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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

Embora não seja crente tenho uma verdadeira paixão por registos religiosos, que coleciono avidamente. Normalmente compro muita da coisa do século XVIII e tenho uma ou outra coisa do século XVII e ainda um dos finais do XVI. Creio que esta mania começou na minha juventude, em que todos os meus amigos ou colegas achavam a arte sacra uma seca e como sempre fui do contra, passei a interessar-me por santos, nossas senhoras, martírios e cristos. Hoje em dia, já não tenho essa vontade de estar contra o mundo, mas encanto-me com a ingenuidade destas estampas devotas e por isso quando vi este Jesus Nazareno, representado de uma forma quase popular, comprei-o sem hesitar. Nem me lembro do preço, mas deve ter sido por meia dúzia de euros ou menos, pois hoje em dia ninguém quer saber de santos para nada.

Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros.

A legenda da estampa diz o seguinte Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros. Seguem depois as indulgências concedidas pelo Cardeal Patriarca de Lisboa a quem rezasse uns quantos padres nossos e avés maria diante da imagem ou da estampa. Achei tudo isto muito curioso. Toda gente sabe que Jesus Cristo foi supliciado e morto na Palestina, num tempo em que não havia muçulmanos. Estes só apareceriam na história uns 600 e tal anos depois. É certo que em muitas pinturas antigas os artistas não se preocupavam em reconstituir a indumentária do tempo de Jesus e os soldados romanos trajavam como militares da renascença, a Virgem envergava trajes de corte e por aí fora, mas misturar mouros com Jesus, pareceu-me um anacronismo excessivo..

Intrigado fiz algumas pesquisas sobre esta estampa e encontrei no Arqueólogo Português, série, 1, vol. 22, de 1917, um texto de Luís Chaves, os Registos de Santos, que assinala esta gravura e explica que no Convento do Carmo, em Lisboa, houve uma imagem de Jesus Cristo cativo, que esteve Argel. Fiz mais uma pesquisa, aqui e acolá e no meio de todas as lendas, que sempre rodeiam estes assuntos de devoções, percebi que esta estampa reproduzia uma escultura de Cristo roubada pelos mouros e resgatada mais tarde. Na realidade, a verdadeira imagem deste Cristo encontrava-se em Marrocos, em La Mamora, um reduto fortificado pelos espanhóis após 1614 e que durante grande parte do século XVII foi assediado várias vezes pelos marroquinos ou mouros, até que em 1681 caiu finalmente nas mãos destes últimos. Entre o espólio do saque estava uma imagem de Cristo, à qual os soldados espanhóis tinham muita devoção e os mouros transportaram-na para Mequinez, onde a arrastaram pelas ruas, enquanto a populaça escarnecia daquilo que consideravam um ídolo. Uns frades trinitários, ordem religiosa, que se dedicava ao resgate dos cativos cristãos no Norte de África assistiram ao espectáculo degradante e conseguiram comprar a imagem e leva-la para Espanha, mais exactamente para Madrid. Ao pescoço da imagem colocaram um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul, que era como que um salvo conduto para atravessar as terras da moirama e demonstrar em Espanha, que tinha sido a Ordem dos Trinitários a pagar o resgate. 

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
Ao pescoço da imagem um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul,

Em Madrid a imagem foi depositada na Igreja de Medinaceli onde se tornou objecto de grande devoção, que persiste nos dias de hoje e o seu culto espalhou-se por toda Espanha e pelo vistos por Portugal, como esta estampa o demonstra. Fieis, padres, irmandades ou bispos por várias cidades da Península Ibérica encomendaram esculturas idênticas às de Medinaceli para as suas igrejas.

Quanto à verdadeira imagem que estaria no convento do Carmo, sobreviveu ao Terramoto de 1755, pois esta estampa foi executada por Teotónio José de Carvalho, gravador activo entre 1790 e 1800 conforme se pode ver no índice das estampas da sua autoria digitalizadas na Biblioteca Nacional de Portugal. Este Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.
Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.

