domingo, 30 de maio de 2021

Bernadette Soubirous


Continuo com esta estranha atracção pelos objectos piedosos, por santinhos e toda espécie de beatices. Este gosto já vem desde há muitos anos e recordo-me de quando era casado e vivia na Avenida do Uruguai, em Benfica, uma vizinha nossa veio nos bater à porta, para nos avisar que ia haver uma procissão na rua. Achava que era esse o seu dever, pois tinha ouvido dizer que éramos pessoas muito religiosas. Provavelmente, a porteira, que era uma coscuvilheira deve ter espalhado pelo prédio que tínhamos a casa cheia de santos e cristos e que passávamos a vida com o Credo na boca.

Ainda que seja um homem sem crença, gosto da estética católica, mesmo de algumas peças do século XIX ou inícios do XX, quando a arte cristã começa a perder a sua graça, com os sagrados corações, representando um Jesus delicodoce, loiro e de olhos azuis. Deste período, gosto muitos dos medalhões franceses, com uma esculturazinha muito bem executada, representado, o Cristo, a Virgem ou uma qualquer aparição mariana, encaixilhados em molduras ovais e com vidro abaulado. Uns são executados em espuma de mar, outros numa espécie de caulino e outros ainda em gesso. Normalmente eram objectos de culto, que as pessoas devotas traziam dos centros de peregrinação de França nos finais do século XIX ou inícios do século XX.

O medalhão sem o vidro, retirado pelo meu amigo Manel, para limpeza. A inscrição é ilegível

É o caso desta medalhão, que comprei na feira de Estremoz por um preço irresistível, de pequenas dimensões, com um comprimento de cerca de três dedos. Representa uma aparição mariana a uma menina ou jovem e tem uma legenda, que apesar de avivada com tinta, está muito desvanecida e percebe-se mal. Como estas peças eram feitas em série, resolvi procurar na internet outra igual, com a inscrição legível, pesquisando pelo termos medaillon reliquaire ancien, acrescentando o nome das várias aparições marianas, que houve França ao longo do século XIX e rapidamente encontrei uma igual, num site vendas on-line. Este pequeno medalhão representa a aparição de Nossa Senhora da Conceição à pequena Bernadette Soubirous na gruta de Lourdes, no ano de 1858. Neste peça consegue-se ler a legenda perfeitamente, que é seguinte N. D. de Lourdes priez pour nous, ou em português, Nossa Senhora de Lourdes rogai por nós.

Peça à venda no e-bay onde se consegue ler perfeitamente a inscrição N. D. de Lourdes priez pour nous

Consegui confirmar assim a origem francesa desta peça e identifica-la como sendo a aparição mariana de Lourdes. Quanto à data é mais complicado, mas por intuição, creio que talvez seja dos finais do século XIX ou inícios do século XX.

O culto a Nossa Senhora de Lourdes espalhou-se por todo o mundo católico e por exemplo, em Portugal, Maria de Lourdes ou Lurdes era até há pouco tempo um nome comum e recordo-me de ainda ouvir falar de uma ou outra Bernardette...que não era a Soubirous, bem entendido.

O medalhão encontrou o seu lugar na minha casa e no lado esquerdo há lugar vago para mais um

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Uma galheta de altar francesa da segunda metade do século XIX


Comprar velharias é um vício e por mais que prometa a mim próprio parar, acabo sempre por trazer para casa mais um traste cada vez que vou a uma feira. Foi o que aconteceu com esta encantadora jarrinha, que um vendedor na Feira de Estremoz me colocou na mão por um preço absolutamente irrecusável. É uma pequena jarra com um vidro de muito boa qualidade montada num latão dourado e que me pareceu de imediato um trabalho francês dos inícios do século XX. Nessa época os franceses produziam muitas destas peças em vidro, com as montures em latão dourado, tais como caixinhas para guardar relógios ou jóias ou ainda os globes à mariée.

