sexta-feira, 26 de abril de 2019

Tudo sobre candeeiros


Não faço a menor ideia como se fazem recensões críticas de novos livros, mas conheci recentemente um investigador especializado em luminária e que me ofereceu uma obra da sua autoria, intitulada Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda, pedindo-me para escrever sobre ela, aqui no blog das Velharias do Luís, e pronto aqui vai a minha recensão muito pouco académica.

Os estudos sobre a luminária em Portugal são escassos e julgo que sobre candeeiros do século XIX, o livro do António Cota Fevereiro deve ser o primeiro, e com efeito, este autor fez um bom estudo da colecção real dos candeeiros a gás, petróleo, azeite e electricidade do Palácio Nacional da Ajuda, com um levantamento sistemático das marcas, comparação das obras com os catálogos das principais fábricas e ainda transcreveu dos arquivos os documentos com as encomendas da Casa Real aos fornecedores portugueses e estrangeiros. É um livro útil para todos os que gostam de antiguidades e velharias e ainda para aqueles, que ainda acham que a iluminação de uma casa, deve ir mais além do que uns assépticos focos espalhados por ali e acolá. Claro está, o livro é também um convite para se visitar o Palácio Nacional da Ajuda.
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com. O António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros
Aliás, o António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros e gosta de bater as feiras de velharias, onde estes objectos se encontram ainda a bom preço. Escreve regularmente num blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com, onde descreve os seus achados, as pesquisas realizadas para a identificação das peças, pequenos restauros e os abat-jours que ele próprio confecciona.
 
No blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com analisam-se os candeeiros dos filmes de época.
Mas o blog, vai mais além, pois o António, que é também um cinéfilo, analisa os filmes passados no século XIX e inícios do XX à luz dos candeeiros presentes nos adereços e indica-nos, que em determinada cena um candeeiro é de época ou se aquele outro modelo foi apenas usado dez anos depois dos factos narrados. Com muita atenção analisa a iluminação dos interiores desses filmes, que muitas vezes é demasiado clara e eléctrica, para ser verdadeira. Uma casa típica de meados do século XIX, alumiada com gás ou a petróleo, é obviamente mais escura, que um ambiente artificial de estúdio.
 
O blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais, publicados no século XIX
 
O blog tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais. publicados no século XIX ou inícios do XX, que nos ajudam a perceber o tipo de globo ou abat-jour, que se deve usar numa base de candeeiro, comprada por tuta-e-meia no olx.pt ou num mercado de velharias.

Para quem tenha um gosto vitoriano e aprecia bater as feiras de velharias recomendo a leitura da obra Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda e do blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com
 
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com
 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Do outro lado da barricada: Manuel Augusto Granjo: um condiscípulo republicano de José Maria Ferreira Montalvão

Manuel Augusto Granjo. Fotografia de J. M. dos Santos, Coimbra

Iniciei agora o trabalho de identificação dos retratos do segundo álbum de fotografias em formato carte-de-visite, que uma prima me ofereceu. Terá sido constituído pelo meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão (19-05-1878/24-5-1965) e a maioria das fotografias são dos condiscípulos do curso de Direito da Universidade Coimbra, que finalizaram a sua licenciatura no ano lectivo de 1901/1902, embora haja um ou outro retrato de colegas de outros cursos, bem como de outros anos.

Embora nunca tenha sido um militante activo de causas políticas, como o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que se envolveu em acérrimas polémicas na imprensa flaviense, o seu filho José Maria Ferreira Montalvão sempre foi monárquico. A bandeira azul e branca da monarquia esteve hasteada no Solar dos Montalvões muito depois da República e só dali foi apeada, aquando da visita do Presidente Carmona aquela casa, nos anos 30 ou 40 do século XX e mesmo depois desse momento foi guardada religiosamente numa vitrina, no chamado museu, onde eu ainda me recordo de a ver nos finais dos anos 70. Por onde andará ela hoje?
 
