| A Tia Lalai e a Tia Francisca |
Há fotografias antigas de família que exercem uma atracção especial sobre nós e muitas vezes temos dificuldade em explicar porquê. Uma delas, é esta fotografia que mostra uma menina, a irmã da minha mãe, a Tia Lalai, ao lado da sua tia Francisca. O primeiro sentimento que me provoca é de estranheza. No tempo em que as conheci com vida, a primeira era já uma mulher madura e a segunda, uma idosa. Vi-as depois envelhecer, definhar e morrer, mas estas caras na primavera da vida são me estranhas. Contudo, estas duas tias apresentam feições, um ar de família, que persiste em nós, os parentes que ainda estamos vivos.
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| Hannah Arendt |
Há uns anos, quando trabalhava na Biblioteca da Universidade Católica, recebemos uma obra de Hannah Arendt, ou talvez fosse um estudo sobre ela, não me recordo já bem, e numa das guardas do livro vinha publicada uma fotografia desta célebre pensadora judia, que me fez estremecer, porque aquela senhora, nascida na Prússia Oriental, a milhares de quilómetros de Portugal, poderia ser muito bem uma qualquer das mulheres da minha família materna. Poderia ser talvez uma irmã da Tia Francisca, ou talvez ela própria, num momento diferente da sua vida.
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| Hannah Arendt |
Com efeito, há uma tradição na minha família materna, que diz que descendemos de judeus. É uma tradição sem fundamento que a sustente. Não há quaisquer provas documentais nem sequer uma memória um pouco mais precisa, que tivesse sido passada de pais para filhos, acerca de um qualquer costume judaizante, como por exemplo, acender uma lamparina de azeite com uma torcida de linho constituída por 7 fios, na noite de sexta-feira para iniciar o início do Sabbath, o dia de descanso judaico.
| A velha casa da Quadra |
Diz-se apenas que as origens judaicas proviriam de uma aldeia, no Concelho de Vinhais, a Quadra, na qual nasceram o avô da minha tia Lalai e a mãe da Tia Francisca, que eram irmãos. Nessa aldeia perdida no sopé da Serra da Coroa, a uns escassos 3 ou quatro quilómetros de Espanha, existe ainda uma velha casa, onde se criou essa irmandade. O meu pai fotografou-a no início dos anos 90, mas nada ali indica que viveram judeus. É uma casa antiga de pedra, semelhante a todas daquela região.
| A cozinha da casa da Quadra |
Aliás, a quase ausência de testemunhos escritos ou vestígios materiais deixados por estas antigas comunidades judaicas impossibilita praticamente qualquer tentativa de entroncar nela as nossas raízes. Perseguidos em Portugal desde o século XVI, os judeus foram forçados a baptizarem-se, viviam oficialmente como cristãos e procuram esconder tudo o que pudesse revelar a verdadeira fé que sentiam no seu interior. Não tinham por isso templos, destruíram os seus livros sagrados e não ostentavam nenhum símbolo nas suas casas que os pudesse distinguir dos restantes membros da comunidade. Iam à Igreja, baptizavam-se, casavam e morriam segundo o ritual católico. Este traço do secretismo é aliás uma característica específica das comunidades judaicas que ficaram em Portugal, depois de D. Manuel os ter obrigado em 1497 a converterem-se ao cristianismo, fenómeno que os historiadores designam por criptojudaísmo.
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| A seta indica a localização da Quadra |
Para quem não saiba, em 1492, os Judeus foram expulsos de Espanha pelos reis Católicos e aos milhares, atravessaram a fronteira e fixaram-se em Portugal, muito deles nas terras raianas portuguesas, como Bragança ou Vinhais. Em 1497, foi a vez do Rei Português D. Manuel decidir também a sua expulsão, mas com algumas diferenças do caso espanhol. Podiam converter-se ao catolicismo ou partir. Contudo, como ao Rei não lhes interessava perder esse grupo de gente laboriosa e rica, dificultou-lhe ao máximo a sua partida. Só poderiam abandonar o país pelo porto de Lisboa. Se os Judeus que estavam na capital puderam fugir para a Holanda, França, Marrocos ou para o Império Otomano, os que viviam no interior viram-se presos numa armadilha. Por detrás tinham a Espanha, onde a perseguição já era feroz e à frente, tinham o litoral, onde só os deixavam saír a conta gotas. Foram ficando, até porque a Inquisição só veio mais tarde, em 1536. Para essas comunidades começou uma longa noite, em que praticam o Judaísmo em segredo e ao fim de muitas gerações, esqueceram o hebraico, queimaram os livros sagrados e praticaram em segredo um judaísmo estropiado, muitas vezes já misturado com o catolicismo. Uma dessas comunidades sobreviveu até aos nossos dias, em Belmonte, uma terra também na fronteira, que foi identificada em 1917, com surpresa de todos, por Samuel Schwarz, um judeu suiço, que descobriu um grupo de gente que não se misturava com os outros membros na comunidade, que praticam uma religião, que já nem sabiam nomear e rezavam umas ladaínhas num hebraico corrompido.
