domingo, 20 de janeiro de 2019

O círculo de Liberal Sampaio: José Joaquim de Almeida Carvalhais e José Leite de Vasconcelos


No velho álbum de fotografias de formato carte-de-viste formado pelo meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, consta este retrato de um jovem de bigodes retorcidos, olhos grandes, com uma expressão sonhadora e um cabelo, que apesar da brilhantina toda ameaça revoltar-se a qualquer momento. O personagem está identificado como sendo José Joaquim de Almeida Carvalho, numa anotação manuscrita feita pelo meu trisavô na sua na caligrafia cursiva e miudinha. Porém, quando retirei a fotografia do álbum e encontrei a dedicatória, que adiante transcrevo percebi que o seu nome deste senhor é ligeiramente diferente do que está posto na legenda.

José Joaquim d’ Almeida Carvalhaes, Sta. Martha



José Joaquim d’ Almeida Carvalhaes, Sta. Martha


Fiz uma pesquisa na internet por este nome e percebi que este senhor só podia ser o José Joaquim de Almeida Carvalhais, nascido em Santa Marta de Penaguião em 2.12.1854 e falecido em Mesão Frio (9.2.1919), cuja vida é descrita no Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses / coordenado por Barroso da Fonte, que se encontra online, que por sua vez repete o texto da entrada da Grande enciclopédia portuguesa e brasileira. Este senhor teve uma vida muito movimentada, andou pelo Brasil, foi oficial da marinha na Amazónia, trabalhou numas minas em Huelva, Espanha e administrou propriedades rurais em Alenquer e em Montemor-o-Novo e no final da década de 90 passou a colaborar com José Leite de Vasconcelos, no que é hoje Museu Nacional de Arqueologia, aproveitando certamente a sua experiência nas minas.

Até há pouco tempo acreditava que José Leite de Vasconcelos esteve apenas duas vezes no Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco. Porém na obra Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914 .- Lisboa : [s.n.], 1915 Leite de Vasconcelos indica que em 1902 também visitou Liberal Sampaio,  em Outeiro Seco. Pela simples leitura desta página, é notório que Almeida Carvalhais acompanhava Leite de Vasconcelos pelo país inteiro
Portanto, o mais lógico é que Joaquim de Almeida Carvalhais tivesse travado conhecimento com o meu trisavô, nos finais dos anos 90 no século XIX, numa das viagens em que acompanhou José Leite de Vasconcelos pelo país fora, relatadas na obra Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914. O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio era um homem profundamente interessado na história e formou no Solar de Outeiro Seco uma colecção de objectos arqueológicos e recebeu nessa casa José Leite de Vasconcelos, pelo menos três vezes, em 1895, 1902 e em 1915. As visitas de 1915 e 1895 são referidas na obra Por Trás-os-Montes e a de 1902 na Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914, ambas da autoria daquele eminente arqueólogo. Estas visitas não eram apenas de cortesia, antes eram o pretexto para longos passeios pela região para reconhecimento de locais de interesse arqueológioco ou etnológico. Nessas datas era muito possível, que José Joaquim de Almeida Carvalhais tivesse acompanhado Leite de Vasconcelos ao Solar de Outeiro Seco e tivesse trocado com o meu trisavô as carte-de-visite, isto é, os respectivos retratos fotográficos.


José Joaquim de Almeida Carvalhais


Porém esta fotografia de José Joaquim de Almeida Carvalhais, mostra um homem ainda jovem e se ele nasceu em 1854 este retrato será mais ou menos datado entre 1874 e 1884, ou talvez um um bocadinho mais tarde. Portanto o meu trisavô e o Almeida Carvalhais travaram conhecimento ainda antes de o primeiro entrar ao serviço do que é hoje o Museu Nacional de Arqueologia. Talvez se tivessem conhecido na década de 80, período em que Almeida Carvalhais foi funcionário dos Correios primeiro na Régua, depois em Vila Pouca de Aguiar e finalmente em Vila Real. A partir de 1886 já andava o meu trisavô a caminho de Coimbra, para fazer os seus estudos superiores e essas terras acima referidas eram ponto de passagem obrigatórios para quem vinha de Chaves, numa viagem que se fazia a cavalo. Só na Régua é que o meu pobre antepassado apanhava um comboio até ao Porto e daí até Coimbra. Talvez se tenham conhecido num posto de correio, quando o meu trisavô ia deitar uma carta a avisar, que tinha chegado bem e conversaram longamente, descobrindo, que ambos partilhavam a mesma a paixão por antigualhas. Enfim, estou a especular sem provas, mas é certo que se conheceram por essa altura, de outra forma o retrato de José Joaquim de Almeida Carvalhais não estaria no álbum fotográfico do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio.

Para rematar, este José Joaquim de Almeida Carvalhais é o pai do célebre caricaturista e ilustrador Stuart Carvalhais.

