segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX


O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua

Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.


Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.

Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante 


Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.

Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.

Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes,


O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.

Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.

Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte


Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.

Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.

O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.

Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira,



Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.

Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.

Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.

No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis.



Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.

Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau


Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.

Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.

Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).

Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)

Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.

O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz



Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.

Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar

Mas o que interessa é que este Francisco José de Morais comprava no Porto em seu nome os produtos que minha quarta avó, comercializava na sua loja, como sabão da Saboaria Hespanhola de José Júlio Bouças, Rua do Bom Jardim, 236 (carta de 1872-06-01) ou aço no Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68 e fazia chegar as facturas à sua cunhada em Chaves e assegurava os pagamentos aos fornecedores da cidade do Porto, que como era hábito na época, só aceitavam pagamentos em metal sonante. Assim entre 1864-07-28 e 1876-10-30, contei um total de 20 cartas no espólio, que são basicamente umas guias que Francisco José emitia a pessoas da sua confiança, em trânsito entre o Porto e Chaves, para cunhada lhes entregar dinheiro, que posteriormente lhe seria devolvido, certamente destinado ao pagamento dos fornecedores do Porto ou para o reembolsar de adiantamentos que ele próprio teria feito. Talvez estes indivíduos fossem mais de confiança que os almocreves. A maioria deles eram militares, muitos da 1º companhia da administração militar. Aliás, estes conhecimentos no meio castrense fazem-me suspeitar que o Francisco José seria também um militar a cumprir serviço no Porto, mas no Arquivo Histórico do Exército nunca encontrei uma referência inequívoca a este meu tio tetravô. Nesse arquivo constam muitos homens com o nome Francisco José de Morais, alguns do Distrito de Vila Real, mas os dados de filiação, nascimento e datas não batem certo. Mas este meu antepassado sabia de contabilidade e numa das cartas que escreve à sua prezada cunhada (2 de Julho de 1872), apresentou-lhe um mapa de contas, com aspecto muito profissional, revelador de quem sabia muito bem o ofício. Estaria ele na administração militar nalguma secção de contabilidade?


Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas


Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.

Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.

Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo


Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.

Genealogia dos Alves e dos Morais


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Uma jarra de faiança portuguesa do séc. XIX



Nos últimos tempos tenho escrito pouco sobre faiança portuguesa e não é porque tenha perdido o entusiasmo pelo assunto. Mas colecionar faiança exige muito espaço, coisa que na minha antiga casa de assoalhada e meia me faltava. Se os pratos e as travessas podem ir para a parede onde há sempre lugar para mais um, jarras, terrinas ou canudos têm que ser expostos em prateleiras e só terrinas em faiança tenho pelo menos uma seis, fora as de porcelana, mas isso é outra história. Também é verdade, que como a faiança portuguesa raramente é marcada, faltam-me elementos para escrever textos com informação significativa sobre as peças.


A jarra não apresenta marca


Mas, o meu amigo Manel ofereceu-me nos anos uma jarra de faiança azul e branca de que gostei tanto, que resolvi apresenta-la aqui, embora não esteja marcada. Desde logo me pareceu uma peça de meados do século XIX e da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Com efeito, já folheei tantas vezes a tese de mestrado Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre aquela fábrica, que tenho presente na memória, muitas imagens que publicou e tinha quase a certeza de lá ter visto uma jarra igual ou semelhante a esta.

Imagem retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013


Voltei a consultar esta tese, em que autora relaciona os achados das escavações arqueológicas no local da antiga fábrica, mais exatamente num tanque atulhado em 1848, com as peças existente nos museus portugueses. E com efeito, na parte dedicada ao Museu Nacional Soares dos Reis consta uma jarra inventariada com o número 408 Cer CMP/ MNSR muito semelhante a minha, que se atribui à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, embora não esteja marcada.

Essa mesma jarra já tinha sido reproduzida no catálogo da exposição Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle, de 2004, já então era atribuída aquela fábrica de Gaia e datada do segundo quartel do século XIX.

Imagem retirada de Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX



A decoração e a forma são muito idênticas à minha, só que jarra do Museu Nacional de Soares dos Reis apresenta umas asas.

Procurei obter mais informações no inventário geral dos museus nacionais portugueses, o Raiz e com efeito encontrei na colecção daquele museu do Porto, mais umas jarras com decoração e formas muito semelhante à minha, mas nas fichas descritivas a informação é escassa e no centro de fabrico consta apenas Vila Nova de Gaia, com uma interrogação.

