sábado, 7 de janeiro de 2023

Uma panela de barro que não deu ouvidos à panela de ferro


Recordo-me que num dos livros de leitura da antiga instrução primária, já não me recordo se da terceira ou da quarta classe, havia uma história sobre duas panelas, uma de barro e outra de ferro. A de ferro desafiou a panela de barro a irem dar um passeio, garantindo-lhe que a protegeria de qualquer perigo com toda a fortaleza da sua constituição metálica. E lá se meterem as duas a caminho, só que com os solavancos do caminho irregular, as duas panelas acabaram por chocar e a de barro quebrou-se numa dúzia de pedaços. Na altura, teria eu os meus 8 ou 9 anos, fiquei com muita pena da panela de barro. Os miúdos preferem sempre histórias com finais felizes.

Mas estes textos dos manuais de leitura da antiga escola primária marcavam-nos sempre muito Éramos muito pequenos e cada um deles ocupava um ou dois dias de aula, com a leitura em voz alta, o estudo do vocabulário, a cópia e finalmente o ditado, que significava sempre uma ou outra reguada. Por cada erro no ditado o professor batia-nos com a régua na mão e umas quantas faltas de acentos equivaliam a uma ou outra reguada suplementar. Naquela época e isto passou-se mais ou menos em 1971 ou 1972, os castigos físicos em correntes no ensino primário oficial.



Só já em adulto, é que recordando esse texto, me apercebi do seu significado, a chamada moral da história. Temos que conhecer as nossas limitações e não nos deixarmos influenciar pelos mais fortes e correr aventuras e perigos, para os quais não temos capacidades para nos defender.

Há uns anos, quando o meu amigo Manel comprou esta panela de barro na feira de Estremoz recordei-me outra vez dessa história de um antigo livro de leitura da instrução primária, fiz alguma pesquisa sobre o assunto e descobri que esse texto era uma adaptação de uma das fábulas de La Fontaine. Confesso que imediato, comecei a criar uma história para esta panela que sobreviveu até aos nossos dias. Quando foi comprada era uma bonita peça de barro e que foi muito usada, pois o vidrado está todo estragado um pouco por todo o lado. Mas, por qualquer razão nunca se partiu, talvez porque a sua dona fosse muito cuidadosa ou talvez porque esta panela fosse muito sensata e nunca se tenha posto à aventura na companhia de uma panela de ferro. Mas, o mais certo, é que um dia tenha sido retirada de uso, quando a sua dona recebeu de presente de uma filha ou nora um trem de cozinha de panelas e tachos de esmalte decorados com flores. Recordo-me que nos anos 70, mais ou menos na altura em li esse texto, os trens de cozinha em esmalte eram o supra-sumo da barbatana. Esses trens de cozinha eram muito mais baratos em Espanha do que em Portugal e a minha mãe comprou um no país vizinho, decorado com umas flores cor-de-laranja e que antes de atravessarmos a fronteira, o meu pai escondeu no atrelado, debaixo da tenda de campismo, não fossem os guardas alfandegários, implicar com o trem de cozinha, apreende-lo ou fazer-nos pagar direitos aduaneiros. Recordo-me bem do ar tenso e preocupado do meu pai no momento que cruzamos a fronteira entre Portugal e Espanha. O meu pai era um legalista, um homem cumpridor da Lei e passar aquele trem de cozinha à revelia dos guardas fronteiriços não o deve ter deixado muito confortável.

Mas voltando a panela de barro desconheço onde foi produzida e quando. Como foi comprada em Estremoz talvez tenha sido feita numa olaria algures no Alentejo. Quanto à época em que saiu do forno, é ainda mais difícil atirar com hipóteses, já que as formas na olaria são quase sempre imemoriais. Mas imagino, que não deva ser muito antiga, já que esta louça de barro para cozinhar facilmente se quebrava, contra os potes de ferro, ou em virtude das diferenças de temperatura extremas ou ainda porque escorregava das mãos enquanto era lavada. O mais certo é ser do início dos anos 70, do tempo em que li a fábula de La Fontaine no livro de instrução primária, quando os castigos físicos eram prática corrente e moralmente aceitáveis na educação em Portugal e não havia livre circulação de pessoas e bens entre Portugal e Espanha. Mas também de um tempo em que a modernidade já se anunciava e uns dois anos depois em 1974, tudo se começou a transformar em Portugal e esta panela de barro foi remetida para um escaparate, como decoração típica.



9 comentários:

  1. Gostei muito. Não conhecia a história das panelas (e confesso que, mesmo com 52 anos, fiquei com pena da panela de barro). Entretanto, gosto muito da peça que comprou, que é bem bonita. Bom dia!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Margarida.

      Como é mais nova do que eu, já não apanhou estes livros de leitura do Estado Novo, que estiveram em vigor décadas a fio. Alguns dos textos eram insuportáveis, como a histórias dos meninos pobrezinhos, mas limpos e honrados, impregnados daquela ideologia da época. Outros baseados em histórias tradicionais, como esta, eram muito interessantes e ajudavam as crianças a assimilar algumas regras de conduta úteis na vida. Confesso, que quando estava a escrever este texto, só me vinha a memória aquele episódio terrível da praia do Meco, em que seis jovens foram levados por uma onda, por causa de uma praxe universitária estúpida.

