sábado, 4 de fevereiro de 2023

Uma xícara antiga da Vista Alegre


Já há muito tempo que apresentei aqui esta chávena e o respectivo pires, que comprei na feira da ladra há cerca doze anos. Embora não apresente nenhuma marca, na altura em que escrevi o texto, estava convencido de que se tratava de uma produção da Vista Alegre de meados do século XIX. A forma gomada, a decoração com florinhas e ao mesmo tempo uma certa simplicidade, pareciam características da Vista Alegre.

Não há qualquer marca no pires ou na chávena

Mas, um dia, recebi em casa uns amigos franceses, que gostam de coisas antigas e quando lhe mostrei o louceiro onde arrumo os açucareiros, os bules, os pratos e as chávenas da Vista Alegre, disseram-me sem margem para duvidas, que esta chávena era francesa, produção de Paris e a dúvida armazenou-se na minha cabeça. Com efeito, o largo filete dourado que corre ao longo da orla das peças corresponde um pouco ao gosto pronunciado pelos dourados da porcelana francesa do século XIX

Posteriormente, jantei em casa de um amigo, que tem coisas antigas e além disso é também um genealogista. Na sala de jantar, tem um prato com o mesmo motivo decorativo pendurado na parede. Virei-o, não apresentava marca, mas o meu amigo Alfredo disse-me que era uma peça herdada e que na família sempre se disse que era Vista Alegre. Foi pena não ter tirado uma fotografia do prato, mas na altura ainda tinha um telemóvel pré-histórico e contentei-me em grava-lo na memória.

Como tenho muita louça da Vista Alegre, ando sempre a rever as publicações, que foram saindo sobre o assunto, na esperança de encontrar sempre uma informação, que me tenha passado desapercebida. Infelizmente, essas obras repetem o conteúdo umas das outras e não tem sido editado nenhum estudo inovador, que compare as produções da Vista Alegre, com as outras fábricas européias, sobretudo com as francesas. Isto pelo menos para o século XIX, que é o período da Vista Alegre que me interessa mais. Também não existe um catálogo sistemático das formas e decorações dessa fábrica de Ílhavo. Ultimamente ando a convencer-me que o melhor livro que saiu sobre esta marca, continua a ser “A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924”. Só é pena ter poucas ilustrações e de fraca qualidade. Mas para 1924, o ano da sua publicação, tudo aquilo era um verdadeiro luxo editorial.


Ao folhear essa obra mais uma vez, encontrei na estampa XVIII a reprodução de um serviço que parece apresentar o mesmo motivo decorativo que a minha xícara. Na página 32, da mesma obra, indica-se, que se trata de um serviço de chá polícromo, do Exmo Sr. Dr. Egas Moniz, Lisboa; e peças iguais do Exmo. Sr. Marques Gomes, Aveiro, 1840-1852 VA a ouro. É certo, que as asas das chávenas deste serviço são diferentes da minha, que se apresenta no chamado formato London shape, mas a Vista Alegre fabricou neste período xícaras com esse formato.



Em suma, a minha chávena e pires parecem ter sido produzidos entre 1840-1852 pela Vista Alegre.

Serviço de café de porcelana de Paris. Foto retirada de https://www.pamono.eu/antique-porcelain-tea-service-paris-set-of-14

Contudo, as minhas dúvidas persistem. Numa simples pesquisa por imagens no Google, num site de vendas on-line francês encontrei um serviço de café de porcelana de Paris com uma decoração quase igual. Mas a porcelana francesa tem sempre um brilho mais vítreo que a portuguesa.

Ambas as chávenas assentam ligeiramente inclinadas para a direita.

Por outro lado, esta xícara tem também uma particularidade. Se a assentarmos no pires fica ligeiramente inclinada para a direita. Eu até tenho que pôr um papelinho dobrado por debaixo para ficar direita no louceiro. No início, achei que era um defeito de fabrico, mas tenho outra chávena, decorada com flores e um passarinho, que tem exactamente a mesma característica de assentar ligeiramente inclinada. E essa está belissimamente pintada e não pode ser um defeito de fabrico. Aliás, é outra peça sobre as quais tenho dúvidas se é Vista Alegre ou porcelana de Paris. Creio que esta inclinação era intencional e terá a ver com qualquer razão ergonómica, talvez para ser mais fácil beber o chá ou para verter os restinhos do chá para a taça de pingos, quando as pessoas se queriam servir de mais.

Enfim, esta minha chávena parece ser da Vista Alegre, executada entre 1840-1852 e creio que demonstra bem as fortes influências da porcelana francesa nas produções da fábrica de Ílhavo.



