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| A rua da Ponte, na Madalena, Chaves |
Já escrevi no blog sobre a minha quarta avó, Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), que após a morte do marido Vicente de Morais em 1851, tomou conta sozinha do negócio do marido e ainda educou e casou as 4 filhas. Tinha um estabelecimento na Rua da Ponte no bairro da Madalena, em Chaves e provavelmente moraria no andar ou andares superiores à loja. É difícil precisar exactamente o local, pois no período em que esta minha antepassada esteve activa Chaves não tinha ainda números de polícia para identificar as casas, mas a Rua da Ponte é pequena e todos os que visitaram aquela cidade transmontana e atravessaram a ponte romana para a margem esquerda do Tâmega já lá estiveram certamente.
Ana Maria da Conceição era proprietária de um comércio generalista, daqueles que até há pouco tempo existiam em todas as terras de província e vendia de tudo, chapéus janotas, ferragens, pregos, garfos, bacalhau, que encomendava em Braga, mas também arroz, canela e outras mercearias e ainda sabão, que mandava vir sobretudo do Porto, Régua ou Vila Real. O transporte dessas cidades até Chaves era moroso e as fazendas vinham no dorso de uma mula ou burro conduzidas por almocreves e os pagamentos em moeda sonante eram feitos estes ou a intermediários em trânsito entre o Porto e Chaves. Nestes negócios, Ana Maria da Conceição contava com a ajuda preciosa do seu cunhado, Francisco José de Morais, que travava de encomendar as fazendas no Porto e despacha-las para aquela cidade transmontana.
Entretanto encontrei mais cartas no espólio que me permitiram esclarecer mais alguns apectos de como decorria este comercio entre Chaves, que na altura era ainda era vila e o Porto, Régua e Vila Real.
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| Rascunho da Carta de Ana Maria da Conceição a seu cunhado Francisco José de Morais |
Num rascunho de uma carta escrita ao seu cunhado Francisco José de Morais, que estava na cidade do Porto, certamente datado da década de 70 do século XIX, Ana Maria escreveu o seguinte Segundo me diz Pedro Chasse até hoje não chegou à Régua as 15 caixas de Sabão que o meu cunhado faz menção na sua carta de 29 mês próximo findo uma tão grande demora faz-me suspeitar, que houvesse algum sinistro e por isso rogo-lhe tenha a bondade de indagar o que tinha a tal respeito e dado o caso da perda do barco, requerer na companhia que fez o seguro o pagamento da importância da fazenda seguradas, para com ela comprar a quantidade de sabão igual.
Isto quer dizer que as mercadorias iam do Porto para a Régua por transporte fluvial, através do rio Douro e já existiam seguros para cobrir os riscos. Com efeito, encontrei mais documentos confirmando que as fazendas viajavam do Porto para a Régua de barco, nomeadamente uma carta de 27 de Novembro de 1875 de António José da Silva Braga, comerciante do Porto, com loja na rua de são João, 96 e 98, informando que remeteram pelo barco de José Maria da Mesquita a fazenda mencionada na factura, 3 sacas de arroz, para a Régua, a entregar a António Clemente de Sousa. Em anexo encontra-se uma guia de transporte da mercadoria que saiu pela Barreira dos Guindaes, assinada no verso José Maria Barqueiro. Um outro comerciante do Porto, Manuel Alves Vieira, remeteu em 5 de Maio de 1875, em nome da minha antepassada 8 sacas com arroz e 2 de açúcar, anexando à carta a guia de transporte de barco, a sair pela barreira do Bonfim. A barreira era uma Alfândega.
O caminho de ferro do Porto à Régua só foi concluído em 15 de Julho de 1879 e até esta data o Douro seria o caminho mais fácil para o transporte de mercadorias evitando assim as alturas quase intransponíveis da Serra do Marão. Na Régua, a minha quarta avó, contava com uma série de intermediários especializados nestes assuntos, isto é, procedimentos para tratar do desembarque e despachar a mercadoria por terra para Chaves, como um tal Pedro Chasse ou um António Clemente de Sousa. Estes intermediários despachavam as fazendas pelos carreteiros. Como nome o próprio nome indica, eram homens, que dispunham de uma carroça, enfim, um veículo de tracção animal e cujo serviço era pago pelos destinatários das mercadorias, isto é, a Ana Maria da Conceição. Da leitura destas cartas dirigidas a ela, pareceu-me que o transporte entre Braga e Chaves seria assegurado pelos almocreves e entre a Régua, Vila Real e Chaves preferencialmente pelos carreteiros.
