domingo, 30 de março de 2014

Uma terrina em porcelana Vieux Paris: bom gosto e distinção

Foto de Maria do Carmo Labreuil
O Manuel comprou já há cerca de uns dois anos, uma belíssima terrina, muito possivelmente fabricada em Paris, nas primeiras décadas do Século XIX. É uma peça da chamada porcelana de Paris, ou Vieux Paris.

O chamado Vieux Paris não é nenhuma fábrica de porcelana, como a Vista Alegre ou Sêvres. Designa a produção de porcelana feita na capital francesa entre o último quartel do Século XVIII e a primeira metade do século XIX.

Segundo Régine de Plinval de Guillebon, autora da obra Porcelaine de Paris, 1770-1850. Friburg: Office du Livre, 1972 a definição de Porcelana de Paris no século XVIII é simples. Porcelana de pasta dura fabricada e decorada em manufacturas sediadas em Paris.
A porcelana de Paris inspira-se nas formas da arte grega, romana e etrusca. Foto Manel
Esta definição torna-se mais complexa no século XIX. Porcelana de pasta dura, em geral decorada em Paris, nem sempre fabricada nesta cidade, mas proveniente de manufacturas com morada oficial em Paris, ou de armazéns de revenda situados em Paris.

Quero isto dizer, que no início do Século XIX, altura em que esta terrina terá presumivelmente executada, existiam na capital francesa quer manufacturas de Porcelana que fabricavam e executam loiça, quer oficinas que compravam porcelana branca e depois a decoravam, quer armazéns que encomendavam a fábricas situadas fora de Paris, peças por encomenda ao gosto do cliente.

O gosto pelas decorações a ouro em fundo branco é típico da Porcelana de Paris. Terrina à venda no antiquário francês http://www.proantic.com
Talvez por haver tantos agentes envolvidos na fabricação, decoração e encomenda uma boa parte da Porcelana de Paris, não está marcada, o que pode gerar sempre algumas confusões de atribuições, pois os seus modelos foram copiados por toda a Europa, de Lisboa a St. Petersburgo. A nossa Vista Alegre, seguiu muito de perto as produções de Paris e por vezes é quase impossível distinguir uma ou outra. Por outro lado, muito embora houvesse legislação no sentido de os mestres marcarem as suas peças, muitos destes decoradores ou fabricantes tentariam fazer passar as suas peças por Porcelana de Sêvres, o paradigma do luxo francês e claro e não punham marca nenhuma.
Outro pormenor da terrina do Manel: o gosto neoclássico. Foto Manel.
E no entanto há algumas características da porcelana dita de Paris, nestes primeiros vinte ou vinte e cinco anos do século XIX, que a permitem identificar como por exemplo um gosto muito pronunciado pela decoração a ouro sobre o branco, sendo que este último se apresenta num tom leitoso. A decoração inspira-se nos tecidos e as formas na antiguidade clássica, como é o caso desta terrina.

Encontrei aliás no referido livro de Régine de Plinval de Guillebon uma placa de padrões, do célebre mestre de porcelana Nast, onde podemos ver padrões muito idênticos aos da terrina do Manel e que são típicos da porcelana Vieux Paris.



Por último, talvez seja interessante situar esta terrina do Manuel, muito neoclássica, no gosto geral da época em que foi produzida, dominado pelo estilo Império (1803-1821), fortemente inspirado em Roma e na Grécia antiga, bem como na arte etrusca e do Egipto. 

Para que as pessoas, tenham uma ideia mais precisa, reproduzo aqui o interior de um quarto estilo império, do Museu das Artes Decorativas em Paris, onde se pode ver precisamente uma peça de porcelana da chamada cidade luz.

