sábado, 28 de novembro de 2020
Um candil de azeite ou uma forma imemorial
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
A pobre Balbina Felicíssima ou uma genealogia dos desafortunados
Nas suas memórias, a Yourcenar escreveu que começamos por fazer genealogia levados por um sentimento de vaidade. Porém à medida que exploramos as genealogias de todos os ramos e nós temos 4 avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 tetravôs, número que se vai multiplicando à medida que recuamos no tempo, chegamos rapidamente a uma sensação de abismo, perante o mar de mortos que temos por detrás de nós. Também nessas explorações percebemos que tanto descendemos de fidalgos unidos pelos laços sagrados do matrimónio, como de gente rude dos campos, que consumou os seus amores num celeiro ou ainda de judeus, padres ou talvez até dos bastardos de um rei.
Recentemente decidi explorar um dos ramos da família da minha mãe, gente sem os pergaminhos da família Montalvão, do meu lado paterno. A minha bisavó materna, Graça Pires de Morais era filha ilegítima e depois de a sua mãe morrer, quando tinha apenas 4 anos, o seu pai, Francisco Germano Pires, que era um homem abastado, levou-a consigo para Vinhais, onde viveu na sua companhia, até à idade dos sete anos, momento em que o pai a internou no recolhimento das Oblatas da Mofreita. Viveu nessa casa religiosa destinada a raparigas pobres até aos 29 anos e só casou aos 31 anos com o meu bisavô, um matrimónio contrariado por ambos os pais.
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| O recolhimento das Oblatas da Mofreita. A Maria da Graça será uma das jovens ou meninas do grupo |
Resolvi apurar mais alguma coisa desta bisavó cuja infância e juventude pareciam-me obviamente infelizes. Encontrei o seu assento de baptismo na paróquia de Sobreiró de Baixo, freguesia do Concelho de Vinhais e lá se encontra registado o seu nascimento no dia 2 de Março de 1859, tendo sido baptizada, no dia 6 do mesmo mês. Era filha de Balbina Felicíssima e de pai incógnito e neta materna de Angélica Maria, de Sobreiró de Cima de José Gonçalves, de Sobreiró de Baixo. Neste simples assento, transparece uma certa pobreza. Não há apelidos sonantes, o pároco nem se deu ao trabalho de indicar a profissão da mãe, nem dos avôs, nem usou o Dona antes do nome das mulheres, como era hábito quando se referiam a senhoras de condição nestes registos paroquiais. Esta seria uma família de simples jornaleiros, de que não merecia a pena gastar muita tinta.
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| O assento de baptismo de Maria da Graça |
Também crianças bastardas nesta época e neste meio rural eram um assunto banal para que o padre Raimundo Gomes, que lavrou o assento de baptismo da minha bisavó, perdesse muito tempo com ele. Há um estudo sobre demografia e estrutura familiar da paróquia de Santalha, uma aldeia do Concelho de Vinhais, não muito longe dali e com características semelhantes, em que a autora Berta Gonçalves Morais apresenta números impressionantes. Em Santalha, na década de 80 do século XIX, no conjunto das crianças nascidas 35,2% eram filhos naturais, na década seguinte, atinge a proporção de 40,8% no início do século regista-se a mesma tendência 44,1% e em 1910-19, quase metade das crianças, 46% eram filhos naturais. Portanto o caso da pobre Balbina Felicíssima e da sua filhinha Maria da Graça inscreve-se num padrão social típico de uma época e de um meio.
Nesse obra, intitulada Ruralismo e família em Vinhais: estudo de caso sobre a paróquia de Santalha (1886-1909) a autora refere que umas das razões para essa elevada taxa de filhos bastardos relaciona-se com uma prática, que pretendia evitar fraccionar a propriedade, isto é, apenas a um ou outro filho é consentido o casamento e as terras são herdadas por aqueles que tem descendentes. Os outros filhos ficam solteiros ou seguem a carreira eclesiástica. Talvez a especialista em sociologia familiar, Berta Gonçalves Morais esteja certa, mas creio que também haverá outra razão mais óbvia. Nos meios muitos pobres, ontem como hoje, as mulheres são sempre mais vulneráveis ao assédio ou mesmo à violência sexual.
Mas o que se passava nestas sociedades rurais no interior de Portugal, durante o século XIX escapa um pouco ao nosso juízo contemporâneo.