O vidro está decorado com parras e uvas

Em todo o caso, achei desde logo que esta peça era mais que um bibelot para ornamentar uma casa burguesa do início do século XX e olhando bem para a decoração do vidro feita com parras e uvas, suspeitei que fosse uma galheta de altar destinada a conter o vinho, durante a celebração da eucaristia. 

Para confirmar esta minha intuição, lancei-me então nas minhas buscas no Google. Comecei por abrir na Wikipédia portuguesa o artigo sobre liturgia católica e quando encontrei referência às galhetas de altar, mudei para a Wikipédia francesa para perceber qual era o termo francês usado para designar aqueles objectos litúrgicos. Em França as galhetas de altar são as Burettes e no motor de busca do Google coloquei então a expressão Burettes Eglise Laiton dore antiquites e imediatamente encontrei umas quantas dessas galhetas à venda no e-bay, quase idênticas à minha e datadas da segunda metade do século XIX. 


Conjunto de galhetas de altar e tabuleiro à venda no e-bay

Desta maneira, confirmei que a minha jarra foi fabricada em França, era originalmente uma galheta de altar e fazia par com outra destinada à água. Do conjunto original constava também uma pequena bandeja em metal dourado, com dois espigões onde as galhetas eram colocadas, impedindo que durante a missa, tombassem. E com efeito, a base da minha galheta apresenta um orifício para ser encaixada no espigão da bandeja.



Mas, nem sempre as informações dos sites de venda on-line são fiáveis, pois os vendedores tentam sempre convencer-nos que as suas peças são mais antigas e de melhor qualidade do que na realidade são e continuei à procura pelo Google até encontrar um sítio com informações mais credíveis. Localizei num inventário do Património da Ile-de-France, https://inventaire.iledefrance.fr um par de galhetas, muitíssimo semelhante à minha, também com a bandeja e ainda com estojo original onde estavam guardadas, apresentando este último a marca do fabricante Fabrique d'ornement d'église / Chasublerie - bronzes - orfèvrerie / Maison Dupuis. 5 rue du Vieux Colombier / Paris. Na ficha desta peça, confirmava-se a datação atribuída nas páginas de vendas on-line, segunda metade do século XIX. 


Galhetas com bandeja e estojo. Foto de  https://inventaire.iledefrance.fr

Fiquei a matutar se eventualmente a minha galheta poderia ter saído da Maison Dupuis, na rue du Vieux Colombier, em Paris, mas continuando as minhas pesquisas descobri um catálogo de 1893, da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie, na rua do Pape Carpantier, em Paris, que entre muitas coisas também fabricava galhetas semelhante à minha. 

Catálogo da Manufacture d'orfèvrerie, de bronzes et de chasublerie

Enfim, é um bocadinho difícil atribuir esta galheta a este ou aquele fabricante francês. Embora todos nós associemos sempre Paris a revoluções, movimentos jacobinos, pintores arrojados, actrizes de teatro excêntricas e de uma forma geral à boémia, a capital francesa era também um centro importantíssimo de produção de artigos religiosos, onde proliferavam casas que exportavam estampas piedosas, imagens de Nossa Senhora de Lourdes, do Sagrado Coração de Jesus e outras beatices para todo o mundo católico, apostólico e romano.

Fabricada em França, na segunda metade do século XIX, a minha galheta para o vinho é apenas uma peça desirmanada de um conjunto, sem grande valor comercial, mas fica muito bem em cima de um armário onde exponho todas as minhas beatices, muitos meninos Jesus, relicários, imagens de vestir, santos de barro que o tempo quebrou e outros objectos de devoção católica, hoje reformados das suas funções originais na casa de um homem sem crença, mas com um gosto por recriar estes ambiente devotos do passado.



sábado, 10 de abril de 2021

Terrina de faiança de Alcobaça ou Coimbra


Já há muito tempo que ando para escrever um post sobre esta terrina ou melhor sopeira, que o meu amigo Manel comprou já há alguns anos, pois nunca consegui descobrir nada de muito definitivo acerca dela. Mas é tão encantadora, que ainda assim resolvi apresenta-la na mesma e passar a escrito aqui no blog umas quantas impressões pessoais.


