Trouxe comigo as velhas fotografias da casa da família materna, com a ideia de as estudar e organizar um álbum. Confesso que quando iniciei o trabalho experimentei um não sei o quê de pânico, ao descobrir mais uma vintena de imagens de gente completamente desconhecida, fotografada mais ou menos entre 1890 e 1920. Como iria eu identificar esses homens de bigodes, as damas de engalanadas rendas e as criancinhas de traje de marujo, agora que a minha mãe e cinco dos seus irmãos já morreram?
 |
| Os trajes à maruja |
Comecei a organizar então esse núcleo mais antigo formando conjuntos de semelhanças físicas. Se é certo que numa fotografia a criancinha não está identificada, noutra tirada uns anos depois, posa ao lado da sua mãe e no reverso há uma preciosa dedicatória manuscrita, assinada com o nome dos dois, e com os seguintes dizeres: “
à dedicada prima oferece esta fotografia…”. Estas pequenas notas manuscritas são o suficiente para começar estabelecer laços, relações e grupos.
 |
| O verso da carte de visite era destinado a um texto, uma dedicatória da fotografia à madrinha amada, ao pai venerado e oferecida pelo sobrinho dedicado ou primo muito amigo |
Comecei também a perceber que dessas fotografias mais antigas, há mais imagens de primos e amigos, do que propriamente dos meus avôs ou bisavôs. É um pouco como os arquivos. Temos as cartas recebidas dos nossos parentes, mas as que os nossos antepassados enviaram estão na casa dos outros.
Estas fotografias impressas em cartão duro, conhecidas por retratos
carte de visite eram nos primeiros anos do século XX ainda muito caras. As pessoas vestiam as melhores roupas e tiravam um único retrato para enviar à madrinha, à irmã ou primo. Muitas vezes nem ficariam com uma cópia para si. Os retratos
carte de visite são ainda um símbolo de estatuto social e permitem auferir o bem-estar económico de uma família. Quem é fotografado tem dinheiro, tem estatuto social.
Mas voltando, ao assunto, consegui a partir desse método de associar semelhanças, estabelecer quatro grupos familiares que enviaram fotografias aos meus avós ou bisavós:
 |
| Os Campilho: retrato de Pedro Campilho dedicado aos meus bisavós Maria da Graça e Clemente em 1909 |
Primeiro, os Campilhos, amigos dos meus biavós maternos, cujos quintais confinavam. Hoje os Campilhos ligaram-se aos Palmela, mas na altura, ainda teriam com os meus bisavôs, que eram uns meros lavradores abastados, umas animadas conversas sobre maças e peras, debruçados no muro que dividia as propriedades.
 |
| Os Sampaio. Foto do Emílio Biel do Porto |
Depois aparecem muitas fotografias dos Sampaios, primos por parte do meu bisavô materno, mas cuja relação exacta de parentesco não consegui ainda apurar.
 |
| Os irmãos Fernandes. Ainda conheci duas destas meninas. A mais pequena era Madrinha da minha mãe |
Em terceiro lugar, também primos por parte desse mesmo avô, surgem os Fernandes, cujas fotografias consegui reconhecer sem dificuldades, pois ainda me lembro de alguns deles vivos e mantenho algum contacto com os filhos e netos.
E finalmente apareceram uma dúzia de fotografias de um grupo de gente com o apelido Esteves, de quem eu nunca ouvi falar e que eram sem dúvida parentes, pois dedicam sempre a carte de visite ao seu querido primo ou sobrinho.
 |
| Os olhos portugueses da Maria Esteves em 1918 |
Tocou-me particularmente o retrato da Maria Esteves, uma jovem com um pescoço elegante e uns grandes olhos escuros um pouco tristes, mas bonitos. Enfim, uns verdadeiros olhos portugueses. A fotografia está datada de 1918 e nela a Maria Esteves escreve a minha avó Adelaide, queixando-se que o primo não lhe escreve e que lhe manda aquele retrato pois ainda não tiveram oportunidade de se conhecerem.
 |
| No verso da carte de visite, a Maria Esteves queixa-se a minha avô Adelaide que o primo não respondeu à sua carta. Data, 1918 |
Fiquei curioso por saber quem era esta prima desconhecida, que apresentava uma certa elegância já muito urbana. Por contraste, os outros Esteves, tem um ar mais grosseiro, de quem saiu há pouco tempo dos campos, mas que já possui dinheiro para se fazer fotografar com fatos de senhora, brincos e cordões de ouro.
 |
| Apesar da seda, dos fios e brincos de ouro, a Cândida Paulina Esteves apresenta o ar que ainda há pouco amanhava a terra. Carte de Visite de 1915, dedicada ao sobrinho, o meu avõ paterno António da Purificação |
Fiz uns quantos telefonemas a uns primos mais velhos e percebi que estes Esteves eram primos por parte do meu avô materno, o António da Purificação, que proveio de um meio mais humilde que a mulher, o que explica que aquelas senhoras suas familiares tenham ainda aquele ar campónio, apesar das sedas e dos ouros.
Liguei ainda ao meu pai, uma espécie de conservatória dos registos familiares e lá me confirmou o parentesco destes Esteves com o meu avô materno e deu-me um esboço de árvore genealógica, de um ramo da família, que já nos tínhamos esquecido um pouco. A bonita Maria Esteves tinha por nome completo Maria Joaquina Ferreira Esteves, era prima direita do meu avô materno e terá talvez nascido em 1898 e certamente, que já morreu por estes dias. Não herdou o ar de camponesa da mãe, a Cândida Paulina Esteves. O avô da Maria Joaquina, cujo nome desconhecemos era o meu trisavô e não sei quem era. Não conheço todos os meus trisavôs.
Quando começamos a estudar os nossos antepassados, temos tendência a concentrarmo-nos mais num ramo, normalmente o masculino ou até pode ser um feminino, desde que seja mais aristocrático. Esquecemo-nos frequentemente nesses estudos de genealogia, que descendemos de 4 avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 quatrisavós e não-sei-quantas dezenas de tetravôs e que esse número se vai multiplicado à medida que recuamos no tempo. Como dizia a Yourcenar, começamos a fazer genealogia por vaidade e acabamos angustiados junto ao enorme abismo onde jazem os milhares de mortos que nos antecederam.
.JPG)
E tudo descobri pela curiosidade que me despertaram os bonitos olhos da Maria Esteves.