quinta-feira, 3 de julho de 2014

Inauguração de um salão ao estilo Luís XVI na casa de bonecas da Carminho

salão ao estilo Luís XVI
 

A minha filha já não brinca com bonecas. Vai fazer treze anos, passa a vida no facebook, agarrada ao telemóvel e já põe lápis nos olhos. Eu, pela minha parte, sou homem, já com cinquenta anos e também não brinco com bonecas. Mas, apesar disso, decidi deitar mãos à obra e fazer mais uma modificação na casinha de bonecas da minha filha Carminho e redecorar a sala de estar, em estilo Luís XVI.
As salas de jantar e de estar da casa de bonecas da Carminho
Para os menos conhecedores de história, Luís XVI foi rei de França entre 1774-1791 e durante o seu reinado desenvolveu-se um estilo na arquitectura e sobretudo nas artes decorativas, que tomou o seu nome.É um estilo inspirado na Grécia e em Roma, com linhas direitas, mas muito ligeiro, feminino mesmo, destinado sobretudo a seduzir.

Para revestir as paredes usei um papel de parede comprado no Hospital das bonecas, que reproduz as antigas boiseries francesas. As boiseries são apainelados em madeira, que se tornaram um elemento muito característico da decoração de interiores em França, nos séculos XVII e XVIII. As mais mais antigas eram deixadas da cor original da madeira, mas posteriormente passaram a ser pintadas apresentando-se os frisos em dourado. Em Portugal, podemos admirar um desses apainelados franceses no Museu Nacional de Arte Antiga, a célebre sala doada pelo milionário Atenor Patiño, muito embora seja ao estilo do reinado anterior, de Luís XV. 
Representação gráfica da Sala Atenor Patiño no Museu Nacional de Arte Antiga
Em França, claro, são inúmeros os exemplos de salas com boiseries. As mais célebre são as do Palácio de Versalhes, mas o Musée des Arts décoratifs, em Paris possui uns quantos destes salões, aliás, foi neste museu que fiquei irremediavelmente apaixonado por estas boiseries e na impossiblidade de montar um desses apainelados no meu apartamento, reproduzi um destes interiores na casa de bonecas da minha filha.
Boiserie Luís XVI no Palácio de Versalhes. Foto de http://godsandfoolishgrandeur.blogspot.pt
Montar esta boiserie na casinha de bonecas da minha filha ainda me deu trabalho. Passei a tarde de um dia de folga, a recortar as várias partes do papel, de forma a adaptar os vários painéis ao espaço. Usei cola UHU em em forma de batton. 

Também em estilo Luís XVI, o mobiliário foi comprado no Hospital das Bonecas, aqui em Lisboa. Pintei-o de dourado, estofei-o com o tecido de uma gravata de homem que comprei na loja dos chineses e coloquei-lhe um galão dourado. A chaminé comprei-a on-line numa conhecida casa de brinquedos em Inglaterra.

Tudo isto poderá parecer um trabalho inútil feito por um homem maduro para uma filha que já não brinca com bonecas. Mas, quando a minha filha crescer e for morar sozinha, levará a casa de bonecas com elas, e creio, que cada vez que olhar para ela, se recordará desta prenda do seu pai e dos momentos agradáveis ou mais dolorosos que passou em minha casa. No fundo queremos ser sempre lembrados depois de mortos.
Uma boneca travessa derrubou o candelabro no salão Luís XVI

domingo, 29 de junho de 2014

Mais uma travessa de faiança inglesa "well-and-tree"



Volto hoje a apresentar mais uma travessa de faiança inglesa, usada para servir para servir carne assada, dita de well-and-tree.  Traduzida à letra esta expressão inglesa, quer dizer poço e árvore, ou seja, ao longo da travessa correm uns sulcos, formando o desenho de uma árvore, que terminam numa concavidade, o poço. Este desenho muito curioso destinava-se a que o molho da carne escorresse para a concavidade onde era muito mais fácil recolhe-lo com o auxílio de uma colher.

