quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Doze anos de velharias do Luís



O blog velharias do Luís completa hoje doze anos. Nem sei como o mantenho há tanto tempo. Creio que necessito deste exercício espiritual de escrever, fazer alguma investigação sobre velharias ou história familiar. De outra forma a minha vida seria bem mais triste, marcada por um quotidiano banal entre a casa e o emprego.

Estes aniversários são também um momento de reflexão sobre o que me leva a encher um apartamento minúsculo com tanta gravura, pratos, porcelanas, candeeiros, espelhos, fotografias, bibelots e outras traquitanas. Não sou um coleccionador no sentido clássico do termo, que escolhe uma época ou uma área temática, por exemplo pintura de retrato e se especializa nesse campo. Eu compro um pouco de tudo e de quase todas as épocas, desde que não seja arte contemporânea e o principal critério parece ser a dimensão, isto é, desde que seja pequeno e antigo e caiba na minha casa.

Mais do que um coleccionador, sou um criador de ambiente. Preciso de ter um espaço decorado à minha medida, de acordo com a minha personalidade, o meu gosto e o interesse pela história.

Mas esta acumulação de velharias é igualmente uma tentativa de recriar na minha assoalhada e meia antigas casas antigas de família, que marcaram a minha vida, como se quisesse reviver todos os dias aqueles sítios e as pessoas que lá viveram e morreram. Da casa da minha avó em Chaves, copiei um certo ar de paço episcopal com móveis do século XVII, ao gosto desse século ou em estilo D. João V, cobertos de damasco vermelho. Depois fui mais longe nesse gosto eclesiástico e enchi tudo com santos, santinhos e outras beatices. As memórias já um pouco esbatidas do interior do Solar de família Montalvão em Outeiro Seco, inspiram-me para mandar fazer um tecto de masseira, que confere ao meu apartamento o ambiente de uma residência fidalga, mas à escala de uma casa de bonecas. 



Nesse solar, existia uma colecção de gravuras antigas representando os reis de Portugal e da qual herdei apenas três retratos. Aos poucos fui comprando mais gravuras dessa temática, como que tentando reconstituir essa colecção, de que nem sequer me lembro de ver na casa. Só conhecia a sua existência através das conversas da minha avó Mimi e do meu pai. Também do recheio dessa casa recebi uma dúzia de porcelanas da Vista Alegre do século XIX, decoradas com florinhas e filetes dourados. Claro, depois disso, comprei mais uma vintena de chávenas, pratos, leiteiras e açucareiros dessa época e estilo.



Da casa de da família em Vinhais, na qual passei sempre férias de Verão, reconstitui um canto da sala de estar onde existe um comprido armário cheio de fotografias de família de todas as gerações. Aliás, sempre que nascia uma criança nova na família, toda a gente se apressava a mandar uma fotografia do rebento à Tia Lalai, para que a tia a colocasse naquela galeria. O meu gosto pela faiança Cantão popular começou também nesta casa, onde na sala de jantar está pendurada uma travessa deste motivo decorativo.



Ao longo destes anos andei a completar, reconstituir ou recriar ambientes das casas de família, mas neste momento ultrapassei em muito os modelos originais e a minha casa tornou-se qualquer coisa de único, que só podia ser do Luís Montalvão.

As memórias das casas antigas e dos que lá viveram e deixaram esta vida continuam aqui neste apartamento, como se eu tentasse capturar esse tempo, que passou irremediavelmente. É um ambiente reconfortante, um refúgio, mas algumas vezes doloroso, quando me recorda que a morte está sempre presente. Mas esse convívio entre o passado e o presente é a essência da própria vida.

sábado, 25 de setembro de 2021

Sto. Epifânio de Salamina: uma estampa do século XVII

Santo Epifânio de Salamina

Para quem gosta de coisas antigas, mas tem um orçamento reduzido, comprar gravuras é uma boa opção. Nos mercados de velharias ninguém lhes ligada nada e adquirem-se gravuras do século XVIII ou até mais antigas por preços irrecusáveis e se tivermos sorte, até estão bem emolduradas.

Muitas gravuras que se encontram à venda foram arrancadas de livros, pois alguns alfarrabistas ou vendedores de velharias fazem mais dinheiro vendendo as estampas à unidade do que pelo livro inteiro. Descobrir de que livro foi retirada esta ou aquela estampa é para mim uma charada, que me dá um enorme prazer resolver.

