quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ermida de S. Pedro de Alcaraviça ou seguindo o Ruinarte

 
 

Há já uns tempos, quando íamos a caminho de Borba, o Manel e eu descobrimos uma capela arruinada, S. Cláudio, com uns interiores lindíssimos pintados a fresco, sobre os quais já aqui escrevi no blog. Junto à ermida estavam uns agricultores, que além de fazerem o favor de nos informarem do nome da capela, disseram-nos, que a menos de um quilómetro dali existia outra ermida abandonada tão bonita como aquela. Ficámos cheios de curiosidade, mas já estávamos atrasados para aquilo que nos propúnhamos fazer em Borba e desistimos de visitar a capelinha em frente a S. Cláudio.
 
Por coincidência, uns tempos depois, o Gastão de Brito e Silva publicou no  http://ruinarte.blogspot.pt/, um post sobre a tal capela vizinha a S. Cláudio, a ermida de S. Pedro. O Manel eu que somos seguidores incondicionais do Ruinarte, ficámos absolutamente encantados com as imagens publicadas pelo Gastão e decidimos, que quando fossemos visitar o Palácio de Vila Viçosa, haveríamos de conhecer S. Pedro. E assim o fizemos e posso-vos garantir que não nos desapontámos.

 

Há uma beleza pungente naquelas ruínas, cujo efeito parece sentir-se até nas fotografias que se tira. Eu que sou um mero fotógrafo amador consegui imagens quase perfeitas da capela e não foi graças ao meu talento, que é nulo. A fotogenia dos arcos arruinados, a tristeza e a dignidade do monumento impuseram-se na minha máquina fotográfica. Limitei-me apenas a carregar no botão. As fotografias já estavam feitas.

 
Quando visito ruínas destas, a impressão é que fica é tão forte, que nem sei que discurso devo adoptar. O mais fácil é bramar contra as autarquias, que arranjam sempre dinheiro para fazer rotundas com grupos escultóricos pirosos e borrifam-se para o restauro do património. Depois pode-se sempre culpar o Ministério da Cultura, que agora não é ministério, mas sim secretaria de estado da cultura e há ainda o IGESPAR, que agora é a Direcção-Geral do Património, mas que está falida e a recompor-se de mais uma reestruturação dos serviços e que mal tem dinheiro para os monumentos nacionais, quanto mais para uma igrejola perdida no meio do Alentejo. Talvez haja uma responsabilidade colectiva, talvez o nosso silêncio ou inactividade nos faça sentar no banco dos réus pelos monumentos que caem.


S. Pedro em 1978. Segundo li no volume IX, p. 97, do Inventário Artístico de Évora. – Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes,1978 a capela arruinou-se ainda em “período incerto” do século XIX
 
S. Pedro hoje
Talvez a nossa única forma de lutar contra este abandono dos monumentos seja juntar a nossa voz à do Gastão Brito e Silva do Ruinarte e protestar aqui na Internet. Julgo que é a única forma de combater a angústia, que a ruína da capela quinhentista de S. Pedro nos provoca.
 
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O serviço Júpiter da Fábrica de Louça de Sacavém



Serviço Júpiter da Fábrica de Louça de Sacavém

O meu amigo Manel consentiu em mostrar aqui neste blog algumas peças de um serviço completo da Fábrica de Louça de Sacavém, que ele usa em jantares especiais. O motivo decorativo deste conjunto de jantar designa-se por Júpiter. Está marcado a azul com o monograma de Sacavém e segundo o Dicionário de marcas e Faiança e porcelana portuguesa / Filomena Simas, Sónia Isidro. Lisboa estar Editora, 1996 foi fabricado no ano de 1896.



Para além de ser um serviço antigo e bonito da última década do séc. XIX, o prato que seleccionei para aqui apresentar é um bom exemplo de como Sacavém copiou e introduziu no mercado português não só os motivos decorativos da faiança inglesa, como toda a gente sabe, mas também de outras fábricas de cerâmica europeia.

Danish Blue da Royal Copenhagen Porcelain, pertencente ao Manel

O Serviço Júpiter é na verdade uma cópia de uma das produções mais famosas da Fábrica Real de Copenhaga, o Blue Fluted, também conhecido por Danish Blue. O Blue Fluted foi o primeiro serviço produzido pela Royal Copenhagen Porcelain, pouco tempos depois da sua fundação em 1775 e ao longo de duzentos anos de produção ganhou uma enorme popularidade não só na Dinamarca como em toda a Europa. De tal forma, que o Danish Blue tornou-se a imagem de marca da Den Kongelige Porcelainsfabrik e confundiu-se com a sua própria existência. Mais, o Blue Fluted, designado na fábrica pela decoração imortal, faz parte do património cultural dinamarquês. Por essas razões é o serviço com a marca número 1 da manufactura real dinamarquesa, conforme se pode ver pela fotografia que aqui apresento.