É uma faiança algo rude, com um certo ar ingénuo e as peças com essas características parecem-nos sempre mais antigas do que aquilo que realmente são. O Manel e eu chegámos a pensar, que fosse até do século XVIII mas na verdade esta terrina aproximar-se das faianças produzidas em Alcobaça por José dos Reis (1875-1900) e Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ). O esponjado usado para definir o chão, o casario e a forma de tratar as árvores é muito semelhante aos desta fábricas.

Peças de José dos Reis e Manuel Ferreira da Bernarda: a continuidade. Foto retirada de Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008

Com efeito, a 10 de Julho de 2014 apresentei aqui no blog uma bacia, que atribuí a Alcobaça, que não anda muito longe desta sopeira.



Mas há também que considerar a hipótese que esta terrina possa ser um fabrico coimbrão. António Pacheco reproduziu na sua obra Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. Coimbra: DGPC, 2015 uma terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho, firma activa em Coimbra entre entre os últimos anos 15 anos do séc. XIX e a  primeira década do século XX, com o mesmo ar de família da peça do meu amigo Manel.

Terrina da Fábrica Alfredo Pessoa e Filho. foto retirada de Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015


Contudo, ao contrario das peças que vi atribuídas a José dos Reis (1875-1900) a Manuel Ferreira da Bernarda Júnior (1900 e 1930 ) ou o que conheço de Coimbra, em que o casario é representado como se fossem aqueles desenhos, que qualquer criança faz na escola, na terrina do Manel, o artista que a pintou conseguiu dar uma certa ideia de perspetiva. É como se fossemos caminhando por uma floresta e no meio do arvoredo, adivinhássemos um casario lá ao fundo. Talvez seja esta qualidade que diferencia um pouco esta sopeira de outras peças de Alcobaça e Coimbra, em que o casario é sempre representado de forma quase infantil.

Em suma, esta sopeira será uma produção de Coimbra ou Alcobaça, talvez do final do século XIX, mas não estou seguro. Posso apenas afirmar, que quem a pintou tinha sem dúvida talento e com uma grande economia de meios, conseguiu dar a ideia de perspetiva.



Alguma bibliografia:

Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965 / António Pacheco. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015

Cem anos de louça Alcobaça / Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira. [S. l.]: J.P.S. Sampaio, 2008.

terça-feira, 30 de março de 2021

As quatro estações: porcelana de Capodimonte

As quatro estações: porcelana de Capodimonte
As quatro estações

Estas encantadoras figurinhas em porcelana de Capodimonte, representando as quatro estações do ano foram compradas pelo meu amigo Manel na Feira de Estremoz há uns meses.

Tal como Sèvres ou Meissen, Capodimonte é daqueles nomes míticos da porcelana europeia, que associamos sempre a luxuosas baixelas que iam à mesa de reis, príncipes e duques ou a figurinhas de porcelana barrocas, e que hoje só existem nas colecções dos museus ou aparecem à venda nas grande leiloeiras.
Marca de Capodimonte
O N coroado de Capodimonte. A coroa de 5 hastes foi registada em 1962. 

Estes putti de porcelana, que o meu amigo Manel comprou estão marcados com típico N coroado de Capodimonte, mas não são do período de ouro da fábrica napolitana, o século XVIII. São produções contemporâneas da fábrica de Capodimonte, assinadas pelo artista Giuseppe Cappé (1921-2008), um homem extremamente talentoso que se inspirou no barroco italiano e cujas criações são ainda muitíssimo apreciadas, sobretudo no mercado americano. A marca com a coroa de 5 hastes foi registada em 1962 e Giuseppe Cappé esteve ainda muito activo nos anos 80. Portanto estes meninos em porcelana terão sido produzidos entre estes anos.

