segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os Alves: negociantes de peso em Chaves, na primeira metade do século XIX




Depois de ter herdado o espólio documental familiar, acreditava que iria encontrar sobretudo documentos relativos ao lado Montalvão, uma família fidalga com origens na Galiza. Contudo ao começar o tratamento, começaram a aparecer cartas, testamentos, documentos de vendas de propriedade de gente desconhecida. Fui estudando esses papéis, fazendo genealogias e descobri que muitos destes documentos pertenciam a um lado burguês da família, os Morais Alves, que se cruzaram com os Montalvão em 28 de Julho de 1903, através do casamento dos meus bisavôs Ana da Conceição Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão. Estes Morais Alves eram burgueses, que se instalaram em Chaves, no bairro da Madalena por volta dos anos 30 do século XIX e foram enriquecendo progressivamente. Da família Morais encontrei muita correspondência da minha quarta avô, a Ana Maria da Conceição, que depois da morte do marido, com muita desenvoltura, tomou conta do estabelecimento na rua da Ponte, até à sua morte em 1887.

Nesta caixa que comecei agora a tratar encontrei documentação dos Alves, negociantes, moradores no Bairro da Madalena em Chaves e cujo estabelecimento era contiguo aos dos Morais. Aliás acabaram por unir-se em 1876, através do casamento dos meus trisavós, o Francisco Luís Alves e Antónia dos Anjos Morais. Mas os referidos papéis dizem respeito a geração anterior, do meu quarto avô, o Luís Alves, falecido a 2.10.1861. Este antepassado seria o mais novo de uma grande irmandade, nascida ao longo das duas últimas décadas do século XVIII, em France, na freguesia de Moreiras a Sul de Chaves, de que através destes documentos consegui reconstituir alguns aspectos da sua existência.

 Compra de uma propriedade por Ana Maria e Francisco Bernardo a 1 de Janeiro de 1817. Os dois residiam já em Chaves


Uma das suas irmãs, minha tia tetravó, a Ana Maria casou com o Francisco Bernardo, naquela localidade a 30 de Julho de 1807, um homem de uma aldeia vizinha, lugar de Adães, Freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Santa Leocádia, que com o tempo veio a tornar um homem de posses. O casal passou a residir em Chaves pelo menos a partir de um de Janeiro 1817, quando encontro o meu primeiro documento relativo aos dois, a compra de uma propriedade a Alexandre Rodrigues e sua mulher Teresa Maria, moradores em Pereira da Veiga, por 29 mil réis, que rendia dois alqueires de centeio. Francisco Bernardo e sua mulher Ana Maria são indicados como assistentes na Vila de Chaves, na Madalena. Assistentes na época era sinónimo de residentes ou fregueses. Voltam a comprar outra terra, chamada Ranho em 16 de Março de 1825, por cem mil réis e em 22 de Maio de 1830 compraram casas na Madalena por 105 mil réis. 

Testamento cerrado de Francisco Bernardo


Também nesse ano 1830, a 12 de Dezembro, o Francisco Bernardo, encontrando-se doente, mandou chamar o tabelião e fez um testamento cerrado, que se encontra no espólio e nesse documento indica-se que foi negociante com loja de peso, na Madalena. Sendo, comerciante, era alfabetizado e assinou pelo seu punho. Pela leitura do testamento parecer ser homem de posses e como o único filho do casal, o Leonardo tinha morrido, deixou muitos bens aos cunhados. A mulher, a Ana Maria também terá estado doente e fez também o seu testamento, no dia 11 desse mesmo mês. Mas ao contrário, do marido é analfabeta, conforme o tabelião escreveu a rogo da testadora por não saber escrever me deu licença, que por ela assinasse, José Bernado Paredes e Silva. Uma das missas é pelo irmão João já falecido

