domingo, 13 de março de 2022

Uma menina em biscuit ou para onde foram todas flores


O meu encanto por estas figurinhas em biscuit alemãs do início o século XX mantém-se e comprei esta menina por um bom preço, pois foi quebrada aqui e acolá. A cabeça da boneca que a criança segurava partiu-se e os pés da base também já viram melhores dias.

Marcas de série: 5673, 26 e 21

Não apresenta nenhuma marca de fabrico, mas apenas números de série, 5673, 26 e 21, que se reportam certamente ao molde e ao pintor. Contudo encontrei uma figurinha igual à venda na net, com a marca da E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn, empresa que esteve activa entre 1890 e 1927 na Turíngia, essa região alemã onde se concentraram dezenas de fabricantes de porcelana e figurinhas em biscuit.

A figurinha que esteve à venda no e-bay, tem uma orla na base em latão doirado e a minha está em biscuit, decorada com uma baia.


Não há muitas informações sobre estas fábricas, cujos arquivos se perderam com a guerra em 1944 e 1945 ou talvez por eu não perceber nada de alemão, não consiga encontrar informações pertinentes. Ultimamente penso muitas vezes que nos fazem falta a todos umas luzes de alemão, para podermos aceder a uma cultura tão rica na Europa, mas a última grande guerra tornou essa língua pouco apetecível, diria quase malquista, o que é uma pena.


Seja como for, esta figura representa uma menina a estudar na sua carteira, mas ela não é exactamente um modelo de bom comportamento. Já descalçou um sapato e enquanto faz os deveres numa tábua de lousa, segura a boneca e uma maça. A pasta está no chão atirada a trouxe-mouxe e e a menina está toda mal sentada. Enfim, tudo se encontra num desalinho, muito pouco germânico. 


Confesso, que talvez a tenha comprado porque me recordou a minha própria filha a estudar, sempre mal sentada, tudo espalhado por todo o lado e ao mesmo tempo com o telemóvel a fazer toda a espécie de ruídos e toques. Creio que eu próprio terei sido assim na minha meninice. 


Aliás, o encanto destas figurinhas de biscuit é que gravaram num material perene aqueles momentos de travessura ou garotice da nossa infância, da dos nossos filhos ou de crianças que viveram há mais de 100 anos. Hoje, que sou um adulto, que tenta ser sério a todo o custo, a minha filha já é uma mulher e as meninas, que foram as minhas avós e bisavós, morreram há muito tempo, pergunto-me para onde foram esses momentos de inocência, para onde foram todas essas flores e essas meninas, como cantava Marlene Dietrich, em Sag Mir Wo Die Blumen Sind, que foi uma menina alemã, mais ou menos na altura, em que esta peça em biscuit foi fabricada.




domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma jóia, um documento íntimo e a pequena Natália



No meu anterior post, mostrei uma fotografia de conjunto, da minha trisavô e dos seus dois filhos, o José Maria e o João Maria. Este ultimo morreu cedo, mas o José Maria meu bisavô (1878-1965), cresceu, licenciou-se em direito em Coimbra, em 1902, e no ano a seguir, casou com a minha bisavó, Ana da Conceição de Morais Alves (1881-1974) de uma família burguesa rica de Chaves e como era vulgar na altura tiveram uma prole numerosa, 7 filhos. 

Os seis filhos do matrimónio de Ana da Conceição de Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão

Na família, sabia-se que uma das crianças tinha morrido pequenina, a penúltima, a Natália Maria de Lurdes. A obra que reconstituiu a genealogia familiar, Os Montalvões, de J. T. Montalvão Machado, publicada em 1948, refere que nasceu em 1917 e morreu em 1919. Imaginávamos que que tivesse sido uma perda grande, para a família, pois a criança, que nasceu a seguir, também se foi baptizada com o mesmo nome, Natália, como que para substituir a perda da pequenita.