As ilustrações de Stuart Carvalhais são sempre cativantes. Algumas delas eram feitas com a ponta de um fósforo queimado


Alguma bibliografia:

Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses / coordenado por Barroso da Fonte
Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914 / J. Leite de Vasconcelos. - Lisboa : [s.n.], 1915.

Por Trás-os-Montes / J. Leite de Vasconcelos. Lisboa: Imprensa Nacional em 1917

Stuart Carvalhais: antecedentes artísticos e contexto do seu nascimento em Vila Real / Elísio Amaral Neves
In
Vila Real história ao café / Elísio Amaral Neves • A. M. Pires Cabral. p. 318- 322

domingo, 6 de janeiro de 2019

A poesia dos objectos oxidados ou Galheta de vinho para a celebração da Eucaristia



Comprei esta jarrinha já há muitos anos na feira-da-ladra, sem saber sequer que tipo de peça se tratava, qual a sua função original ou a época em que foi executada, mas agradou-me muito o seu ar de achado arqueológico, conforme escrevi neste blog em 2010. Tinha aquela poesia das estátuas de bronze gregas ou romanas encontradas no fundo do mar. Fiz algumas  pesquisas sobre esta peça, mas não encontrei nada de relevante sobre ela, apenas que percebi, que quem a executou se inspirou nos jarros produzidos no Próximo Oriente e no Norte de África.

Foi só depois de ir trabalhar como bibliotecário no Museu Nacional de Arte Antiga, que percebi realmente qual foi a função original desta jarrinha. À conta de ver tantos objectos de prataria sacra naquele museu vai-se aprendendo alguma coisa.
A galheta é de dimensões reduzidas. O motivo floral no bojo forma a letra "V"

Com efeito esta jarrinha, é na verdade uma galheta de vinho usada na celebração da Eucaristia e em tempos terá feito par com outra igual contendo água e estariam as duas pousadas numa pequena bandeja ou prato. A parte da frente desta galheta apresenta uma decoração floral no bojo, que forma a inicial "V". Sempre que não sejam de vidro, as galhetas devem ter uma letra que permita distinguir o seu conteúdo, não o vá o Senhor Padre confundir água com vinho e engatar a celebração eucarística. Para os mais novos, que nunca tiveram uma educação católica, a água simboliza nossa humanidade e o vinho, a divindade de Cristo e ambos os líquidos são misturados num cálice para simbolizar a sua união.

Ainda continuo sem saber a época desta peça ou se um dia teve um banho de metal brilhante ou um lustro qualquer, que lhe desse um ar mais nobre, pois a Igreja Católica e Apostólica Romana sempre gostou de se rodear de objectos ricos. Em todo o caso, vou mante-la com este ar oxidado, como se tivesse sido acabada de trazer de algum navio naufragado há muito.


Alguma bibliografia:
Thesaurus : vocabulário de objectos do culto católico / coord. Natália Correia Guedes. Vila Viçosa : Fundação da Casa de Bragança, 2004

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

D. António, Prior do Crato


Como já contei muitas vezes neste blog, que na antiga casa da minha família paterna, o solar dos Montalvões em Outeiro Seco, existia uma colecção de gravuras com os retratos dos Reis de Portugal, da qual herdei apenas três estampas. Talvez com o intuito de reconstituir de essa colecção, sempre que vejo à venda um retrato de um rei português, compro-o. Claro, eu nunca conseguirei juntar os retratos de todos os monarcas portugueses, pois o número dos nossos reis é bem maior que os escassos centímetros livres, que restam nas paredes lá de casa. Mesmo com essas condicionantes de espaço, acrescentei a essa colecção mais uma gravura, desta vez representando D. António, Prior do Crato, que na historiografia oficial portuguesa nem sequer é considerado propriamente rei. Na verdade, quem sucedeu ao Cardeal D. Henrique após a sua morte a 31 de Janeiro de 1580, foi Filipe II de Espanha, aclamado rei nas Cortes de Tomar, em 1581.
 
Europa portuguesa / Manuel de Faria e Sousa. Lisboa: Antonio Craesbeeck de Melo, 1678
Bem, mas seja lá qual for interpretação dos acontecimentos históricos da crise dinástica, que resultou na perda da independência portuguesa, esta estampa fez em tempos parte da obra da Europa portuguesa, de Manuel de Faria e Sousa, impressa em Lisboa na oficina de Antonio Craesbeeck de Melo em 1678, conforme informa Ernesto Soares na entrada 199 H da obra Dicionário da Iconografia Portuguesa: Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1947. Encontrei a referida edição da Europa Portuguesa digitalizada no Google books e a referida estampa encontrava-se no tomo III, entre as páginas, entre as páginas 68 e 69.
 
