Há uns anos encontrei esta pequena estampa representando o Rei David tocando harpa. Comprei-a de imediato, pois David é uma daquelas personagens históricas com quais sempre simpatizei. Enfim, para quem não tenha feito a catequese, David viveu mais ou menos por volta do século X antes de Cristo e era um simples pastor que ajudou na luta contra os filisteus e conseguiu derrotar o gigante Golias com o auxílio de uma simples funda. Foi o primeiro soberano de um verdadeiro estado de Israel, ao unificar os reinos de Judá e Israel e foi também esta figura bíblica, que teve uma existência histórica, quem transformou Jerusalém pela primeira vez na capital de um estado judaico. Terá sido também um homem culto, um tocador de harpa e um poeta, já que muitos dos salmos bíblicos lhe são atribuídos.
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| BARBIERI Giovanni Francesco. Musée du Louvre département des Arts graphiques. Joconde |
Para a humanidade, David tornou-se um símbolo de que os mais fracos podem vencer os mais fortes. Claro, é também uma figura absolutamente emblemática para o povo judeu, que lutou no gueto de Varsóvia quase sem armas contra os nazis, sobreviveu ao Holocausto e depois de 1948, contra vizinhos poderosos, fundou um estado moderno, com capital em Jerusalém. Mas David é também o paradigma do soberano culto e ilustrado, que todos nós ambicionamos ter por governante, embora raramente o consigamos.
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| Daniele DA VOLTERRA. David tuant Goliath. Musée national du château de Fontainebleau. Foto Joconde |
Depois do acto desta compra feita por motivos afectivos veio a pergunta sacramental, de que livro foi retirada esta estampa?
Como a gravura não tem data, nome do desenhador, gravador ou impressor não tinha grandes hipóteses de descobrir de onde veio. A única pista de que disponha, era que no verso, impresso em latim, existia no rodapé a abreviatura PSALM. Como sou bibliotecário e já tratei vários fundos de livros dos séculos XVI, XVII e XVIII tinha uma vaga ideia de já ter visto algures esta representação em livros religiosos. Sabia que não deveria ter sido numa Bíblia, o que à partida até seria mais lógico, mas, como toda a gente sabe, ao contrário dos protestantes, a maioria dos católicos nunca foram muito dados ler a Bíblia, a qual sempre preteriram em favor das vidas dos santos, livros piedosos e de orações.
Tinha a ideia que a teria visto num daqueles livros de oração ou liturgia, mas são tantos! Existem os missais, os saltérios, os livros de orações, os ofícios divinos, os breviários, os flos sanctorum e sabe-se lá que mais e depois a minha cultura religiosa é meramente superficial.
Resolvi então fazer a pesquisa pelo início e procurar no google por Bíblia / Salmos, as categorias onde uma estampa deste teor se poderia encaixar. Descobri que na Igreja Católica, os 150 salmos formam o núcleo da oração quotidiana, a chamada Liturgia das Horas, também conhecida por Ofício Divino. Consiste basicamente na oração quotidiana em diversos momentos do dia, através de Salmos e cânticos, da leitura de passagens bíblicas e da elevação de preces a Deus. O livro onde se contem estes textos necessários para o Ofício Divino designa-se por Breviário. O Breviarium Romanum é uma reunião num único documento de vários livros distintos para a celebração do ofício Divino: o Saltério (para os salmos), o Antifonário (para as antífonas), o Hinário (para os hinos), o Leccionário (para as leituras).
Como a gravura não tem data, nome do desenhador, gravador ou impressor não tinha grandes hipóteses de descobrir de onde veio. A única pista de que disponha, era que no verso, impresso em latim, existia no rodapé a abreviatura PSALM. Como sou bibliotecário e já tratei vários fundos de livros dos séculos XVI, XVII e XVIII tinha uma vaga ideia de já ter visto algures esta representação em livros religiosos. Sabia que não deveria ter sido numa Bíblia, o que à partida até seria mais lógico, mas, como toda a gente sabe, ao contrário dos protestantes, a maioria dos católicos nunca foram muito dados ler a Bíblia, a qual sempre preteriram em favor das vidas dos santos, livros piedosos e de orações.
Tinha a ideia que a teria visto num daqueles livros de oração ou liturgia, mas são tantos! Existem os missais, os saltérios, os livros de orações, os ofícios divinos, os breviários, os flos sanctorum e sabe-se lá que mais e depois a minha cultura religiosa é meramente superficial.
Resolvi então fazer a pesquisa pelo início e procurar no google por Bíblia / Salmos, as categorias onde uma estampa deste teor se poderia encaixar. Descobri que na Igreja Católica, os 150 salmos formam o núcleo da oração quotidiana, a chamada Liturgia das Horas, também conhecida por Ofício Divino. Consiste basicamente na oração quotidiana em diversos momentos do dia, através de Salmos e cânticos, da leitura de passagens bíblicas e da elevação de preces a Deus. O livro onde se contem estes textos necessários para o Ofício Divino designa-se por Breviário. O Breviarium Romanum é uma reunião num único documento de vários livros distintos para a celebração do ofício Divino: o Saltério (para os salmos), o Antifonário (para as antífonas), o Hinário (para os hinos), o Leccionário (para as leituras).
De todos estes livros, achei que a iconografia desta estampa se encaixava num Breviário ou no Saltério. Faltava agora verificar se essa intuição correspondia à verdade. Fiz umas quantas pesquisas na Biblioteca Nacional, mas não encontrei breviários digitalizados do século XVIII, período em que presumo, que esta estampa tenha sido impressa.
Depois, lembrei-me que na biblioteca onde trabalho há uns quantos breviários dos finais do séc. XVIII, inícios do XX. Fiz uma pausa no serviço e em vez de comer um kit-kat fui espreita-los e de facto encontrei um breviário romano, editado em Lisboa, na Tipografia Régia, em 1800, com uma estampa com algumas semelhanças com à minha, antecedendo o capítulo Psalterium.
Em suma, confirmei a minha impressão que esta estampa com o rei David ilustrava um livro de ofício divino, mais exactamente um Breviário romano, da qual ela foi certamente retirada.