Bibliografia e ligações consultadas:

A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Procurando as origens: a tia Bia de Soutelo

 
Trecho do inventário dos bens do Solar da família Montalvão em Outeiro Seco

Pouco depois da morte do meu bisavô, em 1965, a minha avó Mimi fez um inventário dos bens do Solar da família Montalvão em Outeiro Seco. É um documento que costumo consultar com frequência e um dia destes ao reler outra vez aquelas linhas encontrei referência dois crucifixos, um com o Cristo em marfim e outro em Madeira, que vieram da casa de Soutelo. Na altura, a minha avó Mimi, não se deu ao trabalho de explicar que casa era aquela, pois para ela e toda e toda a família isso era óbvio. Fiquei muito intrigado com esta casa de Soutelo, de que nunca tinha ouvido falar. Sabia que os meus bisavôs, além do solar de Outeiro Seco tinham outra casa em Chaves, no bairro da Madalena, encostada ao rio Tâmega onde passavam o inverno e com efeito, a minha avô menciona objectos que vieram dessa residência. Também era natural que tivessem uma ou outra coisa da Casa de Santo Estevão, dos Morais Sarmento, através da herança da minha trisavó, cuja mãe pertencia a essa família. Mas a minha avó nunca refere nada no inventário, que tivesse vindo da casa dos Morais Sarmento.

Pouco tempo depois falei ao telefone com a prima Lili, que é ainda única pessoa do ramo Ferreira Montalvão, que ainda vive em Chaves e perguntei-lhe se sabia alguma coisa dessa casa em Soutelo. A Lili lembrava-se de ouvir a sua mãe contar histórias acerca de uma Tia Bia, casada com um Domingos, que viviam em Soutelo e eram visita frequente do Solar, quando a minha avó e os meus tios avôs eram crianças, isto ter-se-á passado nos anos entre os anos 1905-1920. Nesse tempo, depois do jantar, como era vulgar nas famílias da época, rezava-se o terço. E durante a ladainha, Pai Nosso que estás no céu…, a tia Bia interrompia a oração e perguntava ao meu bisavô, Ó Jejé, este ano como foi a apanha da castanha?. Depois continuava a reza e a tia Bia voltava a perguntar, Ó Jejé, este ano como foi a colheita do centeio? e assim sucessivamente, ao longo de todo o terço, ia parando as orações com as mais diversas perguntas sobre o ano agrícola na quinta de Outeiro Seco. Claro, a certa altura era uma risota entre as crianças.

Mas apesar destes esclarecimentos fiquei sem saber a que ramo pertencia esta tia Bia de Soutelo. A Lili afirmou-me que a Tia Bia não era do lado da minha bisavó, gente que tinha casa em Mairos, outra localidade perto de Chaves, nem do lado dos Morais Sarmento, que como já referi, estavam em Santo Estevão, aldeia próxima de Outeiro Seco, na margem direita do Tâmega. Tão pouco consegui perceber que nome se escondia por detrás do diminutivo Bia. Seria uma Beatriz?

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão

Entretanto comecei a inventariar as cartas e os documentos dessa época e senti a necessidade saber mais sobre a família de Liberal Sampaio, meu trisavô, um padre, que manteve uma relação amorosa com uma fidalga do Concelho de Chaves, da aldeia de Outeiro Seco, a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão. Aliás este par ocupa quase sempre um lugar importante nas narrativas de história familiar deste blog. Gosto sempre de pensar neles, como uma espécie de Ana Plácido e Camilo Castelo Branco, embora saiba perfeitamente, que a vida dos meus antepassados não teve nada de arrojado ou de tão chocante, como essa paixão do grande escritor português. As cartas que esses meus antepassados trocaram entre si são na maior das vezes de assuntos correntes, o governo da casa agrícola, a poda da vinha, a construção do poço ou de um muro, a venda do cereal, a compra de uma égua ou a educação do filho, que tiveram juntos. 

O primeiro bilhete de identidade do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, de 21 de Abril de 1927 

Mas regressando ao assunto da família do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio nasceu em 29 de julho de 1846 em antigo de Sarraquinhos, perto de Montalegre, filho de António Rodrigues Sampaio e de Maria Gonçalves Liberal. Se de facto, a mãe era natural de Antigo de Sarraquinhos, Montalegre, o pai nasceu em Soutelo, já no Concelho de Chaves. Em suma a família paterna do meu trisavô era de Soutelo e na correspondência do espólio fui encontrado referência a parentes nessa aldeia. Há duas cartas de um primo, Manuel Rodrigues Sampaio, proprietário de um estabelecimento comercial em Soutelo. Na primeira missiva de 2 de Fevereiro de 1899 dá notícias sobre vários parentes naquela terra e informa que vendeu casas em Outeiro Seco e comprou uma em Soutelo por 30 libras. O meu próprio trisavô foi pároco em Soutelo, pelo menos entre 1914 e 1917. Soutelo e Outeiro Seco são aldeias próximas e pelos vistos o meu antepassado manteve uma ligação à terra paterna.

