domingo, 15 de abril de 2012

A ermida de S. Cláudio em Alcaraviça ou antigo um morabito islâmico


Na semana da Páscoa, o Manel e resolvemos ir até Borba visitar uma antiquária, que conhecemos da feira de Estremoz. Metemo-nos ao caminho por estradas secundárias, que é uma maneira de conhecer melhor o País e perto de uma pequena aldeia com um nome completamente islâmico, Alcaraviça, descobrimos no alto de um monte rodeado de sobreiros uma ermida em ruínas, com uma cúpula verdadeiramente encantadora. Saímos da estrada e metemos por um caminho de terra batida e lá chegámos.

O que vimos a seguir aquela estrada compensou completamente o medo de partir um eixo ou estragar o tubo de escape do meu carrito, que tem menos de 800 cm3 de cilindrada.
O púlpito no alpendre que antecedia a Igreja

Antes de entrar no edifico propriamente dito, deparamos com um púlpito fora igreja, muito bonito, que já tinha visto igual numa capelinha em Évora Monte. Não havia portas, o chão estava coberto de palha e no centro encontrava-se uma manjedoura, mas olhando para cima existia uma cúpula toda revestida de pinturas murais que nos transportou para uma dimensão quase celeste.

Foi uma sensação de deslumbramento pela beleza daquelas pinturas, mas ao mesmo tempo de choque pelo estado de abandono a que aquela capelinha estava votada. Os azulejos do altar-mor já tinham sido retirados e dos frescos das paredes laterais já quase nada restava.


Enfim, não vou aqui fazer um sermão por causa do estado de abandono do património arquitectónico, porque já todos  conhecem o conteúdo de cor e salteado, mas saímos lá com uma dor de alma. Uns senhores que por ali andavam a apanhar pedra, disseram que a ermida tinha por orago S. Cláudio.
O luxo das pinturas Murais. Uma evocação de Pompeia

Quando cheguei a casa lá fui fazer umas pesquisas na net sobre esta igreja com uma arquitectura intrigante. Num projecto de Lei, que pretende elevar Borba a cidade encontrei uma referência à ermida, que consistia em meia dúzia de tretas cheias de adjectivos, mas que me informou que a construção em ruínas ao lado da capela era o ermitério, o que completava aquilo os senhores que andavam a apanhar pedra nos disseram. Ao lado da capela era a casa dos cuidadores e quando estes morreram ou abandonaram o local o templo entrou em ruína.

Depois tentei saber quem era este S. Cláudio, o patrono do ermitério. Imaginei deste logo que fosse algum mártir do século III, cuja devoção disfarçasse algum culto pagão existente naquele monte, sagrado para os povos desde sempre. Na Wikipedia italiana descobri que houve quatro mártires com o nome Cláudio no Século III, três mártires cláudios no século IV, um bispo S. Cláudio no século V, um abade S. Cláudio no século VII e um jesuíta francês do Séc. XVII, canonizado e também chamado Cláudio. Vá lá a gente saber que Cláudio foi ali adorado, aliás, nem as populações deveriam qual destes Cláudios ali adoravam. Simplesmente prestariam culto a uma força qualquer divina que ali tinha o seu santuário e casa. Em suma, fiquei sem saber nada do S. Cláudio.

Ermida se S. João em Vale de Gaio

Depois recomecei a trabalhar e esqueci um bocadinho a igreja, até que ao desfolhar por mero acaso a obra Monumentos da antiguidade árabe em Portugal / José Augusto Correia de Campos. Lisboa : Campos, 1970, descobri imagens de pelo menos duas capelas muito semelhantes a esta. Tal como S. Cláudio, a duas capelas são formadas por uma pequena igreja de planta centrada, com uma cúpula, uma galilé e ao lado uma dependência, a casa do ermitão. A primeira é a ermida de S. João em Vale de Gaio, freguesia do Torrão e outra encontra-se no Alvito, também no Alentejo. O autor da obra crê tratarem-se de antigos morabitos islâmicos, que foram cristianizados.

Morabito do Alvito
Segundo a Wikipédia espanhola, Morabito (do árabe murabit) é nos países muçulmanos do Norte de África uma pessoa considerada especialmente pia, a quem a população atribui uma certa santidade. A mesma palavra designa por extensão o lugar onde vive o morabito, uma espécie de ermida, normalmente situada num despovoado, ou ainda o túmulo do próprio morabito, que é objecto de veneração popular.

