quarta-feira, 28 de março de 2018

Prato decorado com floreiro da Davenport

A produção da fábrica inglesa Davenport (1794-1887) é de facto notável e muito extensa e aqui em Portugal deve ter encontrado um bom mercado, pois é muito fácil encontrar nas nossas feiras de velharias louça, com a característica marca da âncora, usada por aquela fábrica britânica.
 
A típica âncora da Davenport

Desta vez apresento-vos um prato comprado pelo meu amigo Manel e que apresenta aquela decoração muito carregada e com azuis mais escuros, característicos da faiança inglesa das primeiras décadas do século XIX. O tema decorativo, uma jarra de flores, ornamentado nas bordas com folhas e flores comum na faiança inglesa da época, mas este motivo, em particular, da Davenport parece-me mais raro.
 
 Em toda a internet só encontrei duas peças da Davenport, com esta decoração, umas azeitoneiras ou pickle dishes, à venda num antiquário inglês Nivingston Antiques. No texto que acompanha a descrição das peças, refere que este padrão terá sido inspirado no Coronation pattern, da Ralph & James Clews (1814-1834), um motivo bastante popular, pelo menos a julgar pela quantidade de peças que se encontram à venda on-line.
Azeitoneiras à venda na Nivingston Antiques
No site Nivingston Antiques indica-se ainda que este Coronation pattern surgiu por ocasião da Coroação do rei Guilherme IV em 1830, mas não consegui confirmar essa informação nas pesquisas que fiz.
Coronation pattern, da Ralph & James Clews (1814-1834). Foto de Lovers of Blue & White

Em todo o caso, este prato da Davenport com uma decoração floral, terá sido produzido precisamente à volta de 1830, ano da coroação do antecessor da Rainha Vitória. 
 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um vestido novo em 1930


Esta é uma fotografia da irmã da minha mãe, a Maria Adelaide, tirada no já longínquo ano de 1930, na Foz do Porto. Teria ela uns 17 anos e orgulhosa, mostra um vestido certamente novo, pois na época, a fotografia ainda era cara e só se tiravam retratos em momentos realmente importantes, com a toilette a condizer. A tia Maria Adelaide vivia em Vinhais, uma vila da raia transmontana e uma ida à cidade do Porto era um acontecimento, suficientemente especial para se estrear um vestido novo. Vinhais era e ainda é uma povoação isolada no meio de montanhas e em 1930 e ir até ao Porto significava apanhar uma camioneta para Chaves, depois um comboio até à Régua e finalmente outro para o Porto. Provavelmente pernoitaria pelo caminho e demoraria uns dois dias de viagem a fazer os cerca de 200 km que separam Vinhais do Porto. Em suma, naquele tempo, para uma rapariguinha de Vinhais viajar até ao Porto era mais ou menos a mesma coisa que hoje ir passar uns dias a Nova Iorque ou Paris. Ainda para mais, ficou alojada na Foz, a zona mais chique do Porto, talvez em casa de parentes ou nalguma pensão suficientemente respeitável para receber uma rapariga séria.
 

Para fazer boa figura na Foz do Porto e com suficiente antecedência, a minha tia Lalai terá comprado um tecido e ela própria terá confeccionado o vestido, segundo um figurino publicado numa revista de moda, ou no suplemento feminino de um jornal português. E o que é certo é que escolheu um modelo actualizado, pois o corte correspondia ao que era preconizado para a Primavera de 1930, pelo conhecido magazine parisiense Le Petit echo de la mode, em Março de 1930. A saia era mais alongada, que na década anterior, alargando suavemente para baixo e a cintura também ligeiramente mais acentuada, que nos anos 20.
Le Petit echo de la mode, Março de 1930
Certamente que em Vinhais a minha tia calçaria umas grossas meias de lã, mas aqui fez-se fotografar com umas meias de seda ou talvez de viscose, uma seda artificial, que se começou a usar precisamente nesta altura. O nylon só entrará na Europa depois de 1945.

