segunda-feira, 4 de abril de 2022

Um prato Companhia das Índias: família rosa


Mais uma vez na feira de Estremoz comprei este prato Companhia das Índias muito barato. Claro, o preço foi estupendo pois o prato está gatado e ainda depois de alguém o ter mandado gatar, partiu-se novamente e foi colado. Como sei muito pouco de porcelana chinesa, o facto de estar gatado e o metal dos gatos apresentar alguma ferrugem, foi para mim uma garantia de autenticidade. Assim, soube logo, que não era uma cópia ou uma réplica, pois hoje em dia já ninguém sabe gatar louça, a não ser o ceramista Jorge Saraiva da Oficina da Formiga, mas esse gata os pratos com objectivos, que se podem classificar de estudos de tecnologia antiga.

O prato está gatado e ainda numa segunda fase partiu-se e foi colado 

Para os menos entendidos em cerâmica, a designação Porcelana Companhia das Índias quer dizer porcelana chinesa encomendada por europeus e ao gosto ocidental. O termo tem origem na Companhia das Índias fundada na Holanda no século XVII para trazer produtos orientais para a Europa, mas rapidamente os franceses e os ingleses também criaram as suas companhias das Índias, para receberem os luxuosos bens do Oriente, em particular a porcelana da China. Em Portugal, as primeiras porcelanas chinesas chegaram logo no início do século XVI e como iam da China para a Índia, antes de entrar no porto de Lisboa, aparecem designadas nos documentos antigos como louça da Índia. Companhia das Índias ou louça da Índia são termos já antigos para designarem esta porcelana chinesa ao gosto europeu, mas o termo mais cientificamente correcto é porcelana chinesa de exportação.

O fabrico da porcelana na China é quase milenar e é um universo gigantesco no tempo e no espaço e conhece-lo, ainda que pela rama, implica muito estudo e muito do que sabe é sobre a porcelana produzida para a Europa. Porque os chineses fabricavam porcelana para o seu próprio mercado, que era gigantesco, para o mercado japonês e ainda para o mercado islâmico, sendo estas últimas peças absolutamente deslumbrantes. Para complicar ainda mais a coisa, alguns dos nomes pelos quais conhecemos os vários tipos de porcelana, que chegaram aos portos europeus, como a família rosa ou família verde foram definidos no século XIX pelo coleccionador francês Albert Jacquemart (1808-1875), na sua tentativa de classificação da cerâmica chinesa.


Este meu prato de sopa é da chamada família rosa, não porque a louça desta tipologia fosse decorada com rosas, mas pela razão, que entre 1720 e 1730, na China, introduziu-se uma esmaltagem na porcelana, conseguindo-se obter novos tons entre o rosa e o vermelho, que se tornaram muito apreciados e no início eram só destinados à família imperial. Mas, quando este prato terá sido executado entre 1760 e 1790, já os europeus encomendam às toneladas porcelana nestes tons. Normalmente a louça era produzida em branco no grande centro cerâmico da China, Jingdezhen, embora houvesse outras regiões produtoras e depois transportada para a zona de Cantão onde era pintada e decorada ao gosto europeu, segundo desenhos, gravuras ou mesmo de peças de porcelana europeia, como as de Meissen e cozida novamente e depois exportada para a Europa e mais tarde também para as Américas.

A decoração da porcelana de exportação variava consoante as preferências estéticas do país, que procedia à encomenda. A porcelana para o mercado francês tem um gosto peculiar e distingue-se daquela encomendada pelos ingleses ou holandeses. Da mesma forma a porcelana de exportação para Portugal apresenta características próprias e se queremos estudar ou identificar as Companhias das Índias, que temos em casa teremos, que as comparar com aquelas existentes nas colecções dos museus portugueses.

Pratos do Museu da Quinta das Cruzes. Inv. MQC 460.1-460.13Reproduzido de Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005

Com efeito encontrei várias peças com semelhanças a este meu prato de sopa publicadas no catálogo Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes. O primeiro conjunto apresenta uma borda idêntica em motivo de escamas e é do período da dinastia Quing, reinado de Quialong (1736-1795), com datação aproximada de 1770. 

Prato do Museu da Quinta das Cruzes. Inv. MQC 532. Reproduzido de Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005

Igualmente na colecção deste museu, existe outro prato, com a bordadura diferente, mas com um motivo central do mesmo género, um ramalhete de flores, atado com uma fita a fazer um laço, muito ao gosto dos estilos Luís XVI e D. Maria, com datação aproximada de 1760. 