Em Vinhais e Bragança, sabemos da existência destes judeus forçados à conversão pelas fontes cristãs. Existem 480 processos do Santo Ofício guardados na Torre do Tombo movidos contra habitantes das terras de Vinhais. Ainda pouco, na exposição Vinhaes - Fragmentos de História, que esteve patente ao público na Casa da Vila, em 2012, li que num dos livros de denúncia da Inquisição, em 1583, um tal Rodrigo Bernardes queixava-se que em Vinhais há dos muros para dentro, 50 moradores e desses só 3 ou 4 são cristãos velhos. Parece que enterravam os seus mortos, junto da Igreja de S. Facundo, junto de um velho Sardão (curiosamente, o actual cemitério foi construído precisamente em redor desta Igreja, como que a continuar uma tradição antiga).
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| Imagem de um Processo do Tribunal do Santo Ofício, referente a Pedro de Leão, comerciante de seda, natural de Outeiro Seco e morador no termo de Vinhais. Arquivo Nacional da Torre do Tombo,
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Nos anos 20, ali ao lado, em Bragança, um grupo desses judeus reactivou o culto e durante alguns anos mantiveram uma sinagoga e uma escola, conforme li na obra de David Augusto Canelo, Os últimos Criptojudeus em Portugal. belmonte: Centro de Cultura Pedro Álvares Cabral, 1887.
Enfim, todas estas explicações servem para demonstrar que é plausível que este ramo da minha família, originária da longínqua Quadra descenda de Judeus. O meu pai ainda empreendeu alguns estudos genealógicos nos arquivos paroquiais para tentar chegar aos antepassados judeus. Foi um estudo complicado, pois os livros paroquiais estão repartidos entre o Arquivo Distrital de Bragança e o Arquivo Diocesano da mesma cidade. Conseguiu remontar até aos finais do Século XVIII, mas não encontrou nada que indicasse que aqueles homens e mulheres meus antepassados judaizassem. Aliás como poderia encontrar nesses registos de baptismo, casamento e morte mantidos pela Igreja uma confissão expressa de judaísmo?
Naturalmente, que nesses momentos que iam à igreja paroquial, todos eles arvorariam o seu ar mais piedoso e beatífico.
Só talvez se cruzasse esses nomes com os processos da Inquisição movidos aos naturais do Concelho de Vinhais obtivesse alguns resultados, mas a doença da minha mãe impediu-o de realizar esse trabalho e eu como me devo reformar lá para os 70 anos, não sei se o conseguirei concluir.
| Maria Adelaide Ferreira (1913-1997) |
Não podendo comprovar uma tradição familiar de que descendemos de Judeus, o presente texto serve mais como um In Memoriam das minhas tias Francisca da Assunção Fernandes (1904-1992) e sobretudo de Maria Adelaide Ferreira (1913-1997), a menina da fotografia, que foi uma espécie de avó para mim e a quem eu não pude dizer adeus quando morreu. Para ela fica uma música em ladino, a velha língua dos judeus fugidos de Espanha, Adijo Kerida, cantada por Francoise Atlan
Alguma bibliografia:
Os últimos Criptojudeus em Portugal / David Augusto Canelo. Belmonte: Centro de Cultura Pedro Álvares Cabral, 1887.
Testemunhos do Judaísmo em Portugal : exposição bibliográfica e iconográfica = Signs of Judaísm in Portugal : a collection of books, and prints / Gabinete de Relações Internacionais do Ministério da Cultura ; coord. e realização técnica Maria Luísa Cabral. - Lisboa : Ministério da Cultura, 1999
Vinhaes - Fragmentos de História. Vinhais: CMV, 2012. ( Agradeço ao Roberto Afonso, Vereador da Cultura da C.M. de Vinhais o envio dos painéis desta exposição em formato digital
