Se a pobre Balbina Felicíssima baptizou a filha como sendo de pai incógnito e terá assumido o encargo da criança, nos seus primeiros quatro anos de vida, quando morre, é o pai que tomará conta da menina e aos sete anos interna-a no recolhimento das Oblatas da Mofreita. Portanto, a criança não lhe seria tão indiferente como isso, de outra forma deixá-la-ia aos cuidados dos avós, ou simplesmente morrer à fome na rua. Nas Oblatas da Mofreita a menina aprendeu a ler e a escrever, a fazer bordados, rendas e outras artes femininas e creio eu, que alguns rudimentos de latim e francês. Tudo isto era muito bom numa época, em que cerca de 80 por cento da população feminina era analfabeta.
Por outro lado, apesar de ser uma filha espúria, a Maria da Graça usou o apelido do pai, Pires, quando se casou com o meu bisavô em 1889. O mais natural era que assinasse como Maria da Graça Gonçalves, o nome materno. Poder-se-ia ter dado o caso de o Pai a ter perfilhado entretanto, mas no assento de casamento, a minha bisavó é referida novamente como filha de pai incógnito. Depois do casamento passou a assinar por Graça Pires de Morais, nome que se encontra em muitos dos livros, que pertenceram ao Recolhimento da Mofreita e que ela comprou ou mandou trazer a seguir à República. Embora o Francisco Germano Pires não tenha apoiado o casamento, sei através de um pequeno caderno que o meu bisavô, Clemente da Ressurreição Morais escreveu com breves apontamentos sobre a sua vida e os seus antepassados, que acabou por se reconciliar com a filha e passou os últimos anos da sua vida com o casal.
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| A Graça Pires de Morais, com o marido e os filhos |
Tudo isto me faz pensar que a forma como se estruturavam as famílias no século XIX era bem diferente da nossa. Também me comoveu um pouco conhecer a existência desta trisavó, que eu ignorava totalmente a existência, a pobre Balbina Felicíssima, cuja mãe, a minha quarta avó, Angélica Maria, deve ter afrouxado a vigilância sobre ela e deixou-a entregar-se aos desejos de Francisco Germano Pires. Não tenho um retrato, uma peça de louça, um naperon ou uma simples fita que tivesse pertencido à Balbina Felicíssima, nem ela devia ter nada de seu, mas confesso que passei a ter um certo carinho por esta pobre rapariga do campo, que em tempos se deixou seduzir por um homem abastado.
Bibliografia e fontes consultadas:
Ruralismo e família em Vinhais: estudo de caso sobre a paróquia de Santalha (1886-1909) / Berta Gonçalves Morais. Porto, 2003
Arquivo distrital de Bragança: assentos paróquiais de Vinhais e Sobreiro de Baixo
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
Faiança inglesa e faiança espanhola
As peças de que hoje vou escrever, já foram apresentadas aqui há muito tempo. Mas, quando iniciei o blog há já onze anos sabia ainda pouco e fiz algumas atribuições erradas, apresentado peças de faiança espanhola, muito provavelmente da Pickman de Sevillha, como se fossem inglesas. Depois, voltei a escrever sobre assunto e corrigi as atribuições, mas a mesma dúvida se a peça é inglesa ou espanhola, colocou-se-me novamente acerca de um prato coberto, também já aqui apresentado e que eu acreditava ser inglês.
Efectivamente, um seguidor do blog, enviou-me um e-mail, com um prato coberto exactamente igual ao meu, pedindo ajuda para o o identificar e ao olhar para ele com atenção reparei que o motivo central é muito parecido com uma padrão que a Pickman de Sevilha fabricou durante mais cem anos. O motivo central representa uma fonte com uns putti, um lago e um palácio ao fundo. Pensei, será que este prato coberto é afinal espanhol?
| Escudela atribuída à Pickman |
Como os leitores que acompanham este blog sabem certamente, os ingleses foram os primeiros a fabricar faiança de uma forma industrial e em larga escala, com técnicas modernas, como o transfer-way. Posteriormente, ao longo do século XIX invadiram todos os mercados com as suas faianças a preços acessíveis e de grande qualidade, decoradas com paisagens, mais ou menos reais ou fantasiosas.
Um pouco, por toda a Europa, outros fabricantes tentaram fazer concorrência aos ingleses e começam também a produzir faiança de uma forma mecanizada, em grandes quantidades e imitando as decorações inglesas. É o caso da nossa fábrica de Louça de Sacavém, Sargadelos e a Pickman em Espanha, ou Sarreguemines em França.