Jarra da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, inv. 748 Cer CMP/ MNSR


Em suma, é provável que esta jarra tenha saído da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, no segundo quartel do século XIX, mas não é possível ter a certeza. Quem está familiarizado com a faiança portuguesa do século XIX sabe bem que as produções das fábricas do Porto e Gaia eram muitas vezes semelhantes entre si e por consequência esta jarra poderá também ser de outra manufactura dessas duas cidades.




Alguma bibliografia e ligações consultadas:

A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75570?mode=full

Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX / coord. científica Roland Blaettler, Paulo Henriques ; textos de Roland Blaettler, João Pedro Monteiro, Alexandre Nobre Pais, Margarida Revelo Pinto e Paulo Henriques . - Lisboa : Museu Nacional do Azulejo, 2004

Raiz, bens culturais on-line

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dois oveiros da Vista Alegre do século XIX


Apesar de agora viver numa casa relativamente grande, continuo com o hábito de comprar coisas pequenas. Isto deve ter a ver com qualquer coisa profunda da psicologia, talvez com um desejo inconsciente de continuar a rodear-me de pequenas coisas à medida do mundo da minha infância.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Desta forma, na última feira de Estremoz comprei por um preço muito simpático dois oveiros da Vista Alegre, com a marca nº 17, usada entre 1870-1880. Como o nome indica, estas peças eram usadas para servir ovos, que eram previamente cozidos, mas de forma a deixar as gemas mais ou menos líquidas e eram comidos com o auxílio de uma pequena colher de chá. Creio que aqui em Portugal este hábito de comer assim os ovos nunca esteve muito difundido e os oveiros são uma tipologia, que aparece pouco no mercado de velharias, embora se fossem fabricando. O meu amigo Manel tem um de faiança da fábrica de Viana e na base de dados dos museus nacionais o Raiz encontrei um de Miragaia e ainda um conjunto da Vista Alegre do Palácio Nacional da Ajuda. Estes últimos apresentam exactamente o mesmo formato dos meus, mas claro com uma decoração mais refinada pois estavam ao serviço da casa Real.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Talvez por serem pouco usados, os oveiros aparecem mencionados aqui e acolá com diferentes designações, como suporte para ovos, ou ainda copo para ovos. Mas António Cota Fevereiro, que estudou os documentos das encomendas da Casa Real à fábrica da Vista Alegre, neles encontrou sempre estas peças designadas como oveiros, que será portanto o termo mais correcto.

Os oveiros são ligeiramente inclinados


Estes dois oveiros apresentam uma característica curiosa, que é visível na fotografia, foram fabricados tortos, com uma inclinação para um dos lados. Já encontrei essa particularidade em chávenas mais antigas da Vista Alegre, que no início tomei como defeito de fabrico, mas creio que terá ver como uma razão funcional, que me escapa, talvez para no momento depois da lavagem, água escorre-se melhor ou para verter melhor o creme da gema ou do chá. Enfim, não sei.

Quanto à decoração com florinhas e alguns apontamentos de dourado foi típica da Vista Alegre durante dezenas de anos. Os mestres desta fábrica inspiraram-se nos modelos da porcelana francesa, mas simplificaram-nos e o resultado é uma pintura delicada, mas sem afectação, nas palavras felizes de Maria de Azevedo Coutinho, em Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.




Ligações consultadas e alguma bibliografia:

A Real Fabrica de Porcelana da Vista Alegre, o rei D. Fernando II e a condessa d’Edla, parte 2 / António Cota Fevereiro



Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O general, a fidalga desencaminhada e o bacharel louco: histórias esquecidas




Tratar o espólio documental de uma família é um trabalho fascinante. Ler cartas escritas há 150 anos é como se estivéssemos a ouvir as vozes e os pensamentos de quem há muito morreu e desta forma vamos conhecendo aos poucos os traços da personalidade dos antepassados e ao mesmo tempo uma época tão diferente da nossa. Talvez por experimentar um prazer tão grande na leitura dessas cartas sinta necessidade de as partilhar com outras pessoas e convida-las a viajar numa espécie de máquina do tempo. Bem sei que é uma analogia simplista, mas é esse sentimento, que se experimenta durante a leitura destes documentos.

