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terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma cabeça de carneiro em bronze



Já aqui escrevi sobre o meu gosto por comprar nas feiras de velharias ferragachos antigos com funções indeterminadas e então se apresentarem vestígios de dourado melhor ainda. Quando os compro, sinto que estou a levar para casa um fragmento de um tesouro, guardado durante centenas ou até milhares de anos no túmulo de um rei cita, merovíngio ou visigodo. Claro, se chego a descobrir a sua função original, a maior parte das vezes são afinal objectos do século XIX ou início do XX e desirmanados de um conjunto original, sem qualquer valor comercial.

Na última vez que estive na Feira de Estremoz, encantei-me com esta cabeça de carneiro em bronze dourado, que foi produzida até com qualidade. Obviamente um fragmento de qualquer coisa. Na base apresenta duas pequenas concavidades, que permitiriam à peça assentar em qualquer lado e no fundo há um buraco, onde se encaixaria outra coisa qualquer. Como a encontrei numa banca misturadas com torneiras antigas, pensei que talvez fosse o manípulo de uma e também coloquei a hipótese de ter feito parte do batente numa porta.




A base apresenta duas concavidades e o extremo, um orifício, que um dia conteve qualquer coisa. 


Mas a internet é uma coisa maravilhosa, carreguei a imagem no Google e num minuto encontre num sítio de venda de velharias um carneiro igual a este, mas assente num pedestal de mármore e identificado como pisa-papéis e atribuído ao início do século XIX. Já era alguma coisa, no entanto para pisa-papéis continuava a apresentar um inestético buraco na extremidade e a explicação não me convenceu.



Imagem encontrada no site Chairish, onde a peça é identificada como pisa-papéis


Copiei a imagem do suposto pisa-papéis no Google e descobri então como ela foi originalmente. Estava realmente assente numa base de pedra e no orifício tinha uma espécie de jarra de vidro e era uma peça para funcionar com um par. Uma garniture para decorar um móvel. E estes carneiros em bronze foram aplicados em mármores distintos, brancos ou com veios coloridos, por vezes apresentando um friso em bronze dourado e os vasos em vidros poderiam ser de várias cores, alguns feitos até em cristal de Baccarat. Encontrei todas essas variantes à venda em sites de antiguidades, normalmente identificados como sendo franceses. Alguns deles, atribuem ao início do século XIX, mas duvido. Parece-me mais coisa estilo Império, mas fabricado no período de Napoleão III, portanto da segunda metade desse século.

Par à venda no e-bay


Ormolu and Marble-Mounted Cornucopia Vases, à venda em 1stDibs


Mas quando vi como era originalmente este carneiro, assente numa base de mármore e com um vaso em vidro lembrei-me que já tinha visto esta forma no passado e veio-me a memória uma exposição maravilhosa, no Museu Gulbenkian, os tesouros do Museu Nacional de Teerão, onde se mostravam várias peças em ouro, copos reproduzindo a forma de cornos, com um animal na base. O Metropolitain Museum de Nova Iorque tem na sua colecção um destes copos, também originário da antiga Pérsia e muitas civilizações antigas usaram esta configuração, como por exemplo os trácios na Bulgária.

Cabeça de Carneiro, do Reza Abbasi Museum, Teerão


Obra Aqueménida, do século V, do Met museum de Nova Iorque


No fundo, este fragmento revela a moda que as grandes campanhas arqueológicas do século XIX introduziram nas artes decorativas desse tempo.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

16º Aniversário do blog velharias do luís ou a atracção pelos ferragachos


Este ano para comemorar o 16º aniversário do blog velharias do Luís, apresento um ferragacho, comprado recentemente e que ilustra bem os meus interesses na vida, bibelots antigos fora de moda, pratos de faiança gatados, chávenas de chá desirmanadas, estampas de santinhos, velhas fotografias e documentos de família de há cem ou duzentos anos, tudo coisas com pouco ou nenhum valor comercial, mas profundamente sentimentais.

Sou irresistivelmente atraído por ferragachos e estou sempre à procura deles nas feiras de velharias naqueles panos que estendem no chão com parafusos, fechaduras, ferragens e puxadores. Este gosto é de tal ordem, que quando mudei de casa e encomendei móveis de cozinha novos, disse logo ao mestre-de-obras que não se preocupasse em colocar puxadores, pois eu já tinha uma colecção deles, provenientes de antigas cómodas, roupeiros ou mesinhas de cabeceira e quando o Senhor acabou de montar os armários e aparafusei essas velhas ferragens, consegui que a cozinha perdesse um pouco daquele ar asséptico e ganhasse, alguma graça e interesse.