Resolvi rever então tudo que já tinha pesquisado acerca da Pickman e de Sargadelos, inclusive reler um e-mail que tinha recebido do Museo Belas Artes da Coruña, onde muito gentilmente uma das conservadoras me esclarecia de alguns pormenores deste assunto.
| Faianças atribuídas à Pickman |
Em primeiro lugar há algumas diferenças da decoração da Pickman, em relação a este prato coberto. A fábrica espanhola de Sevilha usou cisnes a nadar no meio do lago e o palácio que se vê lá ao fundo é diferente deste prato coberto As decorações usadas pelos espanhóis na borda deste padrão também não tem nada a ver com esta minha peça. Por fim, a qualidade da faiança do prato coberto é muito melhor que os das faianças espanholas, não apresentando o chamado craquelé daquelas e o seu brilho é quase o da porcelana, mas eu também não conheço assim tão bem as faianças da Pickman, fábrica cujo período de laboração vai de 1839 até aos dias de hoje, para ser tão perentório.
| Este prato coberto tem um brilho que falta à faiança espanhola |
No entanto, ao pesquisar na base de dados dos museus espanhóis, http://ceres.mcu.es encontrei alguns dados que me levaram um pouco mais longe. Segundo a ficha de uma destas peças da Pickman a fábrica espanhola ter-se-ia inspirado numa das decorações do fabricante Inglês, Thomas Godwin de Burslem, (1804-1834).
Fiz algumas pesquisas pelo nome deste fabricante sem resultados conclusivos, mas encontrei uma decoração parecida à usada pela Pickman, o Montezuma pattern, fabricada por outra firma também com o nome Goodwin, a John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871), no site http://www.thepotteries.org/
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| Montezuma pattern, de John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871). Foto de http://www.thepotteries.org |
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| Montezuma pattern, de John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871). Foto de http://www.thepotteries.org |
Aliás este meu prato coberto, bem como o do seguidor do meu blog, apresentam uma pequena letra no tardoz, o "M". Será que este M se reporta ao nome do padrão Montezuma ou é alguma marca de controlo interno ou ainda relativa ao tamanho, por exemplo Medium?
| A marca M , do meu prato coberto |
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| A marca M, do prato coberto do seguidor deste blog |
Em todo o caso, o meu prato coberto não é exactamente igual ao Montezuma da Goodwin ou Goodwin & Co. Pode tratar-se de uma variante do padrão desconhecida do autor do site http://www.thepotteries.org/ ou uma produção de outra fábrica inglesa, pois no Reino Unido também era vulgar duas ou três fábricas produzirem a mesma decoração com pequenas diferenças e estou a lembrar-me de alguns padrões muito populares na indústria inglesa, como o Willow Pattern ou o Asiatic Pheasants, este último produzido por mais de uma dúzia de fabricantes
Em suma, este prato coberto poderá ser inglês, talvez executado entre 1850-1870, mas a sua decoração está muito próxima das produções espanholas da Pickman ou mesmo de Sargadelos. A dúvida acerca da sua origem persiste sempre, pois na segunda metade século XIX, toda a Europa estava em processo de industrialização, as ideias e as formas circulavam rapidamente, surgindo modernas fábricas um pouco por todo lado, produzindo louça à maneira inglesa e o que nos parece à primeira vista britânico, poderá ser espanhol, francês, holandês ou alemão.
Alguns links consultados:
http://www.thepotteries.org/
http://ceres.mcu.es/pages/
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
O círculo de Liberal Sampaio: José Gonçalves Lage
Periodicamente pego no velho de álbum de fotografia em formato carte-de-visite do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935) e retomo a minha tentativa de identificação daqueles personagens, cuja memória o tempo foi apagando quase todos os contornos das suas vidas. Faço postagens no fórum de genealogia, o geneall, pesquiso nos arquivos distritais e no arquivo da Universidade de Coimbra, mas apenas apanho retalhos da vida daquelas pessoas fotografadas no último quartel do século XIX. Ainda assim, opto por publicar no blog estas fotografias e o pouco que descobri delas, porque é uma forma de sistematizar as informações colhidas aqui e acolá e sei que no futuro alguém fará uma pesquisa no Google e escrever-me-á indicando-me mais um dado sobre um dos retratados.
