Depois de ter herdado o espólio documental familiar, acreditava que iria encontrar sobretudo documentos relativos ao lado Montalvão, uma família fidalga com origens na Galiza. Contudo ao começar o tratamento, começaram a aparecer cartas, testamentos, documentos de vendas de propriedade de gente desconhecida. Fui estudando esses papéis, fazendo genealogias e descobri que muitos destes documentos pertenciam a um lado burguês da família, os Morais Alves, que se cruzaram com os Montalvão em 28 de Julho de 1903, através do casamento dos meus bisavôs Ana da Conceição Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão. Estes Morais Alves eram burgueses, que se instalaram em Chaves, no bairro da Madalena por volta dos anos 30 do século XIX e foram enriquecendo progressivamente. Da família Morais encontrei muita correspondência da minha quarta avô, a Ana Maria da Conceição, que depois da morte do marido, com muita desenvoltura, tomou conta do estabelecimento na rua da Ponte, até à sua morte em 1887.
Nesta caixa que comecei agora a tratar encontrei documentação dos Alves, negociantes, moradores no Bairro da Madalena em Chaves e cujo estabelecimento era contiguo aos dos Morais. Aliás acabaram por unir-se em 1876, através do casamento dos meus trisavós, o Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais. Mas os referidos papéis dizem respeito a geração anterior, do meu quarto avô, o Luís Alves, falecido a 2.10.1861. Este antepassado seria o mais novo de uma grande irmandade, nascida ao longo das duas últimas décadas do século XVIII, em France, na freguesia de Moreiras a Sul de Chaves, de que através destes documentos consegui reconstituir alguns aspectos da sua existência.
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| Compra de uma propriedade por Ana Maria e Francisco Bernardo a 1 de Janeiro de 1817. Os dois residiam já em Chaves |
Uma das suas irmãs, minha tia tetravó, a Ana Maria casou com o Francisco Bernardo, naquela localidade a 30 de Julho de 1807, um homem de uma aldeia vizinha, lugar de Adães, Freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Santa Leocádia, que com o tempo veio a tornar um homem de posses. O casal passou a residir em Chaves pelo menos a partir de um de Janeiro 1817, quando encontro o meu primeiro documento relativo aos dois, a compra de uma propriedade a Alexandre Rodrigues e sua mulher Teresa Maria, moradores em Pereira da Veiga, por 29 mil réis, que rendia dois alqueires de centeio. Francisco Bernardo e sua mulher Ana Maria são indicados como assistentes na Vila de Chaves, na Madalena. Assistentes na época era sinónimo de residentes ou fregueses. Voltam a comprar outra terra, chamada Ranho em 16 de Março de 1825, por cem mil réis e em 22 de Maio de 1830 compraram casas na Madalena por 105 mil réis.
Também nesse ano 1830, a 12 de Dezembro, o Francisco Bernardo, encontrando-se doente, mandou chamar o tabelião e fez um testamento cerrado, que se encontra no espólio e nesse documento indica-se que foi negociante com loja de peso, na Madalena. Sendo, comerciante, era alfabetizado e assinou pelo seu punho. Pela leitura do testamento parecer ser homem de posses e como o único filho do casal, o Leonardo tinha morrido, deixou muitos bens aos cunhados. A mulher, a Ana Maria também terá estado doente e fez também o seu testamento, no dia 11 desse mesmo mês. Mas ao contrário, do marido é analfabeta, conforme o tabelião escreveu a rogo da testadora por não saber escrever me deu licença, que por ela assinasse, José Bernado Paredes e Silva. Uma das missas é pelo irmão João já falecido
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| Testamento cerrado de Manuel Caetano Alves |
Nesse meio tempo, encontrei notícia de mais um irmão, um tio quarto avô, o Manuel Caetano, que fez testamento cerrado a 13 de Julho de 1843 e através desse documento conhecer fiquei a conhecer mais a irmandade dos Alves, ele que seria o mais velho, depois o Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda uma irmã, a Teresa, que já teria falecido nessa data e finalmente, o Luís, que seria o benjamim. O Manuel Caetano residia igualmente na Madalena e era negociante de peso, tal como o cunhado Francisco Bernardo e o irmão mais novo, o Luís, meu quarto avô, o que me faz pensar num negócio familiar. O Manuel Caetano Alves era alfabetizado e também assinou com o seu próprio punho. Este Manuel Caetano só viria a morrer a 8 de Fevereiro de 1844 e tinha por alcunha o Manuel da Ponte, sem dúvida, uma referência ao local de residência e ao estabelecimento comercial, pois quer os Alves, quer os Morais, viviam e residiam na rua da Ponte à Madalena.