Testamento cerrado de Manuel Caetano Alves


Nesse meio tempo, encontrei notícia de mais um irmão, um tio quarto avô, o Manuel Caetano, que fez testamento cerrado a 13 de Julho de 1843 e através desse documento conhecer fiquei a conhecer mais a irmandade dos Alves, ele que seria o mais velho, depois o Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda uma irmã, a Teresa, que já teria falecido nessa data e finalmente, o Luís, que seria o benjamim. O Manuel Caetano residia igualmente na Madalena e era negociante de peso, tal como o cunhado Francisco Bernardo e o irmão mais novo, o Luís, meu quarto avô, o que me faz pensar num negócio familiar. O Manuel Caetano Alves era alfabetizado e também assinou com o seu próprio punho. Este Manuel Caetano só viria a morrer a 8 de Fevereiro de 1844 e tinha por alcunha o Manuel da Ponte, sem dúvida, uma referência ao local de residência e ao estabelecimento comercial, pois quer os Alves, quer os Morais, viviam e residiam na rua da Ponte à Madalena.

A leitura do seu testamento deixou-me uma ideia simpática dele. A vontade deste testador era que seu corpo fosse depositado na capela de Santa Maria Madalena neste bairro da Madalena, até por ser aleijado e aí fizesse seu funeral, isto é ofício de corpo presente, sendo aí conduzido directamente à sepultura e por isso pede e roga ao muito Reverendo Arcipreste do julgado e paróquia que se digne anuir a esta vontade do testador , que lhe não parece ofender a moral nem os bons costumes, nem faltar a preceitos paroquiais a que todos os fregueses são obrigados. Parece ter sido daquele género de pessoas, que mesmo depois da morte detestam incomodar os outros. Achei interessante o pormenor de por ser aleijado, pedir a cerimónia fúnebre na igreja contígua ao local, em que residia. Como se depois de morto isso fizesse alguma diferença. Mas certamente, esta última vontade traduzia um hábito, por ser aleijado das pernas, o Manuel Caetano Alves, assistiria às missas na igreja da Madalena, logo ali ao lado de sua casa, em vez de ir à Igreja Matriz, na outra ponta da vila.

Nunca casou, foi vivendo com os seus irmãos até estes mudarem de estado e acabou vivendo com o mais novo, o Luís o qual institui como herdeiro universal dos seus bens, que me pareceram significativos, terrenos agrícolas, casas e bens móveis.

Mas antes de morrer, ainda assistiu ao casamento deste irmão mais novo, o Luís com a Maria Joaquina Jorge a 2 de Setembro de 1843 na Igreja Matriz de Chaves. Terá sido um casamento muito tardio. A Maria Joaquina nasceu em Boticas em 17 de Março de 1800, filha de Manuel Jorge e Antónia Rodrigues e casou com 43 anos. Do meu quarto avô, Luís; não encontrei o assento de baptismo, mas deveria ter idade igual ao superior a ela, pois em 1804 já um dos seus irmãos o António José, tinha baptizado uma filha em Moreiras, a 6 de Agosto de 1804, a Maria da Conceição.

O Manuel Caetano faleceu a 8 de Fevereiro de 1844, mas o a Ana Maria e o Francisco Bernardo continuavam vivos e foram padrinhos do sobrinho, filho Luís Alves e da Ana Joaquina, o Francisco Luís, meu trisavô, a 28 de Outubro de 1844. A mãe contava já com 44 anos. Em todo o caso, a escolha destes padrinhos demonstra as boas relações de Ana Maria com os irmãos e de Francisco Bernardo com os cunhados.

O Francisco Bernardo veio a morreu a 4 de Setembro de 1846 em Chaves e a viúva, a minha quarta avô Ana Maria viu-se com sérias dificuldades em pagar os legados pios e esmolas do testamento do marido e em 4 de Janeiro de 1847 e vendeu metade das casas que pertenciam ao falecido marido Francisco Bernardo para pagamento dos seus bens de alma, ao seu irmão Luís Alves e sua mulher Maria Joaquina, pelo preço de 76 mil réis em metal sonante.

Venda que fez Ana Maria em 1847 para pagar os bens de alma do falecido marido


E neste momento da história convém voltar aos testamentos de 1830 e explicar o que eram estes bens de alma, que foram uma dor de cabeça para minha tia quarta avó

Os bens de alma eram os legados pios, isto é, um conjunto de práticas exaradas no testamento e que tinham por fim último a salvação da alma do testador. A sua enunciação dividia-se em duas partes fundamentais. Na 1.ª parte: mortalha, exposição, acompanhamento, cerimónias religiosas, refeição e enterro. Na 2.ª parte: missas por intenções e devoções, esmolas a instituições ou pessoas (padres, pobres, irmandades, hospitais, etc.

