sábado, 10 de abril de 2021

Terrina de faiança de Alcobaça ou Coimbra


Já há muito tempo que ando para escrever um post sobre esta terrina ou melhor sopeira, que o meu amigo Manel comprou já há alguns anos, pois nunca consegui descobrir nada de muito definitivo acerca dela. Mas é tão encantadora, que ainda assim resolvi apresenta-la na mesma e passar a escrito aqui no blog umas quantas impressões pessoais.


É uma faiança algo rude, com um certo ar ingénuo e as peças com essas características parecem-nos sempre mais antigas do que aquilo que realmente são. O Manel e eu chegámos a pensar, que fosse até do século XVIII mas na verdade esta terrina aproximar-se das faianças produzidas em Alcobaça por José dos Reis (1875-1900) e Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ). O esponjado usado para definir o chão, o casario e a forma de tratar as árvores é muito semelhante aos desta fábricas.

Peças de José dos Reis e Manuel Ferreira da Bernarda: a continuidade. Foto retirada de Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008

Com efeito, a 10 de Julho de 2014 apresentei aqui no blog uma bacia, que atribuí a Alcobaça, que não anda muito longe desta sopeira.



Mas há também que considerar a hipótese que esta terrina possa ser um fabrico coimbrão. António Pacheco reproduziu na sua obra Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. Coimbra: DGPC, 2015 uma terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho, firma activa em Coimbra entre entre os últimos anos 15 anos do séc. XIX e a  primeira década do século XX, com o mesmo ar de família da peça do meu amigo Manel.

Terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho. foto retirada de Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015


Contudo, ao contrario das peças que vi atribuídas a José dos Reis (1875-1900) a Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ) ou o que conheço de Coimbra, em que o casario é representado como se fossem aqueles desenhos, que qualquer criança faz na escola, na terrina do Manel, o artista que a pintou conseguiu dar uma certa ideia de perspetiva. É como se fossemos caminhando por uma floresta e no meio do arvoredo, adivinhássemos um casario lá ao fundo. Talvez seja esta qualidade que diferencia um pouco esta sopeira de outras peças de Alcobaça e Coimbra, em que o casario é sempre representado de forma quase infantil.

Em suma, esta sopeira será uma produção de Coimbra ou Alcobaça, talvez do final do século XIX, mas não estou seguro. Posso apenas afirmar, que quem a pintou tinha sem dúvida talento e com uma grande economia de meios, conseguiu dar a ideia de perspetiva.



Alguma bibliografia:

Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015

Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008.

terça-feira, 30 de março de 2021

As quatro estações: porcelana de Capodimonte

As quatro estações: porcelana de Capodimonte
As quatro estações

Estas encantadoras figurinhas em porcelana de Capodimonte, representando as quatro estações do ano foram compradas pelo meu amigo Manel na Feira de Estremoz há uns meses.

Tal como Sèvres ou Meissen, Capodimonte é daqueles nomes míticos da porcelana europeia, que associamos sempre a luxuosas baixelas que iam à mesa de reis, príncipes e duques ou a figurinhas de porcelana barrocas, e que hoje só existem nas colecções dos museus ou aparecem à venda nas grande leiloeiras.
Marca de Capodimonte
O N coroado de Capodimonte. A coroa de 5 hastes foi registada em 1962. 

Estes putti de porcelana, que o meu amigo Manel comprou estão marcados com típico N coroado de Capodimonte, mas não são do período de ouro da fábrica napolitana, o século XVIII. São produções contemporâneas da fábrica de Capodimonte, assinadas pelo artista Giuseppe Cappé (1921-2008), um homem extremamente talentoso que se inspirou no barroco italiano e cujas criações são ainda muitíssimo apreciadas, sobretudo no mercado americano. A marca com a coroa de 5 hastes foi registada em 1962 e Giuseppe Cappé esteve ainda muito activo nos anos 80. Portanto estes meninos em porcelana terão sido produzidos entre estes anos.