Contudo, há um ou dois anos o meu pai descobriu um documento, que nos mostrou, bastante impressionante. Trata-se de uma espécie de relato, que a minha bisavô Aninhas escreveu sobre a doença e morte da filhinha, como se fossem as páginas de um diário intimo, destinadas a fixar para sempre num papel, aquilo que não queria esquecer de todo.
Página 1 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô


A Natália nasceu no dia 5 de Dezembro de 1916 e era a criança mais nova, a companheira de dia e de noite, sobretudo quando os outros filhos estavam na escola, conforme escreveu a minha bisavó. Segundo o seu relato, no dia 12 de Abril de 1918, numa sexta-feira adoeceu de tarde e esteve toda a noite a gemer e eu toda aflita por a ver doente e cheia de febre. Na segunda-feira, mandei-lhe tirar um retrato que ainda não o tinha coitadinha, sentada na caminha da sua querida mãe, muito sossegadinha, lhe vesti o seu casaquinho de veludo e touquinha e o fotógrafo lho tirou e foi o que me valeu, porque não tinha retrato nenhum da minha querida filhinha. Mas criança piorou, chorando pela mãe e pelo pai para que eu lhe acudisse, mas não lhe pode valer. Assim, me deixou a minha sempre adorada filhinha do meu coração, às cinco e meia da tarde de quarta-feira dia 17 [de Abril] para sempre na mais ardente dor e tristeza (…) No dia 18, às seis da tarde, levaram-me a minha querida filhinha par sempre

Página 2 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

A minha bisavó, remata esta narrativa da morte da sua filha, da seguinte forma: Só hoje tive coragem para escrever isto, dia 3 de Junho de 1918.

Página 3 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

Quando o meu pai, nos mostrou a transcrição deste documento, interrogámo-nos, acerca do paradeiro da fotografia da pequena Natália, mas o mais natural era estar perdida ou esquecida, algures na casa dos cerca de 100 ou mais descentes dos meus bisavós. Contudo, depois da morte do meu pai, aquando na partilha dos bens, minha irmã identificou o retrato, primorosamente encaixilhado num pequeno pendente em ouro, com vidro biselado, obviamente uma jóia de grande estima, para se trazer pendurada num fio, bem junto ao coração. E com efeito, a descrição que minha bisavó faz do único retrato que mandou tirar à filha, com o casaquinho de veludo e touquinha coincide com esta imagem e acreditamos que seja a fotografia da Natália (5.12.1916-17.4.1918)

O pequeno medalhão em ouro. O retrato encontra-se nas duas faces

Este relato intimo da minha bisavô Aninhas acerca da morte da pequena Natália é um testemunho tocante de uma época em que a mortalidade infantil era elevada, tendo aumentando ainda mais nos anos da guerra (1914-1918), naturalmente maior entre os pobres, mas que também se fazia sentir entre os mais abastados, como a família Montalvão. Repara-se que neste relato, não se refere a visita de um médico ou nenhum medicamento que a criança tivesse tomado e muito menos a ida a um hospital. Na época, não existia nenhum serviço nacional de saúde e muito menos antibióticos. Também neste período a fotografia ainda era cara e reservada para grandes ocasiões e é muito tocante a necessidade, que a minha bisavó sentiu de chamar o fotógrafo, para tirar o primeiro e último retrato da pequena Natália, para ficar com uma imagem dela, mandada encaixilhar num medalhão, que certamente trouxe junto ao seu coração durante muitos anos.

A pequena Natália (5.12.1916-17.4.1918)


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Um retrato de família num dia especial do último quartel do século XIX.

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)

Já aqui referi que trouxe de casa do meu pai, o arquivo familiar com centenas de cartas do início do século XX, do século XIX e ainda alguns documentos do século XVIII e até XVII. Mas entre as coisas que estavam em casa do meu pai, foram aparecendo mais documentos soltos, entre as quais esta fotografia, que minha irmã encontrou e que é um retrato tocante da minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) e dos seus dois filhos, o José Maria e o João Maria.

Esta fotografia foi tirada na década de 80 do século XIX e não é um retrato comum. Nesta época, a grande maioria dos retratos eram feitos em estúdio e os fotógrafos montavam uma encenação à volta dos retratados, que replicava as tradições da pintura dos séculos anteriores. Havia muitas vezes uma grande cortina drapeada, que criava um efeito de perspectiva e ao mesmo tempo teatral, os personagens estavam de pé, com a mão apoiada num plinto, numa mesa, ou num cadeirão e qualquer um destes elementos sempre num estilo pomposo. As pessoas vestiam as suas melhores roupas e as damas seguravam um leque. Estas fotografias apresentavam invariavelmente um pano de cenário ao fundo, sugerindo o interior apainelado de um palácio ou um outro qualquer ambiente requintado. Mesmo quando estes fotógrafos se deslocavam às terras do interior, no dia das festas do santo padroeiro, fotografavam as mulheres e os homens como este cenário palaciano por detrás, ainda que o chão fosse de terra batida. Tenho uma fotografia dos meus bisavós maternos tirada por em Vinhais, provavelmente na feira, volta de 1898-1900, com essas características