Quarto estilo Império. Musée des Arts Decoratifs. Paris. Ao centro vemos um jarro e lavatório em Porcelana de Paris

domingo, 23 de março de 2014

Uma terrina provavelmente da Fábrica da Bandeira

 
Na faiança portuguesa, que raramente está marcada, é sempre fácil dizermos disparates quando tentamos fazer atribuições. Andámos sempre às apalpadelas e a possibilidade de nos enganarmos é muito grande. Talvez por isso é sempre sensato seguir o trabalho que outros fizeram antes de nós, de gente que trabalha há muitos anos com faiança e cujo estudo faz parte do seu trabalho diário.
A terrina do Manuel não está marcada como é habitual na Faiança portuguesa, o que provoca sempre grandes confusões nas atribuições
Foi precisamente este método que segui para tentar atribuir uma terrina pintada com cores garridas, que o Manel comprou há pouco tempo. Imaginava que fosse do Norte, mas claro, tanto eu como o Manel hesitámos entre Bandeira e Fervença. Até porque eu também tenho uma terrina com um formato muito idêntico a esta, e sobre a qual não consigo ter uma opinião definida sobre o seu fabricante, embora ache que seja uma produção da área Porto/ Gaia.
Excerto dos Meninos Gordos. Porto: Civilização, 2005
Desta vez, tive mais sorte, pois Isabel Maria Fernandes, no livro Meninos gordos. Porto: Civilização, 2005 fez o trabalho por mim, quando sistematizou todos os motivos decorativos, que aparecem nos pratos dos meninos gordos. Nas últimas páginas do livro, há um glossário de motivos decorativos, que cobre desde as flores, às árvores, passando pelos os motivos vegetalistas como os penachos e os palmitos, até aos zoomórficos. É um trabalho extremamente bem feito, e só tive que procurar pelas folhas semelhantes a este prato e de facto encontrei-as imediatamente, sendo que as peças decoradas com este tipo de folhas são atribuídas à Fábrica da Bandeira (fundada cerca de 1828 e encerrada pouco depois de 1913).
Prato número 2 do catálogo Meninos gordos. Porto: Civilização, 2005. Atribuído à Fábrica da Bandeira

Prato número 1 do catálogo Meninos gordos. Porto: Civilização, 2005. Atribuído à Fábrica da Bandeira
Se nos abstrairmos dos meninos gordos dos pratos atribuídos a Bandeira e olharmos só para a cercadura, percebemos que há um ar de família entre eles e a terrina do Manel.
A pega da tampa da terrina foi mal restaurada

sábado, 15 de março de 2014

Um pequeno monumento à minúcia: um registo com um Agnus Dei

Hoje apresento-vos uma das minhas últimas aquisições, uma verónica preciosamente trabalhada, contendo no meio um registo trabalhado em canivet, com um cordeiro místico.

Confesso-vos que desde que aqui tinha mostrado um canivet, que pertence à nossa amiga Alexandra Roldão, andava louco para ter também um desses registos trabalhados com um pequeno canivete, normalmente datados do século XVIII.

Há quem ambicione ter um jeep tão grande como o do vizinho ou do cunhado, mas eu prefiro invejar estas peças, que tem tanto de bonito, como de frágil, pois são feitas de materiais perecíveis, papel, renda e tecidos.

Antes do restauro
Quando o comprei estava em muito mau estado. O vidro estava sujo, os fios metálicos a imitar um rendilhado estavam soltos e eu nem me atrevi a tocar-lhe com medo que ele se desfizesse nas minhas mãos. Valeu-me a boa vontade e a paciência do Manel, que desmontou toda a estrutura e conseguiu restaura-lo e devolver-lhe a um pouco da sua antiga beleza.

Este trabalho de restauro do Manel permitiu perceber um pouco melhor das técnicas e dos materiais com que estes registos eram feitos.

O canivet é feito em tecido
Em primeiro lugar, o registo representando o cordeiro místico não é feito em papel como eu pensava, que todos canivets o fossem. É um pedacinho de pano, que foi picado com um pequeno canivete e depois esticado, para que os orifícios alargassem e produzissem o efeito de um rendilhado. No centro, foi aplicada uma pasta, um preparado, onde pintaram o cordeiro místico ou Agnus Dei. O vidro é daqueles feitos à mão, com de pequenas bolhas de ar e com ligeiríssimas ondulações

Quanto à moldura do registo, foi feita em cartão e o formato semicilíndrico foi-lhe dado cosendo as pontas, de modo enrola-lo e para ficar com a devida consistência foi enchido com papéis, talvez velhas cartas, todas manuscritas com uma letra que parece do século XVIII. Depois essa estrutura foi revestida com restinhos de tecidos em seda estampados, fixados com uma daquelas colas caseiras feitas com farinha e a disfarçar as junções colocaram um fio metálico, imitando uma renda, que em tempos foi prateado. Na orla foi colocada uma passamanaria, em renda de bilros, que coitada, está muito desfeita. Atrás existe um mero cartão sem qualquer espécie de ornato, pois era a parte que estava virada para a parede, que as pessoas não viam.