Prato da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga. Inv. 2885 cer.

Também, no Museu Nacional de Arte Antiga está exposto um prato, que apresenta no centro um ramalhete do mesmo género, que foi datado de cerca de 1790. 

Em suma, este motivo da bordadura em escamas e do ramalhete de flores atado com um laço deve ter sido moda entre 1760 e 1790, entre as famílias nobres portuguesas, que encomendavam na China grandes serviços de jantar assim decorados.
O motivo central do meu prato. A flor do meio parece ser uma peónia

O meu prato de sopa será o resto de um grande serviço de jantar, produzido na China, no período da dinastia Quing, reinado de Quialong (1736-1795), entre 1760 e 1790, segundo uma encomenda portuguesa e apresenta os tons característicos da família rosa. É apenas, o fragmento de um conjunto, mas a pintura foi feita com tanta qualidade e minúcia, que consigo entender através desta peça o entusiasmo e admiração, que levou os europeus durante quase século e meio a encomendarem toneladas e toneladas desta louça dita da Índia.

Alguma bibliografia e ligações consultados:

Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005.

La porcelaine des Qing : «Famille verte» et «Famille rose» 1644-1912 / Michel Beurdeley, Guy Raindre. - Paris : Office du Livre - Editions Vilo, 1986.

https://en.wikipedia.org/wiki/Famille_rose

http://oficinadaformiga.com/os-gatos-e-os-deita-gatos-the-cats-and-the-cats-applicator/

domingo, 20 de março de 2022

Ainda os álbuns carte-de-visite: os brasileiros


Do álbum de retratos de fotografias formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), resolvi destacar o grupo dos “brasileiros”. Escrevo brasileiros ente aspas, pois certamente eram portugueses, que emigraram para o Brasil e que em algum momento das suas vidas, cruzaram-se com o meu antepassado e ofereceram o seu retrato como prova de estima e amizade. Terão sido pessoas importantes da vida de José Rodrigues Liberal Sampaio, de outra forma não teria inserido os seus retratos no álbum fotográfico. Em todo o caso, todos os retratos foram feitos em estúdios fotográficos brasileiros.

Como é conhecimento de todos, a emigração portuguesa para o Brasil durante o século XIX foi enorme. Durante os anos de 1881-1900, mais ou menos na época em que estas fotografias foram realizadas, 316.204 portugueses entraram no Brasil, o que é imenso se pensarmos, que Portugal tinha então mais ou menos cinco milhões de habitantes. Isto significa, que no último quartel do século XIX, toda a gente em Portugal tinha vários familiares ou amigos no Brasil.

Não consegui apurar quase nada sobre estes senhores, que se fizeram retratar no Brasil mais ou menos há 120 ou 150 anos e por isso resolvi publicar estas fotos, na esperança, que alguém do outro do Atlântico, me escreva, minha nossa, olha, o retrato de vôvô português.

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

Vou começar pela fotografia de um jovem de bigodes, apoiado num plinto de forma clássica, com um cenário palaciano atrás, imitando um apainelado francês, onde não falta sequer um candelabro em estilo Luís XV. É o típico retrato carte-de-visite, imitando as convenções da pintura do passado. 

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

A fotografia foi realizada no estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo, no Brasil. Esta associação dos fotógrafos Joaquim Feliciano Alves Carneiro (s.d.-1887) e Gaspar António da Silva Guimarães (s.d.- 874) esteve activa entre 1865 e 1875, com estúdios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por consequência, o retrato deste jovem português, que emigrou para o Brasil, terá sido feito antes de 1875.

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

A segunda fotografia brasileira deste álbum está identificada com a letra do meu trisavô como Dr. Francisco Teixeira de Magalhães e representa um cavalheiro muito distinto. O retrato foi executado na Fotografia Alemã, Henschel & Benque, no Rio de Janeiro. Esta firma fundada pelo alemão Alberto Henschel (1827-1882) iniciou a sua actividade em Pernambuco, no Recife e abriu a sua filial carioca na Rua dos Ourives em 1870, mas em 1877, mudou as instalações no Recife, do no 2, do Largo da Matriz de Santo António para a Rua Barão da Vitória, nº 52. Portanto esta fotografia foi executada entre 1870 e 1877.

