sábado, 17 de julho de 2021

Ainda o círculo de Liberal Sampaio: um amigo de Montalegre: Paulino Antunes Guerreiro

Paulino Antunes Guerreiro

Como já aqui referi muitas vezes, recebi como prenda da prima Ana Paula dois álbuns de fotografia carte de visite. O antigo terá sido formado pelo meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935) e o segundo pelo seu filho, José Maria Ferreira Montalvão.

Regresso hoje a esse tema, escolhendo um senhor que consta do primeiro álbum, Paulino Antunes Guerreiro e do qual até há pouco tempo não tinha conseguido apurar quase nada sobre a sua vida ou as relações, que manteve com o meu trisavô. Mas, estas fotografias antigas são um desafio fascinaste e tento sempre por todas vias montar uma história para elas a partir de dados, que colho aqui e acolá.

Photographie française Celestin Benard, no Porto, Rua de Santa Catarina, nº 247

O retrato de Paulino Antunes Guerreiro foi feito pela Photographie française Celestin Benard, no Porto, que tinha o seu estúdio no 247, na Rua de Santa Catarina no Porto. Este dado permitiu-me datar de algum modo a fotografia. Será posterior a 1872, pois nesse ano o Celestin Benard mudou o seu estúdio do nº do 128 para o nº 247, e anterior a 1890, data em que este fotógrafo terá cessado sua a actividade. A título de curiosidade este Celestin Benard era de origem francesa e irmão de Elie Benard o fundador da célebre pastelaria Benard em Lisboa.

Uma vez que este retrato consta do álbum de Liberal Sampaio e na época a fotografia era ainda uma coisa cara, que se oferecia apenas as pessoas pelas quais se tinha estima e respeito, pude desde logo tomar como ponto assente que este Paulino Antunes Guerreiro fez parte do círculo de relações do meu trisavô, entre 1872 e 1890.
Liberal Sampaio

Como maior parte das personagens, que constam deste álbum de fotografias, são transmontanas, pesquisei pelo nome do senhor no Arquivos Distrital de Vila Real e consegui perceber que este Paulino Antunes Guerreiro desenvolveu a sua actividade profissional no Cartório Notarial de Montalegre entre 1854-1863 e de 1866 a 1894 e ainda em Vila Pouca de Aguiar, entre 1862 e 1865.

Sendo o meu trisavô José Rodrigues Liberal Sampaio, natural da aldeia de Sarraquinhos, do Concelho de Montalegre é perfeitamente plausível que se tivessem conhecido e privado naquela vila transmontana e tivessem trocado fotografias um com o outro.

Mas não fiquei por aqui e continuei nas minhas pesquisas pela net fora até que encontrei um estudo de genealogia de uma família de Montalegre, Tentativa de dedução genealógica da família Caldas / Diogo Paiva e Pona, onde este Paulino Antunes Guerreiro é mencionado duas vezes.

A primeira em 29 de Dezembro de 1867, no baptizado de Virgínia de Jesus Rodrigues Canedo, nascida em Montalegre em 28 de Dezembro desse ano, em que os padrinhos foram Paulino Antunes Guerreiro, Escrivão de Direito em Montalegre e D. Josefa Xavier Teixeira

A segunda em 1905, em que uma tal Virgínia Alves, casou com um Acácio Alfredo Antunes Guerreiro, então de 43 anos, nascido em Montalegre em 1862, filho de Paulino Antunes Guerreiro e de Josefa Xavier.

Destas simples menções, confirmei que o Paulino Antunes Guerreiro fez grande parte da sua vida em Montalegre, concelho de onde era natural meu trisavô e que casou com Josefa Xavier Teixeira, certamente uma senhora de condição, pois no registo de baptizado da tal Virgínia, é designada por Dona. Tiveram um filho, o Acácio Alfredo Antunes nascido em 1862, que deixou descendência.

E por aqui fiquei nas minhas pesquisas, até que uma dia uma amiga Celina Bastos me indicou que o Diário do Governo, o antepassado do Diário da República, se encontra praticamente todo digitalizado e on-line na página https://digigov.cepese.pt. Fiz uma pesquisa no motor de busca e obtive uma lista, que é praticamente um currículo do Senhor e que acrescenta alguns dados novos às pesquisas realizadas no Arquivo Distrital de Vila Real. Além de Montalegre e Vila Pouca e Aguiar foi também e escrivão e tabelião do Juízo de Direito em Torre de Dona Chama entre 1855 e 1861, mas sobretudo, o mais importante é que consegui descobrir o ano da morte do senhor, bem como a existência de um segundo filho.


