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| Exma. Sra. Anna Maria da Comceição Negocianta opé da Rua Ponte de Chaves |
Como já contei aqui no blog a minha quarta avô Ana Maria da Conceição (12.4.1808-9.9.1887), foi uma negociante em Chaves, com estabelecimento comercial da Rua da Ponte no Bairro da Madalena.
A memória da existência desta Senhora estava esquecida da família, mas felizmente o espólio documental foi conservado e através de cartas, facturas e documentos legais consegui reconstituir um pouco da sua actividade e existência. A minha irmã ficou tão impressionada, com esta antepassada que rapidamente a designou como a Ferreirinha da família, uma alusão à célebre D. Antónia Adelaide Ferreira (1811–1896), essa lendária empresária do comércio e produção do Vinho do Porto. As duas senhoras eram até mais ou menos da mesma geração.
Umas das personagens importantes da vida de Ana Maria da Conceição foi o seu cunhado Francisco José de Morais, com o qual, entre 1864 e 1876, manteve uma correspondência muito significativa. Este tio estava no Porto e tratava de encomendar fazendas nessa cidade para o estabelecimento da minha antepassada em Chaves e ainda tratava dos pagamentos. Nessa época, ao nível do comércio local, os pagamentos eram feitos em metal sonante e este meu tio quarto avô encarregava pessoas da sua confiança, normalmente militares da 1ª companhia da Administração militar, que estariam em trânsito entre o Porto e Chaves, para receber o dinheiro da cunhada, de modo a que ele pudesse liquidar as contas com os comerciantes da cidade Invicta.
No último post que escrevi, através de uma anotação de uma factura escrita por Ana Maria da Conceição descobri que este tio era tenente e através de consultas ao Diário do Governo, que teria morrido sem descendentes, no final de 1877 ou logo no início de 1878. Nesse boletim oficial, nº 17, de 21 de Janeiro de 1878, foi publicado o requerimento de uma Senhora, Carolina de Jesus, pedindo que lhe pagassem os vencimentos que se ficaram devendo a seu falecido cunhado, Francisco José de Morais, capitão que foi da 1ª Companhia da Administração Militar. Nesse momento tinha já uma data muito aproximada da sua morte, mas onde ela teria ocorrido no Porto, onde residiria habitualmente? Mas em que freguesia? O Porto já era demasiado grande nessa época para bater todos os registos paroquiais. Também poderia ter morrido em Chaves, onde tinha família ou poderia regressado à aldeia que o viu nascer para morrer na terra, possivelmente em Samaiões.
Enfim, tinha um universo demasiado grande e resolvi procurar no site dos Mormons, o https://www.familysearch.org. Não é que tenha muita confiança naquilo. Os gestores desta base genealógica gigante fizeram correr um programa sofisticado para ler automaticamente os antigos registos paroquiais dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, o que é notável, mas as variantes da caligrafia desses documentos foram tantas, que os resultados são por vezes autênticos disparates, mas desta vez como tinha data de falecimento aproximada, entre finais de 1877 e 21 de Janeiro de 1878, tive sorte e encontrei um registo que parecia ser dele, na cidade do Porto de 1877. Fui confirmar os dados ao Arquivo Distrital do Porto, era mesmo ele e partir daí encontrei o assento de nascimento e pude então traçar um pouco os seus dados biográficos essenciais.
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| Mairos uma aldeia na raia |
O Francisco José nasceu em Mairos, uma aldeia raiana a nordeste de Chaves no dia 5 de Janeiro de 1835. Era filho legítimo de José de Morais e de sua mulher Isabel Maria e neto paterno de Domingos de Morais e de Rafaela e materno de Manuel Luís e de Mariana de Melo.
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| O assento de baptismo de Francisco José de Morais, que era meio irmão do meu quarto avô, Vicente de Morais |
Isto quer dizer, que o meu quinto avô, José de Morais casou primeiro com Antónia da Costa em 25 de Agosto de 1790, união da qual nasceu o meu quarto avô, Vicente de Morais em 1-1-1799, posteriormente a Dona Antónia terá morrido e o referido José de Morais voltou a casar em data desconhecida com Isabel Maria de Melo e deste casamento nasceu o Francisco José. O Francisco José era meio irmão do meu tetravô Vicente de Morais e cerca de 35 anos mais novo que ele.