Fotografia Alemã, Henschel & Benque, Rio de Janeiro

Quanto ao cavalheiro distinto que se fez retratar no mais prestigiado estabelecimento fotográfico do Rio de Janeiro é difícil saber exactamente quem foi. Teixeira ou Magalhães são nomes comuns em Portugal e em qualquer época da história ou em qualquer terra um Manuel Magalhães poderá ter casado com uma Maria Teixeira e o primeiro filho do matrimónio, baptizado como Francisco Teixeira de Magalhães. No entanto, há algumas hipóteses mais ou menos plausíveis. Quando escrevi sobre um dos amigos do meu trisavô, o Paulino Antunes Guerreiro, acabei por passar a pente fino algumas décadas dos registos paroquiais de Montalegre e de facto naquela terra, há uma família Teixeira de Magalhães e alguns dos homens com esse apelido, são franciscos. Faria sentido que este Francisco Teixeira de Magalhães fosse originário de Montalegre e conterrâneo do meu trisavô José Rodrigues Liberal Sampaio. Mas não tenho conhecimento que nenhum deles tenha emigrado para o Brasil e muito menos que se tenha licenciado. Aliás, é curioso, que este senhor foi a única personalidade deste álbum de retratos identificado com um título académico, dr., apesar de existirem várias fotografias de condiscípulos do meu trisavô, licenciados em direito ou teologia, o que talvez me leva a pensar que talvez tenha sido médico. E com efeito no Diário do Governo, n.º 52, de 08/03/1870, na página 1, há um referência a um Francisco Teixeira de Magalhães, médico, residente na cidade do Rio de Janeiro, agraciado com a comenda da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em atenção aos serviços que tem prestado em proveito do ensino publico, concorrendo com um valioso donativo para a construção, na vila de Paredes, de um edifício destinado ao estabeleci­mento de três escolas de instrução. Num boletim cultural da Câmara Municipal de Paredes, confirmei que o Comendador Francisco Teixeira de Magalhães, residente no Rio de Janeiro, Brasil, deu 12000$000 mil réis para ajudar à construção do edifício escolar Conde de Ferreira

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

O Dr. Francisco Teixeira de Magalhães terá sido um daqueles brasileiros de torna viagem, expressão, que designa homens, que enriqueceram no Brasil e regressaram ao país de origem, onde se tornaram membros proeminentes da comunidade. Alguns deles, à semelhança do célebre Conde de Ferreira, tornaram-se beneméritos na sua terra natal, patrocinando a construção de escolas primárias. Mas como terá conhecido o meu trisavô e em que ocasião lhe ofereceu o seu retrato?

O Padre José Rodrigues Liberal Sampaio foi um homem preocupado com a educação e mais ou menos entre 1875-1880 estabeleceu uma escola em Outeiro Seco, que funcionava informalmente, mas da qual há testemunhos de antigos alunos. Será que estabeleceu contactos com o Dr. Francisco Teixeira de Magalhães no sentido deste financiar uma escola pública em outeiro Seco?

O meu trisavô foi um pregador reputado na época e era chamado a fazer as suas predicas um pouco por toda à parte, inclusive na corte e poderá ter travado conhecimento com este Dr. Teixeira Magalhães em Vila Real, no Porto ou em Lisboa. Enfim, talvez, com a leitura das cartas do espólio familiar eu consiga resolver este enigma.

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

Numa foto já mais tardia, existe o retrato de um jovenzinho, que aparenta ter 17 ou 18 anos no máximo e que é a imagem clássica, que temos de todos os portugueses, que rumaram em direcção ao Brasil, ingénuos e cheios de esperança de fazer fortuna nesse país do futuro, segundo a feliz expressão usada por Stefan Zweig uns 50 anos mais tarde. Enfim, não sei nada deste jovem, que posa com as suas melhores roupas, sem esquecer um vistoso alfinete de gravata. Dá ate a ideia que o fato é de um tamanho acima do seu e alguém lho emprestou para o retrato. Em todo o caso tirar uma fotografia nesta época ainda era caro e posso presumir, que estaria ao cuidado de um tio ao de um padrinho, emigrado para o Brasil, há mais tempo e viveria com algum desafogo. 

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

A fotografia é do Teixeira Bastos, Rio de Janeiro. Segundo a Brasilianafotografica este Teixeira Bastos comprou a Manuel Garcia o atelier fotográfico Casa Garcia, que passou a dirigir com o nome de a Photographia do Commercio, na rua Sete de Setembro, em 1891 no Rio de Janeiro, mas em 1893, já estaria em Curitiba. Enfim, o retrato deste rapaz, que ainda nos olha com toda aquela ingenuidade da adolescência terá sido tirado à volta de 1891 ou 1892.

