O centro histórico de Chaves está bem conservado. A cidade é uma espécie de Guimarães em miniatura e depois passear pelas suas ruas antigas, onde viveram tantos dos meus antepassados paternos, é sempre uma espécie de peregrinação sentimental. Cada parte da cidade é um conjunto de histórias de que eu ainda me recordo ou de que me lembro de ouvir o pai ou a avó falar. No bairro da Madalena viveram os meus bisavôs, logo ao lado, os pais da minha bisavó Aninhas, um pouco mais frente, a minha tia Natália, num prédio antigo do século XIX, no último andar, cuja varanda dava a volta à casa toda e da qual se tinha uma vista espantosa sobre o Jardim da Madalena. Em miúdo, o meu avô Silvino levava-me a passear a esse jardim e ainda hoje, quando sinto o cheiro a buxo, comovo-me sempre, porque traz-me à memória esses momentos, que devem ter sido felizes. Na outra margem do Tâmega moraram a minha avó Mimi, a tia Maria Antónia e ainda, a tia Antoninha, cuja forma de receber fazia justiça à célebre generosidade transmontana. Quando a visitávamos, recebia-nos na sala de estar, trocava meia dúzia de palavras de circunstância e depois desaparecia para dentro, deixando a filha a entreter as visitas. Passado algum tempo, voltava, abria as cortinas da sala de jantar e o pequeno lanche para o qual a Tia Antoninha nos tinha convidado era um verdadeiro banquete. A Tia Antoninha era daquelas pessoas, que sabia conquistar o coração dos outros através da arte da culinária. Cozinhar com empenho e arte é uma forma de amar.
Mais além, no largo em frente ao Tribunal de Chaves, a minha irmã aprendeu a andar de bicicleta. Na altura, logo no início dos anos 70, ninguém suspeitava que, por debaixo do empedrado com calçada portuguesa, existiam umas termas romanas luxuosas, que foram postas recentemente a descoberto, aquando da construção de um parque de estacionamento. A Câmara abandonou a ideia do parque para estacionar carros e tomou a decisão corajosa de manter as ruínas e abri-las ao público, e fez muito bem, porque elas são as termas romanas mais bem preservadas de toda a Península Ibérica. É um conjunto impressionante do qual as fotografias não conseguem transmitir a escala grandiosa. Creio que poderiam servir em simultâneo cerca de 70 a 80 pessoas, o que dá ideia da importância da Chaves romana. Mas não eram umas termas quaisquer cujos banhos tivessem apenas fins higiénicos e que existiram em todas as cidades romanas com alguma importância. Eram termas com fins terapêuticos, aliás as piscinas estão ainda cheias de água quente, que brota do solo. Este conjunto termal ocupava uma parte importante da cidade e constituía um núcleo definidor do aglomerado urbano. Aliás, percebe-se agora muito melhor o antigo nome da cidade Aquae Flaviae, que traduzido à letra, quer dizer, as águas dos Flávios. Só é pena que este monumento arqueológico esteja tão mal aproveitado. No interior não há qualquer placa na parede com uma explicação do que foi o edifício, quando foi construído ou destruído e muito menos legendas explicativas sobre as várias piscinas e condutas de água. Também não há à venda um desdobrável, uma brochura ou postais ilustrados. Enfim, quem quiser saber mais que vá chafurdar para o Google, e é uma pena porque uma boa musealização das ruínas poderia atrair muitos e muitos turistas à cidade. Chaves, além de contar com a melhor ponte romana do território português, passa agora a ter o melhor conjunto termal da Península.
Mais informações sobre Balneário Termal Romano podem ser lidas em:
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/media/uploads/arqueologiapreventivaedeacompanhamento/chaves.pdf