Paulino Antunes Guerreiro terá morrido em 1904. Imagem de https://digigov.cepese.pt

Com efeito, a 29 de Novembro de 1904 é publicado um edital, em que o filho Acácio Alfredo Antunes anuncia publicamente morte de Paulino Antunes Guerreiro e de sua mulher Josefa Xavier Teixeira de Magalhães citando a mulher do co-herdeiro Aníbal Aquiles Guerreiro, D. Maria Carolina Fornazini Guerreiro, ausente em parte incerta em África, para deduzir os seus direitos, querendo, no referido inventario, com a pena de revelia.

Bem sei que o meu objectivo era identificar a relação de José Rodrigues Liberal Sampaio com o Paulino Antunes Guerreiro, mas entusiasmei-me com o assunto e parti para o registos paroquiais de Montalegre, que se encontravam em grande parte disponíveis on-line no site a Arquivo Distrital de Vila Real, para tentar apurar mais alguma coisa desta família.

Comecei por procurar o assento de nascimento do filho, Acácio Alfredo Antunes, que sabia que ter nascido em 1862. Vasculhei todo o livro desse ano e não encontrei o registo de baptismo do nosso Acácio. Fiquei chocado com a quantidade de filhos naturais e expostos nesta paróquia. Já tinha lido sobre o assunto, num estudo acerca de outra aldeia transmontana, Santalha, em que os filhos ilegítimos chegavam a ser 40 por cento do total dos baptismos, mas ver desfilar à minha frente todos aquele bebés abandonados na roda dos expostos, chocou a minha sensibilidade moderna. Pensando, que a referência ao ano de nascimento do Acácio Alfredo estivesse incorrecta, passei a ver o livro de 1861 e lá encontrei mais e mais crianças, filhas naturais ou expostas, até que no dia 27 de Janeiro achei o assento de baptismo do outro irmão, o Aníbal Aquiles, nascido a 25 do mesmo mês e que é registado como filho natural. Pelos vistos a Josefa Xavier Teixeira de Magalhães e o escrivão de direito Paulino Antunes Guerreiro prevaricaram e tiveram uma criança fora do casamento. No assento de baptismo, indica-se Josefa Xavier Teixeira de Magalhães, solteira, era filha de Francisco Xavier Teixeira de Magalhães, escrivão de direito e de Maria Alves da Nóbrega. Os padrinhos foram o bacharel Manuel Alvares Martins de Moura, advogado e Comba Ermelinda da Conceição.

O assento de baptismo de Aníbal Aquiles

Pelos apelidos e pelas profissões, percebe-se que esta é obviamente uma família com posses, instruída, o que nos prova que não eram só as pobres jornaleiras, quem tinham filhos naturais.

Pressentindo que existia aqui alguma paixão contrariada à maneira dos romances de Camilo Castelo Branco, passei para os registos de casamento, para descobrir exactamente o que se passara entre a Dona Josefa Xavier e o escrivão de direito, Paulino Antunes Guerreiro. Ao contrário dos livros registos de baptismo, que são enormes, onde proliferam filhos naturais e bebés expostos na roda, os assentos de casamentos de Montalegre são poucos e em menos de uma hora vi quase duas décadas. Impressionou-me ver os casamentos dos filhos expostos, em que padre regista, Pedro Exposto casa com Maria Gonçalves, como se exposto fosse um apelido. Acabei por descobrir o casamento dos dois a 31 de Outubro de 1861, 10 meses passados do nascimento do pequeno Aníbal Aquiles.

O assento de casamento de Josefa Teixeira de Magalhães e Paulino Antunes Guerreiro 

O assento dá informações detalhas sobre o Paulino. Era filho de Bernardino Antunes Guerreiro e Domingas Alves Ferreira, neto paterno de Manuel Antunes e Josefa Dias de Melo e materno e José Alves e Maria Dias. Quanto à Dona Josefa era filha de Francisco Xavier Teixeira de Magalhães, de Maria Alves da Nóbrega, neta paterna de Francisco Xavier Teixeira de Magalhães e Jerónima de Macedo e materna de António Alvares da Nóbrega e de Teresa Maria. Quase toda esta gente era natural de Montalegre. No assento, percebe-se que houve qualquer confusão com os arquivos e pároco transcreve os assentos de nascimento dos nubentes. A Josefa Xavier nasceu a 4 de Abril de 1834 e o Paulino a 7 de Fevereiro de 1830. Casam relativamente tarde, ela com 27 e ele com 31. Quando a Josefa se deixou seduzir pelo Paulino já não era uma garota e contava com 26 anos.

Fica no ar a pergunta, porque é não estavam casados aquando do nascimento do primeiro filho, o Aquiles, em Janeiro de 1861. Através do assento de casamento ficamos com a ideia que os apelidos da família da noiva eram mais sonantes que os família do Paulino. Será que a família Teixeira de Magalhães acharia que o Paulino não estava à altura da Josefa. Mas é estranho, pois o pai, o Francisco Xavier Teixeira de Magalhães era tal como o Paulino, escrivão de direito e conviveram os dois no cartório notarial de Montalegre, antes e depois do casamento, conforme se pode ver pelos registos do Arquivo distrital de Vila Real. Tinham os dois a mesma profissão. Enfim, as pessoas que poderiam responder a estas interrogações, deixaram este mundo há mais de 100 anos.

