Sinto sempre um atracção por tudo o que é pequeno, estanho e insólito. Talvez esta atracção pelo pormenor se explique minha profissão, de bibliotecário, que vive de minúcias, ou porque vivi sempre em casas pequenas ou ainda porque possivelmente mantive o gosto que as crianças sentem pelos carrinhos, as casas e os bonecos, isto é, as miniaturas da realidade. Por isso quando vi no chão de uma feira de velharias este objecto estranho, insólito, mas pequeno, fiquei fascinado e senti que aquilo fazia parte do ambiente da minha casa. Contudo pediram-me um preço relativamente alto e deixei-o por lá, mas a fiquei sonhar com ele. Voltei à feira passado um mês e encontrei de novo esta figura, quimérica, assustadora a olhar para mim, mas desta vez regateie um bom bocado e conseguia-a por um bom preço.
Não sabia bem o que era, mas suspeitei que fosse um ornamento de uma fonte. A cavidade semicilíndrica do fundo serviria para se adaptar ao cano da água. A oxidação da liga metálica na qual ela foi feita também me levou a acreditar nessa hipótese. Aliás, poucos dias depois de ter comprado esta peça encontrei à venda, no e-bay, em França uma figuras destas, cortada em semicírculo na parte inferior e que era precisamente um ornamento de fonte.
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| Rare & Ancien mascaron de fontaine en fonte datant du XIX éme siecle . legere oxydation - patine - reste salissures - usures - usure d'usage .Dimensions (env ) 17,7 cm de Hauteur - 17,3 cm de large - 5,5 cm de diametre d'espace au niveau de la bouche pour le robinet |
Mas quis saber mais e fiz algumas pesquisas no google por Mascarão, termo pelo qual na arte são conhecidas estas máscaras, grotescas deformações de rostos humanos com elementos animais e vegetais à mistura e encontrei esta definição na wikipedia francesa, da qual fiz uma adaptação livre, :
Em arquitectura, um mascarão é um ornamento representando geralmente uma figura humana, por vezes assustadora cuja função original era afastar os maus espíritos, impedindo-os de entrar nas casas. Estes ornamentos eram colocados nas pedras de fecho dos arcos das janelas ou das portas e ainda sobre os lintéis. Alguns mascarões eram a aplicados sobre as fontes e das suas bocas jorrava água.
Esta ideia de que os mascarões afastariam os maus espíritos começou na Grécia antiga, onde já eram usados nos edifícios, mas também na cerâmica e em outros objectos do quotidiano e este costume teve origem no mito de Perseu e Medusa.
Esta Medusa era uma senhora de convívio pouco recomendável, cujo olhar era capaz de petrificar quem a fixasse. Perseu foi encarregado de a matar e armou-se com uma espada e um escudo com um espelho, para evitar o mortífero olhar. Depois de ter decapitado a criatura, cujo cabelo era formado por serpentes, ofereceu a cabeça à deusa Atena, com a qual ornamentou o seu escudo, a égide, conseguindo com isso poder um divino acrescido. Houve como que uma transferência de poderes de Medusa para Atena. O que era um poder maléfico tornou-se num poder benigno de protecção.
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Perseu e Medusa por Benvenuto Cellini. 1545. Florença
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Entre outras coisas este belo mito explica no fundo a função da máscara. Quem coloca uma máscara, ainda que no Carnaval ganha a características da personalidade representada. Da mesma forma, um feiticeiro africano que enverga uma máscara adquire os poderes da divindade que ela representa.
Com a cristianização do mundo antigo toda esta história da Medusa, de Perseu e das máscaras foi morrendo e sendo esquecida e os pensamentos viram-se para Cristo, para a Virgem e para as relíquias dos mártires.
No renascimento, os escultores, pintores e arquitectos italianos redescobriram a Antiguidade e voltaram a usar nas artes estas máscaras, inspirando-se nas ruínas dos templos e casas antigas, que encontravam por toda a parte na sua pátria e esta voga foi-se difundido por toda a Europa. Aliás o termo mascarão entrou nas línguas europeias por via do italiano, mascherone, que designa um ornamento em forma de máscara que decora uma fachada.
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| Fontaine dans la cour intérieure de l'Hôtel Cail, rue de Lisbonne, paris. Pierre-Émile Charrier (1865). Foto Wikipedia |
Claro, no Renascimento e nos séculos seguintes, os mascarões já tinham perdido praticamente o sentido mágico de protecção, que tinham tido na Grécia ou na Roma antiga e estas figuras, usadas no barroco ou no século XIX na decoração do mobiliário, na arquitectura ou nas fontes, passaram a ter um valor meramente decorativo. No entanto, dada a importância da água na vida humana, talvez muita gente ainda tivesse a superstição, de que colocando estas máscaras nas fontes estariam a proteger um bem tão essencial de ser envenenado ou contaminado pelos maus espíritos.
Este Mascarão está agora na parede da minha sala reformado das suas
funções de protector das águas, mas cada vez que olho para ele lembro-me
do belo mito de Perseu e Medusa que ele ainda evoca vagamente.
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| O Mascarão pertencente à Ana Silva, Era uma das pegas de uma daquelas banheiras antigas com os pés em garras e as costas sobrelevadas. |
Em suma, estava mais ou menos convencido, que este mascarão tinha sido arrancado de uma fonte, quando uma seguidora deste blog, a Ana Silva, comentou que tinha exactamente uma peça igual, proveniente de uma banheira antiga, daquelas com os pés em garras e costas sobrelevadas. A banheira não tinha tubagem e estes mascarões serviriam de pegas para a transportar de uma divisão para a outra. A Ana ainda se lembra de ver pega colocada nessa banheira, decorada com uma pintura floral de cores vivas, que deve ter sido lindíssima a julgar pelo tom nostálgico da descrição que dela me fez. A banheira estava no primeiro andar de uma casa senhorial, provavelmente dos finais do séc. XVIII,
inícios do século XIX, junto ao castelo de Almada. Essa velha casa familiar entretanto ruiu e hoje, no seu lugar está um desses prédios modernos, com que adoramos estragar as nossas cidades.
Não andei muito longe da verdade ao relacionar esta peça com a água, mas foi a Ana Silva que me permitiu desvendar o significado desta peça misteriosa e encontrar a história que ela conta. Certamente o meu mascarão estava também numa casa antiga, cujo recheio foi disperso e nesse momento desapareceram para sempre as histórias e cenas familiares de gente, que viveu há muito tempo.