 

Na obra de Ernesto Soares não encontrei uma referência explícita ao autor da gravura, mas a estampa parece ser um reaproveitamento de um dos muitos retratos régios feitos pelo gravador Pietrus Perret (1549-1637), que foram publicados na obra Elogios dos Reis de Portugal de frei Bernardo Brito.

Quanto à obra Europa portuguesa, escrita por Manuel Faria de Sousa (1590-1649) é um dos muitos livros publicados no período antes e depois da Restauração da independência portuguesa em 1640, que pretendiam justificar através da valorização da história portuguesa a necessidade de uma separação entre os destinos de Portugal e Espanha.
 
D. António, Prior do Crato. Na oval lê-se Antonius I, Port. rex, vixit ann. LXIV, obit 1595
Esta gravura um pouco tosca do Prior do Crato, irá recordar-me na minha casa a memória deste homem, que disputou com Filipe II de Espanha, o trono português, numa luta muito desigual. A Espanha era o estado mais poderoso da Europa de então e possuía um império onde Sol nunca se punha. Portugal atravessava uma crise terrível e a grande nobreza portuguesa precisava urgentemente de dinheiro para resgatar os cativos, que ficaram em Marrocos, depois da desastrosa expedição de D. Sebastião aquele País. Filipe II comprou com muito dinheiro através de mercês os favores dos aristocracia lusa e mandou os seus exércitos invadir Portugal e fez-se aclamar nas Cortes de Tomar.
Filipe II de Espanha, I de Portugal. Retrato da obra Europa portuguesa / Manuel de Faria e Sousa. Lisboa: Antonio Craesbeeck de Melo, 1678
Por D. António, que acabou por morrer no exílio e lutou  por uma causa perdida, sinto a mesma simpatia, que o escritor judeu Stefan Zweig experimentava pelas figuras de Maria Stuart e Maria Antonieta, ambas vítimas da política e tocadas por destinos trágicos, tal como o povo judaico e tal como mais tarde o próprio Stefan Zweig, que cometeu suicídio no Brasil em 1942, para não continuar a assistir à agonia de um mundo dominado por Hitler. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um distinto casal de Vilela Seca e a herança do 3º conde de Basto: fotografias de um velho álbum familiar



Após muitas e pacientes pesquisas consegui situar no tempo e no espaço mais duas personagens do velho álbum de fotografias carte-de-visite, formado pelo meu trisavô, o Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros. É certo, que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio identificou os nomes destes senhores no álbum com a sua caligrafia miudinha, mas não sabia nada deles. Fui fazendo umas pesquisas no Google e encontrei uma publicação on-line Tentativa de dedução genealógica da família Caldas da autoria Diogo Paiva e Pona, onde se refere estes dois senhores e percebi que eram casados e viviam em Vilela Seca, uma aldeia vizinha de Outeiro Seco, onde residia a minha família, os Montalvões.



Fiz entretanto mais pesquisas pelos seus nomes na base de dados do Arquivo Distrital de Vila Real e localizei dois documentos de inventário obrigatório, um de 1882, referente a Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e outro de 1884, relativo a à Sra. Dona Ricardina Leite de Barros. Os inventários obrigatórios eram realizados quando as pessoas faleciam sem deixar testamento e normalmente eram feitos logo a seguir à sua morte. Portanto, a partir dessas datas lancei-me à consulta dos registos de óbitos da Paróquia de Vilela Seca e a partir daí foi como puxar o fio de um novelo, em que foram surgindo histórias e mais histórias sobre estas personalidades.


A casa dos Morgados das Gralhas, Montalegre

Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura morreu em Vilela Seca em 22.12.1881, com 40 anos, segundo indicou o pároco e era natural de Montalegre, de Santa Maria das Gralhas, um nome tão poético, que parece ser o título de um conto de Miguel Torga. Era filho de Domingos Fernandes Moura e de Rosa Álvares Martins, mas não consegui apurar a data de nascimento, pois os registos de baptismos da primeira metade do século XIX dessa localidade desapareceram, mas presumo que tivesse sido à volta do ano de 1841. O seu pai seria o morgado de Gralhas e um dos seus irmãos foi o padre João Álvares Fernandes de Moura (1848-1920), que fundou um seminário na antiga casa senhorial da sua família. O Padre João Álvares Fernandes de Moura era dois anos mais novo que o meu trisavô e é possível que se tenham cruzado no Seminário de Braga.

Quanto à Sra. D. Ricardina Leite de Barros (1845-1884) era natural da freguesia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto e descendia de uma belíssima família e muito rica. Era filha de Manuel Filipe Martins Leite de Barros (18.09.1800- 28.07.1870), um senhor que foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, Presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e senhor da Casa da Breia e neta da Sra. D. Maria Josefa Martins Leite de Barros, que na década de 30 do século XIX, foi uma das protagonistas de uma tremenda batalha legal pela disputa da herança do 3º conde de Basto.
Manuel Filipe Martins Leite de Barros, pai da Sra. D. Ricardina, Foto https://geneall.net

Ainda que de uma forma muito sumária, não resisto aqui a contar a história da disputa pela herança do 3º Conde de Basto, relatada por Joaquim Fernandes Figueira, num artigo da revista Prisma de N.º 1, Abril 1941 “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz.