Gcappè é assinatura de Giuseppe Cappé
Gcappè é assinatura de Giuseppe Cappé 

Esta alegoria às quatro estações representas por estes meninos, os putti, é um tema recorrente na arte europeia, que começou no Renascimento, atingindo o seu ponto alto no período barroco e que com os movimentos revivalistas se prolongou pelo século XIX fora e chegou até aos nossos dias, como o provam estas figurinhas de Capodimente. É uma alegoria que se inspira na mitologia clássica, em que cada um dos meninos apresenta consigo os atributos de uma divindade greco-romana, a Primavera, com as suas flores é Flora, o Verão, com as espigas de cereal é Ceres, o Outono, é Baco, o deus do Vinho com as uvas e finalmente, o Inverno é Saturno com o ramo sem folhas na mão, cuja festa na antiga Roma, se celebrava por ocasião do solstício de inverno. 

A Primavera, o Verão e o Outono
A Primavera, o Verão e o Outono

Estas figurinhas que o Manel comprou são coisas ainda contemporâneas, mas foram concebidas e executadas na melhor tradição desta fábrica napolitana, que deste o início do século XIX se especializou no supérfluo, nos espelhos, caixas de joias e candeeiros decorados com flores ou ainda figuras como estes meninos, de tal forma que Capodimonte se tornou praticamente um adjectivo em decoração, para qualificar bibelots em cerâmica inúteis e ornamentados com muitas florinhas. Mas, estes putti são feitos com a uma mestria tal, que os torna inutilidades irresistíveis.

As quatro estações: porcelana de Capodimonte
As quatro estações: porcelana de Capodimonte


Ligações consultadas:

quarta-feira, 24 de março de 2021

Menino Jesus, Salvador do Mundo


O meu amigo Manel foi contagiado já há uns anos pelo meu gosto por santinhos e hoje tem a sua casa do Alentejo cheia destas imagens devotas, emolduradas preciosamente em seda, enfeitadas com passamanaria e bordadas com lantejoulas, contas e a fio de prata. Este menino Jesus Salvador do Mundo é umas das peças da sua colecção e que hoje serve de pretexto a algumas considerações sobre estes trabalhos femininos, inspiradas pela leitura da obra Le monde merveilleux des images pieuses de Alain Vircondelet.

Normalmente são trabalhos conventuais, de freiras, meninas educadas em casas religiosas ou de senhoras devotas, mas nunca conseguimos data-los exactamente. Poderão ser do século XVIII, XIX ou até mesmo mesmo do início do XX.

Se a estampa é facilmente datável, porque é assinada por um gravador ou impressor, de que se conhece o período em que esteve activo, o trabalho de emoldurar nunca está assinado ou datado. Sabemos apenas que é antigo, pois apresenta as marcas do tempo, como as sedas sujas pelo pó dos séculos, o fio de prata oxidado ou os vidros com bolhinhas, sinal de que foram ainda feitos artesanalmente.


Estes registos antigos distinguem-se também dos modernos pela habilidade e técnica muito elaboradas, levadas ao virtuosismo pelas mãos destas senhoras do passado. Porque de facto, ao contrário dos registos que se produzem hoje em dia, quem fazia estes trabalhos há 100 ou 200 anos fazia-os com uma devoção intensa, quase que como uma oração intima e pessoal, para tornar ainda mais preciosa uma imagem da Virgem ou do Menino Jesus, que depois de terminada, se tornava quase uma relíquia na cela, no quarto ou no oratório, à qual se recorria em momentos de aflição. Estes registos do passado eram muito mais do que peças bonitas, eram objectos de piedade, carregados de virtudes contra a doença e o mau olhado e diante dos quais se rezava e se procurava acesso a um plano divino.



Apesar de hoje muitos de nós termos perdido a crença, ou se mantemos a fé, esta tornou-se uma prática mais serena, mais filosófica, não conseguimos deixar de ficar impressionados com o virtuosismo destes registos, que teatralizam simples estampas e transformam-nas em objectos mágicos.


