sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Nos arquivos das terras frias de Vinhais: à procura das origens

O registo de baptismo de Zeferino Urbano de Morais

Toda a gente tem mais ou menos a ideia que os estudos genealógicos são para os indivíduos descendentes de famílias muito ricas, fidalgas ou aristocratas. Na verdade, traçar a sua genealogia, isto é conhecer os seus antepassados é um estudo possível a qualquer um, por muito humildes que sejam as suas origens. Se tiver paciência e tenacidade, através da consulta dos registos paroquiais de baptismo, casamento e óbitos poderá reconstituir a história da sua família pelo menos até aos finais do século XVI, período em que pratica destes assentos pela Igreja Católica se tornou sistemática.

Há uns bons vinte e cinco anos, o meu pai decidiu estudar as origens da família da sua mulher, lavradores abastados, oriundos da Quadra, uma aldeia perdida no encosta da Serra da Coroa, do concelho de Vinhais, no extremo Norte de Portugal. Creio que tinha alguma esperança de encontrar os antepassados judeus da sua mulher, que uma tradição familiar formada sabe deus quando, diz terem existido.

Através da consulta dos registos paroquiais e seguindo a linha masculina ,o meu pai consegui remontar até ao século XVII, mas claro não encontrou antepassados judeus, pois mesmo que os houvesse, nenhum deles no seu perfeito juízo declararia na Igreja, num assento feito por escrito, que judaíza em segredo pois poderia ser preso, julgado e condenado a arder numa fogueira.

As terras frias de Vinhais

Neste trabalho o meu pai encontrou alguns problemas. Estes meus antepassados usaram o desde o século XVII o apelido Gonçalves, e no início do século XIX, passam a usar Morais, por uma razão inexplicável. Como estou fechado em casa e tenho muito tempo, resolvi tirar esta história a limpo e estudar todos os registos dos filhos de Francisco Gonçalves, que passaram a usar o nome Morais, cruzando para tal os dados levantados pelo meu pai no Arquivo Distrital de Bragança, com alguma documentação que encontrei digitalizada e ainda com o caderninho feito pelo meu bisavô, Clemente da Ressurreição, onde narra de forma sintética a sua biografia e a dos seus antepassados.

No arquivo Distrital de Bragança, consegui encontrar uma cópia digital do assento de nascimento do primeiro filho do meu quarto avô Francisco Gonçalves.

Esse filho, o Zeferino Urbano, nasceu na Quadra no dia 11 de Maio de 1810, e foi baptizado no dia 17 do mesmo mês. A sua mãe era uma tal Maria dos Santos, filha de Manuel dos Santos, natural dos Casares e de Filipa do Rio, natural do Pinheiro Velho e na altura moradores na Quadra. No seu assento de baptismo está dado como filho natural, de pai incógnito. Porém e não sei quanto tempo depois, o pároco que lavrou o assento, Francisco José Domingues, riscou incógnito e fez o seguinte averbamento ao lado, filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar.

Zeferino Urbano era filho natural, mas mais tarde, o pároco rasurou incógnito e acrescentou ao lado  Filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar

Em suma, o Francisco Gonçalves teve um filho com a Maria Santos, sem estar casado, mas num momento qualquer, decidiu ir à Igreja assumir a paternidade do bebé Zeferino Urbano e apenas podemos especular sobre razões deste acto. Poderá ter descoberto que a criança era parecida com ele ou foi pressionado pelos pais da rapariga ou então amava-a genuinamente.

Sendo o Zeferino Urbano filho natural ou bastardo, havia aqui uma forte razão para não usar o apelido Gonçalves, mas o sobrenome da sua mãe era Santos e também não foi buscar o apelido Morais aos padrinhos, que foram o Matias Rodrigues Domingos e sua mulher Maria Ferreira.

A 1 de Janeiro de 1821 o Francisco Gonçalves e a Maria Santos voltaram a ter um criança, mas a julgar pelo assento de baptismo da menina de 27 de Janeiro desse ano, teriam casado entretanto, pois a pequena Maria José de Jesus, é baptizada como filha legítima dos dois.