Antigo de Sarraquinhos, Soutelo e Outeiro Seco são terras próximas

Entretanto, foi tratando o espólio familiar e nas cartas, que o meu bisavô escreveu de Coimbra para a mãe, mencionou muitas vezes a Bia. Mandava recados à Bia, perguntava pela Bia e em 11 de Dezembro de 1900 escreveu mesmo Se a Tia Bia quiser os ingredientes para a gomagem, que mande os mercenários cobres, pois estou o que em calão académico, se chama depenado. Igualmente nas cartas que Liberal Sampaio dirigia minha à trisavó, refere também a Bia. Percebi através destas referências que a Bia era presença frequente no Solar de Outeiro Seco ou até que passaria por lá temporadas.

Ao mesmo tempo ia progredindo no tratamento do espólio e encontrei algumas cartas da irmã de Liberal Sampaio, de que já conhecia a existência, a Maria Rodrigues Sampaio, minha tia-trisavó. Numa delas, datada de 7 de Abril de 1889 escreve ao irmão, que se encontrava em Coimbra, juntamente com filho, dando notícias da casa agrícola “a podada já está feita e inda se faz em Março. A égua anda cheia e anda muito gorda, graças a Deus” e no final envia recados da prima Sampaio e do tio de Soutelo e pede que deia muitos beijos ao menino da sua Bia. Afinal, a tia Bia era a irmã de Liberal Sampaio, a Maria Rodrigues Sampaio. Bia não era o diminutivo de Beatriz, como era suposto, mas um desses petits noms, sem sentido, criado por algum irmão ou por uma mãe enternecida enquanto amamentava a criança e que muitas vezes acompanham as pessoas durante uma vida inteira.


Carta de Maria Rodrigues Sampaio, datada de 7 de Abril de 1889, escrita ao irmão. 

Depois de ter obtido destas informações fiz algumas pesquisas no motor de busca do arquivo Distrital de Vila Real por Maria Rodrigues Sampaio e encontrei referência a um processo de inventário obrigatório de um tal Domingos Afonso da Cruz, cuja inventariante foi Maria Rodrigues Sampaio, com a data de 1907. Consultei o registo de óbitos desse ano e no dia 25 de Abril faleceu Domingos Afonso da Cruz, comerciante, casado com Maria Rodrigues Sampaio, ambos residentes em Soutelo. Encontrei também um testamento de 1912 da Maria Rodrigues Sampaio, de 1912, dado em Soutelo e finalmente outro processo de inventário obrigatório de 1933, data em que esta minha tia trisavô terá morrido e cujo inventariante foi Domingos Afonso da Cruz, certamente o filho, que tinha o mesmo nome do pai. Portanto, estes dados batem certo com história que a prima Lili contou. A tia Bia vivia em Soutelo e era casada com um Domingos.

O assento de óbito de Domingos Afonso da Cruz, o marido da tia Bia

O episódio, que a prima Lili contou sobre a Tia Bia, que interrompia constantemente o terço com perguntas sobre o ano agrícola, coincide com as preocupações que esta manifestava nas suas cartas. Aliás, o irmão, o meu trisavô o Liberal Sampaio, assemelhava-se nestes cuidados, estava também sempre a escrever a minha a trisavô com inúmeros conselhos sobre o governo da casa agrícola, como a as vindimas, égua, que estava prenha, ou com o cereal, que poderia apodrecer, antes de ser vendido. Estas cartas revelam-nos um mundo de gente, que vive da terra.

Descobrir quem foi esta tia Bia de Soutelo, permitiu-me conhecer um pouco sobre o estatuto social da família Liberal Sampaio, que não tinham de todo os pergaminhos dos Montalvões ou as suas extensas propriedades, mas em todo o caso, não seriam tão humildes, como acreditava até há pouco tempo, pois a Tia Bia ou a Maria Rodrigues Sampaio sabia ler e escrever, o que é um indicador de um certo desafogo económico nesta época. Em 1878, taxa de analfabetismo feminino era de 89,3 por cento, conforme indica Irene Vaquinhas, em Senhoras e Mulheres" na sociedade portuguesa do século XIX. A tia Bia fazia parte de uma minoria de cerca de 10 por cento das mulheres portuguesas.

A partir destes dados começo a entrever melhor a figura do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que desde muito jovem, me ensinaram a admirar e em cujo retrato reconheço as feições do meu pai e do meu próprio filho.



Bibliografia consultada:

"Senhoras e Mulheres" na sociedade portuguesa do século XIX / Irene Vaquinhas. 1a ed. Lisboa : Colibri, 1999. ISBN 972-772-112-5.