O que é mais curioso desta fotografia é que a minha tia ao longo da sua vida manteve-se mais ou menos fiel a este corte de vestido. Recordo-me de a ver no casamento da minha prima Dadinha no final dos anos 80, com um vestido preto exactamente com este corte, só que em vez da gola tinha um pequeno decote fendido. Era uma coisa muito sóbria, elegante e adequada à idade, o chamado simples vestido preto. Aliás, todos nós temos uma certa tendência a fixarmo-nos às modas da nossa juventude, talvez porque a partir de uma certa idade tenhamos dificuldade em acompanhar os tempos ou simplesmente porque já sabemos o que nos fica bem e a moda deixa de nos preocupar. A minha Tia Lalai conhecia o suficiente de moda, para não ser vítima dela. Depois da morte do seu pai, que deixou a família em dificuldades financeiras, para sobreviver tornou-se modista e ao longo de cinquenta anos, numa das salas do piso térreo da casa de Vinhais, ela e as suas empregadas cortaram e fizeram milhares de saias, casacos e vestidos e trajes de noiva. Ainda apanhei esse tempo e em miúdo gostava de entrar naquela sala e ver aquele reboliço de linhas, tecidos, alfinetes, máquinas de costura e dúzias de revistas de moda portuguesas, francesas e italianas. As empregadas da minha tia eram também muito simpáticas connosco, os miúdos e ajudavam-nos a fazer roupa para os bonecos. Quando vejo aquele quadro do Marques de Oliveira, costureiras trabalhando, que está no Soares dos Reis, lembro-me sempre da sala de costura da casa de Vinhais. Até a vista é parecida, pois da janela também se via uma árvore centenária, um castanheiro.
Marques de Oliveira. Costureiras trabalhando. Museu Nacional de Soares do Reis, inv. 79 Pin CMP/ MNSR. Foto http://www.matrizpix.dgpc.pt/
A minha tia morreu há mais de vinte anos e aquela sala está às escuras, há muito tempo, e já ninguém ali usa as máquinas de costura, corta tecidos ou alinhava. Mas esta fotografia, tirada em 1930 no Porto, traz-me sempre a memória essa época, em que a minha tia Maria Adelaide cortava os tecidos e pareçe que ainda ouço as vozes da Bárbara, da Iracema, da Virgínia e da Francisca, as senhoras que trabalhavam com ela e de quem nós gostávamos tanto. A fotografia tem sempre essa misteriosa capacidade de abolir o tempo.
Maria Adelaide (1913-1997)
 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Cantão popular da fábrica de Louça de Massarelos


Há muito tempo que não escrevo sobre faiança portuguesa neste blog. Não que o assunto me tenha deixado de interessar, mas a falta quase total de marcas na faiança fabricada em Portugal durante o século XIX faz com que escrever sobre uma peça qualquer bonita comprada há pouco tempo seja apenas um mero texto de suposições. Temos a impressão que aquela terrina com uma pasta muito brilhante é do Norte, que um prato mais grosseiro e de cor amarelada é de Coimbra e que uma travessa com cores garridas será eventualmente das fábricas de Bandeira ou de Fervença. Também deixei de escrever sobre faiança, depois de ter o consultado o catálogo A fábrica de Vilar de Mouros, de 2015, que me deixou a ideia, que no século XIX, as fábricas portuguesas, pelos menos as do Norte, tem uma produção semelhante, quer em termos de formas, quer em termos de decoração, sem dúvida para responder ao gosto dominante dos consumidores.
 
Massarelos produziu o motivo cantão popular. Foto extraída de Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017
 
