Bem sei que não devia ter comprado esta figurinha em biscuit, representando um menino vestido à moda do século XVIII, brincando com um caniche, pois é terrivelmente kitsch. Mas, o preço era convidativo, a pintura e a modelação da peça eram de excelente qualidade e estava marcado, o que é raro em peças em biscuit. Enfim, suspeitei que era uma peça proveniente de uma qualquer fábrica alemã, produzida ao gosto de Meissen, entre os finais do séc. XIX e o início do XX e deste modo, quando dei por mim tinha a peça dentro de casa.
| A marca consiste consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Apresenta ainda um número de série, o 16 |
Apesar de esta figurinha estar marcada e de ser uma coisa tipicamente alemã, tive a maior das dificuldades em identificar a marca, pois enquanto nós em Portugal, tivemos ao longo da história praticamente uma única fábrica de porcelana a laborar continuadamente, a Vista Alegre, muitas regiões alemãs contaram com 10 ou 15 fábricas de porcelana activas ao longo de duzentos anos. Vasculhei todos os dicionários de marcas de cerâmica on-line e não aparecia nada igual a esta marca, que consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Depois de ver milhares de figurinhas em biscuit alemãs, encontrei finalmente no portal americano de antiquários o Rubylane, uma placa em biscuit, estilo arte nova, com marca muito parecida com esta e atribuída à Volkstedt.
Porém como a marca não era exactamente igual continuei a minha busca e descobri na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga um livro alemão, Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963] dedicado só ao assunto das marcas germânicas e na página 229 lá estava uma marca igual à minha, da Volkstedt. Enfim, consegui concluir que este biscuit com um menino brincando com um cachorro foi fabricado pela Volkstedt, na Alemanha nos finais do XIX ou nos primeiros anos do XX.
| Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]. Na pág. 229 consta uma marca Volkstedt igual à do meu boneco. |
Claro, apesar de ser uma peça Volkstedt, esta figurinha não deixa de ser kitsch, esse termo de origem incerta surgido na segunda metade do século XIX, em plena época da industrialização na Europa, para designar objectos produzidos em larga escala, que imitavam obras de arte, destinados a uma burguesia sem grande gosto, mas com algum bem-estar económico e que ambicionava decorar as suas casas com objectos parecidos aos que encontravam nas residências aristocráticas, ainda que só vagamente. É exactamente o caso, deste meu biscuit, inspirado nas figuras de Meissen e vendido aos burgueses com pretensões a ter seus lares uma salinha do Saxe.
Com o tempo, o kitsch passou não só a designar a imitação barata da obra de arte, mas também tudo aquilo que é demasiado dourado, demasiado cor-de-rosa, demasiado pequeno, demasiado ornamentado e que é supérfluo e que passou irremediavelmente de moda. É também o caso, deste bonequinho em biscuit, pequenino, com decoração sobrecarregada, inútil e absolutamente inaceitável para um decorador de interiores contemporâneo.
Contudo, acredito que pelo menos uma vez na vida, todos nós temos vontade de sair dos limites do gosto convencional do nosso tempo e usar uma cor berrante, um fato de banho politicamente incorrecto, um boné disparatado ou ainda expor na sala um bibelot ao estilo de Meissen.
Algumas obras e links consultados:
Führer für sammler von porzellan und fayence, steinzeug, steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]
https://fr.wikipedia.org/wiki/Kitsch




