Para se perceber a origem desta representação iconográfica importa saber que o termo Carmo deriva da Ordem dos Carmelitas, uma ordem fundada na Idade Média, que tinha como patrono fundador o profeta Elias. Esta personagem do Antigo Testamento vivia como eremita, no monte Karmel, nas cercanias da actual cidade de Haifa, no território que é hoje Israel.
No século XIII, mais precisamente em 1251, um monge inglês da ordem do Carmelo, S. Simão Stock suplicava à Virgem que lhe desse algum sinal de aliança e bênção à Ordem dos Carmelitas e teve então uma visão na qual Nossa Senhora com o Menino lhe entrega o escapulário e lhe diz Hoc tibi et tuis privilegium: in hoc moriens salvabitur, o que quer dizer mais ou menos, aquele que tivesse o privilégio de fazer parte da Ordem (recebesse e usasse o escapulário como sinal dessa pertença) seria salvo definitivamente.
O culto a Nossa Senhora do Carmo tornou-se um emblema dos Carmelitas, ordem onde floresceram Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz, os místicos mais célebres de todo o catolicismo romano e popularizou-se em Portugal, Espanha e na América Latina, para a qual a Nossa Senhora do Monte do Carmo protege na vida, salva na morte e intercede depois a morte.
Em Portugal, a Nossa Senhora do Carmo é rapidamente associada ao culto das alminhas do purgatório, pois acreditava-se que a referida Senhora poderia resgatar os pecadores do purgatório.
A devoção a Nossa Senhora do Carmo passa sempre pelo Escapulário, que já agora convém explicar o que é exactamente esse objecto. O Escapulário era um adereço de vestuário antigo, uma espécie de avental, que cobria a frente e as costas da pessoa, ficando pendurado nos ombros de quem o vestia. Em virtude do enorme desenvolvimento, que o culto a Nossa Senhora do Carmo teve, o termo escapulário passou a designar também um pequeno objecto, que consiste em dois quadradinhos de pano, juntos por um cordão. Esses dois paninhos contem imagens religiosas marianas, frequentemente Senhoras do Carmo. Acreditava-se que transportar um escapulário consigo podia significar ser-se salvo do inferno, após a morte.
Se repararem bem nestas duas representação de Nossa Senhora do Carmo, hão de ver que tem uma forma cónica, o que é muito frequente nos registos marianos portugueses. Moisés Espírito Santo no seu arrojadíssimo livro As origens orientais da Religião Portuguesa. - Lisboa: Assírio e Alvim, 1988, explica que esta forma tem origem nos antigos cultos ancestrais da Península Ibérica, muito aparentados com as religiões de Cartago, da Fenícia e dos povos semitas em geral, em que a Deusa Astarté ou Tanit é sempre representada por um cone. Os desenhadores portugueses do século XVII e XVIII teriam reproduzido numa espécie de escrita automática a imagem duma divindade feminina ancestral, que estava gravada no subconsciente colectivo do povo português desde sempre. A tese de Moisés Espírito Santo é um bocado arriscada, mas é muito apelativa.
Tive alguns conhecidos de infância que usavam pendurados ao pescoço por um fio uns pequenos sacos em pele que continham, a recato, uns pequenos rectângulos de papel com umas pequenas imagens.
ResponderEliminarSempre me tinham intrigado aqueles objectos que essas crianças que na altura me rodearam, possuíam e as quais tinham como que pejo em os mostrar, ou dar mesmo a conhecer, como se de uma deficiência se tratasse (eu, filho de pais que nada ligavam à ortodoxia da religião católica, nada sabia destes cultos, ainda que fosse educado em estabelecimento religioso).
E, claro, o que é escondido aguça a curiosidade, mas eles mantinham o segredo bem guardado (quiçá porque temiam ser alvo de escárnio) e eu fiquei sempre com aquela imagem no meu imaginário.
Tratavam-se de escapulários, sei-o agora, com que as famílias de religiosidade mais acentuada pretendiam proteger as suas crianças.
A esta distância, e depois de todo o esquecimento que já me afectou, não me recordo se o uso daqueles objectos de devoção serviram realmente para algo, mas conjecturo que sim, pois, mais importante que qualquer milagre, é o acreditar em algo!
Manel
Interessante relembrar os Escapulários. Quando estive no colégio religioso- As Salesianas no Monte Estoril, aos domingos ia a pé com outra colega ao Mosteiro em Alcabideche das Irmãs Carmelitas buscar ovos. O ritual à chegada era beijar o Escapúlário da Irmã. Um adorno tipo fita larga do comprimento do hábito e da mesma cor, usado por cima deste, oscilava com o andar dela .Lembro que o tecido era grosso, tipo serrubeco, recordo a aspereza na minha boca quando o beijava. Quanto à protecção das criancinhas, o que me lembro em miúda era de usar um alfinete cravado na camisola interior ou combinação com o Augus Dei, medalhinhas de santinhos e um corno tudo para afugentar o Diabo e sei lá mais o quê. Gosto de Santos. Tenho recuperado alguns que compro nas feiras. Adoro engalaná-los com fitas de seda. A talhe de comparação adorei ver a águia do Benfica a voar majestosamente com as patas engalanadas igualzinho aos meus Santinhos. Coisas para Pensar!
ResponderEliminarProcuro referencia a alminhas mandadas edificar por José Teixeira Catarino no Norte, em especial em Sabrosa
ResponderEliminarJoão Catarino
EliminarInfelizmente não sei nada sobre esse assunto. Sugiro-lhe que procure informações nas revistas regionais e monografias locais. Um abraço