Missas mandadas rezar por Francisco Bernardo


O testamento de Francisco Bernardo é muito extenso nesta matéria. Quis que o seu corpo fosse envolto num hábito de São Francisco metido num caixão da ordem terceira da vila de Chaves de onde era irmão e sepultado na igreja Matriz de Chaves, mas o que mais impressiona é o número de missas deixadas, que tive a paciência de levantar num mapa, contabilizando 911, pagas a 140 réis cada uma, o que perfaz, 127 540 réis. O seu testamento contemplou também esmolas deixadas aos pobres, à criada, aos afilhados, sobrinhos e por aí fora, num total de 36 200 réis.

Após a morte, a execução do testamento era controlada e tenho um documento discriminando todas estas missas, que foram rezadas em várias igrejas do Concelho de Chaves e ainda de Guimarães e Braga por diversos padres, que foram todos pagos a 140 réis cada missa.




Relação das missas e esmolas de Francisco Bernardo


Embora o Francisco Bernardo, quando redigiu o testamento em 12 de Dezembro 1830, afirmasse que deixava dinheiro para o cumprimento destes bens de alma, o que é certo, é que a viúva se viu com sérios problemas de caixa para pagar isto tudo, após o falecimento do marido em 1846. 127 540 réis era uma quantia avultada e em 1830 dava para comprar uma casa na Madalena, em Chaves. Talvez o Francisco Bernardo em 1830 não terá previsto, que desde essa data até 1846, houvesse uma guerra civil entre liberais e miguelistas e depois disso uma sucessão de levantamentos e insurreições, que certamente terão prejudicado a economia, o comércio e as poupanças individuais, de modo que o fundo previsto não foi suficiente e a pobre viúva vendeu uma casa ao seu irmão Luís Alves por 76 mil réis para pagar parte destas contas.
Missas no Testamento de Ana Maria de 1830


Certamente por essa razão, a Ana Maria que também tinha feito um testamento em 1830, deixando 775 missas, pagas a 140 réis casa, num total de 108 500 réis, refez o seu testamento em 4 de Novembro de 1846 e o número de missas foi reduzido para duzentas por sua alma e duzentas pelos santos e santas da sua devoção.

No segundo testamento de Ana Maria as missas foram reduzidas de 775 para 400 


Quando Ana Maria morreu em 8 de Outubro de 1851, o herdeiro universal dos seus bens, foi o seu irmão mais novo, Luís Alves, que havia já herdado em 8 de Fevereiro de 1844 a quase totalidade dos bens do Manuel Caetano Alves. Neste tempo meu quarto avô parece estar a acumular um bom pé de meia e entre 8 de Agosto de 1851 e 24 de Abril de 1858, acrescentou ao que herdou mais terras e casas, gastando um total de 143 055 réis, documentos que tenho cópia no espólio.

Este conjunto de documentos, testamentos ou relativos a vendas de propriedades permitiram-me conhecer um pouco a geração dos meus quartos avós o Manuel Caetano, o João, Francisco António, o José, o António e a Ana e ainda a Teresa e finalmente, o Luís, o meu quarto avô, filhos de António Alves e de Isabel Maria do lugar de France, freguesia de Moreiras, Concelho de Chaves e nascidos nas duas últimas décadas do século XVIII. Destes. O Manuel Caetano, o Luís e seu cunhado Francisco Bernardo foram negociantes com loja de peso, na Rua da Ponte Madalena, provavelmente um negócio familiar e ter-se-ão instalado em Chaves, logo a partir de 1817, mais cedo, do que acreditava. Foram pessoas com posses, que deixaram um traço por escrito na administração e ainda documentos como vendas de bens ou testamentos. Os testamentos encontrados neste espólio traduzem esse bem-estar económico, mas também a forte religiosidade da época, com os legados pios, que permitiam a salvação das almas, mas também a ligação entre o mundo dos mortos e dos vivos, que é afinal de contas é uma preocupação velha como o mundo. Contudo, a salvação das almas era cara, as missas pagavam-se bem e por vezes os que ficavam, os vivos, tinham dificuldade em pagar os bens de alma.