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| O meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio |
Uma dessas personalidades é o Padre José Gonçalves Lage, que por volta de 1880 ou até antes ofereceu uma fotografia ao meu trisavô, com a seguinte dedicatória Ao seu presadissimo amigo como testemunho de sincera e acrysolada amizade, offerece José Gonçalves Lage. Destas palavras podemos inferir que os dois homens foram amigos e talvez próximos. Ambos eram naturais de Sarraquinhos, freguesia do Concelho de Montalegre. Tinham idades próximas. O José Gonçalves Lage nasceu em 1840 e o meu bisavô em 1846. Talvez fossem vagamente aparentados, pois a avó materna do meu antepassado tinha também por apelido Lage, mas isso poderá não quer dizer nada pois normalmente numa aldeia, numa vila ou até mesmo cidade há sempre apelidos muito comuns e característicos da terra. Ambos frequentaram o seminário de Braga e ordenaram-se padres. Partilhavam também o mesmo gosto pela história e pela cultura. Portanto, tinham em comum o suficiente para cimentar uma acrisolada amizade, pelo menos na época em que esta fotografia foi tirada, por volta de 1875-1880. Segundo o Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses Padre José Gonçalves Lage teria nascido em 10.3.1840 e nesta fotografia aparenta ter entre 35 e 40 anos, portanto a fotografia foi presumivelmente executada por volta desses anos.
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| A dedicatória a Liberal Sampaio |
Não há muitos elementos sobre a vida deste padre, apesar de ser autor de pelo menos 23 obras, a maioria manuais escolares, pelos quais aprenderam milhares de alunos. O Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses refere que o Padre José Gonçalves Lage nasceu em 10.3.1840 em Sarraquinhos, mas não consegui encontrar o seu registo de baptismo, nem tão pouco apurar se existia algum parentesco entre ele e o meu trisavô. Segundo o Dicionário de Inocêncio, inscreveu-se no Liceu de Braga em 1856, tendo sido um aluno brilhante. Mais tarde terá ido para o seminário da mesma cidade e no Arquivo Distrital de Braga existe uma referência à Inquirição de genere deste homem, datada de 1859. Este documento era um processo necessário para a ordenação dos párocos. Consistia numa inquirição de testemunhas para comprovar a filiação, reputação, bom nome ou limpeza de sangue, não fosse o candidato ter sangue judeu a correr-lhe pelas veias. O referido documento indica, que era filho de Bento Gonçalves Lage e Ana Gonçalves Pelho e permite-me inferir, que terá tomado ordens nesse ano, em 1859 ou o mais tardar em 1860.
Depois em 1876, este homem volta a aparecer nos registos oficiais. No Arquivo Distrital de Vila Real há um requerimento de passaporte feito em seu nome, em 8 de Fevereiro de 1870, para viajar até ao Brasil. Enfim, não sei o que foi fazer aquelas terras longínquas do outro lado do mar, se foi visitar um parente ou se foi numa missão pastoral. Em todo o caso em 1877 está outra vez em Portugal, pois matricula-se na Universidade de Coimbra, primeiro em Teologia e depois Direito e frequenta essa universidade até 1879, sem terminar nenhum dos cursos. Segundo ainda Inocêncio um incidente da fortuna fê-lo interromper o curso.
Que episódio terá sido esse? Ao investigar a produção literária deste homem descobri que talvez este incidente da fortuna tenha sido a polémica com o livreiro de Coimbra José Diogo Pires, em que este acusa o Padre José Gonçalves Lage de plágio da obras de António Borges de Cardoso de Figueiredo, das quais o livreiro era detentor dos direitos autorais. Esta polémica dará origem a uma série de libelos publicados entre 1883 e 1884, de que a Universidade Toronto guarda cópia digitalizada. A questão iniciada em 1879 terá dado escândalo em Coimbra e o assunto acabou no Tribunal da Relação do Porto. Passados 130 anos deste incidente infortunado é difícil saber qual das partes tinha razão. Os dois textos assinados pelo Padre José Gonçalves Lage são escritos num tom civilizado e polido, referindo que adaptou a obra de Cardoso de Figueiredo, para a tornar inteligível aos seus explicandos e que ela era em si uma compilação dos autores franceses e clássicos. Pelo contrário, o livreiro José Diogo Pires foi grosseiro, cobriu o padre de impropérios, como gatuno, safardana, lorpa de serraquinhos acusando-o de extorsão dos bens de uma senhora, que alugou o quarto ao referido padre e ainda de falsificar habilitações aos candidatos ao seminário no tempo, que estava em Braga. Refere a sua face rapada e modo seráfico dos predestinados para intermediários entre Deus e o homem neste vale de lágrimas em que vivemos. O caso acabou no tribunal da Relação do Porto, mas não sei exactamente o desfecho. Não deve ter sido muito grave para o Padre Lage, que continuou a publicar os seus manuais escolares depois destes acontecimentos, mas é provável que a sua reputação em Coimbra tenho ficado manchada e talvez este incidente o tenho feito abandonar os seus estudos na Universidade daquela cidade.