No entanto, de vez aparecem novos trabalhos, que dão alguma luz sobre esta terrível confusão que é a faiança portuguesa do século XIX. Foi o caso de uma obra, que se encontra on-line, Dois séculos de faiança portuguesa, escrita por Edgar Vigário, 2017, que descreve alguns achados postos a descoberto nas escavações arqueológicas feitas no lugar da antiga fábrica de Massarelos no Porto. O autor publica fotografias do que os arqueólogos trouxeram à luz do dia e entre esses cacos, há muitas peças com a decoração do tipo cantão popular, com produção atribuível à primeira metade do séc. XIX. Portanto, estas escavações arqueológicas provaram preto no branco, que a Fábrica de Massarelos também fabricou cantão popular durante a primeira metade do século XIX. Edgar Vigário remete ainda para outro documento on-line, de Liliana Barbosa, intitulado Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal, que descreve mais sucintamente as escavações feitas naquela fábrica e que é um estudo precioso para saber o que Massarelos produziu no século XIX, já que o catálogo Fabrica de Massarellos 1763-1936. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 1998 é relativamente pobre em informações sobre aquela época, pois centra-se nas peças feitas nos séculos XVIII e XX. Na obra Fábrica de louça de Massarelos de Liliana Barbosa mostram-se ainda muitos fragmentos de louça colorida de meados do século XIX, que teríamos tendência a atribuir às fábricas de Bandeira ou Fervença e agora passamos a saber, que poderão ser também de Massarelos.
Massarelos produziu muita louça de cores vivas tal como Bandeira, Fervença, Viana ou Vilar de Mouros. Foto extraída de Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017
Realmente, estes trabalhos arqueológicos feitos nas instalações das antigas fábricas de faiança portuguesa são realmente determinantes para o estudo da faiança portuguesa do século XIX, pois permitem uma classificação e atribuição das peças relativamente seguras. Só é pena que os arqueólogos não publiquem mais fotografias dos seus achados, que são preciosas para os amantes da faiança portuguesa.
 
O grande número de variações na decoração e nas formas do cantão popular leva-nos a pensar que muitas fábricas produziram este motivo decorativo ao longo do século XIX. Talvez uma destas peças poderá ter sido produzida por Massarelos
Relativamente ao motivo do Cantão popular, já se sabia que duas fábricas tinham produzido louça com este motivo no século XIX, isto é, Santo António de Vale da Piedade e Vilar de Mouros. Mas o Manel e eu que temos muitas peças com este motivo decorativo, já tínhamos tido a percepção, perante o grande número de variações na decoração e nas formas, que forçosamente teria que haver outras fábricas a produzir Cantão popular ao longo do século XIX, e  com efeito, agora temos a certeza que houve mais uma, Massarelos.

Alguma bibliografia:

Dois séculos de faiança portuguesa /  Edgar Vigário. 2017 

Fabrica de Massarellos 1763-1936. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 1998. - 182 p. : il. ; 30 cm

A fábrica de Vilar de Mouros/ Paulo Torres Bento [et al]. – Vilar de Mouros: CIRV; Câmara Municipal de Caminha, 2015

Fábrica de louça de Massarelos, Porto, breve olhar sobre as produções de uma unidade industrial pioneira em Portugal/ Liliana Barbosa, 2017 https://www.academia.edu/33242404/F%C3%A1brica_de_Louca_de_Massarelos_Porto_breve_olhar_sobre_as_produ%C3%A7%C3%B5es_de_uma_unidade_industrial_pioneira_em_Portugal; 2017.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Uma figurinha de porcelana Volkstedt ao estilo de Meissen

O Manel comprou recentemente esta encantadora figura de porcelana, feita ao gosto das célebres figurinhas de Meissen do século XVIII.

Para os menos familiarizados com a história da cerâmica, Meissen é a mais antiga fábrica de porcelana da Europa, que iniciou as suas actividades em 1710 e que existe ainda nos dias de hoje. Ao longo da sua história, Meissen produziu porcelana de uma qualidade extraordinária, imitada em toda a Europa e precisamente por essa razão, desde muito cedo começou a marcar as suas peças com um símbolo, duas espadas cruzadas, para que os compradores soubessem inequivocamente, que estavam a comprar o melhor da melhor louça europeia.
 
Uma das produções que mais notabilizou Meissen, foram as célebres figurinhas de porcelana. Estes bonequinhos tiveram a sua origem em figuras moldadas em açúcar, que antigamente decoravam as mesas de jantar dos grandes palácios europeus. Mas como o seu custo era caro e ainda para mais eram peças efémeras, destinadas a serem comidas no final da refeição, por volta de 1730 os artistas de Meissen tiveram a ideia de fabricarem esses enfeites de mesa em porcelana e desde essa altura, a célebre fabrica do Saxe produziu naquele material e com imenso sucesso arlequins, pastoras galantes, soldados turcos, fidalgos janotas, damas de corte e animaizinhos em número suficiente para formar um jardim zoológico, ou uma ménagerie como se diria naquela época.
A sala do Saxe no Palácio Nacional da Ajuda
Estas figurinhas em porcelana foram então inicialmente destinadas a decorar mesas de jantar e só mais tarde se tornaram objectos de vitrina e de gabinetes de colecções, como a Sala do Saxe do nosso Palácio da Ajuda.
 