Foram usados velhos papeis manuscritos para dar consistência à moldura

É um trabalho minucioso, um daqueles ditos lavores femininos, normalmente feitos em conventos, ou por senhoras ou meninas criadas nessas casas religiosas e que tinham todo o tempo do mundo para estes trabalhos feitos com restos de tecido, contas, missangas e passamanaria.

Por exemplo, a célebre poetisa, Marquesa de Alorna, foi encerrada no convento de Chelas, juntamente com a sua mãe e irmã, durante 19 anos, apenas, porque pertenciam à família Távora, considerada responsável pelo atentado ao Rei D. José. 


Entre os 8 anos e os 27 anos a jovem Leonor de Almeida passou 19 anos enclausurada, entre rezas, missas e jejuns, com o cheiro sempre persistente das velas de sebo e das flores fanadas nas jarras de altar. Claro, ela era uma mulher excepcional e rebelou-se. Conseguiu por portas travessas reunir uma biblioteca com obras dos pensadores iluministas e dos clássicos, vestia-se de forma luxuosa, desafiava a regra do convento e a sua fama de mulher de espírito rapidamente chegou à corte e começou a ser visitada por homens e mulheres de cultura, que formaram um círculo literário à sua volta. Essas visitas decorriam num espaço com uma grade, que separava as reclusas do mundo lá de fora. Mas isso não impediu a jovem Leonor de Almeida de formar junto à grade uma tertúlia literária, onde pontuavam poetas como Filinto Elísio ou jovens da melhor nobreza como Teresa de Mello Breyner, Condessa do Vimiero.

A Marquesa de Alorna conseguiu finalmente sair do convento, já mulher adulta, com 27 anos, depois da morte do Rei D. José e do imediato afastamento do poder do Marquês de Pombal, que nutria um ódio de morte aos Távora. Mas outras mulheres e também de alta condição social nunca conseguiram sair e dedicaram uma vida inteira, em que o tempo não passava, a manufacturar estes registos, pequenos monumentos à minúcia.


Sobre a vida da Marquesa de Alorna, recomendo:

As luzes de Leonor / Maria Teresa Horta. Lisboa: D. Quixote, 2001

domingo, 9 de março de 2014

Um candeeiro fora de moda

Comprei este pequeno candeeiro há mais de 25 anos na feira-da-ladra com a minha ex-mulher. Terá custado uns 300 escudos, já não me lembro bem, mas foi o primeiro objecto que comprámos para a nossa casa, um apartamento minúsculo num prédio com cerca de 200 anos, com vista para rua das Escolas-Gerais, onde víamos passar o mítico eléctrico 28 a cada quarto de hora. Foram uns tempos engraçados.

Passávamos a vida a perder e a mudar de empregos, mas tínhamos uma vida com uma certa dose de boémia. Também naquele bairro, cheio de gente alternativa, como diríamos hoje em dia, bastava ir à varanda para conhecer gente curiosa ou encontrar amigos da noite a passar na rua. Confesso que este candeeiro é um pequeno símbolo daquele tempo, que guardo com uma certa nostalgia.

Já ninguém usa estes candeeiros com abat-jours plissados e rematados com passamanaria.
Não é nenhuma antiguidade. Deve ser uma peça dos anos 30, 40 ou até mesmo 50 do século XX. É um objecto fora-de-moda. Já ninguém usa estes candeeiros com abat-jours plissados e rematados com passamanaria. Mas o fora-de-moda traz a obsessão do tempo que passa, a nostalgia mais querida, como escreveu Catherine N’diadye, nesse livrinho delicioso, intitulado A coquetterie ou a paixão do pormenor. Lisboa: Edições 70, 1987.