Bibliografia consultada:

Le monde merveilleux des images pieuses / Alain Vircondelet. - Paris: Hermé, 1988

sexta-feira, 12 de março de 2021

Um bule de faiança portuguesa


Ultimamente tenho escrito pouco aqui sobre faiança portuguesa, que começou por ser um tema muito forte nos primeiros anos deste blog. Contudo, além de comprar menos peças de faiança, pois a minha casa de uma assoalhada e meia está cheia que nem um ovo, também sinto que tenho pouco a acrescentar ao assunto. A maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX não se encontram marcadas e parece-me que ando sempre aqui a especular, afirmando se a pasta é amarelada é porque são peças fabricadas na região centro, se pelo contrário, a pasta é branquinha, serão produções do Porto ou de Gaia. Claro, por vezes sai uma nova publicação de faiança e nessa altura, consigo escrever sobre uma terrina ou um prato e atribui-la com alguma segurança a um centro de fabrico.

Mas a faiança portuguesa do século XIX é sempre tão bonita, que por vezes não resisto a apresentar aqui uma peça, com este pequeno bule, comprado há cerca mais de dois anos e depois a faiança desta época é tão fotogénica à luz do dia, que apetece partilhar aqui as fotografias que delas vou fazendo.

Uma inspiração num emaranhado de ramos

A decoração é qualquer coisa que hesito em escrever se tenta reproduzir o efeito de um marmoreado se o efeito de um emaranhado de ramos. Inclino-me mais para que seja um motivo vegetal, até por comparação com uma grande travessa que o meu amigo Manel tem em casa, onde é mais nítida essa inspiração num emaranhado de ramos. Olhando para a travessa e este bule, poder-se ia dizer que saíram da mesma oficina, mas a primeira apresenta uma pasta muito branquinha, mais característica das produções do Norte e este bule é um pouco mais grosseirão. Mas também a graça destas faiança portuguesa é este ar ingénuo, em que cada peça é única, pois o pintor nunca faz exactamente os mesmo traços, de bule para bule ou de terrina para terrina. Por esta razão as faianças portuguesa do século XIX ficam muito bem fotografadas tendo azulejos portugueses antigos como pano de fundo, pois estes também nunca são bem iguais.


Em suma, não sei muito acerca deste bule, talvez por uma mera intuição me pareça da região centro. A decoração parece-me inspirada num emaranhado de ramos, mas já é uma coisa tão abstracta, que também é difícil concluir qualquer coisa. Creio que os pintores destas peças eram tão criativos, que esqueciam-se do motivo original de inspiração e pintavam qualquer coisa que saia da cabeça deles, quase como o processo de escrita automática, que mais tarde os surrealistas procuram desesperadamente alcançar, mas que vítimas da sua cultura sofisticada, tinham mais dificuldade em concretizar que estes humildes ceramistas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Nos arquivos das terras frias de Vinhais: à procura das origens

O registo de baptismo de Zeferino Urbano de Morais

Toda a gente tem mais ou menos a ideia que os estudos genealógicos são para os indivíduos descendentes de famílias muito ricas, fidalgas ou aristocratas. Na verdade, traçar a sua genealogia, isto é conhecer os seus antepassados é um estudo possível a qualquer um, por muito humildes que sejam as suas origens. Se tiver paciência e tenacidade, através da consulta dos registos paroquiais de baptismo, casamento e óbitos poderá reconstituir a história da sua família pelo menos até aos finais do século XVI, período em que pratica destes assentos pela Igreja Católica se tornou sistemática.

Há uns bons vinte e cinco anos, o meu pai decidiu estudar as origens da família da sua mulher, lavradores abastados, oriundos da Quadra, uma aldeia perdida no encosta da Serra da Coroa, do concelho de Vinhais, no extremo Norte de Portugal. Creio que tinha alguma esperança de encontrar os antepassados judeus da sua mulher, que uma tradição familiar formada sabe deus quando, diz terem existido.

Através da consulta dos registos paroquiais e seguindo a linha masculina ,o meu pai consegui remontar até ao século XVII, mas claro não encontrou antepassados judeus, pois mesmo que os houvesse, nenhum deles no seu perfeito juízo declararia na Igreja, num assento feito por escrito, que judaíza em segredo pois poderia ser preso, julgado e condenado a arder numa fogueira.