Desta vez escolhi umas quantas cartas onde os protagonistas foram a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) os meus tios trisavôs o General António Ferreira Montalvão (1840-1919), Miguel José Ferreira Montalvão (1838-1890), mas também num plano secundário o companheiro da primeira, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), meu trisavô e o filho que tiveram em comum, José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965)

Os três irmãos tiveram destinos muito diferentes, o General António Ferreira Montalvão fez uma carreira brilhante nas armas, foi um matemático conceituado, chegando mesmo a Comandante do que é hoje a Academia Militar. Casou muito bem, com uma senhora da boa sociedade lisboeta, Mariana das Mercês Bravo Borges (1858-1888) e juntos tiveram uma filha, Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão, uma virtuose do piano. O irmão, Miguel José, formou-se em direito em Coimbra, mas apaixonou-se por uma prima ingrata, acabou por enlouquecer, morrendo em Outeiro seco, num quarto rodeado de livros, recusando lavar-se e fazer a barba. A outra irmã, a minha trisavó, que tinha todas as qualidades para fazer um belíssimo casamento, beleza, um bom-nascimento e fortuna, acabou por se envolver com um padre, do qual teve dois filhos bastardos e acabou por morrer cedo, de doença prolongada, em 1902, triste e amargurada.

A primeira carta, do General António Ferreira Montalvão foi dirigida à irmã e embora não esteja datada, presumo que seja de meados da década de 70 do século XIX, numa época em que as relações entre os dois eram boas. Transcrevo aqui o seu conteúdo, que achei muito interessante.



Maricas

Recebi a tua carta e com ela o teu retrato, que muito te agradeço. Para te dizer o que sinto não o acho nada bem, todavia pode-se admitir-se como retrato tirado em Chaves e as tuas feições parecem um pouco manchadas com as bexigas.

Agradeço-te igualmente a lembrança de me mandares a prova do fumeiro, há alguma dificuldade em manda-lo, por isso se o Bastos não se encarregar de mandar pagar os direitos de entrada no Porto e de o mandar entregar na Estação Central do caminho-de-ferro no Porto, o melhor é não vir, porque eu não sei de me demorarei aqui ou se irei brevemente para Lisboa.

Quanto aos retratos que me pedes, não posso já obtê-los porque fui a Lisboa a um concurso e deixei lá a máquina. Neste concurso só apareceu mais outro, que tem menos habilitações e mais empenho que eu; se eu for o preferido como espero tornarei a ter férias para ir visitar-te todos os anos.

Recomenda-me a todas as pessoas que me mandaram lembranças.

A propósito do fumeiro, lembra-me de perguntar-te se já se pagou a despesa que fez o Celestino quando uma vez se encarregou de mandar-mo do Porto, a prima Amélia pode informar-te a este respeito. A despesa é pequena, mas se ainda não foi paga deve-o ser com brevidade.

Dispõe do teu irmão António

NB: Vai incluso conhecimento para tu mandares receber do Porto na estação central de Caminho-de-ferro, um aparelho que era para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho não deixando fazer vinagre. Podes encarregar o Bastos de tentar de o receber e conduzir para Chaves; deves dar-lhe o dinheiro para este fim e dizer-lhe que está num caixote que pesa menos que uma arroba.

Retrato da minha trisavó executado presumivelmente por Tomás Aquino Pacheco e ao qual se refere António Vicente na sua carta.


Creio que quando António Vicente se refere ao retrato da irmã, escrevendo que só era aceitável porque foi tirado em Chaves, trata-se certamente uma de duas fotografias, que eu tenho da Maria do Espírito Santo executadas pelo primeiro fotógrafo activo em Chaves, Tomás Aquino Fonseca, que a partir de 1876, estaria a trabalhar naquela terra transmontana. Igualmente interessante é que quando a Maria do Espírito Santo pediu um retrato ao irmão, este respondeu-lhe que foi a Lisboa e deixou lá máquina. Portanto, em meados dos anos 70 do século XIX, António Vicente já tinha uma máquina fotográfica, o que era raro para a época! Era realmente um homem tecnológico. Tenho três retratos dele, um assinado pelo H. Tisseron de Lisboa e outros dois sem marca de fotógrafo. Talvez um destes dois seja um auto-retrato feito com a sua própria máquina.




Dois retratos não assinados do General António Vicente Ferreira Montalvão. Poderão eventualmente ser auto-retratos.

Depois há dois parágrafos sobre o fumeiro, assunto recorrente em quase todas as cartas da família, pois enfim, todos eles eram bons transmontanos, de Chaves e o presunto, os chouriços, os salpicões enviavam-se a quem estava longe, ainda que o transporte fosse uma trapalhada, pois além das vias de comunicação deficientes, ainda existiam barreiras alfandegárias internas no País, que taxavam a entrada de bens de consumo nas cidades, como António Vicente bem refere.

