quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Um jovem transmontano na grande guerra de 1914-1918

António Sampaio e um companheiro de armas, França, 28 de Fevereiro de 1918

Aproveito sempre estes períodos de confinamento para me dedicar à organização e estudo das fotografias antigas. Regressei novamente à coleccão de retratos da família materna, das terras frias de Vinhais e encontrei um conjunto de fotografias de jovens mobilizados para o corpo expedicionário português em França, na grande guerra de 1914-1918. Algumas das fotos foram tiradas naquele País e fiquei até um pouco impressionado, pensando que aqueles jovens promissores de 1917 ou 1918 teriam sido chacinados nos campos de Batalha da Flandres, feitos prisioneiros, gaseados ou afectados mentalmente para sempre com os horrores a que assistiram.

Fiquei curioso acerca de qual teria sido o destino destes homens na força da vida e resolvi fazer algumas investigações, pois já tinha ouvido falar sobre alguns sites na internet, que recolhem informações sobre antigos combatentes, bem como conhecer um pouco mais sobre o corpo expedicionário português em França, cuja intervenção na guerra, ficou sobretudo conhecida na história, pelo desastre da batalha de La Lys.

O verso da fotografia. Dedicatória ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira

Decidi começar essas investigações por um desses retratos, o de António da Silva Sampaio, um jovem cuja família, os sampaios, ainda é aparentada com com a minha. Esta fotografia foi tirada em França, a 28 de Fevereiro de 1918 e dedicada ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira, em que o trata como primo e amigo. 

Nesta colecção de fotografias da família há outros dois retratos deste António da Silva Sampaio tirados em Coimbra.

Nesta colecção de fotografias da família Morais Ferreira, há outros dois retratos deste António da Silva Sampaio tirados em Coimbra, 11 de Novembro de 1917, antes de ser mobilizado, em que se faz fotografar naquilo que me parece uma indumentária académica. São duas fotografias iguais, uma está dedicada aos tios, Clemente da Ressurreição e Maria da Graça Morais, meus bisavôs e a segunda, outra vez ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira, que o trata como primo e amigo. 

Dedicatória de António da Silva Sampaio, aos meus bisavós, Clemente da Ressurreição e Maria Graça Morais, dada em Coimbra, a 11 de Novembro de 1917


Dedicatória de António da Silva Sampaio, ao meu avô, António da Purificação Ferreira, dada em Coimbra, a 11 de Novembro de 1917

Embora não saiba com segurança, a origem deste parentesco, creio que este António Sampaio era só primo por afinidade do meu avô Ferreira. Segundo, o que consegui perceber da tradição familiar, a origem deste parentesco assentará na minha trisavô, Francisca Vicência da Silva, casada com um Morais e que teve dois irmãos, José e o André, que se casaram em Nuzedo, uma aldeia vizinha da Quadra e por lá ter-se-iam cruzado com estes Sampaio. Recordo-me vagamente de visitar com a minha mãe as primas Sampaio em Nuzedo-de-Cima. Hoje tudo isto nos parece obscuro e incerto, mas em 1917-1918 os Morais e os Sampaio eram ainda primos muito próximos.

Mas, continuando, nas minhas pesquisas sobre ao participação do contingente português na guerra em França, entre 1917-1918 encontrei um sítio muito bem feito, o http://www.memorialvirtual.defesa.pt, que permite uma busca pelo nome de todos aqueles que tombaram no conflito.

Resolvi experimentar, colocando os nomes que consegui ler na assinatura deste jovem, António da Silva Sampaio, no motor de pesquisa e descobri que este meu parente foi morto em combate em 9 de Abril de 1918. O seu corpo está sepultado em França no Cemitério de Richebourg l`Avoué, Talhão C, Fila 7, Coval 1. O seu nome completo era António Eugénio da Silva Sampaio, foi Alferes e a pertencia à unidade Depósito de Infantaria, Regimento de Infantaria n.º 30. Apesar de já terem passado cem anos deste acontecimento, confesso que me emocionei e revivi por uns poucos segundos a tragédia deste rapaz e o choque, que a sua morte prematura representou para os amigos e a família.


A sepultura de França no António Eugénio da Silva Sampaio mo Cemitério de Richebourg l`Avoué, Foto de http://www.memorialvirtual.defesa.pt

Contudo, como não tinha a certeza absoluta que o jovem sepultado em França e este meu parente afastado fossem uma e a mesma pessoa, até porque eu não tinha conseguido ler Eugénio nas assinaturas, fiz mais uma busca, coloquei o António Eugénio da Silva Sampaio no google e fui ter sítio da Academia Militar de Lisboa, numa página onde prestam homenagem aos seus mortos, e lá estava um registo sobre este primo afastado, mas desta vez com uma fotografia sua, um militar cheio de garbo e confirmei, que o rapaz morto em França era de facto a mesma pessoa do jovem retratado nos arquivos familiares. 