Gcappè é assinatura de Giuseppe Cappé
Gcappè é assinatura de Giuseppe Cappé 

Esta alegoria às quatro estações representas por estes meninos, os putti, é um tema recorrente na arte europeia, que começou no Renascimento, atingindo o seu ponto alto no período barroco e que com os movimentos revivalistas se prolongou pelo século XIX fora e chegou até aos nossos dias, como o provam estas figurinhas de Capodimente. É uma alegoria que se inspira na mitologia clássica, em que cada um dos meninos apresenta consigo os atributos de uma divindade greco-romana, a Primavera, com as suas flores é Flora, o Verão, com as espigas de cereal é Ceres, o Outono, é Baco, o deus do Vinho com as uvas e finalmente, o Inverno é Saturno com o ramo sem folhas na mão, cuja festa na antiga Roma, se celebrava por ocasião do solstício de inverno. 

A Primavera, o Verão e o Outono
A Primavera, o Verão e o Outono

Estas figurinhas que o Manel comprou são coisas ainda contemporâneas, mas foram concebidas e executadas na melhor tradição desta fábrica napolitana, que deste o início do século XIX se especializou no supérfluo, nos espelhos, caixas de joias e candeeiros decorados com flores ou ainda figuras como estes meninos, de tal forma que Capodimonte se tornou praticamente um adjectivo em decoração, para qualificar bibelots em cerâmica inúteis e ornamentados com muitas florinhas. Mas, estes putti são feitos com a uma mestria tal, que os torna inutilidades irresistíveis.

As quatro estações: porcelana de Capodimonte
As quatro estações: porcelana de Capodimonte


Ligações consultadas:

quarta-feira, 24 de março de 2021

Menino Jesus, Salvador do Mundo


O meu amigo Manel foi contagiado já há uns anos pelo meu gosto por santinhos e hoje tem a sua casa do Alentejo cheia destas imagens devotas, emolduradas preciosamente em seda, enfeitadas com passamanaria e bordadas com lantejoulas, contas e a fio de prata. Este menino Jesus Salvador do Mundo é umas das peças da sua colecção e que hoje serve de pretexto a algumas considerações sobre estes trabalhos femininos, inspiradas pela leitura da obra Le monde merveilleux des images pieuses de Alain Vircondelet.

Normalmente são trabalhos conventuais, de freiras, meninas educadas em casas religiosas ou de senhoras devotas, mas nunca conseguimos data-los exactamente. Poderão ser do século XVIII, XIX ou até mesmo mesmo do início do XX.

Se a estampa é facilmente datável, porque é assinada por um gravador ou impressor, de que se conhece o período em que esteve activo, o trabalho de emoldurar nunca está assinado ou datado. Sabemos apenas que é antigo, pois apresenta as marcas do tempo, como as sedas sujas pelo pó dos séculos, o fio de prata oxidado ou os vidros com bolhinhas, sinal de que foram ainda feitos artesanalmente.


Estes registos antigos distinguem-se também dos modernos pela habilidade e técnica muito elaboradas, levadas ao virtuosismo pelas mãos destas senhoras do passado. Porque de facto, ao contrário dos registos que se produzem hoje em dia, quem fazia estes trabalhos há 100 ou 200 anos fazia-os com uma devoção intensa, quase que como uma oração intima e pessoal, para tornar ainda mais preciosa uma imagem da Virgem ou do Menino Jesus, que depois de terminada, se tornava quase uma relíquia na cela, no quarto ou no oratório, à qual se recorria em momentos de aflição. Estes registos do passado eram muito mais do que peças bonitas, eram objectos de piedade, carregados de virtudes contra a doença e o mau olhado e diante dos quais se rezava e se procurava acesso a um plano divino.



Apesar de hoje muitos de nós termos perdido a crença, ou se mantemos a fé, esta tornou-se uma prática mais serena, mais filosófica, não conseguimos deixar de ficar impressionados com o virtuosismo destes registos, que teatralizam simples estampas e transformam-nas em objectos mágicos.