Genealogia dos Alves


domingo, 10 de maio de 2026

Sargentos portugueses na Grande Guerra, França 1917-1918

França, 8 de Julho de 1917


No espólio da família Morais Ferreira, das terras frias de Vinhais encontrei estes dois retratos de grupo de jovens militares, que fizeram parte do Corpo Expedicionário Português em França, em 1917 e 1918. Se fizermos uma pesquisa no google por imagens, encontramos inumeráveis fotografias semelhantes a esta. Existiriam muitíssimos fotógrafos perto da frente de batalha, que faziam estes retratos às centenas, se não aos milhares, de grupos de jovens, em forma de postal, que depois estes enviavam à família, amigos ou namoradas.

Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação


O primeiro foi escrito de França, datado de 8 de Julho de 1917 e apresenta uma dedicatória, provavelmente ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira (20.10.1886 -12.2.1949), que passo a transcrever Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação. Assinaram o António Aníbal Ribeiro, o Francisco José Alves e ainda o [O. Gomez?].

Ficha de António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Militar,. PT/AHM/DIV/1/35A/2/51/47713


Não consegui identificar no retrato os jovens, que assinaram. Descobri alguma coisa sobre o António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Exército. Serviu na 5ª Brigada, 1º Batalhão e foi segundo Sargento. Era natural de Vinhais, filho de António Manuel Ribeiro e de Maria da Assunção Rodrigues e terá sido evacuado em 26 de Maio de 1918, afim de ser repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Pelo menos parece ter sobrevivido à guerra. Quanto ao Francisco José Alves e ao que me parece ser um tal O. Gomez não encontrei nada sobre eles. Presumo que fossem de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela.

23 de Maio de 1918 e dado em Campanha


Mas há um segundo retrato, um pouco mais tardio e com mais informações. Está datado de 23 de Maio de 1918 e dado em Campanha. Confesso, quando li este último nome pensei que os rapazes estivessem no Porto, na estação de Campanhã, prestes a partir para França ou a regressar à pátria, mas não. Segundo o meu irmão, por questões de segredo militar, estes combatentes não poderiam revelar as famílias o local exacto onde estavam. Assim, nas cartas, usavam esta expressão, que queria dizer que estavam em campanha algures. A fotografia está dedicada inequivocamente ao meu avô António da Purificação Ferreira, como prova de amizade, ofereço ao meu saudoso amigo Ferreira, segue-se uma identificação de todos os jovens sargentos e assina, o Francisco José Alves.

Identificação dos jovens. Em cima Costa, Tadeu, Tavares, Paula Morais. Sentados, Alves, Delfim, Pires, Esteves e o Lemos


Tinha encontrado um elo comum entre os dois retratos colectivos, o Francisco José Alves, com o seu bigodinho de artista de cinema. Nesta fotografia que enviou ao meu avô fez questão de identificar todos os seus camaradas, provavelmente porque eram companheiros e amigos, aos quais sentia uma ligação muito forte, mas também é provável que o meu antepassado conhecesse alguns deles, conterrâneos das terras frias de Vinhais ou Bragança. Mais uma vez tentei encontrar alguma coisa sobre qual foi o destino destes homens na flor da idade, mas foram apenas identificados como sargentos e pelos apelidos, todos eles muito comuns. Delfim, Pires, Lemos, Esteves, Costa, Tadeu, Tavares e Morais são nomes usados no País inteiro e o no arquivo do exército os soldados e sargentos encontram-se sempre descritos de uma forma mais sumária, que os oficiais e na época nestas fichas oficias ainda não se usavam fotografias.



O Francisco José Alves é o elemento comum nos dois retratos de grupo.