Como a criança é legitima, o padre José Caetano Diegues da Silva adianta o nomes dos avôs paternos, o António Gonçalves, natural da Quadra e de sua mulher Luzia Alves, natural de Cabeça da Igreja, freguesia de São Bartolomeu fornece mais alguns dados sobre a naturalidade dos pais da Maria Santos. O Manuel dos Santos era natural, de Casares, freguesia de Santa Cecília e a Filipa do Rio, nascida no Pinheiro Velho, freguesia de São Sebastião.

Foram padrinhos da pequena Maria José o Reverendo Padre Clemente dos Santos e sua imã, Maria Antónia.

O assento de Nascimento de Manuel Dinis, cujo padrinho foi o Reverendo Clemente de Morais
 
A 9 de Outubro de 1823 os meus quartos avós, voltam a ter mais uma criança, o Manuel Dionísio e no assento de baptismo dia 19 do mesmo mês, o padre Pedro Inácio, Abade de Montouto regista como era obrigatório nestes documentos o nome dos quatro avôs, mas com uma pequenas diferenças. O avô materno António Gonçalves, é identificado como António Dionísio, mas trata-se da mesma pessoa, pois o nome da mulher é o mesmo, Luzia Alves. Provavelmente, Dionísio, forma latina de Dinis, era o segundo nome próprio do senhor. Os padrinhos foram o Reverendo Clemente de Morais e a sua imã Maria Antónia, tios da dita criança. Este padre Clemente é certamente o mesmo homem, que foi padrinho da Maria José, apesar de nesse assento ter sido identificado com o o apelido Santos, mas o nome da sua irmã é o mesmo, Maria Antónia

Houve uma quarta filha, uma Filipa, de que o meu pai não encontrou registo de nascimento, mas de que sabe a sua existência através de um caderninho de memórias do meu bisavó, Clemente da Ressurreição. Segundo este documento a Filipa casou, mas não teve filhos.

Nesta altura das minhas pesquisas comecei a a achar que a origem do nome Morais estava no Padre Clemente de Morais, padrinho de duas crianças do casal Francisco Gonçalves e Maria Santos e tio destas. Seria talvez um homem abastado, como muitos padres o eram e que teria decidido deixar os seus bens à prole do Francisco Gonçalves com a condição de usarem o seu apelido. Mas mesmo assim, os dados não batiam certo. Dos filhos varões do Francisco Gonçalves só o Zeferino Urbano usou o apelido Morais, o Manuel Dinis, afilhado do padre Clemente Morais usou sempre o apelido Santos.

Resolvi investigar um pouco mais este padre Clemente, pensando que os homens da Igreja deixam ser mais registos oficiais, que uns simples jornaleiros ou lavradores e coloquei o nome Clemente de Morais no motor de busca do Arquivo Distrital de Bragança, e encontrei o registo de Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos, isto é os documentos necessários para um homem ser padre, em que tinha que provar, que era bom cristão e sobretudo que não tinha sangue judeu ou mouro. O processo está datado entre 1802 e 1803 e no registo indica que era natural da Quadra e filho de Manuel de Morais Santos e de Filipa do Rio, já nossos conhecidos. Portanto o nosso Padre Clemente era irmão não só da Maria Antónia como da Maria dos Santos e o pai desta irmandade era o Manuel de Morais Santos. Portanto, Morais era o apelido da família materna do Zeferino e teve origem na aldeia dos Casares, em vez ser na da Quadra como todos pensávamos na família. 

Esquema  para demonstrar como o nome Morais se transmitiu


O facto de que os dois filhos varões do Francisco Gonçalves, quer o bastardo, Zeferino Urbano, quer o legítimo, Manuel Dinis, usarem o os apelidos maternos, respectivamente Morais e Santos, faz-me pensar que os Morais seria gente mais abastada, de condição social superior aos Gonçalves ou talvez apenas estes sentissem mais empatia com o lado materno. O Padre Clemente dos Santos Morais terá sido um homem importante na vidas destes antepassados, nascidos no primeiro quartel do século XIX, pois o Zeferino baptizou dois dos seus filhos com o nome Clemente e este nome foi sendo usado ao longo de quatro gerações dos descendentes do Zeferino Urbano.

Mapa do concelho de Vinhais,  onde as aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra estão assinaladas com uma seta. Carta retirada de https://www.dgterritorio.gov.pt/ordenamento/sgt/igt-vigor

Além de resolver este enigma da mudança de nomes, achei interessante verificar estes meus antepassados escolhiam os seus conjugues sempre nas aldeias vizinha, de forma a evitar a consanguinidade. Provavelmente conhecer-se-iam nos bailes das festas dos santos padroeiros das aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra onde esta gente viveu ou nas feiras da sede de concelho. 