Quanto ao paradeiro actual dessa escultura não consegui descobrir nada, pois em 1834 com a extinção das ordens religiosas, os bens dos conventos foram vendidos ou incorporados  nas igrejas paroquiais e finalmente alguns deles deram entrada nos museus nacionais.

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
A moldura foi comprada na Feira de Estremoz

Por último, esta estampa que comprei solta, foi colocada numa moldura muito simples, que adquiri na Feira de velharias de Estremoz, que encaixilhava a fotografia de um pai e de um filho, tirada talvez na primeira década do século XX. Não tive coragem de deitar a fotografia fora, e limitei-me a virar o cartão onde estava colocada. De modo, que atrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Por detrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Alguns links e bibliografia consultados:

Registos de Santos / Luís Chaves
In
Arqueólogo Português, série, 1, vol 22, de 1917 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Menino Jesus do Convento das Flamengas


Comprei mais este registo, representando um Menino Jesus, vestidinho como se fosse um cortesão, a que não faltam sequer uns sapatinhos de fivela, uma camisa debruada com rendas e uma peruca. Estava muito mal emoldurado, numa dessas caixas de vidro, ornamentada com umas fitas de ouro compradas nas lojas dos chineses e ainda umas escamas de um peixe, provavelmente de uma espécie geneticamente modificada. Enfim, era uma daquelas coisas modernas e infelizes a imitar os registos feitos nos conventos. Resolvi retirar esta estampa antiga daquele horror, mas acabei por rasga-la e lá foi o meu amigo Manel, que com a sua paciência, a conseguiu colar.


Como já escrevi aqui no blog, durante os séculos XVII e XVIII nos conventos femininos portugueses a devoção ao Menino Jesus, manifestou-se de formas que hoje nos parecem muito curiosas. No muito tempo que tinham livre, as irmãs dedicavam-se a confeccionar enxovais completos ao Menino Jesus, onde não faltava nada, desde trajes de caça, roupa de cama, roupa interior, trajes de corte, chapéus, sapatos e meias, conforme nos dá conta Flávio Gonçalves na sua obra O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus, Porto, 1967. Mas as religiosas se não limitavam ao guarda-roupa, escreviam poemas ao Menino Jesus, encenavam peças de teatro para Ele e ainda encomendavam-lhe cadeiras e camas em miniatura, que são réplicas fiéis do mobiliário então em voga. É o caso, deste menino Jesus, das Religiosas Flamengas do Convento de Alcântara, em Lisboa, que se encontra sentado num cadeirão de braços muito ao gosto do século XVIII.

Cadeiras de imagem da col. do Museu Nacional de Arte Antiga


O Museu Nacional de Arte Antiga expõe na secção de mobiliário algumas dessas cadeiras e leitos de imagens, que além de serem uma verdadeira graça, testemunham a intensa devoção ao Menino Jesus experimentada por essas mulheres que viviam em reclusão. Claro, aos nossos olhos modernos, tudo isto nos parece coisa própria de mulheres celibatárias, que procuravam satisfazer um desejo recalcado de maternidade, mas a sua fé era genuína e o Menino Jesus era como que um cupido brincalhão, que cravava no coração dessas freiras o dardo do amor divino.

Leitos de imagem da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga


Esta estampa dos finais século XVIII reproduz uma imagem que existiu em tempos no Convento de Nossa Senhora da Quietação, em Alcântara, conhecido vulgarmente pelas flamengas, pois tinha sido fundado no século XVI, no tempo de  Filipe II, para acolher religiosas fugidas das perseguições luteranas na Holanda e na Flandres e terá sido objecto de um intenso culto não só parte das monjas clarissas, que viviam nessa casa de religiosas, mas também da população em geral, de outro modo não se teria mandado imprimir esta estampa.