O referido Conde tinha por nome de baptismo, José António de Oliveira Leite de Barros (1749-1833) e foi umas principais figuras do regime miguelista. Foi feito Conde por D. Miguel, chegando mesmo a chefiar o governo daquele monarca absolutista e notabilizou-te tristemente pela forma cruel e violenta como perseguiu os liberais. Era de tal maneira detestado, que depois da sua morte e da vitória dos liberais o seu corpo foi retirado do túmulo, arrastado pelas ruas de Coimbra e dilacerado.



Apesar de ter sido feito conde por D. Miguel, José António de Oliveira Leite de Barros era filho bastardo e para conseguir assenhorar-se da fortuna do pai, casou com a sua prima direita a Sra. D. Leonor Angélica Leite de Barros, filha de um irmão do seu pai e que era uma descendente legítima dos Leite de Barros. Apesar de ter passado a juventude encarcerada num convento, esta D. Leonor Angélica devia ser rapariga fogosa, pois ainda nesse tempo de clausura arranjou uma filha bastarda, a Maria Josefa, que veio a ser avó da nossa Dona Ricardina. Porém, o 3º Conde de Bastos aceitou muito bem a filha da sua mulher e a menina foi criada com o casal. Do casamento da Leonor Angélica e José António de Oliveira Leite de Barros, só resultou um filho que era retardado. Após a morte de Leonor Angélica, o conde voltou a casar com uma viúva rica e de boa fidalguia, Catarina Lusitana Correia de Morais Leite Almeida, filha do Visconde da Azenha, mas que não lhe deu descendentes, apesar de a senhora ter tido filhos do anterior casamento.


Quando o 3º conde de Basto, morreu, deixou um testamento complicado, a segunda mulher ficava tutora do seu filho, mas à morte deste, a fortuna familiar passava para as mãos de D. Eufrásia e de seu filho. Esta D. Eufrásia era uma filha ilegítima do irmão da D. Leonor Angélica, o André António. Começou então uma tremenda disputa legal entre a Dona Josefa, a D. Eufrásia e a viúva, a Dona Catarina Lusitana, que se arrastou durante anos pelos tribunais. Quem acabou por ganhar a causa foi a Dona Josefa e o seu filho, Manuel Filipe Leite de Barros, o pai da D. Ricardina, que lhe coube o Senhorio da Casa da Breia. Para evitar futuras complicações a que ainda poderia dar lugar o testamento do conde, Manuel Filipe, casou com Benedita Rosa Leite de Barros, a filha da tão “decantada” D. Eufrásia.
Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões



A fotografia de D. Ricardina foi executada por Ferreira de Melo, no Porto

Em suma, este casal Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros eram gente da mesma condição social dos Montalvões, que viviam numa aldeia vizinha e era natural que se visitassem e trocassem as carte-de-visite. Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões e até imagino a Sra. D. Ricardina sentada muito direita e distinta num canapé D. Maria, que herdei dessa casa. Certamente que conheceriam o Padre Rodrigues Liberal Sampaio, pároco em Outeiro Seco e deslocar-se-iam frequentemente aquela aldeia ouvir missa, pois a fama de pregador do meu trisavô era grande quer na região, quer no País inteiro (em 1873 tinha sido nomeado pregador régio pelo Rei D. Luís). Liberal Sampaio conheceria provavelmente o irmão de Francisco Firmino, o Padre João Álvares Fernandes de Moura, dos tempos do seminário em Braga. Mais, este casal entregou a educação do filho, Filipe Barros de Moura, aos cuidados de José Rodrigues Liberal Sampaio, numa escola que fundou em Outeiro Seco, onde se ministrava uma primeira educação aos jovens, conforme se pode ler na Voz de Chaves, num artigo de homenagem ao meu trisavó, em 23 de Fevereiro de 1961.



A Nova Fotografia Nacional, na Rua do Bomjardim, 362 no Porto fez o retrato de Firmino Fernandes Alvares de Moura, 
No final de todas estas pesquisas a Sra. Dona Ricardina Leite de Barros e o seu marido, Firmino Fernandes Alvares de Moura, que morreram há quase 140 anos tornaram-se como que um casal, que se cumprimenta na rua e conhecemos vagamente a história e de que em pequenos ouvimos falar de uns escândalos familiares antigos.


Fontes consultadas:


Livros de óbito da paróquia de Vilela Seca, Concelho de Chaves, Arquivo Distrital de Vila Real


Livros de Baptismo da paróquia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto, Arquivo Distrital de Braga


Figueira, Joaquim Fernandes - “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz
in  Prisma de N.º 1, Abril 1941.