Processo de Inventário obrigatório de Domingos Afonso da Cruz, 1907
Arquivo Distrital de Vila Real
PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-C/082/352

Testamento público de Maria Rodrigues Sampaio, 1912
Arquivo Distrital de Vila Real
PT/ADVRL/NOT/CNCHV2/007/297/24

Processo de Inventário obrigatório de Maria Rodrigues Sampaio, 1933
Arquivo Distrital de Vila Real
PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-C/082/1028

Registo de óbitos de Soutelo, 1889-01-17 – 1911-11-14
Arquivo Distrital de Vila Real

sábado, 7 de janeiro de 2023

Uma panela de barro que não deu ouvidos à panela de ferro


Recordo-me que num dos livros de leitura da antiga instrução primária, já não me recordo se da terceira ou da quarta classe, havia uma história sobre duas panelas, uma de barro e outra de ferro. A de ferro desafiou a panela de barro a irem dar um passeio, garantindo-lhe que a protegeria de qualquer perigo com toda a fortaleza da sua constituição metálica. E lá se meterem as duas a caminho, só que com os solavancos do caminho irregular, as duas panelas acabaram por chocar e a de barro quebrou-se numa dúzia de pedaços. Na altura, teria eu os meus 8 ou 9 anos, fiquei com muita pena da panela de barro. Os miúdos preferem sempre histórias com finais felizes.

Mas estes textos dos manuais de leitura da antiga escola primária marcavam-nos sempre muito Éramos muito pequenos e cada um deles ocupava um ou dois dias de aula, com a leitura em voz alta, o estudo do vocabulário, a cópia e finalmente o ditado, que significava sempre uma ou outra reguada. Por cada erro no ditado o professor batia-nos com a régua na mão e umas quantas faltas de acentos equivaliam a uma ou outra reguada suplementar. Naquela época e isto passou-se mais ou menos em 1971 ou 1972, os castigos físicos em correntes no ensino primário oficial.



Só já em adulto, é que recordando esse texto, me apercebi do seu significado, a chamada moral da história. Temos que conhecer as nossas limitações e não nos deixarmos influenciar pelos mais fortes e correr aventuras e perigos, para os quais não temos capacidades para nos defender.

Há uns anos, quando o meu amigo Manel comprou esta panela de barro na feira de Estremoz recordei-me outra vez dessa história de um antigo livro de leitura da instrução primária, fiz alguma pesquisa sobre o assunto e descobri que esse texto era uma adaptação de uma das fábulas de La Fontaine. Confesso que imediato, comecei a criar uma história para esta panela que sobreviveu até aos nossos dias. Quando foi comprada era uma bonita peça de barro e que foi muito usada, pois o vidrado está todo estragado um pouco por todo o lado. Mas, por qualquer razão nunca se partiu, talvez porque a sua dona fosse muito cuidadosa ou talvez porque esta panela fosse muito sensata e nunca se tenha posto à aventura na companhia de uma panela de ferro. Mas, o mais certo, é que um dia tenha sido retirada de uso, quando a sua dona recebeu de presente de uma filha ou nora um trem de cozinha de panelas e tachos de esmalte decorados com flores. Recordo-me que nos anos 70, mais ou menos na altura em li esse texto, os trens de cozinha em esmalte eram o supra-sumo da barbatana. Esses trens de cozinha eram muito mais baratos em Espanha do que em Portugal e a minha mãe comprou um no país vizinho, decorado com umas flores cor-de-laranja e que antes de atravessarmos a fronteira, o meu pai escondeu no atrelado, debaixo da tenda de campismo, não fossem os guardas alfandegários, implicar com o trem de cozinha, apreende-lo ou fazer-nos pagar direitos aduaneiros. Recordo-me bem do ar tenso e preocupado do meu pai no momento que cruzamos a fronteira entre Portugal e Espanha. O meu pai era um legalista, um homem cumpridor da Lei e passar aquele trem de cozinha à revelia dos guardas fronteiriços não o deve ter deixado muito confortável.

Mas voltando a panela de barro desconheço onde foi produzida e quando. Como foi comprada em Estremoz talvez tenha sido feita numa olaria algures no Alentejo. Quanto à época em que saiu do forno, é ainda mais difícil atirar com hipóteses, já que as formas na olaria são quase sempre imemoriais. Mas imagino, que não deva ser muito antiga, já que esta louça de barro para cozinhar facilmente se quebrava, contra os potes de ferro, ou em virtude das diferenças de temperatura extremas ou ainda porque escorregava das mãos enquanto era lavada. O mais certo é ser do início dos anos 70, do tempo em que li a fábula de La Fontaine no livro de instrução primária, quando os castigos físicos eram prática corrente e moralmente aceitáveis na educação em Portugal e não havia livre circulação de pessoas e bens entre Portugal e Espanha. Mas também de um tempo em que a modernidade já se anunciava e uns dois anos depois em 1974, tudo se começou a transformar em Portugal e esta panela de barro foi remetida para um escaparate, como decoração típica.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Um açucareiro de porcelana inglesa do início do século XIX



Comprei esta peça na feira de Estremoz por um preço muito convidativo. Está decorada a preto, ou melhor ainda num grisaille, com quatro motivos diferentes, representando camponeses, alguns deles tendo por fundo umas paisagens, que parecem ser inglesas. Há apenas uns filetes dourados aqui e acolá. A peça não está marcada e apresenta apenas na base um número, 979, seguido de um ponto, que se deve reportar ao padrão.

Pattern 979.