A travessa esta marcada no verso,  T. Fell & Cº,  marca que foi usada pela companhia Thomas Fell entre 1830-1890. Esta firma estava sediada em Newcastle e fornecia com os seus serviços de jantar e de chá o Nordeste inglês, bem como o mercado báltico e pelos vistos também o Sul da Europa, pois o meu amigo Manel, comprou-a por cá, na Ocidental Praia Lusitana. Esta companhia fabricou os padrões que estavam na moda no século XIX, como o Wild Rose, o Willow e o Asiatic Pheasants, sendo estes dois últimos, também por cá produzidos, nomeadamente  por Sacávem, entre outras fábricas e ficaram conhecidos pelos nomes, padrão do salgueiro e faisão, respectivamente.

A Tomas Fell fabricou também outros padrões menos vulgares, como o padrão desta travessa, o Bosphorus, embora também não tenha sido inteiramente original nesta escolha,  pois a firma britânica Ralph Hall & Co também produziu o Bosphorus, entre, 1841-1849, numa versão muitíssimo semelhante. 
Travessa Bosphorus da Ralph Hall & Co. 1841 - 1849. Propriedade da Connecticut Historical Society


Este padrão Bosphorus, tal como o nome indica, inspira-se no estreito do Bosfóro, que liga o mar Negro ao mar de Mármara e marca o limite dos continentes asiático e europeu na Turquia. Mas é uma visão fantasiosa, povoada por jovens casais galantes, passeando em barcarolas românticas com edifícios exóticos ao fundo, que pouco terá a ver com aquele estreito, que separa a Europa da Ásia. Portanto, quem foi o responsável pelo desenho desta travessa nunca pôs certamente os pés em Istambul, mas talvez tenha tido acesso às estampas de Thomas Allom, publicadas  na Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor, em 1838, as quais poderá ter interpretado livremente, usando elementos daqui e dali, sem grandes preocupações de rigor.
Estampas que poderão ter servido de inspiração longínqua para o padrão desta travessa. Foram extraídas da obra Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London, 1839
Este Tomas Allom (1804-1872) foi um arquitecto inglês que se distinguiu sobretudo pelos desenhos de paisagens, executados ao longo do seu percurso de viajante incansável e que serviram para ilustrar livros de viagens,  que estavam muito na moda no início do século XX. Este Senhor viajou intensamente pelo seu próprio pelo seu próprio País, do qual deixou inúmeros desenhos publicados na obra A topographical history of Surrey, da qual já reproduzi no blogue uma estampa, e ainda viajou pela Europa e pelo Oriente e um dos seus álbuns mais conhecidos é precisamente publicado com desenhos executados em Istambul e no Império Otomano.
Uma imagem da obra Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London
Esse livro intitulado Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London, 1839 saiu em dois volumes e creio que algumas das suas estampas foram a inspiração longínqua desta travessa.


domingo, 22 de junho de 2014

Figurinha em biscuit: piano baby

Sei bem que estes bibelots em biscuit, que estavam tão na moda nas casas burguesas dos finais do século XIX e inícios do século XX são um bocadinho kitch. Falta-lhes a autenticidade dos pratos ratinhos ou a elegância depurada da porcelana de Paris das primeiras décadas de oitocentos, mas apresentam um charme muito burguês ao qual, confesso, não consigo resistir. E com efeito, na semana passada cedi à atracção exercida por esta menina em biscuit, na feira de Estremoz, e trouxe-a comigo para casa.
Em frente ao espelho
Quando a comprei achei que fosse uma rapariguinha, pelas formas arredondadas do corpo, pelo cabelo e até pelo sinal que ostenta no rosto. Contudo nos finais do século XX, inícios do século XX, se olharmos para as fotografias da época, temos dificuldade em distinguir os meninos das meninas. Eles usavam também uma espécie de vestido e muitas vezes o cabelo era-lhe cortado à pajem. Ainda recentemente enviei a uma prima minha uma fotografia antiga de família, de uma menina tirada cerca de 1900, sem nenhuma legenda, pedindo que me ajudasse a identifica-la e afinal quando recebi a resposta da prima, descobri que se tratava do seu pai ou de um dos seus tios. No entanto, se no início do século XX os vestidos ou bibes eram comuns aos rapazinhos e às meninas, os calções eram uma indumentária masculina, conforme me chamou a atenção a Maria Andrade. Em suma, é mais provável, que esta figurinha represente um menino.
Um menino da minha família cerca de 1900. Nas fotografias antigas temos dificuldade em distinguir os meninos das  meninas pela indumentária
Em todo o caso, seja ele menino ou menina, está muito animado, com umas roupas divertidas de festa, meias às riscas e um barrete engraçado. julgo que está a fazer balões de água com sabão.