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| A polémica acerca de direitos de autor com José Diogo Pires está digitalizada na University of Toronto |
Em todo o caso, este Padre José Gonçalves Lage era sem dúvida homem culto, cuja actividade como autor foi bastante significativa, sobretudo entre 1877 e 1901. Escreveu manuais escolares de história, geografia, literatura, retórica e linguística. Ao todo são 23 títulos, conforme o catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, o porbase. O meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio, tinha pelos menos duas das suas obras na biblioteca do Solar de Outeiro Seco, onde residia, as Noções syntheticas de poética e Novissima grammatica portugueza de 1882.
Não consegui encontrar a data da sua morte do Padre José Gonçalves Lage A última obra que escreveu foi em 1901 as Noções elementares de geographia, chronologia e chorographia de Portugal, mas já adaptadas por L. Pinto da Rocha, o que me dá a sensação que já teria morrido nessa data, mas também não encontrei nada por esses anos nos registos de óbito de Sarraquinhos.
Homem das relações do meu trisavô, o padre José Gonçalves Lage desenvolveu uma actividade intelectual significativa no segundo quartel do século XIX. Durante 25 anos, milhares de alunos de Norte e Sul do País aprenderam pelos seus livros e de alguma forma o pensamento deste padre moldou a cultura desses jovens, ainda que tivesse copiado umas coisinhas aqui e acolá. A Novíssima gramática é até citada em quase todos os estudos de história da linguística portuguesa. Mas no momento presente, José Gonçalves Lage parece ter caído no esquecimento e os seus livros tão manuseados, estudados e anotados nos finais do século XIX são hoje os chamados monos das bibliotecas, que nunca são requisitados, nem saem tão pouco das estantes.
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| José Gonçalves Lage. A face rapada e modo seráfico dos predestinados para intermediários entre Deus e o homem neste vale de lágrimas em que vivemos, segundo a descrição de José Diogo Pires |
Obras de José Gonçalves Lage:
Sermões vários 2.o maço [ Manuscrito]. 1804.-1868 (colecção de semões de vários autores entre os quais um do Padre José Gonçalves Lage)
Noção elementar da História Moderna de Portugal / José Gonçalves Lage. Lisboa : Typ. Occidental, 1877.
Rhetorica abreviada, ou synopse do compendio de rhetorica de A. Cardoso Borges de Figueiredo. Coimbra : J. Diogo Pires, 1879.
Noções syntheticas de poetica... / José Gonçalves Lage. Coimbra : Imp. da Universidade, 1880.
Elementos de litteratura classica antiga e moderna / José Gonçalves Lage. Coimbra : Imp. Litteraria, 1881.
Esboço das Literaturas ingleza, alemã e franceza... / José Gonçalves Lage. [S.l. : s.n.]. 1881.
Noção elementar da historia moderna de Portugal... / por José Gonçalves Lage. 2a ed. correcta e augmentada. Coimbra : Impr. da Universidade, 1882.
Noção elementar de chorographia de Portugal / por José Gonçalves Lage. Coimbra : Impr. Independencia, 1882.
Novissima grammatica portugueza, resumida e accomodada ao programma d'instrucção primaria / José Gonçalves Lage. Coimbra : Imp. da Universidade, 1882.
Um pires de doce ou breve resposta ao Plagiato do Livreiro da Sé Velha de Coimbra / José Gonçalves Lage. Coimbra : Impr. Litteraria, 1883.
Apontamentos de oratoria, ou subsidio dos exames de portuguez / José Gonçalves Lage. Coimbra : M. Almeida Cabral, 1883.
Novissima grammatica portugueza : coordenada em harmonia com o programa official dos lyceus / José Gonçalves Lage. 2a ed. Coimbra : M. Almeida Cabral, 1883.
Elementos de oratoria, comprehendendo as prescripções do programma dos lyceus / José Gonçalves Lage. Coimbra : M. Almeida Cabral, 1883.
Noção synthetica de economia politica / coord. por José Gonçalves Lage. Coimbra : Impr. Independencia, 1884.
Duas palavras sobre um exame de peritos e sobre uma minuta de agravos subida à Relação do Porto / José Gonçalves Lage. [S.l. : s.n.], 1884.
Novissima grammatica portugueza, resumida e accomodada ao programma d'instrucção primaria / José Gonçalves Lage. 2a ed. correcta e augmentada. Coimbra : Imp. da Universidade, 1885
Noção elementar da historia moderna de Portugal... : precedida de um resumo da nossa historia antiga / por José Gonçalves Lage. 3a ed. correcta e augmentada. Porto : Livr. Portugueza, 1888.