Apesar de não ter a marca de um fabricante, a peça desde logo me pareceu inglesa, do início do século XIX. Quanto à forma, semelhante a uma pequena terrina, pensei tratar-se de uma mostardeira, mas com meia dúzia de pesquisas, rapidamente me convenci que era um açucareiro.

Como estive doente, com uma gripe, retido em casa alguns dias lancei-me numa pesquisa desenfreada na internet e creio que bati todos os sites de venda on-line de antiguidades, bem como toda a colecção de porcelana Victoria & Albert Museum e não obtive resultados conclusivos.



Quando temos uma louça, que acreditamos ser inglesa, mas não está marcada, as dificuldades de identifica-la na internet são grandes. Enquanto que em Portugal, ao longo do século XIX tivemos uma única fábrica de porcelana, em Inglaterra para o primeiro quartel deste século, laboraram quase uma vintena delas. A produção dessas empresas é por vezes semelhante quanto às formas e à decoração. Enfim, todas seguiam as mesmas modas, procurando satisfazer o gosto neoclássico do público.

Neste período, para aumentar as dificuldades na pesquisa, alguns fabricantes, a par da porcelana propriamente dita, produziam a bone china (na composição entravam ossos), a porcelana branda, a porcelana feldspática, enfim, tudo aquilo, que normalmente se designa por porcelana imperfeita.

Por outro lado, tal como acontecia em França, no mesmo período, há casos de fabricantes de porcelana, que entregavam as suas peças em branco, para outros as decorarem. Embora, não me parece o caso deste açucareiro, que tirando os filetes dourados, não foi pintado à mão. As paisagens com os camponeses parecem-me feitas por transfer-way, isto é, uma chapa de metal com o desenho, que era impressa sobre um pano, que depois era aplicado na peça.


Por último, as nossas pesquisas na internet ficam limitadas ao que se encontra à venda no momento. Claro, os ingleses têm a sua porcelana bem estudada, mas eu tenho não acesso a essa bibliografia. No google books encontrei algumas monografias sobre fábricas inglesas dessa época, como sobre a New Hall, a Herculaneum ou a Worcester, mas só consegui ler alguns capítulos.

Em termos práticos, depois de vasculhar toda louça inglesa à venda na internet e os inventários de alguns museus, encontrei uns quantos açucareiros com a forma exactamente igual ao meu e todos eles da Herculaneum, uma fábrica de Liverpool, que laborou entre 1783 e 1841. Depois de 1800 terá começado a produzir porcelana ou a Bone China. No entanto as decorações são diferentes da minha peça.
Açucareiro da Herculaneum. Decoração concebida pelo ilustrador Samuel Williams. Imagem de https://www.artfund.org/supporting-museums/art-weve-helped-buy/artwork/9931/tea-service




Açucareiro da Herculaneum à venda na Fine Antique English Porcelain, com o padrão 1161

Tal como já referi em outros posts, nos serviços de chá, nem todas as peças eram marcadas. Os fabricantes marcavam ora o bule ora a leiteira ou açucareiro e nas restantes peças, não punham nada ou punham um número, que se reportava ao padrão decorativo. Estes números são muito característicos da produção inglesa e reportavam-se a livros, com os desenhos ou às chapas de metal, com os ornamentos gravados. Alguns desses livros e desenhos sobreviveram até aos nossos dias, outros foram reconstituídos artificialmente por investigadores, como foi o caso da New Hall

Como o número de padrão do meu açucareiro é relativamente alto, 979, seguido de um ponto, presumo que não date dos primeiros anos de laboração da Herculanem. Encontrei um serviço desta fábrica à venda na Christie, com o padrão 878, datado de cerca de 1815. Portanto, seguindo essa lógica este açucareiro terá sido executado por volta de 1820 ou mais tarde.


Serviço da Herculaneum à venda na Christie, com o padrão 878

Quanto a padrão, o 979, do qual não encontrei informação nenhuma, pode eventualmente relacionar-se com algumas peças da fábrica de Liverpool, cuja decoração foi concebida, por um ilustrador muito prolixo, um tal Samuel Williams (1788-1853). Há um certo ar de família entre estas paisagens com camponeses, que decoram o meu açucareiro e outras peças decoradas a partir dos seus desenhos, mas isto é um palpite meu, enfim, uma intuição.

Chávena da Herculaneum com decoração atribuída a Samuel Williams

Em suma, depois de horas esquecidas na internet, posso apenas adiantar uma hipótese, de que este açucareiro, foi fabricado em Inglaterra, pela Herculaneum, por volta de 1820 ou 1825, com uma decoração concebida pelo ilustrador Samuel Williams, mas posso estar redondamente enganado.