António Eugénio da Silva Sampaio, no site da Academia Militar

Aqui encontrei mais alguns dados que me permitiram de alguma forma esboçar uma pequena biografia. Nasceu em em Bragança, 24 de Janeiro de 1893 e entrou na Academia Militar em 1916, o nº 512 do Corpo de Alunos. Embarcou para França, 8 de Janeiro de 1918 e morreu a 9 de Abril, desse ano. 9 de Abril é o dia da Batalha de La Lys, data que ainda hoje é assinalada em Portugal e o António Eugénio da Silva Sampaio foi um dos 398 homens que pereceram nesse confronto sangrento. A fotografia que enviou ao meu avô a 28 de Fevereiro de 1918, foi tirada cerca de um mês e mais alguns dias antes de morrer.

Continuei as minhas investigações sobre este meu primo afastado, desta vez no Arquivo Histórico do Militar e encontrei nos boletins individuais de militares do Corpo Expedicionário Português o seu registo digitalizado. A informação é escassa, mas indica o nomes dos seus pais, Manuel do Espírito Santo da Silva Sampaio e Maria Adelaide Silva, a paróquia onde nasceu em Bragança, freguesia de Santa Maria e ainda um dado curioso. O jovem António Eugénio da Silva Sampaio foi punido por só se ter apresentado ao serviço no quartel a 12 de Novembro de 1917, em vez de ser no dia 11 do dito mês, como estava estipulado na guia. Ora a 11 de Novembro de 1917 estava este meu primo em Coimbra, a tirar as fotografias que enviou aos meus bisavós e ao meu avô e a outros parentes e provavelmente a divertir-se um pouco, como era natural num jovem com 24 anos. Não consigo é perceber porque é se fez fotografar num traje académico.

A 11 de Novembro de 1917, data em que tinha de apresentar ao Quartel, o jovem António Eugénio da Silva Sampaio, estava em Coimbra a fazer-se fotografar no José Gonçalves, o estúdio usado por todos os estudantes da universidade daquela cidade

Em suma, os retratos deste meu primo afastado, cujo parentesco nem conheço bem as origens, deixaram-se ser apenas as fotografias esquecidas por todos de um velho álbum familiar e tornaram-se testemunhos de como a guerra entrou pela vida das pessoas comuns, bem como símbolos trágicos da inútil participação portuguesa no conflito de 1914-1918.

Alguns links consultados: 

Academia Militar

Arquivo Histórico do Militar, boletins individuais de militares do Corpo Expedicionário português, António Eugénio da Silva Sampaio - Alferes de Infantaria nº 30 código PT/AHM/DIV/1/35A/1/08/2567

Comunicar: boletim da Assembleia da República, 18 de Abril de 2018



PS: Se houver algum descendente desta família Sampaio, que tenha interesse na vida deste tio remoto, terei muito gosto em fornecer cópias digitais destas fotografias, bastando para isso que me contactem por mail. Para acederem ao meu endereço, cliquem na foto do perfil, no canto superior direito do blog.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros

Embora não seja crente tenho uma verdadeira paixão por registos religiosos, que coleciono avidamente. Normalmente compro muita da coisa do século XVIII e tenho uma ou outra coisa do século XVII e ainda um dos finais do XVI. Creio que esta mania começou na minha juventude, em que todos os meus amigos ou colegas achavam a arte sacra uma seca e como sempre fui do contra, passei a interessar-me por santos, nossas senhoras, martírios e cristos. Hoje em dia, já não tenho essa vontade de estar contra o mundo, mas encanto-me com a ingenuidade destas estampas devotas e por isso quando vi este Jesus Nazareno, representado de uma forma quase popular, comprei-o sem hesitar. Nem me lembro do preço, mas deve ter sido por meia dúzia de euros ou menos, pois hoje em dia ninguém quer saber de santos para nada.

Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros.

A legenda da estampa diz o seguinte Verdadeiro retrato da milagrosa imagem de Jesus Nazareno, cativo, ultrajado pelos moiros. Seguem depois as indulgências concedidas pelo Cardeal Patriarca de Lisboa a quem rezasse uns quantos padres nossos e avés maria diante da imagem ou da estampa. Achei tudo isto muito curioso. Toda gente sabe que Jesus Cristo foi supliciado e morto na Palestina, num tempo em que não havia muçulmanos. Estes só apareceriam na história uns 600 e tal anos depois. É certo que em muitas pinturas antigas os artistas não se preocupavam em reconstituir a indumentária do tempo de Jesus e os soldados romanos trajavam como militares da renascença, a Virgem envergava trajes de corte e por aí fora, mas misturar mouros com Jesus, pareceu-me um anacronismo excessivo..

