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domingo, 3 de julho de 2022

Um menino Jesus de Malines esculpido pelo tempo


Como já referi muitas vezes no blog, adoro arte sacra e sobretudo escultura. Mas os preços de uma imagem de madeira portuguesa do século XVIII ou XVII são na maior parte dos vezes proibitivos para a minha bolsa.

Este menino Jesus que apresento hoje estava a um preço simpático e desde logo me pareceu que era uma imagem de Malines, embora muito alterada, com uma cabeça do século XVIII.

Para os menos familiarizados com estas questões da arte, a expressão imagens de Malines, designa um um tipo de esculturas executadas na cidade de Malines (actual Bélgica), entre 1500 e 1540, com pequenas dimensões, normalmente entre 28 e 36 cm e que apresentam um certo ar abonecado. Em francês são mesmo designadas por poupées de Malines. Essas pequenas figuras foram exportadas para o resto da Europa através do porto de Antuérpia e eram muito apreciadas em Portugal e Espanha, Já escrevi por sobre esse assunto aqui no blog em 2 de Julho de 2012.

Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540

Dentro das várias imagens de santos e da Virgem produzidas em Malines, os meninos jesus eram muito característicos. Eram de pequenas dimensões, apresentavam coxas exageradamente roliças, o ventre proeminente e as nádegas diminutas e apertadas. O meu menino Jesus apresenta exactamente essas especificidades, que me levaram desde imediato a suspeitar que tivesse sido executado em Malines. 

As nádegas diminutas e apertadas

Porém os Meninos Jesus daquela cidade eram sempre do tipo Salvador do Mundo, isto é, com a mão direita abençoavam e na esquerda seguravam a esfera do mundo ou uma maça. Na minha imagem, a mão esquerda foi completamente refeita de uma forma um bocadinho trapalhona e a direita foi também muito mexida. Igualmente, num tempo que não posso precisar alguém substituiu a cabeça original do Menino por uma do século XVIIII, com olhos de vidro. Provavelmente a cabeça original, que seria maior, de uma forma rotunda, com os olhos amendoados e sorridente estaria já muito comida pelo caruncho e uma senhora devota encomendou o trabalho, julgando que o menino ficaria mais bonito ou então um antiquário sem gosto, resolveu pôr-lhe uma cabeça de outra imagem, para a vender com o melhor preço.

A cabeça com olhos de vidro é do século XVIII não é original e os braços foram muito alterados

Este Menino Jesus que comprei na Feira de Estremoz, apresenta também uma outra características de Malines. Os pés eram furados para assentarem numa peanha com dois espigões. Com efeito, era hábito vestir este meninos Jesus e portanto eram facilmente amovíveis para que os devotos os pudessem trajar com roupinhas em seda.


Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540. As imagens eram facilmente amovíveis.

O meu menino Jesus apresenta cerca de 17 cm de altura. Talvez com a cabeça original, que era certamente maior tivesse mais um ou outro centímetro. Estas dimensões fogem um bocado às medidas padrão apresentadas na obra Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 / Fanny Cayron, Delphine Steyaert . - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019, mas o inventário feito por Bernardo Ferrão de Tavares e Távora em 1975, identifica pelos menos dois meninos Jesus de Malines com 20 cm em colecções particulares portuguesas e num antiquário francês, a Galerie Puiseux, encontrei um à venda com 18 cm de altura.

Em suma, este meu Menino Jesus foi executado em Malines, algures entre 1500 e 1540, exportado para a Península Ibérica via Antuérpia, para servir a devoção privada de uma religiosa, uma fidalga devota ou um burguês rico, com pequenas dimensões para ser facilmente transportado, de modo a que o seu proprietário nunca perdesse a protecção do Cristo Menino, ainda que estivesse numa nau a caminho da Índia.

O meu menino Jesus está muito estragado, perdeu a cabeça, a peanha e os braços foram alterados, mas é uma peça do século XVI e tem toda a poesia e beleza das marcas do tempo, que alteram e transformam uma escultura.


Bibliografia e links consultados


Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 : étude matérielle et typologique / Fanny Cayron, Delphine Steyaert ; sous la dir. d'Emannuelle Mercier ; avec la collaboration de Famke Peters. - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019. - 231 p. : il. ; 30 cm. - (Scientia Artis ; 16)

Imagens de Malines em Portugal / Bernardo Ferrão de Tavares e Távora. - Porto : Museu, 1975. - 262 p. : il. ; 24 cm. - Sep. "Museu", 2as., (16/17), Jul.1975

E um agradecimento especial aos meus colegas do Museu Nacional de Arte Antiga

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Um Cristo preto


Na catequese, nos manuais escolares e nos livros de religião e moral, quase todos nós formámos uma imagem de Jesus Cristo como um homem loiro, cabelos escorridos, penteados com um risco ao meio e olhos azuis. Mesmo hoje, em que já não acreditamos em nada, quando nós ocorre, ainda que apenas por breves momentos, que talvez pudéssemos pedir ajuda a Deus, vem -nos sempre à memória esse Cristo das imagens piedosas do passado.