As terras frias de Vinhais

Neste trabalho o meu pai encontrou alguns problemas. Estes meus antepassados usaram o desde o século XVII o apelido Gonçalves, e no início do século XIX, passam a usar Morais, por uma razão inexplicável. Como estou fechado em casa e tenho muito tempo, resolvi tirar esta história a limpo e estudar todos os registos dos filhos de Francisco Gonçalves, que passaram a usar o nome Morais, cruzando para tal os dados levantados pelo meu pai no Arquivo Distrital de Bragança, com alguma documentação que encontrei digitalizada e ainda com o caderninho feito pelo meu bisavô, Clemente da Ressurreição, onde narra de forma sintética a sua biografia e a dos seus antepassados.

No arquivo Distrital de Bragança, consegui encontrar uma cópia digital do assento de nascimento do primeiro filho do meu quarto avô Francisco Gonçalves.

Esse filho, o Zeferino Urbano, nasceu na Quadra no dia 11 de Maio de 1810, e foi baptizado no dia 17 do mesmo mês. A sua mãe era uma tal Maria dos Santos, filha de Manuel dos Santos, natural dos Casares e de Filipa do Rio, natural do Pinheiro Velho e na altura moradores na Quadra. No seu assento de baptismo está dado como filho natural, de pai incógnito. Porém e não sei quanto tempo depois, o pároco que lavrou o assento, Francisco José Domingues, riscou incógnito e fez o seguinte averbamento ao lado, filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar.

Zeferino Urbano era filho natural, mas mais tarde, o pároco rasurou incógnito e acrescentou ao lado  Filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar

Em suma, o Francisco Gonçalves teve um filho com a Maria Santos, sem estar casado, mas num momento qualquer, decidiu ir à Igreja assumir a paternidade do bebé Zeferino Urbano e apenas podemos especular sobre razões deste acto. Poderá ter descoberto que a criança era parecida com ele ou foi pressionado pelos pais da rapariga ou então amava-a genuinamente.

Sendo o Zeferino Urbano filho natural ou bastardo, havia aqui uma forte razão para não usar o apelido Gonçalves, mas o sobrenome da sua mãe era Santos e também não foi buscar o apelido Morais aos padrinhos, que foram o Matias Rodrigues Domingos e sua mulher Maria Ferreira.

A 1 de Janeiro de 1821 o Francisco Gonçalves e a Maria Santos voltaram a ter um criança, mas a julgar pelo assento de baptismo da menina de 27 de Janeiro desse ano, teriam casado entretanto, pois a pequena Maria José de Jesus, é baptizada como filha legítima dos dois.

Como a criança é legitima, o padre José Caetano Diegues da Silva adianta o nomes dos avôs paternos, o António Gonçalves, natural da Quadra e de sua mulher Luzia Alves, natural de Cabeça da Igreja, freguesia de São Bartolomeu fornece mais alguns dados sobre a naturalidade dos pais da Maria Santos. O Manuel dos Santos era natural, de Casares, freguesia de Santa Cecília e a Filipa do Rio, nascida no Pinheiro Velho, freguesia de São Sebastião.

Foram padrinhos da pequena Maria José o Reverendo Padre Clemente dos Santos e sua imã, Maria Antónia.

O assento de Nascimento de Manuel Dinis, cujo padrinho foi o Reverendo Clemente de Morais
 
A 9 de Outubro de 1823 os meus quartos avós, voltam a ter mais uma criança, o Manuel Dionísio e no assento de baptismo dia 19 do mesmo mês, o padre Pedro Inácio, Abade de Montouto regista como era obrigatório nestes documentos o nome dos quatro avôs, mas com uma pequenas diferenças. O avô materno António Gonçalves, é identificado como António Dionísio, mas trata-se da mesma pessoa, pois o nome da mulher é o mesmo, Luzia Alves. Provavelmente, Dionísio, forma latina de Dinis, era o segundo nome próprio do senhor. Os padrinhos foram o Reverendo Clemente de Morais e a sua imã Maria Antónia, tios da dita criança. Este padre Clemente é certamente o mesmo homem, que foi padrinho da Maria José, apesar de nesse assento ter sido identificado com o o apelido Santos, mas o nome da sua irmã é o mesmo, Maria Antónia

Houve uma quarta filha, uma Filipa, de que o meu pai não encontrou registo de nascimento, mas de que sabe a sua existência através de um caderninho de memórias do meu bisavó, Clemente da Ressurreição. Segundo este documento a Filipa casou, mas não teve filhos.

