S. Ionna
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Quando o Manuel comprou este registo aguarelado, com a legenda S. Ioanna, emoldurado preciosamente no século XIX, pensámos de imediato que se trava de uma representação de S. Joana Princesa. De facto tudo parecia apontar para que aquela figura coroada, envergando um manto de arminho e entregando uma esmola a um pobrezinho, fosse a Infanta de Avis (1452-1490), filha de do Rei D. Afonso V e que ficou conhecida na história como Santa Joana Princesa.
Fui então consultar o Dicionário de iconografia portuguesa: retratos de portugueses e de estrangeiros em relações com Portugal / Ernesto Soares, Henrique de Campos Ferreira Lima. - Lisboa : Instituto para a Alta Cultura, 1947-1960 e andei a ler a entrada sobre a forma como S. Joana Princesa é representada na arte portuguesa e os dados não coincidiam com a estampa do Manel. Normalmente Santa Joana Princesa é mostrada como monja dominicana, com um crucifixo na mão e ainda, uma coroa real e uma caveira algures no chão ou pousada numa mesa.
O Dicionário de iconografia de Ernesto Soares remetia para a obra de Rocha Madahil Iconografia da infanta Santa Joana. - Coimbra: Coimbra Editora, 1957 e fui então consultar esse livro, que me deu informações muito detalhadas sobre a forma como na arte se mostrou a figura daquela infanta de Portugal.
Segundo Rocha Madahil, as estampas que representam S. Joana são de dois tipos.
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| Retrato de Santa Joana Princesa do Museu de Aveiro. Foto wikipedia |
As do primeiro tipo inspiram-se de uma forma mais ou menos fiel na tábua quatrocentista do Museu de Aveiro, que é um retrato verdadeiro da Princesa.
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| Uma representação típica de Santa Joana Princesa. "3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou". Foto http://www.csarmento.uminho.pt/ |
O segundo tipo é constituído pelas estampas devotas e nelas a Princesa é representada em hábito de dominicana e tem como atributos a coroa de Espinhos, o crucifixo, um livro de orações, frequentemente uma caveira, e quase sempre aparece de corpo inteiro, 3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou. O Brasão de armas de Portugal acompanha muito frequentemente as figurações da Infanta, bem como uma legenda identificadora mencionando expressamente a sua categoria social de Princesa.
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| Uma representação típica de Santa Joana Princesa. Santa Joana é sempre identificada como Princesa de Portugal. Foto http://www.csarmento.uminho.pt/ |
Em suma, a estampa do Manel não era certamente uma representação da Santa Joana, Infanta de Aviz, pois esta não era identificada inequivocamente como Princesa de Portugal, não havia coroas pelo chão, nem um escudo de Portugal e nem a figura trajava um hábito dominicano.
Rocha Madahil adverte para o facto que as estampas com a legenda S. Ioanna e que mostram uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois, cujo culto, em tempos idos terá conhecido também alguma popularidade em Portugal, pois existem uns quantos registos desta santa nas colecções das bibliotecas e museus portugueses
Rocha Madahil adverte para o facto que as estampas com a legenda S. Ioanna e que mostram uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois, cujo culto, em tempos idos terá conhecido também alguma popularidade em Portugal, pois existem uns quantos registos desta santa nas colecções das bibliotecas e museus portugueses
Esta Joana de Valois (1464-1505) era filha Luís XI de França e da Rainha Carlota de Sáboia e como todas as princesas reais daquela época, foi um mero joguete de uma prática, em que os casamentos eram contratos políticos, que variavam consoante os interesses das conjunturas do momento. Com efeito, o seu pai casou Joana com Luís de Orleães, uma família demasiado próxima do trono de França, com o objectivo maléfico de afastar os Orleães da sucessão real, pois sabia perfeitamente, que daquele matrimónio nunca sairiam filhos, uma vez que a jovem era coxa e corcunda. Se de facto, Luís de Orleães nunca fez uma vida matrimonial com pobre Joana, conhecida na época como la boiteuse, as contas saíram um bocadinho trocadas a Luís XI, quanto a afastar do trono o seu genro, pois o seu filho mais velho, Carlos VIII morreu acidentalmente, sem deixar filhos varões e Luís de Orleães, passou a ocupar o primeiro lugar na sucessão da linha do trono. No meio de uma intriga política complicadíssima, daquelas em que a corte francesa é pródiga, Luís de Orleães e a la boiteuse acabaram por se tornar reis de França, o que explica que a figura da estampa do Manel esteja coroada e com um manto de arminho. Contudo, a pobre Joana foi rainha por pouco tempo, pois Luís de Orleães, agora Luís XII, pediu ao Papa a anulação do matrimónio, para se casar com Ana da Bretanha, viúva de Carlos VIII, assegurando a integração definitiva daquela região no Reino de França. Depois de um processo complicado, em que Joana foi vilipendiada, o Papa Alexandre Bórgia acabou por anular o casamento e a La boiteuse, foi recompensada com o título de Duquesa Berry.
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| Santa Joana de Valois por Jean Mazoyer. Bordeaux, église Sainte-Eulalie. Foto http://inventaire.aquitaine.fr/ |
Apesar de coxa e corcunda, Joana de Valois era inteligente e sensível e logo depois de ser repudiada, dedicou-se à única actividade permitida a uma mulher da sua condição (para além dos lavores femininos), a religião e fundou a Ordem da Anunciação (Ordo de Annuntiatione Beatae Mariae Virginis), que ainda hoje existe.
Voltando à gravura do Manel, depois de todas estas leituras, o que era uma simples imagem piedosa, transformou-se num pequeno símbolo das insídias da corte dos Valois, fonte inesgotável para a literatura, para o cinema e mesmo para aqueles historiadores, que se comprazem com a intriga política.
Voltando à gravura do Manel, depois de todas estas leituras, o que era uma simples imagem piedosa, transformou-se num pequeno símbolo das insídias da corte dos Valois, fonte inesgotável para a literatura, para o cinema e mesmo para aqueles historiadores, que se comprazem com a intriga política.