Alguma bibliografia e sites consultados

The Herculaneum Pottery: Liverpool's Forgotten Glory / Peter Hyland Liverpool University Press -Liverpool University Press, 2005

https://janeaustensworld.com/tag/regency-painter/

https://www.artfund.org/supporting-museums/art-weve-helped-buy/artwork/9931/tea-service

https://www.antiquepottery.co.uk/set-of-6-herculaneum-liverpool-arcaded-border-pottery-plates/

https://www.fineantiqueenglishporcelain.co.uk/en-GB/19th-century-english-porcelain/a-rare-herculaneum-liverpool-porcelain-sugar-box-teapot-stand-c-1810/prod_10411#.Y6XNaNXP23B

https://www.thefancyfox.co.uk/en-GB/cups-coffee-cans-tea-bowls-saucers/herculaneum-samuel-williams-style-coffee-can-c-1810/prod_10353#.Y6XSQdXP23A

https://www.christies.com/en/lot/lot-4039004

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A inauguração da linha férrea Liverpool Manchester em 1830: faiança inglesa



Já há uns quantos anos comprei este jarro de faiança inglesa com uma decoração muito invulgar. Normalmente a faiança inglesa do século XIX era decorada com vistas, paisagens com lagos, ruínas, castelos românticos, catedrais góticas ou cenas italianas, umas mais ou menos reais outras imaginadas. Contudo, este jarro foi decorado com um antigo comboio, cuja composição se estende ao longo de toda a peça.



Quando a adquiri, fiz alguma investigação no google sobre ela, mais o que encontrei com esta decoração do comboio foram peças relativamente recentes, marcadas Made in England. Quando encontramos esta marca de proveniência numa peça, já sabemos que é do século XX e muito certamente depois de 1921. Embora algumas fábricas já a usassem depois de 1908, como a Wedgwood, foi depois de 1921, que os americanos regulamentaram uma Lei de 1890, o Tariff act, impondo aos diferentes fabricantes, que quisessem vender os seus produtos nos EUA, a apresentação da marca com expressão MADE IN, seguida do país de origem. Em suma, achei que este jarro era uma coisa do século XX, feita ao gosto do século XX, para satisfazer o gosto de clubes de coleccionadores de assuntos ferroviários, mas mesmo assim, achei-a sempre tão curiosa, que não me consegui desfazer dela.


Há poucas semanas quando procurava informações sobre uma mostardeira de porcelana inglesa, folhei a obra An illustrated encyclopedia of British pottery and porcelain / Geoffrey A. Godden e encontrei reproduzida uma caneca com este motivo do comboio, do segundo quartel do século XIX, fabricada por John & Richard Godwin, marcada com as iniciais impressas. Na mesma obra adiantava que vários fabricantes ingleses produziram variedades deste motivo nas décadas de 30, 40 e 50 do século XIX, usando quase sempre as inicias dos nomes impressas. Fiquei muito feliz achando, que o meu jarro poderia afinal ser uma peça antiga, executa no segundo quartel do século XIX.

A página do Science Museum Group


Procurei então saber mais sobre este motivo delicioso do comboio e encontrei a página do Science Museum Group, no Reino Unido, que como o seu nome indica, agrupa vários museus de ciência, tecnologia, indústria e ainda ferroviários. Na colecção deste grupo de museus encontrei uma série de canecas e malgas todas com o mesmo motivo decorativo do comboio, datadas entre 1830 e 1850 e todas elas são alusivas à inauguração da primeira linha ferroviária do mundo ligando duas cidades, Liverpool e Manchester, em 1830. Esta linha foi um feito notável, que implicou a construção de tuneis, viadutos e toda uma série de obras de engenharia e deve ter impressionado muito quem viveu o acontecimento e os fabricantes de cerâmica, aproveitaram a ocasião para vender umas recordações aos passageiros ou até mesmo às pessoas, que apenas acompanharam o acontecimento através dos jornais.

Inauguração da primeira linha ferroviária do mundo ligando duas cidades, Liverpool e Manchester, em 1830. Imagem retirada de https://collection.sciencemuseumgroup.org.uk


Só é pena que as peças de faianças da colecção Science Museum Group estejam tão sumariamente descritas, nas mais das vezes, sem referência às marcas.

As marcas impressas do meu jarro Railway B&B

O meu jarro apresenta as seguintes marcas impressas na base: uma cartela, indicando o nome do padrão, railway; seguida das iniciais B&B. O conjunto é semelhante da John and Robert Godwin e praticamente idêntico ao da Hampson Broadhurst, mas confesso que aqui, nesta questão das marcas e das suas iniciais me perdi um bom bocado, apesar do recurso ao incontornável site thepotteries.org. A indústria de faiança inglesa no século XIX era um mundo, as companhias, mudavam de nome, associando-se a outras e depois a mais outras e as iniciais das marcas vão se alterando.

Marcas da John and Robert Godwin


Marcas da Hampson Broadhurst


Contudo, talvez o mais provável é que as iniciais B&B, correspondam a Bates & Bennett, (1868-1895), que sucedeu a John & Robert Godwin (1834-1866) e este último fabricou este padrão com toda a segurança, mas isto pode ser um palpite.

