sexta-feira, 10 de maio de 2019

Vistas do Reno: terrina inglesa da Davenport


Ao longo dos anos o meu amigo Manel foi coleccionando muita faiança inglesa do século XIX, que ainda se encontra a bom preço no mercado das velharias em Portugal. Umas das minhas peças preferidas desta pequena colecção é esta terrina e travessa da fábrica inglesa da Davenport, com o padrão conhecido Reno, Rhine Pattern ou Rhenish views, o que em Português quer dizer, vistas do Reno. Em tempos fez parte de um serviço que apresentava várias paisagens daquele grande rio europeu, que nasce na Suíça, onde serve de fronteira entre aquele País, a Áustria e o Liechtenstein, atravessa a Alemanha, a França e desagua na Holanda A leiloeira inglesa Bonhams teve um serviço destes à venda em 2005, com 13 vistas diferentes do Reno, embora até essa data estivessem documentadas apenas 10.

Na informação que se encontra on-line normalmente indica-se que estas vistas do Reno serão aparentemente imaginárias. Contudo, no caso desta terrina, segundo alguma pesquisa que fiz, as paisagens representadas serão um pouco mais reais do que se pensava. Em primeiro lugar representarão aspectos do chamado médio Reno, uma região onde o rio corre por gargantas profundas e no alto dos montes, se alcandoram castelos medievais. É uma zona muito turística, em cujas encostas crescem extensos vinhedos e que é património mundial da UNESCO, desde 2002.
 


Em segundo lugar, pelo menos a travessa da terrina representa seguramente a vista de Ehrenbreitstein, em frente a Coblença, que na altura era um subúrbio do outro lado do Reno e que hoje faz parte daquela cidade alemã. Encontrei duas estampas com a representação de Ehrenbreitstein, Coblença e creio uma delas terá servido de fonte aos artistas da Davenport para conceberem o desenho desta travessa ou presentoir, como dizem os franceses.
 
Coblentz e o castelo de Ehrenbreitstein. Estampa com desenho de C G Schutz, gravada por Sutherland, publicada por R. Ackermann, 1820.
Publicada na obra A picturesque tour along the Rhine, from Mentz to Cologne : with illustrations of the scenes of remarkable events, and of popular traditions

 
Coblentz e o castelo de Ehrenbreitstein. Estampa da obra A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet,1807

Igualmente a vista da terrina parece-me uma panorâmica da cidade de Coblença, com a sua ponte sobre o Mosela, composta livremente a partir de estampas da época, muito embora aqui não haja uma semelhança tão evidente entre estas imagens e a peça de loiça, como na vista de Ehrenbreitstein.
 
 
 
 
Relativamente à tampa da terrina não consegui identificar a paisagem representada, embora seja uma panorâmica típica do médio Reno, onde o rio corre entre gargantas profundas e nas margens erguem-se povoações históricas com as suas torres de igrejas.
 
 
Andernach. Uma típica paisagem do Médio Reno. Estampa da obra A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet,1807

Nas primeiras décadas do século XIX foram publicados uns quantos livros de viagens sobre o Reno, como por exemplo A picturesque tour along the Rhine, from Mentz to Cologne, London : R. Ackermann, 1820, A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet, 1807 ou ainda, Tombleson's views of the Rhine, London : W. Tombleson & Co, 1832 e seria muito interessante poder comprar as ilustrações destes livros com as todas peças deste serviço da Davenport para chegar a conclusões mais definitivas.
 

Esta travessa da Davenport, com a marca impressa a azul terá sido produzida em meados do século XIX, numa época em que o movimento romântico descobriu os castelos medievais arruinados do Reno com panorâmicas majestosas e as viagens por aquele rio tornaram-se parte do circuito do Grand Tour. Esta louça da Davenport permitia satisfazer o gosto pela Idade Média e pelas paisagens românticas, trovadores, valquírias e princesas encantadas aquelas pessoas com algum dinheiro para comprarem um serviço de faiança, mas não o suficiente o suficiente para empreenderem uma viajem ao longo do Reno.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Tudo sobre candeeiros


Não faço a menor ideia como se fazem recensões críticas de novos livros, mas conheci recentemente um investigador especializado em luminária e que me ofereceu uma obra da sua autoria, intitulada Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda, pedindo-me para escrever sobre ela, aqui no blog das Velharias do Luís, e pronto aqui vai a minha recensão muito pouco académica.