A luz suave de um abat-jour atenua e suaviza as rugas, as olheiras e as marcas do tempo
Não só o meu passado a luz suavemente matizada deste abat-jour plissado evoca, mas também um tempo que eu não vivi e que só conheço através dos livros, como o período do fin-de-siècle em Paris, mais propriamente o ano de 1898, quando César Ritz inaugurou o célebre e luxuoso hotel com o seu nome na capital francesa. Este empresário hoteleiro de origem suíça mandou electrificar o Ritz, o que era uma absoluta novidade naquele tempo. Mas como a luz eléctrica era demasiado forte e crua, César Ritz mandou colocar abat-jours cor de pêssego sobre os candeeiros eléctricos, de modo a disfarçar e embelezar a tez demasiado pálida e cansada das mulheres mundanas, que frequentavam o restaurante ou hotel. A luz suave de um abat-jour atenua e suaviza as rugas, as olheiras e as marcas do tempo.

Este candeeiro é apenas um objecto fora de moda, ainda não dormiu o suficiente para ter um carácter histórico, nem foi ainda apanhado novamente pela moda, que tende sempre voltar atrás e repescar as coisas do passado. É apenas um objecto sentimental e a sentimentalidade nunca consegue viver o tempo louco e rápido da moda.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Velharias do Luís de novo na Televisão

Paliteiro Vista Alegre
Este blogue vai de vento-em-popa e nesta passada quarta-feira, o seu autor esteve novamente na televisão e foi entrevistado pela Fátima Lopes, na TVI, no programa A tarde é sua. Houve também uma reportagem na minha casa e o operador de câmara fez verdadeiros malabarismos para se movimentar com aquela máquina de filmar gigantesca no meu apartamento minúsculo e sem partir nada. No início da reportagem o senhor estava muito apreensivo acerca como iria filmar aquele espaço quase mais pequeno, que a câmara dele, mas depois entusiasmou-se com a quantidade de pequenos detalhes com que a vista se distrai na minha casa e acabou por fazer um belo trabalho.

É bem certo que A Tarde é sua não é um programa cultural, daqueles que passam noite dentro na RTP2, onde o pessoal vai dizer umas poesias e discorrer acerca de cinema alemão dos anos 20, mas fiquei orgulhoso por partilhar e divulgar o gosto pelas velharias e pela história num programa de grande audição. Nesta época de crise, creio que consegui passar a mensagem, que é possível mobilar com gosto uma casa com peças herdadas, compradas em segunda mão ou mesmo até achadas no lixo e ainda por cima divertimo-nos imenso com isso. Andar à cata de velharias é um passatempo onde coleccionamos não só objectos, mas também histórias muito engraçadas. Ainda há pouco tempo uma Senhora na feira-da-Ladra tentou-me vender a mim e ao Manel um vestido de noiva e olhem que seríamos capazes de tirar aquilo por pouco mais de cinco euros, se eventualmente algum de nós tivesse uma noiva…

Pequenos detalhes
Também neste programa ficou clara a ideia que necessitamos ter uma memória, quer dos nossos antepassados directos, quer do nosso passado enquanto povo. Como diria Marguerite Yorcenar a vida humana está muito mais no passado do que no presente. O presente é sempre um momento curto, mesmo, quando a sua plenitude o faz parecer eterno.


Para ver o autor deste blog falar das suas velharias, cliquem neste link http://www.tvi.iol.pt/videos/14100184

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Um candeeiro de azeite: a luz dos mortos

Hoje apresento aqui um objecto que antigamente estava presente na casa de todas as famílias portuguesas com algum desafogo económico, um candeeiro de azeite.

Sempre gostei destes objectos altos e elegantes, cheios de penduricalhos, embora nunca tivesse bem percebido para o que serviam. Uma tia minha ainda me explicou a utilidade daquelas coisinhas que pendiam dele, mas confesso, que me esqueci de tudo e a senhora morreu entretanto. Só há pouco tempo quando um destes candeeiros entrou na minha casa me detive a pensar um pouco na sua utilidade e em época teriam sido fabricados. Parti então à procura de algumas informações sobre estes objectos hoje caídos em desuso. 

Consultei a Vida e a arte do Povo português: Lisboa: Comissão Nacional dos Centenários, 1940 mas o autor limitava-se a descrever as várias formas com que se apresentavam os candeeiros e a referir que estes recipientes se filiavam nas formas das lucernas bi ou trirrostres romanas, muito embora a sua existência só esteja documentada em Portugal a partir do Século XVII.