Estas figurinhas em biscuit de meninos e meninas em posses travessas, pintadas e fabricadas com uma grande mestria técnica são normalmente de fabrico alemão e destinavam-se a ornamentar os pianos das salas vitorianas. Estes pianos eram cobertos com panos decorados com franjas, os chamados mantons de Manilha e por cima colocavam-se estas figurinhas, retratos de famílias, jarras de flores e outra cangalhada, num gosto surchargé, como dizem os franceses.  

Sala vitoriana de casa burguesa. A decoração é sobrecarregada. Por cima do piano um pano com franjas e uma figurinha em biscuit ou porcelana.
Em função do local onde eram normalmente dispostas, estas figurinhas ficaram então conhecidas pela designação de pianos babies. Eram normalmente alemães, produzidos sobretudo da região da Turíngia e a mais famosa fábrica foi a Gebrüder Heubach (1843-1938), cujos pianos babies, quando ostentam marca, atingem preços exorbitantes nos Estados Unidos.

Piano Baby de Carl Schneider.
Mas outras fábricas também se distinguiram pela qualidades das suas figurinhas de biscuit, como a Reichmannsdorf (1881-1964) e ainda Carl Schneider Erben (1886-1951).  Além destes bibelots, estas casas dedicavam-se também ao fabrico de bonecas com a caras e as mãos também em biscuit e que hoje são procuradíssimas pelos coleccionadores de brinquedos por causa da sua elevada qualidade.
Tal como muitas figurinhas em biscuit alemãs, este meu piano baby apresenta como marca apenas um número, 2413
No entanto, muitas destas figurinhas encantadoras não estão marcadas, ou então apresentam apenas números de fabrico, que se reportavam talvez às séries ou aos artistas. Esta ausência de marcas parece-nos um pouco inexplicável por parte de um povo tão metódico e organizado como os alemães. Mas de facto há uma razão política para isto. Desde 1870, quando a Alemanha invadiu a França e cercou Paris, o militarismo prussiano passou a ser visto como uma ameaça cada vez mais maior pela Europa, receio que se foi alargando ao mundo anglo-saxónico, sobretudo de depois de 1900, quando os alemães começaram a competir com a Inglaterra em poderio naval. Essa antipatia por tudo o que era alemão, traduziu-se nos Estados Unidos na aprovação do McKinley Tariff Act em 1890, que obrigava a que todos os produtos importados tivessem referência ao seu país de origem.


E no entanto, a porcelana e o biscuit alemão eram de grande qualidade e tinham preços competitivos e a forma que os fabricantes alemães encontraram de contornar esse anti-germanismo e continuar a exportar para os Estados Unidos e para a Europa foi não marcar os seus produtos, ou apor-lhes apenas um número ou ainda uma marca pouco clara e o termo "Germany", quando aparecia era em letras muito pequeninas. Houve até um grande distribuidor de cerâmica inglês, Max Emanuel & Co, que usou uma fábrica em Mitterteich na Baviera para fabricar loiça alemã, com uma marca britânica. No fundo, o consumidor mais desatento comprava produtos alemães sem o saber.

Em suma, apesar do anti-germanismo patente no mundo anglo-saxónico e na Europa, entre os finais do século XIX e inícios do século XX, as famílias burguesas continuaram a comprar estas figurinhas em biscuit, que de tão simpáticas que são, nelas é impossível encontrar qualquer vislumbre do militarismo prussiano, que pôs a ferro e fogo toda a Europa.


Sobre marcas alemãs, leia-se http://www.figurines-sculpture.com/pottery-markings-archive.html

domingo, 15 de junho de 2014

Anunciação: estampa de Joaquim Carneiro da Silva?

