Continuo às voltas com as fotografias antigas da família materna. Vou fazendo alguns progressos na identificação das imagens, recorrendo quer ao auxílio de primos mais velhos, que ainda conheceram nos anos cinquenta algumas das pessoas destes retratos datados entre os últimos anos do século XIX e os primeiros do século XIX, quer a uma genealogia familiar feita pelo meu pai. Leio e releio também as dedicatórias escritas nos versos das fotografias. Do cruzamento desses dados começo a formar uma ideia da rede de parentesco e amizades dos meus avós e bisavós maternos. Curiosamente algumas dessas relações perduram até aos dias de hoje, apesar de já terem passados cem anos e os laços familiares se terem transformado num já vago parentesco.
Outras fotografias não apresentam qualquer dedicatória e como quem as podia identificar já morreu, permanecem silenciosas. Por mais que me esforce não consigo dar-lhes um nome, encontrar uma filiação, ou um parentesco. É o caso do retrato deste senhor tão janota, que se fez fotografar à volta de 1860-1870, a julgar pelos ombros do casaco, grande laço e colarinhos levantados.
É um jovem de feições bem desenhadas, bonitos lábios e vestido com elegância. Vê-se que é homem bem-nascido. Não é um lavrador abastado que no dia de feira veste as suas melhores farpelas para se fazer retratar por um fotógrafo ambulante. Tento encontrar nele feições de família, mas é difícil. Tem uma pele branca como todos os Morais, mas nas terras frias de Vinhais isso não significa forçosamente parentesco pois os olhos azuis, cabelos loiros ou castanhos-claros e a tez clara são muito comuns na região. Por outro lado, comparando-o com outros retratos da família materna, onde transparece ainda uma certa ruralidade, este jovem parece-me demasiado aristocrático.
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| Na maioria dos retratos da minha família materna tirados por fotografos ambulantes nas feiras transparece ainda uma ruralidade. |
Mas, talvez dos 8 trisavôs que tenho pelo lado materno, algum fosse de um ramo mais fidalgo, ao qual pertenceria este janota. Também este jovem bem-parecido poderia pertencer a uma família aristocrática, da qual a minha seria subsidiária e entre as duas existisse uma relação simultaneamente de patronato e amizade, de que esta fotografia é testemunho.
Enfim, tenho que reconhecer que não consigo tirar nada de concreto desta fotografia. Já ninguém se recorda deste jovem bonito, que talvez seja meu antepassado. Olho para ela e já só vejo o esquecimento e a morte, isto é, o desconhecido.
Enfim, tenho que reconhecer que não consigo tirar nada de concreto desta fotografia. Já ninguém se recorda deste jovem bonito, que talvez seja meu antepassado. Olho para ela e já só vejo o esquecimento e a morte, isto é, o desconhecido.




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