A leitura do seu testamento deixou-me uma ideia simpática dele. A vontade deste testador era que seu corpo fosse depositado na capela de Santa Maria Madalena neste bairro da Madalena, até por ser aleijado e aí fizesse seu funeral, isto é ofício de corpo presente, sendo aí conduzido directamente à sepultura e por isso pede e roga ao muito Reverendo Arcipreste do julgado e paróquia que se digne anuir a esta vontade do testador , que lhe não parece ofender a moral nem os bons costumes, nem faltar a preceitos paroquiais a que todos os fregueses são obrigados. Parece ter sido daquele género de pessoas, que mesmo depois da morte detestam incomodar os outros. Achei interessante o pormenor de por ser aleijado, pedir a cerimónia fúnebre na igreja contígua ao local, em que residia. Como se depois de morto isso fizesse alguma diferença. Mas certamente, esta última vontade traduzia um hábito, por ser aleijado das pernas, o Manuel Caetano Alves, assistiria às missas na igreja da Madalena, logo ali ao lado de sua casa, em vez de ir à Igreja Matriz, na outra ponta da vila.
Nunca casou, foi vivendo com os seus irmãos até estes mudarem de estado e acabou vivendo com o mais novo, o Luís o qual institui como herdeiro universal dos seus bens, que me pareceram significativos, terrenos agrícolas, casas e bens móveis.
Mas antes de morrer, ainda assistiu ao casamento deste irmão mais novo, o Luís com a Maria Joaquina Jorge a 2 de Setembro de 1843 na Igreja Matriz de Chaves. Terá sido um casamento muito tardio. A Maria Joaquina nasceu em Boticas em 17 de Março de 1800, filha de Manuel Jorge e Antónia Rodrigues e casou com 43 anos. Do meu quarto avô, Luís; não encontrei o assento de baptismo, mas deveria ter idade igual ao superior a ela, pois em 1804 já um dos seus irmãos o António José, tinha baptizado uma filha em Moreiras, a 6 de Agosto de 1804, a Maria da Conceição.
O Manuel Caetano faleceu a 8 de Fevereiro de 1844, mas o a Ana Maria e o Francisco Bernardo continuavam vivos e foram padrinhos do sobrinho, filho Luís Alves e da Ana Joaquina, o Francisco Luís, meu trisavô, a 28 de Outubro de 1844. A mãe contava já com 44 anos. Em todo o caso, a escolha destes padrinhos demonstra as boas relações de Ana Maria com os irmãos e de Francisco Bernardo com os cunhados.
O Francisco Bernardo veio a morreu a 4 de Setembro de 1846 em Chaves e a viúva, a minha quarta avô Ana Maria viu-se com sérias dificuldades em pagar os legados pios e esmolas do testamento do marido e em 4 de Janeiro de 1847 e vendeu metade das casas que pertenciam ao falecido marido Francisco Bernardo para pagamento dos seus bens de alma, ao seu irmão Luís Alves e sua mulher Maria Joaquina, pelo preço de 76 mil réis em metal sonante.
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| Venda que fez Ana Maria em 1847 para pagar os bens de alma do falecido marido |
E neste momento da história convém voltar aos testamentos de 1830 e explicar o que eram estes bens de alma, que foram uma dor de cabeça para minha tia quarta avó
Os bens de alma eram os legados pios, isto é, um conjunto de práticas exaradas no testamento e que tinham por fim último a salvação da alma do testador. A sua enunciação dividia-se em duas partes fundamentais. Na 1.ª parte: mortalha, exposição, acompanhamento, cerimónias religiosas, refeição e enterro. Na 2.ª parte: missas por intenções e devoções, esmolas a instituições ou pessoas (padres, pobres, irmandades, hospitais, etc.