Bibliografia consultada:

Le monde merveilleux des images pieuses / Alain Vircondelet. - Paris: Hermé, 1988

sexta-feira, 12 de março de 2021

Um bule de faiança portuguesa


Ultimamente tenho escrito pouco aqui sobre faiança portuguesa, que começou por ser um tema muito forte nos primeiros anos deste blog. Contudo, além de comprar menos peças de faiança, pois a minha casa de uma assoalhada e meia está cheia que nem um ovo, também sinto que tenho pouco a acrescentar ao assunto. A maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX não se encontram marcadas e parece-me que ando sempre aqui a especular, afirmando se a pasta é amarelada é porque são peças fabricadas na região centro, se pelo contrário, a pasta é branquinha, serão produções do Porto ou de Gaia. Claro, por vezes sai uma nova publicação de faiança e nessa altura, consigo escrever sobre uma terrina ou um prato e atribui-la com alguma segurança a um centro de fabrico.

Mas a faiança portuguesa do século XIX é sempre tão bonita, que por vezes não resisto a apresentar aqui uma peça, com este pequeno bule, comprado há cerca mais de dois anos e depois a faiança desta época é tão fotogénica à luz do dia, que apetece partilhar aqui as fotografias que delas vou fazendo.

Uma inspiração num emaranhado de ramos

A decoração é qualquer coisa que hesito em escrever se tenta reproduzir o efeito de um marmoreado se o efeito de um emaranhado de ramos. Inclino-me mais para que seja um motivo vegetal, até por comparação com uma grande travessa que o meu amigo Manel tem em casa, onde é mais nítida essa inspiração num emaranhado de ramos. Olhando para a travessa e este bule, poder-se ia dizer que saíram da mesma oficina, mas a primeira apresenta uma pasta muito branquinha, mais característica das produções do Norte e este bule é um pouco mais grosseirão. Mas também a graça destas faiança portuguesa é este ar ingénuo, em que cada peça é única, pois o pintor nunca faz exactamente os mesmo traços, de bule para bule ou de terrina para terrina. Por esta razão as faianças portuguesa do século XIX ficam muito bem fotografadas tendo azulejos portugueses antigos como pano de fundo, pois estes também nunca são bem iguais.


Em suma, não sei muito acerca deste bule, talvez por uma mera intuição me pareça da região centro. A decoração parece-me inspirada num emaranhado de ramos, mas já é uma coisa tão abstracta, que também é difícil concluir qualquer coisa. Creio que os pintores destas peças eram tão criativos, que esqueciam-se do motivo original de inspiração e pintavam qualquer coisa que saia da cabeça deles, quase como o processo de escrita automática, que mais tarde os surrealistas procuram desesperadamente alcançar, mas que vítimas da sua cultura sofisticada, tinham mais dificuldade em concretizar que estes humildes ceramistas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Nos arquivos das terras frias de Vinhais: à procura das origens

O registo de baptismo de Zeferino Urbano de Morais

Toda a gente tem mais ou menos a ideia que os estudos genealógicos são para os indivíduos descendentes de famílias muito ricas, fidalgas ou aristocratas. Na verdade, traçar a sua genealogia, isto é conhecer os seus antepassados é um estudo possível a qualquer um, por muito humildes que sejam as suas origens. Se tiver paciência e tenacidade, através da consulta dos registos paroquiais de baptismo, casamento e óbitos poderá reconstituir a história da sua família pelo menos até aos finais do século XVI, período em que pratica destes assentos pela Igreja Católica se tornou sistemática.

Há uns bons vinte e cinco anos, o meu pai decidiu estudar as origens da família da sua mulher, lavradores abastados, oriundos da Quadra, uma aldeia perdida no encosta da Serra da Coroa, do concelho de Vinhais, no extremo Norte de Portugal. Creio que tinha alguma esperança de encontrar os antepassados judeus da sua mulher, que uma tradição familiar formada sabe deus quando, diz terem existido.

Através da consulta dos registos paroquiais e seguindo a linha masculina ,o meu pai consegui remontar até ao século XVII, mas claro não encontrou antepassados judeus, pois mesmo que os houvesse, nenhum deles no seu perfeito juízo declararia na Igreja, num assento feito por escrito, que judaíza em segredo pois poderia ser preso, julgado e condenado a arder numa fogueira.