Talvez por essa razão eu goste deste insólito Cristo preto, que o meu amigo Manel me ofereceu. Faz um contraste interessante com as todas beatices do século XVIII ou XIX com que enchi a minha casa, registos de santos, imagens de roca ou medalhões ovais em espuma de mar com representações de Nossa Senhora.
 
É uma peça africana em pau-preto, comprada talvez em Angola ou Moçambique por um soldado em serviço militar, um funcionário público em final de comissão de serviço, ou por um daqueles muitos milhares de portugueses, que construíram as suas vidas em Luanda ou Lourenço Marques. Tenho até ideia de ter vistos filmes antigos dos anos 60 e 70 com artificies africanos a venderem peças de artesanato no chão das ruas de Luanda. Os meus pais, que estiveram em Timor e regressaram de barco, fazendo em escala em Luanda e Lourenço Marques (a actual Maputo) compraram uma ou outra peça africana.

Hoje em dia, essas peças africanas, que os milhares de portugueses, que passaram por África trouxeram nos seus caixotes nos porões do navio são consideradas hediondas e encontram-se no chão das feiras de velharias por tuta-e-meia, e, é pena pois algumas delas são muito interessantes. Mas o passado colonial português é uma coisa mal vista, politicamente incorrecta e quando o morre o cidadão comum, que trouxe esses objectos de artesanato africanos na sua bagagem, os descendentes tratam de os despachar rapidamente.
 
 
Embora não me interesse por arte africana, gosto muito deste Cristo preto, que com a luz solar, ganha reflexos muito interessantes. Até o pó da parede a esfarelar lhe assenta bem na pele escura. Aprecio também a sua expressão serena, de que quem cansado de tantos trabalhos forçados,  pancada e guerras se deixou adormecer para sempre. Recorda-me igualmente "Lágrima de Preta", o poema de António Gedeão, que não consegui deixar de transcrever aqui.

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.




domingo, 13 de setembro de 2015

Uma cabeça decepada do século XVII

Como já aqui escrevi muitas vezes tenho sempre uma certa atracção por objectos estranhos ou bizarros, dos quais às vezes nem conheço a utilidade. Foi o caso desta peça, uma cabeça em madeira, cortada a metade, que estava na banca de um feirante de uma feira em Estremoz. Encantei-me logo com a qualidade escultórica do trabalho do cabelo e a expressão serena da figura. A peça também não estava repintada, como acontece com quase toda a arte sacra à venda naquela feira, em que as pintadelas modernas estragam irremediavelmente em dez minutos imagens, que sobreviveram ao tempo duzentos ou trezentos anos. Como o dono da banca, devia estar com dificuldade em vender uma meia cabeça, com um ar macabro, propôs-me um preço muito simpático e lá a levei eu todo contente. A peça estava colada a um prato de madeira, moderno, que me fez suspeitar que fosse um São João Baptista, mas como houve uns quantos santos cristãos decepados e esta meia cabeça, poderia ter feito parte de um qualquer grupo escultórico, representando, por exemplo os mártires de Marrocos.


Quando cheguei a casa, fiz algumas pesquisas. Os mártires de Marrocos, que coitados, foram decapitados eram todos franciscanos e portanto se esta cabeça tivesse feito parte de um grupo escultórico representando aqueles monges, teria obviamente uma tonsura. Depois lembrei-me que tinha vistos umas quantas cabeças de S. João Baptista, na exposição da colecção Franco Maria Ricci, que esteve patente, no Museu Nacional de Arte Antiga e fui consultar o catálogo e a iconografia, a forma como se apresentava a cabeça, exposta numa bandeja e como que cortada logo abaixo do queixo, coincidiam perfeitamente.