Esta estampa que o meu amigo Manel comprou representando, Santo Epifânio de Salamina não escapa a essa excepção e foi também tirada de um livro. O lado direito da estampa está até um bocadinho rasgado, pois quem fez esse trabalho, há cinquenta ou 60 anos nem sequer se preocupou em ir buscar uma tesoura ou um bisturi. Rasgou a página e pronto.
A estampa foi rasgada de um livro num momento qualquer desconhecido 

Para tentar descobrir de que livro saiu esta página, com a representação deste bispo Epifânio (ca. 315-403), fotografei a gravura e carreguei a imagem no Google images, pressionei a tela enter e o motor de busca foi buscar todas as imagens iguais existentes na internet. Encontrei duas ou três imagens iguais, mas num daqueles repositórios, que comercializam fotografias de obras de arte e que não fornecem quaisquer dados sobre os autores, as datas ou locais de impressão ou edição. Presumo, que só quando se compra imagem através do cartão de crédito é que esses repositórios indicam mais alguns dados.

Mas como não gosto de me deixar vencer por vendilhões na internet continuei as minhas buscas e na página facebook de uma senhora, que anunciava uma conferência sobre Sto. Epifânio de Salamina, encontrei uma gravura igual inserida ainda no livro original. Contudo a Senhora não identificava o título do livro. Copiei a imagem, ampliai-a e consegui perceber de que se tratava da obra completa, ou a Opera omnia de Epifânio de Salamina, uma edição em dois volumes feita na cidade de Leipzig, por Jeremiae Schrey, & Heinrich. Joh. Meieri, em 1682. Pesquisei então na internet e encontrei integralmente digitalizada esta obra na Biblioteca Nacional de Roma, que foi publicada em grego e latim. Contudo, não tinha esta estampa incluída. Achei isto muito estranho e voltei a fazer mais pesquisas quer pelo título transliterado do grego Tou en agiois patos ēmōn Epiphaniou episkopou Konstanteias quer pelo título latino até que encontrei um exemplar à venda desta edição de 1682 numa leiloeira de Estocolmo e este tinha a estampa logo antes da folha de rosto. Fiquei então com a ideia de o exemplar à venda em Estocolmo estaria completo e o da Biblioteca Nacional de Roma truncado, o que acontece algumas vezes. 

O exemplar à venda numa leiloeira de Estocolmo. Edição de 1682

Na minha experiência como bibliotecário, já apanhei edições antigas do século XVIII ou XVII em que lhes falta um caderno, o frontispício, ou mesmo uma ou outra gravura. Esta minha impressão foi confirmada, quando mais adiante encontrei outro exemplar digitalizado a partir do livro da Biblioteca Pública de Lyon em França e que incluía a estampa do nosso Santo Epifânio.

Paralelamente a estas pesquisas bibliográficas, fui também lendo alguma coisa sobre este Santo Epifânio, um teólogo do século IV, bem como sobre o padre Jesuíta, Denis Pétau ou Dionysius Petavius (1583-1652), que compilou as obra do referido Santo Epifânio, que tinham vindo a ser publicadas aqui e ali ao longo do século XVI. Apercebi-me então que esta edição de Leipzig da Opera omnia de Epifânio de Salamina preparada por Denis Pétau tinha sido publicada pela primeira vez em 1622, em Paris, pelos impressores Michaelis Sonnii, Claudii Morelli, et Sebastiani Cramoisy e claro, como sou curioso fiz uma nova pesquisa para consultar também esta obra e para surpresa minha continha a mesma estampa. 

Distribuição das páginas na edição de Paris de 1622. No verso da estampa está impresso um título. imagens da cópia digital da Biblioteca Nacional de França

Fiquei então com a ideia de que gravura do meu Amigo Manel tanto podia ser da edição de Paris de 1622, como da Leipzig de 1682. Mas comparando on-line melhor as duas edições, percebi que na estampa da obra publicada em Paris tem um título a negro do outro lado da folha. Na obra impressa em Leipzig a gravura não apresenta quaisquer letras impressas no verso, tal como a estampa do meu amigo. Portanto a gravura de Santo Epifânio do Manel foi retirada da edição de 1682.