A marca de fabrico desta figurinha inspira-se nas espadas cruzadas de Meissen
Embora a figurinha de jovem galante, que o Manel comprou, apresente uma marca inspirada nas espadas cruzadas de Meissen, vimos de imediato que nunca poderia ser uma produção genuína daquela fábrica. As verdadeiras peças do século XVIII de Meissen valem fortunas e não aparecem nos mercados de velharias. Mesmo as figurinhas de Meissen feitas no século XIX valem muito dinheiro no mercado americano. Portanto, percebi que o caminho para identificar a marca e a época desta figurinha de jovem sedutor era descobrir no Google um site de coleccionismo de Meissen, com a lista das marcas genuínas, mas sobretudo com os conselhos práticos aos amadores de porcelana antiga para não se deixarem enganar, indicando a forma de distinguir uma marca verdadeira de uma falsa.
 
E de facto, descobri rapidamente uma página na internet com essas características, o http://gaukartifact.com/2013/03/07/meissen-mark-crossed-swords, onde no final do texto sobre a porcelana de Meissen, se enumeram as fábricas que se dedicaram a copiar descaradamente as produções daquela célebre fábrica alemã do Saxe. Foram elas:

La Courtille, França;
Limbach;
Volkstedt;
Weesp, Holanda;
Worcester, Inglaterra;
Kloster-Veilsdorf;
Bourdois & Bloch;
Kalk Porcelain.
 
O que fiz de seguida foi pesquisar no Google por cada um desses termos, acrescido da expressão Porcelain marks. Quando cheguei a expressão de pesquisa Volkstedt porcelain marks, encontrei uma marca igualzinha à peça do Manel no portal americano de antiguidades o Rubylane.com, numa figurinha também ao estilo de Meissen, com identificação do fabricante, Volkstedt e a data, finais do Século XIX. Portanto, o jovem peralvilho pertencente ao Manel teria sido fabricado pela Volkstedt.
 
A marca nº 5 foi usada pela Volkstedt nos finais do século XIX. http://www.oldandsold.com
A partir dessa descoberta foi tudo muito mais simples. Pesquisei no Google pela frase Volkstedt porcelain figurines e descobri à venda por esse mundo fora dúzias de figurinhas com uma pintura muito semelhante a do Manel, marcadas com a mesma insígnia inspirada nas espadas cruzadas de Meissen, inclusive consegui encontrar o mesmo boneco, com a figura, que lhe fazia par, uma jovem elegante.
O jovem galante tinha também um par. Conjunto à venda no E-bay
Fundada em 1760, a fábrica de Volkstedt situa-se na Turíngia, Alemanha e continua ainda em laboração. Ao longo da sua longa história notabilizou-se pela qualidade da modelagem e da pintura, como se pode comprovar pelas imagens do jovem elegante em porcelana que aqui apresento.

Em suma, esta figurinha de porcelana que hoje apresento foi fabricada pela Volkstedt, na Turíngia, nos finais do século XIX, imitando as porcelanas de Meissen do século XVIII.
 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Réplicas de vidros romanos ou filtros do amor e de veneno

 
Quando visito museus arqueológicos, uma das colecções que me encanta sempre são os vidros romanos. Aqueles pequenos objectos, muitas vezes já fracturados e restaurados encantam-me pela sua delicadeza, mas também pelo que representam, a sofisticação da vida material das cidades do Império Romano, estivessem elas na Lusitânia, no Egipto, na Gália ou na Síria. Não que os romanos tivessem inventado o vidro, cujo fabrico já era conhecido na Grécia e na Fenícia, mas aperfeiçoaram a técnica de sopro e a partir do século I depois de Cristo, conseguiram produzir vidros à escala industrial em diversos pontos do Império e os vidros, de produto de luxo tornaram-se objectos ao alcance de uma bolsa média.
 