Os estudos sobre a luminária em Portugal são escassos e julgo que sobre candeeiros do século XIX, o livro do António Cota Fevereiro deve ser o primeiro, e com efeito, este autor fez um bom estudo da colecção real dos candeeiros a gás, petróleo, azeite e electricidade do Palácio Nacional da Ajuda, com um levantamento sistemático das marcas, comparação das obras com os catálogos das principais fábricas e ainda transcreveu dos arquivos os documentos com as encomendas da Casa Real aos fornecedores portugueses e estrangeiros. É um livro útil para todos os que gostam de antiguidades e velharias e ainda para aqueles, que ainda acham que a iluminação de uma casa, deve ir mais além do que uns assépticos focos espalhados por ali e acolá. Claro está, o livro é também um convite para se visitar o Palácio Nacional da Ajuda.
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com. O António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros
Aliás, o António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros e gosta de bater as feiras de velharias, onde estes objectos se encontram ainda a bom preço. Escreve regularmente num blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com, onde descreve os seus achados, as pesquisas realizadas para a identificação das peças, pequenos restauros e os abat-jours que ele próprio confecciona.
 
No blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com analisam-se os candeeiros dos filmes de época.
Mas o blog, vai mais além, pois o António, que é também um cinéfilo, analisa os filmes passados no século XIX e inícios do XX à luz dos candeeiros presentes nos adereços e indica-nos, que em determinada cena um candeeiro é de época ou se aquele outro modelo foi apenas usado dez anos depois dos factos narrados. Com muita atenção analisa a iluminação dos interiores desses filmes, que muitas vezes é demasiado clara e eléctrica, para ser verdadeira. Uma casa típica de meados do século XIX, alumiada com gás ou a petróleo, é obviamente mais escura, que um ambiente artificial de estúdio.
 
O blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais, publicados no século XIX
 
O blog tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais. publicados no século XIX ou inícios do XX, que nos ajudam a perceber o tipo de globo ou abat-jour, que se deve usar numa base de candeeiro, comprada por tuta-e-meia no olx.pt ou num mercado de velharias.

Para quem tenha um gosto vitoriano e aprecia bater as feiras de velharias recomendo a leitura da obra Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda e do blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com
 
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com
 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Do outro lado da barricada: Manuel Augusto Granjo: um condiscípulo republicano de José Maria Ferreira Montalvão

Manuel Augusto Granjo. Fotografia de J. M. dos Santos, Coimbra

Iniciei agora o trabalho de identificação dos retratos do segundo álbum de fotografias em formato carte-de-visite, que uma prima me ofereceu. Terá sido constituído pelo meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão (19-05-1878/24-5-1965) e a maioria das fotografias são dos condiscípulos do curso de Direito da Universidade Coimbra, que finalizaram a sua licenciatura no ano lectivo de 1901/1902, embora haja um ou outro retrato de colegas de outros cursos, bem como de outros anos.

Embora nunca tenha sido um militante activo de causas políticas, como o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que se envolveu em acérrimas polémicas na imprensa flaviense, o seu filho José Maria Ferreira Montalvão sempre foi monárquico. A bandeira azul e branca da monarquia esteve hasteada no Solar dos Montalvões muito depois da República e só dali foi apeada, aquando da visita do Presidente Carmona aquela casa, nos anos 30 ou 40 do século XX e mesmo depois desse momento foi guardada religiosamente numa vitrina, no chamado museu, onde eu ainda me recordo de a ver nos finais dos anos 70. Por onde andará ela hoje?
 