Cabeça de S. João Baptista, séc. XVI, a partir de Andrea Solario, col. Franco Maria Ricci
Portanto, conclui, que de facto, a minha pequena escultura, se tratava de uma cabeça degolada de S. João Baptista, à qual faltava apenas o prato. Aliás, na base desta pequena estatueta, existem uns quantos buracos, que deveriam servir para a encaixar numa bandeja, ou em alguma moldura de talha dourada, que representasse de alguma forma esse objecto


Este tipo de iconografia algo macabra desenvolveu-se na Europa, nos finais da Idade Média, depois de terem sido descobertas no Oriente e transportadas para a Europa, várias relíquias de João Baptista, sobretudo aquilo que se pensava ser a cabeça original do Santo. Apesar de segundo a tradição mais antiga os ossos de São João Baptista terem sido mandados carbonizar no século IV pelo imperador Juliano, o Apóstata, logo nos finais da Idade Média, por toda a Europa, miraculosamente, contava-se a soma impressionante de 12 cabeças e 60 dedos, que teriam pertencido ao referido Santo. Claro, o que acontecia, é que muito peregrinos traziam da Terra Santa ou da Ásia Menor cabeças das sepulturas de outros mártires, também chamados João. Mas o que interessava é que quando essas ossadas chegavam à Europa, as pessoas acreditavam que eram realmente verdadeiras e que continham em si poderes miraculosos.

Não vou contar a aqui a história de s. João Baptista, que é das figuras mais conhecidas da nossa cultura cristã e das mais representadas na arte. S. João Baptista é apresentado menino, só ou na companhia o Menino Jesus é pintado ou esculpido em adulto e depois existem todas aquelas cenas, à volta do seu martírio, que envolvem a bela Salomé e a sua dança dos sete véus, que inspiraram tantos artistas plásticos, escritores e até mesmo cineastas.
Uma das mais emblemáticas obras do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, Salomé com a cabeça de S. João Baptista de Lucas Cranach
A cabeça de S. João Baptista num prato é uma representação, que resume todo o seu martírio e à qual na Europa se atribuíam poderes curativos de enxaquecas, dores de garganta, sufocamento e todas as doenças, relativas à parte capital do corpo humano. Era também invocada pelos condenados à morte.

Se relativamente à iconografia, estava certo que a minha estatueta representava o S. João Baptista, quanto à época em que foi executado estava cheio de dúvidas. Ela pareceu-me desde logo antiga e muito bem executada, mas tenho sempre presente que os santeiros portugueses no início do século XIX, estavam apegados a tradições antigas da profissão e repetiam fórmulas dos séculos anteriores e portanto esta cabeça podia ser muito bem uma coisa bonita, mas sem grande antiguidade.


Mostrei a peça alguns colegas do Museu Nacional de Arte Antiga, nomeadamente ao Anísio Franco e à Maria João Vilhena, que fizeram o favor de me darem a sua opinião. Quer um quer outro, crêem que se tratará de um trabalho do século XVII, o bigode, é muito típico dessa época e a Maria João Vilhena pensa mesmo que poderá tratar-se de uma escultura indo-portuguesa, por causa da configuração dos olhos, amendoados e da orelha, em evidência. Normalmente na arte europeia, a orelha ou está escondida pelos cabelos ou pura e simplesmente não se destaca. Igualmente o trabalho goivado do cabelo, muito usado pelos escultores flamengos em século anterior, é um arcaísmo que os mestres ditos indo-portugueses, conservaram até muito tarde.
A cabeça de S. João Baptista foi juntar-se a outras beatices da minha casa
Fiquei satisfeito com a compra desta figura, que dorme um sono dos justos, numa serenidade oriental e que talvez tenha sido feita na longínqua Goa, no século XVII.

Alguma bibliografia: 

FMR: a colecção Franco Maria Ricci. Lisboa: MNAA, INCM, 2014
Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1958
Vita Christi: marfins luso-orientais. - Lisboa: MNAA, 2013

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Um cristo talhado pelo tempo


Encantei-me por este Cristo incompleto e amputado. Se esta peça estivesse inteira seria talvez apenas uma das centenas de milhares de imagens de Cristo, que se talharam em madeira ao longo do século XVIII. Mas as marcas do tempo transformaram-na numa espécie de escultura contemporânea, como se o artista tivesse desejado apenas representar o torso e cabeça.

Por mera intuição julgo tratar-se de uma peça executada dos finais do XVIII, mas não é muito simples datar os Cristos desta época. Não há um livro que nos explique as características gerais dos Cristos em Portugal no século XVIII. Também é bem verdade, que nesta altura já a iconografia de Cristo crucificado estava estabilizada há muito, e de uma forma ou de outra, o Cristo é sempre representado da forma como o vemos aqui.