Lacrimatórios do Museu de Mérida. Foto de http://www.nationalgeographic.com.es
Os vidros romanos, que mais me encantam são os mais pequenos, que serviam para conter unguentos, óleos ou perfumes, conhecidos no meio coleccionista por lacrimatórios, pois normalmente aparecem nas sepulturas, testemunhando uma crença numa vida além-túmulo.

Claro, os meus frasquinhos de vidro, são meras réplicas de vidros romanos, pois os verdadeiros não aparecem nos mercados de velharias e as peças autênticas custam fortunas nas grandes casas leiloeiras. O pequeno jarro com uma asinha foi comprado em Barcelona e o outro com um gargalo muito estreito e alto na Feira de velharias de Estremoz. São peças feitas actualmente, destinadas aos amantes dos vidros romanos e que tentam reproduzir as tonalidades, que um processo químico de degradação próprio daquele material conferiu ao longo de 18 séculos aos vidros, que hoje admiramos nos museus.
A inesquecível Siân Phillips, no papel de Lívia na série da BBC "Eu, Claudius"  
Ainda que meras réplicas, estes recipientes de vidro dispostos num canto qualquer das nossas casas despertam a nossa imaginação para outros tempos, e parece que conseguimos por momentos visualizar uma jovem escrava a verter um óleo aromático nas mãos da sua “domina” ou a temível mulher do Imperador Augusto, Lívia Drusilla, guardando um poderoso veneno no frasquinho de gargalo alto, enquanto maquinava o assassinato ou exílio de um dos familiares do marido, tudo para colocar o seu filho Tibério no primeiro lugar da lista dos sucessores de César.
 
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Santa Gertrudes, a Magna


Hoje volto a apresentar mais uma gravura religiosa antiga, representando uma santa, que hoje caiu no esquecimento. Mas desta vez não se trata de uma mártir dos primeiros tempos do Cristianismo, como as santas Bárbara, Felicidade, Inês ou tantas outras. Não lhe cortaram a cabeça, nem lhe amputaram os seios, nem lhe furaram os olhos ou outras torturas arrepiantes. Também não se trata de uma pecadora arrependida, como Santa Maria Madalena ou Maria Egipcíaca. Da mesma forma não teve príncipes aos seus pés implorando-lhe casamento e nem tão pouco fez milagres espalhafatosos, como transformar pães em rosas.

Esta estampa do meu amigo Manel representa Santa Gertrudes a Magna (1256-1302), que passou a toda a sua vida num convento beneditino na Alemanha, dedicada à leitura, à escrita, à meditação e a música religiosa. Não há na vida dela nada de espectacular, talvez apenas o facto de ser uma erudita, autora de obras teológicas, numa época em a maioria da população era analfabeta e raríssimas eram mulheres, que sabiam ler e escrever. Claro, hoje em dia só meia dúzia de investigadores ainda consultam as suas obras de carácter teológico, mas em todo o caso foi a responsável pelo início da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que a partir dos finais do século XVIII conheceu uma grande popularidade e que não parou de crescer até aos dias de hoje. Por essa razão, nesta estampa, que deve datar precisamente nos finais do século XVIII, S. Gertrudes é representada com um sagrado Coração de Jesus no peito. Enverga também o hábito preto de monja beneditina e o báculo de Abadessa, embora nunca tenha ocupado esse cargo. Na verdade, é uma confusão com Gertrudes de Hackeborn, abadessa do mesmo convento de Helfta, na época em Getrudes professou e que também foi uma mística famosa na sua época.

Na obra Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955 encontrei referência a esta estampa, que corresponderá à entrada 05059 daquele livro. Terá sido impressa por um tal José Luís Pinheiro nas casas do Rubim ao Chiado, provavelmente à volta de 1790, conforme datação atribuída pela Biblioteca Nacional.

Esta estampa portuguesa do século XVIII evoca esse mundo feminino da clausura dos conventos, que hoje nos parece tão estranho, não só pela figura representada, Santa Gertrudes, como pelo trabalho delicado e minucioso de florinhas e folhas de fantasia, que a decoram, elaboradas certamente pelas mãos de alguma monja, menina educada em convento ou por senhora recolhida.
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955

Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955

https://fr.wikipedia.org/wiki/Gertrude_de_Helfta

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Um leque com um menino montando um gafanhoto


Já aqui apresentei este leque, que herdei da minha avó Mimi, uma coisa muito delicada, decorado com um ramo de flores e um medalhão onde está representado um menino montando num gafanhoto. Sempre achei que este rapazinho com um ar maroto em cima de um gafanhoto representaria uma personagem de uma fábula ou de um qualquer conto infantil, mas nunca consegui identificar a história, apesar de ter vasculhado toda a internet.
 