O Guimarães

A quarta e última foto e a mais tardia, foi tirada em Belém do Pará e está dedicada Oferece ao meu amigo Montalvão, seu amigo Guimarães. Certamente refere-se ao meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão. 

Foto de Fidanza, Pará. Dedicatória ao meu bisavô.

A fotografia deste senhor Guimarães foi tirada no estúdio de Filipe Augusto Fidanza (Lisboa, ca. 1847 - Belém (Pará), 20 de janeiro de 1903). No verso da foto refere-se que o artista foi premiado na Exposição Universal de Chicago, realizada em 1893 e portanto este retrato terá sido tirado depois dessa data. Talvez entre 1894 e 1900, mais ou menos. Ao Senhor Guimarães falta-lhe a distinção sóbria do Dr. Francisco Teixeira Magalhães, mas sobra-lhe em garridice. Repare-se no seu penteado, com uns caracolinhos artisticamente frisados na franja.


Enfim, pouco ou nada sei destas personagens, cujos retratos existem no álbum carte-de-visite do meu trisavô e disponibilizo-os aqui na esperança de que alguém no Brasil ou mesmo aqui em Portugal identifique uma destas fotografias. Este blog tem um público de seguidores muito fiel no Brasil e os fóruns de genealogia portugueses estão cheios de brasileiros à procura dos seus antepassados, pedindo ajuda para encontrar os registo da bisavó ou trisavô, uma Maria Morais ou um Francisco Silva, dos quais pouco ou nada sabem, excepto que nasceram algures em Trás-os-Montes. É certo que uma boa parte deles pretende fundamentar com documentos pedidos de nacionalidade portuguesa, mas muitos procuram sinceramente encontrar as suas origens, tentando responder a algumas das grandes questões existenciais que se colocam a todos: de onde viemos; o que somos;  e para onde vamos.

Alguns links consultados: 








domingo, 13 de março de 2022

Uma menina em biscuit ou para onde foram todas flores


O meu encanto por estas figurinhas em biscuit alemãs do início o século XX mantém-se e comprei esta menina por um bom preço, pois foi quebrada aqui e acolá. A cabeça da boneca que a criança segurava partiu-se e os pés da base também já viram melhores dias.

Marcas de série: 5673, 26 e 21

Não apresenta nenhuma marca de fabrico, mas apenas números de série, 5673, 26 e 21, que se reportam certamente ao molde e ao pintor. Contudo encontrei uma figurinha igual à venda na net, com a marca da E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn, empresa que esteve activa entre 1890 e 1927 na Turíngia, essa região alemã onde se concentraram dezenas de fabricantes de porcelana e figurinhas em biscuit.

A figurinha que esteve à venda no e-bay, tem uma orla na base em latão doirado e a minha está em biscuit, decorada com uma baia.


Não há muitas informações sobre estas fábricas, cujos arquivos se perderam com a guerra em 1944 e 1945 ou talvez por eu não perceber nada de alemão, não consiga encontrar informações pertinentes. Ultimamente penso muitas vezes que nos fazem falta a todos umas luzes de alemão, para podermos aceder a uma cultura tão rica na Europa, mas a última grande guerra tornou essa língua pouco apetecível, diria quase malquista, o que é uma pena.


Seja como for, esta figura representa uma menina a estudar na sua carteira, mas ela não é exactamente um modelo de bom comportamento. Já descalçou um sapato e enquanto faz os deveres numa tábua de lousa, segura a boneca e uma maça. A pasta está no chão atirada a trouxe-mouxe e e a menina está toda mal sentada. Enfim, tudo se encontra num desalinho, muito pouco germânico. 


Confesso, que talvez a tenha comprado porque me recordou a minha própria filha a estudar, sempre mal sentada, tudo espalhado por todo o lado e ao mesmo tempo com o telemóvel a fazer toda a espécie de ruídos e toques. Creio que eu próprio terei sido assim na minha meninice. 


Aliás, o encanto destas figurinhas de biscuit é que gravaram num material perene aqueles momentos de travessura ou garotice da nossa infância, da dos nossos filhos ou de crianças que viveram há mais de 100 anos. Hoje, que sou um adulto que tenta ser sério a todo o custo, a minha filha já é uma mulher e as meninas que foram as minhas avós e bisavós, morreram há muito tempo pergunto-me para onde foram esses momentos de inocência, para onde foram todas essas flores e essas meninas, como cantava Marlene Dietrich, em Sag Mir Wo Die Blumen Sind, que foi uma menina alemã, mais ou menos na altura em que esta peça em biscuit foi fabricada.




domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma jóia, um documento íntimo e a pequena Natália



No meu anterior post, mostrei uma fotografia de conjunto, da minha trisavô e dos seus dois filhos, o José Maria e o João Maria. Este ultimo morreu cedo, mas o José Maria meu bisavô (1878-1965), cresceu, licenciou-se em direito em Coimbra, em 1902, e no ano a seguir, casou com a minha bisavó, Ana da Conceição de Morais Alves (1881-1974) de uma família burguesa rica de Chaves e como era vulgar na altura tiveram uma prole numerosa, 7 filhos. 