Fiz mais umas pesquisas aqui e acolá na Internet e descobri que o Museu de Évora realizou uma exposição em 2011 sobre candeeiros de azeite, que na altura tinham sido recentemente doados ao Museu por uma coleccionadora, Maria Faustina Margiochi. Mais tarde, um colega de emprego deu-me fotocópias deste catálogo, que está muito bem feito e consegui finalmente entender o mistério que estes objectos encerram.
Ao lado do candeeiro, a palmatória que comprei num funileiro na Rua de S. Vicente
Os candeeiros de azeites eram feitos por funileiros em latão amarelo, uma liga em que o elemento básico é o cobre e pelo que eu deduzi da leitura deste livro, as formas foram-se mantendo inalteradas ao longo de dezenas e dezenas de anos, o que complica a datação destes objectos. Os funileiros também nunca marcavam os seus trabalhos, de modo que tal como na faiança é quase impossível identificar oficinas. No entanto, foram fabricados até há muito pouco tempo. Os autores do catálogo da exposição Candeeiros de azeite do Museu de Évora: colecção Margiochi ainda tiveram acesso ao testemunho de um funileiro no bairro da Graça, que não há muito tempo ainda executava estes candeeiros. Julgo que conheci essa oficina, na rua de S. Vicente e há cerca de uns 25 anos comprei-lhe uma palmatória também latão, que coloquei ao lado deste candeeiro de azeite.


Quanto à sua utilidade, os candeeiros de azeite, eram usados até há bem poucos anos nos velórios. Esse costume só acabou, quando os mortos deixaram de ser velados em casa e os ritos fúnebres passaram  a ser feitos nas capelas mortuárias. Até então, durante o velório colocavam-se um par de candeeiros de azeite a flanquear um crucifixo, por cima de uma mesa, revestida de uma toalha branca, decorada com uma faixa de renda. Os candeeiros eram acessos durante todo o velório e a chama só se deixava morrer depois da saída do defunto. Curiosamente,  jantei há pouco tempo na casa de uma coleccionadora de cerâmica e sobre a mesa estava uma tolha antiga, que a senhora tinha comprado como uma toalha de mortos, embora penso que se trataria de uma mortalha.

Nas famílias com menos recursos era vulgar pedirem-se emprestados estes candeeiros aos vizinhos.

A simbologia deste costume de acender os candeeiros nos velórios é mais ou menos óbvia. A luz significa a vida e a escuridão, as trevas. A luz simboliza a protecção de Deus, mesmo para aqueles que deixaram a vida.

Este pequeno catálogo Candeeiros de azeite do Museu de Évora: colecção Margiochi. Évora: IMC-Museu de Évora, 2011 dá também uma explicação do funcionamento destes candeeiros, preciosa para nós, que vivemos num tempo em que a luz é uma questão de clicar num interruptor e já está.

O candeeiro é composto por uma coluna, uma pega para o transportar de um lado para o outro, uma base e o depósito onde se coloca o azeite. O depósito pode ter um número variável de bicos. Por exemplo, o meu só tem 3. Depois existem os pertences do candeeiro, isto é, os penduricalhos. O morranzeiro (6b) é usado para empurrar o pavio para dentro do bico e acreditem que é muito útil. O meu candeeiro perdeu o dele e tive que meter o pavio lá dentro com o auxílio de uma chave de parafusos muito pequenina e vi-me grego para o fazer. O Espevitador (6d)serve para ir puxando o pavio para fora à medida que vai se queimando e para retirar os seus restos, que se colocam no balde(6a). Por fim, o apagador(6c) serve como o nome indica para apagar a chama.

O candeeiro apresenta também um reflector(7), que falta ao meu e ainda uma chave (4) que serve para regular a altura do depósito.

Todas estas informações são verdadeiras, pois comprovei-as eu, que enchi o meu candeeiro com azeite e usei os fios de uma esfregona como pavios.

Os candeeiros de azeite embora sejam todos muitos semelhantes, apresentam por vezes formas muito imaginativas, como este que aqui apresento, em forma de peixe, também propriedade do Museu de Évora.

Fiquei muito contente com a leitura deste livro editado pelo Museu de Évora, que mostra bem que com pouco dinheiro se pode fazer muito. Agora só me falta tentar encontrar nas feiras de velharias os pertences que faltam ao meu candeeiro, o reflector e o morranzeiro.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os desposórios de Nossa Senhora: estampa de Manuel da Silva Godinho

 
Continuo a perder-me pelos registos religiosos e sobretudo acho muita graça, a estes em que a moldura da composição é em formato octogonal. Não sei exactamente a razão da popularidade deste formato, mas julgo que se adaptariam bem aos trabalhos de decoração como missangas, flores de papel e passamanaria com que antigamente se decoravam estas estampas.