Verso da fotografia com a dedicatória "Ao seu amigo José de Montalvão, oferece com muita estima e amizade, M. Augusto Granjo, Chaves"
 
Por esse motivo, tive uma grande surpresa, quando deparei com um retrato de Manuel Augusto Granjo, com uma dedicatória afectuosa ao meu bisavô. Este Manuel Augusto Granjo foi o irmão do célebre António Granjo, uma das mais emblemáticas figuras da República portuguesa. Para os leitores do Brasil, menos familiarizados com a história portuguesa, a República portuguesa decorreu entre 1910 e 1926 e foi um período muito conturbado, em que os governos se sucediam uns atrás dos outros, com golpes e contra golpes de estado, arruaças, invasões de monárquicos, assassinatos políticos, surtos da pneumónica e ainda a desastrosa participação portuguesa na primeira Guerra Mundial. Lisboa, que hoje é considerada uma cidade segura e pacata, era na altura um sítio perigoso, onde a qualquer momento podia haver tiroteios. O banqueiro, Cândido Sottomayor, outro ilustre flaviense, ficou cego com um tiro perdido quando espreitava uma revolução da janela da sua casa lisboeta. António Granjo é quase um símbolo desses tempos conturbados.
 
António Granjo. Os dois irmãos eram muito parecidos. Foto retirada de Cinzas imortais: na morte de António Granjo / Rodrigo de Castro. – Porto: Tip. Lusitania, 1922
 
Mas, quando Manuel Augusto Granjo ofereceu a sua fotografia ao meu bisavô, provavelmente, quando terminou o curso de Direito, em 1898 os tempos eram ainda outros, mais pacíficos e reinava ainda o Rei D. Carlos. Manuel Augusto Granjo e o meu bisavô não fizeram o curso de Direito na Universidade de Coimbra ao mesmo tempo. José Maria Ferreira Montalvão estudou entre 1895 e 1902 e o irmão do célebre líder republicano entre 1893 e 1898. Em todo o caso, ainda conviveram três anos em Coimbra, o tempo suficiente para formarem uma amizade e trocarem fotografias, além de que se já se conheceriam de Chaves. Claro, os dois eram de níveis sociais diferentes, o meu bisavô pertencia uma família fidalga, muito conhecida de Chaves e os irmãos Granjos eram filhos de um curtidor e vendedor de peles. No entanto a família de Granjo deve ter alcançado algum bem-estar económico, pois conseguiu suportar os custos da educação de Manuel Augusto e mais tarde do próprio António Granjo. Em todo o caso, em Coimbra e na vida de boémia que sempre os estudantes faziam naquela cidade, as diferenças sociais esbater-se-iam um pouco, diante de uma garrafa de vinho e uma guitarra.
 
O meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão, no momento da sua formatura em 1902. Foto de Pinho Henriques, Coimbra

Deste Manuel Augusto Granjo não se sabe muito. Nasceu ainda em Carção, Vimioso e estudou em Direito, na Universidade de Coimbra entre 1893 e 1898. Foi administrador do Concelho de Chaves em 1898 e em 1908 já estava conspirar com o irmão numa intentona republicana. Foi advogado e professor do Liceu Central do Porto a partir de 1913 e deputado entre 1915 e 1916. Morreu cedo, em 1919 e terá deixado um filho, também chamado Manuel, que António Granjo nomeou seu herdeiro num testamento que fez em 1917 antes de partir para frente de combate, em França. Enfim, teve uma vida mais bem mais tranquila que o irmão António Granjo, que esteve em todos os momentos cruciais da República. Combateu contra os monárquicos, durante as incursões das tropas de Paiva Couceiro, em Trás-os-Montes nos anos de 1911 e de 1912, lutou na frente francesa durante a Primeira Guerra Mundial, foi ministro, primeiro-ministro e ainda protagonizou um dos últimos duelos da história portuguesa, em 1912, contra Álvaro de Castro. Em 19 de Outubro de 1921 foi assassinado, durante o célebre episódio da camioneta fantasma, ou noite sangrenta, em que uma camioneta andou por Lisboa a recolher líderes políticos, que foram depois chacinados no Arsenal da Marinha.
 
A camioneta fantasma. Foto Ilustração Portuguesa, 12 de novembro de 1921. Foto Hemeroteca Digital
 
Estes antigos álbuns familiares são com efeito inventário de imagens do passado de uma família, mas também da sociedade de uma região num determinado momento histórico e um testemunho muito relevante para a história no geral

Alguma bibliografia:

António Granjo : República e liberdade / Ernesto Castro Leal, Teresa Nunes ; rev. Susana Oliveira. - Lisboa : Assembleia da República, 2012.