Em todo o caso o Aníbal Aquiles usará os apelidos do pai, mesmo sendo filho natural.

Sabendo o ano do nascimento, posso atribuir uma data mais segura para retrato do Paulino. Na fotografia aparenta ter entre 40 e 50 anos, portanto a fotografia terá sido tirada por volta de 1875, um ano a mais ou um ano a menos.

Paulino Antunes Guerreiro
Paulino Antunes Guerreiro (1830-1904)

Bem sei que me desviei do meu propósito de encontrar a relação entre o Paulino Antunes Guerreiro (1830-1904), escrivão de direito em Montalegre e o meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, que trocaram fotografias por volta de 1875 e perdi-me na reconstituição do percurso familiar do primeiro. Mas é fascinante consultar estes registos paroquiais, que revelam hábitos tão diferentes dos nossos, em que era prática corrente expor crianças na roda, abundavam filhos fora do casamento e os matrimónios eram contrariados.

Bibliografia:

Diário do Governo https://digigov.cepese.pt.

Ruralismo e família em Vinhais: estudo de caso sobre a paróquia de Santalha (1886-1909) / Berta Gonçalves Morais. Porto, 2003

Tentativa de dedução genealógica da família Caldas / Diogo Paiva e Pona

Fontes Arquivísticas:

Arquivo Distrital de Vila Real: Livro de casamentos de 1861

Arquivo Distrital de Vila Real: Livro de baptismos de 1861

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Heloísa no Monte Paracleto: um relógio francês da primeira metade do século XIX



Como já aqui contei, o meu amigo é um comprador apaixonado de relógios de pêndulo, esses mecanismos que antigamente existiam em todas as casas ricas ou burguesas. Já no século XX, mesmo aqueles que viviam remediadamente ambicionavam ter um e poupavam os seus tostões para adquirir um relógio da Boa Reguladora.

Este relógio que o Manuel comprou na Feira de Estremoz foi concebido para estar no topo de uma chaminé ou de uma cómoda. Desde logo nos pareceu que seria uma coisa do século XIX e obviamente francesa, já que nesse período a França dominava o mercado da produção de relógios de luxo de parede ou chaminé. E este é realmente um relógio luxuoso, todo feito em bronze, num magnífico dourado.



Contudo não apresentava qualquer marca e o próprio significado da dama elegantemente vestida, que se agarrava a uma cruz não era claro. Poderia eventualmente ser uma Maria Madalena arrependida, mas no século XIX os fabricantes de relógios franceses e o público, que os comprava, evitavam os temas declaradamente religiosos. Se pesquisarmos no google por pendule francaise XIX siécle vamos a ter a toda uma série de páginas de antiquários e leilões e os relógios à venda são inevitavelmente decorados com temas da mitologia greco-romana, alegorias igualmente de inspiração clássica ou então cenas galantes ao gosto de Watteau. Lembrei-me que poderia ser uma alegoria de uma das virtudes teologais, mais exactamente a fé, que costuma ser representada por uma senhora como a cruz. E com efeito encontrei um ou outro relógio com representações das virtudes cardeais ou alguma das sete virtudes, mas normalmente a dama, que simboliza a fé não aparece representada em trajes de corte e falta-lhe o livro, representando a Bíblia.

Relógio à venda na https://www.piguet.com/en/lots/1071806


Embora não entenda nada da parte mecânica dos relógios, como objectos decorativos encantam-me e por essa razão lancei-me à procura nos sites de venda on-line de um relógio que representasse uma dama abraçada a uma cruz e de facto encontrei modelos quase idênticos. O primeiro no leiloeiro Piguet, Hôtel des Ventes, de Genebra, marcado no mostrador como sendo de Claude Barthele , de Grenoble, mas esta marca, poderá reportar-se ao esmaltador, ou mais provavelmente à ourivesaria, que o comercializou. Segundo este leiloeiro, o movimento do relógio, ou melhor o mecanismo foi feito em Paris, no Grange et Bétout à Paris, e apresenta também a seguinte inscrição Medaille d'or Pons 1827. No entanto, é mais provável que o Grange et Bétout tenha sido o ebanista, que executou os embutidos da base em madeira e o Pons, deve referir-se certamente ao reputado relojoeiro Honoré Pons, 1773–51, que chegou a receber a legião de honra em 1819 bem vários outros prémios pelo seu trabalho. O referido leiloeiro não esclarece quem representa a dama agarrada à cruz e data do relógio do período da restauração (1814-1830)

Enfim, começava a acreditar que o relógio do Manel seria do prestigiado Relojoeiro Honoré Pons e continuei à minha procura na net e encontrei mais outro relógio semelhante no e-bay, mas sem qualquer marca e também sem nenhuma identificação acerca da dama piedosa.

