Nos últimos tempos tenho escrito pouco sobre faiança portuguesa e não é porque tenha perdido o entusiasmo pelo assunto. Mas colecionar faiança exige muito espaço, coisa que na minha antiga casa de assoalhada e meia me faltava. Se os pratos e as travessas podem ir para a parede onde há sempre lugar para mais um, jarras, terrinas ou canudos têm que ser expostos em prateleiras e só terrinas em faiança tenho pelo menos uma seis, fora as de porcelana, mas isso é outra história. Também é verdade, que como a faiança portuguesa raramente é marcada, faltam-me elementos para escrever textos com informação significativa sobre as peças.
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| A jarra não apresenta marca |
Mas, o meu amigo Manel ofereceu-me nos anos uma jarra de faiança azul e branca de que gostei tanto, que resolvi apresenta-la aqui, embora não esteja marcada. Desde logo me pareceu uma peça de meados do século XIX e da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Com efeito, já folheei tantas vezes a tese de mestrado Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre aquela fábrica, que tenho presente na memória, muitas imagens que publicou e tinha quase a certeza de lá ter visto uma jarra igual ou semelhante a esta.
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| Imagem retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 |
Voltei a consultar esta tese, em que autora relaciona os achados das escavações arqueológicas no local da antiga fábrica, mais exatamente num tanque atulhado em 1848, com as peças existente nos museus portugueses. E com efeito, na parte dedicada ao Museu Nacional Soares dos Reis consta uma jarra inventariada com o número 408 Cer CMP/ MNSR muito semelhante a minha, que se atribui à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, embora não esteja marcada.
Essa mesma jarra já tinha sido reproduzida no catálogo da exposição Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle, de 2004, já então era atribuída aquela fábrica de Gaia e datada do segundo quartel do século XIX.
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| Imagem retirada de Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX |
A decoração e a forma são muito idênticas à minha, só que jarra do Museu Nacional de Soares dos Reis apresenta umas asas.
Procurei obter mais informações no inventário geral dos museus nacionais portugueses, o Raiz e com efeito encontrei na colecção daquele museu do Porto, mais umas jarras com decoração e formas muito semelhante à minha, mas nas fichas descritivas a informação é escassa e no centro de fabrico consta apenas Vila Nova de Gaia, com uma interrogação.
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| Jarra da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, inv. 748 Cer CMP/ MNSR |
Em suma, é provável que esta jarra tenha saído da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, no segundo quartel do século XIX, mas não é possível ter a certeza. Quem está familiarizado com a faiança portuguesa do século XIX sabe bem que as produções das fábricas do Porto e Gaia eram muitas vezes semelhantes entre si e por consequência esta jarra poderá também ser de outra manufactura dessas duas cidades.
Alguma bibliografia e ligações consultadas:
A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75570?mode=full
Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX / coord. científica Roland Blaettler, Paulo Henriques ; textos de Roland Blaettler, João Pedro Monteiro, Alexandre Nobre Pais, Margarida Revelo Pinto e Paulo Henriques . - Lisboa : Museu Nacional do Azulejo, 2004
Raiz, bens culturais on-line







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