Muito comum no Magreb, o fenómeno dos morabitas está relacionado com cultos anteriores ao islão ou com cultos a antigos a santos cristãos, no caso do Sul da Península Ibérica no tempo da ocupação islâmica. Os morabitos ainda sobrevivem em Marrocos. Nos campos as pessoas, continuam a acorrer a estas capelinhas e a pedir a bênção do ermitão lá residente ou da personagem que lá está enterrada. Hoje, é uma forma de culto mal vista pela ortodoxia maometana, pois o Islão proíbe qualquer forma de mediação entre o crente e Deus e muitos deles são destruídos por grupos de fundamentalistas.

No caso da ermida de S. Claúdio, a construção parece de facto ser uma reminiscência da arquitectura dos antigos morabitos islâmicos. Terá sido talvez, um altar cristão, islamizado e depois novamente rebaptizado na Reconquista. Claro, o edifício que está lá não foi aquele que terá sido erguido no século X, XI ou XII da nossa era. Será antes o resultado de várias reconstruções, a última talvez feita no século XVIII, mas todas elas seguiram um modelo muito antigo, o do morabito.


Fiquei sem saber nada sobre as pinturas a fresco que ornamentam as paredes, mas eu sou um simples amador de coisas velhas e não encontro as respostas para tudo o que procuro.

15 comentários:

  1. Olá Luís.Rica passeata que fez com o seu bom amigo Manel. Gostei imenso de conhecer este Morabito lá para os lados de Borba,sobre ele nada sabia - fiquei mais culta sobre o património alentejano.Lastimo a falta de apoio à preservação do mesmo,quanto a mim por culpa de não darem primasia à cultura. Após o 25 de abril tanto dinheiro chegou às autarquias - se nunca levantaram o espólio existente - mesmo que particular - é porque a cultura não foi e, pelos vistos continua a ser desprotegida- sem significado e mais valia para engrandecer as suas terras - e é pena!
    Só pessoas sensíveis como o Luís e o Manel conseguem do quase nada - fazer uma crónica - elucidar o leitor com tamanha beleza, em abandono,acredito muitos outros se seguirão - ficamos todos a saber mais deste nosso Portugal abandonado e quem sabe possa vir a acordar sucetibilidades a quem de direito para o adquirir e devolver a dignidade de outrora, graças ao V/ olhar e paixão em narrar o que viram - confesso fiquei rendida pela espetacularidade e pelo desdém de o ver transformado em curral - em Almada havia uma capela na cidade transformada em taberna - felizmente a autarquia com apoios comunitários voltou a dar-lhe vida e a restituir a dignidade de antigamente.Hoje é lugar de culto ao orago de S. Sebastião.
    O luxo das pinturas do mural em cor de tijolo que refere, fez-me recordar a capela de S. Cucufate implantada nas ruínas com o mesmo nome na Vidigueira.Não admira o vandalismo - os azulejos, as imagens e agora até as pedras afeiçoadas do ermitério, ao que me deu a parecer...tudo serve para ser espoliado por falta de alguém com miolos lhe acudir em tempo útil.Revela que o povo continua depois de tantos anos de ditadura - agora em liberdade- a fazer más escolhas para os seus governantes - Então não se vê a cada dia?

    Desculpe ter-me alongado, fico pocessa quando vejo património ao Deus dará...acalmei porque antes li um e-mail de um outro amigo que ajudou nas escavações que testemunham a fixação ,desde há mil anos, de gente junto ao rio... o primeiro achado em Portugal, gravuras feitas em pequenas placas de xisto que se poderão datar com 10 mil anos...(não revelo o lugar porque poderia ser motivo de especulação e partirem em louca viagem na procura de pedras e placas e não sei mais o quê)

    Boa semana
    Beijos
    Isabel

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  2. Eu e o meu marido adoramos percorrer esses caminhos de terra batida que nos levam a sítios mágicos como este. Obrigado pela partilha, numa próxima viagem para esses lados, podem ter a certeza que irei tentar descobrir esta ermida.
    A capela de que a Isabel fala era perto de uma outra taberna com um nome muito curioso: Pancão. De facto nessa capela existiu não só uma taberna mas nas suas traseiras viviam umas quantas famílias menos abonadas. Desse passado de miséria, felizmente nada resta e a Capela por uma vez foi restituída à sua função original!
    Boa semana!
    Ana Silva