Noção elementar de história moderna de Portugal... precedida de um resumo da nossa história antiga / por José Gonçalves lage. 4a ed. correcta e augment. Porto : Liv. Portuguesa, 1892.
Noções de geographia e chorographia portugueza / por José Gonçalves Lage. 2a ed. correcta e augment. Porto : Liv. Portugueza, 1892.
Grammatica portugueza elementar, accommodada ao programma de instrucção primaria / José Gonçalves Lage. 4.a edição. Coimbra : Francisco França Amado, 1892.
Elementos de chronologia, de geographia e de corographia de Portugal / por José Gonçalves Lage. Nova ed / accomodada... por L. Pinto da Rocha. Porto : Livr. Portugueza, 1897.
Elementos de História de Portugal / por José Gonçalves Lage. Nova ed / accomodada... por L. Pinto da Rocha. Porto : Livr. Portugueza, 1897.
Elementos de História de Portugal / por José Gonçalves Lage ; ed. lit. L. Pinto da Rocha. Nova ed. Porto : Livr. Portugueza, 1899.
Noções elementares de historia de Portugal / por José Gonçalves Lage ; reformada e accommodada ao programma official d'instrucção primaria por L. Pinto da Rocha. Porto : Joaquim Maria da Costa, 1901.
Bibliografia e links consultados:
Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses
Diccionario bibliographico portuguez / Innocencio Francisco da Silva. - Lisboa : Imprensa Nacional, 1858-1958, vol 12, p. 351-352
Arquivo Distrital de Braga:
http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1352997&ht=jose%7cgon%c3%a7alves%7clage
Arquivo da Universidade de Coimbra
https://pesquisa.auc.uc.pt/details?id=195312&ht=jos%c3%a9|gon%c3%a7alves|lage|direito
Arquivo Distrital de Vila Real
https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1007327
Biblioteca da Universidade de Toronto https://archive.org/details/umpiresdedocedua00lage/page/n1/mode/2up
Mais sobre José António Gonçalves Lage
domingo, 11 de outubro de 2020
No tempo das cerejas: uma imitação de Meissen
O meu amigo Manel comprou recentemente este conjunto em porcelana, representando uma cena campestre em que três galantes jovens apanham cerejas, enquanto dois querubins assistem. É uma cena muito ao gosto do século XVIII, no tempo em que a rainha Maria Antonieta de França e os seus amigos mais próximos, brincavam aos camponeses na pequena aldeia, que aquela soberana mandara construir nos parques de Versalhes, o hameau de la Reine. Até as roupas destas pequenas figuras em porcelana sugerem esse período.
Por exemplo, umas das jovens, enverga um chapéu de palha, adereço que a pintora Élisabeth Vigée Le Brun usou num auto-retrato e que depois Maria Antonieta tornou moda entre todas as elegantes da Europa.
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| Retrato da Condessa de Verdun por Élisabeth Vigée Le Brun. Museu Nacional de Arte Antiga |
Esta cena provavelmente inspirou-se num das obras de François Boucher 1703-1770 La cueillette des cerises, ou numa tapeçaria de de Jean Baptiste Huet, executada a partir de uma obra de Boucher.
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| François Boucher 1703-1770 La cueillette des cerises |
Na parte de trás da peça, apresenta uma marca com as espadas cruzadas de Meissen, essa prestigiosa fábrica de porcelana alemã, que celebrizou e popularizou as figurinhas de porcelana toda a Europa.
| As marcas da peça |
Mas o Manel e eu sabíamos de antemão, que esta figura de porcelana não era do século XVIII, nem tão pouco de Meissen. Porcelanas do século XVIII e sobretudo Meissen não se apanham em mercados de velharias. São peças raras e que atingem preços muito elevados nos bons antiquários. Presumimos desde logo, que fosse uma peça dos finais do XIX ou inícios do XX, produzida na Alemanha, na região do Saxe ou da Turíngia, imitando as figurinhas de Meissen, destinada à boa burguesia, que queria também ter no seu lar essas figuras de porcelana, à semelhança das residências aristocráticas, onde existia normalmente um salão só para exibir essas colecções, as chamadas salas do Saxe.
Pessoalmente achei de imediato que esta peça seria da Volkstedt, que nos finais do XIX e inícios do XX produzia muitas figurinhas destas, imitando o período de ouro de Meissen, usando algumas marcas inspiradas nas célebre espadas cruzadas daquela prestigiosa fábrica.