Cinzas imortais: na morte de António Granjo / Rodrigo de Castro. – Porto: Tip. Lusitania, 1922
 
E ainda um agradecimento especial à Sra. D. Gabriela Fontes
 

terça-feira, 2 de abril de 2019

Fragmentos de um vaso opulento


O dono de uma loja de velharias ofereceu ao meu amigo Manel estas duas antigas pegas de um vaso ou taça em terracota. São dois meninos, ou putti, como se diz em arte, em forma de caríatides, que em tempos foram as asas de uma taça ou vaso opulento. Certamente que essa peça seria meramente decorativa e estaria pousada em cima de uma pequena mesa, um guéridon, ou numa consola à entrada de uma casa burguesa, numa demonstração óbvia que a família proprietária era rica e poderia dar-se ao luxo de comprar objectos aparatosos, caros e inúteis. Porém, quando os senhores da casa morreram, os netos ou bisnetos venderam o recheio da casa e nas mudanças, a aparatosa taça partiu-se em mil pedaços e restaram estas asas. Talvez estes dois fragmentos sejam mais bonitos assim, com um certo ar de achados arqueológicos, do que quando a taça estava inteira, certamente uma coisa demasiado pretensiosa e burguesa.
 
Asas de uma taça ou vaso

Não é que não tenha procurado na net como seria o objecto a que estas asas estavam adoçadas. Mas nas artes decorativas europeias, vasos e taças com asas em forma de caríatides são muito comuns na ourivesaria, no barro, na porcelana e ainda nos bronzes e em outras ligas metálicas e as pesquisas que fiz acabaram por ser inconclusivas. Coloquei a hipótese de se tratarem das asas de uma taça feita nas Caldas, mas naquele centro de fabrico cerâmico há sempre uma certa busca pelo insólito e seria mais natural que tivessem escolhido para as pegas a forma de um lagarto ou de um macaco. Outra suposição que faria sentido seria a Fábrica das Devesas, que produziu taças e vasos decorativos com decorações rebuscadas. Também poderá ser o caso ser um fabrico francês ou espanhol. Por uma questão de mera intuição creio que serão peças fabricadas nos finais do XIX ou na primeira metade do XX.

Em todo o caso, estes fragmentos assim soltos tem a capacidade de nos despertar a imaginação. Olhamos para eles e começamos a reconstituir mentalmente o vaso burguês e pomposo a que um dia pertenceram, ou pura e simplesmente deixamo-nos arrastar pelo romantismo e sonhamos que foram postos a descoberto numa jazida arqueológica na Sicília, em Chipre ou na Grécia.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Os condiscípulos de Coimbra de Liberal Sampaio: Abílio Augusto da Maia e Costa ou a história de um reencontro


Como já referi várias vezes no blog, contínuo no trabalho de identificação dos personagens retratados no álbum de fotografias formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio. Uma parte significativa dessas fotografias em formato carte-de-visite é formada por retratos de condiscípulos do meu antepassado dos cursos de teologia ou de direito da Universidade de Coimbra, datadas mais ou menos entre 1888 e 1891. A maioria das personagens está identificada com uma legenda escrita a lápis pelo meu trisavô, ou tem dedicatórias no verso, a ele dedicadas, mas ficam quase sempre por responder as seguintes interrogações: quem foram eles? Que relações estabeleceram com José Rodrigues Liberal Sampaio?


Uma das personalidades dos quais ainda não tinha conseguido encontrar nada, até há pouco tempo, foi a de um tal Abílio Augusto da Maia e Costa, licenciado em Direito, a julgar pela pasta escura, e natural de Vouzela, conforme se pode ler na dedicatória.
Verso da fotografia com a dedicatória manuscrita. Ao meu caro colega e bom amigo Jose Rodrigues Liberal Sampaio em saudosa recordação dos tempos de Coimbra, oferece Abílio Augusto da Maia e Costa, Passos de Villarigues, Vouzela, 25-5-90

Resolvi fazer umas quantas pesquisas no Google pelo seu nome e acabei por ir ter ao fórum do geneall.net, conhecido site de genealogia onde um bisneto procurava informações sobre este antepassado. Comentei o seu post escrevendo que tinha uma fotografia do seu bisavô e que me prontificava a enviar-lhe uma cópia digital frente e verso, bem como a trocar informações sobre o assunto. Posteriormente correspondemos nos por e-mail e o mais engraçado de tudo isto, é que já nos conhecíamos pessoalmente de casa de um amigo comum e ambos pertencemos ao mesmo meio profissional. Foi um pouco como se passados uns 130 anos, o acaso histórico voltasse a cruzar os destinos de Liberal Sampaio e Abílio Augusto da Maia e Costa, através dos seus descendentes, um bisneto e um trisneto.
José Rodrigues Liberal Sampaio no momento da formatura, em 1891. O seu condiscípulo Abílio formou-se um ano antes.