Intrigado fiz algumas pesquisas sobre esta estampa e encontrei no Arqueólogo Português, série, 1, vol. 22, de 1917, um texto de Luís Chaves, os Registos de Santos, que assinala esta gravura e explica que no Convento do Carmo, em Lisboa, houve uma imagem de Jesus Cristo cativo, que esteve Argel. Fiz mais uma pesquisa, aqui e acolá e no meio de todas as lendas, que sempre rodeiam estes assuntos de devoções, percebi que esta estampa reproduzia uma escultura de Cristo roubada pelos mouros e resgatada mais tarde. Na realidade, a verdadeira imagem deste Cristo encontrava-se em Marrocos, em La Mamora, um reduto fortificado pelos espanhóis após 1614 e que durante grande parte do século XVII foi assediado várias vezes pelos marroquinos ou mouros, até que em 1681 caiu finalmente nas mãos destes últimos. Entre o espólio do saque estava uma imagem de Cristo, à qual os soldados espanhóis tinham muita devoção e os mouros transportaram-na para Mequinez, onde a arrastaram pelas ruas, enquanto a populaça escarnecia daquilo que consideravam um ídolo. Uns frades trinitários, ordem religiosa, que se dedicava ao resgate dos cativos cristãos no Norte de África assistiram ao espectáculo degradante e conseguiram comprar a imagem e leva-la para Espanha, mais exactamente para Madrid. Ao pescoço da imagem colocaram um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul, que era como que um salvo conduto para atravessar as terras da moirama e demonstrar em Espanha, que tinha sido a Ordem dos Trinitários a pagar o resgate. 

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
Ao pescoço da imagem um escapulário, com a cruz trinitária, vermelha e azul,

Em Madrid a imagem foi depositada na Igreja de Medinaceli onde se tornou objecto de grande devoção, que persiste nos dias de hoje e o seu culto espalhou-se por toda Espanha e pelo vistos por Portugal, como esta estampa o demonstra. Fieis, padres, irmandades ou bispos por várias cidades da Península Ibérica encomendaram esculturas idênticas às de Medinaceli para as suas igrejas.

Quanto à verdadeira imagem que estaria no convento do Carmo, sobreviveu ao Terramoto de 1755, pois esta estampa foi executada por Teotónio José de Carvalho, gravador activo entre 1790 e 1800 conforme se pode ver no índice das estampas da sua autoria digitalizadas na Biblioteca Nacional de Portugal. Este Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.
Teotónio José de Carvalho tanto assinava as suas gravuras como Carvalho f. ou C. f.

Quanto ao paradeiro actual dessa escultura não consegui descobrir nada, pois em 1834 com a extinção das ordens religiosas, os bens dos conventos foram vendidos ou incorporados  nas igrejas paroquiais e finalmente alguns deles deram entrada nos museus nacionais.

A verdadeira imagem de Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros
A moldura foi comprada na Feira de Estremoz

Por último, esta estampa que comprei solta, foi colocada numa moldura muito simples, que adquiri na Feira de velharias de Estremoz, que encaixilhava a fotografia de um pai e de um filho, tirada talvez na primeira década do século XX. Não tive coragem de deitar a fotografia fora, e limitei-me a virar o cartão onde estava colocada. De modo, que atrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Por detrás deste Jesus Nazareno cativo e ultrajado pelos mouros, estão um pai e um filho, cativos no esquecimento.

Alguns links e bibliografia consultados:

Registos de Santos / Luís Chaves
In
Arqueólogo Português, série, 1, vol 22, de 1917 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Uma cremeira da Vista Alegre

Cremeira Vista Alegre

Há já uns anos, um amigo meu, o Vasco ofereceu-me esta delicada peça da Vista Alegre. É de pequenas dimensões, quase que parece uma coisa de um serviço de bonecas e apresenta uma pega torcida, com uma junção em forma de folhas ao corpo da peça e uma conjugação de cores muito sóbria e feliz. Não é uma peça antiga, apresenta a marca n.º 32, usada pela Vista Alegre entre 1947-1968, mas inspira-se nas formas neoclássicas da porcelana francesa e inglesa do século anterior. É uma daquelas adaptações bem conseguidas da melhor porcelana europeia, que a Vista Alegre foi fazendo muitas vezes ao longo da sua história, mas com um toque muito próprio.

A marca n.º 32, usada pela Vista Alegre entre 1947-1968
A marca n.º 32, usada pela Vista Alegre entre 1947-1968

Na altura, arranjei-lhe um lugar no louceiro, o que não foi uma operação simples, pois tenho tanta coisa e o armário é pequenino e não voltei a pensar no assunto. Achei que era uma cremeira, que em tempos fez parte de algum tête-à-tête, servindo para acrescentar natas ou algum creme ao café ou ao chá.