Embora aprecie muito temas religiosos, tenho sempre uma certa inclinação para comprar gravuras com representações de santos menos conhecidos, como S. Facundo, Sta. Maria Egipíciaca ou S. Brígida. Enfim, atrai-me sempre aquilo que está fora de moda. Mas desta vez não resisti a uma gravura com um dos temas mais representados pelos artistas plásticos nos últimos 500 ou 600 anos, uma Anunciação. Achei o desenho tão delicado e o preço estava tão em conta que resolvi traze-la para casa e guardei-a num envelope, à espera de encontrar uma moldura adequada e um local vago na parede

Há uns tempos, folhei um catálogo de livro antigo da colecção do Museu de Aveiro, editado em 1999 e encontrei ai reproduzida uma estampa praticamente igual à minha. A referida gravura fazia parte de um missal impresso em Antuérpia, pela Tipografia Plantiniana, em 1738.
Missale Romanum ex Decreto Sacrosancti Concilii Tridentini restitutum, S. Pii Pont. Max. jussu editum, et Clementis VIII. primum, nunc denuo Urbani Papae octavi auctoritate recognitum, et novis Missis ex Indulto Apostolico huc usque concessis auctum. Antuerpiae : ex Architypographia Plantiniana, 1738
Estranhei um pouco, pois tinha ideia que a minha estampa era portuguesa, mas também sei o suficiente de arte, para perceber a que a gravura foi o veículo privilegiado de circulação de imagens e era possível que a fonte de inspiração da minha estampa fosse flamenga.

Esta Tipografia Plantiniana, tinha tido início no século XVI com Christophe Plantin (ca. 1520-1589) na cidade flamenga de Antuérpia e os seus descendentes transformaram esta casa num dos negócios mais bem sucedidos da Europa. Nos séculos XVII e XVIII exportavam livros para todo o mundo católico usando um sistema engenhoso de letras de câmbio para evitar o uso de numerário. A Tipografia Plantiniana também era conhecida pelas boas ilustrações, assinadas por artistas famosos na época, nomeadamente Rubens, amigo de um dos netos de Plantin.
Peter Paul Rubens (1577-1640), Annunciation,  c1628, Rubens House (Antuérpia, Bélgica)

Aliás, esta Anunciação, do Missale Romanum, da Tipografia Plantiana tem qualquer coisa da Anunciação de Pieter Paul Rubens, feita em 1628 e que se encontra na Casa-Museu Rubens, precisamente na cidade de Antuérpia. É certo que todas as Anunciações são semelhantes, mas estas duas, nomeadamente o Arcanjo tem muitos pontos de contacto.
Tentei apurar mais algumas informações sobre este assunto e fiz várias pesquisas sucessivas no google, pelas palavras  Anunciação, em português e inglês, combinando-as com os termos Missale romanum, old print e gravura. Acabei por ir ter ao site da Casa de Sarmento, onde encontrei uma estampa igual à minha, identificada como sendo da autoria de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), de quem aqui já escrevi e que foi um dos mestres da gravura em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX.
Silva Fecit
De facto no canto inferior esquerdo da minhas estampa, está uma assinatura Silva f., que poderá realmente significar Joaquim Carneiro da Silva, embora Silva seja um nome demasiado comum em Portugal para ficar com certezas. Na descrição da Casa Sarmento, refere que a gravura fez parte de um missal.

A minha estampa é dimensões reduzidas

Procurei então na biblioteca onde trabalho consultar os missais portugueses editados nos finais do XVIII e inícios do século XIX. Neles encontrei várias anunciações assinadas de forma inequívoca por Joaquim Carneiro da Silva, mas muito diferentes da minha estampa, além de que estes missais eram de grandes dimensões, ln-fólios, com 30 ou mais centímetros de altura e a mancha de texto da minha estampa mede apenas 14,5 x 10,5 cm, portanto ela teria que pertencer a um livro dimensões mais pequenas.
O verso da minha estampa prova que ela fez parte de um livro

Como o verso da minha estampa da Anunciação está impresso, o que mostra claramente que fez parte de um livro, lembrei-me de transcrever um trecho e coloca-lo no Google, na esperança de localizar um site onde o livro estivesse digitalizado. E de facto, o google que permite coisas maravilhosas, localizou em 4 ou 5 segundos uma página na net, contendo exactamente o conjunto de palavras pesquisadas post alias vero horas, quanto terminatur officium, dicitur tantum pater noster. secreto".

