Por todas as terras que passo, por todas as ruas com casario antigo, que calcorreio, estou sempre a descobrir casas onde me imagino a viver. Não sei exactamente de onde me vem esse desejo. Talvez seja por viver num apartamento muito pequeno e ambicione um espaço maior para enche-lo com antiguidades ou talvez porque na infância e juventude conheci ainda casas de família com história e aprendi com o meu pai e a minha avó a valorizar esse passado, que impregna cada uma dessas casas antigas, mesmo quando já foram abandonadas se encontram em ruínas. Viajo sempre com esse sentimento romântico de querer viver naquele solar abandonado, na grande residência burguesa do século XIX ou naquela casinha com um portal quinhentista, estejam estes edifícios no Alentejo, em Guimarães, Chaves ou no Porto.
Desta vez apaixonei-me por uma casa antiga com um mirante, na vila Alentejana de Borba. Em 1863, o proprietário desta casa teve a deliciosa ideia de construir um mirante no telhado e certamente que não foi por razões práticas. Daqui poderia ver os extensos vinhedos, que rodeiam a vila, enquanto tomava um chá sentado numa cadeira de verga e nas noites do terrível verão alentejano, talvez aqui em cima se sentisse uma brisa fresca. No dia da procissão do Senhor dos Aflitos era certo que o Mirante estaria engalanado de colchas e que os vários membros da família se acotovelariam para ver passar os andores.
Enfim, confesso que também me imaginei neste mirante, até porque sou um homem curioso, que gosta de ver os outros passar na rua sem outro objectivo aparente senão o de observar a humanidade.