Tentativa de dedução genealógica da família Caldas / Diogo Paiva e Pona


Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses/  coordenado por Barroso da Fonte



sábado, 8 de dezembro de 2018

Travessa de Estremoz e terrina de fabrico desconhecido

Não há muito tempo, o meu amigo Manel comprou este belo conjunto de terrina e travessa na feira de Estremoz. São faianças decoradas à moda da faiança de Ruão, muito típicas de toda a produção portuguesa dos últimos trinta e cinco anos do século XVIII. Creio eu que quase todas as fábricas portuguesas de Estremoz a Viana do Castelo executaram louças com esta decoração e por essa razão, se as peças não estão marcadas, o que acontece quase sempre, é um sarilho identificar-lhes o fabricante.


Contudo a travessa deste conjunto apresenta uma marca no tardoz. No início, o Manel pensou tratar-se de uma marca da fábrica do Cavaquinho de Vila Nova de Gaia, pois é de facto parecida, com a que aparece reproduzida como o nº 121 no Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro.
CX. Marca da travessa de faiança do meu amigo Manel
Contudo, algum tempo mais tarde, tive o prazer de conhecer pessoalmente Isabel Maria Fernandes, autora do livro sobre os Meninos Gordos e que tem colaborado com textos seus em catálogos, como A fábrica de Vilar de Mouros, ou A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo e claro, acabámos os dois a ter uma longa cavaqueira sobre faiança e esta especialista em cerâmica alertou-me para o facto de ser saído um artigo muito inovador de Hugo Alexandre Guerreiro, sobre a faiança de Estremoz. Neste texto, publicado no nº 4 da revista de Olaria o autor relaciona uma marca da Fábrica, CX, com um mestre daquela fábrica, Sebastião Lopes Gavixo.

Travessa de Faiança de Estremoz, 1774-1775. Marcada com as iniciais CX. Col. Joaquim Torrinha. Foto reproduzida de Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro 

Lembrei-me da marca da travessa do Manel e logo que pude, corri a consultar o artigo da revista de Olaria e com efeito a marca da travessa do Manel é igualzinha, aquela reproduzida na revista, bem como a própria travessa, onde está a dita marca, é em tudo idêntica à do Manel.

O texto de Hugo Alexandre Guerreiro é muito interessante e dá-nos conta de três mestres que trabalharam na fábrica de Estremoz, cruzando as informações obtidas nos livros de passaportes, com outras investigações já feitas por Alexandre Nobre Pais e João Pedro Monteiro, publicadas no nº 5 e 6 (1997-98) da revista Callipole, com o título A Faiança de Estremoz: um contributo para a história do seu fabrico.

O primeiro é Sebastião Lopes Gavixo, mencionado no processo de licenciamento da Fábrica de Miragaia como um mestre que aprendeu a sua arte na Fábrica do Rato, com Tomás Burneto, trabalhou na Fábrica de Massarelos e depois e na Fábrica de Estremoz.



Hugo Alexandre Guerreiro cruza estes dados com os registos de passaporte da Câmara de Estremoz, pois nas sociedades do antigo regime não havia livre circulação de pessoas e bens dentro do País e consegue surpreender os movimentos deste Sebastião Lopes Gavixo, bem como de outros dois mestres, Luís Freme de Rosa e Joaquim Freme de Rosa. A partir dos dados dos passaportes, o autor consegue perceber que os dois últimos senhores, que já se dedicavam à olaria, se deslocaram ao Porto, para aprender a técnica da faiança em Massarelos, onde terão conhecido Sebastião Lopes Gavixo. Certamente o terão convidado para nova fábrica de louça fina que estava a arrancar em Estremoz e doravante os três exercerão a sua actividade como mestres, na fábrica daquela cidade.


Ainda através dos registos de passaporte da Câmara de Estremoz, o autor identifica a área geográfica onde a Fábrica de Estremoz consegue vender os seus produtos, isto é, as feiras do Alentejo, de Setúbal, de Lisboa e ainda das povoações ribatejanas. Por último, estabelece novas datas de laboração da Fábrica de Estremoz, 1774-1806.

Em suma, a travessa do Manel foi fabricada em Estremoz, marcada com as iniciais do mestre Sebastião Lopes Gavixo, cuja actividade decorreu nesta cidade entre 1774-1775.