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  3. A Maria Isabel fez muito bem em não desvendar o local, poderia ser uma corrida aos desmandos e roubos, se algo houvesse que roubar ... e quando não há, limitam-se a destruir, o que é ainda pior!
    Esta capela, ou eremitério, ou morabito, é uma obra fantástica!
    A sua planta centralizada, coberta com cúpula, a galilé coberta que abrigava o púlpito, exterior ao edifício central, parecem fazer parte de uma edificação mais recente, muito possivelmente do século XVIII, pelo menos os elementos arquitetónicos assim mo levam a acreditar, apesar do culto, ligado a qualquer construção anterior, ser algo de deverá ter vindo de épocas imemoriais.
    As pinturas murais são de grande qualidade, pelos menos as do teto, que essas ainda atestam o seu antigo esplendor.
    As parietais, julgo que, no registo inferior, têm alguma influência renascentista, que, por estarem mais próximas do piso em terra (?), foram desaparecendo mais rapidamente, devido ao contacto com as humidades que terão invadido as paredes através da capilaridade; quanto às do registo médio, parecem-me possuir algumas influências dos frescos romanos, que eram conhecidos desde há muito, e muito antes dos de Pompeia.
    Os frescos pompeianos, assim como os de Herculanum, só foram descobertos no final do século XVIII, e, por conseguinte, as suas pinturas parietais influenciaram o ocidente já no século XIX.
    Relativamente ao pouco que se vê delas, e a apresentarem influência das pinturas de Pompeia, estas estarão ligadas ou ao segundo (estilo arquitetónico) ou terceiro estilo (o ornamental, uma evolução do antecessor), - o colorido dos restos de pintura sobrante trazem-me à memória os frescos da "Vila dos Mistérios" ou as de Boscoreale - guardadas as respetivas dimensões, claro, pois esta é uma ermida perdida algures no meio do Alentejo rural, as outras são de grandes casas de famílias patrícias, situadas no coração da civilização romana! Nunca me consigo esquecer da maravilha que são os murais da Vila de Lívia e Augusto, no Palatino! São algo fora deste mundo.
    Mas isto são só conjeturas, pois não creio que se saiba muito sobre estas, aqui no Alentejo. Mas estas conjeturas são interessantes de estabelecer, ainda que não passem mesmo disso.

    Nos frescos do teto parecem ter regressado a uma influência renascença, e de belíssima manufatura!
    Os óculos, a um nível superior, iluminam zenitalmente o espaço, o que é comum em muitas edíficações de índole religiosa, caraterística que aparece em praticamente todos os períodos, como se a luz divina tivesse obrigatoriamente de vir das "alturas" (A Catedral de Veneza ou o Panteão de Roma, por exemplo, muitas das igrejas e catedrais construídas em tempos mais recentes, como a Catedral de Brasília, de Niemeyer, enfim, poder-se-iam arranjar inúmeros exemplos).
    Este organização espacial centralizada, com cúpula, tem alguma relação também com a arquitetura oriental, sendo uma das suas caraterísticas ... como não podia deixar de ser, continuo do campo das conjeturas, mas nada mais me resta, visto ao pouco que se sabe sobre esta obra!
    Mas não posso deixar de mencionar o tabernáculo, o qual é uma pequena maravilha na sua rusticidade, ainda que com pretensões a alguma erudição, apresentando uma ordem arquitetonica com colunas de ordem dórica, que ladeiam um arco em volta perfeita, e encimadas de pedimento!
    Mas a construção é tão espessa que até faz lembrar a representação de um templo romano em miniatura! Absolutamente fantástico e é um dos elementos mais fortes neste interior!
    É um local cheio de força e quase mágico, como se se estivesse à espera que um druida surja de um dos sobreiros centenários (à falta de carvalhos!) que rodeia o local
    Alongo-me sempre, nada a fazer
    Manel

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  4. Maria Isabel

    É verdade. Todos sabemos que ninguém liga pevides ao património e que está tudo ao abandono, mas quando vemos casos como estes é sempre um choque, ainda para mais as pinturas são lindas e o sítio é mágico. Sentimos que talvez um antigo deus pagão ainda esteja ali vivo, solitário, porque já ninguém lhe presta culto ou sabe sequer da sua existência.

    Bjos

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  5. Ana Silva

    Pelo menos essa capela de almada teve um final feliz, porque há tantas capelas destas, que ao fim de uma década já não resta nada, só mesmo fotografias. Talvez por isso me tenha empenhado logo a escrever o post e publicar as fotografias.