Nesta altura das minhas pesquisas comecei a a achar que a origem do nome Morais estava no Padre Clemente de Morais, padrinho de duas crianças do casal Francisco Gonçalves e Maria Santos e tio destas. Seria talvez um homem abastado, como muitos padres o eram e que teria decidido deixar os seus bens à prole do Francisco Gonçalves com a condição de usarem o seu apelido. Mas mesmo assim, os dados não batiam certo. Dos filhos varões do Francisco Gonçalves só o Zeferino Urbano usou o apelido Morais, o Manuel Dinis, afilhado do padre Clemente Morais usou sempre o apelido Santos.

Resolvi investigar um pouco mais este padre Clemente, pensando que os homens da Igreja deixam ser mais registos oficiais, que uns simples jornaleiros ou lavradores e coloquei o nome Clemente de Morais no motor de busca do Arquivo Distrital de Bragança, e encontrei o registo de Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos, isto é os documentos necessários para um homem ser padre, em que tinha que provar, que era bom cristão e sobretudo que não tinha sangue judeu ou mouro. O processo está datado entre 1802 e 1803 e no registo indica que era natural da Quadra e filho de Manuel de Morais Santos e de Filipa do Rio, já nossos conhecidos. Portanto o nosso Padre Clemente era irmão não só da Maria Antónia como da Maria dos Santos e o pai desta irmandade era o Manuel de Morais Santos. Portanto, Morais era o apelido da família materna do Zeferino e teve origem na aldeia dos Casares, em vez ser na da Quadra como todos pensávamos na família. 

Esquema  para demonstrar como o nome Morais se transmitiu


O facto de que os dois filhos varões do Francisco Gonçalves, quer o bastardo, Zeferino Urbano, quer o legítimo, Manuel Dinis, usarem o os apelidos maternos, respectivamente Morais e Santos, faz-me pensar que os Morais seria gente mais abastada, de condição social superior aos Gonçalves ou talvez apenas estes sentissem mais empatia com o lado materno. O Padre Clemente dos Santos Morais terá sido um homem importante na vidas destes antepassados, nascidos no primeiro quartel do século XIX, pois o Zeferino baptizou dois dos seus filhos com o nome Clemente e este nome foi sendo usado ao longo de quatro gerações dos descendentes do Zeferino Urbano.

Mapa do concelho de Vinhais,  onde as aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra estão assinaladas com uma seta. Carta retirada de https://www.dgterritorio.gov.pt/ordenamento/sgt/igt-vigor

Além de resolver este enigma da mudança de nomes, achei interessante verificar estes meus antepassados escolhiam os seus conjugues sempre nas aldeias vizinha, de forma a evitar a consanguinidade. Provavelmente conhecer-se-iam nos bailes das festas dos santos padroeiros das aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra onde esta gente viveu ou nas feiras da sede de concelho. 

Senti também desejo conhecer a aldeia de Casares, encostada à fronteira com Espanha, muito perto da célebre fraga dos três reinos, que assinalava em tempos as fronteiras dos reinos de Portugal, Galiza e Leão e onde parte do meu meu ser se formou, bem como dos cerca de 300 descendentes de Zeferino Urbano de Morais.

A  fraga dos três reinos


Fontes consultadas:

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos 1756/1816 PT/ADBM/PRQ/VNH49/001/00001 

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos , mc 1, lv 6

Arquivo Distrital de Bragança, Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos,PT/ADBGC/DIO/CDMDRBGC/CE/1/271-2495

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Um jovem transmontano na grande guerra de 1914-1918

António Sampaio e um companheiro de armas, França, 28 de Fevereiro de 1918

Aproveito sempre estes períodos de confinamento para me dedicar à organização e estudo das fotografias antigas. Regressei novamente à coleccão de retratos da família materna, das terras frias de Vinhais e encontrei um conjunto de fotografias de jovens mobilizados para o corpo expedicionário português em França, na grande guerra de 1914-1918. Algumas das fotos foram tiradas naquele País e fiquei até um pouco impressionado, pensando que aqueles jovens promissores de 1917 ou 1918 teriam sido chacinados nos campos de Batalha da Flandres, feitos prisioneiros, gaseados ou afectados mentalmente para sempre com os horrores a que assistiram.