O problema é a identificação da terrina, que não está marcada. Embora a decoração seja muito semelhante a travessa, não é exactamente igual. A pasta também é mais branca, que a travessa, mas essa diferença, pode-se dever ao facto que nos fornos onde eram cozidas as peças a temperatura não era uniforme em baixo ou em cima e nem de fornada para fornada, conforme já explicou o ceramista Jorge Saraiva no blog da Maria Isabel. No catálogo A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo está reproduzida uma terrina com um formato semelhante, mas a decoração embora seja parecida não é igual. Enfim, é muito complicado saber se a terrina também é de Estremoz ou de uma outra fábrica qualquer, que tivesse laborado na mesma época, até porque como vimos ao longo deste texto, os mestres circulavam de fábrica para fábrica, de Lisboa para Gaia, de Gaia para Estremoz e novamente para Gaia e por consequência, todas as peças com esta decoração ruanesca apresentam o mesmo ar de família.


Bibliografia consultada:

Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro
in
Olaria. - Barcelos: Câmara Municipal de Barcelos, nº 4 (2008-2010), p. 68-117

Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Um general, uma pianista e uma senhora vestida de amarelo com uma rosa vermelha ao peito: viagem por um velho álbum de fotografias

 
Como é já do conhecimento dos pacientes leitores deste blog recebi de uma prima dois álbuns de fotografias carte-de-visite da família Montalvão e o trabalho de identificação dos vários retratos tem sido uma viagem no labirinto das genealogias familiares e da rede de amizades, cultivada pelo meus antepassados no último quartel do século XIX.

No meio de muitas imagens de damas vestidas com metros e metros de seda, de condiscípulos do meu trisavô do curso de teologia, com aquele ar seráfico tão característico de muitos homens da Igreja ou de jovens elegantes de bigode retorcido, finalistas do curso de Direito, em 1901-1902 e colegas do meu bisavô, houve uma fotografia que se destacou desde logo, a de um jovem militar, cheio de garbo.

Embora a fotografia não tivesse nenhuma legenda, como era o único militar de toda esta galeria de retratos, suspeitei de imediato que tratava do irmão da minha trisavó, António Vicente Ferreira Montalvão, que fez uma carreira brilhante no exército, chegando mesmo a Comandante do que é hoje a Academia Militar.
Foto tirada no estúdio de H. Tisseron, photographie parisienne, R. do Loreto 61 e Rua das Chagas 42, Lisboa
A fotografia foi tirada por um tal H. Tisseron, fotógrafo parisiense, radicado em Lisboa desde 1858 e o uniforme lembrou-me de imediato à indumentária militar francesa do tempo de Napoleão III. Presumi por isso que fosse uma fotografia da década de 60 do século XIX.

Mostrei a fotografia ao meu irmão, oficial reformado do exército e antigo aluno da Academia Militar, bem como ao Coronel Francisco Amado Rodrigues e foram os dois de opinião, que o jovem envergava um uniforme da Escola do Exército, muito provavelmente com a patente de Alferes. Ora o meu pai, que estudou a biografia deste antepassado nos arquivos do exército, refere que em 24-10-1864, António Vicente Ferreira Montalvão foi promovido a alferes-aluno e consequentemente esta fotografia terá sido tirada pouco depois dessa data. Teria nesta altura 23 anos ou 24 anos.

Contudo a dúvida subsistia e resolvi enviar à bisneta de António Vicente Ferreira Montalvão, a prima Fernanda Montalvão Hof, uma cópia digital desta imagem e a Senhora ficou muito surpreendida, pois nunca tinha visto esta fotografia, mas concluiu com toda a segurança, que se travava do seu bisavô, já que era igual ao pai em novo.

Portanto esta é a fotografia do General António Vicente Ferreira Montalvão (18-12-1840-19.9.1919), que foi muitos anos, professor na Escola do Exército e que Francisco Gonçalves Carneiro considerou ser o maior matemático do seu tempo em Portugal, conforme se poder no Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses.

Ao contrário da sua irmã, a minha trisavó, que se envolveu numa relação mais ou menos escandalosa com um padre e do outro irmão o Miguel, que rodeado de livros, morreu louco, segundo reza a obra 5 contos …em moeda corrente, em consequência de amores mal correspondidos com uma prima, o António Vicente Ferreira Montalvão casou muito bem, com uma senhora da boa sociedade lisboeta, Mariana das Mercês Bravo Borges (1858-1888) e juntos tiveram uma filha, Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão (1884-1912), da qual tenho também uma fotografia no segundo álbum, formado pelo meu bisavô.
 
Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão era filha do General António Vicente Ferreira Montalvão  . Foto de Vidal & Fonseca, na Calçada do Combro 29, Lisboa

Segundo a minha prima Fernanda Montalvão Hof, o General António Vicente Ferreira Montalvão ter-se-á afastado da irmã, a Maria do Espírito Santo, depois de esta se ter envolvido com o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e só regressou a Chaves depois da morte da minha trisavó, em 1902. Contudo nesse mesmo ano, com uma dedicatória muito afectuosa, a jovem Elina oferece a sua fotografia, ao primo, o meu bisavô, que para todos os efeitos era o filho bastardo de um padre e de uma fidalga, o que talvez seja o indício de que o escândalo dessa relação amorosa não foi assim tão grande, já que a bastardia era um fenómeno comum no século XIX, conforme defendeu Maria Filomena Mónica na sua biografia sobre Eça de Queiroz, outro filho ilegítimo. Enfim, relações ilegítimas com bastardos à mistura não eram a situação mais recomendável na sociedade, na segunda metade do século XIX, mas também era nada do outro mundo. Se assim não fosse, o General António Vicente Ferreira Montalvão, nunca deixaria a sua filha prendada, com o curso superior de Piano, discípula de Viana da Mota e dama da corte trocar fotografias com um bastardozinho.
 