Acabei por deixar este assunto de banho-maria vários anos, até que há pouco tempo, inscrevi-me no Facebook num grupo dedicado ao Corpo Expedicionário Português 1916-19 e retomei as minhas pesquisas e descobri que o segundo retrato, tinha sido publicado na Ilustração portuguesa de 24 de Junho de 1918, num artigo intitulado As nossas tropas em França. Neste texto os rapazes são indicados como Sargentos da Infantaria 10 e o Francisco José Alves teve direito a um retrato próprio, na companhia do brincalhão, que aparece deitado por cima dos outros, o Alfredo de Lemos, Segundo Sargento de Equipagem. 

O segundo retrato foi reproduzido na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918

O Francisco José Alves e Alfredo de Lemos tiveram direito a um retrato próprio na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918
 
A imprensa parece ter gostado destes dois sargentos e encontrei novamente os seu retratos na Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918, num artigo também intitulado As nossas tropas em França. Neste número, o nome do brincalhão é dado de uma forma mais completa, Alfredo Augusto Lemos.

Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918


Esta foi uma investigação sem grandes resultados. Natural de Vinhais, o António Aníbal Ribeiro foi repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e sabe Deus em que estado terá voltado. Quanto ao Francisco José Alves, que aparece retratado nos dois postais sei apenas, que foi sargento da Infantaria 10 e seria amigo do meu avô materno, pois assinou os dois postais e é mais natural que fosse natural de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela, mas não encontrei nada. É um nome demasiado comum.

Escrevi este texto com a esperança que alguém do outro lado do monitor, tenha fotografias iguais a esta, me escreva e me diga, o que aconteceu a todos estes jovens na flor da vida ou como cantava Marlene Dietrich, Wo die Blumen sind, ou em português para onde foram todas as flores?



terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma cabeça de carneiro em bronze



Já aqui escrevi sobre o meu gosto por comprar nas feiras de velharias ferragachos antigos com funções indeterminadas e então se apresentarem vestígios de dourado melhor ainda. Quando os compro, sinto que estou a levar para casa um fragmento de um tesouro, guardado durante centenas ou até milhares de anos no túmulo de um rei cita, merovíngio ou visigodo. Claro, se chego a descobrir a sua função original, a maior parte das vezes são afinal objectos do século XIX ou início do XX e desirmanados de um conjunto original, sem qualquer valor comercial.

Na última vez que estive na Feira de Estremoz, encantei-me com esta cabeça de carneiro em bronze dourado, que foi produzida até com qualidade. Obviamente um fragmento de qualquer coisa. Na base apresenta duas pequenas concavidades, que permitiriam à peça assentar em qualquer lado e no fundo há um buraco, onde se encaixaria outra coisa qualquer. Como a encontrei numa banca misturadas com torneiras antigas, pensei que talvez fosse o manípulo de uma e também coloquei a hipótese de ter feito parte do batente numa porta.




A base apresenta duas concavidades e o extremo, um orifício, que um dia conteve qualquer coisa. 


Mas a internet é uma coisa maravilhosa, carreguei a imagem no Google e num minuto encontre num sítio de venda de velharias um carneiro igual a este, mas assente num pedestal de mármore e identificado como pisa-papéis e atribuído ao início do século XIX. Já era alguma coisa, no entanto para pisa-papéis continuava a apresentar um inestético buraco na extremidade e a explicação não me convenceu.



Imagem encontrada no site Chairish, onde a peça é identificada como pisa-papéis


Copiei a imagem do suposto pisa-papéis no Google e descobri então como ela foi originalmente. Estava realmente assente numa base de pedra e no orifício tinha uma espécie de jarra de vidro e era uma peça para funcionar com um par. Uma garniture para decorar um móvel. E estes carneiros em bronze foram aplicados em mármores distintos, brancos ou com veios coloridos, por vezes apresentando um friso em bronze dourado e os vasos em vidros poderiam ser de várias cores, alguns feitos até em cristal de Baccarat. Encontrei todas essas variantes à venda em sites de antiguidades, normalmente identificados como sendo franceses. Alguns deles, atribuem ao início do século XIX, mas duvido. Parece-me mais coisa estilo Império, mas fabricado no período de Napoleão III, portanto da segunda metade desse século.