Também me chamou a atenção o tema, que não é dos mais vulgares, os desposórios de Nossa Senhora, isto é, o casamento de S. José e da Virgem Maria, que trocam alianças na presença de um Sumo-sacerdote. Este episódio da vida de Maria começou a ser representado na arte a partir dos finais da Idade Média e teve origem na Lenda Dourada, que por sua vez teve por fonte os Evangelhos Apócrifos.

Para quem não saiba, a Legende dorée é uma obra redigida em latim entre 1261 e 1266 por Jacques de Voragine, que conta a vida de cerca de 150 santos e ainda alguns acontecimentos da vida de Cristo e da Virgem. Segundo, o historiador Philippe Walter, esta Legende dorée é uma autêntica mitologia cristã, construída sobre as crenças pagãs, que o Cristianismo soube assimilar com o objectivo de as controlar.

Os evangelhos Apócrifos são aqueles textos antigos, que o Catolicismo ao longo dos seus muitos séculos de existência rejeitou como canónicos, mas que acabaram por influenciar a fortemente a religião popular e a arte.

Bem todas estas explicações servem para passar a ideia de que o casamento da Virgem e de S. José é um episódio  sumariamente mencionado no novo Testamento, e que assenta antes num conjunto de tradições antigas, com muitos elementos pagãos à mistura. E no entanto, apesar de a história não fazer parte do dogma católico tem uma certa beleza.

Luca Giordano. O Casamento da Virgem. séc. XVII. Museu do Louvre. Foto http://www.culture.gouv.fr/public/mistral/joconde_fr
Muito resumidamente, quando Maria fez 14 anos, O Sumo-Sacerdote decidiu que todas as raparigas, que tinham atingido a puberdade deveriam casar. Maria recusou obedecer, porque segundo o ela os pais a tinham consagrado ao serviço de Deus, o que provocou um certo embaraço no templo, porque não se poderia quebrar um voto sagrado. Os membros do templo decidiram remeter o assunto para a inspiração divina e ouviu-se uma voz desconhecida, que ordenou que todos os homens núbeis deveriam aproximar-se do altar com um cajado. Aquele cuja vara florisse poderia desposar a Virgem. Claro, nenhum dos candidatos teve a sorte de ver o seu cajado florir, excepto S. José, que foi o eleito de Deus para casar com Maria. Esta lenda ajuda-nos a entender não só a cena representada nesta estampa, como também a própria iconografia tradicional de S. José, que é muitas vezes mostrado segurando o seu cajado florido com açucenas. Aliás, um dos nomes vulgares da Açucena (Lilium candidum) é precisamente cajado de S. José.

O cajado de S. José ou Açucena
Quanto à estampa propriamente dita, como foi cortada, não tem a assinatura de qualquer impressor ou gravador com a qual se possa datar, embora me parecesse desde logo quando a comprei, que fosse coisa do século XVIII. Enfim, a minha experiência com livros antigos, permite-me aperceber-me pela cor, textura e espessura do papel se uma estampa é antiga ou não. Para ver se a conseguia datar, fui procurar uma igual no site da Sociedade Martins Sarmento, que tem on-line uma belíssima colecção de 1600 estampas dos séculos XVII-XIX e é mundo para os amantes gravuras religiosas. E claro, tive muita muita sorte, pois a Sociedade Martins Sarmento tem um exemplar, que não foi cortado e está assinado pelo gravador, Manuel da Silva Godinho, um senhor que viveu entre 1751?-1809? e de que já mostrei aqui uma Santa Catarina de Alexandria.

Os Desposórios de Nossa Senhora da Sociedade Martins Sarmento. No Canto inferior esquerdo está o nome do gravador.

Na feira de Estremoz comprei depois uma moldura antiga, limpei a madeira, usei como fundo um resto de um tecido de Damasco e estes Esponsais da Virgem foram fazer companhia a mais uma dezena de santinhos, que enfeitam a casa deste ateu empedernido. 
Alguma Bibliografia:
Dictionnaire illustré de la Bible: - Paris: Bordas, 1990