Não consegui apurar exactamente a relação que Abílio Augusto da Maia e Costa e Liberal Sampaio estabeleceram, mas certamente foi boa, pelo menos dos tempos de Coimbra, de outra forma o primeiro nunca ofereceria o seu retrato ao segundo. Em 1890 a fotografia ainda era demasiado cara para se oferecer uma prova a mero um amigo de ocasião. Contudo, os destinos destes antigos alunos de alunos de Coimbra tiveram muito em comum. Tal como o meu trisavô, Abílio Augusto da Maia e Costa também foi padre e também teve filhos, sete ao todo. Contudo, ao contrário de José Rodrigues Liberal Sampaio, que nunca deixou o sacerdócio, apesar de manter uma relação prolongada com uma senhora, Abílio Augusto da Maia e Costa acabou ter ordens suspensas, em circunstâncias que o seu bisneto desconhece. Talvez os sete filhos ilegítimos tenham dado demasiado nas vistas num meio pequeno como Vouzela. Poder-se-ia pensar que o José Rodrigues Liberal Sampaio foi mais discreto na sua relação com Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão e que terá vivido de acordo com o celebre princípio enunciado pelo prelado Adalberto de Bremen, no século XI, Si non caste, tamen caute, que quer dizer à letra, se não castamente, ao menos com cautela, mas em Chaves toda a gente saberia certamente que o padre Liberal Sampaio teve um filho com a fidalga de uma família muito conhecida na região e com a qual chegou a viver maritalmente, muito embora o menino o tratasse por padrinho.
A casa onde Abílio Augusto da Maia e Costa viveu em Souto de Lafões

Por outro lado, os sete filhos ilegítimos de Abílio Augusto da Maia e Costa não o impediram de ter uma carreira respeitável em Vouzela como Conservador do Registo e advogado em Vouzela e desempenhou por duas vezes o cargo de administrador de Concelho da referida vila em 1920 e em 1926.

Como já referi muitas vezes ao longo deste blog, a propósito da figura de José Rodrigues Liberal Sampaio e da relação que teve com Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, no século XIX, padres com filhos e bastardos eram fenómenos comuns. Certamente não eram as situações mais desejáveis, mas também não significam uma exclusão social.

Contudo, creio que estes homens, Liberal Sampaio e Abílio Augusto da Maia e Costa viviam a situação no seu íntimo com algum sofrimento, pois eram profundamente crentes e de alguma forma sentiam que tinham violado um sacramento. Segundo, me contou o Bisneto, Abílio Augusto da Maia e Costa já mais velho voltou a usar o cabeção, como sinal de aproximação a Deus e no final da sua vida ofereceu a cada casa da aldeia onde sempre viveu, Souto de Lafões, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, como gesto de arrependimento público.
Abílio Augusto da Maia e Costa na praia de Espinho, onde veraneava com a família durante o mês de Setembro

Para nós, que vivemos num mundo descristianizado e de liberdade sexual é difícil entender realmente as situações destes dois sacerdotes em que a fé entrava em conflito com o desejo de ter uma companheira e de procriar.

Em todo o caso, este reencontro dos familiares destes dois homens, que se conheceram em Coimbra no último quartel do século XIX foi um acontecimento feliz. O bisneto de Abílio Augusto da Maia e Costa ficou comovido por ver pela primeira vez o rosto do bisavô com vinte e poucos anos, na flor da vida, pois só conhecia fotografias do senhor já idoso e o que é mais curioso é que os dois são fisicamente parecidos, como se os genes do antigo condiscípulo do meu trisavô teimassem em permanecer vivos.

 Abílio Augusto da Maia e Costa. Fotografia de J. Sartoris, Coimbra

segunda-feira, 18 de março de 2019

Chávena e pires de porcelana francesa dos finais do século XVIII ou inícios do século XIX


Este conjunto de chávena e pires foram a minha mais recente aquisição na feira de Estremoz. O preço era de tal forma irrecusável, que era pecado deixa-lo na banca.