Verso da fotografia da jovem Elina, com dedicatória ao meu bisavô, "José, envio-te o meu retrato accedendo ao teu pedido e para te provar que te estimo como a um irmão. Tua prima Elina. 19-12-902"
Seja como for esta Elina, que nesta fotografia nos parece tão doce, talvez até demasiado suave para suportar as cruezas, que a vida sempre nos reserva, veio a casar com um primo afastado, o Dr. Leopoldo de Montalvão de Lima Barreto Pereira Coelho, médico e proprietário do chamado Solar dos Crespos em Vinhais. Morreu cedo, com cerca de 28 anos e deixou um filho, o pai da minha prima, Fernanda Montalvão Hof.
 
O chamado Solar dos Crespos, em Vinhais
O Dr. Leopoldo de Montalvão de Lima Barreto Pereira Coelho casou em segundas núpcias com Graziela Russel Cortez, uma senhora bonita e vistosa, de que a minha mãe e as minhas tias se lembravam muito bem de Vinhais. A partir das histórias que me contaram ao longo da minha infância e juventude, fui formando imagens da Sra. Dona Graziela, passeando-se pela única e comprida rua de Vinhais na companhia da criada, que lhe segurava a sombrinha, ou de quando se sentava no estabelecimento comercial do meu avô materno, para conversar e se distrair do aborrecimento de uma vila perdida nas serras do extremo Norte de Portugal. Tenho também ainda muito presente, a imagem daquele certo dia de 1937, em que a Sra. D. Graziela Russel Cortez se vestiu de amarelo com uma rosa vermelha ao peito, quando soube da morte do seu marido, vítima de uma congestão a bordo de um navio.

Bibliografia:

História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997 / António Sena. - 1ª ed. - Porto : Porto Editora, 1998

http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=565&id=3270&action=noticia

5 contos …em moeda corrente. . / Montalvão Machado - Porto: Livraria Progredior, 1961

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 2001.

Os Montalvões / J. T. Montalvão Machado. - Famalicão: Tip. Minerva, 1948

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Identificando uma senhora desconhecida de uma fotografia com quase 150 anos

 
Os simpáticos seguidores deste blog já devem saber que recebi de uma prima dois álbuns de fotografias de família, o primeiro com instantâneos tirados mais ou menos entre 1860 e 1900, formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935) e o segundo, constituído pelo meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão. Tenho andado sobretudo de volta do primeiro álbum. Se algumas das imagens estão identificadas ou tem dedicatórias e o trabalho de identificação das personagens é simples, outras são verdadeiros quebra-cabeças, como esta fotografia, acerca da qual vos escrevo hoje, de uma velha senhora, tirada mais ou menos por volta de 1870.
 
A legenda da fotografia, manuscrita no álbum pelo meu trisavô, indica que se trata de João Lopes Carneiro de Moura, um advogado, político e jornalista, muito conhecido nos meios flavienses, nascido em Montalegre em 1886, autor de várias obras publicadas e que chegou a deputado. Ora a fotografia foi obviamente trocada num tempo qualquer posterior ao meu trisavô. Alguém andou a tirar e a pôr fotografias no álbum e colocou a velha senhora no lugar de João Lopes Carneiro de Moura e a fotografia daquele ilustre transmontano será a de um dos cavalheiros desconhecidos, que constam do álbum.
 
 
 
Ao retirar a fotografia do álbum,  manuscrita com a letra, que me parece da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, encontrei no verso a seguinte legenda: Faleceu a 11 de Setembro de 1875, pelas três da tarde pouco mais ou menos, tendo nascido a Dezembro de 1.
 
Mas quem seria esta senhora?
 
Certamente foi uma pessoa muito estimada, de outra forma não teria havido o cuidado de assinalar a data da sua morte e muito menos a hora. Pensei tratar-se da mãe da Maria do Espírito Santo (1856-1902), Maria Emília Morais Sarmento, mas essa morreu a 14 de Abril de 1874. Lembrei-me que podia ser a tua tia paterna, a Rita, com a qual mantinha uma relação muito estreita, segundo o meu pai ainda se lembra de ouvir contar. Mas segundo o livro Os Montalvões de J. T. Montalvão Machado, essa tia teria morrido nos anos 80 do século XIX.
 
