O nosso amigo do blog
http://o-outro-bau-do-zejulio.blogspot.pt/ pediu-me para levar comigo para o Algarve, um dos meus Cristos. O Zé Júlio queria fotografa-lo no oratório de uma casa abandonada, procurando reconstituir um desses pequenos espaços de devoção tão característicos das antigas casas rurais algarvias.
Lá levei o meu Cristo no carro para o Algarve e fomos com o Zé Júlio visitar umas dessas aldeias abandonadas do Barrocal algarvio. Para quem não saiba o Barrocal, designa a extensão de terreno entre a serra e a costa. É uma zona já de colinas, muito arborizada, com oliveiras, amendoeiras e alfarrobeiras e ainda pouco tocada pelo turismo.
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| O meu Cristo é uma peça do século XIX, conhecido por Cristo bacalhau, por apresentar uma forma espalmada. A cruz já foi comprada posteriormente. |
Nessa aldeia abandonada, tal como em muitas outras povoações do barrocal, em cada uma das casas existe um pequeno nicho embutido na parede, que era onde as famílias colocavam o crucifixo, o Pai do Céu. Mas a particularidade, destes oratórios é que se situam sempre na divisão pela qual se penetra na casa. São a primeira coisa que o visitante vê quando franqueia a porta de entrada, o que contraria um bocadinho a tendência das casas portuguesas, de que o oratório se situasse numa parte mais privada da habitação.
No Livro de D. Duarte, O Leal Conselheiro, que descreve a compartimentação das casas senhoriais, a transcâmara ou zona de vestir e do oratório, era a parte mais íntima da casa onde os moradores se retiravam para ler, rezar ou meditar e antes de se chegar a essa divisão, passavam-se por umas quantas salas.
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| O pequeno oratório num dos quartos do Solar dos Montalvões |
No Solar da família dos Montalvões existiu um destes nichos embutidos na parede, mas localizava-se num quarto de dormir, numa zona resguardada da habitação. Na casa da família da minha mãe, que é uma construção dos anos 30, existe ainda um oratório de madeira, que está colocado no último quarto da casa, depois de uma sucessão de duas salas e dois quartos, repetindo um esquema de distribuição dos espaços antiquíssimo, já descrito por D. Duarte.
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| O nicho com o pai do Céu situa-se sempre na divisão, pela qual se entra na casa, como que uma afirmação de fé cristã, numa região onde o Islão terá sido praticado em segredo, muitos anos e muitos anos depois da Reconquista |
Claro, as casas destas aldeias algarvias são coisas simples, populares, mas não deixa de ser curiosa a distribuição dos espaços. Apresentam duas ou três divisões na frente, sendo que a cozinha e a parte dos animais estão nas traseiras. O nicho com o pai do Céu situa-se sempre na divisão, pela qual se entra na casa, como que uma afirmação de fé cristã para os vizinhos ou forasteiros numa província, onde o Islão terá sido praticado em segredo durante um considerável tempo depois da Reconquista em meados do século XIII. Mas enfim, não há quaisquer provas, que este hábito de colocar o oratório na primeira divisão da casa seja uma sobrevivência de uma prática de gente convertida recentemente ao Cristianismo e queria afirmar aos estranhos a sua ortodoxia. É apenas uma mera presunção que partilho com o Zé Júlio.
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| Na minha casa, o Cristo carece da simplicidade monacal dos oratórios das aldeias do barrocal. |
Em todo o caso, gostei muito e ver o meu Cristo num destes oratórios algarvios. Ganhou um cenário cheio de simplicidade monacal, que lhe falta na minha casa.
Depois da visita à aldeia abandonada, encontramos a passear no campo um casal de alemães reformados, muito afáveis, que vivem no Algarve. O Zé Júlio, que é um rapaz muito tímido, meteu conversa com eles e em três tempos fomos visitar a sua casa, ali perto, uma moradia muito simpática, que reaproveitou as construções existentes, integradando-se perfeitamente na paisagem.
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| Um outro cenário para o meu Cristo: um nicho reutilizado de uma antiga habitação por um casal alemão |
No interior, existia também um nicho, reutilizado de uma antiga casa e a senhora alemã quis também experimentar colocar ali o meu crucifixo e ter a sensação, ainda que por instantes, que o pai do céu algarvio estava a abençoar aquele lar. Fiquei com a ideia que a senhora devia estar a convencer o marido, que talvez seja um luterano sério ou ateu convicto, a comprar um cristo muito católico para aquele espaço. Mas julgo que já sou eu a romancear a coisa.
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| As lágrimas de um genuíno Pai do Céu algarvio |
Alguns dias depois, de ter regressado são e salvo a casa com meu cristo, o Zé Júlio enviou-me uma fotografia de um pai do céu genuinamente algarvio, daqueles que anteriormente preenchiam os nichos. É boneco muito ingénuo, com lágrimas de sangue, que nos toca pela sua simplicidade e por aquilo que representa, um mundo rural, que permaneceu igual durante muitos séculos e hoje está definitivamente moribundo.