Procurei na internet saber quais as marcas usadas pela Volkstedt, mas não havia nenhuma igual a esta e pesquisei no google por cherry pickers em combinação com german pocelain figurines mas não me apareceu nada igual. Só uma figurinha genuína de Meissen, do século XVIII, representado uns jovens galantes, apanhando cerejas, mas não tinha nada a ver com esta peça do Manel. Apenas confirmei que a peça do meu amigo Manel era uma imitação de Meissen.
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| Uma genuína peça de Meissen |
Decidi então consultar alguma bibliografia, pois nem tudo se encontra na internet e abri a obra German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947, suspeitando que houvesse um capítulo dedicado às imitações e de facto na página 46 há uma entrada sobre marcas semelhantes às espadas cruzadas de Meissen, onde consta uma marca igual à peça do Manel, atribuída ao fabricante francês Samson, de Paris.
| German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947 |
Refiz então a minha pesquisa na internet por Samson, Cherry pickers e com efeito encontrei uma peça igual à esta num antiquário francês o Biscardieux Bordeuax, marcada com umas espadas de Meissen e identificadas com sendo da Samson, dos finais do século XIX. Fiz mais umas pesquisas aqui e acolá em sites de vendas de antiguidades e confirmei, que todas as figurinhas de porcelana marcadas com as espadas cruzadas, mas com um tracinho ao meio eram da Samson, Edmé et Cie, fábrica fundada em 1845 em Paris e que se dedicou a imitar as cerâmicas mais prestigiadas e mais procuradas do mercado de então, fossem elas porcelanas chinesas da família rosa ou verde, japonesas ou europeias como Worcester, Chelsea, Sèvres e Meissen ou ainda a majólica italiana. Há até uma certa discussão entre os peritos se esta firma Samson, Edmé et Cie fabricava cópias ou verdadeiras falsificações. Em todo o caso, muitas dessas peças foram vendidas como originais ao consumidor menos atento.
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| Peça à venda em http://www.briscadieu-bordeaux.com/ |
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| Peça à venda em http://www.briscadieu-bordeaux.com/ |
Relativamente à figura de porcelana do Manel ela é afinal francesa, fabricada pela Samson, Edmé et Cie provavelmente dos finais do XIX ou inícios do XX. Imita sem dúvida a porcelana de Meissen e evoca esse século XVIII francês, libertino e galante.
Alguma bibliografia e links consultados:
German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947
https://en.wikipedia.org/wiki/Edm%C3%A9_Samson
http://www.briscadieu-bordeaux.com/html/fiche.jsp?id=8479872&np=2&lng=fr&npp=100&ordre=2&aff=1&r=
https://www.catawiki.com/l/19759181-samson-meissen-porcelain-group-paris-late-19th-century
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Décimo primeiro aniversário do blog velharias do Luís
| Um aspecto da minha sala de jantar |
Por vezes quem está ai do outro lado do monitor, pergunta-me se eu sou saudosista ou se vivo mais no passado que no presente. Naturalmente que um blog sobre velharias é sempre uma coisa mais virada para o passado e com uma conotação algo saudosista. A minha formação académica é em história e sou bibliotecário num museu e digamos que a conservação da memória do passado faz parte da minha profissão. Vivo rodeado de livros escritos por gente que já morreu ou por objectos executados há mais de cem anos, duzentos ou trezentos anos. Mas o que aqui escrevo é a minha versão pessoal do passado, de uma forma livre e sem preocupações de usar uma linguagem académica.
| A minha trisavô. No último quartel do século XIX a esperança de vida era baixa, mesmo entre a fidalguia. |
Tive talvez a sorte de ter nascido numa família antiga, com um passado histórico de quatro séculos. Mas isso poderia não querer dizer nada. Há muita gente com apelidos sonantes e que se está nas tintas para a história. Digamos que para elas um bom apelido é como se fosse uma gravata Armani ou Yves St. Laurent. Mas na família paterna havia um gosto pela história, que remonta ao meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que me foi transmitido pelos meus avós e depois pelo meu pai. Continuei essa tradição aqui e evoco muitas vezes esse passado familiar, um tempo que já não conheci, talvez de uma forma algo idealizada. O passado empresta sempre uma certa patina romântica aos acontecimentos, o que por vezes não corresponde à realidade, que era bem mais crua e cruel. Recentemente, andei outra vez às voltas, com a vida da minha trisavó, a Maria do Espírito Santo, uma personalidade interessante, que manteve uma ligação amorosa com um padre e descobri que quer ela, quer os seus pais e a maioria dos seus irmãos morreram antes dos cinquenta e poucos anos. No terceiro quartel do século XIX, mesmo entre uma família abastada e fidalga a esperança de vida era baixa e os cuidados médicos incipientes. Não acredito de todo que os tempos passados tenham sido melhores que os de hoje. Também não tenho qualquer nostalgia da minha adolescência passada num bairro incaracterístico e mesquinho de Lisboa, onde todos viviam segundo as regras do parece bem e do parece mal e do quê é os outros vão pensar, nem tão pouco me apetece recordar a escola primária, onde a tabuada era aprendida à custa de estaladas e reguadas.
