segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma taça de faiança espanhola com tema de caça


Hoje apresento-vos uma taça em faiança com motivos de caça, que o meu amigo Manel comprou há uns tempos. Esta peça pareceu-nos desde logo antiga, mas não se assemelhava com nada da produção de faiança portuguesa dos séculos XVII e XVIII. O formato também é algo estranho na cerâmica portuguesa, uma taça pouco profunda, com uns pequenos pés e uma função indeterminada. O Manel e eu pusemos a hipótese de ser uma peça espanhola, talvez de Talavera ou Puente del Arzobispo e com efeito consultamos algumas publicações sobre a faiança do país vizinho e o estilo decorativo desta taça enquadrava-se muito mais na produção espanhola do que na portuguesa. Contudo, se na faiança portuguesa, podemos arriscar alguns palpites e atribuições, ainda que muito a medo, na cerâmica espanhola não temos de todo conhecimentos suficientes para classificar uma peça neste ou naquele centro de fabrico. Em suma, o Manel e eu decidimos que esta taça era uma coisa espanhola, antiga, mas de período e centro de fabricos incertos.

Passado alguns anos mostrei algumas fotografias esta taça a um especialista de faiança, o Rui Trindade, que confirmou tratar-se possivelmente de uma taça em faiança, fabricada algures em Espanha e no século XVIII. Chamou-me a atenção para o facto de ser uma peça moldada à mão, pois não é regular e que seria uma taça para conter alimentos sólidos.
A taça não está marcada. A irregularidade das formas prova que foi moldada à mão
Pouco tempo depois, a nossa amiga Maria Andrade esteve na casa alentejana do Manel, onde admirou esta taça e logo de seguida partiu para visitar o Palácio de Vila Viçosa, onde com o seu olho clínico descobriu uma peça com analogias evidentes a esta. O Manel e eu corremos para Vila Viçosa e lá encontramos dita taça, com um motivo tauromáquico, mas não tinha qualquer legenda, que nos pudesse esclarecer sobre o período e o centro de fabrico.
O tabuleiro do Paço Ducal de Vila Viçosa
Recentemente passou-me um livrinho pelas mãos, Roteiro Paço Ducal de Vila Viçosa / coord. e textos Maria de Jesus Monge. - Caxias : Fundação Casa de Bragança, 2010 e na página 32 do referido roteiro constava uma reprodução do tabuleiro com uma cena tauromáquica. A peça está dada como sendo espanhola, de Sevilha e datada do século XVIII. Li depois num texto na internet, que nos séculos XVII e XVIII a faiança sevilhana foi muito influenciada pela cerâmica de Talavera e de Alcora e que os temas mais típicos eram as cenas de caça com um carácter popular.
Em suma, esta taça moldada à mão será uma peça usada para conter pequenos alimentos e provavelmente foi executada em Sevilha durante o Século XVIII. Claro, não pudemos ter a certeza, pois nos finais do século XIX e inícios do XX, muitas fábricas espanholas começaram a produzir cerâmica ao gosto dos séculos XVII e XVIII e poder-se-dar o caso desta taça ser um desses revivalismos. 
Para melhor admirar esta taça, produzida nesta cidade andaluza, que te enamora e te embruxará, recomendo a inesquecível Sevilla, por Miguel Bosé.


Textos consultados:


Roteiro Paço Ducal de Vila Viçosa / coord. e textos Maria de Jesus Monge. - Caxias : Fundação Casa de Bragança, 2010

http://espanafascinante.com/productos/alfareria-y-ceramica-de-sevilla-pickman/

8 comentários:

  1. Realmente foi uma surpresa abrir o teu blog e encontrar uma peça que comprei já há tantos anos.
    Continua a ser uma das mais emblemáticas que tenho, e sobre a qual, rigorosamente, nada sei de concreto, só conjeturas.
    É uma peça que até o formato é sui generis, com uma decoração zoomórfica interessante, mas enigmática.
    Nem sei bem para que serviria ... fruteiro (?) não sei bem definir o seu uso.
    Toda a decoração nada tem de português, pelo que a tendência seria apontar para Espanha, o que faz algum sentido, mas ... quem sabe o que será.
    A Maria Andrade apontou pistas, tu tens tentado descobrir alguma coisa sobre esta peça, mas ela continua enigmática, sobre a mesinha onde a coloquei.
    Lá ficará, espero eu, pois seja lá o uso que lhe foi destinado, ela já está reformada e pretende descanso, que eu de bom grado lhe concedo! Só não lhe permito que deixe de embelezar o meu espaço.
    Manel

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    1. Manel

      Este post foi uma tentativa de sistematizar algumas pesquisas e semelhanças encontradas com outras peças, mas não pretende concluir nada em definitivo. Existiram umas quantas fábricas de faiança em Espanha ao longo dos séculos XVII e XVIII e é difícil para nós leigos distinguir com precisão as suas produções, até porque elas influenciavam-se umas às outras. Mais ainda, no fim do séc. XIX e inícios do XX alguns centros cerâmicos retomaram temas e decorações do passado.

      Enfim, o que está aqui escrito é uma hipótese.

      Abraço

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    1. Margarida

      Desculpe só agora lhe responder. Muito obrigado pelo seu comentário. Bjos

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  3. Meu caro Luís, tive durante um mês casa cheia com a minha gente de além-mar e assim me escapou este post que agora me deliciou!
    A peça é muito especial, carismática, e não esconde a antiguidade. Para mim é mesmo do sé. XVIII, seja qual for o centro que a produziu. Lembra muito as decorações a desenho miúdo da faiança portuguesa do séc. XVIII, mas a pista espanhola que seguiu parece-me muito credível!
    Afinal, quem tem olho clínico é o Manel, que vai descobrindo peças encantadoras como esta...
    Um abraço aos dois.

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    1. Maria Clara

      Também me lembrei logo do desenho miúdo e consultei uns quantos livros de faiança, mas não havia nada realmente parecido. Também aproveitei os pulos que dou à secção de faiança do MNAA para tentar encontrar qualquer coisa onde esta taça se pudesse encaixar e nada. A hipótese sevilhana parece a mais plausível. Parece que a família real ia muito a Sevilha e trouxeram muitas peças de faiança espanhola, que hoje estão na colecção do Palácio de vila Viçosa. Será o caso da taça com o tema tauromáquico.

      Bjos

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  4. Uma peça bem diferente Luis, me fez pensar em ser uma fruteira? Talvez pelos pés.

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    1. Maria da Gloria.

      Hoje é complicado saber a função desta taça.

      Se fosse um fruteiro, teria que ser destinado a cerejas, damascos, gingas ou outras frutas de pequenas dimensões. Talvez o tema da caça nos permita supor que fosse antes usado para servir uns petiscos com carne de coelho ou perdizes. Mas é uma interrogação. Talvez a resposta se possa encontrar numa natureza morta espanhola da época, representado uma taça deste género. Em todo o caso é sempre uma especulação.

      Bjos

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