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| O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua |
Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.
Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.
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| Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante |
Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.
Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.
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| Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, |
O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.
Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.
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| Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte |
Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.
Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.
O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.
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| Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira, |
Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.
Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.
Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.
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| No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. |
Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.
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| Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau |
Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.
Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.
Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).
Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)
Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.
| O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz |
Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.
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| Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar |
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| Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas |
Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.
Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.
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| Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo |
Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.
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| Genealogia dos Alves e dos Morais |




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👏👏👏👏Que saudades destas suas histórias Dr. adoro estas suas descrições
ResponderEliminarda vida de antigamente
PARABÉNS bji
s
Teresa
EliminarMuito obrigado! Por vezes estou uns tempos sem publicar nada, porque ando a inventariar estes documentos de família, a tentar perceber o que se passou e depois finalmente a redigir as histórias. É um trabalho que me dá muito gozo e tenho ainda mais prazer por saber que estas histórias dão prazer a quem as lê, como Teresa.
Bjo!!!!!!!
Um belíssimo post este, que descreve a vida real, de gente normal, que viveu durante a maior parte do século XIX, e que se ocupou da gerência de uma casa comercial, pelos vistos de sucesso. Se a história fosse apresentada desta forma, seria muito mais interessante. A história factual e cheia de datas, é necessária, bem sei, mas é árida.
ResponderEliminarEsta casa comercial traz-me à memória a casa do meu avô, também ele com uma casa comercial numa aldeia no interior de Portugal, onde se vendia de tudo, e que era uma espécie de elo de ligação entre os habitantes da aldeia e o grande mundo exterior, numa época em que as deslocações eram muito complicadas e o acesso aos produtos era limitado, além de difícil. Não conheci este meu avô (não creio que tenha perdido muito), mas conheci o estabelecimento comercial que foi continuado pela filha dele, que continuava a vender de tudo, deste cordões para fazer girar os piões, passando pelo vinho a copo, petróleo, cigarros, salamins de pevides, cartuchos de canela, chapéus, meias, até produtos em ferro, produzidos no próprio estabelecimento, que possuía uma forja, que, para além das alfaias agrícolas, também produzia as ferraduras para calçar as alimárias. Ainda me lembro do funcionamento em pleno desta loja, que vendia praticamente tudo.
O barulho das batidas no ferro quente, sobre uma bigorna, e o burro a ser calçado, e eu ficava ensimesmado com todo este trabalho, pois, vindo de Moçambique, não conhecia de todo este mundo rural, que ainda existia em Portugal no início dos anos 60.
Gostei muito deste teu post
Manel
Este post deu-me uma trabalheira doida, pois antes de o redigir inventariei uns 70 documentos e alguns deles com uma caligrafia complicada, cheios de abreviaturas. Eram documentos comerciais, escritos de uma forma rápida, em que, quer o emissor, quer o receptor conheciam as abreviaturas de produtos com que lidavam diariamente, mas nós ficamos aflitos. As unidades de medida ou a forma de designar as embalagens são hoje termos estranhos para nós. Por exemplo, uma caixa grande era designada por caixão e um saco ou fardo por costal.
EliminarMas tudo isto me deu um prazer imenso pois de alguma forma consegui perceber os mecanismos de abastecimento destes comerciantes do interior bem como ter uma ideia do modo de vida destes meus quartos avós.
Com efeito, este estabelecimento dos meus quartos avós vendia de tudo um pouco. Numa das cartas de Francisco José de Morais para a cunhada, refere-se até a encomenda de cordas para viola!!
O texto ficou um pouco longo, mas achei interessante sistematizar as leituras destas cartas, para melhor se perceber as dificuldades deste comércio, onde as fazendas seguiam no dorso de uma mula, não havia cheques, nem transferências bancária e tudo se pagava em metal sonante.
Muito obrigado pelo teu encorajamento constante.
Um abraço
Fico sempre fascinada com a sua reconstrução do passado através de documentos.
ResponderEliminarAdoro!
Em alguns assentos já encontrei o nome de localidade “ Argemil” algumas vezes mas não fazia ideia que fosse no concelho de Chaves, atribuía a uma aldeia de Vinhais , São Jomil.
A propósito da alfabetização, pelo que vou percebendo que havia mais alfebatizados no período monárquico e pós. Quase todos os meus quartos avós sabiam ler e escrever , inclusivamente, um dos de Seixas, escrevia os testamentos das pessoas da aldeia.
Bj
Prima. Muito obrigado pelo comentário. Tenho a sorte de possuir o espólio da família, com cartas e documentos legais, que completados com os dados dos registos paroquiais permitem reconstituir alguns aspectos da história familiar.
EliminarNo Norte, existem muitos topónimos terminados em mil, que segundo dizem têm uma origem germânica, embora tenha sempre as minhas dúvidas. Em todo o caso no Sul não ocorrem estes casos.
Algumas destas terras a oriente de Chaves pertenciam nesta época à diocese de Bragança e de facto Argemil cola com o Concelho de Vinhais.
Havia naturalmente gente alfabetizada mas as taxas de analfabetismo neste tempo tinham números assustadores. Não há dados estatísticos certos, mas há autores que estimam em 80 a 85 por cento de analfabetos. Por essa razão, quem sabia ler e escrever tinha um papel tão importante, como ssse seu quarto avô, que escrevia os testamentos das pessoas da aldeia.
Bjos
Muito interessante. Bom dia!
ResponderEliminarCara Margarida
EliminarMuito obrigado pelo seu simpático comentário e votos de um bom fim-de-semana.