Verso da fotografia com a dedicatória "Ao seu amigo José de Montalvão, oferece com muita estima e amizade, M. Augusto Granjo, Chaves"
 
Por esse motivo, tive uma grande surpresa, quando deparei com um retrato de Manuel Augusto Granjo, com uma dedicatória afectuosa ao meu bisavô. Este Manuel Augusto Granjo foi o irmão do célebre António Granjo, uma das mais emblemáticas figuras da República portuguesa. Para os leitores do Brasil, menos familiarizados com a história portuguesa, a República portuguesa decorreu entre 1910 e 1926 e foi um período muito conturbado, em que os governos se sucediam uns atrás dos outros, com golpes e contra golpes de estado, arruaças, invasões de monárquicos, assassinatos políticos, surtos da pneumónica e ainda a desastrosa participação portuguesa na primeira Guerra Mundial. Lisboa, que hoje é considerada uma cidade segura e pacata, era na altura um sítio perigoso, onde a qualquer momento podia haver tiroteios. O banqueiro, Cândido Sottomayor, outro ilustre flaviense, ficou cego com um tiro perdido quando espreitava uma revolução da janela da sua casa lisboeta. António Granjo é quase um símbolo desses tempos conturbados.
 
António Granjo. Os dois irmãos eram muito parecidos. Foto retirada de Cinzas imortais: na morte de António Granjo / Rodrigo de Castro. – Porto: Tip. Lusitania, 1922
 
Mas, quando Manuel Augusto Granjo ofereceu a sua fotografia ao meu bisavô, provavelmente, quando terminou o curso de Direito, em 1898 os tempos eram ainda outros, mais pacíficos e reinava ainda o Rei D. Carlos. Manuel Augusto Granjo e o meu bisavô não fizeram o curso de Direito na Universidade de Coimbra ao mesmo tempo. José Maria Ferreira Montalvão estudou entre 1895 e 1902 e o irmão do célebre líder republicano entre 1893 e 1898. Em todo o caso, ainda conviveram três anos em Coimbra, o tempo suficiente para formarem uma amizade e trocarem fotografias, além de que se já se conheceriam de Chaves. Claro, os dois eram de níveis sociais diferentes, o meu bisavô pertencia uma família fidalga, muito conhecida de Chaves e os irmãos Granjos eram filhos de um curtidor e vendedor de peles. No entanto a família de Granjo deve ter alcançado algum bem-estar económico, pois conseguiu suportar os custos da educação de Manuel Augusto e mais tarde do próprio António Granjo. Em todo o caso, em Coimbra e na vida de boémia que sempre os estudantes faziam naquela cidade, as diferenças sociais esbater-se-iam um pouco, diante de uma garrafa de vinho e uma guitarra.
 
O meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão, no momento da sua formatura em 1902. Foto de Pinho Henriques, Coimbra

Deste Manuel Augusto Granjo não se sabe muito. Nasceu ainda em Carção, Vimioso e estudou em Direito, na Universidade de Coimbra entre 1893 e 1898. Foi administrador do Concelho de Chaves em 1898 e em 1908 já estava conspirar com o irmão numa intentona republicana. Foi advogado e professor do Liceu Central do Porto a partir de 1913 e deputado entre 1915 e 1916. Morreu cedo, em 1919 e terá deixado um filho, também chamado Manuel, que António Granjo nomeou seu herdeiro num testamento que fez em 1917 antes de partir para frente de combate, em França. Enfim, teve uma vida mais bem mais tranquila que o irmão António Granjo, que esteve em todos os momentos cruciais da República. Combateu contra os monárquicos, durante as incursões das tropas de Paiva Couceiro, em Trás-os-Montes nos anos de 1911 e de 1912, lutou na frente francesa durante a Primeira Guerra Mundial, foi ministro, primeiro-ministro e ainda protagonizou um dos últimos duelos da história portuguesa, em 1912, contra Álvaro de Castro. Em 19 de Outubro de 1921 foi assassinado, durante o célebre episódio da camioneta fantasma, ou noite sangrenta, em que uma camioneta andou por Lisboa a recolher líderes políticos, que foram depois chacinados no Arsenal da Marinha.
 
A camioneta fantasma. Foto Ilustração Portuguesa, 12 de novembro de 1921. Foto Hemeroteca Digital
 
Estes antigos álbuns familiares são com efeito inventário de imagens do passado de uma família, mas também da sociedade de uma região num determinado momento histórico e um testemunho muito relevante para a história no geral

Alguma bibliografia:

António Granjo : República e liberdade / Ernesto Castro Leal, Teresa Nunes ; rev. Susana Oliveira. - Lisboa : Assembleia da República, 2012.