Por último, sempre tecnológico, António Vicente, enviou à irmã um aparelho que para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho, não deixando fazer vinagre.

Pelas dúzias de cartas, que o meu trisavô, Liberal Sampaio enviou à Maria do Espírito Santo com conselhos pormenorizados sobre como gerir a casa agrícola, imagino que esta tenha recebido esta encomenda com horror, a pensar o que iria ela fazer daquele aparelho e de como explicaria aos trabalhadores agrícolas como usa-lo. A ideia que fiquei dela depois da leitura dessas cartas, é que seria uma mulher com pouco sentido prático da existência, que muito nova se viu sem os pais e os irmãos, a governar sozinha uma grande casa agrícola. Anos mais tarde, já no final da sua vida, quando sua relação com Liberal Sampaio azedou, escrevia cartas ao filho com longas queixas sobre ele e uma delas é que não tinha ido dar corda ao seu relógio. Enfim, não há muita arte em dar corda a um relógio.

Maria do Espírito Santo com os dois filhos que teve de Liberal Sampaio


Depois desta carta de meados dos anos 70 do século XIX, a Maria do Espírito Santo envolveu-se com o padre, do qual teve dois filhos e o António Vicente afastou-se da irmã, embora não tenham perdido inteiramente o contacto. Neste período de tempo, viu-se ainda a braços com a doença do outro irmão, Miguel José, em processo de loucura

Em 15 de Setembro de 1884, António Vicente escreve-lhe de Lisboa, a propósito do Miguel José.

Maricas

Há um ano que aí fui a tua casa para ver o nosso pobre irmão. Notei uma falta de asseio que muito me contristou. Há poucos dias fui informado de que não convinha de forma alguma que continuasse em tua casa. Receando que uma mudança de hábitos lhe possa ser fatal, abstenho-me por enquanto de tira-lo da tua companhia, pedindo-te que sejas caridosa para com ele. Parece-me que pedindo-te isto, não te peço muito, tratando-se de teu irmão, que como tu me disseste na última vez que te falei, tem para a despesa que faz mais do que o suficiente. Por reste motivo, espera ser atendido o teu irmão António.

Há aqui uma crítica aberta à Maria do Espírito Santo sobre a forma como trata o irmão louco. Falta de higiene e até de caridade foram as acusações que o António Vicente lhe fez. Claro, eu não sei o que passou exactamente. Esta carta é aliás o primeiro documento que leio sobre o assunto. Mas imagino o drama da minha antepassada, uma menina fidalga, educada para se casar com um fidalgo de boa estirpe da região ou com algum burguês ricalhaço, ao ter que tratar sozinha do governo de extensas propriedades e ainda de um irmão louco. Nesta época, a psiquiatria portuguesa estava a dar ainda os primeiros passos em Lisboa e em Chaves não existiria nenhum clínico especializado em doenças do foro mental que pudesse socorrer o pobre Miguel, que viria a falecer 6 anos mais tarde, em 8 de Setembro de 1890, aos 52 anos, enchendo os cabeçalhos dos jornais locais, com a notícia da morte do bacharel louco.

Volto a ter notícias do General António Vicente, através de uma carta de Liberal Sampaio a Maria do Espírito Santo, datada 19 de Julho de 1894. António Vicente encontrava-se em Chaves na companhia da sua filha Elina e Liberal escreve-lhe preocupado com a forma com que Maria do Espírito Santo estaria a receber o irmão, dando-lhe muitos conselhos.

Como seu irmão aí está com a pequena, deve oferecer-lhe essa casa enquanto estivera aí na vila [Chaves], a de Outeiro Seco se quiserem passar por lá algum tempo, e no caso mais provável de provável de ir para Dadim, é conveniente mandarem-lhe um cântaro de azeite, um presunto, algum fumeiro e pinga, um cântaro de vinho e outro de vinagre e algumas batatas. Mande de tudo isto, que ele tudo precisa comprar. Será também bom oferecer-lhe de empréstimo, alguns lençóis e cobertores, porque certamente não os traria de Lisboa. Enfim, diga-lhe que mande buscar com toda a franqueza tudo aquilo, de que necessitar.