Marca da Den Kongelige Porcelainsfabrik datada entre 1894-1900. Apresenta a coroa dinamarquesa. O 1 quer dizer o serviço primeiro da Fábrica. Os números na linha de baixo reportam-se ao pintor. As três faixas onduladas simbolizam os três estreitos da Dinamarca: Oresund, o pequeno Belta e o Grande Belta

Muito a propósito, o Manel conseguiu comprar um prato deste Danish Blue, datado entre 1894-1900, que nos permite comparar o motivo original com a cópia feita na Fábrica de Sacavém. O prato dinamarquês é de porcelana e apresenta uma superfície com ondulados, enquanto que o de Sacavém é de faiança e a superfície lisa, mas basicamente são iguais e percebemos de imediato que a fábrica portuguesa foi beber inspiração no popular serviço dinamarquês.

Danish Blue e Sacavém

O serviço dinamarquês não encantou só os responsáveis da Fábrica de Savavém. No Porto, Massarelos produziu também uma versão deste azul dinamarquês uns dez ou quinze anos depois, conforme nos informou a nossa amiga If.



A versão de Massarelos do Danish blue



A marca de Massarelos. Na base, o nome que a Fábrica do Norte escolheu para o serviço: "Dania", de Dinamarca. Agradeço à Maria Andrade ter conseguido decifrar o nome, que se escondia atrás da da marca esborratada.
Está cópia poderá levar-nos a pensar que à Fábrica de Sacavém ou de Massarelos faltou originalidade e que se limitaram a copiar o que se fazia na época na Europa e sobretudo na Inglaterra, mas julgo que essa seria uma análise limitada. Pessoalmente, penso que o conceito de obra original é uma ideia contemporânea, formada talvez no seio do movimento impressionista, cubista ou modernista. No passado, um ceramista, um desenhador ou gravador devia copiar o que era considerado de grande qualidade, como uma obra da antiguidade, da renascença ou então oriental, de preferência da China. Neste último caso está a Royal Copenhagen Porcelain, que para criar o blue fluted, se inspirou nos azuis e brancos da porcelana Chinesa. Sacavém mais não fez do que fazer eco desta atracção pelo Oriente, que norteou a produção da cerâmica europeia desde os Descobrimentos até quase aos nossos dias.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ainda outro fabricante de Cantão popular

Terrina  vendida no catálogo do leilão da colecção de faianças António Capucho, Parte III, Abril de 2005

Os leitores deste blog já andarão fartos do assunto cantão popular. Talvez porque há tantas peças deste motivo por toda a minha casa, pense frequentemente nele. Olho para o lado direito, para o esquerdo, para cima e para baixo e lá vejo os palácios orientais e as árvores estilizadas, reminiscências do padrão do salgueiro. E claro, a história deste motivo continua a intrigar-me. Se já sabemos alguns dos nomes dos fabricantes deste motivo no século XX, isto é, a Lusitânia em Lisboa ou Coimbra, o Cavaco em Gaia e as Louças da Pinheira, Faianças Vitória e S. Roque na zona de Aveiro, para o século XIX estamos na mais pura ignorância. E no entanto há todo um conjunto de peças que são nitidamente da centúria dos oitocentos, talvez uma ou outra até da primeira metade deste século. 

 
Por essas razões, fiquei muito contente quando ao desfolhar pela vigésima vez o catálogo do leilão da colecção de faianças António Capucho, Parte III, Abril de 2005, realizado pelo Palácio do Correio Velho, encontrei uma terrina de cantão popular, marcada Santo António do Vale da Piedade. Embora a marca não esteja reproduzida no catálogo, o que é pena, o referido leilão identifica-a como sendo de cerca de 1840 e consta do Dicionário de marcas de faiança e porcelana portuguesas- Lisboa: Estar Editora,1996, p 58, 215.




Pela primeira vez temos uma peça de cantão popular do Século XIX marcada, o que é uma pequena descoberta notável para nós, os que gostamos desta versão popular do Willow Pattern. Claro, este novo dado não nos permite atribuir todas as peças do motivo cantão popular do século XIX a Santo António de Vale da Piedade. Certamente que houve mais fábricas no Porto e em Gaia ou em Coimbra a produzir louça como esta no Século XIX. Mas em todo o caso, Santo António de Vale da Piedade poderá ser uma hipótese razoavelmente plausível para catalogar uma terrina, como esta que aqui apresento e que anda lá por minha casa, sem ter ainda um poiso certo. Terei talvez 20 % cento de probabilidades de acertar.
 