Madame de Sevigné, relógio de Monteil, Toulouse


Achei então que já tinha esgotado a informação disponível na internet e passei à procura de informações mais sérias e consistentes nos livros e na encontrei a obra La pendule française : des origines a nos jours / Tardy ; H. Levasseur. - Paris : Tardy, 1969 na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga, que me esclareceu mais alguns aspectos sobre este relógio. Na página 454, do segundo volume desta obra, encontrei outro relógio semelhante a este, com o mecanismo assinado pelo relojoeiro Encely de Toulouse, datado do período da Monarquia de Julho, o chamado estilo Luís Filipe (1830 a 1848) mas desta vez a jovem elegante e piedosa, que se agarra à cruz é identificada como Heloísa, no Monte Paracleto. Além dos temas da antiguidade clássica a partir de mais ou menos 1830, a relojoaria francesa assimilou os valores do movimento romântico, introduzindo assuntos históricos inspirados na idade média e na literatura. Apareceram então relógios neogóticos, representações em vulto da escritora Madame de Sevigné, da Rainha da Escócia, Maria Stuart, das figuras do romance Paulo e Virgínia e ainda desta Heloísa, que com o seu amado Abelardo viveram no século XII um dos romances mais famosos da história. 

Heloísa no Monte Paracleto, assinado por Encely,  Toulouse

Não consegui exactamente perceber que momento da vida de Heloísa este relógio representa, mas encontrei uma estampa num libreto de uma ópera de Donizetti, que não anda muito longe desta cena em bronze.



Sabendo então, que este relógio representava o desespero da pobre Heloísa fiz mais uma busca pela internet e encontrei outro relógio semelhante à venda no Canadá, nas Antiquités Bolduc, mas desta vez com o mecanismo assinado pelos Japy Freres, uma das grandes casas de relojoaria francesa.

Relógio de Japy Freres à venda nas Antiquités Bolduc


Em suma, é quase impossível atribuir este relógio do Manel a este ou aquele fabricante. Nesta época, algures no segundo quartel do século XIX, para montar um relógio concorriam vários mestres ou fábricas. Em primeiro lugar o fabricante do mecanismo que executava o relógio propriamente dito e em segundo o fabricante da caixa do relógio. Se esta fosse de cerâmica poderia ser uma encomenda a Sèvres ou um fabricante de porcelana da cidade de Paris. Se o relógio estivesse numa estrutura em madeira, o autor desta seria uma oficina de ebanistas, que realizaria embutidos preciosos. Finalmente, se fosse em bronze, encomendava-se as esculturas a uma metalurgia, que a partir de um molde, fundiria a peça e faria os acabamentos à mão, mediante o uso de um cinzel. Creio que relógios inteiramente feitos numa fábrica só irão fazer a sua aparição na segunda metade do XIX. Ainda assim, recordo-me de há pouco tempo visitar uma das lojas de ferragens mais antigas de Lisboa, a Casa Achilles, na Rua de São Marçal e tinham ainda à venda estruturas de relógios neobarrocos, numa liga qualquer de latão, prontos para serem vendidos a qualquer relojoeiro ou ourives, que nele quisesse instalar um mecanismo.

Em suma, o mais natural, é que no segundo quartel do século XIX tenha havido uma metalurgia qualquer em França, que executava com grande qualidade estas esculturas em bronze, que eram depois vendidas para vários relojoeiros, como os Japy Freres, o Encely de Toulouse, Honoré Pons ou ainda outros e o público burguês abastado, apreciaria ter nas suas cómodas ou chaminés estas representações de um momento dos amores de Heloisa e Abelardo.



Alguma bibliografia e links consultados:

La pendule française : des origines a nos jours / Tardy ; H. Levasseur. - Paris : Tardy, 1969



quarta-feira, 30 de junho de 2021

No Palácio do Governador, Cidade da Praia, Cabo Verde, 1931


Há pouco tempo redescobri em minha casa esta fotografia dos meus avôs paternos em Cabo Verde, que já teve exposta em minha casa, mas como não gostava da moldura, desencaixilhei-a e arrumei-a numa gaveta. É uma cópia de uma fotografia antiga, que está em casa do meu pai e que mandei reproduzir há cerca de uns 10 anos. Na altura fui cuidadoso e no verso da fotografia transcrevi a caneta, a legenda original da fotografia Cidade da Praia, Cabo Verde, Agosto de 1931

O original desta fotografia estava exposto em casa da minha avó Mimi e recordo-me de a ouvir falar dela. Quando a minha irmã e eu crescemos e atingimos à idade da razão, a minha avó gostava de nos mostrar a casa, os seus tesouros, as suas pratas e os seus móveis e hoje agradeço essas explicações, pois alguns desses objectos estão hoje na minha posse, além de que contribuiu para formar o meu gosto. Outros desses tesouros foram parar a outras pessoas da família, como o anel, com uma enorme pedra preciosa, que a Rainha Maria Pia, um dia ofereceu ao meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, mas ainda assim fiquei com uma imagem precisa deles na memória. De alguma forma, em minha casa reproduzo esse gosto quase eclesiástico pelos damascos vermelhos e móveis de estilo, com que a Mimi decorava a sua casa.