Fiquei curioso acerca de qual teria sido o destino destes homens na força da vida e resolvi fazer algumas investigações, pois já tinha ouvido falar sobre alguns sites na internet, que recolhem informações sobre antigos combatentes, bem como conhecer um pouco mais sobre o corpo expedicionário português em França, cuja intervenção na guerra, ficou sobretudo conhecida na história, pelo desastre da batalha de La Lys.

O verso da fotografia. Dedicatória ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira

Decidi começar essas investigações por um desses retratos, o de António da Silva Sampaio, um jovem cuja família, os sampaios, ainda é aparentada com com a minha. Esta fotografia foi tirada em França, a 28 de Fevereiro de 1918 e dedicada ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira, em que o trata como primo e amigo. 

Nesta colecção de fotografias da família há outros dois retratos deste António da Silva Sampaio tirados em Coimbra.

Nesta colecção de fotografias da família Morais Ferreira, há outros dois retratos deste António da Silva Sampaio tirados em Coimbra, 11 de Novembro de 1917, antes de ser mobilizado, em que se faz fotografar naquilo que me parece uma indumentária académica. São duas fotografias iguais, uma está dedicada aos tios, Clemente da Ressurreição e Maria da Graça Morais, meus bisavôs e a segunda, outra vez ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira, que o trata como primo e amigo. 

Dedicatória de António da Silva Sampaio, aos meus bisavós, Clemente da Ressurreição e Maria Graça Morais, dada em Coimbra, a 11 de Novembro de 1917


Dedicatória de António da Silva Sampaio, ao meu avô, António da Purificação Ferreira, dada em Coimbra, a 11 de Novembro de 1917

Embora não saiba com segurança, a origem deste parentesco, creio que este António Sampaio era só primo por afinidade do meu avô Ferreira. Segundo, o que consegui perceber da tradição familiar, a origem deste parentesco assentará na minha trisavô, Francisca Vicência da Silva, casada com um Morais e que teve dois irmãos, José e o André, que se casaram em Nuzedo, uma aldeia vizinha da Quadra e por lá ter-se-iam cruzado com estes Sampaio. Recordo-me vagamente de visitar com a minha mãe as primas Sampaio em Nuzedo-de-Cima. Hoje tudo isto nos parece obscuro e incerto, mas em 1917-1918 os Morais e os Sampaio eram ainda primos muito próximos.

Mas, continuando, nas minhas pesquisas sobre ao participação do contingente português na guerra em França, entre 1917-1918 encontrei um sítio muito bem feito, o http://www.memorialvirtual.defesa.pt, que permite uma busca pelo nome de todos aqueles que tombaram no conflito.

Resolvi experimentar, colocando os nomes que consegui ler na assinatura deste jovem, António da Silva Sampaio, no motor de pesquisa e descobri que este meu parente foi morto em combate em 9 de Abril de 1918. O seu corpo está sepultado em França no Cemitério de Richebourg l`Avoué, Talhão C, Fila 7, Coval 1. O seu nome completo era António Eugénio da Silva Sampaio, foi Alferes e a pertencia à unidade Depósito de Infantaria, Regimento de Infantaria n.º 30. Apesar de já terem passado cem anos deste acontecimento, confesso que me emocionei e revivi por uns poucos segundos a tragédia deste rapaz e o choque, que a sua morte prematura representou para os amigos e a família.