Cinzas imortais: na morte de António Granjo / Rodrigo de Castro. – Porto: Tip. Lusitania, 1922
 
E ainda um agradecimento especial à Sra. D. Gabriela Fontes
 

terça-feira, 2 de abril de 2019

Fragmentos de um vaso opulento


O dono de uma loja de velharias ofereceu ao meu amigo Manel estas duas antigas pegas de um vaso ou taça em terracota. São dois meninos, ou putti, como se diz em arte, em forma de caríatides, que em tempos foram as asas de uma taça ou vaso opulento. Certamente que essa peça seria meramente decorativa e estaria pousada em cima de uma pequena mesa, um guéridon, ou numa consola à entrada de uma casa burguesa, numa demonstração óbvia que a família proprietária era rica e poderia dar-se ao luxo de comprar objectos aparatosos, caros e inúteis. Porém, quando os senhores da casa morreram, os netos ou bisnetos venderam o recheio da casa e nas mudanças, a aparatosa taça partiu-se em mil pedaços e restaram estas asas. Talvez estes dois fragmentos sejam mais bonitos assim, com um certo ar de achados arqueológicos, do que quando a taça estava inteira, certamente uma coisa demasiado pretensiosa e burguesa.
 
Asas de uma taça ou vaso

Não é que não tenha procurado na net como seria o objecto a que estas asas estavam adoçadas. Mas nas artes decorativas europeias, vasos e taças com asas em forma de caríatides são muito comuns na ourivesaria, no barro, na porcelana e ainda nos bronzes e em outras ligas metálicas e as pesquisas que fiz acabaram por ser inconclusivas. Coloquei a hipótese de se tratarem das asas de uma taça feita nas Caldas, mas naquele centro de fabrico cerâmico há sempre uma certa busca pelo insólito e seria mais natural que tivessem escolhido para as pegas a forma de um lagarto ou de um macaco. Outra suposição que faria sentido seria a Fábrica das Devesas, que produziu taças e vasos decorativos com decorações rebuscadas. Também poderá ser o caso ser um fabrico francês ou espanhol. Por uma questão de mera intuição creio que serão peças fabricadas nos finais do XIX ou na primeira metade do XX.

Em todo o caso, estes fragmentos assim soltos tem a capacidade de nos despertar a imaginação. Olhamos para eles e começamos a reconstituir mentalmente o vaso burguês e pomposo a que um dia pertenceram, ou pura e simplesmente deixamo-nos arrastar pelo romantismo e sonhamos que foram postos a descoberto numa jazida arqueológica na Sicília, em Chipre ou na Grécia.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Os condiscípulos de Coimbra de Liberal Sampaio: Abílio Augusto da Maia e Costa ou a história de um reencontro


Como já referi várias vezes no blog, contínuo no trabalho de identificação dos personagens retratados no álbum de fotografias formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio. Uma parte significativa dessas fotografias em formato carte-de-visite é formada por retratos de condiscípulos do meu antepassado dos cursos de teologia ou de direito da Universidade de Coimbra, datadas mais ou menos entre 1888 e 1891. A maioria das personagens está identificada com uma legenda escrita a lápis pelo meu trisavô, ou tem dedicatórias no verso, a ele dedicadas, mas ficam quase sempre por responder as seguintes interrogações: quem foram eles? Que relações estabeleceram com José Rodrigues Liberal Sampaio?