Os seis filhos do matrimónio de Ana da Conceição de Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão

Na família, sabia-se que uma das crianças tinha morrido pequenina, a penúltima, a Natália Maria de Lurdes. A obra que reconstituiu a genealogia familiar, Os Montalvões, de J. T. Montalvão Machado, publicada em 1948, refere que nasceu em 1917 e morreu em 1919. Imaginávamos que que tivesse sido uma perda grande, para a família, pois a criança, que nasceu a seguir, também se foi baptizada com o mesmo nome, Natália, como que para substituir a perda da pequenita.

Contudo, há um ou dois anos o meu pai descobriu um documento, que nos mostrou, bastante impressionante. Trata-se de uma espécie de relato, que a minha bisavô Aninhas escreveu sobre a doença e morte da filhinha, como se fossem as páginas de um diário intimo, destinadas a fixar para sempre num papel, aquilo que não queria esquecer de todo.
Página 1 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô


A Natália nasceu no dia 5 de Dezembro de 1916 e era a criança mais nova, a companheira de dia e de noite, sobretudo quando os outros filhos estavam na escola, conforme escreveu a minha bisavó. Segundo o seu relato, no dia 12 de Abril de 1918, numa sexta-feira adoeceu de tarde e esteve toda a noite a gemer e eu toda aflita por a ver doente e cheia de febre. Na segunda-feira, mandei-lhe tirar um retrato que ainda não o tinha coitadinha, sentada na caminha da sua querida mãe, muito sossegadinha, lhe vesti o seu casaquinho de veludo e touquinha e o fotógrafo lho tirou e foi o que me valeu, porque não tinha retrato nenhum da minha querida filhinha. Mas criança piorou, chorando pela mãe e pelo pai para que eu lhe acudisse, mas não lhe pode valer. Assim, me deixou a minha sempre adorada filhinha do meu coração, às cinco e meia da tarde de quarta-feira dia 17 [de Abril] para sempre na mais ardente dor e tristeza (…) No dia 18, às seis da tarde, levaram-me a minha querida filhinha par sempre

Página 2 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

A minha bisavó, remata esta narrativa da morte da sua filha, da seguinte forma: Só hoje tive coragem para escrever isto, dia 3 de Junho de 1918.

Página 3 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

Quando o meu pai, nos mostrou a transcrição deste documento, interrogámo-nos, acerca do paradeiro da fotografia da pequena Natália, mas o mais natural era estar perdida ou esquecida, algures na casa dos cerca de 100 ou mais descentes dos meus bisavós. Contudo, depois da morte do meu pai, aquando na partilha dos bens, minha irmã identificou o retrato, primorosamente encaixilhado num pequeno pendente em ouro, com vidro biselado, obviamente uma jóia de grande estima, para se trazer pendurada num fio, bem junto ao coração. E com efeito, a descrição que minha bisavó faz do único retrato que mandou tirar à filha, com o casaquinho de veludo e touquinha coincide com esta imagem e acreditamos que seja a fotografia da Natália (5.12.1916-17.4.1918)

O pequeno medalhão em ouro. O retrato encontra-se nas duas faces

Este relato intimo da minha bisavô Aninhas acerca da morte da pequena Natália é um testemunho tocante de uma época em que a mortalidade infantil era elevada, tendo aumentando ainda mais nos anos da guerra (1914-1918), naturalmente maior entre os pobres, mas que também se fazia sentir entre os mais abastados, como a família Montalvão. Repara-se que neste relato, não se refere a visita de um médico ou nenhum medicamento que a criança tivesse tomado e muito menos a ida a um hospital. Na época, não existia nenhum serviço nacional de saúde e muito menos antibióticos. Também neste período a fotografia ainda era cara e reservada para grandes ocasiões e é muito tocante a necessidade, que a minha bisavó sentiu de chamar o fotógrafo, para tirar o primeiro e último retrato da pequena Natália, para ficar com uma imagem dela, mandada encaixilhar num medalhão, que certamente trouxe junto ao seu coração durante muitos anos.