Breviarium Romanum ex decreto sacro-sancti Concilii Tridentini restitutum, S. Pii V. pontificis max. iussu editum, et Clementis VIII. primum, nunc denuo Urbani PP. VIII. auctoritate recognitum ...: Pars autumnalis. - Antuerpiae: ex architypographia Plantiniana, 1747

Encontrei-as num um breviário digitalizado no google books, uma edição também da Tipografia Pantiniana, de 1747. Os Breviários eram documentos oficiais da Igreja, cujos textos eram definido pelo Papa e portanto o seu conteúdo era igual e de edição para edição. Portanto a minha estampa fez parte não de um Missal, mas sim de um Breviário, mais exactamente do volume Pars autumnalis e antecedia imediatamente o capítulo Proprium de tempore. Aliás, o PRO, no rodapé indica as primeiras letras do capítulo imediatamente a seguir.


Em suma, a minha estampa, será presumivelmente da autoria de Joaquim Carneiro da Silva e foi com toda a certeza publicada num Breviário editado em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX e inspirou-se numa gravura publicada num missal, em Antuérpia, na Oficina Plantiniana, em 1738, que talvez tenha tido como fonte de inspiração, ainda que longínqua, uma Anunciação de Rubens, de 1628 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Garden Party, Gellé Frères, Paris


Julgo que todos nós sentimos sempre um grande fascínio pelos perfumes e águas de colónia. Não só o seu aroma nos agrada, como também os próprios frascos e as embalagens, que são sempre objecto de um desenho de uma manufactura requintados. Eu desde miúdo gostava de mexericar nos frascos de perfume da minha mãe. Parecia que ali se guardava um tesouro qualquer, volátil e efémero, mas mesmo assim muito precioso. Ainda hoje me lembro do frasco da Madame Rochas, que a minha mãe usava muito criteriosamente, colocando só um bocadinho, cada vez que tinha uma saída especial, uma visita, um jantar ou uma ida à Baixa. Aquele frasquinho deve ter durado anos.

Já mais raro é encontrar um perfume antigo, com o seu frasco e a sua embalagem. A maioria das vezes quando se acaba a essência, as pessoas deitam fora tudo e lá se acaba o precioso e misterioso tesouro.


Por isso mesmo fiquei tão contente quando me deram um frasquinho antigo, ainda com alguma essência e a embalagem original. Trata-se do Garden Party Bouquet, um cosmético fabricado pelos mestres perfumistas Gellé Frères, de Paris, no início do Século XX. Aliás, o desenho da embalagem denota o mais puro estilo arte nova. A ilustração da embalagem e do rótulo poderá ter sido concebida por Jules Chéret (1836-1932), célebre pelos seus cartazes publicitários na França da Belle époque e que desenhou um cartaz para a Gellé Frères, cujo estilo não anda muito longe da caixa deste perfume, conforme descobriu a Alexandra na Biblioteca Nacional de França.


A Gellé Frères foi umas das muitas casas francesas de perfumes que fizeram de Paris a  grande capital da indústria cosmética da Europa ao longo de dois séculos. Começaram a sua actividade em 1826, ao comprarem a oficina Fargeon le Jeune, descendente de uma dinastia, iniciada no século XVII e que no século XVIII chegarem a ser perfumistas oficiais da Rainha Maria Antonieta e da sua corte. Os irmãos Gellé continuaram esta brilhante tradição e produziram perfumes, dentífricos e sabonetes ininterruptamente, até aos dias de hoje, atravessando períodos terríveis da história de França, como a guerra franco-prussiana, em que viram a sua fábrica destruída, a primeira guerra mundial e ainda a ocupação alemã entre 1940 e 1944.


Na realidade, em França, o perfume nunca foi considerado um luxo do qual se pudesse prescindir. Talvez os franceses acreditassem naquilo que Coco Chanel repetia muitas vezes Une femme sans parfum est une femme sans avenir.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Gell%C3%A9_fr%C3%A8res

http://gellefreres.com/histo.php

sábado, 31 de maio de 2014

Travessa de carne assada inglesa do início do Século XIX



Para quem gosta de coisas antigas e não tem muito dinheiro, a faiança inglesa do séc. XIX é uma boa opção para fazer uma colecção ou pura simplesmente para decorar com charme uma sala ou uma cozinha com dois ou três pratos antigos.