O fumeiro voltou a ser tema recorrente, mas mais importante, é que através da leitura destes conselhos, noto novamente uma certa incapacidade da minha trisavó para a resolução de assuntos práticos da existência, tais como receber o irmão e a sobrinha, ou pensar em oferecer-lhe de empréstimo cobertores e lençóis. Talvez a Maria do Espírito Santo fosse como veio a ser a neta, a minha avó Mimi, que aliás tinha o mesmo nome próprio e ela também não sabia receber. Recordo-me da minha mãe me contar, que no Natal, quando íamos passar uns dias à sua casa de Chaves, tinha que improvisar lençóis com toalhas de mesa velhas, para fazer a cama onde o meu irmão e eu dormíamos, porque a minha avó Mimi não se lembrava desses pormenores.

Em todo o caso, a carta demonstra que apesar de um certo afastamento, a Maria do Espírito Santo e António Vicente, continuaram a relacionar-se.




A doce Elina. O verso é dedicado ao meu bisavô, que estima como a um irmão.


O último dado que eu conheço desta relação entre o general e a minha trisavó, ocorreu já em 1902, pouco depois da morte desta. O filho de Maria do Espírito Santo e do Padre Liberal Sampaio, o José Maria Ferreira Montalvão tomou-se de amores pela doce Elina, sua prima direita, a filha de António Vicente e quis mesmo casar com ela. O pai, Liberal Sampaio, um homem sempre sensato e avisado, escreveu-lhe uma longa carta a 3 de Julho desse ano, dissuadindo-o desse namorado.

Vejo que continuas teus devaneios ou antes ingenuidades com a prima. Não os repreendo, porque os considero produto de primeiras impressões; mas recomendo e exijo que, em tudo e por tudo te portes de modo que não melindres o teu tio e à prima não deias o mais leve ensejo de descobrir em teus actos e palavras qualquer atentado contra o decoro que lhe é devido, trata-a não como uma amante, mas como uma irmã inocente.

Inteligente, Liberal Sampaio não se opõe directamente à relação e afirma complacente. Em ninguém veria com mais gosto brilhar as jóias da tua inolvidável mamã do que a em tua prima, para quem ela as guardava com tanto cuidado.

Mas a tua prima, que teve a infelicidade se ser criada sem mãe e a desventura de não ter por mestra uma tia que por ela se desvelaria, ensinando-lhe o governo doméstico, será a que mais convenha para tua esposa, isto é, para consorte da tua vida, para mãe dos teus filhos, para governante da tua casa?


Carta de Liberal Sampaio ao filho desencorajando-o do namoro com a prima


Além do problema da consanguinidade que Liberal Sampaio teria presente, saberia bem que a Elina, dama do Paço, com o curso superior de piano, discípula de Viana da Mota era demasiado fina, doce e impreparada para se enfiar numa aldeia transmontana, em Outeiro Seco, governar um solar e a respectiva criadagem ou a coadjuvar o marido na administração da casa agrícola.

Retrato de José Maria Ferreira Montalvão em 1902


Não sei se foram os conselhos do pai, se a oposição do tio ou se a própria Elina o desencorajou, mas o que é certo é que o meu bisavô desistiu da ideia e casou no ano a seguir, em 1903, com Ana da Conceição de Morais Alves, filha de um burguês rico de Chaves e foi um casamento feliz e longo, do qual resultaram muito filhos e a com efeito a minha bisavó Aninhas sabia governar uma casa grande. Quanto à Elina casou mais tarde em 1910, com outro primo, mais afastado, mas morreu dois anos depois, deixando um filho pequeno e não consta que tenha sido feliz.


Verso do retrato de José Maria dedicado à sua adorada Elina

Dos devaneios que o meu bisavô sentiu pela filha do general, sobressai um pormenor curioso. Maria do Espírito Santo tinha guardado as suas jóias para a sobrinha, filha de um irmão que se afastou dela, em consequência do escândalo causado pelos filhos que teve do Padre.

Estas cartas devolvem aos dias de hoje o modo de vida do último quartel do século XIX, através das palavras dos que viveram esses acontecimentos.

Alguma bibliografia:

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 200

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O gosto pela educação: os padres Liberal Sampaio e José Gonçalves Laje


José Gonçalves Laje


Já referi o Padre José Gonçalves Lage aqui no blog, como um homem das relações do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935). Na altura em que escrevi o texto, encontrei o seu retrato, que dedicou ao meu antepassado com uma acrisolada amizade, provavelmente entre 1875-1880.

No seu tempo, este Padre Lage foi uma personagem com a sua importância, desenvolvendo uma actividade como autor bastante significativa. Escreveu manuais escolares de história, geografia, literatura, retórica e linguística. Ao todo contei 23 títulos assinados por ele no catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, o Porbase. José Gonçalves Lage e Liberal Sampaio eram conterrâneos de Sarraquinhos, Montalegre e eram provavelmente parentes, pois a avó do meu antepassado era de apelido Lage.