A minha terrina

outro lado da terrina
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Bule em Cantão popular


Embora mostre pouco aqui no blog, continuo a comprar peças de faiança de cantão popular. Não as mostro aqui, pois poucas vezes tenho coisas novas para dizer sobre esta decoração, que nos mercados de velharias passa por Miragaia, embora já todos saibamos ou devíamos saber, que nunca apareceu nenhuma destas peças, que apresentasse as marcas da firma de Rocha Soares.



Mas continuo a encantar-me por esta decoração, sobretudo as peças do século XIX e volta meia volta lá compro mais qualquer coisinha, como este bule, muito bonito embora sem tampa.


Foi um sarilho descobrir-lhe um sítio cá em casa. Quando se é louco, como eu, todos os cantos da casa servem para arrumar faiança, as paredes das salas, da cozinha e até os tectos. Aliás, a minha primeira ideia foi pendurar o bule por um camarão, no tecto da cozinha, para fazer companhia a um jarrinho de vinho e a uma infusa, que por lá já andam. Ainda subi ao escadote com o bule, mas achei que lá no alto não tinha leitura nenhuma. 
Pensei colocar o bule junto à infusa e ao jarrinho de vinho
Percorri a casa e o sítio para o bule brilhar continuava sem aparecer, até que me surgiu uma ideia disparatada, coloca-lo por cima do capitel de talha dourada. Não ficou com a leitura ideal, mas o sítio é insólito, tal como toda a decoração da minha casa.
 
A localização final do bule
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Os olhos da prima Maria Esteves ou tentando identificar velhas fotografias




Trouxe comigo as velhas fotografias da casa da família materna, com a ideia de as estudar e organizar um álbum. Confesso que quando iniciei o trabalho experimentei um não sei o quê de pânico, ao descobrir mais uma vintena de imagens de gente completamente desconhecida, fotografada mais ou menos entre 1890 e 1920. Como iria eu identificar esses homens de bigodes, as damas de engalanadas rendas e as criancinhas de traje de marujo, agora que a minha mãe e cinco dos seus irmãos já morreram?
Os trajes à maruja

Comecei a organizar então esse núcleo mais antigo formando conjuntos de semelhanças físicas. Se é certo que numa fotografia a criancinha não está identificada, noutra tirada uns anos depois, posa ao lado da sua mãe e no reverso há uma preciosa dedicatória manuscrita, assinada com o nome dos dois, e com os seguintes dizeres: “à dedicada prima oferece esta fotografia…”. Estas pequenas notas manuscritas são o suficiente para começar estabelecer laços, relações e grupos.

O verso da carte de visite era destinado a um texto, uma dedicatória da fotografia à madrinha amada, ao pai venerado e oferecida pelo sobrinho dedicado ou primo muito amigo


Comecei também a perceber que dessas fotografias mais antigas, há mais imagens de primos e amigos, do que propriamente dos meus avôs ou bisavôs. É um pouco como os arquivos. Temos as cartas recebidas dos nossos parentes, mas as que os nossos antepassados enviaram estão na casa dos outros.


Estas fotografias impressas em cartão duro, conhecidas por retratos carte de visite eram nos primeiros anos do século XX ainda muito caras. As pessoas vestiam as melhores roupas e tiravam um único retrato para enviar à madrinha, à irmã ou primo. Muitas vezes nem ficariam com uma cópia para si. Os retratos carte de visite são ainda um símbolo de estatuto social e permitem auferir o bem-estar económico de uma família. Quem é fotografado tem dinheiro, tem estatuto social.

Mas voltando, ao assunto, consegui a partir desse método de associar semelhanças, estabelecer quatro grupos familiares que enviaram fotografias aos meus avós ou bisavós:
Os Campilho: retrato de Pedro Campilho dedicado aos meus bisavós Maria da Graça e Clemente em 1909
Primeiro, os Campilhos, amigos dos meus biavós maternos, cujos quintais confinavam. Hoje os Campilhos ligaram-se aos Palmela, mas na altura, ainda teriam com os meus bisavôs, que eram uns meros lavradores abastados, umas animadas conversas sobre maças e peras, debruçados no muro que dividia as propriedades.


Os Sampaio. Foto do Emílio Biel do Porto

Depois aparecem muitas fotografias dos Sampaios, primos por parte do meu bisavô materno, mas cuja relação exacta de parentesco não consegui ainda apurar.