Nesta fotografia não há um cenário a sugerir um interior luxuoso. O chão é de terra batida e o fundo é um muro em granito. Tenho até quase a certeza que foi tirada no pátio grande do solar de Outeiro Seco, ou num outro pátio a nascente da mesma, que a família usava muito nos dias Verão. Contudo apesar deste cenário rural, todos eles vestiram melhores roupas. 

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)

A Maria do Espírito Santo usou um vestido complicado, que parece ser seda e colocou suas as jóias. Claro, já não tinha frescura da juventude dos retratos anteriores, que eu conhecia, da década de 1870, pois aqui já contava com cerca de 30 anos e estava mais pesada, mas os olhos claros, com o seu não sei o quê de melancólico, continuavam lindos. 


O meu bisavô, José Maria, ou o Jé-Jé

A minha trisavó esmerou-se nas toilettes das crianças, o meu bisavô, o José Maria, o rapazinho mais velho foi vestido com uma jaqueta, uma camisa de jabot, uma faixa na cintura e umas botas, como se fosse um pequeno fidalgo. 

O pequeno João Maria

O menino, o João Maria trazia um vestido de cor clara e uns sapatinhos verdadeiramente deliciosos apertados com uma tira e decorados com um laçarote. Obviamente que este dia da fotografia foi especial, talvez o da festa da Senhora da Azinheira ou de São Miguel, em Outeiro Seco, em que um fotografo veio de Vila Real ou de Chaves para fazer negócio e possivelmente foi até pago a dobrar, para de deslocar ao solar, para fazer um instantâneo da família fidalga da terra. Em todo o caso, é estranho, o fotógrafo não ter instalado atrás o pano do cenário palaciano. Talvez a Maria do Espírito Santo tenha preferido este cenário mais rural da casa, que tanto gostava e onde pediu para ser sepultada anos mais tarde, ou talvez, num momento posterior, o fotógrafo recortasse as figuras e as colasse e num cenário reproduzindo uma boiserie francesa e neste caso esta fotografia seria uma apenas prova.

O que talvez seja tocante nesta fotografia é que esta família não era exactamente como as outras. Ambos os meninos eram filhos ilegítimos da relação que a minha trisavó manteve com o padre José Rodrigues Liberal Sampaio. O José Maria nasceu em 1878, tendo sigo registado com apenas o nome da mãe e tendo por padrinhos o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e Nossa Senhora da Azinheira. Nas muitas cartas que o meu trisavô escreve à Maria do Espírito Santo trata-a carinhosamente por comadrinha, embora nunca use o tu. O filho, José Maria dirige-se sempre ao pai como padrinho na correspondência trocada. No fundo, foram artifícios, que esta família arranjou para contornar a sua situação social pouco conveniente. Quanto ao pequenino o João Maria, nasceu a 11 de Novembro de 1884 e foi baptizado como filho natural, tendo por padrinhos, o irmão e Nossa Senhora da Graça. Viveu pouco e terá morrido algum tempo depois desta fotografia, no dia 25 de Setembro de 1887, com a idade de três anos. Talvez nesta imagem tivesse dois anos e a fotografia poderá ser datada de 1886.

Carta de 19 de Maio de 1890. O Padre José Rodrigues Liberal Sampaio tratava a mãe dos seus filhos por comadrinha


Aliás, a minha trisavó ficará bastante só em Outeiro Seco depois dessa altura. No Outono de 1886, o filho mais filho, o Je-Je, como é referido nas cartas partirá para Coimbra com pai, onde fará toda a escolaridade, até se formar em Direito, em 1902, visitando a mãe apenas nas férias e nem em todas, pois por vezes o calendário escolar prolongava-se pela Páscoa adentro e o caminho entre aquela cidade universitária e Chaves era longo e demorado. Mas escreve-lhe frequentemente, pedindo à mãe para lhe cozinhar os pratos preferidos quando regressar, ou mesmo para dormir na cama dela. Numa dessas cartas, envia-lhe até uma florinha, um amor-perfeito, que ainda hoje se conserva dentro do envelope.

