segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX


O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua

Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.


Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.

Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante 


Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.

Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.

Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes,


O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.

Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.

Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte


Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.

Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.

O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.

Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira,



Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.

Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.

Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.

No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis.



Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.

Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau


Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.

Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.

Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).

Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)

Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.

O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz



Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.

Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar

Mas o que interessa é que este Francisco José de Morais comprava no Porto em seu nome os produtos que minha quarta avó, comercializava na sua loja, como sabão da Saboaria Hespanhola de José Júlio Bouças, Rua do Bom Jardim, 236 (carta de 1872-06-01) ou aço no Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68 e fazia chegar as facturas à sua cunhada em Chaves e assegurava os pagamentos aos fornecedores da cidade do Porto, que como era hábito na época, só aceitavam pagamentos em metal sonante. Assim entre 1864-07-28 e 1876-10-30, contei um total de 20 cartas no espólio, que são basicamente umas guias que Francisco José emitia a pessoas da sua confiança, em trânsito entre o Porto e Chaves, para cunhada lhes entregar dinheiro, que posteriormente lhe seria devolvido, certamente destinado ao pagamento dos fornecedores do Porto ou para o reembolsar de adiantamentos que ele próprio teria feito. Talvez estes indivíduos fossem mais de confiança que os almocreves. A maioria deles eram militares, muitos da 1º companhia da administração militar. Aliás, estes conhecimentos no meio castrense fazem-me suspeitar que o Francisco José seria também um militar a cumprir serviço no Porto, mas no Arquivo Histórico do Exército nunca encontrei uma referência inequívoca a este meu tio tetravô. Nesse arquivo constam muitos homens com o nome Francisco José de Morais, alguns do Distrito de Vila Real, mas os dados de filiação, nascimento e datas não batem certo. Mas este meu antepassado sabia de contabilidade e numa das cartas que escreve à sua prezada cunhada (2 de Julho de 1872), apresentou-lhe um mapa de contas, com aspecto muito profissional, revelador de quem sabia muito bem o ofício. Estaria ele na administração militar nalguma secção de contabilidade?


Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas


Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.

Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.

Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo


Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.

Genealogia dos Alves e dos Morais