A pequena Natália (5.12.1916-17.4.1918)


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Um retrato de família num dia especial do último quartel do século XIX.

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)

Já aqui referi que trouxe de casa do meu pai, o arquivo familiar com centenas de cartas do início do século XX, do século XIX e ainda alguns documentos do século XVIII e até XVII. Mas entre as coisas que estavam em casa do meu pai, foram aparecendo mais documentos soltos, entre as quais esta fotografia, que minha irmã encontrou e que é um retrato tocante da minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) e dos seus dois filhos, o José Maria e o João Maria.

Esta fotografia foi tirada na década de 80 do século XIX e não é um retrato comum. Nesta época, a grande maioria dos retratos eram feitos em estúdio e os fotógrafos montavam uma encenação à volta dos retratados, que replicava as tradições da pintura dos séculos anteriores. Havia muitas vezes uma grande cortina drapeada, que criava um efeito de perspectiva e ao mesmo tempo teatral, os personagens estavam de pé, com a mão apoiada num plinto, numa mesa, ou num cadeirão e qualquer um destes elementos sempre num estilo pomposo. As pessoas vestiam as suas melhores roupas e as damas seguravam um leque. Estas fotografias apresentavam invariavelmente um pano de cenário ao fundo, sugerindo o interior apainelado de um palácio ou um outro qualquer ambiente requintado. Mesmo quando estes fotógrafos se deslocavam às terras do interior, no dia das festas do santo padroeiro, fotografavam as mulheres e os homens como este cenário palaciano por detrás, ainda que o chão fosse de terra batida. Tenho uma fotografia dos meus bisavós maternos tirada por em Vinhais, provavelmente na feira, volta de 1898-1900, com essas características

Nesta fotografia não há um cenário a sugerir um interior luxuoso. O chão é de terra batida e o fundo é um muro em granito. Tenho até quase a certeza que foi tirada no pátio grande do solar de Outeiro Seco, ou num outro pátio a nascente da mesma, que a família usava muito nos dias Verão. Contudo apesar deste cenário rural, todos eles vestiram melhores roupas. 

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)

A Maria do Espírito Santo usou um vestido complicado, que parece ser seda e colocou suas as jóias. Claro, já não tinha frescura da juventude dos retratos anteriores, que eu conhecia, da década de 1870, pois aqui já contava com cerca de 30 anos e estava mais pesada, mas os olhos claros, com o seu não sei o quê de melancólico, continuavam lindos. 


O meu bisavô, José Maria, ou o Jé-Jé

A minha trisavó esmerou-se nas toilettes das crianças, o meu bisavô, o José Maria, o rapazinho mais velho foi vestido com uma jaqueta, uma camisa de jabot, uma faixa na cintura e umas botas, como se fosse um pequeno fidalgo. 

O pequeno João Maria

O menino, o João Maria trazia um vestido de cor clara e uns sapatinhos verdadeiramente deliciosos apertados com uma tira e decorados com um laçarote. Obviamente que este dia da fotografia foi especial, talvez o da festa da Senhora da Azinheira ou de São Miguel, em Outeiro Seco, em que um fotografo veio de Vila Real ou de Chaves para fazer negócio e possivelmente foi até pago a dobrar, para de deslocar ao solar, para fazer um instantâneo da família fidalga da terra. Em todo o caso, é estranho, o fotógrafo não ter instalado atrás o pano do cenário palaciano. Talvez a Maria do Espírito Santo tenha preferido este cenário mais rural da casa, que tanto gostava e onde pediu para ser sepultada anos mais tarde, ou talvez, num momento posterior, o fotógrafo recortasse as figuras e as colasse e num cenário reproduzindo uma boiserie francesa e neste caso esta fotografia seria uma apenas prova.

O que talvez seja tocante nesta fotografia é que esta família não era exactamente como as outras. Ambos os meninos eram filhos ilegítimos da relação que a minha trisavó manteve com o padre José Rodrigues Liberal Sampaio. O José Maria nasceu em 1878, tendo sigo registado com apenas o nome da mãe e tendo por padrinhos o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e Nossa Senhora da Azinheira. Nas muitas cartas que o meu trisavô escreve à Maria do Espírito Santo trata-a carinhosamente por comadrinha, embora nunca use o tu. O filho, José Maria dirige-se sempre ao pai como padrinho na correspondência trocada. No fundo, foram artifícios, que esta família arranjou para contornar a sua situação social pouco conveniente. Quanto ao pequenino o João Maria, nasceu a 11 de Novembro de 1884 e foi baptizado como filho natural, tendo por padrinhos, o irmão e Nossa Senhora da Graça. Viveu pouco e terá morrido algum tempo depois desta fotografia, no dia 25 de Setembro de 1887, com a idade de três anos. Talvez nesta imagem tivesse dois anos e a fotografia poderá ser datada de 1886.

