva, a minha quarta avô Ana Maria viu-se com sérias dificuldades em pagar os legados pios e esmolas do testamento do marido e em 4 de Janeiro de 1847 e vendeu metade das casas que pertenciam ao falecido marido Francisco Bernardo para pagamento dos seus bens de alma, ao seu irmão Luís Alves e sua mulher Maria Joaquina, pelo preço de 76 mil réis em metal sonante.

Venda que fez Ana Maria em 1847 para pagar os bens de alma do falecido marido


E neste momento da história convém voltar aos testamentos de 1830 e explicar o que eram estes bens de alma, que foram uma dor de cabeça para minha tia quarta avó

Os bens de alma eram os legados pios, isto é, um conjunto de práticas exaradas no testamento e que tinham por fim último a salvação da alma do testador. A sua enunciação dividia-se em duas partes fundamentais. Na 1.ª parte: mortalha, exposição, acompanhamento, cerimónias religiosas, refeição e enterro. Na 2.ª parte: missas por intenções e devoções, esmolas a instituições ou pessoas (padres, pobres, irmandades, hospitais, etc.

Missas mandadas rezar por Francisco Bernardo


O testamento de Francisco Bernardo é muito extenso nesta matéria. Quis que o seu corpo fosse envolto num hábito de São Francisco metido num caixão da ordem terceira da vila de Chaves de onde era irmão e sepultado na igreja Matriz de Chaves, mas o que mais impressiona é o número de missas deixadas, que tive a paciência de levantar num mapa, contabilizando 911, pagas a 140 réis cada uma, o que perfaz, 127 540 réis. O seu testamento contemplou também esmolas deixadas aos pobres, à criada, aos afilhados, sobrinhos e por aí fora, num total de 36 200 réis.

Após a morte, a execução do testamento era controlada e tenho um documento discriminando todas estas missas, que foram rezadas em várias igrejas do Concelho de Chaves e ainda de Guimarães e Braga por diversos padres, que foram todos pagos a 140 réis cada missa.




Relação das missas e esmolas de Francisco Bernardo


Embora o Francisco Bernardo, quando redigiu o testamento em 12 de Dezembro 1830, afirmasse que deixava dinheiro para o cumprimento destes bens de alma, o que é certo, é que a viúva se viu com sérios problemas de caixa para pagar isto tudo, após o falecimento do marido em 1846. 127 540 réis era uma quantia avultada e em 1830 dava para comprar uma casa na Madalena, em Chaves. Talvez o Francisco Bernardo em 1830 não terá previsto, que desde essa data até 1846, houvesse uma guerra civil entre liberais e miguelistas e depois disso uma sucessão de levantamentos e insurreições, que certamente terão prejudicado a economia, o comércio e as poupanças individuais, de modo que o fundo previsto não foi suficiente e a pobre viúva vendeu uma casa ao seu irmão Luís Alves por 76 mil réis para pagar parte destas contas.
Missas no Testamento de Ana Maria de 1830


Certamente por essa razão, a Ana Maria que também tinha feito um testamento em 1830, deixando 775 missas, pagas a 140 réis casa, num total de 108 500 réis, refez o seu testamento em 4 de Novembro de 1846 e o número de missas foi reduzido para duzentas por sua alma e duzentas pelos santos e santas da sua devoção.

No segundo testamento de Ana Maria as missas foram reduzidas de 775 para 400 


Quando Ana Maria morreu em 8 de Outubro de 1851, o herdeiro universal dos seus bens, foi o seu irmão mais novo, Luís Alves, que havia já herdado em 8 de Fevereiro de 1844 a quase totalidade dos bens do Manuel Caetano Alves. Neste tempo meu quarto avô parece estar a acumular um bom pé de meia e entre 8 de Agosto de 1851 e 24 de Abril de 1858, acrescentou ao que herdou mais terras e casas, gastando um total de 143 055 réis, documentos que tenho cópia no espólio.

Este conjunto de documentos, testamentos ou relativos a vendas de propriedades permitiram-me conhecer um pouco a geração dos meus quartos avós o Manuel Caetano, o João, Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda a Teresa e finalmente, o Luís, o meu quarto avô, filhos de António Alves e de Isabel Maria do lugar de France, freguesia de Moreiras, Concelho de Chaves e nascidos nas duas últimas décadas do século XVIII. Destes. O Manuel Caetano, o Luís e seu cunhado Francisco Bernardo foram negociantes com loja de peso, na Rua da Ponte Madalena, provavelmente um negócio familiar e ter-se-ão instalado em Chaves, logo a partir de 1817, mais cedo, do que acreditava. Foram pessoas com posses, que deixaram um traço por escrito na administração e ainda documentos como vendas de bens ou testamentos. Os testamentos encontrados neste espólio traduzem esse bem-estar económico, mas também a forte religiosidade da época, com os legados pios, que permitiam a salvação das almas, mas também a ligação entre o mundo dos mortos e dos vivos, que é afinal de contas é uma preocupação velha como o mundo. Contudo, a salvação das almas era cara, as missas pagavam-se bem e por vezes os que ficavam, os vivos, tinham dificuldade em pagar os bens de alma.

Genealogia dos Alves