Há uns tempos uma das seguidoras desta página, a Maria Paula, apresentou no seu blog uma peça de louça, representando muito provavelmente Polegarzinha de Hans Christian Andersen, um clássico da literatura infantil e no comentário que fiz a este post mencionei este leque, representando uma espécie de gnomo, montado num gafanhoto, lamentando-me que nunca tinha conseguido identificar a figura que ele representava.

Talvez por ter sido educadora de infância e ser sensível ao tema, a Maria Paula lançou-se numa pesquisa desenfreada na internet sobre esta figura do leque e descobriu um prospecto publicitário, datado de cerca de 1880, com um menino igual à figura do meu leque, um boneco de porcelana alemão dos anos 20, da Rosenthal, e ainda dois botões diferentes, todos eles representando uma criança em cima de um gafanhoto. Percebi que esta figurinha montada num grilo ou gafanhoto foi um tema popular nas artes decorativas dos finais do XIX e da primeira metade do século XX, o que reforçou mais a minha ideia de que se trataria de um herói de um conto infantil ou de uma fábula, mas qual?

Continuei as pesquisas da Maria Paula no Google e descobri mais prospectos publicitários exactamente iguais à figura do meu leque, mas publicados em diferentes países, França, Inglaterra e Estados Unidos. Contudo, encontrava sempre imagens desses prospectos em papel publicados por antigas lojas ou armazéns, em sites de venda on-line ou no pinterest, e a informação acerca deles nessas páginas era escassa ou nula. Até que um belo dia, encontrei uma destas imagens publicitárias num blog americano http://www.papergreat.com/2013/02/victorian-trade-card-for-jose-brown-of.html, escrito por Chris Otto, que aventava a hipótese de se tratar de uma representação de Tom Thumb.
 
O tema do menino montado num gafanhoto foi popular em todas as artes decorativas nos finais do XIX e na primeira metade do Séc. XX. Perfumador. Foto Rubylane.com
 
Este Tom Thumb é uma das histórias mais populares da literatura. Terá tido origem na vida de um menino, que existiu realmente no século XVI e ao longo dos séculos XVII e XVII tornou-se uma história extremamente popular em Inglaterra, contada várias vezes por diferentes autores. No século XIX, as aventuras de Tom Thomb começaram a ser publicadas especificamente para o público infantil e autores como Charlotte Yonge e Dinah Mulock adaptaram a antiga narrativa, expurgando alguns aspectos considerados menos próprios e dando um remate moral aos episódios. A história tem muitos pontos de contacto, com o Pequeno Polegar de Charles Perrault ou a versão dos irmãos Grimm e ainda a Polegarzinha Hans Christian Andersen.
 
Ilustração da edição de Tom Thumb de 1906. Tom Thumb monta um rato, uma borboleta, luta com uma espada contra uma aranha, mas não monta um gafanhoto
Contudo, continuava com as minhas dúvidas acerca da identificação deste menino montado num gafanhoto como o Tom Thumb, pois nem sempre podemos confiar em tudo o que está escrito nos blogs, e de facto nas pesquisas, que fiz acerca das ilustrações das várias versões do conto, via o pequeno Tom Thumb montado num rato, numa borboleta, ou a lutar com uma espada contra uma aranha, mas nunca a montar um gafanhoto, até que um dia encontrei uma edição inglesa desta história, da autoria Václav Tille, ilustrada por O. Stafl e publicada em Praga, na Checoslováquia, pela editora B. Koci, em 1922, onde aparece o nosso Tom Thomb à garupa de um espécie de gafanhoto ou grilo.
 
 


Little Tom, segundo a versão de Václav Tille. Edição on line em https://archive.org/stream/littletom00till/littletom00till#page/n5/mode/2up

Tinha finalmente conseguido confirmar que o Menino do meu leque era uma representação de uma das muitas variantes da velhíssima história de Tom Thumb.