Embora aprecie muito temas religiosos, tenho sempre uma certa inclinação para comprar gravuras com representações de santos menos conhecidos, como S. Facundo, Sta. Maria Egipíciaca ou S. Brígida. Enfim, atrai-me sempre aquilo que está fora de moda. Mas desta vez não resisti a uma gravura com um dos temas mais representados pelos artistas plásticos nos últimos 500 ou 600 anos, uma Anunciação. Achei o desenho tão delicado e o preço estava tão em conta que resolvi traze-la para casa e guardei-a num envelope, à espera de encontrar uma moldura adequada e um local vago na parede
Há uns tempos, folhei um catálogo de livro antigo da colecção do Museu de Aveiro, editado em 1999 e encontrei ai reproduzida uma estampa praticamente igual à minha. A referida gravura fazia parte de um missal impresso em Antuérpia, pela Tipografia Plantiniana, em 1738.
Estranhei um pouco, pois tinha ideia que a minha estampa era portuguesa, mas também sei o suficiente de arte, para perceber a que a gravura foi o veículo privilegiado de circulação de imagens e era possível que a fonte de inspiração da minha estampa fosse flamenga.
Esta Tipografia Plantiniana, tinha tido início no século XVI com Christophe Plantin (ca. 1520-1589) na cidade flamenga de Antuérpia e os seus descendentes transformaram esta casa num dos negócios mais bem sucedidos da Europa. Nos séculos XVII e XVIII exportavam livros para todo o mundo católico usando um sistema engenhoso de letras de câmbio para evitar o uso de numerário. A Tipografia Plantiniana também era conhecida pelas boas ilustrações, assinadas por artistas famosos na época, nomeadamente Rubens, amigo de um dos netos de Plantin.
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| Peter Paul Rubens (1577-1640), Annunciation, c1628, Rubens House (Antuérpia, Bélgica) |
Aliás, esta Anunciação, do Missale Romanum, da Tipografia Plantiana tem qualquer coisa da Anunciação de Pieter Paul Rubens, feita em 1628 e que se encontra na Casa-Museu Rubens, precisamente na cidade de Antuérpia. É certo que todas as Anunciações são semelhantes, mas estas duas, nomeadamente o Arcanjo tem muitos pontos de contacto.
Tentei apurar mais algumas informações sobre este assunto e fiz várias pesquisas sucessivas no google, pelas palavras Anunciação, em português e inglês, combinando-as com os termos Missale romanum, old print e gravura. Acabei por ir ter ao site da Casa de Sarmento, onde encontrei uma estampa igual à minha, identificada como sendo da autoria de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), de quem aqui já escrevi e que foi um dos mestres da gravura em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX.
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| Silva Fecit |
De facto no canto inferior esquerdo da minhas estampa, está uma assinatura Silva f., que poderá realmente significar Joaquim Carneiro da Silva, embora Silva seja um nome demasiado comum em Portugal para ficar com certezas. Na descrição da Casa Sarmento, refere que a gravura fez parte de um missal.
| A minha estampa é dimensões reduzidas |
Procurei então na biblioteca onde trabalho consultar os missais portugueses editados nos finais do XVIII e inícios do século XIX. Neles encontrei várias anunciações assinadas de forma inequívoca por Joaquim Carneiro da Silva, mas muito diferentes da minha estampa, além de que estes missais eram de grandes dimensões, ln-fólios, com 30 ou mais centímetros de altura e a mancha de texto da minha estampa mede apenas 14,5 x 10,5 cm, portanto ela teria que pertencer a um livro dimensões mais pequenas.
| O verso da minha estampa prova que ela fez parte de um livro |
Como o verso da minha estampa da Anunciação está impresso, o que mostra claramente que fez parte de um livro, lembrei-me de transcrever um trecho e coloca-lo no Google, na esperança de localizar um site onde o livro estivesse digitalizado. E de facto, o google que permite coisas maravilhosas, localizou em 4 ou 5 segundos uma página na net, contendo exactamente o conjunto de palavras pesquisadas post alias vero horas, quanto terminatur officium, dicitur tantum pater noster. secreto".
Encontrei-as num um breviário digitalizado no google books, uma edição também da Tipografia Pantiniana, de 1747. Os Breviários eram documentos oficiais da Igreja, cujos textos eram definido pelo Papa e portanto o seu conteúdo era igual e de edição para edição. Portanto a minha estampa fez parte não de um Missal, mas sim de um Breviário, mais exactamente do volume Pars autumnalis e antecedia imediatamente o capítulo Proprium de tempore. Aliás, o PRO, no rodapé indica as primeiras letras do capítulo imediatamente a seguir.
Em suma, a minha estampa, será presumivelmente da autoria de Joaquim Carneiro da Silva e foi com toda a certeza publicada num Breviário editado em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX e inspirou-se numa gravura publicada num missal, em Antuérpia, na Oficina Plantiniana, em 1738, que talvez tenha tido como fonte de inspiração, ainda que longínqua, uma Anunciação de Rubens, de 1628



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