Embora as peças não estejam marcadas, quando comprei o conjunto estava convencido que era Companhia das Índias, termo com que vulgarmente é conhecida a porcelana de chinesa realizada especialmente para o mercado europeu, nos séculos XVIII e inícios do séc. XIX. Pela sua decoração neoclássica, achei que fosse coisa do reinado Jiaqing (1796-1820). Procurei na net, em livros e em catálogos de leilões encontrar loiça idêntica, que pudesse fundamentar a minha opinião, mas as pesquisas foram inconclusivas. Além disso, percebo muito pouco de porcelana oriental.



Outro factor intrigante neste conjunto é que na reserva, onde deveria estar um brasão, um monograma do nome de quem encomendou o serviço, ou simplesmente um motivo decorativo qualquer, como uma paisagem ou um pássaro, encontram-se números. Na reserva da chávena está pintado o nº 20 e na do pires o nº 35. Mais nas outras peças iguais que eu deixei na banca, casa, cada uma tinha o seu número diferente. Fiquei a matutar neste assunto. Será que em tempos o serviço foi encomendado com uma numeração sequencial por algum burguês rico ou por um aristocrata, com o objectivo de controlar eventuais roubos por parte da criadagem?

Pedi ajuda a um amigo, conservador de cerâmica, o Rui Trindade, que através das fotografias foi de opinião, que esta chávena e pires são porcelana europeia, provavelmente francesa, dos últimos anos do século XVIII ou dos primeiros anos do XIX. Chamou-me até a atenção para o formato da asa, com uma ligeira saliência interior para melhor aderência do dedo, igual a uma chávena da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Conjunto do Museu Nacional de Arte Antiga, inv.4699 e 467o. Foto Matriznet
Depois destas explicações pesquisei na net pela expressão tasse litron et soucoupe porcelaine française e encontrei muitas chávenas de porcelana francesa com o mesmo formato e com uma decoração, que não anda muito longe desta, com as grinaldas e outros elementos emprestados dos têxteis, muito típicos da produção francesa da época. Relativamente aos números, o Rui Trindade crê que se trate de peças de mostruário, em que há uma pequena variante para cada uma delas. Fiquei com pena de não ter comprado as restantes peças do serviço para poder comprovar melhor esta teoria.


Claro não há certezas, até porque nem o pires nem a chávena estão marcados, mas cinco euros por uma peça que poderá bem ser um conjunto dos finais do XVIII, ou inícios do XIX, vale bem a toda a incerteza.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Uma família em trajes de corte: Nossa Senhora da Madre de Deus de Guimarães


Mesmo sem saber como encaixa-lo na minha casa, comprei mais um registo para a minha colecção de santos, pois encantei-me completamente com esta representação da Nossa Senhora, São José e do Menino Jesus, sumptuosamente vestidos em trajes de corte. É curioso, que eu até já tenho uma estampa com esta representação da Sagrada Família,  mostrada aqui no blog, em 2012, para desejar as boas festas aos meus seguidores, só que, como é uma coisa com menos de meia dúzia de centímetros, não lhe liguei muito. Achei que era uma mera gravurazinha destinada a um escapulário, enfeitado com continhas.



Mas, esta gravura de maiores dimensões, em que os personagens da Sagrada Família envergam uma indumentária tão rica, cheia de pormenores, fez-me suspeitar de imediato que reproduzisse um conjunto de esculturas, que existiu em tempos nalguma igreja, objecto de intensa devoção. No site da Sociedade Martins Sarmento, que tem uma belíssima colecção de registos de santos, encontrei uma gravura muito semelhante a esta, apenas o desenho da moldura difere, mas identifica inequivocamente a devoção, Nossa Senhora da Madre de Deus. A minha estampa tem apenas uma legenda em latim Virgo Maria Mater Dei.