Menino Jezus das Religiosas Flamengas d'Alcântara. Carvalho Fecit. Em caza de M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 116

Este registo foi gravado por Teotónio José de Carvalho, que fazia muitas destas gravurazinhas baratas (só eu tenho umas quatro gravadas por ele)  e vendia-se em casa de um tal M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 16. Estas iniciais correspondem ao nome Manuel d'Ambrosii Júnior, que no Inventário da colecção de registos de santos de Ernesto Soares é mencionado 13 vezes, o que nos dá ideia da popularidade das suas edições. Tinha a sua casa na rua dos Calafates, nº 116, em Lisboa, que corresponde à actual Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto. O Bairro Alto foi durante mais de dois séculos uma zona onde tradicionalmente os livreiros e impressores tinham os seus estabelecimentos.
O Convento das Flamengas. Foto http://www.monumentos.gov.pt/

Quanto ao paradeiro actual deste Menino Jesus e do seu precioso enxoval, não descobri nada. Após a extinção das ordens religiosas, com a morte da última freira, em 1887, as alfaias e os objectos de cultos deste convento dispersaram-se. Uns fazem parte da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, mas entre eles não se conta o Menino Jesus nem a sua cadeira, e outros bens voltaram à igreja do mosteiro em 1889, sendo entregues à Real Irmandade da Nossa Senhora da Quietação. Será que este Menino Jesus pertencerá ainda à referida Irmandade ou foi vendido em hasta pública no século XIX e da sua existência luxuosa, com trajes de corte tão ricos, restou apenas esta estampa como testemunha?





Alguma bibliografia e links consultados:



Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955.


O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus / Flávio Gonçalves , Porto, 1967


http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5940

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Como uma princesa persa foi transformada numa Madalena penitente

 
O meu amigo Manel comprou mais uma estampa, representando Santa Maria Madalena, que de todas as pecadoras arrependidas e canonizadas, é de longe a mais popular. Esta pequena gravura é uma representação típica da bela pecadora arrependida, vestida com trajes de cortesã, longos cabelos soltos e que medita ajoelhada diante de uma mesa, onde estão um crucifixo e uma caveira. No chão está uma caixa aberta com as jóias, de que ela se despojou e toda a cena é envolvida por uma cortina de luxo.
 
A gravura não está assinada e contem apenas uma legenda S. Maria Magdalena. Provavelmente os dados com a identificação do impressor foram cortados pela habilidosa Senhora, que encaixilhou a gravura. Abri a página da Sociedade Martins de Sarmento, o melhor site para identificar registos de santos e descobri uma estampa igual à do Manel, mas inteira, contendo os dados da impressão. A gravura foi impressa por Teotónio José de Carvalho, um senhor que esteve activo em Lisboa nos finais do XVIII, inícios do XIX e vendia-se na rua do Ouro, Loja 16B. Provavelmente uma boa parte dos compradores desta gravurazinha seriam frequentadores da Igreja da Madalena, que é ali nas imediações. 
Estampa da colecção da Sociedade Martins Sarmento

Mas não fiquei satisfeito e resolvi pesquisarem inglês e francês no Google sobre esta imagem daquela figura do Novo Testamento, designada antigamente em França por La Trés Sainte demoiselle pécheresse e os resultados foram surpreendentes. Encontrei duas placas de esmalte de Limoges, exactamente com o mesmo tipo de representação e ambas do século XVII. Há apenas pequenas diferenças aqui e ali. Como as placas são ovais, o pormenor da caixa de jóias foi cortado e sobre a mesa, acrescentaram o vaso de perfume, com o qual Madalena ungiu os pés de Cristo e que é um dos seus atributos mais característicos, de tal forma que ainda hoje, Maria Madalena é padroeira dos fabricantes de perfumes.
Imagem extraída do blog de Alain.R.Truong
 
Imagem extraída do site de vendas Aguttes 
Apesar de mais de um século separar a produção das placas de Limoges e a estampa do Manel, as três tinham algo em comum, a mesma fonte iconográfica, que suspeitei desde logo que pudesse ser uma gravura. E com efeito, num desses sites de venda on-line, o “todocoleccion.net”, encontrei uma gravura francesa com a mesma representação da Madalena, ajoelhada em frente à mesa e vestida exactamente da mesma forma. A estampa não está datada, mas parece-me coisa do XVIII.
Imagem retirada de todocoleccion.net
Continuando as minhas buscas, acabei por descobrir uma gravura mais antiga provavelmente do XVII, gravada por Nicolas Bazin (1633-1710), editada por Pierre Mariette II (1634-1716) e feita a partir de um desenho de Charles Le Brun (1619–1690) e que será muito provavelmente a fonte de inspiração das gravuras e dos esmaltes já mencionados.
Imagem retirada de https://picclick.fr/Gravure-ancienne-MARIE-MADELEINE-PLEURANT-Nicolas-BAZIN-253631299911.HTML
 