A distribuição das páginas no exemplar da Bibliothèque municipale de Lyon, da edição de 1682. No verso da estampa não há caracteres impressos

Enfim tudo isto aos nossos olhos contemporâneos parece obscuro e bizantino, mas este Sto. Epifânio de Salamina foi um teólogo conceituado no século IV da nossa era, que escreveu sobretudo sobre as heresias numa época em que o cristianismo ainda se estava a definir, se discutia o dogma da Santíssima Trindade e a divindade de Cristo e os textos dos evangelhos, que faziam fé ainda não tinham sido inteiramente definidos. No espaço do antigo Império Romano proliferavam então diferentes interpretações do Cristianismo e muitas vezes estas discussões terminaram em verdadeiras guerras civis. Nos séculos XVI e XVII, com a reforma e a proliferação de das igrejas protestantes na Europa, a obra de Sto. Epifânio de Salamina ganhou um acrescido interesse entre os teólogos católicos e o padre Denis Pétau, um estudioso de autores gregos cristãos decidiu então publicar a sua obra completa, da qual esta estampa fez um dia parte.
Santo Epifânio de Salamina, 1682


domingo, 12 de setembro de 2021

Nossa Senhora em espuma de mar


Encanto-me com as pequenas imagens religiosas francesas de finais do século XIX, normalmente encaixilhadas numa moldura oval e com o vidro abaulado ou bombé, como se fiz em francês. Eram imagens que se traziam dos centros de peregrinação em França como Lourdes ou La Salette ou que se vendiam em casas de artigos religiosos. Ao contrário do que se pensa, a França não exportou só para o mundo revoluções, jacobinismo, movimentos artísticos arrojados e ideias de liberdade ou de libertinagem. Durante o século XIX, uma boa parte da França continuava profundamente católica e abundavam naquele país casas de artigos religiosos, que exportavam os seus santinhos, pagelas e livros piedosos para o todo o mundo apostólico e romano.

Há muitas imagens destas à venda na net e há sempre uma certa confusão sobre o material em que são realizadas. Normalmente são vendidas como sendo espuma de mar, em francês, écume de mer e em alemão, meerschaum, termo também usado pelos ingleses. Esta espuma de mar é um mineral branco, uma sepiolita, que faz parte do grupo das argilas. É um material fácil de trabalhar e adequado à escultura. Contudo, alguns sites de venda on line, como o americano rubylane, indicam que o material é a Terre à pipe ou terre de pipe, o nome antigo de uma argila plástica ou de um caulino, todos eles propícios à realização de trabalhos minuciosos de escultura. Outros ainda são vendidos como gesso. Estes últimos são relativamente fáceis de identificar pois são sempre mais branquinhos que os outros. Agora saber se são feitos em sepiolita, terre de pipe ou caulino é demasiado complicado para mim que não entendo nada de mineralogia, mas fiquei com a ideia que estes três minerais são relativamente próximos uns dos outros.

Esta nossa Senhora é de dimensões reduzidas

Esta nossa Senhora em espuma de mar ou terre de pipe de dimensões reduzidas é um trabalho muito minucioso e tem uma cor vagamente amarelada, que faz até lembrar o marfim. A minha peça não está no seu contexto original, perdeu a sua moldura original oval, com o vidro bombé



No verso tem dois espigões o que me levou a pensar que estaria encaixada numa estrutura côncava também em espuma de mar e que lhe serviria de cenário, com uma nuvens representadas, uns raios de luz divinos e uns anjinhos. Porém encontrei num desses sites de partilha de imagens, https://www.picuki.com/media/1736802531030081519, uma nossa senhora igual, que pertence a uma senhora ou senhor australiano, que se encontra em Brisbane. De facto, a minha imagem, nunca teve nenhum cenário e falta-lhe apenas a moldura oval e o vidro abaulado.

Este seria o aspecto original da minha Nossa Senhora. Foto de https://www.picuki.com/media/1736802531030081519


Quanto à iconografia não consegui perceber, a que devoção mariana ou a que santuário mariano em França, esta peça se reporta. Contudo quando mostrei esta foto a um amigo, o Daniel, ele identificou-a imediatamente como tendo sedo inspirada directamente na Imaculada de Soult, também conhecida por Imaculada Conceição dos Veneráveis, uma pintura do espanhol Murillo, datada de cerca de 1678. 
Imaculada de Soult, de Murillo. Museu do Prado. Foto Wikipédia

Esta pintura tem uma história muito curiosa, pois foi concebida originalmente para o Hospital de los Venerables, em Sevilha, mas em 1813 durante as invasões francesas, foi roubada e levada para França, pelo Marechal Soult, esse senhor que também fez umas belas patifarias por Portugal. Depois da morte do Marechal em 1851, os herdeiros venderam à pintura ao Museu do Louvre em 1852 por uma verdadeira fortuna. A Imaculada Conceição dos Veneráveis esteve exposta no Louvre até 1941, ano em que o Marechal Petain, a devolveu a Espanha, juntamente com a célebre Dama de Elche.