Estampa da colecção da Sociedade Martins Sarmento

De seguida fiz meia dúzia de pesquisas no Google e descobri que esta estampa representa de facto imagens, que ainda hoje existem e são muito veneradas na igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, na cidade de Guimarães. Encontrei também referência a um catálogo de uma exposição, onde estas imagens figuram, Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias / coord. Isabel Maria Fernandes e José Cardoso de Menezes Couceiro da Costa. - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004, que me apressei a consultar e cujo conteúdo aqui reproduzo de forma muito sumária.
Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

Segundo essa obra, a Sagrada Família, representada nesta gravura, foi encomendada em Lisboa por Luís António da Costa Pego, capelão de D. João V, em cumprimento de um voto e destinava-se ao Convento das Capuchinhas, da cidade de Guimarães. O conjunto escultórico vinha acompanhado de uma coroa em prata para a Nossa Senhora, oferecido por D. João V, um resplendor em prata para S. José, dado pelo príncipe herdeiro, o futuro de rei D. José e um enxoval esplendoroso, bordado e executado pelas reais infantas. Quando o magnífico conjunto chegou a Guimarães em 1748, houve uma grande procissão, em que as imagens foram mostradas pela cidade e houve festejos grandiosos. A sagrada família permaneceu no Convento das Capuchinhas até 1910 e o seu enxoval não deixou de ser acrescentado, com uma coroa para o Menino Jesus, um cajado de açucenas para o S. José,  também em prata, ambos já do início do século XIX e ainda muitos trajes, vestidos, capas, camisas, laços para a Virgem, gravatas para o S. José e colchinhas para o Menino Jesus, confeccionados e bordados pelas senhoras da melhor sociedade vimaranense, que com algumas adaptações, foram sempre seguindo o estilo da indumentária da segunda metade do século XVIII.
Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

As imagens de roca que estão por debaixo deste guarda-roupa luxuoso, eram vestidas pelas Senhoras de Guimarães e as cores variavam consoante o calendário litúrgico.


Em 1910, após a Republica, com a Lei da Separação, os bens do Convento das Capuchinhas foram vendidos em hasta pública e as imagens e o enxoval foram comprados por Henrique Cardoso de Martins Menezes, conde de Margaride. As esculturas deixaram o convento das Capuchinhas e foram depositadas na Igreja da Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, mas as jóias e o guarda-roupa ficaram na casa do referido Conde. No entanto, todos os anos, por alturas da Páscoa essas preciosidades vinham para a referida igreja vestir e adornar as imagens, que saiam em procissão. Em 1956, os descendentes do Conde de Margaride entregaram o enxoval em título de depósito definitivo à Irmandade acima referida e as imagens continuam a sair em procissão pelas ruas de Guimarães ainda nos dias de hoje.


Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

Para os nossos olhos contemporâneos, os trajes de corte que a Sagrada Família enverga, parecem-nos uma contradição, já que o Menino Jesus nasceu numa humilde manjedoura como toda a gente sabe. Mas no passado, as imagens ricamente vestidas significavam para os crentes que eram poderosas, capazes de propiciarem curas miraculosas, numa época, em que a medicina era incipiente, a mortalidade elevada e a esperança de vida curta. Por essa mesma razão as mulheres devotas ofereciam a essas representações do divino os seus colares e brincos mais valiosos e os homens encomendavam-lhes capas de seda bordadas a ouro, para pagar à Virgem ou ao Menino Jesus, aquilo que em todos os tempos nunca tem preço, a sua vida ou a dos entes queridos.
O verso do registo está revestido com um bonito papel de lustro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Matheus d'Oliveira Xavier, patriarca das Índias Orientais

 
O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, foi um homem excepcional, que em 1886, já com 40 anos de idade partiu para Coimbra, para fazer dois cursos universitários em simultâneo, o de Direito e Teologia e em 1891 completou com êxito as duas licenciaturas.
 
No álbum de fotografias que o meu trisavô formou, consta uma significativa galeria de jovens padres, seus condiscípulos de Coimbra, que ora se formaram em Direito, ora em Teologia. A maioria desses retratos estão-lhe dedicados com frases afectuosas, idênticas aquelas que os finalistas dos dias de hoje escrevem nas fitas. Talvez neste último quartel do século XIX, estas dedicatórias fossem ainda mais sentidas, já que quase todos eles eram oriundos de fora de Coimbra, encontravam-se longe das suas terras e da família, partilhando quartos e uma intensa vida em comum durante cinco anos. Quando finalizavam os cursos, trocavam as fotografias em formato carte-de-visite, escrevendo no verso pequenas, mas sentidas manifestações de amizade, pois como toda a gente sabe, Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.
 
Verso da fotografia de Mateus de Oliveira Xavier, dedicada a José Rodrigues Liberal Sampaio.
 