Resolvi tirar o assunto a limpo e vasculhar os registos de óbito das freguesias de Santo Estêvão, não fosse tratar-se de uma parente do lado dos Morais Sarmento e ainda os da aldeia de Outeiro Seco, onde residia a família Montalvão. Contudo, ninguém dessas duas freguesias tinha morrido no dia 11 de Setembro de 1875, pelas três da tarde, que se pudesse relacionar com a família. Como os registos paroquiais se encontram todos digitalizados e disponíveis on-line nos arquivos distritais, lembrei-me de procurar em Chaves, já que quase toda esta gente, que consta deste álbum gira à volta desta cidade. Assim, abri o livro de registo de óbitos 1875, da paróquia de Santa Maria Maior de Chaves e encontrei o seguinte assento Aos onze dias do Mês de Setembro do ano de mil oitocentos e setenta e cinco ás tres horas da tarde, no largo da Senhora da Lapa d'ésta villa (...) faleceu(...) na casa de sua residência Isabel Rodrigues liberal d'edade de setenta e três anos. No mesmo assento, indica-se a que a falecida era filha de António Gonçalves Liberal e de Ana Gonçalves da Laje. Ora os dados coincidiam na perfeição com a legenda da fotografia e percebi que esta velha senhora só podia ser uma tia ou a mãe de Liberal Sampaio.
 
O assento da morte de Isabel Rodrigues Liberal
Corri então a comparar este registo com o assento de baptismo de Liberal Sampaio de 1846, da freguesia de Sarraquinhos, Concelho de Montalegre e lá pude ler que o meu trisavô era filho de António Rodriguez de Sampaio e de Isabel Rodrigues Liberal e neto materno de António Gonçalves Liberal e de Ana Gonçalves da Laje. Conclui sem sombra de dúvidas, que esta Senhora era a mãe de José Rodrigues Liberal Sampaio. Confesso que fiquei emocionado ao descobrir uma imagem de uma quarta avó, uma mulher que nasceu ainda antes das invasões francesas e que se lembraria ainda certamente da passagem dos exércitos napoleónicos, durante a segunda invasão, em 1809, que retiram de Portugal por Montalegre, a terra onde nasceu e cresceu.
 
 
O assento de nascimento de José Rodrigues Liberal Sampaio. Os dados coincidem na perfeição

Este assento de óbito também indica alguns dados novos, que embora pequenos, dão algumas pistas para perceber a história da família. Em primeiro lugar a Senhora saiu de Sarraquinhos, uma aldeia perdida no concelho de Montalegre e passou a residir em Chaves, que embora fosse ainda vila neste último quartel do século XIX, já era uma terra importante. Em segundo lugar, enviuvou e voltou a casar, o que me leva a pensar que talvez os liberais e os sampaios não fossem muito dados à abstinência sexual, já que o filho, que era Padre, manteve uma relação com uma senhora fidalga, da qual resultou um filho, de quem eu descendo.

A minha quarta avó vivia no Largo da Senhora da Lapa, em Chaves, que foi demolido pela DGEMN, na segunda metade do século XX, para permitir uma melhor leitura do forte abaluartado, ao qual o casario se enconstava. Foto http://www.monumentos.gov.pt , amavelmente enviada pelo meu amigo Humberto Ferreira do blog https://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/
 
Sempre tive ideia que o meu trisavô era proveniente de uma família humilde e que através da carreira eclesiástica, do seu trabalho como advogado e homem de letras e ainda da relação com uma senhora de uma importante família flaviense, tivesse alcançado uma posição social destacada. No fundo, seria aquilo que hoje se designa, um self-made man. Contudo a foto da sua mãe e das roupas que enverga, mostra-nos que não é propriamente uma camponesa, endomingada para a fotografia. Claro, não veste as toilettes sofisticadas, cheias de folhos e froufrous da fidalga, que foi amante do filho, minha trisavô, mas também quando posou para esta fotografia, cerca de 1870, era uma já uma senhora, a que a idade obrigava a vestir-se de uma forma discreta. Em todo o caso, em 1870 tirar uma fotografia era apenas acessível aos mais desafogados.
 
Todos nós temos quatro avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 tetravôs e ao olhar para esta senhora sinto que uma trigésima segunda parte de meu ser foi herdado dela e que talvez alguns dos meus tiques, aspectos da personalidade, propensão para ter esta ou aquela doença ou a forma das mãos sejam ainda os mesmos de Isabel Rodrigues Liberal.
 
A minha tetravó, Isabel Rodrigues Liberal
Fontes consultadas:
 
 
- Livro de registo de baptismos 1819/1859, paróquia de Sarraquinhos, Montalegre Arquivo Distrital de Vila Real;
 
- Livro de registo de óbitos 1875, da paróquia de Santa Maria Maior de Chaves