Charles Le Brun foi um pintor régio na Corte de Luís XIV, com uma vasta obra de pintura, desenho, gravura e cartões para tapeçarias. Pintou pelo menos duas Madalenas, uma que se encontra no Louvre, outra no Museu de Grenoble, mas não tem nada a ver com as imagens das estampas e dos esmaltes, que venho aqui referindo. Já estava a praticamente a desistir de encontrar a pintura, que deu origem a esta gravura, quando encontro no site do British Museum uma outra estampa com uma cortesã semelhante a esta e onde se refere, que esta figura ajoelhada, foi extraída de uma grande composição de Charles Le Brun, datada de 1661, que está no Palácio de Versalhes, representando a família de Dario aos pés de Alexandre o Grande.
 
A família de Dario aos pés de Alexandre o Grande. Palácio de Versalhes
Em suma, o Senhor Charles de Brun ou o gravador Nicolas Bazin tiveram a ideia de reaproveitar a princesa da família de Dario, acrescentar-lhe um crucifixo, uma caveira e uma caixa de jóias e transformaram-na numa bela Madalena penitente.
Pormenor do quadro "A família de Dario aos pés de Alexandre o Grande". A jovem que chora foi reaproveitada e transformada numa Maria Madalena Penitente 

 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nossa Senhora dos Mártires: uma estampa que retrata uma imagem verdadeira

Regina Martyrum
Há muitos anos que venho coleccionando registos religiosos do século XVIII, essas folhinhas de papel impressas com imagens de Nossa Senhora, de Cristo e de muitos santos e santinhos, objectos de devoção doméstica, muitas vezes comprados depois de uma peregrinação ou romaria a uma igreja ou capelinha. Mas só nos últimos anos me apercebi que algumas destas estampas são representações realísticas de esculturas, que existiram em tempos neste ou naquele santuário, retratando com pormenor as suas vestes e jóias oferecidas pelos crentes. Por isso, agora sempre que compro um registo novo, onde na legenda se diz que santa ou santo tal era na venerado na igreja x ou y vou a correr à internet procurar informações sobre até que ponto a imagem do meu registo é realista ou se a igreja e a escultura que lhe serviram de modelo ainda existem. Claro, nem sempre estas pesquisas dão grandes resultados, pois muitas igrejas caíram no terramoto de 1755 e o seu recheio perdeu-se, outras ainda, com a extinção das ordens religiosas em 1834, foram demolidas ou se ficaram de pé, os seus bens foram vendidos em hasta pública.
 
"Silva delin.", Carvalho sculp. A estampa foi desenhada por Silva e gravada por Carvalho  (Teotónio José de Carvalho)
Mas desta vez tive muita sorte com uma estampa, que comprei recentemente na feira dos Alfarrabistas da Rua da Anchieta, aqui em Lisboa. É uma gravura que representa Nossa Senhora dos Mártires, Regina martyrum, que reproduz com fidelidade a imagem e respectivo trono e baldaquino, que se encontram ainda na Igreja dos Mártires em Lisboa, conforme pude verificar através de uma simples pesquisa de imagens no Google.
Impressa nos finais do séc. XVIII, a minha estampa retrata fielmente uma imagem que ainda hoje existe na Igreja de Nossa Senhora dos Mártires em Lisboa
Foi uma pesquisa fácil, porque Nossa Senhora dos Mártires é um culto muito lisboeta, cuja origem se prende com a reconquista da própria cidade por D. Afonso Henriques em 1147. Segundo a tradição, os cruzados que vieram ajudar na conquista de Lisboa aos mouros, traziam uma imagem de Nossa Senhora. O nosso primeiro rei fez então um voto, que se conseguisse conquistar Lisboa, mandaria erguer um templo dedicado a Nossa Senhora e de facto assim o fez logo em Novembro de 1147, num local onde tinham sido sepultados os soldados mártires, que pereceram na batalha pela conquista da cidade. Com o passar do tempo esta Virgem Maria passou a ser conhecida por Nossa Senhora dos Mártires.

Naturalmente que a actual imagem de Nossa Senhora dos Mártires não data da idade média, pois muitas campanhas de obras foram alterando o interior e o exterior da igreja.
 
Segundo o texto do Cónego Armando Duarte, escrito no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, a actual imagem deverá datar da campanha de obras de 1750. Com o Terramoto de 1755, a igreja dos mártires ruiu, mas salvou-se a imagem. O templo foi reedificado um pouco mais a norte do primitivo local, ficando a obra concluída em 1784. 

Portanto, a imagem da minha estampa retrata a imagem de roca feita à volta 1750, mas enquadrada no altar de talha construído na campanha de obras, pós-terramoto, que terminou em 1784. 
 
Sanefa do baldaquino
O mais curioso é que este altar foi alterado desde então. No topo, tinha uma sanefa, que foi retirada numa época que desconheço. Essa sanefa não foi uma invenção do gravador para tornar a estampa mais bonita. Ela deve ter existido realmente, pois um altar que se encontra na sacristia conserva ainda uma sanefa igual à da gravura, conforme pode ver no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. 
Na sacristia ainda existe um altar com a sanefa, semelhante a que outrora esteve no topo do baldaquino onde se encontra a imagem de Nossa Senhora dos Mártires
Seria interessante saber se na paróquia ainda se conservam as vestes da Virgem retratadas na estampa, porque muitas destas imagens tinham enxovais riquíssimos oferecidos pela mais alta nobreza.
 
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Nossa Senhora das Almas



Não sei se ainda haverá gente que reze pelas alminhas do Purgatório. Talvez o Purgatório esteja pejado de almas esquecidas, por quem ninguém já se lembra de rezar um Padre-nosso, Ave-maria. Aconteceu-lhe o mesmo que as antigas divindades pagãs da Península. Estão esquecidas de todos. Já ninguém em Chaves faz um sacrifício ao Deus Larouco e no Alentejo há muito que deixaram de levar oferendas a Endovélico.


Talvez seja por simpatizar tanto por coisas esquecidas e causas perdidas, que tenho uma predilecção especial pelas imagens das alminhas do Purgatório e quando vi esta estampa no chão da feira de Estremoz, não a pude deixar ficar por lá. Fazia parte de um conjunto de quatro, todas emolduradas numa madeira pintada de azul cueca. O Manel e eu compramo-las em conjunto e a coisa ficou muito em conta. Nem meia dúzia de euros custou cada das estampas.


Só deu algum trabalho raspar a tinta azul. O resto foi só limpar o vidro e passar muita cera.


A estampa foi feita por Teotónio José de Carvalho e vendia-se na travessa de S. Domingos, nº 58. A julgar pela cercadura, parece-me um trabalho dos finais do XVIII. Não encontrei nada de relevante sobre este Carvalho nas obras do Ernesto Soares.



Terá sido um impressor gravador sem grande brilho, que vendia estampas baratas, como esta Nossa Senhora das Almas. Segundo li na obra de Manuel J. Gandra, Estampas religiosas gravadas do Concelho de Mafra, esta actividade de imagens devotas estava de tal forma bem organizada, que os impressores deixavam em branco o campo destinado à legenda alusiva à invocação e competia ao comprador da edição a impressão do nome do santo ou santa. Por exemplo, esta Senhora das Almas tanto podia ser a Estremoz, como a Virgem das Almas de Viana. Era só uma questão de mudar o título. Por essa razão, nos dias de hoje, temos a maior das dificuldades em perceber se uma estampa antiga representa a Rosa de Viterbo ou de Lima ou a Brígida da Irlanda ou da Suécia.

A localização final da Nossa Senhora das Almas

A Brígida da Irlanda, a Rosa de Viterbo ou as Alminhas do Purgatório são todas elas devoções esquecidas, cujas imagens são vendidas ao desbarato nas feiras das velharias e ainda bem para mim, que as acho encantadoras.