Em suma durante a segunda metade do século XIX, esta pintura do Murillo este exposta no Louvre e algum fabricante de artigos religiosos de Paris viu-a, encantou-se com ela e teve a ideia de a reproduzir em espuma de mar e vende-la como uma imaculada qualquer venerada nalgum santuário francês. Enfim, esta é a minha teoria, que não sei se será exactamente verdadeira.

O material tem uma cor amarelada, que em alguns ângulos de luz parece quase marfim 

Agora faltava apenas descobrir uma moldura oval e alguma casa que ainda faça vidros abaulados, para devolver a esta pequena escultura o seu aspecto original.

Alguns links consultados: 



sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Velharias do Luís no Museu Nacional de Arte Antiga ou uma escultura em biscuit arte nova



Aqueles que acompanham regularmente o velharias do Luís sabem bem que é uma página muito pessoal, onde apresento peças minhas ou de amigos ou então fotografias antigas, que servem como mote para contar velhas histórias de família.

Mas como sou bibliotecário no Museu de Nacional Arte Antiga, a direcção deste museu convidou-me a participar no programa DAR A VER: a escolha do conservador para falar sobre uma peça da colecção de cerâmica do MNAA.

A ideia deste projecto é dar a conhecer ao público obras, que estão nas reservas do museu, colocando-as temporariamente em exposição e ao mesmo tempo produzir um vídeo, colocado ao lado da peça, que fornece ao visitante as explicações necessárias. Esse pequeno filme é disponibilizado na internet de forma a permitir a que todos tenham acesso aos tesouros do Museu Nacional de Arte Antiga, mesmo estando longe de Lisboa, como por exemplo no Brasil, em França ou nos Estados Unidos.

Pela minha parte escolhi um biscuit de Sèvres, concebido por Agathon Léonard, apresentado na Exposição Universal de Paris de 1900 e que é um ícone do movimento arte nova.

Convido-vos a todos a visualizar o vídeo sobre esta bailarina em biscuit e claro, a visitarem o Museu Nacional de Arte Antiga, onde está exposta, logo no átrio principal.



segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A alegria das cores: um prato de peixes possivelmente Bandeira



Já há muito tempo que o meu amigo Manel comprou este prato de faiança portuguesa do século XIX e eu andava com vontade de o apresentar aqui, pois é tão bonito. Mas, como é hábito na faiança portuguesa, não está marcado e é sempre um risco escrever sobre peças de faiança portuguesa sem qualquer identificação do fabricante, de modo que fui protelando a publicação deste post.

O prato não tem marca

Mas as cores com que está pintado são tão alegres e combinam tão bem com o Verão, que não resisti a escrever sobre ele.



Em primeiro lugar, acho uma graça louca ao motivo central, o peixe com o garfo e a faca, talvez porque ainda me lembre de ver este tipo de talheres como cabo em osso, a uso na velha casa de família de Vinhais. Recordo-me que nessa altura, na minha meninice, já tinham saído da sala de jantar e eram usados pelos criados. Mais recentemente, há cerca de uns vinte anos o meu pai salvou-os do lixo e resolveu, arranjar uma tábua de castanho e pendurar lá estes velhos talheres, semelhantes aos do prato. 

Os antigos talheres da casa de Vinhais

Também há aqui um pormenor curioso. A parte metálica do talher está representada num tom qualquer de amarelo. Até cheguei a pensar que quem pintou este prato pretenderia reproduzir um talher numa liga qualquer de cobre com um tom dourado. Mas fiz alguma pesquisa sobre estes pratos com peixes na base de dados do matriznet e encontrei uns quantos pratos atribuídos à Fábrica da Bandeira, com o motivo do peixe e talheres, com as partes metálicas dos garfos e facas pintadas a azul!

Prato do Museu Nacional de Soares dos Reis

Portanto, quem pintava estes pratos estava mais preocupado com o efeito das decorativo das cores, do que propriamente com uma pintura realista dos objectos. Embora seja um ignorante em matérias de ictiologia, duvido também que nas costas portuguesas existam peixes vermelhos e azuis.