Carta de 19 de Maio de 1890. O Padre José Rodrigues Liberal Sampaio tratava a mãe dos seus filhos por comadrinha


Aliás, a minha trisavó ficará bastante só em Outeiro Seco depois dessa altura. No Outono de 1886, o filho mais filho, o Je-Je, como é referido nas cartas partirá para Coimbra com pai, onde fará toda a escolaridade, até se formar em Direito, em 1902, visitando a mãe apenas nas férias e nem em todas, pois por vezes o calendário escolar prolongava-se pela Páscoa adentro e o caminho entre aquela cidade universitária e Chaves era longo e demorado. Mas escreve-lhe frequentemente, pedindo à mãe para lhe cozinhar os pratos preferidos quando regressar, ou mesmo para dormir na cama dela. Numa dessas cartas, envia-lhe até uma florinha, um amor-perfeito, que ainda hoje se conserva dentro do envelope.

Carta de 19 de Maio de 1890. Repare-se a flor que ainda hoje se conserva.

A leitura das cartas trocadas entre esta família pouco convencional revela um carinho e um respeito grandes, que talvez a distância ajudasse a consolidar, já que por vezes o convívio diário entre seres humanos provoca atritos e amarguras. Esta fotografia da Maria do Espírito Santo e dos seus filhos, o Jé-Jé e o Joãozinho é a imagem, que eu com a minha imaginação procurava na leitura das cartas trocadas entre esta família.

O retrato não apresenta qualquer marca de ou identificação de um fotógrafo ou estúdio fotográfico


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Uma taça em opalina francesa



Recentemente comprei por muito bom preço esta pequena taça ou recipiente em opalina, que desde logo me pareceu uma coisa francesa, provavelmente da segunda metade do século XIX, de uma época em que a França dominava o mercado deste tipo de vidro.

Marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero


As opalinas mais antigas muito raramente eram marcadas, mas esta apresenta um pequena marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero. Achei que com esta marca poderia identificar o fabricante e lancei-me numa pesquisa no google em francês e inglês acerca de marcas de opalina, mas foi em vão. Consultei também a obra L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952 e e confirmei, que as opalinas raríssimas vezes eram marcadas e que este o ou zero não corresponde a nenhum fabricante. Será provavelmente a marca com que um pintor de uma fábrica ou oficina de decoração usou para marcar o seu trabalho.



Nestas minhas buscas encontrei muitas peças em opalina azul, com decorações esmaltadas a ouro com algumas semelhanças com a minha tacinha, que me levou a confirmar a minha intuição inicial, de que se trata de uma produção francesa da segunda metade do século XX, talvez já das últimas duas décadas.

Porém, à medida que andava enredado nestas pesquisas por sites de venda on line e de antiquários franceses e americanos, foi-se levantando cada vez mais a mesma dúvida, qual foi a utilidade inicial desta peça. É demasiado pequena para jarra de flores, não é decididamente um frasco, um jarro ou uma garrafa e falta-lhe qualquer coisa de supérfluo ou arrebicado para ser um mero bibelot. Decidi concentrar mais as minhas investigações na função utilitária desta tacinha e acabei por perceber, que em tempos fez parte de um conjunto ou serviço.

Muitos de nós ainda de nos recordamos de ver nos quartos de dormir das casas antigas, uma garrafinha e um copo por cima, por vezes com um pequeno prato, conjunto, que se colocava em cima da mesinha de cabeceira. As casas era muito grandes e e se alguém sentia sede durante a noite escusava de percorrer um grande corredor para chegar à até cozinha e beber um copo de água. Juntamente com o bacio, o jarro e taça para lavar o rosto e as mãos eram acessórios típicos de qualquer quarto de uma casa grande do passado. Esses conjuntos de garrafa, copo e pratinho ainda aparecem à venda nas feiras de velharias, mas são normalmente em vidro simples.