Mas, nem sempre foi assim. Em primeiro lugar Jesus Cristo foi crucificado nu, como era hábito entre os romanos, mas claro para as mentalidades da Idade Média ou Moderna um Cristo em pilaroca era uma coisa impensável. Também o culto da Cruz não começou logo nos primeiros tempos do Cristianismo. Os romanos reservavam a morte por crucificação para os criminosos e era natural que os primeiros crentes não gostassem de ver o homem, que eles julgavam filho de Deus, representado como um vulgar bandido. Só depois de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, no séc. IV, ter trazido um pedaço do Santo lenho da Terra Santa para Constantinopla é que a cruz se começa a tornar um símbolo do cristianismo. Porem, as imagens de Cristo crucificado só começam a aparecer depois do século VII e eram muito diferentes das de hoje em dia. Os Cristos representavam-se com a coroa imperial, de olhos abertos, os braços estendidos horizontalmente, sem sinais de sofrimentos, quatro cravos e muitas vezes envergavam uma túnica longa.
Cristo românico do Metropolitain Museum. A coroa imperial, os olhos abertos e os braços ainda dispostos horizontalmente. Imagem retirada de http://elpasiego.foroactivo.com/t107p60-cristos-romanicos
Só nos séculos XII e XIII com a sensibilidade que São Francisco de Assis imprimiu ao cristianismo, é que começamos a ver progressivamente Cristos na arte contorcidos de dor, moribundos ou mesmo mortos. A ideia passou a ser que os crentes se identificassem com o sofrimento de Cristo e se pudessem aperceber que o seu sacrifício foi feito em prol da humanidade, para a resgatar dos seus pecados. Procurou-se então uma representação mais naturalista de Cristo. A cabeça descai em sofrimento, os olhos estão fechados ou semicerrados, os braços são dispostos em V, a túnica é substituída pelo perizonium, uma espécie de faixa de pano, mais próxima da nudez com que jesus foi martirizado e em vez de uma coroa imperial, apresenta uma simples coroa de espinhos. É também a partir dessa época, que em vez de quatro pregos, dois nos braços e dois nos pés, Jesus passa a ser mostrado com três pregos. Um para cada braço e um para ambos os pés.

Cristo românico espanhol. Os braços dispostos horizontalmente, uma túnica e os quatro cravos. Imagem retirada de http://elpasiego.foroactivo.com/t107p60-cristos-romanicos
Nos finais da Idade Média, já a iconografia de Cristo se tinha definido e desde então todas as representações se assemelham um pouco, o que vai mudando será antes resultado do talento de quem pintou ou esculpiu a obra, ou as características de um determinado estilo artístico então em voga.

Em todo o caso, sem ter chegado a nenhuma conclusão definitiva sobre a sua data de execução, gosto muito deste Cristo esculpido pelas mãos de um qualquer artífice anónimo e a que o tempo deu os retoques finais de mestria.

O Cristo encontrou um lugar na minha casa

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um anjo que não é como os outros: Vinhais, igreja de S. Facundo


aqui escrevi sobre as esculturas da fachada da igreja de S. Facundo, em Vinhais. Na altura demonstrei que o conjunto tradicionalmente identificado como a Santíssima Trindade, mais não é do que uma Virgem em Magestade românica. Tive até ocasião de escrever um artigo sobre o tema para o Boletim Municipal de Vinhais, em 2012. Uma das figuras que compõem esse conjunto, é um ser alado, que foi tomado como Espírito Santo. Esta Pessoa da Santíssima Trindade é quase sempre representada por uma pomba e o que vemos aqui é um ser com pernas, corpo, um rosto humano e umas asas, isto é, um anjo. Portanto, esta figura alada não é de todo o Espírito Santo.

E no entanto não é um anjo como os outros. Se observarmos bem, reparamos que este anjo não tem braços. Normalmente, na pintura, na escultura, no desenho ou na gravura todos os anjos têm braços e as asas saem das costas. É quase uma regra universal e acreditem em mim, pois desde que descobri estas esculturas de S. Facundo, com cerca de 23 anos, vejo sempre com atenção todas as representações artísticas de anjos e nunca vi nenhuma exactamente igual a esta.

Desde essa época para cá venho procurando informar-me sobre Anjos, para tentar decifrar esta figura alada pouco convencional e recorri naturalmente à Iconographie de l'art chrétien do Louis Réau, que a principal fonte deste texto.