Aliás, este gosto pela cor, é também muito visível na orla do prato, com uma mistura de folhas e flores feitos à estampilha. Aliás, creio que esta decoração da orla do prato é característica da fábrica de Bandeira ( ca.1828- ca.1913), embora não tenha encontrado em livros ou na net nenhum prato com uma cercadura exactamente igual a esta. Mas também tenho ideia que as faianças portuguesas desta época, meados do século XIX, nunca são iguais. Embora usassem estampilha, cada peça era única, ou porque o motivo central variava, ora porque nas bordas os azuis, os amarelos ou os vermelhos mudavam de tom, consoante a preparação das tintas, que embora fossem feita segundo receitas, as cores nunca saiam rigorosamente iguais. Também a criatividade destes pintores de cerâmica era enorme, como é bem visível neste prato.


Meninos gordos / Isabel Maria Fernandes. Porto: Civilização, 2005


Enfim, este prato decorado com um peixe, talheres e flores em cores vivas terá sido fabricado em meados do século XIX, algures entre Gaia e o Porto, possivelmente na Fábrica de Bandeira.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O ferreiro e os seus filhos: figurinha em biscuit

Blacksmith with his two children sculpture

Há pouco tempo apresentei no blog uma figurinha em biscuit representando uns meninos com medo de um sapo e acerca da qual não consegui descobrir nada em concreto, a não ser que provavelmente seria alemã e do início do século XX.

Comprei posteriormente outra figurinha em biscuit, que se não faz par com os meninos, saiu certamente da mesma fábrica. O aro em latão dourado na base é igual e o estilo é o mesmo, um biscuit branco, com umas leves pinceladas de uma cor pastel aqui e acolá. Provavelmente quem concebeu uma, concebeu a outra, pois as duas têm em comum uma forma carinhosa de tratar a pela infância muito característica.



Esta segunda figura representa um ferreiro, que pega ao colo um dos seus filhos, enquanto o outro, se agarra ao seu avental pedindo também colo. É uma cena tocante e até certo modo invulgar, pois é um homem que acarinha os seus filhos, em vez de uma mulher, como estamos mais habituados a ver nas peças dessa época. Esperava que esta figurinha representando o pai orgulhoso tivesse alguma marca, que me pudesse desvendar a entidade do fabricante, mas não tive sorte. Nas costas, apresenta um número, 3129, que será a identificação do molde e umas marcazinhas incisas, que não me parecem ser o monograma de uma casa ou empresa. Serão talvez marcas de controlo interno da fábrica.

Nº do molde 3129


A marca no tardoz não é legível

A maioria dos biscuits vendidos na Europa no princípio do século XX era de fabrico alemão, mais particularmente do Saxe, região também designada por Turíngia. Estes biscuits raramente aparecem marcados. Talvez os fabricantes não sentissem essa necessidade de identificar as suas obras, ou talvez porque no início do século XX, havia já uma certa má vontade contra a Alemanha e as fábricas não marcavam as suas peças, de modo a puderem vende-las nos Estados Unidos, Inglaterra ou França sem problemas. Também por outro, os terríveis bombardeamentos da segunda guerra mundial, sobretudo em Dresda, destruíram para sempre muitas fábricas e arquivos destas figuras em biscuit ou porcelana. Tudo isto, para dizer que é complicado identificar os fabricantes destas delicadas peças.

O ferreiro e os seus filhos por Joseph Kowarzik. Imagem de https://www.antik-im-hof.de/katalog/produkt/kowarzik-joseph-schmied-mit-kindern

Mas eu não sou homem para desistir e lancei-me em furiosas pesquisas no Google, pela expressão ferreiro e os seus filhos, acrescentando os termos Biscuit e figurinha. Usei o tradutor da google e realizei as buscas em inglês francês e alemão, mas os resultados foram inconclusivos. Lembrei-me então que algumas fábricas europeias realizavam peças em biscuit ou porcelana a partir de obras de escultores famosos e que a mesma obra poderia ser realizada em pedra, bronze ou cerâmica. Resolvi então pesquisar em inglês por blacksmith with his two children sculpture, sem especificar o material e como se costuma dizer, acertei na mouche, encontrei nos sites de venda on line duas versões em bronze desta representação do pai orgulhoso com os seus dois filhos. 