Carta de 19 de Maio de 1890. Repare-se a flor que ainda hoje se conserva.

A leitura das cartas trocadas entre esta família pouco convencional revela um carinho e um respeito grandes, que talvez a distância ajudasse a consolidar, já que por vezes o convívio diário entre seres humanos provoca atritos e amarguras. Esta fotografia da Maria do Espírito Santo e dos seus filhos, o Jé-Jé e o Joãozinho é a imagem, que eu com a minha imaginação procurava na leitura das cartas trocadas entre esta família.

O retrato não apresenta qualquer marca de ou identificação de um fotógrafo ou estúdio fotográfico


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Uma taça em opalina francesa



Recentemente comprei por muito bom preço esta pequena taça ou recipiente em opalina, que desde logo me pareceu uma coisa francesa, provavelmente da segunda metade do século XIX, de uma época em que a França dominava o mercado deste tipo de vidro.

Marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero


As opalinas mais antigas muito raramente eram marcadas, mas esta apresenta um pequena marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero. Achei que com esta marca poderia identificar o fabricante e lancei-me numa pesquisa no google em francês e inglês acerca de marcas de opalina, mas foi em vão. Consultei também a obra L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952 e e confirmei, que as opalinas raríssimas vezes eram marcadas e que este o ou zero não corresponde a nenhum fabricante. Será provavelmente a marca com que um pintor de uma fábrica ou oficina de decoração usou para marcar o seu trabalho.



Nestas minhas buscas encontrei muitas peças em opalina azul, com decorações esmaltadas a ouro com algumas semelhanças com a minha tacinha, que me levou a confirmar a minha intuição inicial, de que se trata de uma produção francesa da segunda metade do século XX, talvez já das últimas duas décadas.

Porém, à medida que andava enredado nestas pesquisas por sites de venda on line e de antiquários franceses e americanos, foi-se levantando cada vez mais a mesma dúvida, qual foi a utilidade inicial desta peça. É demasiado pequena para jarra de flores, não é decididamente um frasco, um jarro ou uma garrafa e falta-lhe qualquer coisa de supérfluo ou arrebicado para ser um mero bibelot. Decidi concentrar mais as minhas investigações na função utilitária desta tacinha e acabei por perceber, que em tempos fez parte de um conjunto ou serviço.

Muitos de nós ainda de nos recordamos de ver nos quartos de dormir das casas antigas, uma garrafinha e um copo por cima, por vezes com um pequeno prato, conjunto, que se colocava em cima da mesinha de cabeceira. As casas era muito grandes e e se alguém sentia sede durante a noite escusava de percorrer um grande corredor para chegar à até cozinha e beber um copo de água. Juntamente com o bacio, o jarro e taça para lavar o rosto e as mãos eram acessórios típicos de qualquer quarto de uma casa grande do passado. Esses conjuntos de garrafa, copo e pratinho ainda aparecem à venda nas feiras de velharias, mas são normalmente em vidro simples.

Como os franceses sempre foram uma gente requintada, na segunda metade do século XIX produziam estes conjuntos, mas mais completos, que aqueles que estamos habituados a ver nas feiras de velharias. Eram compostos por um tabuleiro, dois copos, duas garrafas, uma para água simples e outra para água aromatizada a flor de laranjeira e ainda um açucareiro. Encontrei na internet vários desses conjuntos em opalina, a que os franceses chamam service de nuit e percebi, que a esta minha tacinha foi em tempos um açucareiro, de um desses serviços. Originalmente teria uma tampa, que com o tempo se perdeu.


Conjunto em opalina. Jarro e bacia de lavatório e ainda o service de nuit

Em suma, esta pequena taça, é um açucareiro, que fez parte de um antigo service de nuit em opalina, produzido em França provavelmente nos fins do século XIX. Falta-lhe a tampa e é uma peca desirmanada, mas ainda assim cheia de charme.