A sepultura de França no António Eugénio da Silva Sampaio mo Cemitério de Richebourg l`Avoué, Foto de http://www.memorialvirtual.defesa.pt

Contudo, como não tinha a certeza absoluta que o jovem sepultado em França e este meu parente afastado fossem uma e a mesma pessoa, até porque eu não tinha conseguido ler Eugénio nas assinaturas, fiz mais uma busca, coloquei o António Eugénio da Silva Sampaio no google e fui ter sítio da Academia Militar de Lisboa, numa página onde prestam homenagem aos seus mortos, e lá estava um registo sobre este primo afastado, mas desta vez com uma fotografia sua, um militar cheio de garbo e confirmei, que o rapaz morto em França era de facto a mesma pessoa do jovem retratado nos arquivos familiares. 

António Eugénio da Silva Sampaio, no site da Academia Militar

Aqui encontrei mais alguns dados que me permitiram de alguma forma esboçar uma pequena biografia. Nasceu em em Bragança, 24 de Janeiro de 1893 e entrou na Academia Militar em 1916, o nº 512 do Corpo de Alunos. Embarcou para França, 8 de Janeiro de 1918 e morreu a 9 de Abril, desse ano. 9 de Abril é o dia da Batalha de La Lys, data que ainda hoje é assinalada em Portugal e o António Eugénio da Silva Sampaio foi um dos 398 homens que pereceram nesse confronto sangrento. A fotografia que enviou ao meu avô a 28 de Fevereiro de 1918, foi tirada cerca de um mês e mais alguns dias antes de morrer.

Continuei as minhas investigações sobre este meu primo afastado, desta vez no Arquivo Histórico do Militar e encontrei nos boletins individuais de militares do Corpo Expedicionário Português o seu registo digitalizado. A informação é escassa, mas indica o nomes dos seus pais, Manuel do Espírito Santo da Silva Sampaio e Maria Adelaide Silva, a paróquia onde nasceu em Bragança, freguesia de Santa Maria e ainda um dado curioso. O jovem António Eugénio da Silva Sampaio foi punido por só se ter apresentado ao serviço no quartel a 12 de Novembro de 1917, em vez de ser no dia 11 do dito mês, como estava estipulado na guia. Ora a 11 de Novembro de 1917 estava este meu primo em Coimbra, a tirar as fotografias que enviou aos meus bisavós e ao meu avô e a outros parentes e provavelmente a divertir-se um pouco, como era natural num jovem com 24 anos. Não consigo é perceber porque é se fez fotografar num traje académico.

A 11 de Novembro de 1917, data em que tinha de apresentar ao Quartel, o jovem António Eugénio da Silva Sampaio, estava em Coimbra a fazer-se fotografar no José Gonçalves, o estúdio usado por todos os estudantes da universidade daquela cidade

Em suma, os retratos deste meu primo afastado, cujo parentesco nem conheço bem as origens, deixaram-se ser apenas as fotografias esquecidas por todos de um velho álbum familiar e tornaram-se testemunhos de como a guerra entrou pela vida das pessoas comuns, bem como símbolos trágicos da inútil participação portuguesa no conflito de 1914-1918.

Alguns links consultados: 

Academia Militar

Arquivo Histórico do Militar, boletins individuais de militares do Corpo Expedicionário português, António Eugénio da Silva Sampaio - Alferes de Infantaria nº 30 código PT/AHM/DIV/1/35A/1/08/2567

Comunicar: boletim da Assembleia da República, 18 de Abril de 2018



PS: Se houver algum descendente desta família Sampaio, que tenha interesse na vida deste tio remoto, terei muito gosto em fornecer cópias digitais destas fotografias, bastando para isso que me contactem por mail. Para acederem ao meu endereço, cliquem na foto do perfil, no canto superior direito do blog.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

Embora não seja crente tenho uma verdadeira paixão por registos religiosos, que coleciono avidamente. Normalmente compro muita da coisa do século XVIII e tenho uma ou outra coisa do século XVII e ainda um dos finais do XVI. Creio que esta mania começou na minha juventude, em que todos os meus amigos ou colegas achavam a arte sacra uma seca e como sempre fui do contra, passei a interessar-me por santos, nossas senhoras, martírios e cristos. Hoje em dia, já não tenho essa vontade de estar contra o mundo, mas encanto-me com a ingenuidade destas estampas devotas e por isso quando vi este Jesus Nazareno, representado de uma forma quase popular, comprei-o sem hesitar. Nem me lembro do preço, mas deve ter sido por meia dúzia de euros ou menos, pois hoje em dia ninguém quer saber de santos para nada.

Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros.

A legenda da estampa diz o seguinte Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros. Seguem depois as indulgências concedidas pelo Cardeal Patriarca de Lisboa a quem rezasse uns quantos padres nossos e avés maria diante da imagem ou da estampa. Achei tudo isto muito curioso. Toda gente sabe que Jesus Cristo foi supliciado e morto na Palestina, num tempo em que não havia muçulmanos. Estes só apareceriam na história uns 600 e tal anos depois. É certo que em muitas pinturas antigas os artistas não se preocupavam em reconstituir a indumentária do tempo de Jesus e os soldados romanos trajavam como militares da renascença, a Virgem envergava trajes de corte e por aí fora, mas misturar mouros com Jesus, pareceu-me um anacronismo excessivo..

Intrigado fiz algumas pesquisas sobre esta estampa e encontrei no Arqueólogo Português, série, 1, vol. 22, de 1917, um texto de Luís Chaves, os Registos de Santos, que assinala esta gravura e explica que no Convento do Carmo, em Lisboa, houve uma imagem de Jesus Cristo cativo, que esteve Argel. Fiz mais uma pesquisa, aqui e acolá e no meio de todas as lendas, que sempre rodeiam estes assuntos de devoções, percebi que esta estampa reproduzia uma escultura de Cristo roubada pelos mouros e resgatada mais tarde. Na realidade, a verdadeira imagem deste Cristo encontrava-se em Marrocos, em La Mamora, um reduto fortificado pelos espanhóis após 1614 e que durante grande parte do século XVII foi assediado várias vezes pelos marroquinos ou mouros, até que em 1681 caiu finalmente nas mãos destes últimos. Entre o espólio do saque estava uma imagem de Cristo, à qual os soldados espanhóis tinham muita devoção e os mouros transportaram-na para Mequinez, onde a arrastaram pelas ruas, enquanto a populaça escarnecia daquilo que consideravam um ídolo. Uns frades trinitários, ordem religiosa, que se dedicava ao resgate dos cativos cristãos no Norte de África assistiram ao espectáculo degradante e conseguiram comprar a imagem e leva-la para Espanha, mais exactamente para Madrid. Ao pescoço da imagem colocaram um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul, que era como que um salvo conduto para atravessar as terras da moirama e demonstrar em Espanha, que tinha sido a Ordem dos Trinitários a pagar o resgate. 

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
Ao pescoço da imagem um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul,

Em Madrid a imagem foi depositada na Igreja de Medinaceli onde se tornou objecto de grande devoção, que persiste nos dias de hoje e o seu culto espalhou-se por toda Espanha e pelo vistos por Portugal, como esta estampa o demonstra. Fieis, padres, irmandades ou bispos por várias cidades da Península Ibérica encomendaram esculturas idênticas às de Medinaceli para as suas igrejas.

Quanto à verdadeira imagem que estaria no convento do Carmo, sobreviveu ao Terramoto de 1755, pois esta estampa foi executada por Teotónio José de Carvalho, gravador activo entre 1790 e 1800 conforme se pode ver no índice das estampas da sua autoria digitalizadas na Biblioteca Nacional de Portugal. Este Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.
Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.

Quanto ao paradeiro actual dessa escultura não consegui descobrir nada, pois em 1834 com a extinção das ordens religiosas, os bens dos conventos foram vendidos ou incorporados  nas igrejas paroquiais e finalmente alguns deles deram entrada nos museus nacionais.

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
A moldura foi comprada na Feira de Estremoz

Por último, esta estampa que comprei solta, foi colocada numa moldura muito simples, que adquiri na Feira de velharias de Estremoz, que encaixilhava a fotografia de um pai e de um filho, tirada talvez na primeira década do século XX. Não tive coragem de deitar a fotografia fora, e limitei-me a virar o cartão onde estava colocada. De modo, que atrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Por detrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Alguns links e bibliografia consultados:

Registos de Santos / Luís Chaves
In
Arqueólogo Português, série, 1, vol 22, de 1917