Há apenas umas diferença aqui e acolá, nomeadamente na criança que se agarra ao avental, que na versão em bronze é uma menina de tranças e em biscuit é um garotinho. A obra está assinada por Joseph Kowarzik, um senhor que nasceu em Viena em 1860 e morreu em Frankfurt em 1911. Este senhor que hoje parece estar esquecido e fora de moda foi um artista importante na época, que executou parte das esculturas da Câmara Municipal de Frankfurt, trabalhou muito para monumentos funerários, mas sobretudo distinguiu-se como gravador de medalhas, chegando a ganhar um prémio por essa actividade numa das exposições universais de Paris. Juntamente com a sua mulher Pauline Kowarzik formou uma importante colecção de arte contemporânea, que em 1926 foi vendida ao Museu Städel, de Frankfurt, mas alienada durante o tempo do Nacional Socialismo, por ser considerada arte degenerada.

Joseph e Pauline Kowarzik. Imagem retirada de https://blog.staedelmuseum.de/pauline-kowarzik/ 


Contudo, para além das medalhas que se encontram facilmente à venda nos catálogos de numismática, da sua obra escultórica de vulto, encontrei muito poucas imagens. De modo que não posso afirmar que a figurinha dos meninos com medo do sapo tenha sido concebida por ele. 

Uma medalha gravada por Joseph Kowarzik. Foto de https://www.numisbids.com/n.php?p=lot&sid=3500&lot=1952


Também não encontrei referência em nenhum lado a que Joseph Kowarzik tenha trabalhado para fábricas de porcelana, embora tenha visto à venda esta figura com o ferreiro e os filhos em terracota pintada, assinada por ele. 

O ferreiro e os seus filhos. Imagem em terracota colorida de Joseph Kowarzik


Já o seu irmão Rudolf Kowarzik, também escultor e gravador de medalhas foi um dos colaboradores da Wiener Porzellan-Manufaktur Josef Böck (1898-1960). Terá sido pela via deste irmão que o Ferreiro e os seus filhos foram copiados em biscuit? Tentei encontrar produções assinadas por esta fábrica vienense, mas em vão.

Em suma, este pai orgulhoso ou Vaterglück em alemão foi feito a partir de uma escultura de Joseph Kowarzik e suspeito que os meninos com o sapo sejam também da sua autoria ou inspirados numa das obras daquele escultor. Será muito provavelmente de uma fábrica alemã na Turíngia, ou eventualmente austríaca ou checa

Vaterglück  ou o pai orgulhoso



Alguma bibliografia e links consultados:

Allgemeines lexikon der bildenden kunstler / Ulrich Thieme, Felix Becker. - Leipzig : Verlag E. A. Seemann, 1908-1958, vol. 21, p. 366-367

https://www.lotsearch.de/lot/description-joseph-kowarzik-german-1860-1911-blacksmith-standing-a-52049596

https://www.antik-im-hof.de/katalog/produkt/kowarzik-joseph-schmied-mit-kindern/

https://second.wiki/wiki/wiener_porzellan-manufaktur_josef_bc3b6ck

https://blog.staedelmuseum.de/pauline-kowarzik/

https://www.numisbids.com/n.php?p=lot&sid=3500&lot=1952


sábado, 31 de julho de 2021

Um candeeiro a óleo em opalina

candeeiro a óleo em opalina

Comprei este velho candeeiro a óleo em opalina. Não é porque precise de iluminação em casa, pois na minha assoalhada e meia, apliques, lustres e candeeiros de mesa devem ser quase uma dúzia. Além disso, tenho ainda três candeeiros de azeite, um castiçal, uma lucerna e um candeeiro a petróleo. Claro, podia justificar esta compra, pensando nas eventuais faltas de luz, mas cortes de energia eléctrica acontecem à media, três em três anos e pouco mais duram que uns vinte minutos e nesses momentos uso velas...

Na minha casa abundam candeeiros.

Na verdade, comprei este candeeiro porque adoro os estilos franceses e sempre ambicionei ter uma opalina, esse vidro de aspecto leitoso. Claro, como não tenho dinheiro para comprar peças francesas do século XVIII, compro coisas do século XIX imitando os grandes estilos do passado, o Luís XIV, o Luís XV e o Luís XVI e neste candeeiro é claramente visível a inspiração das porcelanas de Sèvres do século XVIII. Está até pintado no chamado rose Pompadour, esse tom de rosa criado em Sèvres, no ano de 1757, em homenagem a Madame de Pompadour, amante do Rei Luís XV e grande patrocinadora da manufactura.