Os irmãos Fernandes. Ainda conheci duas destas meninas. A mais pequena era Madrinha da minha mãe


Em terceiro lugar, também primos por parte desse mesmo avô, surgem os Fernandes, cujas fotografias consegui reconhecer sem dificuldades, pois ainda me lembro de alguns deles vivos e mantenho algum contacto com os filhos e netos. 


E finalmente apareceram uma dúzia de fotografias de um grupo de gente com o apelido Esteves, de quem eu nunca ouvi falar e que eram sem dúvida parentes, pois dedicam sempre a carte de visite ao seu querido primo ou sobrinho.

Os olhos portugueses da Maria Esteves em 1918

Tocou-me particularmente o retrato da Maria Esteves, uma jovem com um pescoço elegante e uns grandes olhos escuros um pouco tristes, mas bonitos. Enfim, uns verdadeiros olhos portugueses. A fotografia está datada de 1918 e nela a Maria Esteves escreve a minha avó Adelaide, queixando-se que o primo não lhe escreve e que lhe manda aquele retrato pois ainda não tiveram oportunidade de se conhecerem.

No verso da carte de visite, a Maria Esteves queixa-se a minha avô Adelaide que o primo não respondeu à sua carta. Data, 1918

Fiquei curioso por saber quem era esta prima desconhecida, que apresentava uma certa elegância já muito urbana. Por contraste, os outros Esteves, tem um ar mais grosseiro, de quem saiu há pouco tempo dos campos, mas que já possui dinheiro para se fazer fotografar com fatos de senhora, brincos e cordões de ouro.


Apesar da seda, dos fios e brincos de ouro, a Cândida Paulina Esteves apresenta o ar que ainda há pouco amanhava a terra. Carte de Visite de 1915, dedicada ao sobrinho, o meu avõ paterno António da Purificação
Fiz uns quantos telefonemas a uns primos mais velhos e percebi que estes Esteves eram primos por parte do meu avô materno, o António da Purificação, que proveio de um meio mais humilde que a mulher, o que explica que aquelas senhoras suas familiares tenham ainda aquele ar campónio, apesar das sedas e dos ouros.


Liguei ainda ao meu pai, uma espécie de conservatória dos registos familiares e lá me confirmou o parentesco destes Esteves com o meu avô materno e deu-me um esboço de árvore genealógica, de um ramo da família, que já nos tínhamos esquecido um pouco. A bonita Maria Esteves tinha por nome completo Maria Joaquina Ferreira Esteves, era prima direita do meu avô materno e terá talvez nascido em 1898 e certamente, que já morreu por estes dias. Não herdou o ar de camponesa da mãe, a Cândida Paulina Esteves. O avô da Maria Joaquina, cujo nome desconhecemos era o meu trisavô e não sei quem era. Não conheço todos os meus trisavôs.

Quando começamos a estudar os nossos antepassados, temos tendência a concentrarmo-nos mais num ramo, normalmente o masculino ou até pode ser um feminino, desde que seja mais aristocrático. Esquecemo-nos frequentemente nesses estudos de genealogia, que descendemos de 4 avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 quatrisavós e não-sei-quantas dezenas de tetravôs e que esse número se vai multiplicado à medida que recuamos no tempo. Como dizia a Yourcenar, começamos a fazer genealogia por vaidade e acabamos angustiados junto ao enorme abismo onde jazem os milhares de mortos que nos antecederam.


E tudo descobri pela curiosidade que me despertaram os bonitos olhos da Maria Esteves.

sábado, 20 de outubro de 2012

Azulejos: um toque de ambiente do séc. XVIII



O meu amigo Manel partilha comigo o mesmo gosto pela boa azulejaria portuguesa e foi comprando aos poucos, aqui e ali, restos de paneis, muitos azulejos de padrão e frisos. Um ou outro azulejo marmoreado dei-lhos eu próprio, fruto das minhas pesquisas nos contentores de entulho das obras, no centro de Lisboa. Como sabem, a maioria das pessoas quando remodelam os apartamentos ou prédios antigos, pedem aos mestres de obra para deitar fora os azulejos antigos. Julgo que pensarão que se mantiverem a azulejaria pombalina, os potenciais compradores ou locatários acharão que os prédios não estão suficientemente renovados e por conseguinte desistirão de comprar ou alugar aquela casa. Para muita gente o que é antigo cheira a mofo, ou melhor, a morte.


Mas não queria maçar ninguém com considerações morais, queria era mostrar-vos, o novo painel de azulejos que o Manel e eu colocámos na sua casa do Alentejo.