Não foi fácil arranjar lugar para esta peça no louceiro

Porém, nestes últimos dias estive a olhar melhor para ela e reparei que não tem nenhum bico, para verter as natas ou o creme. Além disso tem uma tampinha, que também não daria grande jeito nessa função. Lembrei-me então que há uns anos jantei em em Paris, num restaurante de melhor qualidade e a sobremesa era apresentada num conjunto de potezinhos, não muito diferentes desta peça, postos numa bandeja também de porcelana e cada um deles tinha um creme feito à base de natas e uma compota diferente. Aquele doce comia-se à colher e era até muito agradável. Por cá não existe muito o hábito dessa sobremesa, pois temos aquela grande tradição conventual de doces de travessa, feitos sempre com muitos ovos.

Pensei então que este recipiente devia ter feito parte de um conjunto de cremeiras e fiz umas quantas pesquisas no google e encontrei no site de vendas Custo Justo um serviço de cremeiras, com a respectiva bandeja, iguais à minha, também da Vista Alegre e do mesmo período. A única diferença, é que a minha tem uma faixa bege e as do Custo Justo são todas brancas. Confirmei então a minha suspeita que esta peça fez no passado parte de um serviço de cremeiras, com o respectivo tabuleiro.

Conjunto de cremeiras da Vista Alegre à venda no Custo Justo

Esta cremeira é apenas uma peça desirmanada, sem valor comercial, mas é tão bonita, que achei que escrever sobre ela seria uma forma de desanuviar os leitores deste blog, do clima de insegurança e medo em que todos vivemos.

A cremeira da Vista Alegre servia para comer à colher um creme misturado com uma compota


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O retrato de um jovem das terras frias de Vinhais


Volto outra vez ao tema de identificação das fotografias antigas de família, que nos últimos tempos se tornou quase uma obsessão. Não sei que impulso me leva a perder tanto tempo com retratos de pessoas fotografadas no último quartel do século XIX, de que já ninguém se lembra e que nem tão pouco marcaram a história. Talvez seja uma forma de eu fugir a um presente, demasiado agressivo ou ainda a consequência de uma deformação profissional de bibliotecário, em que preciso de um passado estudado, ordenado e classificado, tal como os livros dispostos por temas nas estantes de uma biblioteca.

Desta vez não é nenhuma fotografia de um Montalvão ou de alguém das suas relações, mas de uma personagem do lado materno, dos Morais, uma família de lavradores relativamente abastada das terras frias de Vinhais. Em Março de 2013 tinha já tinha apresentado este retrato de um jovem bonito e que encontrei na colecção de fotografias da casa de Vinhais. A fotografia não apresentava uma dedicatória, uma legenda, uma data ou a identificação do fotógrafo sequer para que eu pudesse apresentar uma eventual identificação. Contudo, pela indumentária e pelo tipo de fotografia pareceu-me ser uma prova feita por volta de 1875 e como se encontrava numa colecção familiar, presumi que fosse um antepassado ou um parente, ou eventualmente alguém das relações de amizade dos Morais. Como nesta altura, já se coleccionavam fotografias de membros das casas reais e até de actores, cheguei a pensar se este jovem bonito seria algum príncipe, mas faltavam-lhe os atributos de realeza que sempre esses retratos tinham ou até mesmo o aplomb dessa gente, ainda que posassem como simples burgueses. Mas, mesmo em saber nada deste desconhecido, gostei tanto do retrato, que resolvi posta-lo como se fosse um símbolo de tudo aquilo que se perde da memória familiar. 

Retrato identificado de Manuel Agostinho de Morais (1854-1934) as semelhanças com o retrato do desconhecido são grandes.

Durante o confinamento em que todos os dias tinha que ir dar o jantar ao meu pai, aproveitei para consultar uma compilação, que este fez da história da família materna e fui fotografando todos os documentos e a certa altura encontrei a fotocópia de um retrato de um tio-bisavô e as semelhanças com o retrato do desconhecido eram grandes. Esse antepassado era o tio Manuel Agostinho de Morais (1854-1934), irmão do meu bisavô Clemente da Ressurreição e da sua vida, sei que seguiu uma carreira eclesiástica e e uma ou duas histórias, que sobreviveram na tradição familiar. Nasceu na Quadra, uma aldeia transmontana perdida nas serras, quase junto à fronteira com Espanha e era filho de Zeferino Urbano de Morais (1812-1894), uma espécie de antepassado primordial, porque foi o primeiro a usar o apelido de Morais, em substituição do de Gonçalves, por uma razão qualquer que escapa ao nosso entendimento. Os pais destinaram-no a uma carreira eclesiástica e em 1879 já estava a celebrar a sua primeira missa. Estranhamente, os seus pais forçaram outro dos seus irmãos a seguir igualmente uma carreira religiosa, o meu bisavô, Clemente da Ressurreição Morais. A luz dos nossos dias, parece-nos inusitado, que os pais tenham decidido, que dois filhos se deviam tornar padres. Mas creio que para além do factor da fé, teriam existido também razões económicas, a primeira seria evitar o fraccionamento da propriedade, pois os padres acabariam sempre por legar os seus bens aos irmãos casados e depois a carreira sacerdotal, permitia uma garantida ascensão social e económica e facto, quando o Padre Manuel Agostinho de Morais morreu em 1934 deixou avultadas quantias ao irmão e ao sobrinho, pelo julgar pelo imposto sucessório, que estes últimos pagaram. Ao contrário do irmão, o meu bisavô, Clemente da Ressurreição nunca quis tomar votos e pretendeu estudar em Coimbra, ganhando com isso a animosidade dos pais durante muito tempo. Conta-se ainda na família, que quando o Clemente comunicou à mãe, que não queria ser padre e pretendia estudar em Coimbra, minha trisavó, a Francisca Vicência (1824-1892) lhe terá dito, senão és padre, não és nada e com efeito o Clemente não estudou mais e tornou-se um mero lavrador.