A louça inglesa do século XIX atingiu altíssimos níveis de qualidade, as suas paisagens são sempre sedutoras e nas feiras de velharias vão-se encontrando bons exemplares a preços razoáveis.

O meu amigo Manel foi comprando aqui e acolá muita louça inglesa e a peça que vos apresento hoje é das minhas preferidas. É uma travessa de grandes dimensões, 42 x 34 cm , mas com um formato muito particular, tem sulcos ao longo da superfície, que depois conduzem a uma concavidade maior. Servia para servir carne assada. Pelos sulcos escorria o molho, que ia ter à concavidade, onde com uma colher era fácil recolher o molho para os respectivos pratos. por cá, Miragaia também fabricou este tipo de travessas, mas curiosamente designaram-nas por Peixeiras, pois eram usadas para servir peixe. Segundo a Maria Andrade, esta readaptação portuguesa dos meat dish, explica-se talvez pelo maior hábito de comer peixe que sempre existiu em Portugal, sobretudo no litoral, ao contrário dos nossos aliados ingleses que sempre comeram mais carne.

A travessa não tem qualquer carimbo ou monograma, pois os fabricantes nem sempre marcavam todas as peças de um serviço, mas como os ingleses e americanos tem centenas de bons sites sobre faiança antiga, rapidamente descobrimos muitas outras peças com esta decoração, marcadas como HAMILTON/STOKE. A decoração é conhecida entre os antiquários e coleccionadores pelo nome de Fisherman with Nets, cuja tradução livre será pescadores lançando as redes. Em todo o caso, segundo indicação do MAFLS há notícia de este motivo ilustrado na travessa ter também surgido em peças com a marca, impressa, Tams & Co. (The Dictionary of Blue & White Pottery, 1780-1880, vol. I, p.138

Não encontrámos muitas informações na net sobre este fabricante. Descobrimos que a fábrica pertencia a um tal Robert Hamilton, nascido em 1779 e activo entre 1811-26. Este Senhor era genro do industrial de cerâmica Thomas Wolfe, que por sua vez tinha sido sócio de Josiah Spode, outro patrão da indústria cerâmica e a sua fábrica estava sediada em Stoke-on-Trent, no Staffordshire. Portanto o Senhor Robert Hamilton tinha a sua fábrica no principal centro cerâmico de Inglaterra, estava relacionado familiarmente com outros industriais do ramo e ao seu lado existiam fábricas de louça, que hoje quase são lendárias no meio dos antiquários e coleccionadores, como Spode ou Minton.
Faiança Hamilton. Um típico padrão decorativo da época. Paisagem campestre, com vaquinhas, um rio e um castelo em ruínas ao fundo

Este enquadramento serve para demonstrar que a produção de Robert Hamilton é muito representativa da louça inglesa das duas primeiras décadas do Século XX. 

Neste período, o estilo da faiança de Spode servia de modelo para muitos fabricantes ingleses. Spode tinha popularizado o transfer way na loiça azul, técnica que consiste em usar uma gravura numa placa de cobre, que era estampada num tecido, que depois era aplicado na loiça ainda em forma de biscoito. Este processo permitia decorar a loiça com complicados e refinados desenhos retirados de gravuras. E de facto nessa época Spode inspirou muitas fábricas de faiança inglesa, que produziam mais ou menos todas, tipos decorativos da mesma natureza.
Spode. Ruínas italianas, outro motivo decorativo típico da faiança inglesa.

Em primeiro lugar os motivos chineses, do qual o mais célebre é o padrão do salgueiro ou Willow pattern, seguiam-se depois um infinito número de ruínas em Itália, as paisagens campestres inglesas, como por exemplo as decorações com vaquinhas, que Sacavém veio a imitar mais tarde e ainda os motivos indianos, inspirados nas gravuras Thomas Daniell. Portanto, Herculaneum não foi de todo a única a inspirar-se nas estampas com paisagens indianas e também chinesas de Thomas Daniell.