Uma das personalidades dos quais ainda não tinha conseguido encontrar nada, até há pouco tempo, foi a de um tal Abílio Augusto da Maia e Costa, licenciado em Direito, a julgar pela pasta escura, e natural de Vouzela, conforme se pode ler na dedicatória.
Verso da fotografia com a dedicatória manuscrita. Ao meu caro colega e bom amigo Jose Rodrigues Liberal Sampaio em saudosa recordação dos tempos de Coimbra, oferece Abílio Augusto da Maia e Costa, Passos de Villarigues, Vouzela, 25-5-90

Resolvi fazer umas quantas pesquisas no Google pelo seu nome e acabei por ir ter ao fórum do geneall.net, conhecido site de genealogia onde um bisneto procurava informações sobre este antepassado. Comentei o seu post escrevendo que tinha uma fotografia do seu bisavô e que me prontificava a enviar-lhe uma cópia digital frente e verso, bem como a trocar informações sobre o assunto. Posteriormente correspondemos nos por e-mail e o mais engraçado de tudo isto, é que já nos conhecíamos pessoalmente de casa de um amigo comum e ambos pertencemos ao mesmo meio profissional. Foi um pouco como se passados uns 130 anos, o acaso histórico voltasse a cruzar os destinos de Liberal Sampaio e Abílio Augusto da Maia e Costa, através dos seus descendentes, um bisneto e um trisneto.
José Rodrigues Liberal Sampaio no momento da formatura, em 1891. O seu condiscípulo Abílio formou-se um ano antes.

Não consegui apurar exactamente a relação que Abílio Augusto da Maia e Costa e Liberal Sampaio estabeleceram, mas certamente foi boa, pelo menos dos tempos de Coimbra, de outra forma o primeiro nunca ofereceria o seu retrato ao segundo. Em 1890 a fotografia ainda era demasiado cara para se oferecer uma prova a mero um amigo de ocasião. Contudo, os destinos destes antigos alunos de alunos de Coimbra tiveram muito em comum. Tal como o meu trisavô, Abílio Augusto da Maia e Costa também foi padre e também teve filhos, sete ao todo. Contudo, ao contrário de José Rodrigues Liberal Sampaio, que nunca deixou o sacerdócio, apesar de manter uma relação prolongada com uma senhora, Abílio Augusto da Maia e Costa acabou ter ordens suspensas, em circunstâncias que o seu bisneto desconhece. Talvez os sete filhos ilegítimos tenham dado demasiado nas vistas num meio pequeno como Vouzela. Poder-se-ia pensar que o José Rodrigues Liberal Sampaio foi mais discreto na sua relação com Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão e que terá vivido de acordo com o celebre princípio enunciado pelo prelado Adalberto de Bremen, no século XI, Si non caste, tamen caute, que quer dizer à letra, se não castamente, ao menos com cautela, mas em Chaves toda a gente saberia certamente que o padre Liberal Sampaio teve um filho com a fidalga de uma família muito conhecida na região e com a qual chegou a viver maritalmente, muito embora o menino o tratasse por padrinho.
A casa onde Abílio Augusto da Maia e Costa viveu em Souto de Lafões

Por outro lado, os sete filhos ilegítimos de Abílio Augusto da Maia e Costa não o impediram de ter uma carreira respeitável em Vouzela como Conservador do Registo e advogado em Vouzela e desempenhou por duas vezes o cargo de administrador de Concelho da referida vila em 1920 e em 1926.

Como já referi muitas vezes ao longo deste blog, a propósito da figura de José Rodrigues Liberal Sampaio e da relação que teve com Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, no século XIX, padres com filhos e bastardos eram fenómenos comuns. Certamente não eram as situações mais desejáveis, mas também não significam uma exclusão social.

Contudo, creio que estes homens, Liberal Sampaio e Abílio Augusto da Maia e Costa viviam a situação no seu íntimo com algum sofrimento, pois eram profundamente crentes e de alguma forma sentiam que tinham violado um sacramento. Segundo, me contou o Bisneto, Abílio Augusto da Maia e Costa já mais velho voltou a usar o cabeção, como sinal de aproximação a Deus e no final da sua vida ofereceu a cada casa da aldeia onde sempre viveu, Souto de Lafões, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, como gesto de arrependimento público.
Abílio Augusto da Maia e Costa na praia de Espinho, onde veraneava com a família durante o mês de Setembro

Para nós, que vivemos num mundo descristianizado e de liberdade sexual é difícil entender realmente as situações destes dois sacerdotes em que a fé entrava em conflito com o desejo de ter uma companheira e de procriar.