Um açucareiro em opalina

sábado, 29 de janeiro de 2022

Admirando Zurbarán



Não recordo exactamente quando descobri e me apaixonei pela obra do pintor espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664). Creio que foi por volta de 1989 ou 1990, quando o meu sogro e a sua mulher nos ofereceram um extenso e grosso catálogo da sua obra. Já não recordo sequer que edição era, mas as pinturas de santas impressionaram-me de tal maneira, que decidi começar a fazer uns pastiches à inspirados naquelas virgens mártires e santas mulheres. Copiava uma das suas pinturas a lápis, depois rodeava o desenho com uma cercadura, também copiada de um daqueles registos de santos do século XVIII, passava depois tudo com uma caneta de tinta da china e por vezes dava uma aguarelada aqui e ali. Estes trabalhos eram feitos sobre papel antigo, pois como nas bibliotecas e arquivos por onde passei sempre apareciam folhas soltas dos séculos XVIII ou XIX, usava-as para dar um certo ar antigo.

Fiz vários desses pastiches que dei a amigos e familiares, entre os quais este que mostro hoje, que talvez por ser o mais bem conseguido, o ofereci ao meu pai há cerca de 30 anos.

O Zurbarán pintava as suas santas e virgens mártires com trajes de um luxo fabuloso, de cetim, brocado, veludo ou seda como se fossem entrar numa peça de teatro ou desfilar numa passagem de modelos de um grande costureiro. Os martírios horríveis pelos quais passaram estão discretamente presentes através de pequenos símbolos, como a palma de martírio ou o atributo do seu suplício, a roda, um prato com uns olhos, ou uns seios. No entanto há sempre algo de meditativo e triste no olhar destas santas de Zurbarán, que produz um contraste com o luxo extravagante das suas vestes, como se simbolizassem as contradições dessa Espanha dividida entre o ascetismo e a sensualidade.

Santa Doroteia por Zurbarán. Foto Wikipedia

Esta característica das Santas de Zurbarán atraiu-me muito numa época, onde me interessava ainda bastante por moda. Na juventude ambicionei mesmo tornar-me estilista, desenhava a minha roupa e ainda concebia fatos e vestidos para amigas. Cheguei mesmo a comprar um álbum, uma edição qualquer americana dos anos 50, onde ensinava a representar num desenho o cair do tule, o brilho do cetim, ou através das sombras o drapeado e as pregas de um vestido. E claro, para alguém interessado em moda, as santas do Zurbarán são quase um manual, um compêndio de estudo sobre a forma de representar um veludo ou uma seda.

Neste desenho, consegui de alguma forma dar a ideia do luxo sumptuoso dos trajes das santas daquele pintor espanhol, mas falhei completamente em tentar captar o olhar de meditação e recolhimento da Santa Catarina, pois enfim, os meus talentos artísticos eram limitados.


Quando ofereci este desenho ao meu pai não ligava muito às molduras e foi encaixilhado num simples acrílico. Depois da morte do meu pai decidi trazer este desenho para casa e resolvi emoldurá-lo como deve ser. Escolhi uma moldura antiga, que comprei num adelo e como passe-partout usei um retalho de um velho damasco de seda, que forrava um cadeirão e dois tamboretes herdados da minha avó. Nesta altura, o Manel sugeriu-me recortar o desenho, e cola-lo no tecido, imitando de alguma forma as antigas verónicas, esses trabalhos com que senhoras devotas no passado encaixilhavam os santinhos.

Claro, todo este trabalho, não passa de um conjunto de cópias e reutilização de materiais velhos, mas daqui a vinte anos, com a luz e o pó, ganhará uma patina, que talvez o faça passar por peça antiga.


Bibliografia que serviu de inspiração para este texto:

 O (Des)Caminho para Santiago / de Cees Nooteboom. Lisboa: Edições ASA, 2003. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

CONVERSAS NO MUSEU: coleccionismo e redes sociais


Quando pensamos num coleccionador imaginamos alguém a inventariar selos ou moedas, numa actividade silenciosa, que partilha com um número restrito de pessoas ou ainda alguém, que colecciona pinturas valiosas e as guarda ciosamente em sua casa.

Actualmente, a internet e as redes sociais permitem aos coleccionadores, sem abrirem as portas de casa mostrarem os seus objectos, as suas investigações sobre as peças, numa experiência de troca de conhecimentos enriquecedora e aberta à comunidade.