Clemente da Ressurreição, meu bisavô e irmão de Manuel Agostinho


Ao contrário do irmão e apesar de ser um jovem tão bonito, com uma aparência capaz de despertar paixões carnais, o Manuel Agostinho de Morais não contrariou à vontade paterna e tomou ordens, exercendo a sua acção pastoral em várias aldeias da zona e acumulou um belíssimo pé-de-meia. Vivia em Santalha, outra aldeia ali da zona de Vinhais, numa daquelas casas antigas de lavrador abastado, típicas da região, em que para se entrar em casa, é preciso penetrar num pátio. Ao fundo desse pátio, estava a casa e no primeiro andar existia uma daquelas varandas em madeira, onde se sentava esse meu tio-bisavô, armado, atento a qualquer barulho e prestes a disparar sobre qualquer intruso suspeito. Na sala, guardava numa gaveta os seus objectos de valor. Esta história, que sobreviveu na tradição familiar e que nos parece pouco consentânea com o comportamento de um homem de Deus, deve de algum modo relfectir o clima de insegurança, que se viveu nos Concelhos de Vinhais e Chaves, durante as incursões de Paiva Couceiro, entre 1911 e 1912 , essas accões militares vindas de Espanha com o intuito de restaurar a monarquia em Portugal. 

Em 1911 as terras de Vinhais estão a ferro e fogo. Os republicanos perseguem os monárquicos e dão caça aos padres. Imagem da Ilustração Portuguesa, 2.ª série, n.º 296, 23 de Outubro de 1911. Hemeroteca Digital

A primeira incursão, entrou por Bragança e os monárquicos, ou paivantes como eram conhecidos na altura, tomaram Vinhais, mas pouco depois fugiram em debandada, por Vilar de Ossos, Tuizelo e Quadra, aldeias vizinhas de Santalha, em direcção a Espanha. No ano a seguir, os monárquicos exilados em Espanha, voltaram a entrar em Portugal e atacaram Chaves, mas foram novamente derrotados. A consequência destas incursões comandadas por Paiva Couceiro no Norte foi uma verdadeira perseguição aos padres pela tropas republicanas, que os consideravam colaboradores dos monárquicos e muitos foram presos e outros fugiram para Espanha. Este clima de insegurança e de caça aos monárquicos e aos padres deve-se ter prolongado até 1919, quando se dá a última tentativa de derrubar a a República em Portugal, a chamada Monarquia do Norte. Embora não conheça as convicções políticas deste meu tio bisavô, imagino que entre 1911 e 1920, deva ter vivido grandes sustos, imaginando sempre o dia, em que o iriam prender na sua casa, por essa razão teria sempre a arma perto de si, à entrada de casa.
Iº incursão de Paiva Couceiro. Imagem retirada de Um herói português: Henrique Paiva Couceiro / Vasco Pulido Valente. - Lisboa: Aletheia editores, 2006

Mas, voltando ao retrato, parece-me efectivamente que será do meu tio-bisavô, o Padre Manuel Agostinho de Morais, embora não esteja inteiramente seguro. Poderá até ser do meu bisavô, o Clemente da Ressurreição, de que só conheço retratos enquanto homem maduro ou velho ou ainda de um terceiro irmão, o José Clemente (1856-1919), de que não tenho nenhuma imagem, mas certamente é um dos três. Em todo o caso, senti que consegui desvendar um pouco do segredo desta fotografia e conhecer um pouco a história deste meu tio trisavô, um homem bonito, padre, rico e que andava armado.




Um agradecimento especial ao Humberto Ferreira de Outeiro Seco e ao meu irmão, José Montalvão Cunha


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um pesado relógio burguês


Talvez nesta época, quem que passagem do ano se aproxima e em que sentimos que o tempo passa sempre demasiado depressa, seja adequado mostrar no blog este relógio francês, que o meu amigo Manuel comprou recentemente. 