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| Umas das folhas do registo de Francisco José de Morais no Arquivo Histórico do Militar |
Voltei a encontrar algumas notícias sobre este tio quarto avô no Arquivo Histórico Militar. Entrou para o exército aos 18 anos em 11 de Abril de 1853 como voluntário e no seu registo está dado como estudante. Tinha olhos castanhos, nariz regular e no rosto restos de bexigas e de altura media 61 polegadas [1,549 m]. Para os nossos dias era baixinho, mas na época tinha uma altura normal. Não sei que estudos fez, nem que área, mas terão sido pelo menos de nível médio, pois foi subindo os degraus todos da hierarquia até chegar a capitão. A partir das cartas trocadas com a sua cunhada, Ana Maria da Conceição, presumo que desde 1870 estaria ao serviço da 1ª Companhia da Administração Militar do Porto e aí se manteve até ao final da sua vida, a 25 de Novembro de 1877. Através de uma carta enviada a Ana Maria da Conceição 2 de Julho de 1872, em que lhe apresenta um mapa das contas com o deve e o haver, executado de uma forma muito profissional, fiquei com a ideia que estaria a trabalhar na área da contabilidade da 1ª Companhia da Administração Militar, ou talvez no aprovisionamento, dado que tinha tantos contactos com lojistas e comerciantes do Porto. Mas isto são apenas intuições que terei de confirmar.
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| Anexo de uma carta enviada por Francisco José de Morais a Ana Maria da Conceição, 2 de Julho de 1872, |
Nunca casou, em todos documentos que encontrei dele, foi sempre dado como solteiro. Era muito estimado pela cunhada, a minha quarta avô, Ana Maria da Conceição apesar de esta ter mais 27 anos que ele, e as sobrinhas escreviam-lhe com muito carinho e respeito.
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| O assento de óbito de Francisco José de Morais |
Morreu no Porto, aos 42 anos, a 25 de Novembro de 1877 e morava na Rua de São Roque dessa cidade e foi sepultado no cemitério de Agromonte. Deixou testamento, de que existe cópia no Arquivo Municipal do Porto, mas não está digitalizado, o que é pena pois poderia conhecer um pouco mais este personagem tão caro à minha quarta avó, a negociante de Chaves. Talvez o documento ainda apareça no espólio.
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| A assinatura de Francisco José de Morais. Escreveu sempre numa tinta que foi desaparecendo com o tempo e as suas cartas são difíceis de ler. |
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Realmente, por estes teus posts se percebe a importância da documentação escrita para a memória dos antepassados.
ResponderEliminarTudo o que sei dos meus antepassados baseia-se no pouco que me foi transmitido oralmente pelos meus pais, avó e dois tios (os únicos que conheci), e, mesmo isto, é pouquíssimo para retratar algum deles de forma fiável e minimamente completa.
As memórias orais são falíveis e não podem ser completamente tomadas como absolutamente corretas, pois entram outros fatores que podem desvirtuar essas memórias.
As escritas são o que são, para lá de serem contemporâneas das pessoas visadas.
Como teria gostado de ter encontrado este tipo de documento sobre os meus antepassados, pois eles constituem para mim uma memória nebulosa e pouco fiável, para lá de totalmente incompleta.
Continua, pois é interessante
Manel
Manel
EliminarAté à morte do meu pai, acreditava que poucos documentos tinham sobrevivido da família. Sabia que existiam os recortes de imprensa, parte da correspondência de Maria do Espírito Santo e Liberal Sampaio e mais nada.
Foi uma surpresa descobrir documentação deste ramo colateral da família, os Alves e Morais, de que se sabia pouco. E como bem escreveste ter acessos às cartas, testamentos permite-nos ter uma ideia um pouco mais clara de quem foram os nossos antepassados. Claro, estes documentos não nos revelam os seus pensamentos íntimos, mas alguma coisa podemos intuir das suas personalidades.
Também é verdade que as pessoas mais abastadas deixaram mais traços da sua existência nos arquivos públicos. Os mais remediados evitavam até lidar com a administração, com os poderes instituídos e resolviam a posse de terrenos e heranças entre eles ou recorrendo a pessoas como a tua avó, que serviam de tabeliães da comunidade. Uma prima minha afastada contou-me que tinha um antepassado, que saia ler e escrever e tinha também essa função na aldeia.
Um abraço e obrigado por me leres atentamente
Jorge
ResponderEliminarMuito obrigado. Histórias não me faltam para contar, preciso é tempo para tratar estas cartas, entende-las e depois escrever os textos.
Um grande abraço