A minha tetravó era uma mulher organizada e só poderia ser para gerir esta rede de fornecedores no Porto, Braga, Régua e Vila Real, bem como o transporte das mercadorias por barco, ao dorso de uma mula ou em cima de uma carroça e todas as cartas recebidas destes comerciantes, que no fundo eram facturas ou guias de remessa, foram todas anotadas por ela com a letra miudinha, referindo que recebeu as fazendas e quando foi feito o pagamento.
Numa dessas anotações, na factura de António José da Silva Braga, proprietário de um armazém de bacalhau e azeite, no Porto, Ana Maria da Conceição escreveu recebi a fazenda que diz esta factura. Dei ao meu cunhado o Ilmo. Sr. Francisco José de Morais, tenente, na ocasião quando aqui esteve de licença no dia 11 de Janeiro de 1876 a quantia de 56 490 reis. A dita quantia foi entregue ao Sr. José da Silva Braga do Porto”. Até encontrar este documento não sabia nada deste cunhado, que estava no Porto. Suspeitava que fosse militar, pois muitos dos intermediários que usou para receber os pagamentos da cunhada em Chaves, eram militares, a maioria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar e agora tenho a certeza, que sim. Encontrei registo no Diário de Governo, n.º 280, de 11/12/1874, n.º 264, de 19/11/1875, n.º 200, de 07/09/1876, das licenças concedidas ao tenente Francisco José de Morais da 1ª Companhia da Administração militar, sendo que na de 1875, se refere mesmo que era para fazer uso das águas alcalinas gasosas de Vidago.
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| Diário de Governo, n.º 264, de 19/11/1875 |
Se de facto tratar-se da mesma pessoa, este Francisco José de Morais terá morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878, já que encontrei do Dário do Governo, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe paguem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Mas tudo ainda precisa de ser confirmado.
Sei ainda pouco deste Francisco José de Morais, que à primeira vista seria irmão de Vicente de Morais, mas bati os registos de baptismo de Samaiões, localidade vizinha de Chave, de onde estes Moraes eram naturais e não encontrei o seu assento. Talvez os meus quintos avós, Antónia da Costa e José de Morais tenham mudado de residência e o mais novo dos filhos ter nascido noutra paróquia ou Francisco José fosse filho de um segundo casamento de José de Morais. O que é certo é que foi uma figura muito considerada por sua cunhada e sobrinhas, que se lhe dirigem sempre com estima. Num rascunho de uma carta, talvez datada do final doa anos 60 ou início dos 70 do século XIX a minha trisavó, Antónia dos Anjos Morais (25.4.1846-1-10-1913) escreveu as seguintes palavras
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| Rascunho da carta de Antónia dos Anjos Morais a seu tio Francisco José de Morais |
Meu bom Tio
Depois de desejar a sua boa saúde e todas felicidades de que meu Tio é merecedor, tomo a liberdade de lhe oferecer o retrato incluso.
É na verdade insignificante oferta, mas não obstante, espero que o Tio se dignará aceita-la como prova de sincera amizade e estima que lhe dedica a quem muito preza por bem
Sobrinha muito obrigada
Antónia
Esta carta tocou-me pois só tenho um retrato da Antónia dos Anjos Morais já no Inverno da sua vida e nem tenho a certeza se é ela!
Adoraria ver esta sua fotografia na juventude. Mas sabe Deus onde as cartas do Francisco José de Morais e o retrato da jovem Antónia dos Anjos andarão. Se não serviram para acender o fogo, estarão a apodrecer numa gaveta ou dispersos no chão de alguma feira de velharias.










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