Mas voltando à fotografia, lembro-me de quando a vi, tendo por cenário uma vegetação quase luxuriante ao fundo, comentei com a minha avó, como era possível esta fotografia ter sido tirada em Cabo Verde, sendo aquele arquipélago tão seco. Minha avó Mimi, que era uma mulher um bocadinho dada às snobeiras, explicou-me com orgulho a que fotografia tinha sido tirada no jardim do Palácio do Governador, para onde os dois tinham sido convidados. E de facto, os meus avôs estavam muito elegantes naquele dia. O avô Silvino com um traje claro e um chapéu colonial nas mãos e a Mimi com um vestido de um tecido levezinho, relativamente curto e sem mangas e uns sapatos com uma tira em cima, como era moda na época. Nem sei se o meu avô Silvino viu com bons olhos este vestido tão desafogado. Recordo-me ainda de ouvir contar na família, que um dia rasgou um vestido à minha avô por acha-lo demasiado transparente ou curto ou decotado, já nem me lembro exactamente por qual dos motivos. Não que minha Mimi fosse uma mulher ousada nas suas toilettes, mas gostava de ouvir galanteios masculinos e meu avó Silvino era um homem conservador. Ainda há pouco tempo uma prima minha de Chaves contou-me que o avô Silvino esmurrou um homem em Chaves, por ter proferido galanteios à sua mulher, talvez demasia ousados para a época.

Mas neste dia do mês de Agosto de 1931 os dois parecem muito felizes neste jardim do Palácio do Governador, na cidade da Praia. Tentei reconstituir exactamente onde esta fotografia foi tirada. O Palácio do Governador ainda existe, é o actual Palácio Presidencial de Cabo Verde e parece estar bem conservado, mas claro, não fui capaz de identificar o sítio do jardim.

O Palácio do Governador, na cidade da Praia, Cabo Verde. Imagem retirada de http://culturaciliar.blogspot.com

Os meus avôs partiram para Cabo Verde nos últimos dias de Novembro de 1930, logo depois do seu casamento, conforme noticiou o Jornal de Chaves, a 30 de Novembro desse ano Acompanhado da sua Exma. esposa, partiu na passada terça feira para Lisboa, donde no próximo 1 de Dezembro, segue para Cabo Verde, o nosso amigo Sr. Dr. Silvino da Cunha, que para aquela província foi requisitado pelo respectivo governador.

O meu avô era médico e calculo que para um jovem em início de carreira, uma comissão de serviço numa das colónias ter-lhe-á parecido uma boa oportunidade.

Sei pouco do que passou nesses três anos que estiveram em Cabo Verde. Nesse período, tiveram uma filha, a Maria Emília, que nasceu a 5 de Maio de 1932 e morreu dois dias depois. Lembro-me de a minha avô nos mostrar a chave do caixão, guardada numa caixinha preciosamente forrada com seda pelo meu avô Silvino. Parece que quando regressaram à metrópole, tentaram ainda trasladar o corpo, mas com o clima local já não restava nada, que pudessem transportar.

Em Março de 1933, conforme relata o Jornal de Chaves, do dia 5 desse mês, já estavam de regresso a Chaves. A minha avó estava grávida da segunda filha, a Maria Helena, que viria a nascer nos finais de Abril e imagino, que estaria desejosa de ter a filha na sua terra natal, onde contava com o apoio familiar.

Sei também, que no navio, na viagem de regresso ou de ida, compraram uma colcha indiana, nuns comerciantes que se acercaram num barquito, e que veio a calhar nas partilhas à minha irmã.


No fundo, destes três anos que passaram em Cabo Verde, ficou apenas esta imagem de um momento feliz dos meus avós, com qualquer coisa de nostalgia dos tempos coloniais. Talvez este período das suas vidas tenha sido mais despreocupado, já que o seu casamento, que durou mais de 40 anos não foi exactamente feliz.

sábado, 26 de junho de 2021

Dois meninos e um sapo em biscuit


Os tempos de crise são sempre bons para comprar velharias e na última vez que fui à Feira de Estremoz trouxe de lá esta estatueta em biscuit por um preço bastante em conta.