      Em todo o caso, esta panela é uma daquelas peças muito simples, mas muito bonitas da olaria tradicional, que parece ilustrar um daqueles contos antigos, com a inevitável moral da história.

      Um abraço

      Um abraço

      Eliminar
  2. Como a partir de uma peça sem qualquer história, conseguiste escrever uma!
    Nunca se conseguirá averiguar onde ou quando foi produzida, pois é de tal forma anónima e intemporal que pode ter sido produzida algures num tempo qualquer.
    Seguramente não será muito antiga, pois estas peças têm vidas curtas, dado o seu uso continuado e frequente, no entanto, e por milagre, ainda sobrevive.
    Não a uso, pois hoje a oferta de materiais e formas é tão vasta, que acabo por utilizar materiais mais recentes, duráveis, laváveis e de uso mais seguro, no entanto gosto de a ver, pela sua forma apelativa, e sentir a sua "intemporabilidade".
    Manel

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Manel

      Esta panela é tão simples e bonita que parece moldada a ser protagonista de uma fábula e de facto neste post segui o meu instinto e criei umas quantas histórias à volta dela.

      Claro, poderia ter feito alguma pesquisa sobre olaria portuguesa, pois há muita gente que se dedicou a escrever sobre o assunto, estudando as formas regionais. Mas percebo pouco de olaria. É um assunto muito especializado e aos olhos de um leigo como eu tudo me parece muito semelhante, de modo que preferi escrever sobre um lado mais sentimental, que sempre estas peças imemoriais despertam em nós.

      Um abraço

      Eliminar
  3. A comida feita numa panela de barro é uma delícia!! Tenho uma que trouxe do interior e que eu fazia vatapá nela. Há muito tempo está guardada no fundo do armário. Ela tem um pegador único e bem bonito. Rústica. É do norte da Bahia.
    Mas as panelas de barro mais incríveis para cozinhar são as capixabas, do Espírito Santo. São negras, de barro preto. Fico louco pra comprar uma delas.
    É isso. As de ferro são inconvenientes, tem que ter muita manutenção, passar óleo, enferrujam.
    Prefiro as de barro que, na sua fragilidade, possui o dom de fazer a comida boa.
    Um cuscuz feito num cuscuzeiro de barro, é outra coisa! Cuscuz de tapioca e o de milho com ou sem leite de coco. Delícia!
    E vamos mexer panelas!
    Abraços!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Jorge

      A graça desta panela velhinha, reformada antes de se estilhaçar em cacos, é imaginar a comida deliciosa que aqui se fez, provavelmente num fogão à lenha ou mesmo no fogo de uma lareira. Os pratos aqui confeccionados teriam um sabor impossível de conseguir numa panela de inox, alumínio ou num desses outros materiais modernos.

      Recordo-me que na casa da família materna se cozinhava ainda muito sobre o fogo de uma lareira, mas nos potes de ferro. Naquela região não havia muito barro.

      Imagino essa louça de barro preto que me falas deve ser linda. Eu tenho um pote, provavelmente uma talha de azeite de barro preto, que me encanta e que já aqui mostrei em https://velhariasdoluis.blogspot.com/2015/11/barro-preto.html.

      Um grande abraço

      Eliminar
  4. Luís, bonita história, a da panela, o mesmo já não diria da lembrança das reguadas e dos puxões de orelha na primária .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nesta pequena história, associei todas as recordações, que esta panela de barro me despertou, as mais agradáveis, bem como outras mais dolorosas, de um tempo em que os castigos corporais eram prática corrente no ensino oficial. Mas os tempos melhoraram e os professores não batem nas crianças. As condições de vida também evoluíram e hoje toda a gente tem fogões a gaz ou eléctricos e as fronteiras estão abertas, ou melhor, desapareceram da União Europeia.

      Mas estes objectos remetidos a escaparates decorativos nos dias de hoje, despertam-nos sempre uma nostalgia muito grande.

      Talvez esteja pura e simplesmente a envelhecer e já tenho mais recordações do passado, que dias para viver.

      Um abraço

      Eliminar
  5. O seu cântaro preto é belíssimo. Antigamente em todas as casas havia na cozinha um recipiente enorme que se chama purrão, que ainda se vende, mas mais com finalidade decorativa, pelo menos aqui na capital. Creio que no interior ainda deva ser usado para guardar a água escassa nas áreas de seca do Nordeste. Ele tem uma pequena alça ou não. Em cima se colocava uma paninho fino de algodão seguro por um pratinho que se chamava testo. Em cima do testo uma canequinha de alumínio para pegar a água.
    Tenho um livro com uma foto antiga de uma feira com uns purrões belíssimos com decorações em relevo, um escândalo. Os de hoje são de uma pobreza só.
    E viva o barro preto!

    ResponderEliminar