Em todo o caso, este reencontro dos familiares destes dois homens, que se conheceram em Coimbra no último quartel do século XIX foi um acontecimento feliz. O bisneto de Abílio Augusto da Maia e Costa ficou comovido por ver pela primeira vez o rosto do bisavô com vinte e poucos anos, na flor da vida, pois só conhecia fotografias do senhor já idoso e o que é mais curioso é que os dois são fisicamente parecidos, como se os genes do antigo condiscípulo do meu trisavô teimassem em permanecer vivos.

 Abílio Augusto da Maia e Costa. Fotografia de J. Sartoris, Coimbra

segunda-feira, 18 de março de 2019

Chávena e pires de porcelana francesa dos finais do século XVIII ou inícios do século XIX


Este conjunto de chávena e pires foram a minha mais recente aquisição na feira de Estremoz. O preço era de tal forma irrecusável, que era pecado deixa-lo na banca.

Embora as peças não estejam marcadas, quando comprei o conjunto estava convencido que era Companhia das Índias, termo com que vulgarmente é conhecida a porcelana de chinesa realizada especialmente para o mercado europeu, nos séculos XVIII e inícios do séc. XIX. Pela sua decoração neoclássica, achei que fosse coisa do reinado Jiaqing (1796-1820). Procurei na net, em livros e em catálogos de leilões encontrar loiça idêntica, que pudesse fundamentar a minha opinião, mas as pesquisas foram inconclusivas. Além disso, percebo muito pouco de porcelana oriental.



Outro factor intrigante neste conjunto é que na reserva, onde deveria estar um brasão, um monograma do nome de quem encomendou o serviço, ou simplesmente um motivo decorativo qualquer, como uma paisagem ou um pássaro, encontram-se números. Na reserva da chávena está pintado o nº 20 e na do pires o nº 35. Mais nas outras peças iguais que eu deixei na banca, casa, cada uma tinha o seu número diferente. Fiquei a matutar neste assunto. Será que em tempos o serviço foi encomendado com uma numeração sequencial por algum burguês rico ou por um aristocrata, com o objectivo de controlar eventuais roubos por parte da criadagem?

Pedi ajuda a um amigo, conservador de cerâmica, o Rui Trindade, que através das fotografias foi de opinião, que esta chávena e pires são porcelana europeia, provavelmente francesa, dos últimos anos do século XVIII ou dos primeiros anos do XIX. Chamou-me até a atenção para o formato da asa, com uma ligeira saliência interior para melhor aderência do dedo, igual a uma chávena da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Conjunto do Museu Nacional de Arte Antiga, inv.4699 e 467o. Foto Matriznet
Depois destas explicações pesquisei na net pela expressão tasse litron et soucoupe porcelaine française e encontrei muitas chávenas de porcelana francesa com o mesmo formato e com uma decoração, que não anda muito longe desta, com as grinaldas e outros elementos emprestados dos têxteis, muito típicos da produção francesa da época. Relativamente aos números, o Rui Trindade crê que se trate de peças de mostruário, em que há uma pequena variante para cada uma delas. Fiquei com pena de não ter comprado as restantes peças do serviço para poder comprovar melhor esta teoria.


Claro não há certezas, até porque nem o pires nem a chávena estão marcados, mas cinco euros por uma peça que poderá bem ser um conjunto dos finais do XVIII, ou inícios do XIX, vale bem a toda a incerteza.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Uma família em trajes de corte: Nossa Senhora da Madre de Deus de Guimarães


Mesmo sem saber como encaixa-lo na minha casa, comprei mais um registo para a minha colecção de santos, pois encantei-me completamente com esta representação da Nossa Senhora, São José e do Menino Jesus, sumptuosamente vestidos em trajes de corte. É curioso, que eu até já tenho uma estampa com esta representação da Sagrada Família,  mostrada aqui no blog, em 2012, para desejar as boas festas aos meus seguidores, só que, como é uma coisa com menos de meia dúzia de centímetros, não lhe liguei muito. Achei que era uma mera gravurazinha destinada a um escapulário, enfeitado com continhas.