Dedicatória do Padre Lage a Liberal Sampaio no verso do retrato



Recentemente localizei duas cartas escritas a Liberal Sampaio pelo Padre Lage, datadas de 30 de Dezembro de 1880 e 2 de Fevereiro de 1881, que serviram de motivo para investigar alguns dados biográficos daquele autor de manuais escolares e ainda me esclareceram sobre alguns aspectos da vida do meu trisavô.

No portal O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX), que é um extraordinário levantamento de todos os padres activos em Portugal, encontrei o registo do Padre José Gonçalves Lage, que me revelou a data exacta do seu nascimento, 10 de Março de 1838 em Sarraquinhos, Montalegre, filho de Bento Gonçalves Lage e Ana Goncalves Pelho e ainda consegui aproximar-me um pouco mais do ano da sua morte. Em 2020, quando escrevi sobre o assunto, referi que a última obra que assinou foi em 1901 as Noções elementares de geographia, chronologia e chorographia de Portugal, mas já adaptadas por L. Pinto da Rocha e que nesse ano já teria falecido. Ao consultar os registos da última paróquia de que foi cura, Vila Nova de Anços, concelho de Soure, distrito de Coimbra, apercebi-me que o último assento redigido pelo Padre Lage foi em 18 de Novembro de 1895. O primeiro assento de 1896 foi já assinado por um novo pároco José Maria Simões da Silva. Em suma, José Gonçalves Lage terá morrido entre finais de 1895 e 1901

O percurso do Padre Lage em O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX),



Na carta de 30 de Dezembro de 1880, dada em Coimbra, que dirigiu ao meu trisavô, que trata por tu, refere que Liberal terá muitas moedas em duplicado. Há aqui um lente meu amigo que anda fazendo uma colecção e a comprar a torto e a direito quantas lhes apareçam. Agradeço-te que cedas todas as que não que não te fizerem falta. Pede por elas o que entenderes e aí te será remetido (…) Tenho interesse em que cedas essas velharias de moedas duplicadas, não só porque te serão bem pagas, mas também porque desejaria satisfazer aquele lente, que é o meu amigo.

Na carta seguinte de 2 de Fevereiro de 1881, o assunto evoluiu e o Padre Lage escreveu Pelo que respeita às medalhas e moedas, desde já conto com elas, e provavelmente recebes as 100 libras pela colecção, mas é necessário elas virem à mostra. (…) Se fosse possível manda-las num caixote pregado por um almocreve para Braga, dali vinham facilmente para aqui. Eu respondo e comprometo-me por tudo. Pensarás e veremos se se pode resolver este problema com vantagem para os teus interesses e para as minhas conveniências. E digo minhas conveniências, porque as tenho em servir este homem.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881,



Naturalmente sabia que o meu trisavô Liberal Sampaio foi um numismata e uma parte da sua colecção chegou aos nossos dias, mas não fazia a ideia de que em 1880 já tinha reunido um conjunto significativo e de boa qualidade, pois 100 libras era uma soma muito considerável na década de 80 do século XIX. Segundo Jaime Reis em Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix, a moeda de ouro que circulava livremente no país tanto poderia ser a cunhada pela Casa da Moeda como a libra esterlina, cujo valor se fixava em 4$500 réis. Portanto 100 Libras equivaleriam a 450 000 réis, quase metade de um conto de réis. Não sei se Liberal Sampaio chegou a concluir o negócio, mas era vulgar os coleccionadores venderem parte ou a totalidade das suas colecções e voltarem a comprar mais tarde peças de melhor qualidade. Ainda há uns tempos pouco falar desse aspecto numa inauguração de uma exposição no MNAA, dedicada a Guerra Junqueiro, como coleccionador de arte.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



E no período em que estas cartas foram escritas, o meu antepassado precisava de dinheiro. Em 1879, sem dúvida em consequência de um certo escândalo provocado pelo nascimento do seu filho com uma fidalga de uma família muito conhecida de Chaves, perdeu o seu lugar de pároco de Outeiro Seco, deve ter caído em desgraça e feito os seus inimigos. Claro, ele lá tinha as suas terras lá por Montalegre que lhe dariam algum rendimento e a sua actividade de pregador, mas pela leitura destas cartas parecia realmente estar em apuros financeiros.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



Segundo, a breve biografia que a minha avó traçou dele, nestes tempos, entre 1879 e 1886, antes de ir para a Universidade de Coimbra, Liberal Sampaio Liberal Sampaio formou uma escola de em Outeiro Seco, onde ministrava latim, português, história e filosofia, mas nunca encontrei nenhum documento da época sobre a sua existência. Presumo que fossem aulas particulares.