É um objecto pesado, opulento, destinado a decorar uma casa burguesa do passado, num tempo em que a decoração de interiores se caracterizava por uma ornamentação excessiva e em que se queria mostrar riqueza, mas também respeitabilidade. E este último sentimento tão burguês alcançava-se usando objectos de decoração e mobiliário, que fizessem referência ao passado, aos grandes estilos artísticos, como a Renascença, o Luís XIII, o Luís XV, o Luís XVI ou Império. No fundo os burgueses queriam uma casa com aquilo que os aristocratas tinham de sobra e a eles lhes faltava, um passado. 

Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie

Numa primeira abordagem, quando olhamos para este relógio e pensamos de imediato, isto é uma coisa da segunda metade do século XIX, provavelmente no tempo em que Napoleão III era imperador dos franceses (1852-1871). Com efeito, quando o meu amigo Manel abriu o relógio para o restaurar, o mecanismo apresentava uma marca incisa do fabricante, com uma data, 1855. Mais precisamente a inscrição  Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie. Este rótulo significa que o seu fabricante, a companhia francesa a Vicent & Cie ganhou uma medalha de prata na Exposição Universal de 1855 de Paris, que foi precisamente inaugurada por Napoleão III.

Napoleão III inaugura a Exposição Universal de Paris em 1855

Porém, olhando mais atentamente o mecanismo, encontra-se outra marca incisa, com a data de 1915. Portanto este relógio é muito posterior ao chamado período do II Império (1852-1871). Quando foi fabricado já se combatia nas trincheiras em França.

Data de 1915

Este pormenor é muito interessante pois desfaz-nos um bocadinho o conceito de periodização dos estilos artísticos. Nas escolas ou nos livros aprendemos que a Arte Nova começou em 1900 e o Estilo Arte Deco em 1925. Ficamos com a falsa ideia que a partir de 1900 todos os objectos decorativos apresentam as linhas fluidas Art Nouveau e que a partir de 1925, os relógios, as mobílias e os candeeiros são em Art Deco. Na verdade, os estilos revivalistas do século XIX continuaram a ser usados pelo século XX fora e as famílias da boa burguesia preferiam sempre adquirir um canapé ao estilo Luís XVI, do que uma moderníssima cadeira Barcelona, desenhada por Mies Van der Rohe.

Este objecto é o chamado relógio de chaminé, designado pelos franceses pendule de Paris e como o próprio nome indica destinava-se a ser colocado sobre a chaminé da sala, mas também por vezes numa cómoda, acompanhado de outras peças decorativas, como castiçais, jarrões da China ou figuras em porcelana, mas sempre em número impar. Os principais fabricantes franceses destes relógios foram Jappy, Marty, Pons e precisamente Vincenti, companhia fundada em 1823 por Jean (Ghjuvanni-Giovanni) Vincenti e que se manteve em actividade até 1923.



As formas do relógio inspiram-se na escultura clássica da antiguidade e são representações alegóricas muito caras a toda a arte europeia. A jovem envergando uma veste inspirada na Grécia segura um martelo numa mão, na outra, um escopro e um busto e será muito possivelmente uma alegoria à arte da escultura. Os meninos ou putti, representarão a música e o desenho. Serão talvez as artes que estiveram envolvidas na concepção do relógio, o desenho, para o mecanismo e a forma, a escultura para as figuras e a música para as suas badaladas. 

Este relógio é sem dúvida um objecto fora de moda, que se encaixa muito neste blog de velharias, escrito por mim, que não tenho muita paciência para os temas em voga.


Alguns links e bibliografia consultados: 

https://www.proantic.com/display.php?mode=obj&id=548481

https://fr.wikipedia.org/wiki/Pendule_(horlogerie)

https://fr.wikipedia.org/wiki/Exposition_universelle_de_1855

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b53024709w/f1.item

Le XIXe siècle français: Paris. Hachette, 1957

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma estampa veneziana da segunda metade do século XVIII ou votos de boas festas


Os seguidores deste blog já sabem que não sou muito dado a efemérides, comemorações, quadras festivas e outros assuntos da mesma natureza. Mas o Natal é sempre uma oportunidade para mostrar mais uma estampa religiosa.

Esta gravura é uma representação do Sono do Menino Jesus, impressa em Veneza, mais ou menos entre 1770-1800, por Niccolò Cavalli (1730–1822), gravada por Pellegrino dal Colle (1737–1812) a partir de uma obra do pintor Giovanni Battista Mengardi (1738-1796). 

Gio. Batta. Mengardi pinx. e Peregrinus de Colle Sculp. ap. N. Cavalli Venetiis.