Ora como toda a gente sabe, o cristianismo formou-se a partir do Judaísmo que é uma religião sem imagens. Só quando a religião cristã, extravasa o meio judaico e começa a penetrar no mundo greco-romano, onde os deuses eram representados como pessoas e as histórias da mitologia eram contadas através de imagens na escultura ou na cerâmica, é que os artistas começam a tentar representar em arte as histórias da Bíblia. Relativamente aos anjos, o Antigo Testamento não dá deles grandes descrições. Só nos textos feitos depois do exílio na Babilónia, é que os anjos tomam um papel mais activo nas narrativas e a forma como são descritos levou os historiadores a afirmar que touros alados de Ninive forneceram inspiração aos Profetas do Exílio.
Os touros alados de Ninive forneceram inspiração aos Profetas do Exílio
No entanto, a iconografia dos actuais anjos, como nós os conhecemos, um corpo humano, as asas nas costas e mantos esvoaçantes mais não é do que o resultado de um empréstimo que os pintores e escultores dos primeiros tempos do cristianismo fizeram ao paganismo, mais exactamente às nikés ou vitórias aladas. Toda a gente conhece perfeitamente o exemplo de uma destas nikés, que se encontra no Museu do Louvre, a célebre Vitória de Samotrácia. Foram pois figuras com esta que inspiraram a imagens dos anjos cristãos.
A Vitória de Samotrácia no Louvre. Foram figuras com esta que inspiraram a imagens dos anjos cristãos.
Agora, o anjo de S. Facundo sai um pouco fora desta representação clássica das figuras humanas com braços e pernas e com asas no corpo.

Os únicos anjos que apresentam algumas semelhanças com esta figura da igreja de S. Facundo são os Serafins e os Querubins. Estas duas classes de anjos distinguem-se pelo número de asas, os primeiros tem seis, os segundos quatro, mas muitas vezes as asas escondem as mãos. Correspondem a uma visão de Isaías em que este anjos se disponham sob o trono do Senhor e esta iconografia foi muito usada nos tímpanos românicos, na época em que as esculturas da Igreja de S. Facundo foram lavradas. Poderia este anjo ter um par e estarem sob o trono desta Virgem em Magestade?
Virgem em Magestade de Cunault, França
Mas, por mais que eu queira, este anjo não tem nem quatro, nem seis asas e também é bem verdade que o facto de ele não ter braços se poderá dever mais à falta de perícia do seu escultor, que executou uma representação simplificada e rústica de um anjo.

Em todo o caso, parece-me viável que poderia haver um par deste Anjo a ladear o trono da Virgem em Majestade.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Imagens de roca, articuladas ou de vestir

Este blogue nunca teve a vertente de noticiário cultural. Já fiz durante alguns anos esse tipo de trabalho na página oficial da internet de um organismo da cultura e fartei-me disso. Noticiar só porque é novidade não faz muito sentido. Importam-me mais as coisas que nunca passam de moda e cujo interesse é permanente.

Mas, hoje resolvi quebrar um pouco essa norma e escrever sobre uma exposição que me impressionou pela sua beleza pungente, apresentada no convento do Salvador em Évora, intitulada A cenografia barroca e as imagens de vestir
Imagens de vestir num cenário espectacular
Organizada pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo - Museu de Évora a exposição é pequena, consta de pouco mais de meia dúzia de imagens de roca ou de vestir, não há um catálogo sequer, mas as imagens são lindas e o cenário, a igreja do Convento do Salvador, inteiramente revestida de azulejos do século XVII é fabuloso. Évora surpreende-nos sempre pelo cuidado que põe nos seus monumentos. Mas a exposição não apresenta só as santas de roca ou as imagens de vestir. Mostra também os seus enxovais, como os vestidos de seda bordados a ouro, as saias com estampados sumptuosos, os corseletes, as capas, a roupa interior de linho fino com rendas, os sapatos e as sandálias. 
A associação entre as santas de roca e as roupas, apresentada nesta exposição, é essencial para a compreensão do significado destas imagens de arte sacra.

Estas imagens de roca ou de vestir nunca foram muito valorizadas pela arte. O nosso conceito de belo é o das esculturas gregas em pedra, despidas de qualquer pintura ou quanto muito o de uma boa escultura em madeira, onde o escultor mostra todo o virtuosismo da sua arte. Agora estas imagens são meras armações de pau, apenas com um rosto e umas mãos, ou bonecos articulados onde só as partes destinadas a ser vistas são objecto de um tratamento artístico cuidadoso. São feitas para iludir, diríamos nós, que não temos crença em Deus, na Virgem, em Santos, ou em milagres, mas nos séculos XVII e XVIII, no tempo em que foram concebidas, as pessoas ofereciam vestes à Virgem para agradecer as graças concedidas. Ainda que o seu corpo fosse uma mera armação de pau, o poder de uma Virgem media-se pela riqueza do seu enxoval e das suas jóias. Uma Nossa Senhora com um grande guarda roupa, com muitos brincos em ouro e colares de pedras preciosas era uma santa cheia de poder, miraculosa, capaz de curar os crentes das doenças mais temíveis e fazer chover em anos de seca.