As fotografias desses jovens condiscípulos do meu trisavô foram todas tiradas em Coimbra, a maioria delas no estúdio de Adriano da Silva Sousa (9 retratos), que devia ser o fotógrafo mais popular entre os estudantes e ainda duas no atelier de J. M. dos Santos e uma no J. Sartoris.
A maioria das fotografias dos condiscípulos de Coimbra do meu trisavô foram feitas pelo estúdio de Adriano da Silva Sousa, que devia ser o fotógrafo mais popular entre os estudantes.  
 
À luz do nosso olhar contemporâneo, estes jovens padres não nos parecem muito entusiasmantes. Uns arvoram um ar seráfico, outros manifestam evidente falta de exercício físico e de actividades ao ar livre e outros ainda são definitivamente uns campónios. Mas também a boa aparência física, tão importante nos nossos dias, não era certamente o seu objectivo como homens de religião. E o que é certo, é que muitos destes homens vieram a ocupar cargos importantes na vida local ou distinguiram-se na actividade educativa. O Padre José Gonçalves Lage publicou 25 manuais escolares ao longo da sua vida. Manuel de Jesus Pimenta foi o primeiro reitor do Liceu Nacional de Guimarães e o seu irmão, que também consta deste álbum, João Nepomoceno Pimenta foi Vice-Reitor do Seminário de Braga. Isidoro Martins Pereira de Andrade foi professor do Liceu Central e do Seminário Episcopal de Viseu e por fim, José Albino Ferreira veio a ser Presidente da Câmara Municipal de Penacova e ainda colaborou regularmente na imprensa local. Enfim, estes são apenas alguns dos exemplos das personalidades retratadas neste álbum e das quais já consegui traçar um pouco dos seus percursos de vida.
 
Mateus de Oliveira Xavier em 1888. Um belo homem
 
Desta galeria de clérigos, houve a figura de um jovem, que me impressionou desde logo, Mateus de Oliveira Xavier. Era em 1888, à data da fotografia, um homem bonito, de testa alta, bem penteado, um olhar inteligente e que posou para a câmara sem artifícios de beato. Posteriormente, as pesquisas, que fiz sobre ele não desfizeram esta impressão inicial. Mateus de Oliveira Xavier, que nasceu em 1858 em Vale da Urra, aldeia próxima de Vila de Rei, teve uma carreira admirável. Partiu para a Índia portuguesa, em 1894, como secretário do Patriarca, D. António Sebastião Valente e aqui rapidamente foi nomeado reitor do seminário de Rachol. Reformou os planos de estudo desta casa e fundou nela uma faculdade de teologia. Em 1898, foi sagrado bispo de Cochim, onde desenvolveu uma grande actividade na educação, criando escolas e um liceu para ambos os sexos, o que para a época era notável. Percorria toda a sua diocese de lés a lés e exerceu uma administração moderna e eficiente. Era também um homem fluente em línguas, além do português, escrevia correctamente o latim, dominava o francês, o inglês e o concani. Para os mais esquecidos da história portuguesa, recorde-se que Cochim, foi uma possessão portuguesa entre 1503 e 1663 e na época de D. Mateus de Oliveira Xavier estava já sobre domínio britânico, embora continuasse a existir uma grande comunidade católica indo-portuguesa. Ainda hoje, os cristãos constituem 35 por cento da população daquela cidade indiana.
 
A Sé de Cochim. Foto Wikipédia
 
Uma das obras fundamentais de D. Mateus de Oliveira Xavier foi a construção da nova sé de Cochim, que foi inaugurada em 1905 e ainda hoje existe. Mas a sua carreira não parou por aí. Em 1908 foi nomeado Patriarca das Índias Orientais, cargo importantíssimo, já que Goa, a Roma do Oriente, era ainda na época o centro do catolicismo em todas essas longínquas paragens. Em fevereiro de 1909, D. Mateus de Oliveira Xavier foi capa da popular revista Ocidente, que lhe dedicou um extenso artigo e publicou uma fotografia sua, agora com cinquenta anos e o jovem bonito e inteligente retratado em 1888, no álbum do meu trisavô, transformou-se num poderoso patriarca, com impressionantes barbas, capaz de conduzir o seu povo pelas areias do deserto até a terra prometida. Só os olhos se mantiveram iguais.
 
Mateus de Oliveira Xavier em 1908. Foto revista Ocidente
 
Bibliografia consultada:
D. Mateus de Oliveira Xavier: patriarca das Índias Orientais
In O occidente : revista illustrada de Portugal e do estrangeiro, N.º 1084 ( 10 Fev. 1909 )