As terras frias de Vinhais

Neste trabalho o meu pai encontrou alguns problemas. Estes meus antepassados usaram o desde o século XVII o apelido Gonçalves, e no início do século XIX, passam a usar Morais, por uma razão inexplicável. Como estou fechado em casa e tenho muito tempo, resolvi tirar esta história a limpo e estudar todos os registos dos filhos de Francisco Gonçalves, que passaram a usar o nome Morais, cruzando para tal os dados levantados pelo meu pai no Arquivo Distrital de Bragança, com alguma documentação que encontrei digitalizada e ainda com o caderninho feito pelo meu bisavô, Clemente da Ressurreição, onde narra de forma sintética a sua biografia e a dos seus antepassados.

No arquivo Distrital de Bragança, consegui encontrar uma cópia digital do assento de nascimento do primeiro filho do meu quarto avô Francisco Gonçalves.

Esse filho, o Zeferino Urbano, nasceu na Quadra no dia 11 de Maio de 1810, e foi baptizado no dia 17 do mesmo mês. A sua mãe era uma tal Maria dos Santos, filha de Manuel dos Santos, natural dos Casares e de Filipa do Rio, natural do Pinheiro Velho e na altura moradores na Quadra. No seu assento de baptismo está dado como filho natural, de pai incógnito. Porém e não sei quanto tempo depois, o pároco que lavrou o assento, Francisco José Domingues, riscou incógnito e fez o seguinte averbamento ao lado, filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar.

Zeferino Urbano era filho natural, mas mais tarde, o pároco rasurou incógnito e acrescentou ao lado  Filho de Francisco Gonçalves, solteiro, deste lugar

Em suma, o Francisco Gonçalves teve um filho com a Maria Santos, sem estar casado, mas num momento qualquer, decidiu ir à Igreja assumir a paternidade do bebé Zeferino Urbano e apenas podemos especular sobre razões deste acto. Poderá ter descoberto que a criança era parecida com ele ou foi pressionado pelos pais da rapariga ou então amava-a genuinamente.

Sendo o Zeferino Urbano filho natural ou bastardo, havia aqui uma forte razão para não usar o apelido Gonçalves, mas o sobrenome da sua mãe era Santos e também não foi buscar o apelido Morais aos padrinhos, que foram o Matias Rodrigues Domingos e sua mulher Maria Ferreira.

A 1 de Janeiro de 1821 o Francisco Gonçalves e a Maria Santos voltaram a ter um criança, mas a julgar pelo assento de baptismo da menina de 27 de Janeiro desse ano, teriam casado entretanto, pois a pequena Maria José de Jesus, é baptizada como filha legítima dos dois.

Como a criança é legitima, o padre José Caetano Diegues da Silva adianta o nomes dos avôs paternos, o António Gonçalves, natural da Quadra e de sua mulher Luzia Alves, natural de Cabeça da Igreja, freguesia de São Bartolomeu fornece mais alguns dados sobre a naturalidade dos pais da Maria Santos. O Manuel dos Santos era natural, de Casares, freguesia de Santa Cecília e a Filipa do Rio, nascida no Pinheiro Velho, freguesia de São Sebastião.

Foram padrinhos da pequena Maria José o Reverendo Padre Clemente dos Santos e sua imã, Maria Antónia.

O assento de Nascimento de Manuel Dinis, cujo padrinho foi o Reverendo Clemente de Morais
 
A 9 de Outubro de 1823 os meus quartos avós, voltam a ter mais uma criança, o Manuel Dionísio e no assento de baptismo dia 19 do mesmo mês, o padre Pedro Inácio, Abade de Montouto regista como era obrigatório nestes documentos o nome dos quatro avôs, mas com uma pequenas diferenças. O avô materno António Gonçalves, é identificado como António Dionísio, mas trata-se da mesma pessoa, pois o nome da mulher é o mesmo, Luzia Alves. Provavelmente, Dionísio, forma latina de Dinis, era o segundo nome próprio do senhor. Os padrinhos foram o Reverendo Clemente de Morais e a sua imã Maria Antónia, tios da dita criança. Este padre Clemente é certamente o mesmo homem, que foi padrinho da Maria José, apesar de nesse assento ter sido identificado com o o apelido Santos, mas o nome da sua irmã é o mesmo, Maria Antónia

Houve uma quarta filha, uma Filipa, de que o meu pai não encontrou registo de nascimento, mas de que sabe a sua existência através de um caderninho de memórias do meu bisavó, Clemente da Ressurreição. Segundo este documento a Filipa casou, mas não teve filhos.