Por exemplo, a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, para agradecer à Nossa Senhora da Azinheira a graça de a ter feito sobreviver a um parto difícil, desde 1878, emprestava todos os anos à Santa um colar precioso feito em minas novas, que saia ao pescoço da imagem no dia da procissão. Esse costume sobreviveu à sua morte em 1902 e manteve-se por mais de cem anos, até que um padre ou alguém da comissão fabriqueira, resolveu meter o dito colar num cofre e de lá nunca mais saiu, coisa que me aflige sinceramente, eu que não tenho crença alguma, quanto mais aos católicos convictos devotos da Senhora da Azinheira.

Quero eu dizer com isto, que o valor destas imagens é indissociável das suas vestes, dos seus diademas e das suas perucas. Só o conjunto da imagem e do enxoval permite respeitar simultaneamente o valor artístico, antropológico e religioso destas santas de rocas, imagens articuladas ou de vestir.
O valor destas imagens é indissociável das suas vestes, dos seus diademas e das suas perucas
Aliás, é curioso, que o próprio acto de vestir estas santas, na véspera de um período religioso especial como a Páscoa ou de uma grande procissão tinha um carácter quase ritual. Quem se encarregava disso eram as mulheres mais devotas e faziam-no à porta fechada. Não sentiam que estavam a vestir uma boneca qualquer, mas sim uma verdadeira Senhora. Há muitos anos, em Castelo Branco, nas vésperas da Páscoa, depois do jantar, portanto já fora de horas, entrei com uns amigos numa Igreja e surpreendemos um grupo de senhoras a vestir uma Santa de Roca e elas ficaram embaraçadas, envergonhadas mesmo, porque estranhos viram a Senhora quase sem vestes. Foi como se tivéssemos de algum modo perturbado o pudor da Santa.

Esta pequena mas espectacular exposição permitiu-me também confirmar que a minha Santa de Roca terá sido feita no Século XVIII e é agora o pretexto que precisava para mostrar uma nova fotografia dela, depois duma pequena intervenção de restauro e limpeza, que pôs à vista as lágrimas que lhes escorrem dos olhos, anteriormente encobertas pela sujidade. 
O restauro da minha santa de Roca pôs à vista as lágrimas
Talvez os mais crentes acreditem que as suas lágrimas caiam pela promessa, que Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão fez em 1878 à Nossa Senhora da Azinheira e que foi quebrada de forma insensível pelos responsáveis daquela igreja em Outeiro Seco.


Alguma bibliografia:
Les statues habillés dans de catholicisme: entre histoire de l'art, histoire religieuse et antrophologie / Marlène Albert Lllorca
In 
Archives de sciences sociales des religions, 164 (octobre-décembre 2013), p. 11-23

sábado, 21 de setembro de 2013

Um pai do céu algarvio e os lararia romanos


Recentemente, depois de ter lido o meu post sobre os pais do céu algarvios e os seus nichos, um senhor espanhol, seguidor deste blog, enviou-me um Cristo muito ingénuo, comprado numa feira de velharias do Algarve, que me encantou e de imediato lhe pedi autorização para partilha-lho convosco. Este Cristo, de tão tosco, que é, que quase parece uma escultura românica, serviu-me também para voltar a reflectir sobre a curiosa colocação nas casas algarvias dos altares onde se punham estes cristos.

Um típico nicho nas casas algarvias onde se colocavam os Pais do Céu
Foi o Zé Júlio, que me deu a conhecer os nichos onde estas esculturas eram colocadas nas casas populares algarvias. Os dois interrogámo-nos muitas vezes acerca das razões da localização destes pequenos altares, logo na primeira divisão pela qual se entrava na casa. Normalmente nas casas portuguesas, pelo menos nas nobres, o oratório é sempre situado na divisão mais privada, o mais longe possível da porta da rua. Por estas razões, o Zé Júlio e eu chegamos a aventar a hipótese, de que colocar o altar à vista de quem passava na rua e espreitava pela porta entreaberta, seria a forma de populações cristianizadas tardiamente e à força, afirmarem a sua ortodoxia. 
Estes oratórios podem-se ver da rua
Hoje já não penso assim. Creio que estes nichos onde se colocavam os pais do céu são antes a sobrevivência dos lararia romanos. O lararium era um pequeno altar sagrado da antiga casa romana onde se realizavam oferendas e orações aos deuses guardiães do lar (os lares) e onde também se fazia o culto dos antepassados. Nestas casas, o lararium situava-se normalmente no átrio, o primeiro pátio interior, que era a zona mais pública da habitação romana, onde se recebiam as visitas e os clientes, isto é, as pessoas dependentes do senhor romano. Havia depois um segundo pátio, o Peristilo, um espaço privado, que era exclusivamente reservado à vida familiar. 
Lararium em Herculano. Foto Wikipedia
Estes pequenos nichos algarvios, colocados logo à entrada de casa, contrariando a tendência portuguesa de situar o oratório na divisão mais reservada da habitação, serão talvez uma reminiscência do lararium romano. Aliás as imagens dos lararia de Herculano e Pompeia são obviamente semelhantes aos nichos dos pais do céu.
Lararium em Pompeia. Foto Wikipedia
Resta-me agradecer ao Jesus ter-me permitido mostrar este cristo. Natural de Cádiz, o Jesus é um homem que vive rodeado de cristos e santos e que ao contrário de mim, é crente, pois segundo me escreveu, começa a ter a idade em que é mais fácil creer que descreer, uma frase bonita, revelando uma sensibilidade que me é cara.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cenários algarvios para um Cristo



O nosso amigo do blog http://o-outro-bau-do-zejulio.blogspot.pt/ pediu-me para levar comigo para o Algarve, um dos meus Cristos. O Zé Júlio queria fotografa-lo no oratório de uma casa abandonada, procurando reconstituir um desses pequenos espaços de devoção tão característicos das antigas casas rurais algarvias.

Lá levei o meu Cristo no carro para o Algarve e fomos com o Zé Júlio visitar umas dessas aldeias abandonadas do Barrocal algarvio. Para quem não saiba o Barrocal, designa a extensão de terreno entre a serra e a costa. É uma zona já de colinas, muito arborizada, com oliveiras, amendoeiras e alfarrobeiras e ainda pouco tocada pelo turismo.


O meu Cristo é uma peça do século XIX, conhecido por Cristo bacalhau, por apresentar uma forma espalmada. A cruz já foi comprada posteriormente.

Nessa aldeia abandonada, tal como em muitas outras povoações do barrocal, em cada uma das casas existe um pequeno nicho embutido na parede, que era onde as famílias colocavam o crucifixo, o Pai do Céu. Mas a particularidade, destes oratórios é que se situam sempre na divisão pela qual se penetra na casa. São a primeira coisa que o visitante vê quando franqueia a porta de entrada, o que contraria um bocadinho a tendência das casas portuguesas, de que o oratório se situasse numa parte mais privada da habitação.

No Livro de D. Duarte, O Leal Conselheiro, que descreve a compartimentação das casas senhoriais, a transcâmara ou zona de vestir e do oratório, era a parte mais íntima da casa onde os moradores se retiravam para ler, rezar ou meditar e antes de se chegar a essa divisão, passavam-se por umas quantas salas.


O pequeno oratório num dos quartos do Solar dos Montalvões
No Solar da família dos Montalvões existiu um destes nichos embutidos na parede, mas localizava-se num quarto de dormir, numa zona resguardada da habitação. Na casa da família da minha mãe, que é uma construção dos anos 30, existe ainda um oratório de madeira, que está colocado no último quarto da casa, depois de uma sucessão de duas salas e dois quartos, repetindo um esquema de distribuição dos espaços antiquíssimo, já descrito por D. Duarte.

O nicho com o pai do Céu situa-se sempre na divisão, pela qual se entra na casa, como que uma afirmação de fé cristã, numa região onde o Islão terá sido praticado em segredo, muitos anos e muitos anos depois da Reconquista


Claro, as casas destas aldeias algarvias são coisas simples, populares, mas não deixa de ser curiosa a distribuição dos espaços. Apresentam duas ou três divisões na frente, sendo que a cozinha e a parte dos animais estão nas traseiras. O nicho com o pai do Céu situa-se sempre na divisão, pela qual se entra na casa, como que uma afirmação de fé cristã para os vizinhos ou forasteiros numa província, onde o Islão terá sido praticado em segredo durante um considerável tempo depois da Reconquista em meados do século XIII. Mas enfim, não há quaisquer provas, que este hábito de colocar o oratório na primeira divisão da casa seja uma sobrevivência de uma prática de gente convertida recentemente ao Cristianismo e queria afirmar aos estranhos a sua ortodoxia. É apenas uma mera presunção que partilho com o Zé Júlio.

Na minha casa, o Cristo carece da simplicidade monacal dos oratórios das aldeias do barrocal.

Em todo o caso, gostei muito e ver o meu Cristo num destes oratórios algarvios. Ganhou um cenário cheio de simplicidade monacal, que lhe falta na minha casa.


Depois da visita à aldeia abandonada, encontramos a passear no campo um casal de alemães reformados, muito afáveis, que vivem no Algarve. O Zé Júlio, que é um rapaz muito tímido, meteu conversa com eles e em três tempos fomos visitar a sua casa, ali perto, uma moradia muito simpática, que reaproveitou as construções existentes,  integradando-se perfeitamente na paisagem.

Um outro cenário para o meu Cristo: um nicho reutilizado de uma antiga habitação por um casal alemão

No interior, existia também um nicho, reutilizado de uma antiga casa e a senhora alemã quis também experimentar colocar ali o meu crucifixo e ter a sensação, ainda que por instantes, que o pai do céu algarvio estava a abençoar aquele lar. Fiquei com a ideia que a senhora devia estar a convencer o marido, que talvez seja um luterano sério ou ateu convicto, a comprar um cristo muito católico para aquele espaço. Mas julgo que já sou eu a romancear a coisa.

As lágrimas de um genuíno Pai do Céu algarvio
Alguns dias depois, de ter regressado são e salvo a casa com meu cristo, o Zé Júlio enviou-me uma fotografia de um pai do céu genuinamente algarvio, daqueles que anteriormente preenchiam os nichos. É boneco muito ingénuo, com lágrimas de sangue, que nos toca pela sua simplicidade e por aquilo que representa, um mundo rural, que permaneceu igual durante muitos séculos e hoje está definitivamente moribundo.

 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nossa Senhora em Espuma de Mar




Recentemente, cometi mais uma pequena loucura e comprei uma Nossa Senhora em espuma do mar. É literalmente uma pequena loucura pois mede apenas 11,5 x 9,5 cm, aliás a minha casa é tão cochichosa e está tão sobrecarregada, que só lá consigo pôr peças com estas dimensões.


Encantei-me com o trabalho minucioso da Nossa Senhora, com as flores em pano, que a rodeiam e a moldura oval muito oitocentista e lá consegui arranca-la às mãos da vendedora por um bom preço, depois de algum regateio. Também estava um frio de rachar e a feirante queria era ir-se embora o mais depressa possível e com algum dinheiro nos bolsos. Não há nada como os dias muito frios ou de chuvisco para comprar pechinchas nas feiras de velharias. Pelo contrário, os dias de Sol, quando a turistada invade às feiras, são os piores. Qualquer tareco velho é apresentado como muito antigo, pombalino, marca Miragaia ou Companhia das Índias e vale muito dinheiro.


Mas, voltando a Minha Nossa senhora, ela irá fazer companhia a uma Santa Ana Mestra, que já tenho em casa, feita no mesmo material, espuma de mar.


A espuma de mar é o nome vulgar que se dá a um mineral chamado Hidrogenosilicato de magnésio, que é comum na Turquia. É um material muito leve e de cor clara, que costuma aparecer a boiar nas águas do Mar Negro e por isso ficou conhecido pelo nome espuma do mar, que os ingleses e alemães designam por meerschaum e os franceses écume de mer. Como é um mineral muito suave presta-se a trabalhos de escultura muito delicados e as peças mais famosas em espuma de mar são sem dúvida nenhuma os cachimbos, mas não só.
 
Cachimbo em Espuma de Mar
 
Em França, na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se uma pequena indústria de objectos devotos feitos em espuma de mar, normalmente encaixilhados nestas molduras ovais pretas e vendidas nos centros de peregrinação, como Lourdes.


Fiz umas quantas pesquisas na internet sobre estas imagens devotas em espuma de mar e curiosamente em França não lhe ligam muito. Nos antiquários franceses pedem em média 50 euros por elas e imagino, que nas feiras se venderão mais baratas. Pelo contrário, nos Estados Unidos são muito caras vendem-se a cento e cinquenta e duzentos dólares. Julgo que que os franceses terão tão boas antiguidades, que não ligarão muito as estas esculturas devotas em espumas de mar.



Eu pessoalmente encanto-me com estas molduras ovais e as suas imagens piedosas muito oitocentistas, que devem ter decorado muitas casas portuguesas no passado. Talvez as senhoras mais ricas as trouxessem de França, quando iam visitar os lugares onde a pobre Bernadette Soubirous viu a Virgem ou talvez fossem importadas por casas de artigos religiosos, em Braga, Porto ou Lisboa.