Faiança Hamilton. O Canton River inspirou-se nas estampas de Thomas Daniell, que este fez após a sua viagem à Índia e à China

Nas duas primeiras décadas do Séc. XIX, também segundo o modelo de Spode, a decoração tendia a ser muito preenchida e os azuis eram mais escuros. Este foi um período de crescimento exponencial da indústria cerâmica inglesa. Devido as guerras napoleónicas, as manufacturas francesas e alemãs estiveram impossibilitadas de exportar. Os ingleses aproveitaram esta fraqueza da indústria continental e invadiram livremente o mercado americano e quando finalmente a guerra acabou, conquistaram também os mercados europeus com os seus produtos baratos e boa qualidade.
Faiança inglesa destinada ao mercado americano, com paisagens e monumentos dos EUA. Foi produzida pela Ridgway e representa a biblioteca de Filadélfia. Foto de Z & K Antiques

Os ingleses chegaram a produzir loiça especialmente destinada ao mercado norte-americano, normalmente com tons azuis mais escuros e representando vistas e paisagens de monumentos e cidades americanas. Aliás eu e o Manel chegamos a nos interrogar se a decoração desta travessa não representaria uma paisagem americana, o edifício que se vê ao fundo com uma arquitectura palladiana poderia talvez ser Monticello, a casa de Thomas Jefferson, mas é um palpite arriscado e sem grande fundamento. Em todo o caso, não é seguramente uma paisagem inglesa, pois na velha Albion não existem palmeiras.

Monticello. A casa de Thomas Jefferson, na Vírgina
Enfim, não conseguimos apurar que vista esta travessa representa, ou se será mesmo paisagem real. Em todo o caso, é uma peça que representa a qualidade o charme da faiança inglesa do século XIX.

Alguma bibliografia:

An introduction to English pottery / by Giselda Lewis. - London: Art and Technics, 1950

Ligações:
http://www.blueandwhite.com/museum.asp

http://www.thepotteries.org/location/districts/stoke3.htm

 http://collections.vam.ac.uk/item/O78051/plate-hamilton-robert/

sábado, 17 de maio de 2014

Mascarão

 
Sinto sempre um atracção por tudo o que é pequeno, estanho e insólito. Talvez esta atracção pelo pormenor se explique minha profissão, de bibliotecário, que vive de minúcias, ou porque vivi sempre em casas pequenas ou ainda porque possivelmente mantive o gosto que as crianças sentem pelos carrinhos, as casas e os bonecos, isto é, as miniaturas da realidade. Por isso quando vi no chão de uma feira de velharias este objecto estranho, insólito, mas pequeno, fiquei fascinado e senti que aquilo fazia parte do ambiente da minha casa. Contudo pediram-me um preço relativamente alto e deixei-o por lá, mas a fiquei sonhar com ele. Voltei à feira passado um mês e encontrei de novo esta figura, quimérica, assustadora a olhar para mim, mas desta vez regateie um bom bocado e conseguia-a por um bom preço.

Não sabia bem o que era, mas suspeitei que fosse um ornamento de uma fonte. A cavidade semicilíndrica do fundo serviria para se adaptar ao cano da água. A oxidação da liga metálica na qual ela foi feita também me levou a acreditar nessa hipótese. Aliás, poucos dias depois de ter comprado esta peça encontrei à venda, no e-bay, em França uma figuras destas, cortada em semicírculo na parte inferior e que era precisamente um ornamento de fonte.

Rare & Ancien mascaron de fontaine en fonte datant du XIX éme siecle . legere oxydation - patine - reste salissures - usures - usure d'usage .Dimensions (env ) 17,7 cm de Hauteur - 17,3 cm de large - 5,5 cm de diametre d'espace au niveau de la bouche pour le robinet
Mas quis saber mais e fiz algumas pesquisas no google por Mascarão, termo pelo qual na arte são conhecidas estas máscaras, grotescas deformações de rostos humanos com elementos animais e vegetais à mistura e encontrei esta definição na wikipedia francesa, da qual fiz uma adaptação livre, :


Em arquitectura, um mascarão é um ornamento representando geralmente uma figura humana, por vezes assustadora cuja função original era afastar os maus espíritos, impedindo-os de entrar nas casas. Estes ornamentos eram colocados nas pedras de fecho dos arcos das janelas ou das portas e ainda sobre os lintéis. Alguns mascarões eram a aplicados sobre as fontes e das suas bocas jorrava água.