Senti também desejo conhecer a aldeia de Casares, encostada à fronteira com Espanha, muito perto da célebre fraga dos três reinos, que assinalava em tempos as fronteiras dos reinos de Portugal, Galiza e Leão e onde parte do meu meu ser se formou, bem como dos cerca de 300 descendentes de Zeferino Urbano de Morais.

A  fraga dos três reinos


Fontes consultadas:

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos 1756/1816 PT/ADBM/PRQ/VNH49/001/00001 

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos , mc 1, lv 6

Arquivo Distrital de Bragança, Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos,PT/ADBGC/DIO/CDMDRBGC/CE/1/271-2495

8 comentários:

  1. Ler este post não é fácil, pois há uma série de factos que tornam difícil a sua compreensão.
    Os nomes e apelidos acabam por se transmitir, mas de forma não uniforme nem compreensível para os nossos olhos de hoje, em que esta questão está mais regulamentada.
    Apelidos que se perdem, outros que se ganham, outros ainda que se transformam, dados os desenvolvimentos que se passam na língua falada e que passam posteriormente para a escrita.
    Na minha própria família a minha mãe foi registada sem qualquer apelido, só com nome próprio!
    A razão deste facto prende-se com o processo do registo na conservatória, que era possível na altura.
    Acabou por ser registada por um amigo dos pais, e foi-o fora do prazo (a sua data de nascimento nunca foi aquela que constava no bilhete de identidade), e ficou combinado com os respetivos serviços que a família, quando se deslocasse à localidade, concluiria o seu registo mais tarde, acrescentando-lhe os respetivos apelidos.
    Claro que, quando a família se deslocou à sede de registo, o assunto nunca mais foi lembrado, e ela ficou sem qualquer apelido até à altura do seu casamento, quando, finalmente, assumiu aquilo a que tinha direito.
    Assim como a minha mãe, a quantas pessoas mais deve ter sucedido o mesmo, sobretudo num Portugal rural onde as deslocações eram complicadas e dificultadas pelas vias de comunicação inexistentes, a população era analfabeta, ou próximo disso, e a lei não era aplicada de forma rigorosa, obedecendo a normas imemoriais que andavam ao sabor das vontades pessoais ou ainda ao rigor, ou falta dele, de párocos rurais, que dispunham as coisas de forma mais ou menos arbitrária, não obstante o facto de poderem estar sujeitos a visitas de controlo regulares.
    No entanto, creio que poderiam facilmente escapar ao controlo, desde que tivessem condições para isso.

    Mas esta estória da tua família poderia ser ainda mais interessante, se fosse possível saber a razão para o assento posterior à margem. Fiquei cheio de curiosidade ao que levou a este assento.
    Claro que quem sabia já desapareceu há muito, e quem ficou, já não guarda esta memória, se é que tal foi guardado por alguém.
    E teres conseguido o que conseguiste já foi uma "lança em África" ... bem, estes termos, nos dias que correm, já podem ser tidos como racistas, melhor ficar por aqui
    Manel

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    1. Manel

      Quando comecei a escrever este texto não estava a pensar publica-lo no blog. Queria tentar perceber como é que estes meus antepassados deixaram cair o apelido Gonçalves e passaram a usar o Morais, mudança, que ocorreu logo logo no início do século XIX. Tinha um palpite que essa alteração tivesse a ver com algum padrinho. Portanto fiz um levantamento sistemático de todos os assentos de baptismo dos filhos de Francisco Gonçalves e Maria dos Santos, registando sempre o nome dos avós, dos padrinhos e o que aconteceu, foi que de assento para assento havia pequenas diferenças, que davam um pouco mais informação sobre estas pessoas e percebi que existia um padrinho, com o apelido Morais. Pesquisando no site do Arquivo Distrital de Bragança, descobri que este padrinho, o Reverendo Padre Clemente de Morais dos Santos era irmão da Maria dos Santos e o pai de ambos era o Manuel Morais dos Santos, que nos assentos paroquiais consta só como Manuel dos Santos. Em suma, o Zeferino Urbano Morais, o primeiro a usar esse apelido foi buscar esse nome à família materna.