Os puxadores dos armários de cozinha da minha casa são ferragens compradas em feiras de velharias

Quanto a este último ferragacho, que comprei, é uma peça pesada, em bronze dourado, uma figura qualquer da mitologia, que em tempos esteve aplicada numa cómoda, numa mesinha ou num armário de biblioteca, provavelmente nos cantos. Não sabia de que época era, o mais o mais provável é que seria coisa do século XIX, ao estilo Luís qualquer coisa, pois nesse período misturavam na mesma peça, relógio, mesa ou cadeira vários estilos do séculos passados em simultâneo.



É curioso que quando a tentei fotografar usei uma técnica habitual aqui no blog e que resulta em quase todas as peças, deitei-a sobre vários panos, uns de damasco, outros de veludo, azuis ou vermelhos para experimentar em qual ela ficaria melhor. Tenho até uma série de retalhos destinados para esse efeito e normalmente resulta sempre. Porém, com esta ferragem as fotografias ficavam mal, desfocadas ou então a peça parecia uma coisa tosca e pesada. Lembrei-me então que esta figura não foi concebida para ser vista deitada e que tinha que estar na posição vertical. Pendurei-a então no canto de dois móveis lá de casa, fiz vários instantâneos e então esta figura ganhou a fotogenia e charme merecidas, pois estava na posição original, para a qual nasceu algures na segunda metade do XIX. 



Muito características do mobiliário francês, estas ferragens são por vezes conhecidas pelo nome de espagnolette ou mais simplesmente chute en bronze. No século XVIII, os franceses fabricaram alguns destes bronzes decorativos de mobiliário de uma qualidade excepcional, como um exemplar que encontrei na net, no musée des Arts Décoratifs, de Paris, do mestre Charles Cressent.

Charles Cressent (1685-1768), Buste d’espagnolette bouclée. Musée des Arts Décoratifs, Paris, Inv. 9544 A-B

Mas a minha peça é muito mais modesta, feita já por um processo industrial e em tempos teve o seu par, que entretanto se perdeu e cada um deles e estaria no canto de um móvel. Aliás encontrei à venda no portal francês de antiquários, o Proantic.com, uma cómoda do século XIX com umas ferragens iguais a esta e com os dourados impecáveis. Como suspeitei desde o início a minha peça é da segunda metade desse século, destinada a um desses móveis do tempo de Napoleão III (1852-1870), inspirada no estilo Luís XIV.



Cómoda do século XIX com umas ferragens iguais a minha. Proantic.com

Curiosamente este móvel, que encontrei no portal francês de antiquários, proantic.com, está à venda numa casa de antiguidades na Polónia.

Nestas coisas entretenho-me eu, abstraindo de um quotidiano que por vezes é aborrecido e desgastante.

sábado, 6 de abril de 2024

Um bule em Britannia de meados do século XIX





Este velho bule apresenta todas as marcas do tempo. Ao longo da sua vida de cerca de um século e meio foi muito usado, quebrado várias vezes, reparado e soldado. O último acidente que sofreu foi quando o tentei limpar e fiquei com pega na mão, partida em três partes. Depois desse acidente escondi-o num canto qualquer da minha casa e ali ficou esquecido durante mais de uma década. Mas há uns tempos, mandei arranjar uns talheres de prata antigos numa oficina muito boa, ali no Bairro das Colónias, Rua de Timor, nº1 e lembrei-me de o levar lá e o Senhor fez um óptimo trabalho, pois além de soldar a pega colocou uma tira de metal por dentro, para lhe dar solidez.

Este bule é muito engraçado, pois tem uma forma muito típica da ourivesaria e da cerâmica do século XVIII, bojudo, com a pega da tampa em forma de uma pequena abóbora em cima de uma folha, mas a decoração gravada é uma coisa indefinida, entre Renascença e o gótico, enfim uma mistura de estilos muito ao gosto do século XIX. O problema é que não apresenta qualquer marca de fabrico, ou talvez a tenha tido, mas com tanta pancada que apanhou, marcas de soldaduras e reparações, ela desapareceu completamente.



Por uma questão de intuição, achei seria uma peça estrangeira, talvez inglesa ou francesa e provavelmente feita em peltre e comecei a fazer umas tantas pesquisas na net em inglês e francês tentando encontrar peças idênticas. E com efeito encontrei umas quantas coisas muito semelhantes e até um estudo muito bem feito, intitulado Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott, publicado na revista Spinning Wheel, vol. 29, nº2 , (Maio, 1973) e que a Nederlandse TinVereniging teve a feliz idéia de digitalizar e colocar on-line.