Representa dois meninos assustados com um sapo e a base da estatueta foi montada num aro de latão doirado muito ao gosto francês. Infelizmente não apresenta nenhuma marca, nem sequer um número de série.


Embora a moda das estatuetas em biscuit tenha começado em França na segunda metade do Século XVIII, nos finais do século XIX e inícios do XX, os alemães dominavam o mercado das figurinhas daquele material. Essas fábricas encontravam-se no Saxe ou Saxónia e produziam milhares dessas figurinhas destinadas a ornamentar as casas burguesas do mundo inteiro e os seus temas são quase sempre os mesmos, cenas galantes ao gosto do século XVIII ou então muitos meninos, uns saem dentro de ovos, outros comem chocolate de um pote, outros ainda estão numa praia e recuam com medo de um caranguejo e finalmente há bebés, que marotos, se distratem a tirar uma meia do pé.

Biscuit E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn à venda na net
 

Neste período, em França, Sèvres continuava a fabricar biscuits, normalmente brancos e os temas eram sempre mais clássicos, inspirados na mitologia greco-romana e claro a qualidade era melhor e os preços bem mais caros, que os alemães, e em vez de latão doirado nas bases usavam bronze.

Um tema como este, dos meninos, que se agarram entre si, com medo do sapo, é de facto muito típico dos fabricantes germânicos, mas como não está marcado foi impossível atribuí-lo a um fabricante específico, apesar de ter vasculhado toda a internet, pesquisando por palavras-chave em francês, inglês e até alemão. Mas há que ter presente, que o que está na internet, representa apenas os produtos à venda on-line no momento. O que se vende em linha não é nenhum levantamento sistemático da produção alemã de biscuit. Por outro lado, não tenho acesso a nenhuma monografia exaustiva sobre biscuits alemães dos finais do século XIX, inícios do século XX.

Ainda assim, encontrei alguns biscuits fabricados pela E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn com um certo ar de família com minha estatueta, isto é, meninos travessos, em que o conjunto é quase inteiramente branco e apresenta apenas algumas pinceladas de cor. Mais a Sul, numa zona que é hoje a actual república checa, a Royal Dux Bohemia também fabricou estatuetas brancas em biscuit, com umas pinceladas de cor aqui e acolá. Mas, a minha peça não está marcada e o máximo e apenas poderei supor que é provavelmente alemã, produzida no início do século XX.


Biscuits E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn à venda na net

Estes biscuits alemães com temas infantis não eram obviamente destinados a crianças, embora certamente elas sonhassem em brincar com eles. Eram peças frágeis, delicadas, expostas numa vitrina, em cima de um piano ou numa cómoda, longe do alcance das mãos dos meninos. Além da função decorativa, estas esculturas cerâmicas tinham igualmente uma função sentimental, pois retratavam como uma câmara fotográfica um momento da infância que os pais gostavam de recordar dos filhos, agora adultos, ou um episódio qualquer da sua própria meninice. 



Lembro-me de quando era um adolescente insuportável de a minha mãe me dizer que sentia saudades de quando eu era criança, sentimento que só hoje compreendo, quando recordo o meu filho, menino, à beira do rio, sem tomar banho, com medo dos peixes, mas ao mesmo tempo fascinado, ou da minha filha, que largava a mãos da bicicleta apavorada, quando pela frente pousavam as pombas do jardim. Estes garotos da escultura trazem-me a memória um episódio da minha própria meninice, ocorrido em Vinhais, quando os meus irmãos e meus primos decidiram apanhar um sapo para trazer para o jardim da casa da família, pois tinham-nos dito, que aqueles animais eram benéficos e comiam os insectos das plantas. Como eu era o benjamim, fui encarregue de o transportar até casa, segurando-o por aquela pele viscosa e ia caminhando pela rua completamente enojado e arrepiado, até ao momento que vi uma cobra, atravessada no passeio. Desatei aos gritos, larguei o sapo, que aproveitou a ocasião para fugir para bem longe dali e eu clamei pelo socorro dos meus irmãos e dos primos. Contudo a dita cobra era um daqueles chouriços em pano, cheios de areia, que se colocam debaixo das portas para impedir, que o vento frio entre pelas casas e obviamente fui alvo da gargalhada geral dos outros miúdos.

Esta figurinha em biscuit parece representar todos esses episódios da infância, da minha, dos meus filhos ou de muitos outros seres humanos, que foram meninos há mais de 80 ou 100 anos. Talvez seja essa uma das razões do seu encanto.




domingo, 30 de maio de 2021

Bernadette Soubirous


Continuo com esta estranha atracção pelos objectos piedosos, por santinhos e toda espécie de beatices. Este gosto já vem desde há muitos anos e recordo-me de quando era casado e vivia na Avenida do Uruguai, em Benfica, uma vizinha nossa veio nos bater à porta, para nos avisar que ia haver uma procissão na rua. Achava que era esse o seu dever, pois tinha ouvido dizer que éramos pessoas muito religiosas. Provavelmente, a porteira, que era uma coscuvilheira deve ter espalhado pelo prédio que tínhamos a casa cheia de santos e cristos e que passávamos a vida com o Credo na boca.