O sucesso deste padrão terá ultrapassado o segundo quartel do século XIX e continuou a produzido na segunda metade desse século, como será o caso deste meu jarro. Já na segunda metade do século XX, a Portland relançou este padrão do comboio, mas as cores são muito estridentes, a faiança demasiado branquinha e sem a graça das peças antigas.

O nome da locomotiva vai variando consoante a fábrica de de cerâmica. No meu jarro é Express


Em jeito de conclusão este meu jarro terá sido fabricado pela Bates & Bennett, entre 1868-1895 e representa a inauguração da primeira linha ferroviária do mundo a ligar duas cidades, em 1830.



Alguma bibliografia e ligações consultadas:

illustrated encyclopedia of British pottery and porcelain / Geoffrey A. Godden. - London : Jenkins, 1966

https://www.premierantiques.co.uk/large-hampson--broadhurst-pottery-commemorative-railway-mug-c1840-5327-p.asp

http://www.thepotteries.org/allpotters/71.htm

https://www.rubylane.com/item/454213-TA14045/Antique-19th-Century-Staffordshire-Mug-Railway

https://www.grahamsmithantiques.com/miscellaneous-c3/sold-archive-c42/staffordshire-pottery-railway-tankard-p1466

https://collection.sciencemuseumgroup.org.uk/objects/co8405502/commemorative-mug-fury-locomotive-liverpool-manchester-railway-commemorative-mug

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Uma jarra em opalina do século XIX



Recentemente, comprei esta jarra em opalina decorada com elementos vegetais e insectos por um preço muito convidativo. Embora, não apresentasse qualquer marca, pareceu-me de imediato uma coisa francesa dos finais do século XIX. Os franceses foram os principais fabricantes de opalina no século XIX e invadiram os mercados europeus e americanos com as suas criações.

Apesar da ausência de uma marca tentei descobrir algumas informações sobre esta jarra na obra L'opaline française au XIXe siècle de Yolande Amic, mas sem resultados e de seguida lancei-me no Google fazendo pesquisas em francês pelos termos opaline decoration insectes e fleurs XIX siécle, mas também não encontrei nenhuma peça com a mesma decoração ou forma. Repeti a pesquisa em inglês, para apanhar os sites de venda on-line de antiguidades dos EUA, pois os americanos adoram tudo o seja francês. Encontrei duas jarras exactamente com o mesmo formato, mas estavam identificadas como blue bristol glass. Enfim, fiquei um pouco surpreso, mas Bristol foi um centro vidraceiro muito importante no Reino Unido, que fabricou também vidros mais ou menos semelhantes às opalinas francesas, bem comos os chamados milk glass.




Resolvi então recomeçar as minhas pesquisas pelos termos blue bristol glass vase, até que cheguei ao portal de antiquários americano, o Rubylane, que é sempre muito bom. Os comerciantes que aqui colocam as suas mercadorias à venda conhecem bem antiguidades, devem ter bons peritos a aconselha-lhos e as atribuições, que fazem são normalmente fiáveis, ao contrário do e-bay, onde as informações sobre peças à venda não são de confiança, pois é o sítio onde o senhor-toda-gente, anuncia as tralhas, que tem à venda lá em casa e tudo o que é do século XIX é classificado sumariamente como vitoriano.



No referido Rubylane estavam à venda duas destas peças com estes motivos de flores, passáros e insecto e nas respectivas descrições, esclareciam que no mercado americano as opalinas deste azul, são invariavelmente classificadas como Blue Bristol glass, quando na verdade essas peças em azul-turquesa eram fabricadas na Boémia, a actual república Checa. Refiz novamente a minha pesquisa e percebi que a há uma confusão generalizada nesta matéria. Por exemplo, no Worthpoint estava à venda uma destas jarras com flores, pássaros e insectos classificada como antique french bohemian blue opaline glass. Isto é, em algumas páginas de internet estas peças são designadas como vidro azul de Bristol e noutros com opalina francesa em azul da Boémia.

Continuei as minhas buscas no Google e fui-me apercebendo que estas opalinas são com efeito de origem chega e muito provavelmente da fábrica de Harrach, situada numa localidade a Norte de Praga, Harrachov e cujas origens remontam ao século XVIII. Ao longo de todo o século XIX esta fábrica teve um enorme crescimento, exportando muito dos seus produtos para o estrangeiro, mas adaptando-os ao gosto dos mercados locais, como foi o caso da Inglaterra, onde os produtos checos apresentavam uma tonalidade azul ao gosto de Bristol. De tal forma esta adaptação foi bem-feita, que muitas vezes torna-se difícil distinguir os produtos checos dos ingleses.

Decorações típicas da produção Harrach das décadas de 80 e 90 do século XIX. Imagem retirada de https://www.sellingantiques.co.uk/379276/stunning-19thc-large-15-bohemian-turquoise-oapline-glass-vase-enamel-decoration-flowers-butterflies/


Em todo o caso, as borboletas, pássaros e insectos combinados com flores e plantas foram decorações típicas da produção Harrach das décadas de 80 e 90 do século XIX.