Mas, esta gravura de maiores dimensões, em que os personagens da Sagrada Família envergam uma indumentária tão rica, cheia de pormenores, fez-me suspeitar de imediato que reproduzisse um conjunto de esculturas, que existiu em tempos nalguma igreja, objecto de intensa devoção. No site da Sociedade Martins Sarmento, que tem uma belíssima colecção de registos de santos, encontrei uma gravura muito semelhante a esta, apenas o desenho da moldura difere, mas identifica inequivocamente a devoção, Nossa Senhora da Madre de Deus. A minha estampa tem apenas uma legenda em latim Virgo Maria Mater Dei.

Estampa da colecção da Sociedade Martins Sarmento

De seguida fiz meia dúzia de pesquisas no Google e descobri que esta estampa representa de facto imagens, que ainda hoje existem e são muito veneradas na igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, na cidade de Guimarães. Encontrei também referência a um catálogo de uma exposição, onde estas imagens figuram, Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias / coord. Isabel Maria Fernandes e José Cardoso de Menezes Couceiro da Costa. - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004, que me apressei a consultar e cujo conteúdo aqui reproduzo de forma muito sumária.
Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

Segundo essa obra, a Sagrada Família, representada nesta gravura, foi encomendada em Lisboa por Luís António da Costa Pego, capelão de D. João V, em cumprimento de um voto e destinava-se ao Convento das Capuchinhas, da cidade de Guimarães. O conjunto escultórico vinha acompanhado de uma coroa em prata para a Nossa Senhora, oferecido por D. João V, um resplendor em prata para S. José, dado pelo príncipe herdeiro, o futuro de rei D. José e um enxoval esplendoroso, bordado e executado pelas reais infantas. Quando o magnífico conjunto chegou a Guimarães em 1748, houve uma grande procissão, em que as imagens foram mostradas pela cidade e houve festejos grandiosos. A sagrada família permaneceu no Convento das Capuchinhas até 1910 e o seu enxoval não deixou de ser acrescentado, com uma coroa para o Menino Jesus, um cajado de açucenas para o S. José,  também em prata, ambos já do início do século XIX e ainda muitos trajes, vestidos, capas, camisas, laços para a Virgem, gravatas para o S. José e colchinhas para o Menino Jesus, confeccionados e bordados pelas senhoras da melhor sociedade vimaranense, que com algumas adaptações, foram sempre seguindo o estilo da indumentária da segunda metade do século XVIII.
Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

As imagens de roca que estão por debaixo deste guarda-roupa luxuoso, eram vestidas pelas Senhoras de Guimarães e as cores variavam consoante o calendário litúrgico.


Em 1910, após a Republica, com a Lei da Separação, os bens do Convento das Capuchinhas foram vendidos em hasta pública e as imagens e o enxoval foram comprados por Henrique Cardoso de Martins Menezes, conde de Margaride. As esculturas deixaram o convento das Capuchinhas e foram depositadas na Igreja da Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, mas as jóias e o guarda-roupa ficaram na casa do referido Conde. No entanto, todos os anos, por alturas da Páscoa essas preciosidades vinham para a referida igreja vestir e adornar as imagens, que saiam em procissão. Em 1956, os descendentes do Conde de Margaride entregaram o enxoval em título de depósito definitivo à Irmandade acima referida e as imagens continuam a sair em procissão pelas ruas de Guimarães ainda nos dias de hoje.


Foto retirada de Nossa Senhora Madre de Deus de Guimarães : alfaias . - Porto : Livraria Civilização Editora, 2004

Para os nossos olhos contemporâneos, os trajes de corte que a Sagrada Família enverga, parecem-nos uma contradição, já que o Menino Jesus nasceu numa humilde manjedoura como toda a gente sabe. Mas no passado, as imagens ricamente vestidas significavam para os crentes que eram poderosas, capazes de propiciarem curas miraculosas, numa época, em que a medicina era incipiente, a mortalidade elevada e a esperança de vida curta. Por essa mesma razão as mulheres devotas ofereciam a essas representações do divino os seus colares e brincos mais valiosos e os homens encomendavam-lhes capas de seda bordadas a ouro, para pagar à Virgem ou ao Menino Jesus, aquilo que em todos os tempos nunca tem preço, a sua vida ou a dos entes queridos.
O verso do registo está revestido com um bonito papel de lustro.