Este bule será certamente inglês, fabricado em Sheffield ou eventualmente em Birmingham, numa liga de metal desenvolvida na primeira cidade, que ficou conhecida pelo nome Britannia. Para os menos familiarizados com estes assuntos, Sheffield foi um grande centro industrial inglês, que desde meados do século XVIII se tornou famoso pela sua cutelaria e metais para uso doméstico. Nesta cidade desenvolveram-se toda uma série de técnicas e inventos para fabricar utensílios que pareciam prata, mas eram ligas com baixa percentagem daquele metal, casquinhas, galvanoplastias ou simplesmente metal prateado.

Um destes destas técnicas para fabricar utensílios que sugerissem a prata, foi desenvolvida cerca por um certo James Vickers de Sheffield, que começou a produzir um metal branco, cuja fórmula era semelhante ao estanho tradicional, excepto, que em vez de chumbo, se adicionava antimónio e um pouco cobre, permitindo a esta liga boas características para a fundição e uma cor mais próxima da prata. A ausência do chumbo, além de permitir a tal cor mais prateada, era também mais saudável para a saúde humana, já que o esse metal é tóxico. Rapidamente e ao longo dó século XIX, a produção destes utensílios em Britannia cresceu exponencialmente, estendendo-se também a cidade de Birmingham, atingindo o seu apogeu em meados dessa década. As formas usadas eram as das cafeteiras, açucareiros e bules em prata do século anterior e eram vendidas a preços muito mais baratos que a prata, as casquinhas, ou as de metal com baixa percentagem de prata.

Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelas pegas


As formas usadas nos vários produtores desta liga Britannia foram estudas e estão sistematizadas. Se no início do século as pegas das cafeteiras ou bules eram em madeira, tal como as de prata, a partir de 1840 generalizaram-se as pegas em metal, exactamente como as do meu bule, que são típicas do período entre 1841-1845. Do mesmo modo, a pegazinha da tampa do bule, em forma de abóbora foi sobretudo usada por volta dos anos 40 dessa década. No entanto, o bico do bule é datado de cerca de 1860.

Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelas pegas da tampa


Imagem retirada de Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott. A datação pelo bico do bule.


Em suma este bule foi fabricado em Inglaterra, em Sheffield ou eventualmente em Birmingham, numa liga conhecida pelo nome de Britannia, em meados do século XIX. Foi uma peça muito usada ao logo de mais de 100 anos por uma família, com inúmeras reparações e que agora encontrou uma reforma tranquila na minha casa.




Bibliografia consultada:

Britannia Metal: a new perspective/ Jack L. Scott
In
Spinning Wheel, vol. 29, nº2 , (Maio, 1973)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

O falso luxo de um talher



Como já aqui contei, resolvi completar os restos de um faqueiro de prata que herdei da minha avó. Naturalmente, desde logo, coloquei de parte a hipótese de encomendar a um ourives as peças iguais aos talheres da avó Mimi, num pesado estilo D. João V. Ficar-me-ia caríssimo e além de que seria muito mais divertido andar pelas feiras a catar velhos talheres de prata aqui e acolá, tudo a preço de ocasião. O meu objectivo tem sido desde então formar faqueiro com talheres de várias nações, que quando completo, ficará a matar na minha casa cheia de trastes e de velharias.

Umas das compras que fiz nesse sentido foi uma faca num estilo neo-Luís XV, muito ao gosto dos finais do século XIX e inícios do século XX. Apresenta um monograma e em tempos deve ter feito parte de um grande faqueiro, em que um burguês rico e orgulhoso, mandou gravar as iniciais do seu nome. Embora saiba pouco ou nada de prataria, não me pareceu que fosse prata de lei, mas sim aquilo que às vezes no mercado de velharias se chama prata francesa, isto é, um liga de metal com uma percentagem baixa em prata, que a célebre marca francesa Christofle celebrizou com os seus elegantes talheres.




Aliás, fiquei com desde logo com a ideia que seria uma peça francesa, talvez até da Christofle. A lâmina da faca está marcada Muller-Ott Mulhouse, uma célebre casa de cutelaria da Alsácia Lorena e o cabo apresenta duas marcas de punção, que tentei identificar em listas de fabricantes franceses de pratas, casquinhas, alpacas e ligas com percentagens baixas de prata. Em França, nestes finais do século XIX e inícios do século XX, a Lei determinava que os materiais imitando a prata apresentassem o punção do ourives em formato rectangular ou quadrado e que também existisse um número, indicando a gramagem de prata usada em cada conjunto de 12 talheres, neste caso, 18. 