Ainda que seja um homem sem crença, gosto da estética católica, mesmo de algumas peças do século XIX ou inícios do XX, quando a arte cristã começa a perder a sua graça, com os sagrados corações, representando um Jesus delicodoce, loiro e de olhos azuis. Deste período, gosto muitos dos medalhões franceses, com uma esculturazinha muito bem executada, representado, o Cristo, a Virgem ou uma qualquer aparição mariana, encaixilhados em molduras ovais e com vidro abaulado. Uns são executados em espuma de mar, outros numa espécie de caulino e outros ainda em gesso. Normalmente eram objectos de culto, que as pessoas devotas traziam dos centros de peregrinação de França nos finais do século XIX ou inícios do século XX.

O medalhão sem o vidro, retirado pelo meu amigo Manel, para limpeza. A inscrição é ilegível

É o caso desta medalhão, que comprei na feira de Estremoz por um preço irresistível, de pequenas dimensões, com um comprimento de cerca de três dedos. Representa uma aparição mariana a uma menina ou jovem e tem uma legenda, que apesar de avivada com tinta, está muito desvanecida e percebe-se mal. Como estas peças eram feitas em série, resolvi procurar na internet outra igual, com a inscrição legível, pesquisando pelo termos medaillon reliquaire ancien, acrescentando o nome das várias aparições marianas, que houve França ao longo do século XIX e rapidamente encontrei uma igual, num site vendas on-line. Este pequeno medalhão representa a aparição de Nossa Senhora da Conceição à pequena Bernadette Soubirous na gruta de Lourdes, no ano de 1858. Neste peça consegue-se ler a legenda perfeitamente, que é seguinte N. D. de Lourdes priez pour nous, ou em português, Nossa Senhora de Lourdes rogai por nós.

Peça à venda no e-bay onde se consegue ler perfeitamente a inscrição N. D. de Lourdes priez pour nous

Consegui confirmar assim a origem francesa desta peça e identifica-la como sendo a aparição mariana de Lourdes. Quanto à data é mais complicado, mas por intuição, creio que talvez seja dos finais do século XIX ou inícios do século XX.

O culto a Nossa Senhora de Lourdes espalhou-se por todo o mundo católico e por exemplo, em Portugal, Maria de Lourdes ou Lurdes era até há pouco tempo um nome comum e recordo-me de ainda ouvir falar de uma ou outra Bernardette...que não era a Soubirous, bem entendido.

O medalhão encontrou o seu lugar na minha casa e no lado esquerdo há lugar vago para mais um

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Uma galheta de altar francesa da segunda metade do século XIX


Comprar velharias é um vício e por mais que prometa a mim próprio parar, acabo sempre por trazer para casa mais um traste cada vez que vou a uma feira. Foi o que aconteceu com esta encantadora jarrinha, que um vendedor na Feira de Estremoz me colocou na mão por um preço absolutamente irrecusável. É uma pequena jarra com um vidro de muito boa qualidade montada num latão dourado e que me pareceu de imediato um trabalho francês dos inícios do século XX. Nessa época os franceses produziam muitas destas peças em vidro, com as montures em latão dourado, tais como caixinhas para guardar relógios ou jóias ou ainda os globes à mariée.

O vidro está decorado com parras e uvas

Em todo o caso, achei desde logo que esta peça era mais que um bibelot para ornamentar uma casa burguesa do início do século XX e olhando bem para a decoração do vidro feita com parras e uvas, suspeitei que fosse uma galheta de altar destinada a conter o vinho, durante a celebração da eucaristia. 

Para confirmar esta minha intuição, lancei-me então nas minhas buscas no Google. Comecei por abrir na Wikipédia portuguesa o artigo sobre liturgia católica e quando encontrei referência às galhetas de altar, mudei para a Wikipédia francesa para perceber qual era o termo francês usado para designar aqueles objectos litúrgicos. Em França as galhetas de altar são as Burettes e no motor de busca do Google coloquei então a expressão Burettes Eglise Laiton dore antiquites e imediatamente encontrei umas quantas dessas galhetas à venda no e-bay, quase idênticas à minha e datadas da segunda metade do século XIX. 


Conjunto de galhetas de altar e tabuleiro à venda no e-bay

Desta maneira, confirmei que a minha jarra foi fabricada em França, era originalmente uma galheta de altar e fazia par com outra destinada à água. Do conjunto original constava também uma pequena bandeja em metal dourado, com dois espigões onde as galhetas eram colocadas, impedindo que durante a missa, tombassem. E com efeito, a base da minha galheta apresenta um orifício para ser encaixada no espigão da bandeja.