Par à venda no e-bay


Ormolu and Marble-Mounted Cornucopia Vases, à venda em 1stDibs


Mas quando vi como era originalmente este carneiro, assente numa base de mármore e com um vaso em vidro lembrei-me que já tinha visto esta forma no passado e veio-me a memória uma exposição maravilhosa, no Museu Gulbenkian, os tesouros do Museu Nacional de Teerão, onde se mostravam várias peças em ouro, copos reproduzindo a forma de cornos, com um animal na base. O Metropolitain Museum de Nova Iorque tem na sua colecção um destes copos, também originário da antiga Pérsia e muitas civilizações antigas usaram esta configuração, como por exemplo os trácios na Bulgária.

Cabeça de Carneiro, do Reza Abbasi Museum, Teerão


Obra Aqueménida, do século V, do Met museum de Nova Iorque


No fundo, este fragmento revela a moda que as grandes campanhas arqueológicas do século XIX introduziram nas artes decorativas desse tempo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Um tinteiro arte deco transformado em candeeiro


Adoro candeeiros de todos os tipos, lustres, apliques, candeeiros de mesa e são objectos que se encontram à venda nos mercados de velharias por quase nada. Já ninguém os quer. Os apartamentos modernos têm todos focos nos tectos ou mesmo que sejam velhos, rebaixam os tectos com uma placa de pladur e lá instalam essas luzes desengraçadas. Os que não têm ainda esses focos dirigem-se nas suas viaturas a uma dessas grandes superfícies nos subúrbios, do género IKEA e compram uns globos de pano para o tecto ou coisa qualquer em plástico para a mesinha de cabeceira.


Como já tenho a casa cheia de candeeiros, quando encontro peças engraçadas compro-as para oferecer, como este candeeiro de mesa, em estilo entre arte deco, com uma bonita tulipa em vidro fosco, que foi a minha prenda de anos para a minha sobrinha Maria.

Na base, há dois orifícios que se fecham ou abrem com uma tampinha

Contudo, ainda antes de a oferecer, houve dois pormenores que me chamaram a atenção. Na base, havia dois orifícios que se fechavam ou abriam com uma tampinha, o que não fazia sentido nenhum num candeeiro. Suspeitei então, que originalmente este objecto tenha sido, um tinteiro, ou mais exactamente aquilo que se designava antigamente como escrivaninha, isto é, um suporte, para conter dois recipientes em vidro ou porcelana, um para a tinta e outro ainda para o areeiro e ainda um pequeno orifício para pousar a pluma.


O candeeiro foi originalmente um tinteiro


Fiz então umas quantas pesquisas no Google e encontrei à venda num site checo de velharias uma escrivaninha igual a esta, mas ainda com a função original e marcada MADE IN FRANCE. No centro, há pequena imagem de um barco com uma inscrição onde se lê Ile de Ré. Ré é uma pequena ilha ao largo de La Rochelle, em França. Provavelmente foi um souvenir comprado nalguma lojeca por alguém, que visitou aquela ilha francesa e quem sabe se o candeeiro, que ofereci à Maria, no sítio onde actualmente está o interruptor, teria uma pequena gravura de algum monumento de França, o Sacré Coeur, a Basílica de Lourdes ou o Arco do Triunfo.

Made in France


Mas isso são especulações e o certo é que este candeeiro foi originalmente um tinteiro, fabricado em França talvez nos anos 20 ou 30 do século XX. Depois com o tempo, as canetas de aparo foram caindo em desuso, generalizaram-se as canetas de tinta permanente e finalmente as esferográficas, que dispensavam o reabastecimento manual de tinta e este objecto tornou-se obsoleto e nesse entremeio alguém teve a ideia de o transformar em candeeiro de secretária, electrificando-o e o resultado até foi muito feliz.

Este candeeiro é exemplo de como as objetos ao longo do tempo vão sendo adaptados, transformados, perdem a função original e ganham uma nova.