A lâmina da faca está marcada Muller-Ott Mulhouse, uma célebre casa de cutelaria da Alsácia Lorena



O punção do ourives



A gramagem de prata


Enfim, tudo indicava que esta faca fosse francesa, naquilo que os franceses designam por métal argenté. Porém, a marca do ourives propriamente dito, que parecia representar uma balança ou uma âncora não constava de nenhum reportório de marcas francesas. Coloquei até esta questão no http://placedelours.superforum.fr, houve alguns participantes que me deram algumas pistas, mas nada.


Esqueci a questão, limpei a faca, colocando-a logo a uso, mas há uns tempos, lembrei-me que a Alsácia Lorena entre 1870 e 1918 pertenceu à Alemanha e que em Mulhouse, a cidade onde a lâmina foi fabricada, flutuava nos mastros dos edifícios públicos a bandeira do Reich alemão. Como a faca me pareceu precisamente coisa dos finais do século XIX, inícios do XX, talvez o fabricante do cabo em liga de prata fosse alemão e procurei então em Alemanha, num dicionário especializado em marcas, https://www.silvercollection.it e descobri, que a marca do cabo da faca correspondia à da Clarfeld & Springmeyer, da cidade alemã de Hemer. Fundada em 1858, esta empresa foi até à primeira Guerra mundial o segundo maior fabricante alemão de cutelaria e dedicou-se precisamente a produzir materiais a imitar prata ou em ligas com baixa percentagem de prata. 


Marcas da Clarfeld & Springmeyer,


Alguns dos seus talheres, em estilo secessão ou arte nova são até muito apreciados pelos coleccionadores e fazem parte do acervo de museus, mas não exactamente objectos como esta faca, em estilo revivalista Luís XV, pois o gosto contemporâneo não está muito virado para estas coisas arrebicadas.

Um conjunto da Clarfeld  & Springmeyer em estilo Secessão da colecção do British Museum 


Em suma, a lâmina desta faca foi fabricada pela Muller-Ott, de Mulhouse e o cabo pela Clarfeld & Springmeyer, entre os finais do século XIX e os inícios do Século XX, num tempo em que a Alsácia Lorena era alemã. É um objecto feito numa liga com uma baixa gramagem de prata, arrebicado, decididamente fora de moda, mas que faz um vistaço na mesa. Estes talheres aliás foram concebidos para os burgueses abastados sentirem que estavam a jantar com um faqueiro da realeza, de um duque ou príncipe, mas com um preço ao alcance das suas bolsas. Os avanços da tecnologia e a da indústria no século XIX permitiram esse fenômeno, de colocar boas imitações de produtos de luxo no mercado a preços ao alcance de um sector maior da população.




Ligações consultadas:



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Uma galheta de altar francesa da segunda metade do século XIX


Comprar velharias é um vício e por mais que prometa a mim próprio parar, acabo sempre por trazer para casa mais um traste cada vez que vou a uma feira. Foi o que aconteceu com esta encantadora jarrinha, que um vendedor na Feira de Estremoz me colocou na mão por um preço absolutamente irrecusável. É uma pequena jarra com um vidro de muito boa qualidade montada num latão dourado e que me pareceu de imediato um trabalho francês dos inícios do século XX. Nessa época os franceses produziam muitas destas peças em vidro, com as montures em latão dourado, tais como caixinhas para guardar relógios ou jóias ou ainda os globes à mariée.

O vidro está decorado com parras e uvas

Em todo o caso, achei desde logo que esta peça era mais que um bibelot para ornamentar uma casa burguesa do início do século XX e olhando bem para a decoração do vidro feita com parras e uvas, suspeitei que fosse uma galheta de altar destinada a conter o vinho, durante a celebração da eucaristia. 

Para confirmar esta minha intuição, lancei-me então nas minhas buscas no Google. Comecei por abrir na Wikipédia portuguesa o artigo sobre liturgia católica e quando encontrei referência às galhetas de altar, mudei para a Wikipédia francesa para perceber qual era o termo francês usado para designar aqueles objectos litúrgicos. Em França as galhetas de altar são as Burettes e no motor de busca do Google coloquei então a expressão Burettes Eglise Laiton dore antiquites e imediatamente encontrei umas quantas dessas galhetas à venda no e-bay, quase idênticas à minha e datadas da segunda metade do século XIX. 