Nesta altura das minhas pesquisas comecei a a achar que a origem do nome Morais estava no Padre Clemente de Morais, padrinho de duas crianças do casal Francisco Gonçalves e Maria Santos e tio destas. Seria talvez um homem abastado, como muitos padres o eram e que teria decidido deixar os seus bens à prole do Francisco Gonçalves com a condição de usarem o seu apelido. Mas mesmo assim, os dados não batiam certo. Dos filhos varões do Francisco Gonçalves só o Zeferino Urbano usou o apelido Morais, o Manuel Dinis, afilhado do padre Clemente Morais usou sempre o apelido Santos.

Resolvi investigar um pouco mais este padre Clemente, pensando que os homens da Igreja deixam ser mais registos oficiais, que uns simples jornaleiros ou lavradores e coloquei o nome Clemente de Morais no motor de busca do Arquivo Distrital de Bragança, e encontrei o registo de Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos, isto é os documentos necessários para um homem ser padre, em que tinha que provar, que era bom cristão e sobretudo que não tinha sangue judeu ou mouro. O processo está datado entre 1802 e 1803 e no registo indica que era natural da Quadra e filho de Manuel de Morais Santos e de Filipa do Rio, já nossos conhecidos. Portanto o nosso Padre Clemente era irmão não só da Maria Antónia como da Maria dos Santos e o pai desta irmandade era o Manuel de Morais Santos. Portanto, Morais era o apelido da família materna do Zeferino e teve origem na aldeia dos Casares, em vez ser na da Quadra como todos pensávamos na família. 

Esquema  para demonstrar como o nome Morais se transmitiu


O facto de que os dois filhos varões do Francisco Gonçalves, quer o bastardo, Zeferino Urbano, quer o legítimo, Manuel Dinis, usarem o os apelidos maternos, respectivamente Morais e Santos, faz-me pensar que os Morais seria gente mais abastada, de condição social superior aos Gonçalves ou talvez apenas estes sentissem mais empatia com o lado materno. O Padre Clemente dos Santos Morais terá sido um homem importante na vidas destes antepassados, nascidos no primeiro quartel do século XIX, pois o Zeferino baptizou dois dos seus filhos com o nome Clemente e este nome foi sendo usado ao longo de quatro gerações dos descendentes do Zeferino Urbano.

Mapa do concelho de Vinhais,  onde as aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra estão assinaladas com uma seta. Carta retirada de https://www.dgterritorio.gov.pt/ordenamento/sgt/igt-vigor

Além de resolver este enigma da mudança de nomes, achei interessante verificar estes meus antepassados escolhiam os seus conjugues sempre nas aldeias vizinha, de forma a evitar a consanguinidade. Provavelmente conhecer-se-iam nos bailes das festas dos santos padroeiros das aldeias de Casares, Pinheiro Velho, Cabeça de Igreja e Quadra onde esta gente viveu ou nas feiras da sede de concelho. 

Senti também desejo conhecer a aldeia de Casares, encostada à fronteira com Espanha, muito perto da célebre fraga dos três reinos, que assinalava em tempos as fronteiras dos reinos de Portugal, Galiza e Leão e onde parte do meu meu ser se formou, bem como dos cerca de 300 descendentes de Zeferino Urbano de Morais.

A  fraga dos três reinos


Fontes consultadas:

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos 1756/1816 PT/ADBM/PRQ/VNH49/001/00001 

Arquivo Distrital de Bragança, Paróquia da Quadra, Registo de Batismos , mc 1, lv 6

Arquivo Distrital de Bragança, Habilitação de genere de Clemente de Morais Santos,PT/ADBGC/DIO/CDMDRBGC/CE/1/271-2495