Identifiquei os criadores desta estampa a partir dos dados constantes no rodapé, Gio. Batta. Mengardi pinx. e Peregrinus de Colle Sculp. ap. N. Cavalli Venetiis. São os nomes dos autores latinizados e a respectiva função na realização da gravura. Em latim, pinx quer dizer pintou, Sculp, esculpiu ou melhor gravou e Ap, é a abreviatura de Apud, isto é, imprimiu ou editou. Nesse último quartel do século XVIII o latim tinha ainda prestígio suficiente para os autores identificarem o seu trabalho nessa língua, pelo menos nas gravuras. O que fiz foi colocar estes dados no google e rapidamente cheguei ao sítio do British Museum, que tem uma estampa quase igual, onde os autores estavam perfeitamente identificados. Refiro, quase igual, porque a estampa da colecção do British Museum foi impressa no sentido inverso ao daquela, que pertence ao meu amigo Manel, o que leva a pensar que esta gravura teve várias reimpressões.
Ego dormio, et cor meum Vigilat. Estampa do British Museum. 

O título da estampa é o seguinte: Ego dormio, et cor meum Vigilat, frase latina, extraída da Bíblia, do Antigo Testamento, do livro Cântico dos Cânticos e que em português se traduz por Eu durmo; e o meu coração está desperto. 

Ego Dormio Et Cor Meum Vigilat, Desenho de Jacopo Amigoni (1682-1752) e gravada por Giovanni Volpato - Ca. 1730

Esta frase reporta-se ao tema da gravura, o sono do Menino Jesus, um tipo iconográfico do Deus Menino muito comum na pintura e na gravura nesta época, que o representa a dormir numa prefiguração da sua paixão e morte futura. Na mão segura uma romã, cujas bagas vermelhas simbolizam o sangue de Cristo e à sua cabeceira, há também um cacho de uvas de idêntica simbologia. Naturalmente, este sono do Menino significa também, que enquanto o seu corpo dormia, a alma continua activa pensando em todos os tormentos porque havia de passar para reconciliar o Pai com a humanidade.

Na mão segura uma romã, cujas bagas vermelhas simbolizam o sangue de Cristo e à sua cabeceira, há também um cacho de uvas de idêntica simbologia

Não consegui apurar se esta estampa foi retirada de um livro ou se foi já destina a ser vendida solta em todo o caso foi realizada a partir de uma obra do pintor italiano Giovanni Battista Mengardi (1738-1796), um discípulo de Tiepolo. É sobretudo conhecido pelas suas pinturas a fresco em Igrejas, mas desempenhou também um papel importante na República Veneziana, como responsável pelo património, tendo restaurado algumas obras de grandes mestres italianos. A sua actividade como desenhador de obras destinadas a serem gravadas é menos conhecida, mas foi muito activa, conforme indica Valerio Vernesi no Dizionario Biografico degli Italiani - Volume 73 (2009)

Esta estampa não é bem uma Natividade, nem Giovanni Battista Mengardi é propriamente um grande mestre italiano, mas não deixa de ser um trabalho veneziano de boa qualidade e uma boa forma de vos desejar a todos umas boas festas.



Alguns links e obras consultadas: 




Bíblia / trad. do texto grego, apresentação e notas Frederico Lourenço. - 1a ed. - Lisboa : Quetzal, 2016

http://www.artericerca.com/artisti_italiani_settecento/mengardi%20giambattista/giambattista%20mengardi%20biografia.htm

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Ainda a biblioteca do Solar de Outeiro Seco ou as andanças de um livro

Enchiridium Missarum Sollemnium

Escrever repetidamente neste blog sobre uma casa que já não é da família e cujo recheio foi irremediavelmente disperso pode parecer um exercício inútil e saudosista. Com efeito, esse velho solar transmontano foi pela família vendido à Câmara Municipal de Chaves, que o deixou arruinar e esta, por sua vez vendeu-o a um privado, que se propõe fazer um projecto de reconstrução criminoso. No fundo, as mobílias do solar, o museu e a biblioteca desapareceram e o próprio edifício vai ser engolido e descaracterizado por uns anexos sem gosto.


O passado: a fachada poente do Solar


O passado: a fachada Sul do Solar



O futuro: o novo e criminoso projecto para o Solar de Outeiro Seco!!!!

Mas sempre tive a convicção, que todos os meus escritos, compilando as memórias de uma velha casa senhorial da província, acabariam por ser úteis não só para a herança cultural da aldeia de Outeiro Seco e do Concelho de Chaves, como também para a história da cultura e da sociedade. O solar dos Montalvões tal como existiu é afinal um exemplo das casas senhoriais transmontanas no passado.