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| Missas mandadas rezar por Francisco Bernardo |
O testamento de Francisco Bernardo é muito extenso nesta matéria. Quis que o seu corpo fosse envolto num hábito de São Francisco metido num caixão da ordem terceira da vila de Chaves de onde era irmão e sepultado na igreja Matriz de Chaves, mas o que mais impressiona é o número de missas deixadas, que tive a paciência de levantar num mapa, contabilizando 911, pagas a 140 réis cada uma, o que perfaz, 127 540 réis. O seu testamento contemplou também esmolas deixadas aos pobres, à criada, aos afilhados, sobrinhos e por aí fora, num total de 36 200 réis.
Após a morte, a execução do testamento era controlada e tenho um documento discriminando todas estas missas, que foram rezadas em várias igrejas do Concelho de Chaves e ainda de Guimarães e Braga por diversos padres, que foram todos pagos a 140 réis cada missa.
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| Relação das missas e esmolas de Francisco Bernardo |
Embora o Francisco Bernardo, quando redigiu o testamento em 12 de Dezembro 1830, afirmasse que deixava dinheiro para o cumprimento destes bens de alma, o que é certo, é que a viúva se viu com sérios problemas de caixa para pagar isto tudo, após o falecimento do marido em 1846. 127 540 réis era uma quantia avultada e em 1830 dava para comprar uma casa na Madalena, em Chaves. Talvez o Francisco Bernardo em 1830 não terá previsto, que desde essa data até 1846, houvesse uma guerra civil entre liberais e miguelistas e depois disso uma sucessão de levantamentos e insurreições, que certamente terão prejudicado a economia, o comércio e as poupanças individuais, de modo que o fundo previsto não foi suficiente e a pobre viúva vendeu uma casa ao seu irmão Luís Alves por 76 mil réis para pagar parte destas contas.
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| Missas no Testamento de Ana Maria de 1830 |
Certamente por essa razão, a Ana Maria que também tinha feito um testamento em 1830, deixando 775 missas, pagas a 140 réis casa, num total de 108 500 réis, refez o seu testamento em 4 de Novembro de 1846 e o número de missas foi reduzido para duzentas por sua alma e duzentas pelos santos e santas da sua devoção.
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| No segundo testamento de Ana Maria as missas foram reduzidas de 775 para 400 |
Quando Ana Maria morreu em 8 de Outubro de 1851, o herdeiro universal dos seus bens, foi o seu irmão mais novo, Luís Alves, que havia já herdado em 8 de Fevereiro de 1844 a quase totalidade dos bens do Manuel Caetano Alves. Neste tempo meu quarto avô parece estar a acumular um bom pé de meia e entre 8 de Agosto de 1851 e 24 de Abril de 1858, acrescentou ao que herdou mais terras e casas, gastando um total de 143 055 réis, documentos que tenho cópia no espólio.
Este conjunto de documentos, testamentos ou relativos a vendas de propriedades permitiram-me conhecer um pouco a geração dos meus quartos avós o Manuel Caetano, o João, Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda a Teresa e finalmente, o Luís, o meu quarto avô, filhos de António Alves e de Isabel Maria do lugar de France, freguesia de Moreiras, Concelho de Chaves e nascidos nas duas últimas décadas do século XVIII. Destes. O Manuel Caetano, o Luís e seu cunhado Francisco Bernardo foram negociantes com loja de peso, na Rua da Ponte Madalena, provavelmente um negócio familiar e ter-se-ão instalado em Chaves, logo a partir de 1817, mais cedo, do que acreditava. Foram pessoas com posses, que deixaram um traço por escrito na administração e ainda documentos como vendas de bens ou testamentos. Os testamentos encontrados neste espólio traduzem esse bem-estar económico, mas também a forte religiosidade da época, com os legados pios, que permitiam a salvação das almas, mas também a ligação entre o mundo dos mortos e dos vivos, que é afinal de contas é uma preocupação velha como o mundo. Contudo, a salvação das almas era cara, as missas pagavam-se bem e por vezes os que ficavam, os vivos, tinham dificuldade em pagar os bens de alma.
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| Genealogia dos Alves |













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