Não vivo no passado e não serei um saudosista, mas acredito na importância de conservar a memória daquilo que já passou. Como a Yourcenar escreveu na obra De olhos abertos, "Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana".
| Alguns retratos de família |
terça-feira, 22 de setembro de 2020
A varanda do adeus
Tenho muitas fotografias da minha avó materna, tiradas em vários momentos da sua vida, na infância e na idade adulta, mas esta apresenta-a mais ou menos com a idade com que ainda a conheci, com cerca 70 e pouco anos. Morreu em 1969 e era eu miúdo, teria uns seis anos. Aliás, nem sei se me recordo ainda desta avô, ou se a memória que dela tenho foi construída a partir desta fotografia, que se encontra na casa de Vinhais e que me habituei a ver nos quarto dos meus pais desde sempre. A nossa memória de acontecimentos da infância é muitas vezes enganadora e confundimos filmes e fotografias, ou relatos que ouvimos repetidas vezes acerca desta ou daquela pessoa com as nossas próprias recordações. Em todo o caso, este plano, este cenário, de alguém debruçado na balaustrada da varanda sempre foi muito usado nas fotografias da família. Creio que há fotografias de quase todos os membros da família, de quatro gerações seguidas, debruçados nesta balaustrada e tiradas por alguém, que está cá em baixo. Em todas as grandes casas de família há sempre uns cenários preferidos para as fotografias e encontramos instantâneos tirados no mesmo sítio ao longo de 40 ou 70 anos.
A localização em que a minha avó Adelaide (1894-1969) se encontrava nesta fotografia era também um sítio preferido pela família para saudar alguém, que chegava ou alguém que partia. Quando chegávamos de Lisboa, depois de uma viagem indeterminável de 550 km por estradas nacionais, cheias de curvas e buracos, havia sempre alguém que assomava à varanda para nos receber e saudar. Da mesma forma, quando terminávamos as férias e partíamos de Vinhais, havia também gente naquela varanda para se despedir. Creio que ali vi a avó Adelaide, provavelmente pela última vez na minha vida, a tia Maria Adelaide, a tia Chica e a minha própria mãe na varanda a dizerem-nos adeus. Enquanto tinham saúde, desciam cá em baixo para de despedirem, depois quando envelheciam e lhes custava a andar, ficam lá em cima na varanda a fazerem as suas despedidas.
Nesta imagem, os olhos da minha avó parecem estar prestes a encherem-se de lágrimas, o que reforça a mais a sensação de que a fotografia foi feita numa dessas emotivas despedidas de filhos e netos, que partiam para Lisboa, para o Porto, Luanda ou até para o Rio de Janeiro. Na verdade, talvez não seja a partida de mais uma filha ou filho a razão do seu ar triste, pois a minha avô, tinha o saco lacrimal roto. Recordo-me de uma vez a minha tia Maria Adelaide me ter mostrado o lencinho todo amarrotado, que a sua mãe usou ainda para enxugar as lágrimas, umas horas antes da sua morte súbita. Estava guardado como uma pequena relíquia, numa caixinha da cómoda do quarto grande. A tia Maria Adelaide nunca o lavou, pois queria guardar as últimas lágrimas da mamã. Recentemente, já passados muitos anos, mas muitos anos mesmo, lembrei-me de procurar esse pequeno lenço com as últimas lágrimas da minha avó na cómoda do quarto, mas já não o encontrei. Creio que a Tia Chica ou a minha mãe, que eram menos sentimentais e mais práticas, mandaram lavar o pequeno lenço e arrumaram-no numa gaveta qualquer.
Este Verão quando regressei a Vinhais, resolvi digitalizar esta fotografia e tê-la comigo, pois é uma imagem muito emotiva, que simboliza esse tempo em que existia sempre alguém a saudar-nos ou despedir-se de nós na varanda da casa de Vinhais. Hoje a casa está vazia durante o ano inteiro e só a abrimos nas férias durante uns breves quinze dias. No momento da partida, quando olhamos lá para cima, para a varanda, não há ninguém a a dizer-nos adeus. Para trás deixamos o silêncio e as ausências de uma grande casa familiar nos seus últimos anos de vida.


