A biblioteca do Solar dos Montalvões

Uma das riquezas daquela casa era a biblioteca, com os seus quase dois mil títulos, datados dos séculos XIX, XVIII, XVII e mesmo do XVI. Foi vendida em 1986 a dois alfarrabistas de Lisboa, um com loja em S. Domingos de Benfica e outro na Feira da Ladra e dela restou o catálogo realizado pelos meus avós paternos, Maria do Espírito Santo Montalvão e Silvino da Cunha. Através dessa lista e de um dos filme que o meu pai fez nos anos 60, consegui identificar um dos tesouros daquela biblioteca ou livraria como se dizia no passado o Theatrum orbis terrarum de Abrahamus Ortelius publicado em Antuérpia, na oficina de Christophe Plantin, em 1584. Mas a biblioteca foi dispersa e nada mais sabia sobre o paradeiro dos seus livros.

Contudo, há cerca de um ano fui contactado por Francisco Vilaça Lopes, que estava a fazer uma investigação sobre um livro antigo, comprado precisamente na Feira da Ladra por um amigo, José António González Carrilho, um oliventino e um lusófilo. Para quem não está familiarizado com a biblioteconomia, quando se está a tratar um livro antigo, isto é, uma obra impressa entre 1500 e 1800 é tão importante identificar a edição com também os seus antigos proprietários. Através do estudo das marcas de posse de um livro, ainda que virtualmente, pode-se reconstituir antigas livrarias conventuais ou de casas senhoriais. E conhecendo o que se lia num mosteiro, num convento ou numa casa fidalga podemos avaliar a cultura dos seus proprietários ou ainda se estavam a par das novidades dos grandes centros de conhecimento, como Paris, Antuérpia, Roma ou Amesterdão. 

A obra comprada por José António González Carrilho na Feira da Ladra apresenta a assinatura do meu trisavô, Liberal Sampaio

A obra que o Francisco Vilaça Lopes se encontrava a estudar apresentava logo no primeiro fólio, uma anotação manuscrita, o nome de Liberal Sampaio. O Francisco Vilaça Lopes colocou esse nome no Google e fui ter ao blog do meu amigo Humberto Ferreira e do Fernando Ribeiro, que por sua vez lhe facultaram o meu contacto. Confirmei-lhe então que aquela era a assinatura do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que aquele livro tinha certamente feito parte da antiga biblioteca do solar da família Montalvão, muito acrescentada e enriquecida por esse meu antepassado. Contudo, a obra adquirida por José António González Carrilho um cantoral impresso, encontrava-se truncada, sem folha de rosto nem colofão e parecia impossível saber-se o título certo e relaciona-lo com o catálogo da antiga Biblioteca do Solar de Outeiro Seco. 
A obra apresenta a nota Cantochão escrita a lápis 

Mas o Francisco Vilaça Lopes esquadrinhou bem o livro e numa das folhas existia uma anotação manuscrita, com a palavra Cantochão e de facto no catálogo da biblioteca há uma entrada para uma obra designada por Cantochão, com o nº 1281, o que o levou a presumir que se tratava o mesmo livro.
No catálogo da biblioteca do solar há uma entrada para uma obra designada por Cantochão, com o nº 1281


Depois, o Francisco Vilaça Lopes fez mais investigações, pesquisou em vários catálogos de bibliotecas, leu, pediu opiniões a peritos e acabou por concluir que este cantoral trata-se do Enchiridium Missarum Sollemnium do padre João Dias, uma edição rara, impressa em Coimbra, em finais do século XVI e princípios do séc. XVII. Mas para saberem todos os pormenores deste seu trabalho de detective, convido-vos a ler o seu texto https://divinicultussanctitatem.blogspot.com/2020/11/descoberta-de-nova-edicao-do.html

O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio

Em suma, o meu trabalho no blog sobre a biblioteca do Solar de Outeiro Seco foi útil à investigação de um bibliófilo e fiquei feliz por saber, que esta obra rara, proveniente daquele solar se encontra estimada na posse de um oliventino, amigo de Portugal e que está ser seriamente estudada por Francisco Vilaça Lopes. Esta descoberta trouxe também mais alguma luz sobre o que foi a biblioteca daquela casa, até porque pela marca de posse, sabemos que foi adquirida pelo Padre José Rodrigues Liberal Sampaio. Embora o meu trisavô fosse um polígrafo, isto é, um homem com interesses variados que iam desde o direito, à teologia, passando pela história, numismática, arqueologia, parenética e política, desconheço se também interessou-se por música sacra ou se adquiriu este livro por coleccionismo. No tempo em que viveu o mercado livreiro estava cheio de obras provenientes dos antigos conventos, que os bibliófilos, como o meu antepassado, compravam a bom preço. Realmente o percurso que um livro faz ao longo da sua existência por vários proprietários tem sempre qualquer coisa de romanesco.

A estampa do Enchiridium Missarum Sollemnium

https://divinicultussanctitatem.blogspot.com/2020/11/descoberta-de-nova-edicao-do.html