sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Uma cópia da Madona de Nuremberga



O meu amigo Manel comprou há uns tempos esta imagem em barro de uma Madona. Com a escultura veio também um plinto em madeira, que é quase um pequeno oratório, forrado a damasco vermelho. No início, achei que fosse uma peça qualquer francesa no chamado estilo Saint-Sulpiciano, esse termo pejorativo, criado pelos franceses, para designar a arte religiosa produzida nos finais do século XIX pelas oficinas de santeiros e impressores de estampas piedosas, que existiam nas ruas em volta da Igreja de Saint-Sulpice, em Paris.

A madona com o seu pequeno oratório revestido de damasco vermelho


Porém, à medida, que o tempo passava fui olhando para ela com outra atenção, sobretudo nalgumas horas do dia, em que a luz lhe acentuava as formas e encontrei-lhe uma simplicidade muito pura e tocante e recordei-me que no Museu Nacional de Arte Antiga já tinha visto umas esculturas semelhantes, do século XVI, figuras de calvário, provenientes do mundo germânico e executadas e madeira.

Santa Mulher (de deposição no túmulo). Áustria, séc. XVI. Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, inv. 509 esc


Já depois dessa fase, em que começando a apreciar esta imagem em barro, passou-me um livro pelas mãos, The limewood sculptors of Renaissance Germany de Michael Baxandall, que me encantou particularmente e ao folheá-lo, descobri a escultura original, que serviu de modelo à peça do meu amigo Manel. Foi executada em madeira de tília, entre 1510 e 1520, e é uma peça emblemática da arte alemã, vulgarmente conhecida pela Madona de Nuremberga.

O original da Madona de Nuremberga.  Germanisches Nationalmuseum


Esta escultura fazia parte de um calvário e estava esquecida numa igreja de dominicanos na cidade de Nuremberga. Foi redescoberta em 1807 após a demolição da Igreja e até à sua entrada no Germanisches Nationalmuseum, em 1880, serviu como modelo para os estudantes de uma escola de artes. Logo nesse período, executaram-se várias cópias em gesso para que vários grupos de alunos a pudessem desenhar e estudar. Este interesse por esta Madona, enquadrava-se no espírito romântico da época, que valorizava a Idade Média, período onde se tinham formado as modernas nações europeias e a Alemanha, fragmentada em vários principados e reinos, aspirava à unificação, a constituir-se como nação unificada num único estado. Por outro lado, esta Nossa Senhora foi esculpida em Nuremberga, entre 1510 e 1520, num período em Albrecht Dürer estava activo. De modo, a escultura passou a ser associada a esse período de esplendor da cidade, que viu nascer e morrer esse mestre alemão.

Pelas razões acima enunciadas e porque a escultura era realmente bela, a Madona de Nuremberga tornou-se uma obra icónica da arte alemã e foi sendo reproduzida em gravura, em alabastro, madeira, metal, pedra ou barro, em diferentes dimensões, tornando-se um objecto decorativo presente na sala de uma qualquer família alemã e chegou mesmo a figurar em selos de correio.

A imagem não apresenta marca de fabricante

Esta escultura em barro do Manel é uma das muitíssimas cópias dessa Virgem de Nuremberga, que se fizeram ao longo de mais de 150 anos e é difícil precisar em que período exactamente. O plinto onde se encontra parece mais uma coisa dos finais do XIX ou inícios do XX. Embora não ostente qualquer marca de fabrico, posso também presumir que esta cópia da Madona de Nuremberga teve origem na Alemanha, já que a popularidade desta imagem parece ser um fenómeno muito alemão. Em todo o caso, mesmo sendo uma cópia, esta figura em cerâmica traz-nos um pouco da beleza e do vigor da escultura tardo-gótica do mundo germânico



Bibliografia e textos consultados:


The limewood sculptors of Renaissance Germany / Michael Baxandall. - New Haven ; London : Yale University, 1980,

Obras em reserva : o museu que não se vê / coord. científica António Flipe Pimentel, Anísio Franco, José Alberto Seabra Carvalho. - Lisboa : Museu Nacional de Arte Antiga, 2016

https://www.ottmar-hoerl.de/en/projects/2017/2017_Madonna.php