Ligação consultada:

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma terrina Miragaia



Recentemente cometi mais um disparate e comprei esta enorme terrina de Miragaia. Foi barata, mas falta-lhe a tampa, as pegas estão partidas e está toda gatada, mas tenho uma paixão por esta louça decorada com o chamado motivo País. Não aparece muito no mercado, mas sempre que vejo uma com um preço aceitável compro e além desta já tenho outra terrina mais pequena, um covilhete e um prato de sopa. De modo que esta terrina continua uma pequena colecção.

Marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 


No tardoz esta peça apresenta a marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 e corresponde ao segundo período de laboração da fábrica, entre 1822 e 1850, em que predomina a cor azul e o já referido motivo País, uma adaptação livre e imaginativa de uma louça inglesa da Herculaneum Pottery, View in the Fort Madura, como já aqui referi em Maio de 2014.

Marcas Miragaia usadas entre 1822 e 1850. Reprodução da obra Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


No já referido catálogo, consta uma terrina com as dimensões da minha, mas está completa, com a tampa e as pegas intactas.

Um terrina com as mesmas dimensões da minha, com em bom estado de conservação e com a tampa. Imagem reproduzida de Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


Além da beleza da decoração azul e branca com flores e da paisagem com o casario de longínqua inspiração na Índia, o que me impressionou também nesta terrina foram as enormes dimensões. Só de comprimento tem 33 cm e ainda 25 cm de largura. Era uma peça destinada a servir à mesa uma família grande. Como tenho também um prato de sopa desta série País, tentei perceber quantos pratos serviria esta terrina, enchendo-a de água, mas como está tão velhinha e maltratada pelos seus quase duzentos anos de existência, começou logo a verter e minha experiência caiu por terra.


Esta terrina está em mau estado, incompleta e como tal não tem e nem nunca terá grande valor comercial, mas eu compro por prazer e pelo valor evocativo. Esta peça recorda-me as refeições de uma casa grande de família, que ainda conheci, servidas numa grande mesa de jantar de nogueira, à beira da qual se sentavam 10 ou 14 pessoas, enfim uma época irremediavelmente perdida.



Bibliografia:

Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX


O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua

Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.


Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.

Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante 


Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.

Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.

Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes,


O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.

Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.

Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte


Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.

Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.

O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.

Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira,



Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.

Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.

Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.

No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis.



Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.

Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau


Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.

Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.

Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).

Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)

Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.

O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz



Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.

Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar

Mas o que interessa é que este Francisco José de Morais comprava no Porto em seu nome os produtos que minha quarta avó, comercializava na sua loja, como sabão da Saboaria Hespanhola de José Júlio Bouças, Rua do Bom Jardim, 236 (carta de 1872-06-01) ou aço no Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68 e fazia chegar as facturas à sua cunhada em Chaves e assegurava os pagamentos aos fornecedores da cidade do Porto, que como era hábito na época, só aceitavam pagamentos em metal sonante. Assim entre 1864-07-28 e 1876-10-30, contei um total de 20 cartas no espólio, que são basicamente umas guias que Francisco José emitia a pessoas da sua confiança, em trânsito entre o Porto e Chaves, para cunhada lhes entregar dinheiro, que posteriormente lhe seria devolvido, certamente destinado ao pagamento dos fornecedores do Porto ou para o reembolsar de adiantamentos que ele próprio teria feito. Talvez estes indivíduos fossem mais de confiança que os almocreves. A maioria deles eram militares, muitos da 1º companhia da administração militar. Aliás, estes conhecimentos no meio castrense fazem-me suspeitar que o Francisco José seria também um militar a cumprir serviço no Porto, mas no Arquivo Histórico do Exército nunca encontrei uma referência inequívoca a este meu tio tetravô. Nesse arquivo constam muitos homens com o nome Francisco José de Morais, alguns do Distrito de Vila Real, mas os dados de filiação, nascimento e datas não batem certo. Mas este meu antepassado sabia de contabilidade e numa das cartas que escreve à sua prezada cunhada (2 de Julho de 1872), apresentou-lhe um mapa de contas, com aspecto muito profissional, revelador de quem sabia muito bem o ofício. Estaria ele na administração militar nalguma secção de contabilidade?


Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas


Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.

Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.

Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo


Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.

Genealogia dos Alves e dos Morais