Liberal Sampaio terá escrito uma carta ao Padre José Gonçalves Lage falando nessa escola e em resposta, a 2 de Fevereiro de 1881, o segundo viu a luta travada entre Liberal e esses gigantes. Nasceste para a luta e para a vitória. Não são capazes de te vencer e bem o estimo. (…) Aqui estou para te coadjuvar em tudo o que puder e com máxima lealdade.

Se os teus calouros tiverem de fazer exame aqui [em Coimbra] garantia-te muito bons serviços.

(…) lembro-te de que também em Braga te posso ajudar por causa dos teus calouros. Há ali uns professores novos para quem se arranjará daqui bons empenhos. Eu tomo pela tua causa tanto empenho como pela minha: a nossa causa é comum.

A eles, a eles! Por aqui também há santarrões como os missionários de Barroso. Creio nos homens bons. E estimo-os, mas quando são hipócritas…

O Padre Lage prossegue a sua carta, prontificando-se a apoiar a escola enviando livros, nomeadamente um Vírgilio e para português, remeterá uma Poética, obra da sua autoria, da qual modestamente diz. Não será boa, nem é completa, mas tem corrido muito e foi muito bem recebida. Foi adoptada nalgumas partes e tem salvado já muito calouro.

Anuncia que está a preparar uma gramática. Tem-me dado muito trabalho, mas está quase pronta. Julgo que há-de primar pela clareza. E com efeito, esta obra, que será publicada com o título Novissima grammatica portugueza, em 1882, é hoje ainda considerada um marco pelos especialistas, embora a sua restante obra esteja completamente esquecida.

Estas duas cartas permitiram-me conhecer um pouco melhor o Padre Gonçalves Lage, esse autor de manuais escolares do século XIX, mas sobretudo saber um pouco mais Liberal Sampaio como Numismata, que logo muito cedo, em 1880, já tinha uma colecção de moedas que valeria 100 libras. Achava que só mais velho, depois de se formar e de estabelecer como advogado em Chaves e alcançar mais desafogo económico é que se teria dedicado a colecionar moedas. Mas, pelo vistos, o seu o gosto pela história e antiguidades começou cedo e na região de Chaves era vulgar aparecerem muitos vestígios romanos. A segunda carta é o primeiro documento primário que encontro sobre a escola que Liberal Sampaio formou em Outeiro Seco, embora aqui apareça referida de uma forma indirecta. Só tenho pena de não ter acesso às cartas que o meu antepassado escreveu ao Padre Lage, onde certamente contou pormenores sobre a escola, as dificuldades e os sucessos e como funcionava. Mas os espólios documentais são por natureza truncados, só temos acesso à correspondência recebida, o resto há que deduzir.

Liberal Sampaio
Liberal Sampaio cerca de 1875



Bibliografia:

Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix / Jaime Reis
In
Análise Social, vol. xxix (125-126), 1994 (l.°-2.°), 33-54


Dr. Padre José Rodrigues Liberal Sampaio / Maria do Espírito Santo Ferreira Alves Montalvão Cunha
in
I Jogos florais de Montalegre. - Montalegre: Câmara Municipal de Montalegre, 1981. - 47-53 p.

O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX)

domingo, 16 de novembro de 2025

Uma dama desconhecida de um velho álbum de retratos carte-de-visite


Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto


Desde alguns anos para cá, tenho apresentado retratos de dois velhos álbuns carte-de-visite da família Montalvão, que a minha Ana Paula Vasques me ofereceu e com efeito, foram das prendas que mais gostei e mais prazer me deram na vida. Cataloguei sistematicamente todas as fotografias, mas há umas quantas sem legenda ou dedicatória, cuja identificação é praticamente impossível. Uma boa parte deles são retratos de senhoras, jovens ou meninas, que não fizeram nada de notável para que as suas fotografias constassem das páginas de uma enciclopédia, de um periódico ou de uma monografia regional. Também não posaram com uniformes militares ou trajes de estudantes de Coimbra, cujos elementos ajudariam à sua identificação. Usaram apenas as suas melhores jóias e vestidos e fizeram-se pentear à altura da ocasião do retrato, que era especial, pois a fotografia ainda era um luxo de gente abastada.

Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
A desconhecida uso um penteado à maneira da Imperatriz Eugénia do Montijo


Um desses retratos é o de uma senhora jovem, tirada na década de 70 do século XIX, nos estúdios de Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto. Encontro nelas algumas semelhanças com a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902). Os olhos grandes parecem-me os mesmos, bem como o nariz e os lábios, mas não tenho a certeza. Claro, nos retratos que tenho da minha trisavó e tenho 5 ao todo, ela parece ter os olhos mais claros e os cabelos mais claros, que o da desconhecida, mas as fotografias da época não reproduziam as cores e eram retocadas. Além disso as mulheres na década de 70 do século XIX, também alteravam a cor do cabelo, uma técnica imemorial, que já deve vir do tempo dos romanos ou dos gregos, pelo menos.

Inverti o retrato da desconhecida para o comparar com o da minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, tirado pelo pelo fotografo Tomás Aquino Pacheco


Pedi a opinião a um amigo meu, que sabe muito de fotografia e é observador, o Humberto Ferreira e foi de opinião que apesar de algumas semelhanças, uma e outra não são a mesma pessoa.


Poderia talvez esta retratada ser a irmã da minha trisavó, a Henriqueta, (14.10.1847-25.1.1873), que faleceu com 26 anos. Com efeito, esta desconhecida da fotografia em causa, parece estar penteada a um estilo anterior aos retratos da minha trisavó, ainda à maneira da Imperatriz Eugénia do Montijo, que ditou às modas na Europa entre 1853 e 1870 e portanto este retrato poderia sido tirado logo no início da década de 70. Mas não tenho nenhum retrato da Henriqueta Ferreira Montalvão para comprovar que esta desconhecida seja ela.

A imperatriz Eugénia do Montijo. ca. 1860-1870, fotografia de Olympe Aguado, Musée Carnavalet. Paris

Tentei datar a fotografia pelo verso, a marca do fotógrafo, que como referi é da Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto. O célebre fotografo Emílio Biel adquiriu a este estúdio a Joachim Friedrich Martin Fritz em data incerta, talvez 1874 que passou a designar-se Antiga Casa Fritz. O cartão apresenta também as marcas E.B e F.B., iniciais correspondentes a Emílio Biel e ao seu sócio Fernando Joan Martin Niels Brütt, que formaram sociedade em 1876. Em suma, as presumíveis datas da prova fotográfica são posteriores ao falecimento em 25 de Janeiro de 1873 da pobre Henriqueta, minha tia trisavó






Mais ainda, o verso das retratos, em que minha trisavó se fez fotografar com um elaborado penteado, bem à moda segunda metade da década de 70, também na Antiga Casa Fritz, são exactamente iguais aos da desconhecida.

Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão retratada na antiga Casa  Fritz



Antiga Casa Fritz, na Rua do Almada, nº 122, Porto
Retrato de grupo em que consta Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, também da Antiga Casa  Fritz



Portanto, pelas datas inferidas das provas fotográficas os retratos da desconhecida e os da minha trisavó são da mesma época, apesar dos penteados acusarem modas de períodos diferentes.

A última moda de penteados em 1875, ao mesmo gosto daquele usado pela minha trisavó nas fotografias da antiga Casa Fritz



Contudo, como o Emílio Biel ficou com a casa de Joachim Friedrich Martin Fritz é muito natural que tenha guardado os negativos da anterior gerência e alguém, talvez a Maria do Espírito Santo, tenha pedido uma nova prova de um retrato antigo da irmã, colada num cartão novo, com as marcas da nova firma.


Enfim, nada disto é conclusivo. Eu gostaria que esta dama fosse a Henriqueta, pois tenho curiosidade nesta figura. Tenho algumas cartas dirigidas a ela pelos outros dois irmãos, o António Vicente Ferreira Montalvão (1840-1919 ), o Miguel José Ferreira Montalvão (1838-1890) e parece ser sido uma pessoa com peso na família. Sei igualmente que era muito devota, através das cartas, que recebia com regularidade do Padre José Lopes de Oliveira Pojeira, cheias de pensamentos cristãos profundos. Mas, a história não é aquilo que nós desejamos e esta desconhecida poderá ser uma prima ou outra jovem qualquer amiga. Mas como estes retratos eram feitos em 8 exemplares, talvez alguma família originária de Chaves conserve uma fotografia desta dama desconhecida, mas identificado e venha parar aqui ao blog através de uma pesquisa no google. Já aconteceu por mais que uma vez.






Algumas ligações consultadas: