quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dois oveiros da Vista Alegre do século XIX


Apesar de agora viver numa casa relativamente grande, continuo com o hábito de comprar coisas pequenas. Isto deve ter a ver com qualquer coisa profunda da psicologia, talvez com um desejo inconsciente de continuar a rodear-me de pequenas coisas à medida do mundo da minha infância.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Desta forma, na última feira de Estremos comprei por um preço muito simpático dois oveiros da Vista Alegre, com a marca nº 17, usada entre 1870-1880. Como o nome indica, estas peças eram usadas para servir ovos, que eram previamente cozidos, mas de forma a deixar as gemas mais ou menos líquidas e eram comidos com o auxílio de uma pequena colher de chá. Creio que aqui em Portugal este hábito de comer assim os ovos nunca esteve muito difundido e os oveiros são uma tipologia, que aparece pouco no mercado de velharias, embora se fossem fabricando. O meu amigo Manel tem um de faiança da fábrica de Viana e na base de dados dos museus nacionais o Raiz encontrei um de Miragaia e ainda um conjunto da Vista Alegre do Palácio Nacional da Ajuda. Estes últimos apresentam exactamente o mesmo formato dos meus, mas claro com uma decoração mais refinada pois estavam ao serviço da casa Real.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Talvez por serem pouco usados, os oveiros aparecem mencionados aqui e acolá com diferentes designações, como suporte para ovos, ou ainda copo para ovos. Mas António Cota Fevereiro, que estudou os documentos das encomendas da Casa Real à fábrica da Vista Alegre, neles encontrou sempre estas peças designadas como oveiros, que será portanto o termo mais correcto.

Os oveiros são ligeiramente inclinados


Estes dois oveiros apresentam uma característica curiosa, que é visível na fotografia, foram fabricados tortos, com uma inclinação para um dos lados. Já encontrei essa particularidade em chávenas mais antigas da Vista Alegre, que no início tomei como defeito de fabrico, mas creio que terá ver como uma razão funcional, que me escapa, talvez para no momento depois da lavagem, água escorre-se melhor ou para verter melhor o creme da gema ou do chá. Enfim, não sei.

Quanto à decoração com florinhas e alguns apontamentos de dourado foi típica da Vista Alegre durante dezenas de anos. Os mestres desta fábrica inspiraram-se nos modelos da porcelana francesa, mas simplificaram-nos e o resultado é uma pintura delicada, mas sem afectação, nas palavras felizes de Maria de Azevedo Coutinho, em Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.




Ligações consultadas e alguma bibliografia:

A Real Fabrica de Porcelana da Vista Alegre, o rei D. Fernando II e a condessa d’Edla, parte 2 / António Cota Fevereiro



Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.