Há uma excelente página sobre as produções Harrac, o Mad about the glass, para quem queira saber mais sobre esta página um vídeo no youtube feito por uma amadora de antiguidades que experimentou exactamente as mesmas dúvidas que eu perante uma jarra em azul de Bristol

Em suma, esta jarra que comprei estando quase certo de que seria francesa, é designada no mercado americano como blue Bristol Glass, mas terá sido mais provavelmente fabricada na Boémia por volta das décadas de 80 ou 90 do século XIX.



Alguma bibliografia e links consultados:

Bristol and other coloured glass / John Bedford. - London : Cassell, cop. 1964

L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952.

Cristal da Boémia / Vlastimil Vondruska, Antonin Langhamer. - Alfragide : EDICLUBE, 1997












sábado, 26 de novembro de 2022

Uma figurinha em biscuit da Goebel Porzellan

Apesar de já ter jurado a mim próprio ser mais comedido nas minhas compras de velharias, acabo sempre por me deixar tentar por uma peça bonita à venda por um preço vantajoso e lá volto para casa com mais um traste e depois vejo-me grego para lhe arranjar lugar. Para que as peças façam sentido e sejam agradáveis à vista convém dispô-las por famílias, por épocas ou por materiais.


Comprei então este biscuit, que representa uma jovem e uma menina, vestidas de camponesas, cada qual com o seu cestinho. É uma peça sentimental, muito característica da produção alemã dos finais do século XIX e inícios do século XX. A grande maioria dos biscuits alemães não apresenta qualquer marca de fabrico. Quanto muito ostentam na base um número, que se reporta certamente ao modelo. Consigo identificar que são alemães, porque desde há doze anos para cá vasculho todas as páginas de vendas de antiguidades na internet à procura de biscuits e aprendi a conhecer-lhe as características. Mas na Alemanha houve centenas de fábricas de porcelana e é um mundo no qual nos perdemos. Para aumentar a dificuldades, os austríacos também fabricaram biscuits, bem como os checos e alguns dos fabricantes deste último país usavam nomes alemães. Mas desta vez tive sorte e este biscuit, além do número da série, o 7872., apresenta uma marca do fabricante, as iniciais W e um G ou C, encimadas por uma coroa.

As letras W e G encimadas por uma coroa

7872
O número da série ou modelo, o 7872

Lancei-me então numa pesquisa intensa na internet e não foi fácil, pois marcas com iniciais encimadas por coroas há centenas delas pela Europa fora. Enfim, muitas empresas nos finais do século XIX ou início do século XX escolhiam coroas nas marcas, para parecer que eram fornecedores oficiais de alguma casa real. Consultei também alguns livros de marcas de cerâmica de que disponho na biblioteca, mas em vão, até que por mero acaso na internet descobri que as iniciais WG encimadas por uma coroa foram usadas pela Goebel Porzellan, uma fábrica que ainda existe nos nossos dias. As letras WG correspondem às inicias no nome de um dos fundadores da empresa, William Goebel. 

As marcas da Goebel Porzellan

Esta fábrica foi fundada em 1871 em Oeslau-Rödental, perto de Coburgo, numa parte da Baviera, já encostada à Turíngia, que juntamente com o Saxe é a grande zona de produção de porcelana na Alemanha. A marca em questão foi usada nos anos de 1900, assinalando o tempo em que a fábrica passou a apenas a ter um único proprietário, o já referido Sr. William Goebel. Nessa época, esta casa notabilizou-se pela produção destas encantadoras figurinhas de crianças, que ainda hoje nos fazem sorrir, estatuetas ao gosto de Meissen ou de animais exóticos e ainda cabeças em biscuit para bonecas de meninas, estas últimas valorisadíssimas pelos coleccionadores. 

biscuit da Goebel Porzellan
Goebel Porzellan produzia cerca de 1900 estas encantadoras figurinhas de crianças, que ainda hoje nos fazem sorrir. Biscuit da Goebel à venda em  https://www.catawiki.com

Logo neste período os Estados Unidos tornaram-se um mercado importante para a as porcelanas Goebel e nos anos 50 essa popularidade aumentou ainda mais naquele país com a produção de figurinhas da Disney e continuaram a fabricar bonecada até aos dias de hoje. Alguma dessa bonecada dos anos 50 e 60 é a meu ver medonha, mas isto dos gostos é uma coisa, que varia com o tempo.

biscuit da Goebel Porzellan

Este meu biscuit parece contar qualquer história, uma jovem e uma menina, que vão ao mercado ou colher frutas, pois tem ainda os cestos vazios e a mais nova estende a mão, como que pedindo alguma coisa à mais velha. Talvez no início no século XX as pessoas identificassem claramente o significado desta representação e fossem figuras, que se viam nas ruas ou nos campos da Alemanha dos primeiros anos do século XX. Hoje, teremos que imaginar uma narrativa qualquer para estas meninas em biscuit.

biscuit da Goebel Porzellan


Algumas ligações consultadas: