domingo, 3 de julho de 2022

Um menino Jesus de Malines esculpido pelo tempo


Como já referi muitas vezes no blog, adoro arte sacra e sobretudo escultura. Mas os preços de uma imagem de madeira portuguesa do século XVIII ou XVII são na maior parte dos vezes proibitivos para a minha bolsa.

Este menino Jesus que apresento hoje estava a um preço simpático e desde logo me pareceu que era uma imagem de Malines, embora muito alterada, com uma cabeça do século XVIII.

Para os menos familiarizados com estas questões da arte, a expressão imagens de Malines, designa um um tipo de esculturas executadas na cidade de Malines (actual Bélgica), entre 1500 e 1540, com pequenas dimensões, normalmente entre 28 e 36 cm e que apresentam um certo ar abonecado. Em francês são mesmo designadas por poupées de Malines. Essas pequenas figuras foram exportadas para o resto da Europa através do porto de Antuérpia e eram muito apreciadas em Portugal e Espanha, Já escrevi por sobre esse assunto aqui no blog em 2 de Julho de 2012.

Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540

Dentro das várias imagens de santos e da Virgem produzidas em Malines, os meninos jesus eram muito característicos. Eram de pequenas dimensões, apresentavam coxas exageradamente roliças, o ventre proeminente e as nádegas diminutas e apertadas. O meu menino Jesus apresenta exactamente essas especificidades, que me levaram desde imediato a suspeitar que tivesse sido executado em Malines. 

As nádegas diminutas e apertadas

Porém os Meninos Jesus daquela cidade eram sempre do tipo Salvador do Mundo, isto é, com a mão direita abençoavam e na esquerda seguravam a esfera do mundo ou uma maça. Na minha imagem, a mão esquerda foi completamente refeita de uma forma um bocadinho trapalhona e a direita foi também muito mexida. Igualmente, num tempo que não posso precisar alguém substituiu a cabeça original do Menino por uma do século XVIIII, com olhos de vidro. Provavelmente a cabeça original, que seria maior, de uma forma rotunda, com os olhos amendoados e sorridente estaria já muito comida pelo caruncho e uma senhora devota encomendou o trabalho, julgando que o menino ficaria mais bonito ou então um antiquário sem gosto, resolveu pôr-lhe uma cabeça de outra imagem, para a vender com o melhor preço.

A cabeça com olhos de vidro é do século XVIII não é original e os braços foram muito alterados

Este Menino Jesus que comprei na Feira de Estremoz, apresenta também uma outra características de Malines. Os pés eram furados para assentarem numa peanha com dois espigões. Com efeito, era hábito vestir este meninos Jesus e portanto eram facilmente amovíveis para que os devotos os pudessem trajar com roupinhas em seda.


Imagem retirada de Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540. As imagens eram facilmente amovíveis.

O meu menino Jesus apresenta cerca de 17 cm de altura. Talvez com a cabeça original, que era certamente maior tivesse mais um ou outro centímetro. Estas dimensões fogem um bocado às medidas padrão apresentadas na obra Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 / Fanny Cayron, Delphine Steyaert . - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019, mas o inventário feito por Bernardo Ferrão de Tavares e Távora em 1975, identifica pelos menos dois meninos Jesus de Malines com 20 cm em colecções particulares portuguesas e num antiquário francês, a Galerie Puiseux, encontrei um à venda com 18 cm de altura.

Em suma, este meu Menino Jesus foi executado em Malines, algures entre 1500 e 1540, exportado para a Península Ibérica via Antuérpia, para servir a devoção privada de uma religiosa, uma fidalga devota ou um burguês rico, com pequenas dimensões para ser facilmente transportado, de modo a que o seu proprietário nunca perdesse a protecção do Cristo Menino, ainda que estivesse numa nau a caminho da Índia.

O meu menino Jesus está muito estragado, perdeu a cabeça, a peanha e os braços foram alterados, mas é uma peça do século XVI e tem toda a poesia e beleza das marcas do tempo, que alteram e transformam uma escultura.


Bibliografia e links consultados


Made in Malines : les statuettes malinoises ou poupées de Malines de 1500-1540 : étude matérielle et typologique / Fanny Cayron, Delphine Steyaert ; sous la dir. d'Emannuelle Mercier ; avec la collaboration de Famke Peters. - Bruxelles : Institut royal du Patrimoine artistique, 2019. - 231 p. : il. ; 30 cm. - (Scientia Artis ; 16)

Imagens de Malines em Portugal / Bernardo Ferrão de Tavares e Távora. - Porto : Museu, 1975. - 262 p. : il. ; 24 cm. - Sep. "Museu", 2as., (16/17), Jul.1975

E um agradecimento especial aos meus colegas do Museu Nacional de Arte Antiga

6 comentários:

  1. Caro Luis
    De facto a interessante história de suporte a este ”menino” desvia um pouco, mesmo fazendo-se notar no texto, a aparência bizarra da figura final. O tempo foi-lhe acrescentando a patine e retirando-lhe partes, desde a amputação das mãos e cabeça, substituindo por outras, mas no fundo uma tentativa inocente de manter a integridade do “menino” que confirma a história…nasceu para sofrer! Talvez agora em boas mãos tenha um período de serenidade….
    Boa pesquisa da arte de Malines, pois sempre pensei que seria conhecida maioritariamente pelos pequenos baixos relevos de alabastro..é o que tem de educativo o seu blog…consegue ir sempre além do conhecimento comum….bem haja
    Abraço – vitor Pires

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    1. Caro Vítor.
      Claro, tenho pena de que esta figurinha tenha sido tão alterada ao longo do tempo, mas apesar de tudo é sempre espantoso, que o o seu corpo esculpido no século XVI em Malines, tenha chegado aos nossos dias.

      Naturalmente não a vou alterar. Vou apenas pedir para colarem melhor o bracinho e consolidar um pouco a policromia.

      As estatuetas de Malines estão bem representadas nos museus portugueses e em colecções particulares, pois no século XVI as relações comerciais com a Flandres eram intensas.

      Um grande abraço

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  2. salve Luis!
    A pequena imagem de devoção acabau se transformando em uma bricolagem interessante.
    De certa forma, ela representa iconograficamente um pouco de todos nós. Suas quebras, reparos e substituições trazem algo de nós mesmos e de nossas histórias, e repentinamente, (para além de sua função representativa primária) acaba por ser uma imagem da própria condição humana diante da passagem do tempo e das marcas da vida. Ao final somos uma constante bricolagem.
    Abraços da fria e úmida Pelotas.

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    1. Caro Edwin

      Não só as catedrais, os palácios e os monumentos que vão sendo construídos e alterados ao longo dos tempos, mas também as esculturas, sobretudo as imagens sacras, que continuam a ser objecto de devoção durante séculos e vão sendo refeitas e embelezadas ao gosto da época.

      Gostei muito da comparação poética que fez entre a vida humana e estas esculturas.

      Agora tenho que arranjar uma peanha em acrílico para expor este menino Jesus, pois ele não se aguenta em pé e é uma imagem de vulto pleno, para ser vista de todos os lados.

      Um abraço de Lisboa

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  3. Interessante. Muito obrigada pela partilha!

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    1. Margarida. Muito obrigado pelo seu comentário e um abraço

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