Como os franceses sempre foram uma gente requinta, na segunda metade do século XIX produziam estes conjuntos, mas mais completos, que aqueles que estamos habituados a ver nas feiras de velharias. Eram compostos por um tabuleiro, dois copos, duas garrafas, uma para água simples e outra para água aromatizada a flor de laranjeira e ainda um açucareiro. Encontrei na internet vários desses conjuntos em opalina, a que os franceses chamam service de nuit e percebi, que a esta minha tacinha foi em tempos um açucareiro, de um desses serviços. Originalmente teria uma tampa, que com o tempo se perdeu.


Conjunto em opalina. Jarro e bacia de lavatório e ainda o service de nuit

Em suma, esta pequena taça, é um açucareiro, que fez parte de um antigo service de nuit em opalina, produzido em França provavelmente nos fins do século XIX. Falta-lhe a tampa e é uma peca desirmanada, mas ainda assim cheia de charme.

Um açucareiro em opalina

sábado, 29 de janeiro de 2022

Admirando Zurbarán



Não recordo exactamente quando descobri e me apaixonei pela obra do pintor espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664). Creio que foi por volta de 1989 ou 1990, quando o meu sogro e a sua mulher nos ofereceram um extenso e grosso catálogo da sua obra. Já não recordo sequer que edição era, mas as pinturas de santas impressionaram-me de tal maneira, que decidi começar a fazer uns pastiches à inspirados naquelas virgens mártires e santas mulheres. Copiava uma das suas pinturas a lápis, depois rodeava o desenho com uma cercadura, também copiada de um daqueles registos de santos do século XVIII, passava depois tudo com uma caneta de tinta da china e por vezes dava uma aguarelada aqui e ali. Estes trabalhos eram feitos sobre papel antigo, pois como nas bibliotecas e arquivos por onde passei sempre apareciam folhas soltas dos séculos XVIII ou XIX, usava-as para dar um certo ar antigo.

Fiz vários desses pastiches que dei a amigos e familiares, entre os quais este que mostro hoje, que talvez por ser o mais bem conseguido, o ofereci ao meu pai há cerca de 30 anos.

O Zurbarán pintava as suas santas e virgens mártires com trajes de um luxo fabuloso, de cetim, brocado, veludo ou seda como se fossem entrar numa peça de teatro ou desfilar numa passagem de modelos de um grande costureiro. Os martírios horríveis pelos quais passaram estão discretamente presentes através de pequenos símbolos, como a palma de martírio ou o atributo do seu suplício, a roda, um prato com uns olhos, ou uns seios. No entanto há sempre algo de meditativo e triste no olhar destas santas de Zurbarán, que produz um contraste com o luxo extravagante das suas vestes, como se simbolizassem as contradições dessa Espanha dividida entre o ascetismo e a sensualidade.

Santa Doroteia por Zurbarán. Foto Wikipedia

Esta característica das Santas de Zurbarán atraiu-me muito numa época, onde me interessava ainda bastante por moda. Na juventude ambicionei mesmo tornar-me estilista, desenhava a minha roupa e ainda concebia fatos e vestidos para amigas. Cheguei mesmo a comprar um álbum, uma edição qualquer americana dos anos 50, onde ensinava a representar num desenho o cair do tule, o brilho do cetim, ou através das sombras o drapeado e as pregas de um vestido. E claro, para alguém interessado em moda, as santas do Zurbarán são quase um manual, um compêndio de estudo sobre a forma de representar um veludo ou uma seda.

Neste desenho, consegui de alguma forma dar a ideia do luxo sumptuoso dos trajes das santas daquele pintor espanhol, mas falhei completamente em tentar captar o olhar de meditação e recolhimento da Santa Catarina, pois enfim, os meus talentos artísticos eram limitados.


Quando ofereci este desenho ao meu pai não ligava muito às molduras e foi encaixilhado num simples acrílico. Depois da morte do meu pai decidi trazer este desenho para casa e resolvi emoldurá-lo como deve ser. Escolhi uma moldura antiga, que comprei num adelo e como passe-partout usei um retalho de um velho damasco de seda, que forrava um cadeirão e dois tamboretes herdados da minha avó. Nesta altura, o Manel sugeriu-me recortar o desenho, e cola-lo no tecido, imitando de alguma forma as antigas verónicas, esses trabalhos com que senhoras devotas no passado encaixilhavam os santinhos.

Claro, todo este trabalho, não passa de um conjunto de cópias e reutilização de materiais velhos, mas daqui a vinte anos, com a luz e o pó, ganhará uma patina, que talvez o faça passar por peça antiga.


Bibliografia que serviu de inspiração para este texto:

 O (Des)Caminho para Santiago / de Cees Nooteboom. Lisboa: Edições ASA, 2003.