    Abraços

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  6. Ainda sobre o tabernáculo, creio mesmo que as colunas foram colocadas ao contrário, com o capitel virado para baixo, ou, também, se poderá dar o caso de ter sido produzido desta forma de propósito, mas, a ter sucedido esta última hipótese, não estará consistente com o preceito clássico da ordem.
    É interessante verificar também que as colunas apresentam igualmente uma leve entasis no fuste
    Manel

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  7. Olá Luís,
    Esta capelinha é um encanto e foi muito bem fotografada.
    Acho que devia ser preservada mas como ruína, mexendo-lhe o menos possível, porque de contrário lá se vão os belos vestígios de pinturas a fresco e o altarzinho com o ingénuo tabernáculo e as suas colunas.
    Gostaria sinceramente que não voltasse a servir de estábulo ou curral, que a construção fosse minimamente estabilizada, sobretudo o telhado, e que passasse a fazer parte de um circuito pedestre para amantes da natureza e da ruralidade.
    Será pedir muito?
    Agradeço a visita guiada, a si e ao Manel.
    Bjs.

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  8. Manel

    Uma boa parte de alguma popularidade deste blog deve-se aos teus comentários.

    Talvez as colunas do tabernáculo tenham sido reutilizadas de uma construção mais antiga.

    Os finais do XVIII, príncipios do XIX podem ser uma boa hipótese de datação para os frescos com um certo ar pompeiano.

    Tenho ideia que a pintura mural é arte relativamente comum no alentejo, mas é uma área que conheço pouco e neste post não explorei. Enfim, sou um mero amador

    Obrigado

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  9. Maria Andrade

    Embora eu apresente estes posts sobre património em ruínas por puro prazer, por simples gosto das coisas antigas, há sempre uma intenção de denúncia subjacente. Julgo que é um pouco inútil, mas tenho reparado que há muitos e muitos blogs mostrando atentados contra o património. Será que os autarcas leem blogues?

    Pela minha parte terei muito gosto em servir-lhe de guia, muito embora só aos poucos eu e o Manel temos explorado a região. Apesar destas ermidas em ruínas, o Alentejo ainda é a região do País onde as terras estão melhores.

    Tenho muita vontade ver Aviz, que vislumbrei a correr. Aquela terra parece um material inesgotável para posts.

    Beijos

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    1. Ilustríssimo amigo Luís... excelente monumento, momento e texto... fica mais uma pérola registada, e à espera de uma ruinosa visita ou de uma reabilitação...

      Uma coisa que gostaria de acrescentar, há quadrilhas especializadas no roubo de frescos, e especialmente as ermas capelas alentejanas, têm sido alvo de vandalismo de inestimáveis roubos... esta felizmente ainda não foi descoberta.

      Ah!! Esta traça é normalmente com abóboda deve ser renascentista, possivelmente do séc. XV.

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  10. caro Gastão

    É um prazer ter o homem do ruinarte de visita ao meu blog. Acredito perfeitamente no que escreveu acerca do roubo dos frescos. O meu amigo Manel achava que eu nem deveria revelar o local para não tentar os larápios, mas se não identificasse a claramente igreja não estaria a denunciar os responsáveis pela sua preservação. O pior é que nestes monumentos nem deve haver responsáveis. A Câmara sacode a água do capote para a Igreja, esta para a freguesia e a comissão fabriqueira e estas para o Ministério da Cultura que está novamente em restruturação e a repensar estratégias...

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  11. Olá Luís,
    na verdade o Alentejo mantem grande número de capelas com pinturas murais, de tal modo que o turismo já criou uma "rota do fresco" com direito a página eletrónica e "voucher"! Claro que o português comum pega num folheto e descobre por si mesmo os referidos lugares...
    Bjs, Luísa

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  12. cara Luisa

    Sempre informada! Encontrei o site http://www.rotadofresco.com e tem um bom texto explicativo das características desta arte muito alentejana, que recomendo a todos a leitura.

    Beijos e muito obrigado

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  13. Boa Tarde
    Sou conservadora restauradora de pintura mural faz quase 30 anos tenho uma empresa de conservação e restauro que se chama Mural da História (com página no FB) não conhecia esta igreja com estas pinturas lindíssimas. Agradeço ter publicado este artigo, gostaria de saber se o posso publicar na nossa página do FB. Cumprimentos

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    1. Cara Anónima

      Obrigado pelo seu comentário. Esta capelinha é de facto uma coisa linda, bem como os campos que a envolvem.

      Terei muito gosto que publique este artigo na vossa página de facebook. Sempre é mais alguém a fazer voz contra a incúria do património. Só lhe peço que faça um link a este blog.

      Cumprimentos

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