Esta ideia de que os mascarões afastariam os maus espíritos começou na Grécia antiga, onde já eram usados nos edifícios, mas também na cerâmica e em outros objectos do quotidiano e este costume teve origem no mito de Perseu e Medusa.

Esta Medusa era uma senhora de convívio pouco recomendável, cujo olhar era capaz de petrificar quem a fixasse. Perseu foi encarregado de a matar e armou-se com uma espada e um escudo com um espelho, para evitar o mortífero olhar. Depois de ter decapitado a criatura, cujo cabelo era formado por serpentes, ofereceu a cabeça à deusa Atena, com a qual ornamentou o seu escudo, a égide, conseguindo com isso poder um divino acrescido. Houve como que uma transferência de poderes de Medusa para Atena. O que era um poder maléfico tornou-se num poder benigno de protecção.
Perseu e Medusa por Benvenuto Cellini. 1545. Florença
Entre outras coisas este belo mito explica no fundo a função da máscara. Quem coloca uma máscara, ainda que no Carnaval ganha a características da personalidade representada. Da mesma forma, um feiticeiro africano que enverga uma máscara adquire os poderes da divindade que ela representa.

Com a cristianização do mundo antigo toda esta história da Medusa, de Perseu e das máscaras foi morrendo e sendo esquecida e os pensamentos viram-se para Cristo, para a Virgem e para as relíquias dos mártires.

No renascimento, os escultores, pintores e arquitectos italianos redescobriram a Antiguidade e voltaram a usar nas artes estas máscaras, inspirando-se nas ruínas dos templos e casas antigas, que encontravam por toda a parte na sua pátria e esta voga foi-se difundido por toda a Europa. Aliás o termo mascarão entrou nas línguas europeias por via do italiano, mascherone, que designa um ornamento em forma de máscara que decora uma fachada.

Fontaine dans la cour intérieure de l'Hôtel Cail, rue de Lisbonne, paris. Pierre-Émile Charrier (1865). Foto Wikipedia

Claro, no Renascimento e nos séculos seguintes, os mascarões já tinham perdido praticamente o sentido mágico de protecção, que tinham tido na Grécia ou na Roma antiga e estas figuras, usadas no barroco ou no século XIX na decoração do mobiliário, na arquitectura ou nas fontes, passaram a ter um valor meramente decorativo. No entanto, dada a importância da água na vida humana, talvez muita gente ainda tivesse a superstição, de que colocando estas máscaras nas fontes estariam a proteger um bem tão essencial de ser envenenado ou contaminado pelos maus espíritos.

Este Mascarão está agora na parede da minha sala reformado das suas funções de protector das águas, mas cada vez que olho para ele lembro-me do belo mito de Perseu e Medusa que ele ainda evoca vagamente.
O Mascarão pertencente à Ana Silva, Era uma das pegas de uma daquelas banheiras antigas com os pés em garras e as costas sobrelevadas.
Em suma, estava mais ou menos convencido, que este mascarão tinha sido arrancado de uma fonte, quando uma seguidora deste blog, a Ana Silva, comentou que tinha exactamente uma peça igual, proveniente de uma banheira antiga, daquelas com os pés em garras e costas sobrelevadas. A banheira não tinha tubagem e estes mascarões serviriam de pegas para a transportar de uma divisão para a outra. A Ana ainda se lembra de ver pega colocada nessa banheira, decorada com uma pintura floral de cores vivas, que deve ter sido lindíssima a julgar pelo tom nostálgico da descrição que dela me fez. A banheira estava no primeiro andar de uma casa senhorial, provavelmente dos finais do séc. XVIII, inícios do século XIX, junto ao castelo de Almada. Essa velha casa familiar entretanto ruiu e hoje, no seu lugar está um desses prédios modernos, com que adoramos estragar as nossas cidades.

Não andei muito longe da verdade ao relacionar esta peça com a água, mas foi a Ana Silva que me permitiu desvendar o significado desta peça misteriosa e encontrar a história que ela conta. Certamente o meu mascarão estava também numa casa antiga, cujo recheio foi disperso e nesse momento desapareceram para sempre as histórias e cenas familiares de gente, que viveu há muito tempo.