Conjunto de galhetas de altar e tabuleiro à venda no e-bay

Desta maneira, confirmei que a minha jarra foi fabricada em França, era originalmente uma galheta de altar e fazia par com outra destinada à água. Do conjunto original constava também uma pequena bandeja em metal dourado, com dois espigões onde as galhetas eram colocadas, impedindo que durante a missa, tombassem. E com efeito, a base da minha galheta apresenta um orifício para ser encaixada no espigão da bandeja.



Mas, nem sempre as informações dos sites de venda on-line são fiáveis, pois os vendedores tentam sempre convencer-nos que as suas peças são mais antigas e de melhor qualidade do que na realidade são e continuei à procura pelo Google até encontrar um sítio com informações mais credíveis. Localizei num inventário do Património da Ile-de-France, https://inventaire.iledefrance.fr um par de galhetas, muitíssimo semelhante à minha, também com a bandeja e ainda com estojo original onde estavam guardadas, apresentando este último a marca do fabricante Fabrique d'ornement d'église / Chasublerie - bronzes - orfèvrerie / Maison Dupuis. 5 rue du Vieux Colombier / Paris. Na ficha desta peça, confirmava-se a datação atribuída nas páginas de vendas on-line, segunda metade do século XIX. 


Galhetas com bandeja e estojo. Foto de  https://inventaire.iledefrance.fr

Fiquei a matutar se eventualmente a minha galheta poderia ter saído da Maison Dupuis, na rue du Vieux Colombier, em Paris, mas continuando as minhas pesquisas descobri um catálogo de 1893, da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie, na rua do Pape Carpantier, em Paris, que entre muitas coisas também fabricava galhetas semelhante à minha. 

Catálogo da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie

Enfim, é um bocadinho difícil atribuir esta galheta a este ou aquele fabricante francês. Embora todos nós associemos sempre Paris a revoluções, movimentos jacobinos, pintores arrojados, actrizes de teatro excêntricas e de uma forma geral à boémia, a capital francesa era também um centro importantíssimo de produção de artigos religiosos, onde proliferavam casas que exportavam estampas piedosas, imagens de Nossa Senhora de Lourdes, do Sagrado Coração de Jesus e outras beatices para todo o mundo católico, apostólico e romano.

Fabricada em França, na segunda metade do século XIX, a minha galheta para o vinho é apenas uma peça desirmanada de um conjunto, sem grande valor comercial, mas fica muito bem em cima de um armário onde exponho todas as minhas beatices, muitos meninos Jesus, relicários, imagens de vestir, santos de barro que o tempo quebrou e outros objectos de devoção católica, hoje reformados das suas funções originais na casa de um homem sem crença, mas com um gosto por recriar estes ambiente devotos do passado.



segunda-feira, 4 de maio de 2020

A ilusão do luxo


Nos últimos tempos fui comprando objectos em casquinha, alpaca e outros materiais com pretensões a nobreza, pois dão-me a ilusão de um quotidiano mais requintando, usando um açucareiro ou uma caixa de chá que parecem prata. São normalmente coisas que se compram a bom preço nos mercados de velharias, pois apresentam-se muito oxidadas ou já sem a camada de prata original que as revestia. O tratamento para lhes devolver o brilho, a elegância e a ilusão de luxo, é muito simples, basta usar um produto para limpar pratas ou então o Pratex, que as reveste novamente de uma fina camada de daquele metal nobre.

Aproveitei agora o confinamento para limpar todas essas peças, que fui comprando e em alguns casos para renovar-lhes a fina camada de prata e o resultado foi tão bonito, que não resisti a apresenta-las aqui em conjunto. O açucareiro e a caixa de chá são coisas inglesas dos finais do XIX e inícios do XX, imitando o estilo da prataria neo-clássica. A caixa de chá sem decoração de qualquer espécie não tem marca nenhuma e tanto poderá ser francesa, inglesa ou portuguesa e os dois talheres são suecos. A Suécia sempre teve uma grande tradição na cutelaria e estas duas peças foram efectivamente compradas a um sueco, que vivia no Algarve, mas fazia a feira de Estremoz.