A "Conversa" será apresentada pelo bibliotecário do MNAA Dr. Luis Montalvão.

http://velhariasdoluis.blogspot.com/


A Conversa terá lugar:
5ª feira, 27 de Janeiro, às 16h00
Auditório do MNAA

Entrada gratuita :
Número de lugares limitado a 70 (devido às restrições impostas pela DGS)
Inscrições para amigosmnaa@gmail.com

Organização:

GRUPO DOS AMIGOS DO MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Uma fidalga a banhos na Póvoa de Varzim: 1876-77


Já muitas vezes contei aqui no blog que descendo de uma relação amorosa entre um padre e uma fidalga, os meus trisavós, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) e José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935). Ela era uma mulher bonita de uma antiga família das cercanias de Chaves e ele de Montalegre, de meios relativamente obscuros, que construiu uma carreira sólida de pregador, formou-se já homem maduro em teologia e direito, foi coleccionador de objectos arqueológicos, numismata e ainda colaborador assíduo da imprensa flaviense. Desta relação nasceram dois filhos o José Maria, meu bisavô e o João, que morreu bebé.

Recentemente, depois da morte do meu pai, descobri que o espólio da família se tinha conservado em grande parte e que não tinha desaparecido com a venda da biblioteca do Solar da família Montalvão, aquela casa, que foi um dos cenários desta história amorosa. São centenas de cartas, documentos notariais, recortes de imprensa e manuscritos, que acondicionei em 23 caixas francesas debaixo de uma cama.

Iniciei o inventário da primeira caixa e a leitura das cartas de quem viveu há mais de 100 ou 150 anos, revela e faz renascer um mundo morto. Normalmente, temos uma ideia abstracta dos nossos antepassados mais remotos, formada a partir dos secos assentos paroquiais de baptismo, casamento ou óbito, de recortes de imprensa, de nomeações no boletim oficial do governo, ou ainda de histórias que sobreviveram na tradição familiar. E temos tendência a moldar essa ideia abstracta à nossa própria personalidade, atribuindo a esses antepassados qualidades, que a nossa imaginação romântica aspira para eles. Sempre imaginei que estes meus trisavôs tivessem vivido uma intensa paixão camiliana, desafiando os costumes do seu tempo como o fizeram Ana Plácido e Camilo Castelo Branco.
As caixas francesas

Porém ao iniciar a leitura destas cartas, escritas entre 1876 e 1900, o que me apareceu, foi a verdadeira personalidade destas pessoas, o seu discurso, as suas preocupações quotidianas como se estivessem ainda vivos. É quase como que a sua voz tivesse sobrevivido ao tempo e o esquecimento.

Por enquanto, ainda só localizei a correspondência, que o padre Liberal Sampaio endereçou à minha trisavó, as cartas escritas por ela, ainda não apareceram, mas ainda me encontro a tratar a primeira caixa de um conjunto de 23.

Praia de banhos: Póvoa de Varzim, por Marques de Oliveira, 1888. Colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea


Decidi começar por escrever aqui no blog sobre um conjunto de quatro cartas, escritas por Liberal Sampaio, entre 1876 e 1877, que correspondem a duas temporadas, em que a Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão esteve a banhos na Póvoa de Varzim. Em primeiro lugar é muito curioso observar as datas, as duas primeiras cartas são de Setembro de 1876, respectivamente dos dias 14 e 24 e outras duas de 1877, de 15 e 10 de Outubro. Nesta época, em que a fidalguia e a boa burguesia já faziam a praia, a época mais recomendada eram os meses de Setembro e Outubro. Para nós, nos dias de hoje, que debandamos em massa para o Algarve no mês de Agosto para assarmos ao calor, sentimos um arrepio com a ideia de frequentar uma praia com águas frias como a Póvoa, em Setembro ou Outubro. Mas neste último quartel do século XIX, ir a banhos tem uma função sobretudo terapêutica, que os médicos recomendavam, que se fizesse nos meses mais frescos do Verão. E com efeito, em Setembro e Outubro, a Povoa de Varzim, recebia já entre 20 mil a trinta mil pessoas, a maioria oriunda do Porto, do Minho e de Trás-os-Montes.
A carta de 14 de Setembro de 1876

