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quinta-feira, 22 de março de 2012

Varanda de ferro forjado em Fronteira


Quando viajo pelo interior do País e visito terras de província com centros históricos ainda bem conservados, apetece-me sempre ficar ali. Arranjar um emprego na Biblioteca pública local, abandonar Lisboa e comprar uma casa antiga bonita, cheia de história, com bonitas varandas de ferro forjado, com a desta casa que vi e fotografei em Fronteira no Alentejo.

Talvez este ensejo em me fixar numa terra antiga da província, seja um sentimento romântico de regressar às casas onde se criarem os meus pais e os meus avôs e fazer reviver esse passado familiar, aquela sensação única de estar num quarto e ver o sol entrar por uma janela de guilhotina, iluminando um soalho antigo, a cheirar a cera. Decididamente, num apartamento dos anos 60 ou 70 de Benfica não se consegue viver essa alma de uma casa antiga.

Esta casa em Fronteira, que parece conter dentro das suas janelas, toda uma sucessão de histórias familiares, atraiu-me pela beleza das cantarias, mas também pela elegância do trabalho de ferro forjado, em estilo D. Maria. Tentei encontrar alguma informação sobre  a origem ou o fabrico destes gradeamentos artísticos, mas não consegui obter nada. Há uma obra, Grades de Lisboa, de 1947, do período da casa portuguesa, que tem bonitos desenhos, mas com um texto fraco, pois a obra pretendia apenas exortar os portugueses de então a fazer as varandas das suas moradias e casas, copiando os modelos do passado e enfim, não podemos criticar o autor por essa intenção. Li também na obra Ferros forjados do Porto de 1955, que o distrito de Portalegre tinha uma grande tradição no fabrico do ferro forjado e que este trabalho tanto era feito pelos serralheiros, como pelos ferreiros. Imagino que a seguir ao terramoto de 1755, muitas oficinas em Lisboa tenham crescido exponencialmente, para satisfazer a procura que a construção de casas novas suscitava e talvez esta varanda, tenha sido executada por uma dessas oficinas pombalinas, mas é uma grande interrogação.


Em todo o caso, seja lá qual for a oficina que fez esta bela obra, apetece viver numa casa destas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Gravuras de Gabriel Huquier (1695-1772)


Na Feira-da-Ladra comprei três belas gravuras do século XVIII, da responsabilidade de Gabriel Huquier (1695-1772). Este senhor francês foi simultaneamente um impressor, um desenhador, um livreiro e um coleccionador de arte, que se distinguiu pelas gravuras de ornamentos de gosto rocaille. Passou para gravura as obras de vários pintores famosos do século XVIII, com particular destaque para Watteau.
Huquier por Jean-Baptiste Perronneau.

Estas 3 gravuras fizeram parte de um livro, ou talvez melhor ainda dum álbum de gravuras, do qual eu tenho o frontispício e cujo título é o seguinte Nouveau Livre de Serurerie Contenant soixante planches Remplies de plusieurs pensées Pour tous les differents ouvrages qui S'y éxécutent / Inventé Gravé et mis au jour Par Huquier. A obra assumia-se como uma espécie de catálogo de bons exemplos, para quem quisesse mandar fazer uma balaustrada em ferro para uma imponente escadaria, um portão de palácio, o balcão duma elegante casa burguesa de cidade ou ainda um candelabro em bronze. Estávamos na época em que Paris era considerada a capital do bom gosto e livros como este eram vendidos para toda a Europa, desde St. Peterburgo a Lisboa, para que todos pudessem copiar as últimas modas francesas.
O frontíspicio

A obra estava distribuía-se por 60 pranchas, que estavam agrupadas em 10 letras, cada qual correspondendo aos diferentes trabalhos em ferro forjado. Quase todos os desenhos são da autoria de Huquier. Por acaso, a minha 3ª gravura, o desenho da grade da escada é assinado de um tal Jean Mansare, do qual não encontrei nenhuma referência.

Embora não tenha data, pensa-se que obra tenha sido publicada entre 1738-1761, pois as gravuras, estão dadas como impressas em Paris, umas na sua morada a partir de 1738, Rue de S. Jacques au coin de celle des Mathurinse e outras na Rue des Mathurins, local onde veio a encerrar o seu negócio em 1761.
Encontrei na Royal Academy of Arts de Londres o registo bibliográfico da obra, o que me permitiu identificar correctamente estas gravuras

Este Nouveau Livre de Serurerie deve ter sido um álbum de gravuras lindíssimo, mas é mais menos prática corrente, entre os alfarrabistas desfazerem estas colecções e venderem as estampas à peça, pois fazem muito mais dinheiro desta forma.