O rose Pompadour


No entanto este candeeiro não apresenta qualquer marca, nem no queimador, nem no vidro opalino e o que aqui escreverei de seguida são meras suposições. Ao procurar informar-me sobre os candeeiros do século XIX, bem como sobre as opalinas e consegui perceber que havia menos três tipos diferentes de fabricantes ou ofícios, que concorriam para o fabrico de um candeeiro deste tipo.

Queimador do tipo modérateur
Queimador do tipo modérateur

Em primeiro lugar havia o fabricante do queimador. O deste candeeiro parece-me sem dúvida do tipo modérateur, um sistema inventado em Franca, que permitia regular com precisão a intensidade da chama. Foi concebido para funcionar a óleo vegetal. O petróleo só começa a ser usado depois de 1870. Mas não tive coragem para desmontar o queimador, para apurar a sua marca, pois tive medo de partir a opalina, que apresenta alguns fios de cabelos aqui e ali. Em todo o caso apresenta todas as características dos modérateurs franceses fabricados nos meados do século XIX, o que me leva crer que este candeeiro seja francês.

Os candeeiros a óleo com o queimador tipo modérateur. Foto de Les lampes à huile, de B. Mahot, Ed. Ch. Massin


Depois em segundo lugar existiam os fabricantes de vidro ou porcelana, que produziam o corpo do candeeiro, onde se encaixava o queimador. Neste caso, corpo é em opalina, um vidro em cuja composição entrava óxido de estanho e cinzas de ossos, o que lhe conferia um aspecto leitoso e cuja aparência não andava longe da opala. Talvez por essa razão em português, este material é conhecido por vidro coalhado. As opalinas já eram fabricadas em Veneza desde o século XVI, normalmente brancas, mas no século XIX em França, avanços técnicos permitiram o aparecimento de novas cores. Nesse período os principais fabricantes de opalinas em França foram Baccarat, Saint Louis e ainda Choisy-le-Roy e Belleville.

Por último, existiam oficinas de decoradores ou pintores de opalinas, que trabalhavam com os principais fabricantes de vidros. O mais célebre deles todos foi Jean-François Robert (1778–ca. 1855), que começou por ser pintor em Sèvres, mas a partir de 1843 estabeleceu-se por conta própria, nas vizinhanças da fábrica, trabalhando sobretudo para Baccarat e Saint Louis. Concebeu uma técnica nova, as peças pintadas a pincel iam novamente ao forno de mufla, de forma, a que as cores e as aplicações a ouro vitrificam-se, incorporando-se na superfície do objecto de forma mais perene. Essas decorações florais da opalina tiveram sucesso e rapidamente foram imitadas por outras oficinas de pintores.


Pinturas sobre opalina do atelier de Jean-François Robert. Foto retirada de Christine Vincendeau, Les Opalines, Paris: Amateur, 1998


Num catálogo de vendas on line encontrei uma caixa de jóias em opalina de Baccarat, cuja decoração é atribuída ao atelier Jean-François Robert, e o vendedor para fundamentar essa atribuição reproduz a página 124 da obra de Christine Vincendeau, Les Opalines, Paris: Amateur, 1998. E de facto, percebemos que na oficina de Jean-François Robert a inspiração em Sèvres era óbvia e que este candeeiro tem o mesmo ar de família das peças ali reproduzidas. Também a partir desta reprodução percebi que a peça em opalina usada para montar este candeeiro foi uma garrafa ou frasco.

Uma garrafa ou frasco serviu para montar o candeeiro. O reservatório de combustível está escondido no recipiente

Embora eu seja um leigo nesta área das opalinas e candeeiros, fiquei com a ideia que a distribuição do produto final, o candeeiro, cabia ao produtor de vidros.

Em suma, este candeeiro terá sido produzido em França em meados do século XIX, ou talvez uma ou duas décadas depois. O queimador do tipo modérateur é típico dessa época e a opalina saiu de uma de umas dessas grandes fábricas francesas, Baccarat ou Saint Louis. A decoração ao gosto de Sèvres talvez tenha sido pintada na oficina de Jean-François Robert ou por um dos seus muito imitadores depois de 1855.




Alguma bibliografia e links consultados:

Le XIXe siècle français / dir. Stéphane Faniel. - Paris : Librairie Hachette, 1957. - 231 p. : il. ; 32 cm. - (Connaissance des arts ; 2)

L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952.