Como o meu trisavô era um homem informado, que lia os jornais e estava certamente a par do que os médicos preconizavam para os banhistas, na primeira carta dá uma série de conselhos a Maria do Espírito Santo, para melhor aproveitar os banhos. Recomendações essas que são para nós contemporâneos, um retrato vivo do quotidiano dos vilegiadores nesta década de 1870. Aconselha-a a tomar apenas um banho por dia e a seguir descansar e dormir. Devia almoçar uns bons bifes frescos, com um bom caldo de galinha ou vaca e a competente pinga do melhor, em seguida, distrair-se para a praia, procurando estar à sombra, e bem calçada de modos a que os pés não lhe arrefeçam. Depois sugere que se recolha e divirta-se em casa até ao Jantar, que deve ser de comidas substanciais e variadas e pouca ou nenhuma fruta. Acabado o jantar durma, depois merende alguma coisa, vá para o paredão ou outro lugar qualquer onde se divirta, na volta ceie um caldinho de galinha ou carne, e antes de se deitar passei um pouco em casa ou fora
A carta de 14 de Setembro de 1876

Estes horários parecem-nos um pouco estranhos, mas nesta época, pelo menos nos meios mais provincianos, as horas das refeições e os nomes que lhes davam são diferentes dos de hoje. O meu pai ainda se recordava desses horários na casa de Outeiro Seco, onde a Maria do Espírito Santo foi criada e que descreveu da seguinte forma: às 7.30, o mata-bicho; às 10.00 o almoço; às 12.00 o jantar; às 17 a merenda e a ceia às 22/23 horas. Por essa razão, a minha trisavô iria dormir depois do jantar (meio dia), merendar (17.00) e depois sairia para se passear no paredão entre as 17.30 e as 19.30 e às 10 da noite estaria a em casa a comer a ceia.

Embora o meu trisavô fosse padre, não era de todo um beato e escrevia-lhe passei, divirta-se, distraia-se com a praia, com os leilões, com o teatro, com tudo aquilo que julgar honesto e conducente ao aumento da sua saúde. Nesta década de 70 do Século XIX, sobretudo depois de 1875, com o a linha e de caminho de ferro a chegar à vila, a Póvoa de Varzim era uma terra cheia de animação e divertimentos, frequentada pela boa sociedade nortenha. Mas bem entendido, a Maria do Espírito Santo estava acompanhada por uma Senhora, pois uma jovem fidalga nesta época não andava por esse mundo fora sozinha.

A carta de 14 de Setembro de 1876

Também é curioso observar nestas cartas, a intimidade que já existia entre o meu trisavô padre e a Maria do Espírito Santo. Não sei se já seriam amantes nesta época, pois o primeiro filho, destes meus antepassados só viria a nascer a 19 de Maio de 1878, mas sem dúvida já estavam muito próximos. Talvez na segunda temporada de banhos da Maria do Espírito Santo em Outubro de 1877 já estivesse grávida. Em todo o caso, o José Rodrigues Liberal Sampaio trata-a sempre muito respeitosamente por V. Exa. ou minha Senhora. Aliás, até á morte da sua amada em 1902 nunca a tratará por tu nas cartas.

Igualmente, pelas notícias, que Liberal Sampaio dá de Outeiro Seco, percebemos que é intimo da família Montalvão e presença habitual da casa. Descreve ainda como correu bem a festa da Sra. da Azinheira, a padroeira de Outeiro Seco, das pessoas das relações de ambos que colaboram na organização da desta. “De Vila Verde, só veio a Henriquetinha , que está com a Maria Teresa e para adornar a Igreja trabalham muito a Maria Inácia, a Maria Augusta, a Cândida e principalmente a Bárbara”. Embora estes meus trisavôs não fossem beatos, não deixavam de ser devotos e a festa da Senhora da Azinheira, que congregava toda a comunidade, era um assunto relevante numa carta. Aliás, quando mais tarde o filho de ambos nascer, a Nossa Senhora da Azinheira será a madrinha da criança.

Estas cartas não contem revelações espampanantes, mas pela mão dos próprios personagens, proporcionam-nos um retrato detalhado do quotidiano de quem viveu há quase 150 anos. Numa época em que não havia telefone, a carta era o principal meio de comunicação e as pessoas reservavam uma parte importante do seu tempo para actualizarem a correspondência, respondendo a cartas de familiares amigos, narrando o seu quotidiano, dando notícias ou ainda para tratarem de negócios. São documentos que permitem uma ideia mais justa e isenta de preconceitos, dos nossos antepassados e de um tempo que já passou.


Alguma bibliografia consultada:

Contributos para uma história do ir à praia em Portugal / Pedro Alexandre Guerreiro Martins. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011. https://run.unl.pt/handle/10362/7093