Mas, nem sempre as informações dos sites de venda on-line são fiáveis, pois os vendedores tentam sempre convencer-nos que as suas peças são mais antigas e de melhor qualidade do que na realidade são e continuei à procura pelo Google até encontrar um sítio com informações mais credíveis. Localizei num inventário do Património da Ile-de-France, https://inventaire.iledefrance.fr um par de galhetas, muitíssimo semelhante à minha, também com a bandeja e ainda com estojo original onde estavam guardadas, apresentando este último a marca do fabricante Fabrique d'ornement d'église / Chasublerie - bronzes - orfèvrerie / Maison Dupuis. 5 rue du Vieux Colombier / Paris. Na ficha desta peça, confirmava-se a datação atribuída nas páginas de vendas on-line, segunda metade do século XIX. 


Galhetas com bandeja e estojo. Foto de  https://inventaire.iledefrance.fr

Fiquei a matutar se eventualmente a minha galheta poderia ter saído da Maison Dupuis, na rue du Vieux Colombier, em Paris, mas continuando as minhas pesquisas descobri um catálogo de 1893, da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie, na rua do Pape Carpantier, em Paris, que entre muitas coisas também fabricava galhetas semelhante à minha. 

Catálogo da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie

Enfim, é um bocadinho difícil atribuir esta galheta a este ou aquele fabricante francês. Embora todos nós associemos sempre Paris a revoluções, movimentos jacobinos, pintores arrojados, actrizes de teatro excêntricas e de uma forma geral à boémia, a capital francesa era também um centro importantíssimo de produção de artigos religiosos, onde proliferavam casas que exportavam estampas piedosas, imagens de Nossa Senhora de Lourdes, do Sagrado Coração de Jesus e outras beatices para todo o mundo católico, apostólico e romano.

Fabricada em França, na segunda metade do século XIX, a minha galheta para o vinho é apenas uma peça desirmanada de um conjunto, sem grande valor comercial, mas fica muito bem em cima de um armário onde exponho todas as minhas beatices, muitos meninos Jesus, relicários, imagens de vestir, santos de barro que o tempo quebrou e outros objectos de devoção católica, hoje reformados das suas funções originais na casa de um homem sem crença, mas com um gosto por recriar estes ambiente devotos do passado.



sábado, 10 de abril de 2021

Terrina de faiança de Alcobaça ou Coimbra


Já há muito tempo que ando para escrever um post sobre esta terrina ou melhor sopeira, que o meu amigo Manel comprou já há alguns anos, pois nunca consegui descobrir nada de muito definitivo acerca dela. Mas é tão encantadora, que ainda assim resolvi apresenta-la na mesma e passar a escrito aqui no blog umas quantas impressões pessoais.


É uma faiança algo rude, com um certo ar ingénuo e as peças com essas características parecem-nos sempre mais antigas do que aquilo que realmente são. O Manel e eu chegámos a pensar, que fosse até do século XVIII mas na verdade esta terrina aproximar-se das faianças produzidas em Alcobaça por José dos Reis (1875-1900) e Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ). O esponjado usado para definir o chão, o casario e a forma de tratar as árvores é muito semelhante aos desta fábricas.

Peças de José dos Reis e Manuel Ferreira da Bernarda: a continuidade. Foto retirada de Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008

Com efeito, a 10 de Julho de 2014 apresentei aqui no blog uma bacia, que atribuí a Alcobaça, que não anda muito longe desta sopeira.



Mas há também que considerar a hipótese que esta terrina possa ser um fabrico coimbrão. António Pacheco reproduziu na sua obra Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. Coimbra: DGPC, 2015 uma terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho, firma activa em Coimbra entre entre os últimos anos 15 anos do séc. XIX e a  primeira década do século XX, com o mesmo ar de família da peça do meu amigo Manel.

Terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho. foto retirada de Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015


Contudo, ao contrario das peças que vi atribuídas a José dos Reis (1875-1900) a Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ) ou o que conheço de Coimbra, em que o casario é representado como se fossem aqueles desenhos, que qualquer criança faz na escola, na terrina do Manel, o artista que a pintou conseguiu dar uma certa ideia de perspetiva. É como se fossemos caminhando por uma floresta e no meio do arvoredo, adivinhássemos um casario lá ao fundo. Talvez seja esta qualidade que diferencia um pouco esta sopeira de outras peças de Alcobaça e Coimbra, em que o casario é sempre representado de forma quase infantil.

Em suma, esta sopeira será uma produção de Coimbra ou Alcobaça, talvez do final do século XIX, mas não estou seguro. Posso apenas afirmar, que quem a pintou tinha sem dúvida talento e com uma grande economia de meios, conseguiu dar a ideia de perspetiva.



Alguma bibliografia:

Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015

Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008.