      Há aqui vários factores para explicar esta trapalhada:

      1-Os párocos não registavam com cuidado os nomes e apelidos das crianças, dos pais, avós e padrinhos e há variantes de assento para assento.

      2-Há uma certa oscilação na forma como se transmitiam os apelidos, que já apanhei noutros assentos de outras paróquias. Ou passavam o nome à espanhola, isto é colocavam o nome do pai, a seguir ao nome próprio, ou à forma portuguesa, o apelido da mãe é posto a seguir ao nome da criança e o do pai no fim.
      3- o último factor tem a ver como a forma como as famílias se estruturavam logo no início do século XIX, que aqui pressentimos e que é muito diferente da nossa. Há imensos filhos naturais nesta época, que numa paróquia como a Quadra, podem chegar aos 30 ou 40 por cento dos nados vivos. Porém, os pais não se desligavam inteiramente dos filhos bastardos. O Francisco Gonçalves numa altura qualquer posterior ao nascimento do pequeno Zeferino foi à igreja reconhecer o filho como seu, pressionado talvez pelos seus pais, ou pelos pais da Maria Santos e mais tarde casou mesmo com ela. A figura do padrinho nestas sociedades tinha também uma importância foi significativa na família e este Clemente Morais dos Santos deve ter sido um homem estimado pelo pequeno Zeferino. Quem sabe se não foi educado por ele, enquanto a Maria dos Santos permaneceu solteira. O que é certo é que o Zeferino baptizou dois dos seus filhos com o nome de Clemente e mais tarde, nasceram netos e bisnetos também com esse mesmo nome.
      Em suma, creio que quando se fazem estes estudos de genealogia, não nos podemos só cingir à via masculina, tem que se dar a atenção aos padrinhos e tentar entender através da secura dos assentos paroquiais a organização da família, que era diferente da nossa.

      Um abraço

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  2. Bem interessante e fiquei com curiosidade de visitar estes locais, que conheço muito mal. Bom dia!

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    1. Margarida

      As aldeias onde viveram estes personagens encontram-se todas no Parque Natural de Montesinho, uma área sem eucaliptos onde a natureza e está preservada. Algumas delas conheci bem como a Quadra ou o Pinheiro Velho, esta última era uma aldeia remota, perdida no fim do mundo, rodeada de uns castanheiros centenários. Tenho lá uma fotografia minha ainda jovem, com uns vinte e seis anos. Quanto a Casares, quando vou para a Espanha, pouco antes de chegar à fronteira, há uma estradazinha que conduz a Casares e sempre que por lá passo, penso que aquela aldeia deve ficar completamente isolada com a neve durante o Inverno.

      Se este ano voltar a Vinhais, quero ver Casares, terra do meu quarto avó.

      Bjos e boa semana

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  3. ¡Qué interesante cuanto se explica en este texto! , y que hermosura poder practicar la bella lengua portuguesa con su lectura. Muchas gracias por este blog. Un español de Madrid siempre amante de aprender nuevas cosas.

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    1. Caro Daniel

      Muito obrigado pelo teu comentário. Ainda bem que gostaste, pois este é um texto um pouco complicado, talvez demasiado genealógico. Normalmente quando escrevo sobre história familiar não me prendo tanto com detalhes e procuro antes fazer uma narrativa. Mas, neste caso, havia esta mudança de apelido de Gonçalves para Morais, que o meu pai nunca conseguiu explicar e senti, que só passando a pente fino todos os assentos de baptismo, conseguiria perceber as razões desta mudança. E com efeito, Morais era um apelido materno.

      Um abraço lisboeta

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  4. Si, el texto es difícil para mi. Quedé asombrado de la meticulosidad del estudio, creo que ello hizo que me resulte aun más atractivo. Un abrazo desde Madrid

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    1. Daniel

      Tenho alguns textos de história familiar e genealogia mais atraentes, como por exemplo o de uma pobre trisavô, que foi mãe solteira, https://velhariasdoluis.blogspot.com/2020/11/a-pobre-balbina-felismina-ou-uma.html.

      Também me tenho dedicado ao estudo das fotografias de família e alguns textos são bem conseguidos, como este, sobre o retrato de um tio trisavô. https://velhariasdoluis.blogspot.com/2018/11/um-general-uma-pianista-e-uma-senhora.html

      Um abraço

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