Talheres suecos


A colher para servir o molho ou talvez para verter a calda em algum doce está marcada. Foi fabricada pela GuldsmedsAktieBolaget, uma casa fundada em Estocolmo em 1867 e que hoje faz parte do grupo GENSE. Além do nome, "Guldsmeds, as restantes siglas, AB, são o desenvolvimento de AktieBolaget e NS, são as iniciais suecas de Ny silver, em português, nova prata, designação que se dava naquele País a estas galvanoplastias, que pareciam ser prata, mas não eram bem prata. Não faço a menor ideia da época em que foi produzida esta colher. Poderá até ser coisa da segunda metade do século XX. Até há bem pouco as famílias burguesas gostavam de comprar faqueiros ou mobílias num estilo qualquer do passado, um Luís XVI, renascença ou um D. João V.
Guldsmeds AB NS


Quanto à colher que serve para espalhar aquele açúcar muito fininho sobre os bolos, apresenta duas marcas, uma referente ao processo de galvanoplastia e materiais utilizados e outra identificando a decoração. Extraprime ALP NS, quer dizer uma alpaca de boa qualidade e o NS, alertava o consumidor, para que aquela colher era feita em nova prata, e não na antiga e verdadeira prata. Hagar é a residência da família real sueca, cujo nome que deu origem a uma decoração nos faqueiros, muito popular entre os cuteleiros daquele País, a julgar pelas pesquisas no Google.

Extraprime ALP NS


Estes processos químicos de revestir objectos em latão com prata ou por materiais que aparentassem ser prata generalizaram-se na indústria a partir de 1840 e permitiram colocar na mesa dos burgueses assim-assim a ilusão de estarem a usar uma baixela de prata, semelhante aquelas que serviam nas casas dos aristocratas ou dos grandes burgueses da alta finança e da indústria.

Casquinha, alpacas e outros materiais com pretensões a nobreza

Alguns links consultados com o auxílio do Google translator



domingo, 1 de março de 2020

Uma pinça de açúcar em casquinha


Andar por feiras de velharias é uma tentação constante. Estamos sempre a descobrir objectos do passado, curiosos e bonitos e a bom preço, mas infelizmente não os podemos comprar todos, pois as casas são pequenas e há que reservar o dinheiro, para as coisas realmente úteis, como a compra de um novo aspirador, pois o velho já não limpa nada ou uma obra na casa-de-banho.

Aproveito esse meu ímpeto consumista para oferecer prendas. Em vez de dar uma treta qualquer comprada numa grande superfície, ou numa loja de uma grande cadeia, aproveito os mercados de velharias para adquirir e oferecer uma peça antiga, mais barata, de melhor qualidade que as actuais, e que com o tempo se tornou quase única.



Assim, para oferecer à minha ex-mulher, comprei recentemente uma peça em casquinha, que me pareceu uma pinça de gelo. É um objecto talvez do início do século XX, imitando qualquer coisa do século XVIII, com umas garras muito curiosas, que lembram os pés dos nossos móveis D. João V. Não tem qualquer espécie de punção ou marca para se lhe atribuir uma data ou um fabrico. Nos sites de venda on-line dos Estados Unidos, encontrei peças algumas semelhantes e são tidas como francesas. Mas, para os americanos, que são os últimos francófilos mundo contemporâneo, tudo o que é antigo e bonito é francês…

Imagem amavelmente enviada por uma seguidora deste blog, mostrando um conjunto em casquinha inglesa de pinça e recipiente para conter os cubinhos de açúcar
À medida que fui pesquisando na net, fiquei na dúvida se  era uma pinça de gelo ou de açúcar, pois em muitos países europeus era e é hábito servir aquele adoçante em forma de cubos e claro está, dá muito mais jeito, apanhar os cubos com uma piça do que com uma colher. Aqui, em Portugal é que é costume de servir o açúcar granulado, que se tira do açucareiro com uma colher. Depois já ter publicado, este post, uma seguidora do blog, muito amavelmente esclareceu-me as dúvidas e enviou-me por e-mail a foto de um conjunto completo de pinça e taça para conter os cubos açúcar. Portanto esta pinça é de açúcar.
A pinça antes da aplicação do Pratex
Quando comprei esta peça, estava em mau estado e tinha perdido, quase todo o revestimento de prata. Não que o tom de vermelho dourado que apresentava fosse feio, mas apliquei-lhe um produto, o Pratex, que lhe devolveu parte do revestimento inicial de prata. Procurei não colocar demasiado produto, para que esta pinça de gelo ou de açúcar mantivesse um certo ar antigo.

Estou convencido que será uma boa prenda. O uso de objectos antigos torna sempre quotidiano menos banal e triste.

Depois da aplicação do Pratex