 


O Manel escolheu um painel de 8 azulejos, combinados com um friso marmoreado, disposto junto ao chão como era hábito do século XVIII. Decidimos colocar o painel ao nível do rodapé, como também era costume no passado e conferir mais veracidade ao cenário pretendido.


Com um escopro e um martelo, encarreguei-me de quebrar o estuque, dando largas à minha faceta de Rambo destruidor e pus os tijolos à vista. O chão foi protegido com um grande plástico preto.  

 

Depois veio o Manel, que fez a massa, molhou a parede e os azulejos e fixou-os à parede. Deixámos secar e no dia seguinte limpámos e o resultado foi fantástico. Uma dúzia de apenas de azulejos foram o suficiente para dar um toque de ambiente do século XVIII à sala.


domingo, 14 de outubro de 2012

Vinhais: uma Virgem em magestade românica



Era jovem, teria uns 23 anos, quando descobri a Igreja de S. Facundo em Vinhais. Era um sítio um bocadinho tenebroso, pois é a igreja do cemitério, mas fiquei logo fascinado com umas esculturas misteriosas, que a igreja apresentava na fachada, dispostas ali sem obedecer a qualquer regra lógica. Parecia que alguém as tinha encastrado ali às três pancadas, numa reconstrução qualquer apressada da igreja.





Comecei a ler tudo o que me aparecia sobre o assunto que era pouco. Basicamente, a obra do Abade de Baçal e as fontes que ele citava. O grupo escultórico principal era tomado como a Santíssima Trindade, o grupo das três cabeças representaria S. Facundo e S. Primitivo e Deus todo-poderoso. Enfim, a coisa não me convenceu de todo e quando comecei a comparar estas esculturas de S. Facundo com as imagens da Trindade e percebi que tinham muito pouco em comum.


A Santíssima Trindade é um dogma católico complicado, cuja compreensão escapa a maioria das pessoas. Os cristãos ortodoxos nunca o aceitaram e foi umas das razões principais porque se zangaram irremediavelmente com Roma. Os protestantes também nunca engoliram a ideia de três divindades que são uma só. Portanto, quer isto dizer, que em termos artísticos, havia o maior cuidado em representar a Santíssima Trindade, de forma, a que as 3 pessoas tivessem exactamente mesmo peso. Ora estas esculturas de S. Facundo não tinham a ver com a simetria das representações da Santíssima Trindade, também conhecidas por trono da Graça. Percebi que não eram a Trindade, mas o que seriam então?



Santíssima Trindade ou o Trono da Graça. Museu de Mação


Depois de revirar muitos manuais de História da arte, encontrei por acaso uma imagem muito semelhante ao grupo escultórico de S. Facundo, que representava uma Virgem em Majestade Românica do Séc. XII ou XIII, que estava no Museu Arqueológico de Madrid e por coincidência ou não tinha vindo de uma localidade espanhola, onde S. Facundo tinha sido martirizado, Sahagun (corruptela de S. Facundo). Percebi então que estava ali uma representação de Nossa Senhora do período românico, provavelmente do século XIII e bastante rara.



Virgem em Magestade. Museu Arqueológico de Madrid, proveniente de Sahagun

Mas esta descoberta ficou arquivada na gaveta. Durante a minha juventude andei demasiado ocupado em sobreviver a empregos pagos a recibo verde ou a contrato, a passagens meteóricas pelo ensino e a fusões de direcções-gerais para parar e escrever um texto sobre S. Facundo e publica-lo.


Depois casei, tive filhos e divorciei-me e só agora já perto dos cinquenta, encontrei outra vez disposição para me dedicar à história e aos meus projectos culturais. Quando comecei a escrever o blog, comecei logo a pensar alinhavar um texto sobre as esculturas de S. Facundo, mas o assunto era um bocadinho complexo para um blog, pois na Internet as pessoas não tem pachorra para ler grandes teses ou arrosados, como diria a outra…


Depois, há muito pouco tempo o Roberto Afonso da Câmara Municipal entrou em contacto comigo, pedindo autorização para usar numa exposição uma imagem publicada no meu blog, sobre o convento da Mofreita e eu com o maior desplante, ofereci-me para colaborar no boletim municipal, com um texto sobre S. Facundo. A sugestão foi muito bem aceite, o texto foi publicado no passado mês de Agosto e coloco aqui uma cópia do boletim Municipal de Vinhais (págs. 24 a 25), para quem desejar saber mais sobre esta raríssima imagem medieval da Virgem Maria e a chave para compreender o significado desta representação, que nos parece tão primitiva.